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Meu CEO é um mafioso

Meu CEO é um mafioso

Autor:: Cristina Rocha
Gênero: Romance
SINOPSE: Violleta finalmente completou a maioridade. Sua infância de longe foi uma das melhores, passando seus dezoito anos dentro de um orfanato, onde viveu acuada e fragilizada com os pensamentos de que foi abandonada por sua própria família. Entretanto, isso é deixado no esquecimento, com sua forte iniciativa de seguir em frente, rumo por sua liberdade, independência e o desconhecido. Tudo que ela precisa agora é de um emprego, só não esperava cair nos braços do diabo vestido de terno e gravata. Ettore Ferrari, para muitos um CEO de negócios, dono das maiores empresas do país, mas de longe ele é quem pensam ser. Ettore é um mafioso cruel, sem escrúpulo, temido por todos ao seu redor. Um demônio que terá o privilégio de capturar um anjo, e sem nenhum esforço, manchará a alma da inocente moça. Um romance dark que te envolverá do começo ao fim, onde Violleta e você leitora, se apaixonaram pelo sombrio de um homem poderoso, charmoso e envolvente.

Capítulo 1 Violleta

CAPÍTULO 1

VIOLLETA

Estou dando uma última olhada pela janela do meu quarto. Posso avistar algumas adolescentes a conversar no banco do pátio. Diversas vezes me sentei no mesmo, somente para ter meu momento de silêncio com um bom livro nas mãos. Por ter um jeito mais reservado, sempre encontrei dificuldade em me socializar com as pessoas. Tinha medo de dizer ou fazer algo que pudesse me levar às broncas, brigas ou castigos aqui dentro do orfanato.

Sim. Vivi meus dezoito anos nesse local com paredes escuras, guardada a sete chaves. Nunca pude ir para o lado de fora desses muros e tampouco houve alguma oportunidade para tal ato, como uma curiosidade ou até escapatória. A vigilância sempre foi meticulosa pelas funcionárias e superiores, todas do sexo feminino. De modo algum estive perto de uma presença masculina, sequer imagino a textura da pele ou a fragrância de um perfume diferenciado. Mas idealizo, como todas nós no orfanato, encontrar uma pessoa especial, um amor verdadeiro para a vida inteira que me apresente um mundo novo fora desses muros.

Solto um suspiro ao mirar pela vidraça sentindo o vento frio percorrer meu rosto, me arrepiando. Observo um pássaro distante; alegro-me, pois em minutos estarei livre como ele. A diferença entre nós é que o animalzinho não tem ansiedade ou expectativas de vida, já eu, estou totalmente nervosa pelo que me aguarda além desse casarão velho.

Independente do que vier, estou feliz. Esperança é tudo que me alimenta para essa nova etapa de minha existência.

Afasto-me do batente, pegando meu último pertence em cima da cama e guardando em minha pequena maleta com pouquíssimas roupas. Não podia deixar para trás minha única lembrança, a de que um dia tive uma família, que um dia pertenci a algum lugar, que talvez tenha sido querida, ou mesmo indesejada. Nunca saberei ao certo.

Soube pela minha tutora do orfanato, que o homem que me entregou neste local se parecia muito comigo, ao menos lembrava-a como estou atualmente. Talvez fosse um parente - um pai, tio ou irmão mais velho -, o único resquício que tenho é essa manta cor-de-rosa com as letras "II" na extremidade. Podem ser as iniciais de dois nomes, um sobrenome, talvez! Eu sabia que meu sobrenome não era meu realmente, o orfanato dava aos bebês um único nome na falta de documentação, logo, assim como dezenas de crianças naquele lugar, eu era Violleta "Santi". Um membro de uma família invisível formada por crianças que nunca tiveram direito a um nome, a uma herança de sangue.

Pergunto-me o que levou a essa pessoa a me abandonar em definitivo? Por que não me quiserem? Por que não me cuidaram como uma família normalmente faria?

Sempre senti falta de carinho, atenção e amor. Cresci como uma jovem insegura, carente e medrosa. Talvez pelos traumas que carrego pelo esquecimento de uma família que nunca me buscou ou quis saber de mim.

Porém a partir de hoje tudo isso vai mudar! Viverei uma vida de que fui privada, totalmente liberta, sem limites para meus sonhos com uma nova casa. Fecho o zíper da mala, dando uma última olhada no quarto que foi meu confinamento determinada a não pensar mais nele um dia sequer dali para frente.

- Arrumou tudo, querida? - Viro-me olhando para a senhora Dolores, que parecia ser a única que sentia uma simpatia por mim nesse asilo de crianças e jovens moças.

- Sim. Estou pronta. - Suspiro apreensiva.

Observo-a se aproximar com sua roupa desgastada e cabelo oleoso por trabalhar a anos na cozinha. Ela estende a mão me entregando uma bolsinha. Pego-a abrindo, ficando boquiaberta com o que vejo dentro.

- Meu Deus. Não posso aceitar. - Fecho e lhe entrego, mas sou interrompida no percurso.

- Por favor, Violleta. Aceite minhas economias, você está indo para um mundo novo e precisará estar preparada. - Sem perceber deixo lágrimas caírem. Ela sempre demonstrou ser muito carinhosa comigo, sempre fui sua protegida quando outras jovens vinham me bater ou caçoar. - Eu tenho uma casa e um emprego, e a vida lá fora não é nada fácil. Não é muito, mas te ajudará a se manter, até arrumar um trabalho na área qual fez seu curso de secretariado no ano passado.

- Tem certeza de que não te fará falta? - Estou constrangida com seu ato de bondade. Não quero atrapalhar ou prejudicar ninguém.

Ela segura minhas mãos que ficam unidas com as suas.

- Tenho. Economize o máximo que puder e busque algum imóvel no centro, onde se têm as melhores chances para um bom emprego. - Aceno com a cabeça. - Tome cuidado com homens aproveitadores, você é muito inocente ainda, Violleta. E sua beleza sem cautela pode acabar sendo sua ruína, querida.

- Um dia, eu vou te recompensar por isso. Eu prometo - digo, mesmo sem saber o que o futuro me reserva.

- Viva bem, Violleta - diz a mulher com comoção em seus olhos cansados. - E nunca mais pense neste lugar.

Escuto atentamente seus conselhos e me despeço com um abraço e beijo terno em seu rosto rechonchudo, sem antes, receber também um lanche para a viagem. Não tenho palavras para expressar toda a minha gratidão. Eu certamente não pensaria mais naquele orfanato, não o visitaria nem passaria perto dele, mas nunca esqueceria aquela senhora e minha dívida para com ela.

