Shane Hayes e eu estávamos casados fazia quase dois anos e, durante todo esse tempo, ele quase nunca demonstrou interesse em transar comigo.
Então quando descobri que estava grávida no começo deste ano, ele parou de me tocar por completo, dizendo ter medo de machucar o bebê. Até parou de dormir comigo no quarto, se mudando para uma cama de solteiro que tinha no escritório.
Com apenas vinte e seis anos, casada e grávida, eu me via dormindo sozinha todas as noites. Me sentia completamente sozinha e infeliz.
Por puro tédio, acabei entrando em certos fóruns na internet para entender o que estava acontecendo. Um comentário específico chamou minha atenção. Uma pessoa disse que talvez a falta de interesse dele fosse porque ele já havia visto muitos corpos de mulheres em sua vida.
E, como Shane era obstetra, isso fazia sentido.
Contudo, havia um pequeno detalhe que continuava martelando na minha cabeça.
Sempre que ele entrava em seu escritório, trancava a porta. Não havia mais ninguém na nossa casa além de nós dois, qual a necessidade de passar a chave no seu escritório? Por acaso estava escondendo algo de mim?
Pensei tanto nisso que no fim se tornou uma das minhas maiores preocupações. Isso me incomodava tanto que começou a atrapalhar minha vida diária.
No fim, no nosso aniversário de casamento, não aguentei mais essa situação e decidi entrar lá depois que ele saiu para trabalhar.
O escritório dele era simples, limpo e arrumado. A única coisa trancada lá dentro era a gaveta grande da escrivaninha.
Felizmente, eu possuía uma chave extra dela, sem que meu marido soubesse. Não era como se eu tivesse planejado invadir sua privacidade algum dia, na verdade, fiz a cópia por me preocupar com ele. Se um dia perdesse a chave, pelo menos teria uma reserva.
Rapidamente abri a gaveta, mas não encontrei nada além de materiais de escritório. Não havia nada de estranho ali. Suspirei aliviada e a tranquei novamente. Havia saciado minha curiosidade.
Enquanto passava pela sua cama a caminho da porta, meus olhos inconscientemente se dirigiram até o travesseiro dele. Estanquei no meio do caminho.
Em cima dele, estavam dois fios de cabelo ruivo e encaracolado.
O meu cabelo era moreno e eu raramente entrava ali. Era impossível que aqueles fios fossem meus.
Minha atenção logo foi atraída pela lixeira ao lado da cama. Havia um cheiro inconfundível de sexo emanando dela e, quando me aproximei, pude ver vários lenços de papel usados.
Shane estava escondendo outra mulher na nossa casa?
Assim que essa ideia se formou na minha cabeça, comecei a suar frio.
Meus olhos varreram o ambiente. Não havia como um adulto se esconder ali.
Será que eu estava imaginando coisas? Além disso, acho que Shane não faria isso em casa. Quer dizer, se ele realmente quisesse me trair, certamente o faria em outro lugar, não? Não seria estúpido a ponto de trazer sua amante para casa onde estava sua esposa.
Talvez esses dois fios de cabelo pertencessem a alguma colega de trabalho ou paciente. Quanto ao conteúdo da lixeira... Bem, ele poderia muito bem ter se masturbado. Afinal, era um homem adulto e tinha suas necessidades.
Claro que Shane preferir se satisfazer sozinho ao invés de ficar comigo só me deixava mais triste.
- - -
À tarde, fui até o supermercado fazer as compras do dia. Como hoje era um dia especial, comprei uma garrafa de vinho tinto, apesar de não poder tomar álcool.
Apertei o passo para voltar a casa mais rápido. No entanto, com o passar das horas, foi ficando dolorosamente claro que Shane havia esquecido que dia era aquele. Ele estava bem atrasado.
Senti um turbilhão de emoções passarem por dentro de mim. Procurei respirar fundo várias vezes para me acalmar, mas então meus olhos pousaram na garrafa de vinho que tinha na minha frente. Aquela imagem trouxe toda minha decepção e raiva à tona, por isso não pensei duas vezes e saquei a rolha dela.
Já eram mais de dez horas da noite quando a porta de casa se abriu.
Saltei imediatamente da cadeira, me atirando em Shane assim que o vi. Seus braços se ergueram para me abraçar, porém seu rosto estava franzido em uma carranca.
"Você estava bebendo?", perguntou.
Passei meus braços ao redor do pescoço dele e ri, respondendo: "Só um pouquinho."
