Já pensou no que faria se alguém esbarasse em você e,
simplesmente, fosse embora como se você não existisse?
Emma sempre foi uma garota tímida, que sabe de tudo, mas
que não tem amigos. Quando se formou na faculdade, só pensava
em fazer o que amava e trabalhar tranquilamente na frente de um
computador. Mas, em um dia fatídico, ela é praticamente atropelada
por um anônimo que vai embora sem ao menos lhe pedir desculpa,
deixando para trás um único objeto: o seu celular.
Desejando se vingar dele usando o seu conhecimento, Emma
invade o telefone do desconhecido e tenta, a todo custo, descobrir
quem é o homem alto, de ombros largos e arrogante que a deixou no
chão como se não existisse.
O problema é que o estranho não é tão anônimo e, pior, é o
novo CEO da empresa onde ela trabalha.
Ian não é o mais simpático dos homens e todos odeiam sua
arrogância, mesmo sendo novo no trabalho. Depois que esbarra em
uma mulher na rua, ele não imagina que sua vida ficará de pernas
para o ar. Ao receber de volta o celular que achava ter perdido,
começa a receber mensagens de uma anônima que não tem papas
na língua.
Porém, o problema nisso tudo é que ela não quer ser
descoberta e Ian não descansará até encontrar a única mulher que o
desafia e não tem medo dele; pelo menos na internet.
Um jogo de gato e rato começa entre os dois. E, no fim, quem
vencerá?
Emma
O dia começou bem difícil. Dormi tarde porque estava
empolgada criando um software, portanto me me atrasei nesta
manhã, não tomei café e perdi o metrô. Fiquei vinte minutos
esperando o próximo e, quando ele chegou, não tinha lugar para me
sentar.
Apesar de ter acordado quase agora, meu corpo ainda está
cansado. E, depois do trabalho, ainda tenho que correr com Bia, que
está me forçando a fazer essa atividade todos os dias depois do
trabalho.
Agora estou quase correndo para chegar a tempo para o meu
turno no emprego. Meu chefe não é tão ruim, mas odeia atrasos. E,
mesmo sabendo que Victor não dirá nada a ele sobre isso, não
posso me arriscar.
Estou quase na porta giratória que dá acesso ao prédio,
quando uma parede bate em mim e eu caio de quatro no chão. Olho
para cima e vejo que o filho da puta, que nem olha para trás, corre
para entrar no prédio.
Não dá para ver direito quem é. O que me deixa ainda mais
furiosa. Ainda no chão, vejo um aparelho celular caído. Ele deve ter
deixado cair.
Levanto-me, pensando que se o dia começou assim, nem
posso imaginar o que mais pode acontecer. Pego o celular e volto a
andar. O homem deve ser um daqueles idiotas que trabalham no
topo da empresa e se acham os donos do mundo. Não é porque fico
em uma sala fria e sem graça, que mereço ser tratada dessa forma.
Passo pela porta e, como de rotina, mostro meu crachá à
Molly, que já me conhece e sabe do meu ódio por esse ritual
desnecessário. Ela sorri e libera a minha entrada, mas antes de eu
seguir para o meu setor, resolvo perguntá-la sobre o brutamonte que
passou na minha frente.
- Molly, você sabe quem é o cara que entrou como um
furacão antes de mim?
- Nunca o vi aqui antes, mas parece que um executivo
chegou e todos estão pisando em ovos.
- Claro. Eles se acham os donos do pedaço. - falei irritada.
- Obrigada, Molly! Agora, tenho que ir, ou me atrasarei ainda mais.
Ando até o meu setor, o de engenharia, e dou de cara com o
responsável por ele, meu chefe querido. Passo ao lado dele com
uma cara de culpada, entretanto ele não fala nada, e dou graças a
Deus por isso.
Ocupo minha cadeira em frente aos computadores e olho para
Victor, que está concentrado em algo. No entanto, sei que notou a
minha presença.
- Você tem sorte de ser a melhor no que faz, Emma. Se não
fosse assim, o senhor Milton te colocaria na rua. - Dá um sorrisinho
de lado.
- Nem me atrasei tanto. - tentei me defender.
- Mas ele é paranóico com isso e eu já te cobri duas vezes.
- Estica-se para me olhar.
Dou um sorriso e começo o meu trabalho.
Minha atenção hoje está no celular que peguei. Irei devolvê-lo,
mas é claro que tenho que descobrir primeiro quem é aquele homem
que mais parecia um prédio quando passou por mim. Foi um grosso
por ter me derrubado e não me pedido desculpa. Entregarei seu
telefone de volta, porém também vou irritá-lo e ele nem saberá quem
foi.
Deixo minha investigação sobre o senhor arrogante para o
meu horário de almoço, pois já cheguei atrasada e não quero o
senhor Milton me dando uma bronca por mexer no celular.
***
Pego o aparelho e vou almoçar. Sento-me na cantina do
prédio, peço o meu prato, recosto minhas costas na cadeira e
começo a vasculhá-lo. Sempre fui boa com equipamentos de
softwares. Já me coloquei em situações horriveis, todavia hoje sou
boa no que faço. É por isso que trabalho nesta empresa e sou
pioneira em proteção de dados aqui, nos Estados Unidos.
Minha curiosidade fala mais alto do que a moral de não mexer
no que não é meu.
É facil invadir o celular e, logo de cara, vejo um papel de
parede fofo: um cachorrinho branco bem pequeno que está olhando
diretamente para a câmera. Fico pensando em como um cara tão
bruto como aquele pode ter um animal de estimação. Deveria ser
proibido. Esse cachorro deve estar precisando de ajuda.