*****

Consegui chegar ao centro da cidade com sorte e um pouco de ajuda. Pensei que me perderia no percurso, porém foi bem mais fácil que previ. Bastou somente uma orientação da senhora que estava comigo no ponto de ônibus para descer em uma das ruas mais movimentadas. Confesso me senti um peixe fora d'água com esse tumultuado fluxo de pessoas, maioria vestidas de social, bem apresentadas. Sinto-me envergonhada com meu simples vestido floral soltinho até os joelhos e as sapatilhas desgastadas.

De esquina observo uma banca de jornal e me aproximo para pedir mais informações.

- Boa tarde! O senhor poderia me ajudar? - Encaro um homem acima do peso, nos seus quase quarenta anos, bebendo seu refrigerante diet, em cima de um banquinho que quase nem cabe seu traseiro.

- O que quer, garota?

- Estou meio desorientada. Poderia me indicar um local barato pela região para que possa me acomodar? Um hotel, uma pensão, talvez.

- Isso depende. Vai comprar algo na minha banca?

Nossa! Essa é minha primeira experiência na rua de que realmente ninguém faz algo de graça para outra pessoa, tudo em base de troca de favores, nada diferente do que via no orfanato. Por um instante quis que a cidade fosse composta apenas por senhorinhas solícitas como a que encontrei no ônibus, mas como preciso dessa informação, separo alguns trocados para comprar algo de sua banca, bem empoeirada por sinal.

Olho à minha volta e vejo alguns jornais.

- Vou querer um periódico de empregos.

O homem bufa percebendo que não conseguirá uma boa venda comigo. Após me entregar o jornal e eu pagar por ele, aguardo pacientemente sua resposta sobre minha pergunta. Levo um susto quando sinto seu toque inesperado em minha mão, pegando-a e acariciando de um jeito nojento. Senti repulsa na hora. Encaro seus olhos para suas explicações.

- O que uma moça tão bonita faz sozinha numa cidade grande? Se quiser posso te levar para minha casa, bem na minha cama. O que acha?

- Quero que responda minha pergunta - digo enfática.

Sua expressão fica sombria e fechada. Minha vontade foi de vomitar, confesso. Não deu para negar o nojo que senti com suas segundas intenções comigo. Começo a tremer, recordando de minha infância abandonada. Como queria alguém para me proteger e cuidar. Todavia recordo de que estou sozinha, que não tenho ninguém além de mim mesma. Se quero ser ouvida e respeitada, terei que lutar por meus direitos, demonstrando ser forte, mesmo que no fundo esteja repleta de pavor.

Com minha mão livre, retiro seus dedos sujos de cima de mim e advirto:

- Escute bem. Não sou qualquer mulher para você propor essa depravação. Comprei seu jornal como propôs em troca de uma simples indicação de moradia barata, mas se você não pode me ajudar, vou buscar alguém que possa. Ah, e quem sabe não veja um policial na rua para contar o quão "bem" o senhor trata as mulheres que passam por sua banca. - Na hora seus olhos se arregalam, percebendo que não estou brincando com minha ameaça de denunciá-lo.

- Calma, moça. Não é para tanto! - Franzo a testa em desaprovação. - Está vendo a rua que cruza de trás de você? Pois bem, lá tem uma pensão humilde onde poderão te ajudar.

- Obrigada - digo firmemente e começo a andar. Por dentro, minhas pernas parecem gelatinas e a vontade de chorar é enorme.

Afasto-me indo para o tal albergue. Porventura no caminho vejo uma loja de eletrônicos, compro o celular mais simples e fácil que achei, somente para receber ligações e mensagens, para futuras propostas de emprego. Surpreendo-me com a cortesia da moça que administrava essa casa. Ela hospeda famílias com quartos individuais, tendo que compartilhar os banheiros - que eram poucos - e a cozinha. Com um pequeno acréscimo, teria direito as três refeições diárias.

Não pensando duas vezes, aceitei na mesma hora, pois minhas habilidades culinárias se estendiam apenas até a canja de galinha do orfanato. Ainda que meu dinheiro fosse pouco, contava com minha própria predisposição a encontrar logo um emprego em algum lugar daquele caos urbano. Se todo o tempo livre que eu tiver, puder focar em buscar um trabalho com uma boa remuneração, assim ficará melhor em alcançar meu objetivo.

Escolhi o menor quarto disponível, contendo uma cama de solteiro e uma pequena cômoda. Respiro fundo ao entrar e fecho a porta. Aqui começa minha nova vida, com cortinas furadas e um leve cheiro de poeira.

Sento-me na cama colocando a pequena mala ao meu lado. Abrindo-a, retiro cuidadosamente minha manta e minhas poucas vestimentas, guardando tudo nas gavetas estreitas. Lembro que preciso adquirir pelo menos uns três conjuntos de roupas sociais para entrevistas e início de trabalho, se tiver sorte. Tenho que me misturar com as pessoas que vi mais cedo.

Encaixo a bolsa já vazia debaixo da cama e saboreio meu lanche, feito com tanto carinho pela cozinheira do orfanato. Ele será minha última lembrança daquele lugar. Gostaria de tomar um banho, entretanto nem sabonete tinha comigo, ou produtos de higiene.

- Bom, Violleta, está na hora de fazer umas compras e conhecer a vizinhança - digo em voz alta para mim mesma, me animando com a ideia.

****

Procurei caminhar nas ruas cautelosamente. Algumas horas apenas na cidade grande e já percebi como as pessoas daqui são imprevisíveis, hora podem ser gentis e prestativas, hora extremamente aproveitadoras e cheias de más intenções. A ruindade não vem estampada na face do ser humano, por isso, todo cuidado é pouco.

Gasto com moderação com coisas que necessitava, passando em algumas lojas de roupas, sapatos, e coisas para o lar. Não resisti e comprei alguns objetos para deixar meu humilde quarto, com cara de meu. Voltando ao albergue, a primeira coisa que faço é tomar um banho demorado, lavando minha pele e alma daquele orfanato. Dei atenção ao meu longo cabelo, lavando-o três vezes, me depilando por completo também.

