Complexo do Alemão - Rio de Janeiro
- Você deveria ter ido pro asfalto, Isadora, assim que acordou!
- Mamãe, você parece muito calma!
- Nós duas sabemos que ele não volta, você viu. Não há o que se fazer!
- Eu consegui avisar em outras situações, poderia evitar.
- É o que ele está tentando fazer.
- Mamãe, ele sempre foi muito correto com as coisas dele, como pode ser considerado traidor agora?
- Eu não sei, Iza...
As duas não puderam mais continuar a conversa. O carro de Urubu parou em frente a casa. O dono do morro desceu e Gonçalo, o pai de Isadora, estava ao seu lado. Homens de fuzil mal encarados desceram junto e foram se posicionando na entrada da casa, na contenção.
Izadora achava todos eles patéticos, sempre detestou tudo neles! Em 5 anos que morava na comunidade, odiava aquela prepotência daqueles homens que eram todos chamados por siglas ou apelidos ridículos. Sem contar que tudo que eles conseguiam era através do medo!
Urubu era o pior deles. O dono do morro gostava muito de Gonçalo, rapidamente o colocou como seu homem de confiança na contabilidade. Iza não sabia como o pai se sujeitou a esse emprego, pois sua religião não permitia se envolver com coisas erradas, mas foi a única forma que encontraram de sobreviver depois do caos que virou a vida deles e os expulsou do interior. O que o pai ganhava envolvido com a contabilidade do crime na comunidade, permitia que a mãe não precisasse trabalhar fora e pudesse cuidar das crianças. Izadora tinha acabado de completar 18 anos e a ajudava a cuidar dos irmãos: Patrícia de 14, Pedro e Miguel de 10 e Sarah de 6. E naquele momento, Iza agradecia a Deus por seus irmãos estarem todos no asfalto, estudando!
Urubu mandou ela ir pro quarto e ficar quietinha, e Iza foi sem nenhuma emoção. Já sabia que seu pai seria executado na frente de sua mãe, o Senhor lhe revelou! Entrou no quarto que dividia com as irmãs, pegou sua Bíblia, se ajoelhou e começou a orar. Deve ter passado cerca de uns 15 minutos, até que os gritos de sua mãe e o lamento de seu pai começaram. Iza tentou não perder a comunhão, mas sabia que nem Jó conseguiria essa paciência! Se levantou e abriu a porta do seu quarto, espiando pela fresta, a tempo de ver o pai ajoelhado e Urubu cravando uma adaga em seu peito, exatamente como ela tinha visto...
REVELAÇÃO
Resende - Rio de Janeiro
Isadora acordou apavorada e suada. Teve um sonho muito sangrento com a tia Melissa! Se levantou, fez o que tinha pra fazer e desceu. Estava com 8 anos. Seus irmãos Pedro e Miguel tinham acabado de nascer e ela os adorava! Queria sempre ajudar a mãe em tudo com eles, e na maioria das vezes a mãe pedia pra cuidar de Patrícia para não os apertar demais. Isadora fazia isso, protegia os bebês de sua irmãzinha de 4 anos, embora sua vontade era de também os apertar de tão fofinhos que eram!
Era um domingo e ela tinha se arrumado com seu vestidinho rosa e seu sapatinho preto, e iria andando para a EBD. No caminho se encontrou com Antone, seu melhor amigo. Ele tinha 9 anos e os pais dele eram pastores da igreja. Os dois estudavam juntos desde o maternal e faziam tudo juntos. Mas convencer a conhecer a igreja que os pais pastoreavam, só Isadora. Ela se sentia bem na igreja, sabia ser grata! E tinha muito pelo que ser grata mesmo!
A casa de seis quartos que tinham no interior era linda e totalmente funcional. Eram quatro irmãos e viviam muito bem, o pai era muito bem empregado fazendo a contabilidade do dono da metade da cidade, e tinha muito amor em sua casa! Tanto que a mãe já tinha quatro filhos!