Meu pedido chega e eu almoço enquanto olho a galeria dele.
Espero não ter nada tão comprometedor aqui. Deus me livre ver um
nude de um desconhecido! Abro as fotos e vou passando uma por
uma, vendo pessoas em festas, duas senhoras que podem ser sua
mãe é avó, e um senhor que acho que já vi em algum lugar. Nada de
muito importante. Até que chego em uma selfie.
Puta merda! É ele!
Até me engasgo com a bebida. O cara é lindo. Não! Lindo é
pouco. A foto é dele depois da academia. Nossa! Suado fica um
pecado. Seus cabelos pretos estão caídos sobre o seu rosto quase
pálido e seus olhos azuis parecem penetrar a minha alma.
Arrasto o dedo para o lado, a fim de ver se há outras fotos
dele. Constato que, Graças a Deus, têm muitas. O senhor arrogante
tem músculos incríveis e fica perfeito de terno.
Vejo o horário e noto que meu tempo de refeição está
acabando. Vou deixar para vasculhar mais coisas depois que eu sair
do trabalho. Talvez enquanto eu estiver no banho.
Por Deus, Emma! Não seja tão pervertida!
Guardo o celular no bolso e volto para o meu setor.
Minha mente não sai do homem que vi nas fotos. Sei que ele
foi um idiota, contudo não posso deixar de apreciar sua beleza. Será
que é tão arrogante e imbecil relmente? Podia estar tão atrasado e
distraído, que nem tenha me visto em sua frente.
Não! Não posso arranjar desculpas para ele. Não sou tão
pequena e insignificante assim. E apesar de ser um pouco estranha
e me vestir como uma adolescente problemática, tenho o meu valor.
Não vai ser um menino riquinho com um corpo de deus grego que
vai me derrubar.
Deixarei isso para lá, descobrirei quem ele é e lhe devolverei o
telefone, porém não como o deixou quando derrubou.
***
Chego em casa e coloco minha roupa de corrida. Não sou de
fazer muitos exercícios, mas Bia pretende ficar com o corpo definido
e não quer fazer isso sozinha. Só corro para relaxar, já que não
tenho ninguém para ver o resultado de tanto esforço. Mesmo
sabendo que não deveria penssar dessa forma, penso.
Não demora muito para que ela chegue batendo na porta do
apartamento.
- Vamos logo! Temos que correr o dobro hoje. Não resisti e
comi duas fatias de torta. - avisou desanimada.
- O quê? - Ela só pode estar alucinando. - Você quer me
matar?
- Deixe de ser sedentária! - Puxa o meu braço até me fazer
passar pela porta.
Mesmo não querendo correr tanto, saio de casa. Como estou
com muita coisa na cabeça, usarei esse tempo para pensar em uma
forma de fazer o gato arrogante pagar por ter me deixado no chão.
Logo começamos a andar e, depois, a correr. Passamos por
muitos lugares durante a corrida.
- Então... O que fez hoje além de se sentar na frente de um
computador para olhar números e coisas bizarras que não entendo?
- Bia perguntou ofegante.
- Você não vai acreditar. - Mostro-me bem empolgada com
a novidade. - Eu me atrasei de novo, mas o pior é que quando eu
estava entrando no prédio, um cara esbarrou em mim e foi embora
como se nada tivesse acontecido.
- Não estou entendendo. A notícia é ruim e você está com
um sorriso no rosto. É meio masoquista. - Mantém o cenho
franzido.
- O cara deixou o celular cair. - ignorei sua ironia. - E
agora ele está sob o meu poder. - Tento não ficar empolgada
demais.
- Sabe, Emma? Quando digo a você para arranjar um
namorado, é exatamente por isso. - Lá veio mais uma ironia. -
Alguém esbarra em você e, como uma maluca, rouba essa pessoa e
sorri como uma psicopata? Estou ficando preocupada.
- Não encha, Bia! Vou devolver o celular dele. Mas também
vou me vingar do idiota. - Reviro os olhos.
- Podemos ver um filme se acha que sua noite está tão ruim.
- Será que dá para me apoiar nisso? - reclamei. - É a
primeira vez que faço algo assim, e nem sei quem é o homem.
Posso ser demitida, já que ele é, provavlmente, um dos executivos.
- Eu curto sexo selvagem e você é fora da lei. Facinante!
Ainda não sei por que somos amigas. - brincou.
Bato de leve em seu ombro e continuamos a corrida.
Bia, como uma tagarela, prossegue brincando com a história,
deixando-me um pouco irritada. Quando começa a falar algo sobre o
seu trabalho, agradeço.
***
Estou na banheira, quando pego novamente o celular para o
vasculhar e descobrir mais sobre o homem. Quero achar seu nome,
porém não consigo ser tão fora da lei e ir direto à sua caixa de
mensagens ou e-mail.
Bia sempre fala que sofro da "síndrome" de ser certinha
demais. E é verdade. Apesar de poder e conseguir entrar em muitos
computadores e redes de dados, nunca faria isso. Já me ferrei uma
vez ao ser culpada por algo que não fiz, e hoje tenho esse trauma.
Decido ligar para alguém e rezo para que essa pessoa fale
pelo menos o nome dele. A quantidade de contatos femininos é
enorme. E não é para menos, já que ele é lindo. É lógico que pega
todas que quer. Aposto que com uma ou duas chamadas, alguma
delas atenderá, desesperada para sair com ele novamente.