No meu quarto me distraio decorando-o com os poucos objetos que adquiri. Coloquei um vaso de lírios em cima da cômoda e um tapete de crochê bonito no piso frio. Vi algo na loja que me encantou na mesma hora. Sempre tive medo do escuro, porque no orfanato não deixavam dormir de luz acesa, então vi um pequeno abajur de tomada colorido, com formato de borboleta. Sabia que me ajudaria a ter bons sonhos estando próximo de minha cabeceira.

Com pouco, tudo ficou perfeito para mim, deixando agradável e aconchegante esse pequeno retângulo que chamarei de lar pelo tempo que for necessário.

*****

DUAS SEMANAS DEPOIS

Os dias vão passando e meu nervosismo de achar um emprego também.

Aquele jornal que comprei do homem da banca não me trouxe sorte, e todos os outros dias igualmente. Estava gastando um dinheiro que não podia e isso estava começando a me preocupar. Folheava os classificados quase com agressividade, e curiosamente me interessei na coluna de pessoas desaparecidas. Imaginei minha própria foto estampando um daqueles jornais amarelados e baratos, e cheguei a cogitar em procurar meus pais biológicos, mas refleti melhor e desisti. Eles não me quiseram quando eu era apenas um bebê, não iriam me querer agora.

De volta ao que importava, tinha feito um bom currículo, com informações objetivas e minha foto no canto superior esquerdo, como padrão. Porém, o destino não queria sorrir para mim. Custei em entender o que estava fazendo de errado. Compreendi que no mundo tecnológico, os empregos e até currículos eram feitos todos virtualmente, presencial seria somente na entrevista. Aquele mundo era muito diferente da isolada cidadezinha do orfanato onde tudo o que existia era a igreja e as quitandas.

Dessa forma, descobri a Lan House. Pagava alguns centavos por hora, enviando não somente meu currículo como também buscando mais empregos pela internet. Sempre tinha vagas interessantes e a maioria pedia experiência na área. Mesmo assim, eu encaminhava esperançosa por alguma resposta positiva.

Meu celular não recebeu uma única ligação nessas duas semanas. Minha distração para não surtar ou entrar em depressão, foi ler novos livros que comprei num sebo perto de casa, e outras horas, um único joguinho eletrônico que tinha no celular. Estava realmente planejando buscar um emprego como balconista ou empregada doméstica, por não pedir prática ou graduação maior que a minha.

Deitada na cama, com meu livro em mãos, me marca uma citação que não sai do meu pensamento.

"No fundo é como te quero.

No fundo é onde você vive.

Me envolva em suas pernas,

Me afogue no seu beijo.

Me guarde dentro de você.

Me deixe ver sua alma.

Eu sou um monstro sem você,

Quando estou no fundo, você me torna inteiro."

- Leisa Rayven.

Que palavras lindas, fortes e contraditórias.

De repente me assusto com o toque do aparelho telefônico. Ele vibra em cima da cômoda. Meu coração quase sai pela boca de emoção e euforia. Por favor, Deus, que seja uma ótima notícia... Levanto-me apressada da cama, mas acabo escorregando no tapete, caindo de bunda no chão.

- Ai! - reclamo, apalpando meu bumbum dolorido. Mesmo com o desconforto, agarro o celular e atendo confiante. - Alô?

- Senhorita Violleta Santi? - Escuto uma voz feminina suave do outro lado da linha.

- Sim, sou eu - confirmo.

- Sou Carlota. Trabalho nos Recursos Humanos, na empresa Ferrari. - Nossa, eu lembro dessa candidatura, prédio bonito no centro e mulheres de salto alto. - Você nos encaminhou seu currículo para a vaga de secretária e o nosso presidente está precisando urgente de uma moça com suas qualificações. Você está disponível para esse cargo?

Como não estaria? Estou desesperada para trabalhar e ter uma renda! Espera, será que minhas qualificações seria meu curso simples ou minha foto ilustrada?

- Com toda certeza, estou - digo animada, com um sorriso entre os lábios. Eu precisava focar no que era importante: ter o que comer na próxima semana.

- Pode comparecer amanhã na empresa pelas oito da manhã? Falaremos sobre sua carga horária, benefícios e documentações.

- Estarei sem falta.

- Ótimo. Enviarei o endereço por mensagem de texto ao seu celular.

- Tudo bem.

- Perfeito.

- Obrigada. - Desligo dando pulinhos de felicidade.

Não acredito! Estou tão feliz. Antes tarde do que nunca. Valeu a pena esperar.

Contente, separo minha roupa e sapatos para amanhã, o mais próximo do que vi quando visitei a sede da empresa mesmo sem grandes sucessos. Desço para jantar, contando a novidade para quem estava na mesa de refeições me acompanhando. Todos se alegraram com a notícia.

Conto os minutos para logo amanhecer, ansiosa para saber o que me aguarda.

Capítulo 2 ETTORE

CAPÍTULO 2

Ettore Ferrari

Corro eufórico para pegar meus sapatos e colocá-los.

Irei visitar a filha dos Petrov. Faz alguns meses que quero conhecê-la, preciso estar bem apresentável. Mamma dá os últimos ajustes em minha gravata, deixando-me elegante e bonito, como sempre cochicha ao meu ouvido. Todos entramos dentro do carro com os "soldados" logo atrás, escoltando-nos em carros separados. Eles sempre estão em alerta, prontos para proteger a família de qualquer perigo iminente.

Olho pela a janela e vejo a neve caindo, dando o início ao inverno rigoroso da cidade. Gosto dessa estação do ano, imaginando que em breve poderia brincar nela, como uma criança normal faria, esquecendo assim o fardo que carrego com meu sobrenome "Ferrari".

Depois de alguns minutos finalmente o carro estaciona, e enfim, todos descemos. O sr. Petrov está na porta principal nos esperando, cumprimentando educadamente papà e mamma, com beijo no rosto e abraço apertado. Nossa famílias são muito unidas, e o carinho é enorme entre ambas.

- Como vai, pequeno Ettore? - O homem pergunta para mim, com um sorriso amigável nos lábios. Todos são tão maiores que eu que ele até se inclina um pouco para me ouvir melhor.

- Vou bem, sr. Petrov, e o senhor? - Retorno a pergunta.

- Melhor não tem como ficar, filho. - Ele diz, logo depois se volta para meus pais e comenta: - Vamos entrar, Ivana está no quarto esperando a todos.

Caminho ao lado do meu fratello Pietro, enquanto papà ficou logo atrás com seu velho amigo. Mammà vai à frente com minha sorellina Bianca em teus braços calorosos, batendo na porta assim que chegamos ao quarto. A empregada da casa abre e entramos.