Tinha ouvido os pais brincando sorridentes, falando no assunto outro dia, que poderiam providenciar mais um e fechariam a fábrica. A mãe disse que já estava bom e o pai disse que o combinado eram 4 gravidez, não tinha culpa se tinham tido figurinha repetida!
Os gêmeos nem tinham nascido quando a mãe falou que a tia Melissa estava grávida. Isadora ficou feliz, eram só a mãe e a tia e ela já tinha três irmãos, achava que a tia recém casada deveria começar logo sua grande família, mas Patrícia ficou furiosa! No auge dos seus quatro anos, disse que a tia Melissa era invejosa e queria apagar o brilho dos gêmeos quando o bebê dela chegasse!
Iza achava que Paty estava com medo de perder a preferência da avó, isso sim! Eles eram rodeados pela família materna e eram as únicas crianças. O pai era filho único e a mãe dele vivia em São Paulo. A mãe sempre dizia que a avó paterna era uma pessoa horrível, uma tremenda 171, embora as duas irmãs nem imaginassem o que isso significava!
Isa achava que sonhou com a tia, agora com quase 8 meses de gravidez porque a mãe avisou que depois da igreja iriam todos almoçar na casa dela e Patrícia fez uma cena!
Depois do culto, Antone foi com ela pra casa, encontraram a família dela e todos juntos desceram para a casa da tia na mesma rua.
Depois do almoço, sentaram nos bancos do quintal para aproveitar a tarde de folga, ver as crianças brincando, conversar. Iza chegou perto dos adultos e colocou a mão na barriga da tia.
- Sonhei com você hoje, tia Mel.
- É mesmo, bom ou ruim?
- Muito ruim!
Iza contou pra tia do sonho, que tinha muito sangue e ela estava com os olhos abertos sem a barriga na mesa de cirurgia.
Melissa a tranquilizou, disse que tudo corria bem com a gravidez e que no dia seguinte teria consulta e que iria se certificar com o médico!
No dia seguinte, comenta a preocupação da sobrinha com o sonho e o médico por desencargo de consciência pediu uns exames, onde foi constatado que Melissa tinha um distúrbio hemorrágico que impedia a coagulação. O médico informou que se não tivesse sido questionado, jamais teria como saber. Mas com posse dessa informação, fez um plano de parto mais lento e aplicou ocitocina na veia, além de monitorá-la por uma hora depois do nascimento do bebê. Na consulta do puerpério, o médico informou que se não tivesse tomado essas medidas, ela fatalmente teria uma hemorragia que não poderia ser controlada e ela viria a óbito!
Depois disso, Isa sempre contava para as pessoas sobre seus sonhos, a fim de evitar tragédias. O pai de Antone disse que isso era o dom da revelação, e Isadora ficou radiante de ser agraciada com um dom de Deus!
A partir daquela premonição que conseguiu evitar, Isadora teve muitos outros sonhos. Quando sonhou com a mãe caindo da escada grávida, não conseguiu evitar porque aconteceu na mesma hora que acordou. Depois de outros episódios, seu pastor sinalizou que quando acontecia diretamente com ela, não conseguia evitar.
Sua mãe falou que seu dom não era de Deus, pois Ele não daria um dom pela metade dessa forma e Isadora seguiu contando para todos o que sonhava e o padrão seguia: quando não influenciava a sua vida diretamente, ela conseguia evitar.
Logo a mãe ficou grávida novamente para completar a alegria. Ela estava com 12 anos quando Sarah nasceu! No dia que o pai foi buscar a mãe na maternidade, Isa sonhou com a mulher do patrão do pai afogando o bebê deles na banheira. Quando o pai chegou com a bebê, Isadora insistiu para avisar e o pai chamou o patrão. Depois que ouviu o que Isadora contou, riu e falou que não acreditava em nada daquilo. E que Gonçalo não precisava inventar artimanhas como aquela para atrair o patrão pra casa dele a fim de conhecer o novo bebê.