Resolvendo colocar minha teoria em prática, clico em um
número com o nome de "Ariana". A ligação começa a chamar uma,
duas vezes...
- Ian! - falou a voz feminina muito empolgada, no outro lado
da linha.
Um sorriso de satisfação toma o meu rosto.
- Desculpe! Não é o Ian. - tentei disfaçar a minha voz para
o caso de, futuramente, isso ser usado contra mim.
- Quem é e por que está me ligando do celular do Ian? -
perguntou furiosa.
Eu penso um pouco na resposta e minha mente diabólica
organiza um roteiro fora do comum para a Emma sem graça.
- É que eu queria ouvir a voz da vadia que está atrás do meu
namorado. Quero lhe avisar para ficar longe dele se não quiser
perder seus peitos falsos e todas as plásticas mal feitas do seu rosto.
- falei em um tom de irritalção e bem mais alto do que normalmente
falo.
Não sei de onde isso está vindo, mas se demorar muito,
acabarei rindo e pondo tudo a perder.
- Olhe aqui, querida! Se o seu namorado fica atrás de mim, a
culpa não é minha. - rebateu alterada.
- Meu Ian não fica atrás de mulheres; são as vadias que
ficam atrás dele. Espero que esse recado sirva de lição para que não
chegue perto do meu homem! E pode dizer a todas as suas amigas
que farei o mesmo com elas caso as veja a cem metros dele. -
Desligo a chamada.
Deus! O que deu em mim e por que fiz isso? Meu coração
bate a mil por hora, como se estivesse prestes a sair pela boca.
Agora sei como se chama o dito cujo. Mas, Ian do quê? Fuço
ainda mais o telefone e não acho nada que ligue esse nome ao seu
sobrenome. Talvez amanhã eu lhe investigue na empresa.
Por enquanto, botarei meu plano em ação. Entro novamente
na galeria e começo a editar as fotos. É claro que algumas só edito
as cópias, já que não sou tão cruel. Depois volto aos contatos e
mudo os nomes das piranhas por coisas engraçadas. Acho que ele
ficará puto com a bagunça que estou fazendo.
Não ouso ir às suas conversas particulares, porque isso é
muito pessoal e não quero invadir sua privacidade. Já basta o quanto
estou invadindo. Sei que para alguém que pode fazer o que faço,
invadir é o objetivo, entretanto tenho os meus limites.
***
Acordo cedo e nem tomo café. Depois do banho, coloco
roupas que não são muito chamativas, pois nunca gostei de chamar
a atenção para o meu corpo. Saio na rua e ando até o metrô com
uma pequena caixa na mão. Dentro dela, está o celular. Descobrirei
quem é o Ian antes do almoço e lhe entregarei o aparelho depois.
A única pessoa naquela empresa que sabe até os segredos
mais sujos dos chefões, é Ágatha. Ela é uma das secretárias dos
executivos que ficam no topo do prédio. Se há alguém que sabe
quem é o bonitão arrogante, é ela.
Após sair do metrô, ando algumas quadras até o trabalho.
Hoje ele não veio me derrubar. Que pena! Eu poderia xingá-lo
pessoalmente. Terei apenas que imaginar sua reação ao ver o que
fiz no seu celular. Além da capa de glitter rosa com enfeites que
coloquei nele, baguncei os contatos e editei as fotos.
Poxa! Será uma boa cena.
Passo pela recepção, vou para o meu armário e coloco a
caixa no fundo do espaço, com medo de que alguém me veja e me
denuncie quando o telefone estiver nas mãos dele. Em seguida, sigo
para a cantina e peço um café expresso.
Logo avisto Ágatha, que está sentada com outras duas
secretárias, tendo uma conversa bem animada. Não sou amiga
delas. Na verdade, a quantidade de amigos que tenho, posso contar
nos dedos. Para todas essas pessoas, sou a garota estranha, igual
era no ensino médio.
Embora esteja em boa forma, não tenho roupas chamativas
ou sexies e opto por não usar brincos ou colares. Contudo, faço
algumas tatuagens quando sinto vontade.
Ágatha, por outro lado, é uma mulher linda, de trinta e dois
anos, que veste roupas chiques e está sempre de saltos. Ela mexe
no seu cabelo liso de cor escura como se estivesse em um comercial
e eu fico só adimirando sua beleza enquanto ando até elas.
- Emma, como vai? - perguntou de forma simpática.
Ainda por cima, a mulher tem simpatia.
- Estou muito bem, Ágatha. Obrigada! - Dou um sorriso
tímido. - Como vocês estão? - falei com as outras só para não
parecer rude ou fofoqueira.
Elas sorriem e falam, juntas, que estão ótimas.
- Meninas, eu queria perguntar se vocês já viram um homem
por aí. Sei que seu primeiro nome é Ian, que ele tem pelo menos
1,90 de altura, cabelos negros, olhos azuis...
- Tem pinta de arrogante? - Ágatha acrescentou.
- Sim. - confirmei feliz. - Você já o viu por aí?
- Se eu já vi? Menina, quem não viu esse homem? E, que
homem lindo! É um deus grego, mas muito estressado e mal-
humorado. Está sempre dando ordens e sendo arrogante.
Eu já sabia que ele não era uma boa pessoa, no entanto
queria que alguém, pelo menos, dissesse algo de bom dele, para
que eu não me sentisse tão mal por desejá-lo.
- Quem é ele, Ágatha? - questionei, bastante curiosa,
sentando-me no meio delas.