Fico observando as duas mulheres conversarem coisas que eu não entendia, depois meus olhos avistam de longe o pacotinho dentro do berço. Volto a minha visão para mamma e a sra. Petrova.

- Posso chegar mais perto? - pergunto, enquanto apontava para o berço.

- Claro que pode.

Em passos largos, me aproximo ansioso para vê-la. Vejo-a brincar com as suas próprias perninhas, enquanto o sorriso banguela aparece para mim. Seus olhos são azuis... Um azul tão intenso e vivo, que fico hipnotizado por alguns instantes. São diferentes dos meus, escuros.

Ela para de brincar e nesse momento sem me preocupar com a possível bronca, pego-a nos braços, segurando-a com todo o cuidado do mundo. É leve e fofinha como um pão quente e cheiroso. Como uma coisa tão pequena pode estar viva e sorrindo daquele jeito para tudo? Acalento-a em meus braços, jurando para mim mesmo que a protegerei do mundo, e todos que ousarem fazê-la sofrer. Seremos melhores amigos para sempre e eu estaria lá para guardá-la com suas bochechas rosadas e sorriso inocente.

A sua pequenina mão vai de encontro ao meu rosto, tão delicada, mas já demonstra a força que possui. Sorrio, pego cheirando-a e sentindo o perfume doce, em seguida vou até o seu berço e apanho o seu ursinho de pelúcia, para brincar um pouco com ela antes de voltá-la para o seu lugar de antes.

Os tempo foi passando, e o minha ligação com a menina com olhos da cor do mar foi crescendo, porém não sei em qual momento tudo desandou.

Aurora foi sequestrada e nunca mais ouvimos falar sobre ela, nossa família entrou em guerra, pois os Petrov tinham convicção que os verdadeiros culpados fomos nós. Com tudo isso e a guerra que chegava à nossa porta, recebemos a terrível notícia que a sra. Ivana Petrova morrera de desgosto, depressiva amofinada dentro de um quarto pela perda de sua filhinha. Nunca me senti tão impotente mesmo sendo tão jovem, jurei proteger o bebê de olhos gentis e ela havia sido levada debaixo de nossos narizes! Eu nunca me perdoaria.

Dezoito anos se passaram, de vez enquanto me pego regressando àqueles dias. Claro que tudo foi uma grande armação para separar nossas famílias, éramos fortes demais quando aliados. Hoje, nosso maior e pior inimigo é o homem que já foi um grande amigo de minha família. Um Ferrari nunca faria mal a um Petrov, eu nunca faria mal a Aurora.

Com o decorrer do tempo, muitas coisas mudaram, dentre elas minha personalidade e temperamento. Como o novo chefe da famiglia, teria que tomar frente da nome sem questionamentos. Aurora, se estivesse aqui hoje, seria minha protegida com toda certeza. Ela foi e sempre será a única promessa que não consegui cumprir e que me corroía desde então.

Ouço batidas na porta tirando-me dos meus pensamentos. É Carlota, minha secretária.

- Senhor, chegou mais um currículo. - A mulher me entrega o envelope saindo logo em seguida.

Olho todos os requisitos da pretendente, mas o que me chama a atenção é a sua beleza inigualável, ela acabará de completar seus dezoito anos. Uma beleza genuína e inocente com um rosto esperto e olhos sagazes. Graduação simples, mas com notas altíssimas. Teria que dar para o gasto, pois não estava aguentando aquela porcaria de telefone tocando o tempo todo. Carlota já estava perdendo a cabeça, precisava de ajuda e eu de silêncio.

Faço uma ligação, encaminhando as informações ao meu "investigador". Exijo um resumo a fundo sobre esse mulher. Quero saber tudo sobre ela, até o tipo de sua calcinha se for necessário, mas a quero aqui amanhã nessa sala e espero que não tenha nenhuma ligação com os malditos Petrov ou qualquer outro puto que queira ferrar meus negócios.

Depois de resolver alguns assuntos pendentes, volto para a "sede". Minha casa, meu palácio repleto de guardas dispostos a dar suas vidas por mim e tirar outras. Por mais que quisesse beber e fumar na companhia de alguns deles e com meu irmão, eu precisava urgentemente de silêncio, porque até mesmo embaixo do chuveiro eu conseguia ouvir o maldito telefone tocando!

***

Cascittuni de merda...

Com desprezo olho para o corpo sem vida diante de meus pés, queria informações e quando as consegui, não tive muito trabalho para degolá-lo, roubando o restante de sua medíocre vida. O desgraçado era um dos poucos soldati que sobraram do massacre de poucas horas atrás. Ultimamente estou tendo bastante prejuízo com os chineses, mas esses elos podres da Cosa Nostra sempre rendiam bons informantes, aqueles cães sicilianos não tinham respeito. Dessa vez roubaram um contêiner abastecido com um arsenal avaliado em dois milhões de euros numa emboscada. Agora que sei onde estão, não perderei mais tempo em recuperar o que é meu.

- Junte os soldati. Quero aquele contêiner no porto em poucas horas - digo para meu irmão Pietro, que também é meu braço direito dentro da organização.

Dirijo-me até a sala onde se encontram os armamentos, pego minha Glock posicionando-a na minha cintura. Depois seguro la mia bellezza preferita - um rifle com ferrolho de alvo anti-material, capaz de destruir estruturas, veículos blindados, helicópteros. Irei fazer um grande estrago, só isso me trará a noite de sono tranquila que desejo.

- Os soldati já estão em seus postos, esperando o seu comando. - Pietro diz.

- Buona fortuna, viva 'Ndrangheta! Vamos acabar com aqueles desgraçados.

Entro no meu carro juntamente com meu irmão. Saímos pelo túnel subterrâneo. Quando chegamos ao galpão, fico no meu posto observando de longe com meu fuzil. Pietro e o restante dos soldados, invadiram o local. Daqui dou assistência, qualquer um que tente chegar perto de Pietro, elimino, fazendo seus miolos voarem pelos ares. Não demorou muito para que ele ficasse em perigo, era sempre tão impulsivo quanto um novato. Pela mira aproximada percebi que não se tratava nem mesmo de um capo, era um verme de menor posição, um sicário.

- Hora de começar a diversão, irmão - digo pelo comunicador.