"Você está grávida", ele me repreendeu com uma voz carregada de desaprovação enquanto me segurava em seus braços. "Por que você foi beber?"
Fechei meus olhos e apoiei minha cabeça no seu ombro.
"Achei que jantaríamos juntos. Esperei e esperei, mas você não veio, por isso comi sozinha. Não se preocupe, foi só um cálice de vinho tinto, não vai afetar o bebê. Hoje fechamos dois anos de casados, por isso deveríamos celebrar", argumentei.
"Você está dizendo isso, mas na verdade está bêbada. Venha, vou levá-la até o quarto."
Shane me carregou no colo até o quarto e me colocou na cama. Quando se inclinou perto de mim para me acomodar, agarrei a oportunidade e passei meus braços ao redor dele para beijá-lo.
"Me beije, amor", pedi.
Contudo, a reação dele foi se enrijecer. Até me concedeu um beijo sem muito entusiasmo, mas logo se afastou do meu abraço.
"Não faça isso, Eveline Stone, pense no bebê que está crescendo dentro de você. Tenha mais cuidado daqui para frente."
Meus braços seguiam ao redor do pescoço dele. Encarei o homem com uma expressão convidativa, mas ao mesmo tempo sentia minhas preocupações também se infiltrarem no meu rosto.
"Você é médico, sabe que é seguro fazer amor depois do primeiro trimestre. É só ir devagarzinho. Não me afaste, amor, não essa noite", insisti.
No entanto, ele me afastou. Se endireitando, afrouxou a gravata e disse: "Vou tomar um banho."
Na verdade, eu não havia tomado nem uma gota sequer de vinho. Estava grávida e, evidentemente, sabia que não devia ingerir álcool. Tudo que fiz foi borrifar algumas gotas de vinho no meu pescoço para usá-lo de perfume na noite.
Ouvi a porta do banheiro se fechando e depois a água corrente do chuveiro. Cerca de dez minutos depois, Shane reapareceu. Ele passou reto pelo quarto, sem nem sequer olhar para mim.
Então ouvi a porta do escritório dele se abrir e fechar, com o som característico da fechadura sendo trancada.
Fiquei me debatendo embaixo dos lençóis por um bom tempo. Depois de uma hora mais ou menos, finalmente reuni a coragem que me faltava e coloquei meus fones de ouvido, pegando meu celular da mesa de cabeceira. Cliquei no aplicativo que estava conectado à escuta que eu havia adquirido.
Comprei ela de tarde, no mesmo supermercado onde comprei a comida e o vinho para nosso jantar de aniversário.
O escritório havia sido reformado antes de nos mudarmos e isolado acusticamente, não me deixando outra opção sem ser essa para descobrir o que estava acontecendo. Eu duvidava que Shane fosse desconfiar que eu havia instalado uma escuta embaixo da sua cama de solteiro.
Quando acessei o aplicativo, o som inconfundível de gemidos ofegantes chegou aos meus ouvidos. Um nó se instalou imediatamente na minha garganta. Meu nariz entupiu e meus olhos se inundaram de lágrimas.
Agora estava tudo claro para mim: o problema não era que meu marido não quisesse transar. Pelo som, na verdade, parecia que Shane transbordava de desejo, quase de forma incontrolável. Só que não era eu quem ele desejava.
No entanto, o que me chocou profundamente nem foi isso, mas sim o que escutei a seguir.
"Amor! Você é incrível, eu te amo muito! Grite mais alto, querida! Adoro ouvir você gemer de prazer."
As palavras despudoradas de Shane foram como um balde de água fria sobre a minha cabeça. Cada músculo do meu corpo se retesou, me deixando incapaz de me mexer.
Então escutei a voz da mulher ressoar pelos fones de ouvido. Ela gemeu mais alto quando ele pediu e os dois trocaram todo tipo de frases obscenas um com o outro. A julgar pela intensidade do grunhido deles, era óbvio que estavam transando de forma selvagem.
Cobri minha boca, pressionando forte o suficiente para sufocar o pranto que queria escapar da minha garganta. No entanto, era impossível reprimir minhas lágrimas.
Cada palavra do meu marido e cada gemido seu era como um punhal sendo cravado no meu coração. Sentia tanta dor que não conseguia fazer mais nada além de chorar em silêncio. Logo meu travesseiro ficou encharcado pelas minhas próprias lágrimas.
E, como não aguentava mais me torturar daquela maneira, arranquei os fones de ouvido da minha cabeça e me enrolei na cama como uma criança, abraçando minhas pernas com força.