- É o mais novo chefe, querida. Ian Novack. É o filho de
Robert Novack e assumiu a empresa depois que o pai sofreu o
acidente e ficou em coma.
Estou paralisada. Ele é o chefe? O dono de tudo aqui? Porra!
- Você está bem? - perguntou ao ver minha pele mais
pálida do que o normal. - Ele te fez algo?
- Não. Eu só o vi por aí. Parecia que tinha comido algo
estragado. - Ainda estou tentando me recuperar.
- Ele está assim desde que assumiu os negócios. - Revira
os olhos. - O que tem de lindo, tem que mal-educado.
- Ok, meninas. Tenho que trabalhar agora. Obrigada pela
informação! - Levanto-me e saio de perto delas.
Meu Deus! Ian é o CEO da TEC Corporation?! A minha
ansiedade está fazendo com que minhas mãos soem e meu coração
acelere. Acho que não posso entregar o celular do meu chefe, pois
não quero irritá-lo. Mas, ao mesmo tempo, ele é um grosso com todo
mundo. Seu pai está em coma, porém isso não justifica seu modo de
tratar as pessoas.
O conflito em meu peito pode até me causar um infarto se eu
continuar pensando nisso.
Não posso desistir agora. Afinal, ele não saberá quem sou e
não sabe nem que existo.
Vou trabalhar e, após o almoço, levarei o pacote para a
recepção. Depois, ele que se vire! O que irá deixá-lo ainda mais
irritado.
Não sei se isso me deixa feliz ou com mais medo.
Volto do restaurante com o pacote, levando-o na bolsa para
que ninguém perceba nada, entro no prédio com ele na mão e vou
até a recepção, onde vejo Molly.
Minha língua parece presa, mas não posso desistir agora.
Seria errado ficar com o aparelho.
- Molly, uma moça me entregou este pacote agora a pouco e
disse que é para o entregar ao Ian Novack. Ela parecia muito irritada
e nem quis entrar. - Entrego-lhe.
Odeio mentir, e não faço isso com frequência; só quando
preciso muito.
- Quem é Ian Novack? - questionei.
- Lembra do homem por quem você me perguntou ontem e
eu também não sabia quem era? - Afirmo com um aceno de
cabeça. - É ele, o novo chefe. Dizem que é muito arrogante.
Ian é muito famoso por essa atitude, no entanto não parecia
ser um brutamonte quando falei com a piranha no telefone.
- Entendi. Então, você pode entregá-lo?
- Pedirei para que Mila entregue. Ela é secretária dele.
- Coitada! - Rimos.
Sigo para o meu posto.
Não quero ver o homem pessoalmente. Provavelmente, ele
vai querer me matar quando souber o que fiz.
Ian
Meu dia foi cheio para a merda e minha cabeça está doendo.
Tive duas reuniões demoradas e ainda tenho papéis para ler e
assinar.
Olho para o relógio e constato que são sete e meia. Está na
hora de eu ir embora e nem está perto de terminar o que tenho para
fazer. Sendo assim, acabo optando por deixar o restante dos
afazeres para amanhã.
Esse trabalho está me matando e ainda tem a preocupação
com meu pai, que está em coma há dois meses. Os médicos não
têm uma previsão de quando - e se - ele acordará. Não quero
perdê-lo. É um bom pai e sempre esteve ao meu lado, mesmo
quando eu cometia algum erro. Agora, a minha obrigação é cuidar
dos negócios da família. Algo que está me estressando muito. Vivo
com dor de cabeça e com as preocupações invadindo minha mente,
fazendo-me perder a razão.
Notei que aqui, na empresa, todos estão correndo de mim.
Também... Estou sempre dando ordens e de mau humor. Com toda a
certeza, eles me odeiam. E, olha que só estou aqui há uma semana.
Ontem mesmo esbarrei em alguém e nem parei para ajudar a
pessoa. Estava tão cheio e atrasado para uma reunião, que isso não
tinha passado pela minha cabeça. Até agora.
Escuto batidas leves na porta e vejo minha secretária entrar.
Ainda não decorei seu nome. Na verdade, não decoro nomes de
mulheres, porque costumo sair com tantas, que todos se misturam.
Ela está com um pacote na mão e eu tento, a todo custo, não
apreciar as curvas do seu corpo no vestido azul-escuro.
- Senhor Novack, alguém pediu para que lhe entregassem
isto. - Coloca a caixa sobre a mesa.
- Quem pediu? - Estou pensativo.
O pacote é estranho e eu não sabia que receberia algo hoje.
- Não sei, senhor. Foi entregue na recepção. A pessoa nem
quis entrar para entregar e demonstrava estar chateada. - Exibe
preocupação no rosto.
Olho para a caixa com curiosidade. Quem me entregaria isso?
A mulher sai da sala, fecha a porta e eu a abro. Fico surpreso ao ver
um celular. É igual ao que perdi depois de esbarrar naquela pessoa.
A capa rosa cheia de glitter chama a minha atenção e me leva a
pensar que alguém está pregando uma peça em mim.
É tudo muito estranho. Quem me entregaria um pacote tão
desleixado contendo dentro um aparelho cheio de purpurina? Pego-
o, ligo-o e me surpreendo quando vejo meu papel de parede. É o
meu próprio celular, o qual deixei cair, sendo devolvido para mim.
Está cada vez mais esquisita a situação.
Curioso, desbloqueio a tela e vejo se tudo está como deixei,
porém me surpreendo ao descobrir que a tal pessoa bagunçou tudo
nele, trocando os nomes dos contatos e editando fotos com frases
irônicas. Quem fez isso?