Acerto um tiro na cabeça do chefe da gangue provocando um caos de balas e gritos. Pietro é um excelente atirador e exímio líder tático, foi como uma brincadeira para ele apagar todos. Ordenei que colocassem bombas espalhadas, assim que meu contêiner estiver seguro, esse lugar será apenas destroços. Ninguém rouba o que é meu e quando isso acontece, me certifico de fazê-lo pagar caro.

Vejo alguns dos meus soldados no chão, eles sabem do risco que correm todos os dias. Eles vivem para a família e que Deus os tenha.

Quando meu contêiner está na carreta, dou ordem para Pietro ligar o cronômetro. Todos se preparam para sair de dentro do galpão. Saio do lugar que estava indo para o carro que me aguardava. De longe ouço a explosão decretando minha noite bem-sucedida.

Assim que chegamos à sede, ordeno aos soldados para conferir minha mercadoria. Pietro ficará no comando, pois ainda preciso resolver algumas pendências na empresa. Hoje se tiver sorte, sairei com uma noiva daquele lugar. Tomo um banho rápido na sede, partindo logo em seguida.

***

Deixo meu carro no estacionamento privado na empresa. Alinho meu terno e entro no elevador, refletindo sobre cada passo que será dado. Domenico disse-me que preciso casar, assegurar que o clã continue quando eu me for. Faz mais de uma semana que estou à procura de uma esposa que esteja no meu perfil desejado. Poderia me casar com uma das mulheres da organização e assegurar uma aliança mais que vantajosa para o clã Ferrari, mas eu não precisava disso. Eu não queria isso.

Encaro a vista através da janela de minha sala, enquanto os minutos se passam. Tenho em minhas mãos o dossiê da mulher que em breve vai estar na minha frente. Em poucas linhas percebi que muitas informações eram incertas ou não faziam sentido, isso me deixou um pouco suspeito. Para todos os efeitos, ela estará fazendo uma simples entrevista para ocupar a vaga de secretária, se ela fosse uma informante da Camorra, da Cosa Nostra ou até mesmo dos Petrov, eu descobriria em apenas alguns minutos de conversa. Saio dos meus pensamentos ouvindo batidas na porta.

- Sr. Ferrari, posso mandá-la entrar? - Carlota pergunta, aceno positivamente.

Volto a ficar de costas, não demora muito para ouvir novamente a porta sendo aberta. Quando ouço passos ecoando no piso de mármore, me viro.

De todas as mulheres que já contemplei, essa é surpreendentemente uma obra de arte. Mesmo sem querer, meu olhos deslizam pelo seu belo corpo, apreciando suas curvas suaves que parecem ter sido moldadas à mão. O vestido que ela está usando me deixa atordoado, fazendo-me imaginar o que poderia encontrar por debaixo dele. É leve, nada como os tecidos pesados que manda o figurino social do prédio. Olho para o seu rosto e fixo o meu olhar na sua boca. Seus lábios carnudos me fazem querer prová-los, e assim descobrir o sabor que eles possuem. Ela parece constrangida ao perceber minha avaliação, tenho que me concentrar para não estragar nenhuma de minhas pretensões. Porém, devo concordar que a sua beleza é única e não seria nada mal fazer mais um Ferrari com alguém assim.

Saio do meu estado de torpor e digo:

- Sente-se, por favor. - Indico a poltrona, ela faz como digo balançando seus quadris em perfeita harmonia enquanto caminha, sentando-se em seguida.

Vou até minha cadeira fazendo o mesmo, com a documentação em mãos encaro-a pensando em como será a sua reação ao descobrir onde estará se metendo.

- Senhorita Santi, por qual razão você se acha merecedora de ganhar este cargo? - Seus olhos desviam dos meus, para encarar suas mãos, parece nervosa.

- Bom... Na sua empresa terei a oportunidade de crescer e evoluir profissionalmente. Irei me empenhar todos os dias para dar o meu melhor. Vou me dedicar cem por cento a esta empresa, garanto que senhor não vai se arrepender.

A todo momento encaro seus lábios, imaginando-os acariciando a cabeça do meu pau enquanto fodo sua boquinha. A sua resposta não me foi convincente, deixa claro a sua total inexperiência, mas mesmo assim se empenhou para responder, mostrando que de fato seria competente. Porém, a quero para outros fins. Se essa tal Violleta for uma informante ou qualquer coisa do gênero para qualquer outra organização inimiga, ela seria um bom trunfo para espiar o outro lado. Caso não for, há tantos outros modos de me beneficiar...

Resoluto, pulo para o ponto final. Entrego a documentação para ela assinar.

- Leia. - Ela abre um sorriso.

- Isso significa que a vaga é minha?

- Sim, agora leia o contrato.

- Não será preciso. - Diz, assinando todas as linhas sob meu olhar arregalado e surpreso. Ela não sabe o quanto isso pode custar caro, até mesmo sua vida! Ela parecia feliz demais fazendo isso, quase como se estivesse salvando sua pele. - Pronto!

- Ótimo, agora Carlota vai mostrá-la o que deve fazer. Na hora do almoço estarei esperando-a aqui, para almoçarmos juntos. Como você não quis ler o contrato, vamos discutir sobre alguns assuntos importantes a respeito da... contratação.

- Tudo bem.

Carlota vai distraí-la enquanto resolvo o restante das papeladas.

Disco o número de Pietro, quero avisá-lo de que duas boas vantagens acabaram de cair sobre meu colo. Sendo ou não espiã do outro lado, a jovem Violleta está a poucas assinaturas de carregar o sobrenome mais temido de toda Itália.

O meu.

Capítulo 3 Violleta

CAPÍTULO 3

VIOLLETA

Quando termino de acertar tudo naquela tarde, saio para um passeio na empresa para conhecer melhor o ambiente onde trabalharei. Optei por não ler o contrato, pois não estava em condições de reclamar ou exigir alguma coisa, estou precisando do dinheiro o quanto antes, caso contrário serei despejada ou pior.

Estou muito cansada, Carlota não deu trégua me fazendo andar por horas, mostrando cada canto dessa empresa. Por último, o sr. Ferrari me convidou para almoçar para falar sobre os termos que continham no contrato, me senti envergonhada por ter mostrado meu total desespero para a vaga de emprego, desse modo ele pensaria que estou desesperada, mas, é exatamente esse o caso, eu estou mesmo.