Embora fosse verão e estivesse quente, eu sentia frio... muito frio. Meu corpo inteiro estava tremendo e, independente do quanto me tapasse com o cobertor, não conseguia me aquecer.
Naquela noite, chorei como nunca e praticamente não dormi.
Ainda assim, me recusava a acreditar que houvesse outra mulher no escritório dele, já que era impossível esconder alguém lá dentro. A única possibilidade que me ocorreu foi de que ele estivesse se masturbando enquanto falava com uma mulher por videochamada.
O que realmente estava acontecendo?
Nesse momento, me arrependi de ter instalado apenas uma escuta e não uma minicâmera. Deveria ter comprado a câmera, definitivamente.
Após uma noite inteira contemplando meu rancor e chorando sem parar, gradualmente fui me acalmando do choque inicial. Então decidi que entraria no escritório novamente para buscar mais pistas.
Na manhã seguinte, depois que escutei Shane sair para trabalhar, não me levantei de imediato. Ou, talvez, me faltasse a coragem de me levantar e enfrentar aquela situação. Embora realmente quisesse saber a verdade, temia o que encontraria no escritório dele.
Como estava numa luta intensa dentro da minha mente, não me levantei antes das dez da manhã. Mal havia dormido na noite paassada, portanto estava um pouco tonta pelo cansaço gora.
Passo a passo, fui até o escritório, me lembrando de tudo que aconteceu na noite passada. Conforme me aproximava, meus nervos foram se retesando e meu coração começou a bater mais forte.
O que me aguardava do outro lado daquela porta?
Assim que coloquei minha mão na maçaneta e estava prestes a abri-la, escutei a porta da frente de casa se abrir. Shane devia estar de volta.
Tirei minha mão dali com pressa, fingindo que só estava de passagem pela frente do escritório. Por fim, cheguei no sofá da sala e me sentei. Então, fingindo que nada havia acontecido, peguei o controle remoto de cima da mesinha de chá e liguei a TV. Estava tão nervosa que apertei vários botões sem querer antes de ligá-la.
Shane se aproximou de mim, me encarando. Temia que ele reparasse que havia algo de errado em mim. Afinal, passei a noite chorando.
Felizmente, ele não me fez pergunta nenhuma. Só me disse que havia pedido licença e queria me levar para viajar.
Ele era workaholic. Lembrei-me que nem sequer tivemos uma lua de mel depois que nos casamos. Portanto, pedir uma folga para passearmos era algo surreal vindo dele. Contudo, ele me contou que estava sendo negligente com seus deveres como marido porque nunca parava de trabalhar, por isso queria passar mais tempo comigo.
Talvez por causa da minha descoberta de ontem à noite, não senti nada além de hipocrisia nas palavras dele. Sendo assim, levantei minha cabeça e o encarei nos olhos, buscando por qualquer traço de dúvida ou medo neles.
No entanto, ele parecia muito calmo. Não demonstrava em absoluto que havia me traído e seu comportamento me fez pensar que eu estava imaginando coisas.
Fingi que nada tinha acontecido, arrumei uma mochila pequena e desci as escadas com ele.
Eu já tinha vinte e seis anos agora, não era mais a garota impulsiva que costumava ser. Por enquanto, precisava garantir que a verdade viesse à tona antes de deixá-lo saber da minha descoberta.
Achei melhor usar a vantagem do segredo e esperar para ver o desenrolar das coisas. Mas me enganei profundamente.
Embora fosse madura para a minha idade, ainda não conseguia antecipar as situações antes que fosse tarde demais.
No final, caí direitinho em sua armadilha, permitindo que ele me jogasse nos confins do inferno.
Fomos para um lugar não muito longe dali. Era uma cidade turística chamada Tonyin. Levamos cerca de duas horas para chegar lá de carro depois que saímos de casa.
As acomodações para os hóspedes na pousada em que ficamos eram bem rústicas, sendo constituídas por cabanas de madeiras espalhadas em meio ao campo. Shane escolheu uma que ficava mais afastada e junto da montanha, dizendo que deveria ser a mais tranquila de todas.
Quando ele abriu o porta-malas para pegar nossas coisas, vi que havia um kit cirúrgico lá dentro também.
Por isso olhei para ele confusa.
"Você está grávida, trazê-la aqui pode ser um pouco arriscado, não concorda? Achei melhor estar preparado para qualquer eventualidade", Shane explicou.