A minha preocupação passa a ser de que tenham roubado
alguma informação minha, prejudicado alguns dos meus projetos ou
até mesmo pegado dados importantes.
Mais surpreendente do que receber meu celular de volta com
um possível roubo de dados, é ler a mensagem que acabou de
chegar.
"Então, bundão... Gostou do que fiz no seu celular? Talvez,
na próxima vez, preste mais atenção e não esbarre em pessoas
aleatórias na rua, deixando-as com a bunda no chão."
Não sei se é pela ironia ou pelo cansaço em meu corpo, mas
rio do que leio. Seja lá quem for, tem bom humor. Contudo, logo noto
que pode se tratar de alguém perigoso que me hackeou para
conseguir informações minhas.
"Você, estranho, está tentando me chantagear para me roubar
mais coisas?"
O mais irônico de tudo é que comando uma empresa que
tenta evitar esse tipo de situação. Se o dono foi uma vítima, imagine
os clientes. Talvez a pessoa esteja querendo me derrubar ou provar
que não fazemos um bom trabalho. O que não posso permitir.
O engraçado é que não sou respondido. O meu tom de
rispidez deve ter assustado o provável hacker.
Decido deixar essa história um pouco de lado. Estou cansado
e não penso muito bem quando minha cabeça está cheia.
Coloco o celular no bolso e entro no elevador, segurando os
papéis que eu deveria deixar para lá, mas decidi levar para casa.
Quero concluir alguns trabalhos antes que cheguem mais na manhã
seguinte.
Como um idiota curioso, pego o telefone às pressas assim
que o sinto vibrando.
"Senhor bundão, se eu quisesse prejudicar você ou roubar seus
dados, não precisaria me esforçar tanto. Além do mais, devolvi seu
aparelho. Deveria me agradecer por ser mais gentil que o senhor."
Não sei se isso me tranquiliza. Apesar de louca, essa pessoa
pode estar certa. Dentro deste aparelho tem contatos de gente
importante na minha agenda. O que seria o bastante para me dar
uma bela dor de cabeça.
"Não posso agradecer a uma pessoa que não conheço e que,
principalmente, mudou tudo no meu celular."
Não obtenho resposta.
Assim que chego no térreo, meu motorista já está à minha
espera. Entro no carro, ainda pensando no acontecido. Minhas
roupas estão cheias de glitter. E, pensando bem nos detalhes, quem
está fazendo esse jogo comigo deve ser uma mulher. Glitter, capa
rosa... Sem falar da pequena estatura da vítima que foi ao chão no
dia anterior.
Como se esse acontecimento fora do comum já não fosse
preocupante, ainda tenho a preocupação com o meu pai, que está
em uma cama de hospital. Não se vai ou não acordar. Desde o seu
acidente, martirizo-me por não ter lhe ajudado da forma como queria
e por não ter sido mais presente. Algo que, provavelmente, teria
evitado todo esse problema. É por isso que estou tão dedicado
agora.
"Posso até sentir sua arrogância de onde estou. Entendo que é
um homem ocupado, mas deveria ser mais gentil às vezes. Assim,
talvez, fosse procurado por afeição, e não por interesse de piranhas
siliconadas."
Sinceramente, estou com alguma coisa errada na cabeça,
pois rio do seu sarcasmo. Não foi nada demais, apenas uma
provocação descabida, porém é algo que me alegrou.
"Quem é você e qual é o seu nome? Estou achando que é uma
adolescente rebelde que acha que pode brincar com um estranho."
"Alguns diriam que, de acordo com minha estatura e tipos de
roupas que uso, poderia ser realmente uma adolescente. Mas, não
se preocupe! Não será processado por abuso de menores. E, quanto
ao meu nome, nunca saberá. Não quero nem que sua boca suja o
pronuncie. Para meios de comunicação, pode me chamar de
Birdpink."
"Que raio de nome é esse? Aposto que não é muito criativa."
"Não sou. Por isso falei algo que estou vendo em um pôster, no
metrô."
"Acha que conversar de forma irônica comigo vai me punir pelo
que fiz? Porque não estou exatamente irritado. Achei que fosse
alguém perigoso, mas vejo que é apenas uma mulher que deseja um
pouco de atenção. E, para falar a verdade, estou me divertindo."
"Está me chamando de egocêntrica? É você quem está se
aproveitando do meu tempo."
"Foi você quem começou a mandar mensagens, passarinho."
"Foi uma péssima ideia."
A conversa que começou estranha está me distraindo do dia
tedioso que tive. Acho que o passarinho está mais irritado do que eu.
"Desculpe-me por ter a derrubado ontem. Foi uma grosseria não
ter a ajudado. Na verdade, isso teria acabado com o mistério,
passarinho. Você me deixou curioso para saber qual é o seu rosto."
Ela não me responde imediatamente e eu me surpreendo pela
minha espera ansiosa. Nem tinha notado que o carro já estacionou
na garagem do prédio e devo confessar que quero continuar a troca
de mensagens.
No elevador, fico tentando imaginar a mulher com quem me
esbarrei. Se eu não tivesse sido tão desatento e, como ela mesma
disse, um bundão, poderia saber sua identidade. Talvez seja uma
estranha que, ocasionalmente, estava passando pela TEC
Corporation ou uma funcionária. Mas não acho que algum
funcionário teria coragem de fazer tal coisa. Eles parecem me odiar.