Na manhã seguinte, antes mesmo do despertador tocar, quando o sol ainda não mostrava os seus primeiros raios, me levantei ansiosa com a bendita entrevista. Queria impressionar o meu possível chefe, mas isso seria imprevisível por ser minha primeira vez, então nem sei ao certo o que fazer ou dizer. Porém, tenho uma certeza em mente, quero dar o meu melhor, impressionando-o com minha eficiência, qual pretendo me destacar profissionalmente e ao menos assegurar minha próxima semana de sobrevivência.

Antecipadamente vou ao banheiro iniciando meu banho, em seguida faço minha higiene da melhor maneira que posso. Antes de me vestir vou até a cozinha, e preparo um café bem rapidinho para beber antes de sair. Enquanto a água ferve, volto para o quarto apanhando o vestido branco que escolhi na noite anterior. Ele é bastante justo ao meu corpo; gostei dele pois apesar de marcar demais, ele não tem decote, deixando um ar de elegância e nada vulgar. Não quero causar as impressões erradas.

Termino de me vestir, depois volto para a cozinha para finalizar o café. Assim que me delicio de alguns goles da bebida energética, guardo tudo no seu devido lugar, para então partir. Quando percebi já estava mais que na hora de sair de casa, para completar os ônibus estavam demorando para chegar.

Maldito azar.

O coletivo chegou alguns minutos a mais do suposto e com esse trânsito lento nunca chegaria a tempo na entrevista. Como já estava perto das Empresas Ferrari resolvi descer, pronta para caminhar um quarteirão com saltos de quinze centímetros, e foi exatamente isso que fiz, e exatamente às sete e cinquenta e cinco entro - às pressas - no hall enorme e luxuoso que havia visitado ontem. Depois que me identifico na entrada, Carlota me conduz apressada para dentro do elevador, pois eu já estava atrasada para a entrevista, e ela deixou bem claro que o chefe não tolera atrasos.

Péssima primeira impressão, eu já estava ficando preocupada.

Depois que sou anunciada, Carlota me dá passagem para entrar na sala. Devido o nervosismo me obrigo a caminhar, tento fazer o mínimo de barulho quando fecho a porta atrás de mim. Levanto o meu olhar, ao fundo vejo o homem que poderá me contratar como sua secretária, de costas olhando a paisagem pela a janela de sua sala.

Estando tão desesperada em aceitar o emprego mal tinha reparado no homem. Agora que tinha aqueles segundos para apreciá-lo percebi que deveria ter feito isso antes. O terno marca a extensão de seus ombros fortes e largos, suas pernas são bem torneadas evidenciadas pelo tecido sob medida. Sua postura é bonita, altiva, e ele fica muito bem contra os tons acinzentados com o verde das árvores do parque à distância. Era como se ele fosse feito especialmente para ocupar aquela sala, para ocupar o topo do mundo.

Era de uma beleza um tanto intimidadora.

- Bom dia, sr. Ferrari.

- Bom dia, srta. Santi - cumprimenta, virando-se. Seu olhar percorre meu corpo como no dia anterior, e por um segundo me arrependo de ter escolhido aquele vestido ao invés do mesmo de ontem que marcava bem menos. - Você parece bem esta manhã.

- Eu estou. É bom acordar sabendo que não vou morrer de fome na semana seguinte - digo e imediatamente me arrependo de novo. Não é adequado falar aquele tipo de coisa para um chefe! E mesmo assim, o sr. Ferrari me oferece um sorrisinho de canto muito divertido.

- É bastante curioso ouvi-la dizer isso. - Sem saber se devo questionar, decido por ficar em silêncio, então ele novamente fala. - Eu quero ter certeza de que você está consciente de como as coisas funcionam por aqui, não será um trabalho simples, pode exigir... grande parte do seu tempo.

- Senhor Ferrari, não precisa tentar me assustar - digo com um sorriso gentil. - Eu tenho uma boa ideia de como é e não me importaria nem um pouco de ter o que fazer durante um dia tão longo.

O sorriso dele se abre um pouco mais, como se eu tivesse contado alguma piada ou ironia interna que só ele conhecia, isso me deixou um pouco apreensiva, porém se eu quisesse alguns trocados para sobreviver teria que dançar conforme a música.

- Nosso almoço ainda está de pé? - pergunta colocando as mãos nos bolsos. Ele fica menos assustador com a postura mais relaxada.

- Claro, sr. Ferrari.

- Muito bem, então. Carlota irá te instruir agora pela manhã com o básico, e durante o almoço eu irei te instruir com o "intensivo", se é que posso chamar assim.

Por que parece que não estamos falando da mesma coisa?

- Estou aqui para aprender, senhor - respondo o mais polida e agradavelmente possível.

***

Entro no seu luxuoso carro, e ele dá a volta para o lado do motorista, saindo do prédio, fico olhando a paisagem para não ficar mais nervosa do que estou, tudo fica em total silêncio, não me contendo com tamanha curiosidade. Carlota havia sido muito paciente comigo, me ensinou várias coisas sobre a organização da secretaria de Ferrari e até então não foi nada tão complicado que me fizesse ficar nervosa como estava agora ao lado de meu chefe.

Encaro pelo canto dos olhos o seu maxilar travado enquanto olha para a estrada. Nunca em minha vida conheci alguém tão agradável aos olhos. Sou madura o suficiente para não confundir as coisas, tenho certeza absoluta que um homem como ele jamais teria olhos para uma garota como eu. Enquanto ele dirigia carros esportivos, eu era espremida no transporte público. Enquanto ele deveria dormir com várias mulheres, eu estava descobrindo agora como era realmente estar perto de alguém do sexo masculino. Era enervante, mas instigante.

Olho disfarçadamente para as suas mãos em volta do volante, ele o aperta com um pouco de força, deixando à mostra as suas veias. Por um momento imagino qual seria a textura delas na pele... Como seria ser afagada por aquelas mãos... Elas são tão grandes... Oh, céus o que estou pensando? Isso nunca me aconteceu, nunca tive esse tipo de comportamento. Estou me sentindo uma depravada, quase como o homem da banca! Eu tinha de me conter, preciso respeitá-lo. E se ele for casado, ou tiver uma namorada?

Também não vejo resquícios de uma aliança em seu dedo, porém isso não significa que ele não tenha alguma mulher. Uma perfeita encarnação de Apolo como aquela era impossível que estivesse sozinho.