Assim que terminamos de acomodar nossa bagagem na cabana, fomos visitar os principais pontos turísticos de Tonyin.
Como eu estava grávida, caminhava lentamente e, para minha sorte, ele não parecia estar com pressa alguma. Fiquei surpresa que Shane diminuiu seu passo para ficar ao meu lado e tampouco se esqueceu de me ajudar quando começamos a subir a montanha.
A maneira como estava falando e se comportando era digna de um bom marido. Isso me fez pensar que talvez eu realmente estivesse imaginando coisas demais e sendo paranoica sobre o que aconteceu no escritório dele. Podia muito bem ser que ele só estivesse procurando se excitar em uma videochamada com alguma amiga online, nada além disso.
No meio da montanha, me senti exausta, por isso me sentei em um patamar para descansar.
Nesse momento, Shane apontou para algumas árvores floridas bem próximas à encosta, falando que o cenário ali era pitoresco. Sugeriu de tirarmos fotos minhas ali.
Sendo assim, me sentei ao lado de uma árvore dessas. Shane falou que o ângulo não estava muito bom, por isso dei uns passos para trás conforme ele pediu. Nem um segundo depois, resvalei em uma pedra solta e rolei montanha abaixo.
Ao pensar na criança que carregava em meu ventre, senti um desejo imperioso de sobreviver. Depois de rolar várias vezes, consegui me segurar em uma árvore.
Embora não tivesse morrido, conseguia sentir a dor subindo do meu baixo ventre. Não demorou muito para que eu ficasse coberta de suor devido à força que estava fazendo. Ainda assim, me recusei a soltar a árvore.
Tinha um mau pressentimento de que a criança no meu útero corria perigo.
Após algum tempo, vários turistas e funcionários do local correram para me ajudar. Eles vieram de todas as direções, visivelmente em pânico.
"Eu sou o marido dela!", Shane gritou. "E médico obstetra", acrescentou.
Então, se espremendo no meio da multidão, ele me pegou no colo e correu montanha abaixo.
Me agarrei em suas roupas com força, suplicando com a voz fraca: "Amor, faça o que for preciso para salvar nosso filho."
Enquanto ele se movimentava rapidamente, olhando sempre para a frente, respondeu: "Não se preocupe."
Contudo, tristemente nosso filho foi perdido no processo. Como se tratava de uma emergência, Shane precisou induzir o parto.
Quando acordei, o céu já estava escuro e meu marido não estava ao meu lado.
Conferi meu celular e vi que já passavam das dez horas da noite.
Me perguntei onde Shane teria ido a essa hora da noite.
Me levantei da cama para procurá-lo. Contudo, quando cheguei perto da porta, escutei alguém conversando lá fora e parei para prestar atenção.
"Ela teve muita sorte dessa vez, mas não se preocupe. Pelo menos o bebê já se foi", escutei a voz de Shane dizer.
As palavras dele foram como um relâmpago me atingindo, me chocando até o âmago.
Não conseguia acreditar no que ouvi. Na verdade, não queria admitir que aquilo estava realmente acontecendo. Cambaleei para trás, mal ficando em pé contra a parede.
Mordi as costas da minha mão com força, me forçando a ficar em silêncio. No entanto, não consegui segurar minhas lágrimas.
Caí, sem duvidar nem por um momento, na armadilha dele.
No final das contas, o homem com quem fui casada por dois anos inteiros, que todos achavam se tratar de um anjo, na verdade era o diabo em carne e osso.
Me dei conta que estava errada em várias coisas. Nunca deveria ter dado asas às minhas crenças sobre o amor.
Assustada e atônita, voltei para a cama para fingir que ainda dormia.
Após algum tempo, Shane voltou e se sentou ao meu lado. Quando confirmou que eu não havia acordado, se levantou e saiu.
Assim que ele deixou o quarto, me levantei em um pulo e corri até a janela para olhar.
Vi a figura diabólica do meu marido se perder lentamente no meio da noite. O que mais me chamou a atenção foi o saco preto que ele carregava em sua mão.
Por algum motivo, meu instinto me mandou segui-lo.
Meu coração dizia que o meu filho estava dentro daquele saco.
Com essa certeza cada vez mais consolidada dentro de mim, senti uma onda de dor subindo pelo meu corpo e querendo me sufocar.
Vendo que ele já estava bem distante, peguei meu celular e corri para fora, vencendo a fraqueza que sentia depois do aborto. Não me importava se meu útero ainda sangrava, só queria deixar aquele lugar o mais rápido possível.