Mas se for, seria interessante conhecê-la.
Assim que abro a porta, Hunter vem muito feliz ao meu
encontro. Esse Poodle foi um presente da minha mãe para mim. Ela
disse que eu era muito solitário. Claro... Não sabia sobre as visitas
femininas frequentes a este apartamento.
Como um idiota, pego o aparelho telefônico assim que ele
vibra. Apesar de não gostar do que a mulher fez com ele,
surpreendentemente, ela está me cativando.
"Está, mesmo, pedindo desculpa?"
"Nem sempre sou um bundão. E admito que errei. Se nos
encontrarmos novamente, posso até te pagar um café como um
pedido de desculpa."
"Não vai rolar. Mas, talvez, se chamar algumas das muitas
mulheres de sua agenda, elas poderão te fazer companhia."
"Não se preocupe! Meu interesse é puramente investigativo. Não
quero que me interprete mal."
Minha curiosidade, de fato, está ficando aguçada. Essa
mulher conseguiu me prender em uma conversa enquanto as outras
só falam em roupas e bolsas caras.
"Fico feliz. Eu nunca iria querer ser mais uma em sua lista.
Uma longa lista. E não pensei nisso, mas devo continuar no
anonimato."
Eu rio, sento-me no sofá e encaro o celular como se, em
meses, estivesse fazendo a coisa mais empolgante.
Esse passarinho acha que conseguirá resistir a mim?
"É impressão minha ou está com medo?"
"Não conte piadas, bundão! Não tenho medo de você.
Acontece que prefiro me manter a uma distância segura."
"Claro. Porque tem medo de não resistir."
"O seu egocentrismo chega na atmosfera, bundão."
O mais interessante de tudo é que não desejo parar de falar
com ela. Ainda nem tirei os sapatos ou afrouxei a gravata; só consigo
olhar para a tela e esperar pela sua resposta.
"Torço para me esbarrar em você outra vez, somente para te
ouvir falar essas coisas olhando em meu rosto."
"Espero que isso nunca mais volte a acontecer. Não sou
alguém confiante o bastante para dizer na cara tudo que penso."
Essa mensagem me faz rir.
"Tenho que ir, senhor bundão. Amanhã acordarei cedo, e
ainda tenho que terminar um trabalho."
"Logo agora, que estava ficando animado."
"Boa noite, senhor bundão!"
"Gostou mesmo da minha bunda. Não para de falar dela."
"Já vi melhores."
"Vou acreditar em você."
A falta de resposta me deixa frustrado, no entanto acabo me
lembrando do quanto isso é ridículo. Nem faço ideia de quem é a
mulher e já quero ser amigo dela?
Deixo o celular de lado e vou para o banho a fim de esfriar
meu corpo e buscar relaxamento. Em nenhum momento a minha
cabeça deixa de pensar na estranha com quem me esbarrei.
Comecei o dia pensando que ele seria mais um estressante e
chato, mas até que a surpresa me deixou feliz.
Assim que acordo, lembro-me do celular e, como um tolo,
verifico se tem mais alguma mensagem da mulher misteriosa. Não
tem nenhuma. É decepcionante, e me irrito comigo mesmo por
pensar assim.
Resolvo cuidar de tudo para começar o trabalho. Tomo banho,
coloco um terno cinza e arrumo os cabelos em frente ao espelho.
Meu pai sempre se orgulhou de ser pioneiro no ramo de
proteção de dados. Era um leigo no assunto, mas um mestre em
administrar.
Com o crescimento da internet, também cresceram novas
oportunidades de roubar. É por isso que a TEC Corporation se
especializou nessa área e hoje trabalha com diversas empresas,
bancos e pessoas que fazem parte desse meio digital.
Depois de pegar os papéis que trouxe ontem para casa, enfio-
me no elevador, que desce até o estacionamento. Meu motorista já
está à minha espera. Quando entro no carro, resolvo dar atenção
aos documentos. Ontem não consegui resolver nada, pois só
pensava na estranha, mas hoje resolvi esquecê-la e focar em
trabalhar.
Chego rápido à sede de Nova York, já que estava me
mantendo ocupado, lendo os diversos formulários e novos contratos.
Saio do veículo e paro antes de passar pela porta da frente.
Apesar de poder entrar pelo subterrâneo, gosto de chegar por aqui
para passar pela recepção e conferir as coisas. Contudo, meu
objetivo de hoje é encontrar uma pessoa específica, mesmo sabendo
que é tolice.
Assim que noto quão ridículo é o que estou fazendo, passo
pela porta giratória e vou direto ao meu escritório. É claro que o
passarinho irritante não faz parte do meu quadro de funcionários.
- Bom dia, senhor Novack! - minha secretária me
cumprimentou com um belo sorriso no rosto.
Talvez seu nome seja Mia. Ela sempre me deseja um bom dia,
mas nunca lhe retribuo.
- Bom dia, senhorita! - Passo por ela, lendo o papel que
está em minhas mãos. - Você poderia me trazer um café, por favor?
- Coloco minhas coisas sobre a mesa.
- Claro, senhor. - Dá um sorriso assustado que me faz
franzir o cenho. - Aqui estão os papéis para a análise. - avisou-me
antes de sair.
"Ótimo!" Mais papéis!
Alguma força maior que toma o meu corpo me faz pegar o
celular do bolso. Eu tentei, a todo custo, tirar todo o glitter dele na
noite passada.
Busco as mensagens de ontem.
"Ser simpático não faz o meu tipo. As pessoas me olham como se
eu fosse um estranho."