Quando chegamos ao restaurante, fico com receio pois está vazio, não há clientes, apenas um garçom, e assim que sentamos na mesa fazemos nosso pedido. Fico sem jeito de comer na frente de alguém tão importante, além do mais, posso sentir seu olhar queimar minha pele, pois desde quando nos sentamos o sr. Ferrari não tira seus olhos de mim, e de repente, fala:

- Não sou de enrolação, então vou direto ao assunto, Srta. Violleta. - Levo um susto quando ouço seu tom de voz bem mais grave que dê horas atrás. - O contrato que você preferiu não ler antes de assinar não era referente a um emprego na firma.

Engasgo com o suco que bebia. Ele deve está caçoando de mim, não está falando sério, visto que ele continue impotente, com ar de poder e confiança, indago:

- Como é?

- Era um contrato de casamento.

Era como se eu tivesse sido pega de surpresa por uma avalanche, e coisas assim eram impossíveis. Minha mente estava em negação.

- O senhor está brincando comigo? - pergunto ainda tentando parecer jovial esperando que não passasse de um absurdo.

- Não, não estou.

- Deve ter algum engano, pois não estou à procura de um casamento, se assinei aqueles documentos foi porque pensei que fossem cláusulas que falavam sobre o emprego, sr. Ferrari - digo pronta para me retirar da mesa, mas ele segura meu pulso com força.

- Você não entendeu, senhorita, mas eu vou lhe explicar melhor... - Ele faz um sinal com a mão, e no mesmo momento vejo, entrar no restaurante, homens fortemente armados. Fico trêmula por não entender o que está acontecendo. - Acho que não fomos formalmente apresentados, e como já tenho sua assinatura posso contar judicialmente com sua... discrição.

Fico estática olhando aqueles homens enormes preencherem o estabelecimento vazio. Onde foi que me meti? O que está havendo?

- Sou Ettore Ferrari.

O nome não me é nem um pouco familiar e ao perceber isso, ele solta um suspiro aborrecido.

- As notícias não chegavam no seu orfanato? - indagou retoricamente.

- Como sabe que eu... ?

- Eu sei muito sobre você, Violleta, mas o que me deixa intrigado é, na verdade, não saber nada.

Fecho meus punhos para conter o tremor nas mãos, tudo em volta indica perigo. Quero correr, fugir, mas a porta parece estar do outro lado do mundo com dois cães armados de terno guardando-a. Um dos homens entrega um envelope amarelo para Ettore sobre seu ombro e ele o pega sem deixar de olhar para mim largando-o sobre a mesa.

- Você não tem sobrenome, não tem raízes... Tem o nome comum de um orfanato no meio do nada e quer que eu acredite que chegou até aqui por coincidência?

- O senhor me trouxe aqui para me humilhar?

- Quieta, eu não terminei. - Ele me corta sem nenhuma delicadeza. - Você não tem para onde voltar, e não tem o que perder. Sabe o que isso parece, menina?

- Sei sim, que estou desesperada, mas a julgar pelo circo armado aqui chego à conclusão de que nenhum desespero no mundo vale isso! Passar bem, sr. Ferrari, seja lá quem você for! - Levanto-me pronta para ir embora e nunca mais chegar perto dele, meu corpo inteiro vibra de adrenalina e terror, e tudo isso se intensifica quando dois dos homens me agarram e me forçam a sentar novamente na cadeira. Sinto as lágrimas ameaçarem cair, minha garganta arder.

- Você não tem nada além dessa sua maldita beleza, Violetta - sussurrou ele. - Você sendo ou não espiã da Camorra, dos sicilianos ou da polícia, eu vou me aproveitar disso. Se for dos Petrov, ah, será o começo do seu fim.

Ele falava comigo como se eu fizesse alguma ideia do que ele estava se referindo, como se eu soubesse do que se trata!

- Camorra? Petrov? Mas do que é que você está falando?!

Ele apenas se recostou à cadeira tirando um grosso charuto do bolso, acendendo-o sem a menor pressa sob meu olhar aterrorizado e confuso. A fumaça subiu sinuosa entre nós, e senti um frio em minha barriga quando vi a escuridão em seu olhar, percebi que apesar de não saber do que aquilo se tratava, eu estava na presença de um homem extremamente perigoso.

- Sou Ettore Ferrari, como já disse. - Mais fumaça subiu. - Bem-vinda à 'Ndrangheta, bella mia.

Dio mio, o que está acontecendo?

Imediatamente fico de pé novamente, meu corpo reagindo inconsciente para se preservar, e todos apontam suas armas para mim. Ettore, com um pequeno aceno, pede para irem baixando. Ele se levanta, e se aproxima de mim só então evidenciando o quanto era grande. Seu dedo pousa sobre minha face, seus olhos percorrem meu rosto com raiva e apreciação misturados, sinto minhas pernas fraquejarem. Sem muita paciência, e com brutalidade me puxa pelos cabelos. Fico em choque, totalmente imóvel com a respiração dele soprando sobre minha boca e a dor na raiz dos fios. Um homem não deveria tratar uma mulher com tal agressividade. Solto gemidos de dor, quando o seu aperto aumenta.

- Agora mesmo vamos passar pelo seu apartamento, para pegar alguns pertences que você queira levar. - Sua voz era calma, mas todo o conjunto daquela situação a fazia ficar ainda mais assustadora. - Hoje mesmo você se muda para minha casa.

Ainda com sua mão em volta do meu cabelo, saí me arrastando para fora do restaurante me jogando dentro do carro sem cuidado algum, fazendo-me bater a cabeça na porta do carro, como se eu fosse um saco de lixo sem importância.

Sem conseguir mais segurar o choro - que até agora estava guardado -, deixei que saísse de uma vez. O silêncio dentro do carro só era quebrado por meus soluços e tudo o que eu queria era que alguma coisa magicamente acontecesse que me possibilitasse de fugir dali.

- Poupe suas lágrimas, você ainda nem viu nada, querida. Aconselho que você guarde isso para depois. - Para o meu desespero ele prontifica.

Lembro-me perfeitamente das palavras da cozinheira do orfanato, seu último conselho como um aviso sutil.

"Sua beleza sem cautela pode acabar sendo sua ruína, querida".

Fico sem conseguir acreditar na realidade dos fatos, estou sendo levada contra minha vontade, e mesmo estando tão pouco tempo com esse ser diabólico, posso afirmar que meu pesadelo apenas começou

***

Ettore sobe pessoalmente comigo ao apartamento e somos escoltados por dois homens de preto até a porta descascada do meu dormitório. Percebo o olhar enfadado dele pela mobília simples e até mesmo sobre as coisas que comprei com tanto apreço para fazer daquele pequeno quarto um lar.