No dia que o pai voltou de licença paternidade, estava em reunião com o chefe quando a secretária ligou assustada, dizendo que tinha dois policiais ali. O chefe mandou entrar e foi informado de que a mulher estava detida porque afogou o bebê deles de 4 meses na banheira.
Depois desse episódio, o pai foi demitido e o chefe espalhou que Isa era uma bruxa e tinha usado magia negra para induzir sua esposa a fazer tal atrocidade. Ele tinha muitos negócios na cidade e impedia os outros de contratarem Gonçalo. A situação ficou mais complicada quando o chefe começou a incitar as pessoas a agredir Isadora na rua, por ser uma bruxa.
Muitos de seus vizinhos e amigos acreditavam no dom dela. Ela já tinha ajudado muita gente, evitado muitas tragédias. Mas a grande maioria acreditava sim que ela era uma bruxa e tal qual na época da inquisição, queriam queimá-la viva.
Sem condições financeiras de se manter na cidade desempregado com cinco filhos e ainda tendo que proteger sua primogênita da ignorância da população, Gonçalo decidiu se mudar de cidade.
E suas vidas se transformaram quando passaram de família abastada e feliz vivendo na tranquilidade do interior, para a grande família vivendo no morro do Rio de Janeiro!
Depois de um ano nesse sacrifício, Isadora percebeu como tudo ficou tão ruim! Passaram de ir para a escola andando em turma, para o transporte escolar. O pai estava usando o dinheiro da venda da casa que sobrou para custear escola particular para os 5 no asfalto, inclusive creche para Sarah. E tinha aceitado trabalhar para o Urubu, chefe do tráfico e dono da boca.
Poucas vezes os moradores apareciam em sua casa, o barraco só tinha três quartos, as meninas dividiam um e os meninos o outro, tudo muito apertado e a mãe vivia mal humorada. Não era mais a mulher calma e tranquila, dona de casa perfeita, e eles brigavam muito. Ela sempre dizia pra ele tirar ela daquele lugar, antes que perdesse um dos filhos ou algo acontecesse com o dinheiro de Urubu e o pai fosse responsabilizado, mas nada mudava, e assim seguiram suas vidas com a nova realidade...
São Paulo - Capital
Isadora com 23 anos tinha acabado de receber seu canudo. Era enfim auxiliar e técnica de enfermagem como o pai sonhou por ela. Por causa da grana curta, ia começar a faculdade só no ano seguinte, e isso se Wesley permitisse ela continuar estudando!
Sentiu o bebê mexer enquanto ela ajeitava suas coisas pra ir pra casa. Morava na zona sul de São Paulo, e enquanto dirigia pra casa, pensava no dia em que o pai morreu e como tudo se transformou mais uma vez!
Lembrou que com 17 anos, estava chegando da igreja quando o pai a esperava pra conversarem. A discussão com a mãe (de novo) naquela manhã devia ser o motivo. Estava meio que preparada para o pai a cercar, pois naquele dia, foi o mais violento possível a argumentação da mãe, e Isadora achava que ia acabar perdendo a paciência com ela!
Tereza estava diferente, não era mais a mãe bondosa e carinhosa de quando viviam no interior do Rio. Era relaxada, começou a fumar, não ligava mais para as crianças e todas as obrigações da casa ficavam com Isadora. Ela dizia que tinha a vida perfeita e toda as desgraças da vida dela se deviam a Isa, então era justo Isadora compensar ela de alguma forma. Também culpava Gonçalo por ter levado a família para o morro.
Mas a verdade que Isadora sabia e que lutava a todo custo pra evitar que os irmãos descobrissem, era que a mãe estava envolvida com drogas. Ela não sabia até que ponto a mãe estava viciada, mas que estava usando, isso era claro. Ela estava no último ano do ensino médio, e mesmo que não concordasse com o que o pai fazia pra sustentar a casa, já que ele era contador do crime organizado no morro, também não podia de todo culpa-lo.
Ele conseguiu manter todos em escola particular no asfalto, e enquanto era o homem de confiança de Urubu, ninguém mexia com ele nem com as crianças, estavam protegidos! A mãe era outra história.