A falta de resposta me irrita e me faz guardar o aparelho
novamente. Concentro-me somente nos papéis agora.
"É isso que dá ser mal-educado com todo mundo. Se
continuar assim, bundão, pode ser o chefe do ano."
Apesar da demora, ela finalmente respondeu, e, como um
idiota, olho a mensagem no mesmo instante.
"Senhor bundão". Estou começando a me acostumar com
esse apelido. Não somos amigos, tampouco quero que sejamos,
apesar de estar curioso para saber quem ela é.
"O que a senhorita Birdpink está fazendo agora?"
Ela me manda uma foto e eu vejo que está no metrô. Não me
enviou uma dela, e sim de uma senhora dormindo, sentada no banco
da frente.
"A senhora parece simpática, mas quero uma foto sua."
"Está ficando obsessivo com esse assunto. Não terá uma foto
minha. Contente-se com a senhora simpática!"
Ela tem razão: estou começando a insistir demais nessa
questão. Deveria me concentrar no trabalho. Entretanto, agora, que
estamos conversando de novo, é difícil apenas ignorá-la.
"Tem razão. Vou começar a ignorá-la, passarinho."
"Não seria o primeiro. Então, tudo bem."
"Claramente, não vou fazer isso até que me mostre algo com o
qual eu me contente."
Surpreendentemente, minha tela é invadida por uma foto do
seu dedo do meio. É pouco, mas consigo ver que sua pele é pálida,
com uma tatuagem, e que sua unha está pintada de azul,
combinando com sua cor. Isso me agrada.
"Gostei da tatuagem. É muito sexy. Gostaria de saber se outras
partes do seu corpo também são."
"Vai ficar só com a mão, senhor bundão."
"Você é a mulher mais difícil que conheço. Geralmente, não
preciso fazer nada para que as mulheres tirem as calcinhas."
"Isso, na verdade, é uma honra. Eu nunca faria tal coisa com
um pervertido como você."
"Só está dizendo isso porque está longe, e não na minha frente.
Acredite: eu lhe agradaria muito, passarinho. Tanto que desejaria
repetir."
"Nunca vai acontecer."
"Agora é você que está me subestimando. Tome cuidado ao me
provocar!"
"Vai ter que ficar com a ideia de que nunca vai me encontrar,
de que jamais vou ser uma das idiotas que ficam no seu pé e de que
nunca me faria perder cabeça a ponto de ficar com você."
Toda essa provocação está me deixando louco. Ninguém
nunca falou assim comigo antes ou me recusou. Essa mulher pode
ser uma lunática, porém está me motivando a provar o contrário.
"Espero ter a oportunidade de provar o contrário, passarinho."
Emma
Não sei por que mandei mensagens para ele, nem por que
conversamos. É loucura! Ian é meu chefe, um egocêntrico safado.
Talvez seja a falta do que fazer ou a solidão. Só isso para
justificar tudo que está acontecendo.
Devo confessar que ele é engraçado, embora seja irritante. E,
apesar de saber disso, ainda quero receber e responder suas
mensagens.
Não posso negar que senti um pouco de medo e que até
agora sinto. Não fiz nada demais, porém, com a fama de chefe que
ele tem, devo me prevenir e não dar muita pinta, para não correr o
risco de topar com ele e ser reconhecida de alguma forma.
O pior é que assim que virei o quarteirão, eu o vi. Ele estava
lindo, trajando um terno cinza. Sua bunda fica maravilhosa na roupa
mais justa e seus cabelos estavam sendo levados pelo vento,
mesmo não sendo tão longos. O homem é lindo, quase um deus. Se
não fosse tão arrogante...
Fiquei feliz quando o vi entrar no prédio. E, para disfarçar,
esperei alguns minutos do lado de fora.
Quando trabalho, as horas se passam e eu nem percebo.
Gosto muito do que faço e de onde trabalho. Sou a única mulher no
meu setor e uma das melhores no ramo, assim como Victor, que
agora está me pedindo ajuda com o olhar.
Depois de ser um cavalheiro ao ajudar Ágatha e Mia, ele se
tornou o queridinho delas. É sempre bem-educado, um bom ouvinte,
nunca é desrespeitoso com ninguém, e todas o acham fofo.
Só o observo de onde estou. Geralmente, nós nos vemos no
restaurante, na hora do almoço. Só não quando estou com preguiça,
pouca fome, e opto por comer algo na lanchonete da empresa.
Mas hoje, em uma tentativa inútil de fugir dos meus
pensamentos, escolho ir com ele e suas novas amigas para lá. É
estranho estar no mesmo lugar que as secretárias. Elas são
simpáticas e nunca me olharam estranhamente, nem nada, mas
compará-las a mim neste exato momento seria um crime. Enquanto
estou com uma camiseta simples, uma calça jeans surrada e sapatos
de adolescente do segundo grau, elas estão usando um vestido
bonito, saltos altos, e estão com os cabelos bem feitos, além de
maquiagens elegantes. Até parecem madames, pela forma de agir.
- Vocês não sabem como está sendo estranho o meu
trabalho hoje. - Falou Mia. Está empolgada com o que vai contar.
Ela é a secretária de Ian. Portanto, querendo ou não,
infelizmente, fico curiosa para saber a notícia.
- Por quê? - Perguntou Ágatha. - O idiota do seu chefe fez
alguma coisa? Quero dizer... mais alguma coisa?