- Você vai esquecer desse buraco de ratos tão rápido quanto pisou aqui - comenta esparramado sobre uma cadeira frágil que quase sumia por seu tamanho. Apenas devolvi o dito com um olhar fuzilante ao passo que enfiava meus poucos pertences na mesma mala que trouxe.

Olho rapidamente pela janela e penso se seria bem-sucedida se pulasse dela e corresse o mais rápido que pudesse para qualquer lugar. Talvez de volta para o orfanato, ou para baixo de qualquer ponte da cidade onde pudesse me misturar aos mendigos até que Ettore Ferrari esquecesse de minha existência.

- Eu não sou uma espiã - digo em voz alta, mais para mim.

- Claro que não é - responde ele, mas vejo o lapso de descrença em seu olhar.

Quando tudo já está pronto saímos do apartamento, Ettore mais uma vez me joga dentro do carro, durante o caminho para o destino que me aguarda, já pensei várias vezes, em abrir a porta e me jogar para ver se tinha alguma chance de escapar, mas quando me lembro dos homens armados, logo esse pensamento cai por terra. Se não morresse com a queda, seria com uma bala na cabeça.

Olhando a paisagem com lágrimas nos olhos, mal pude perceber que tínhamos chegado tão longe da cidade, estamos em um lugar cheio de árvores, de longe posso ver um lago, entramos em uma trilha de pedras com flores bonitas, mais à frente consigo ver um grande portão, com um muro extremamente alto, com cabines e homens armados, quando chegamos mais perto os portões são abertos, e quando passamos pelas muralhas de concreto, posso contemplar um lindo jardim com flores de todos os tipos, bem no centro tem um linda fonte jorrando água, tudo se completa com a linda mansão.

- Vai descer ou vai querer que eu te tire daí? - Mal pude perceber que o carro já tinha estacionado.

- Tenho minhas próprias pernas! - digo saindo do carro. Ettore me olha feio, mas não diz nada, um dos homens pega minha pequena bolsa, enquanto ele vai na frente, me deixando para trás. Outro capanga de terno me segura fortemente pelo braço, me conduzindo para o interior da casa.

Não consigo parar de admirar a beleza desse lugar, se fosse em outras circunstâncias, com toda certeza, ficaria muito feliz por conhecer um lugar tão bonito como esse, a linda mansão e seu encantado jardim. Porém só conseguia pensar se aquela casa seria minha gaiola de ouro ou meu matadouro.

Ettore abre a porta, e quando passo por ela fico morta de vergonha, pois vejo pessoas que devem ser sua família, todos me olhando. Há uma menina de cabelos escuros que parece ter a mesma idade que a minha, também um rapaz muito bonito que se parece muito com Ettore, provavelmente seu irmão, e a mulher loira e mais velha deve ser sua mãe, em um canto mais afastado, vejo um homem bebendo alguma coisa. O formato do rosto é idêntico ao de Ettore, como uma versão mais velha e experiente dele, com certeza é seu pai.

- Olá, me chamo Bianca, sou a irmã mais nova de Ettore! - A menina vem até mim se apresenta, mas não falo nada. Ela está sorrindo gentil, enquanto eu estou prestes a desmaiar de medo. - É um imenso prazer conhecê-la.

Não consigo responder.

- Olá querida, sou Sandra, a mãe de Ettore, aquele ali é Pietro, irmão dele, e ali no canto, é Domenico, o pai. - A senhora diz, enquanto aponta para cada um. Fico pensando se todos são doidos, ou se não sabem que estou aqui contra minha vontade. - Parece que finalmente acertou na escolha, querido, ela é realmente muito agradável aos olhos.

Sua expressão não muda. Está carrancudo, fechado. Encaro a todos num pedido silencioso de ajuda, mas nenhum deles parece entender, e se o fazem, ignoram com perfeição.

- Vamos Violleta, terá a vida toda para conhecer a famiglia, vou lhe mostrar onde vai ficar.

- Querido - chama a mãe -, se quer fazer isso logo, teremos que resolver as festividades. Não podemos casar o herdeiro e não contar a ninguém...

- Mais tarde, mamma.

Não tenho tempo de contestar, Ettore agarra o meu braço, me puxando rumo às escadas, todos ficam olhando a cena, mas ninguém diz uma palavra! Passamos por vários corredores até chegar em uma porta dupla, poderia facilmente me perder aqui, quando passo por elas há mais um corredor, e no final dele, Ettore abre uma porta me jogando em cima da cama no centro do cômodo.

Era enorme e macia, coberta por seda e tecidos finos, mas me senti como um saco de batatas, literalmente largado sobre eles.

- Na primeira oportunidade que eu tiver, eu fujo. Quando você desviar o olhar, eu não vou mais estar aqui. - Atrevo-me a dizer, mas assim que termino de falar, Ettore me agarra pelo pescoço, levando-me até a parede, apertando com toda força, me deixando sem ar.

- Ah é? - ameaça ele. - O que você acha que vai acontecer se você tentar fugir? Hein? Você acha que vão te dar um tiro na cara e acabou por aí? Você deveria saber que assim que tentar sair daqui sem a minha permissão, sua morte vai começar e vai durar por muito, muito tempo.

Arranho seu braço numa tentativa de que ele me solte, mas é em vão, pois ele aperta com mais força. Meus pés estão suspensos do chão, estou sufocando e minhas lágrimas molham sua mão, mas Ettore parece não se importar, e apenas quando estou perto de perder a consciência ele me solta, e sem forças, caio no chão. Ele me puxa pelo cabelo, encostando a boca em meu ouvido e falando:

- Se por acaso ousar me contrariar de novo será o seu fim, está me ouvindo? - Não tenho forças para responder, então apenas balanço minha cabeça, confirmando sua pergunta. - Muito bem, não foi tão difícil, agora você vai ficar aqui sem sair desse quarto, assim a ragazza pensa nas consequências da sua afronta.

Ele me larga, e mais uma vez vou de encontro ao chão frio. Sem ter forças para caminhar, vou me arrastando até a cama, pego o travesseiro e me aconchego nele. Meu pescoço dói, ainda posso sentir suas mão em volta, me apertando. Não foi assim que as imaginei sobre mim.

Entre as lágrimas e soluços, fecho meus olhos, para fugir deste terrível pesadelo, mas, quando abro novamente, caio na triste realidade. Isso aqui não é um pesadelo, é muito pior, estou no inferno sem ao menos merecer estar nele.

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