Ficou mal humorada, seca, perdeu o amor pela família. Isadora preparava as crianças pra escola, lancheiras, entregava no transporte escolar e depois cuidava da casa toda. As vezes fazia almoço e a mãe ainda não tinha levantado, aí ela arrumava todo o resto e acordava a mãe para quando as crianças chegassem, todos almoçarem juntos para que eles pensassem que a mãe quem cuidou de tudo. Então ia pra escola e quando voltava ajudava as crianças com o dever, os obrigava a fazer suas orações antes de dormir.
Respeitava a decisão de cada um de não seguir nenhuma religião, mas explicava que a fé não tinha nada a ver com religião e seu momento de conversar com Deus e entregar sua vida a Ele, era diário e pra cada ser humano dessa terra, independe de religião! As crianças aprenderam a respeitá-la. Mesmo que ela os enganasse para acreditar que a mãe quem fazia as coisas, era ela que eles viam cuidando toda vez.
Patrícia era mais complicada. Desde pequena tinha um gênio forte. Os pequenos, os gêmeos Miguel e Pedro, que estavam com 9 anos e Sarah, com 5 anos, ainda acompanhavam ela na igreja muitas vezes, acatavam as ordens e a respeitavam. Patrícia, com 13, fugia pra ir aos bailes funks, usava as roupas conforme as meninas do morro, shorts muito curtos, tops que não cobriam nada, falava na gíria e não aceitava comando de ninguém. Era rebelde desde sempre! E as discussões com a mãe começaram justamente por causa dela.
Tereza jogava a responsabilidade pra cima da filha mais velha e também queria que Isa controlasse Patrícia. Mas toda vez que Isa ia falar alguma coisa, a resposta era a mesma: você não é minha mãe! Então Isa pedia pra mãe resolver e a mãe mandava ela se virar.
Nessas horas, Isa tinha vontade de mandar o primeiro mandamento com promessa a merda e dar um boxe na mãe. Sim, Isadora era humana. As pessoas tem o costume de achar que evangélica tem que ser boba e só falar de Deus, mas não entendem que a calma espiritual é buscada diariamente em oração e contato com Deus. Mas a humanidade está ali, a raiva, a fome, as frustrações, todas as emoções estão ali. A rebeldia de adolescente, graças a Deus, era controlada e Isadora não tinha o direito de ser adolescente.
Por ter estragado a vida dos pais ao revelar seu sonho, a mãe a obrigou a assumir seu papel. E ela se sentia responsável por cuidar de todos. E tentar manter a normalidade!
No dia anterior, não teve a última aula, então dispensou o transporte e pegou um Uber pra casa. Ela era sempre a última a ser entregue, então normalmente chegava em casa depois do pai. Como naquele dia chegou umas duas horas adiantada, descobriu Patrícia se pegando com um bandidinho, daqueles metidos a bandido mas que são uns idiotas. Usam réplica mal feita do jacaré, as calças lá embaixo parecendo que tem um troço de bosta nos fundos, mostrando a faixa da cueca "Kevin Clain" que são vendidas de bacião a dois reais no chão da feirinha e andam parecendo que estão espantando mosquito do traseiro.
Quando Patrícia a viu, o sangue fugiu de seu rosto e antes que ela pudesse armar o escândalo, correu pra dentro. E o bandidinho, frouxo do jeito que Isadora tinha certeza que era, correu pro outro lado, sem nem saber porque estava correndo!
Ela entrou e encontrou o cenário que nem imaginava! A mãe estava jogada no sofá, uma garrafa de vodka do lado e Isa não viu copo, então imaginou que ela tomasse direto no gargalo. Estava adormecida. Os gêmeos estavam jogando vídeo game, gritando um com o outro como sempre e ela não viu Sarah. Ela chamou os irmãos pra perguntar da caçula e eles estavam na vibe deles e não lhe davam atenção. Ela ouviu o chuveiro ligado e imaginou que a frouxa da Patrícia correu para dar banho nela!