- Ele está de bom humor. - Comentou surpresa, com um
sorriso nos lábios pintados de vermelho. - Desejou um bom dia
para mim, pediu "por favor" quando quis um café e não estava tão
grosso como sempre. Será que o pai dele morreu?
- Credo, Mia! Talvez ele só esteja revendo como trata os
funcionários ou tenha transado com alguém ontem. - Disse Ágatha,
fazendo-me engasgar com o suco que bebia.
Todas olham para mim, e Victor ri da minha cara. Nenhum
deles sabe realmente o que aconteceu.
- Seria alguma namorada? - Questionou Mia, pensativa.
- Não mesmo. - Respondi sem pensar, vendo-as lançar
um olhar estranho para mim novamente. - Vocês mesmas dizem
que o homem é um arrogante. Como arranjaria uma namorada que o
suportasse? - Argumentei após minha gafe.
- Pode até ter razão, Emma. Mas, já viu o homem? -
Perguntou o óbvio. - Ele é lindo de morrer e tem muito dinheiro.
Aposto que seu telefone está repleto de número de mulheres.
Ontem, por exemplo, uma delas foi ao seu escritório. Estava tão
irritada que nem esperou que eu anunciasse sua chegada. - A
mulher do telefone, talvez?
- Então, essa está descartada como candidata. - Ironizou
Ágatha.
- Ele ficou chateado e nem sabia do que ela estava falando.
- Mia continua pensativa.
Eu poderia deixar essa passar, mas meus dedos e a burrice
da minha cabeça falam mais alto. Pego o meu celular e digito uma
mensagem para ele, antes de sair do restaurante.
"Deve ter sido divertido lidar com a loira oxigenada ontem."
Surpreendendo-me, Ian responde rápido, como se já
esperasse pela minha mensagem.
"Então, foi você mesmo. Saiba que ela ainda está me irritando.
Por que disse que é minha namorada? Todos sabem que não
namoro."
"Foi exatamente por isso que eu disse. Gostaria de ter visto as
caras dos dois."
"Não foi nada engraçado ter que aturar as bobagens dela quando
me procurou."
Não sei se está irritado ou simplesmente comentando o fato.
"Quem sabe, na próxima, eu esteja por perto para ver como
vai reagir à outra mulher irritada por alguma coisa que eu tenha dito
sobre você?"
"Um momento..."
Os três pontinhos no final de sua mensagem me irritaram, pois
o restante está demorando uma eternidade para chegar.
"Como sabe que ela esteve ontem no meu escritório? Está me
espionando, comprando informações ou...? "
Só agora reflito sobre o que fiz. Antes Ian achava que eu era
uma estranha da rua, mas agora sabe que estou mais próxima dele
do que imaginava. Fico puta comigo mesma e desejo me bater.
"Acho que falei demais."
Desejo apagar as mensagens, achando que assim ele se
esquecerá, porém o estrago já foi feito.
"Você trabalha para mim, não é, passarinho?"
"Você ainda não sabe quem sou, então espero que isso não
me traga problemas, bundão. Além do mais, não estou cometendo
um crime, não é?"
"Se sou seu chefe, não admito que fale comigo dessa forma e
exijo vê-la agora."
Já fiz muita merda na vida e gosto de achar que sou
inteligente, só que isso foi demais. Agora estou quase ferrada.
Tomara que ele não me procure na empresa só para me demitir.
"Acho que está convencido demais, Ian. Não pode me exigir
isso. Apesar de ser meu chefe, não sabe quem sou, e não vou dar a
você a oportunidade de me demitir."
"Não quero demitir você, só saber, finalmente, qual é o rosto da
mulher que está me deixando louco."
"Eu estou te deixando louco? Não me conte piadas! É você
quem está se importando muito com esse mistério. Além do mais,
não vou acreditar que não me demitirá, já que até o momento o que
sei sobre você é que não se permite ser desafiado por um
funcionário. O que quer dizer que não vou dizê-lo quem sou,
bundão."
O momento de silêncio só me deixa ainda mais nervosa. Não
gosto de situações como essa, onde estou sendo pressionada, mas
admito que a culpa é minha.
"Tudo bem, passarinho. Mas saiba que vou descobrir quem é,
querendo ou não, e provarei que sou de confiança, que não vou
demiti-la."
"Boa sorte, então! Não sou fácil de ser achada. E, mesmo se
estiver no mesmo lugar que eu, nunca imaginará quem sou."
"É um desafio?"
"Não, Ian. Não é um desafio. Agora, deixe-me voltar ao
trabalho!"
Guardo o celular no bolso e retorno ao prédio sozinha. Não
quero que, de alguma forma, ele tenha tempo de me achar. Antes de
passar pela recepção, vejo-o encostado na parede de mármore,
olhando para todas as pessoas que passam pelo hall.
Filho da mãe!
Respiro fundo, enfio-me no meio de um grupo de funcionários
que trabalha nos escritórios do andar de cima e tento, a todo custo,
não o olhar. Sinto um frio na barriga incomum quando passo ao seu
lado, mas, como já sei, ele nunca olhará para mim. Nem me nota
quando passo.
Lá no fundo tenho dois sentimentos conflitantes, e um deles é
bem idiota. Queria ser o tipo de mulher que ele notasse. Mas isso
nunca vai acontecer.
Vou direto para o meu setor. Talvez possamos conversar
quando ele me mandar mais mensagens, pois eu não tomarei mais
essa iniciativa. Não quero mais brincar de provocar o chefe. Se, por
algum azar, Ian me achasse, tenho total certeza de que me demitiria.