- Já faz 15 dias que estou nesse caso sem sucesso, sem novas pistas, sem nada. - Fernando joga as pastas longe da mesa. - Mas que droga!
O sargento vê Fernando com as duas mãos na cabeça. - Já começaram a me pressionar Fernando. Não temos muito tempo.
- Eu sei... - Fernando responde com uma ruga na testa.
- Esse caso é da unidade de vítimas especiais, eles nos deixaram iniciar porque fomos nós que encontramos a vítima. - O Sargento Luiz Peronni era um homem corpulento, pele negra, cabelos curtos, braços fortes, e olhar firme. Era um bom chefe, fazia o que fosse pela sua equipe. Mas já estava se estressando com Fernando querendo fazer tudo sozinho.
- O que quer dizer com isso? - Fernando não queria perder o caso. Era muito importante. Era um caso de assassinato em série. Sua expressão se fechou ainda mais.
Sargento Peronni não estava aberto a conversas. - Amanhã, ouça bem, amanhã Rebeca Lorone virá e começará a trabalhar com você nesse caso... - Fernando tentou interromper mas foi calado com um aceno de mão dado por Peronni. - Não temos tempo Favaretto! Não pode ficar querendo fazer tudo sozinho. Somos todos uma grande equipe, trabalhamos pelo bem da nossa cidade. - O sargento estava falando de forma firme e clara, olhando bem nos olhos de Fernando. - Ela virá, e você vai passar todo o caso para ela, vão trabalhar juntos e espero que seja uma ótima parceria e que resolvam esse caso de uma vez.
Fernando bufou de indignação. - Ok!
- Você é um dos meus melhores homens, sei que dá conta de muita coisa, mas esse caso... - O sargento sacudiu a cabeça. - Esse caso é urgente, precisamos prender esse maluco.
Fernando encarava o chefe, nunca vira o chefe tão comovido com um crime como estava com esse. Era um caso horrível de estupro seguido de assassinato, mas não era apenas isso, o assassino também havia pintado de roxo as unhas da vítima antes de matá-las. O que batia com outros casos não resolvidos, em cidades próximas, onde as vítimas tiveram suas unhas pintadas de roxo antes de serem assassinadas. Tudo se encaminhava para um assassino em série.
Na última semana foram dois casos. E não havia pistas. Estava sem saída. Peronni tinha razão, precisavam de ajuda extra.
- Você tem toda a razão chefe. - Fernando se levantou da mesa, circulando-a ficou de frente para o chefe e estendeu a mão. - Vamos prendê-lo!
Peronni, retribuiu o aperto de mão. - Era isso que eu precisava ouvir. Amanhã assim que ela chegar trago-a aqui para começarem no caso.
***
Rebeca, estava há 6 meses na unidade de vítimas especiais. Trabalhara duro com sua equipe nesse tempo, tinha como parceiro Jonathan. Que era também um de seus melhores amigos. Visto que o trabalho tomava conta de muito tempo, não tinha como ter outros amigos senão, os do trabalho. Ela e sua equipe eram unidos, pegavam junto nos casos e todos saíam felizes e realizados com os resultados. Claro, que nem tudo eram flores, tinham suas diferenças, e também acontecia de ter casos em que não obtinham sucesso.
Dentro da equipe ela era a "novata" então tentava mostrar que estava ali para enfrentar o que viesse. Quando falaram do novo caso intitulado: Unhas roxas, se arrepiou inteira.
- Que horror! - Rebeca falara com os olhos arregalados e mãos no peito.
Apesar de estar na polícia há algum tempo, não se acostumava com as atrocidades que viam. Escolhera a Unidade de vítimas especiais, por querer cooperar com algo que tinha a certeza de ser justo dentro da corporação. Eram responsáveis por casos de violências sexuais, que eram em sua maioria cometidos contra mulheres. Investigavam desde os casos mais simples até os mais complexos. Como esse que surgira neste momento.
- Precisamos que alguém vá até a delegacia de policia local para auxiliar diretamente na investigação do caso Unhas roxas. - Dissera seu chefe. - Ficaremos aqui investigando e buscando informações, cooperaremos entre as delegacias. Antes que ele desse continuidade Rebeca se levantou a mão. - Rebeca?
- Eu me disponibilizo. - Rebeca queria se destacar, estava no começo, e sentia-se na obrigação de fazer algo relevante.
- Ok! Então Rebeca vai. - O chefe continuou. - Precisaremos sermos rápidos e atentos, nada pode falhar. Estamos lidando com um assassino em série. E pelos sinais que temos até aqui, considera-se que é um psicopata. - Pegou um pouco de ar. - Tomem muito cuidado. Agora, todos estão dispensados, comecem as buscas e investigações, perguntem pra quem for. Falem com seus informantes, amigos, qualquer um, mas me tragam novas informações.
Sargento Antônio Velasques era correto e determinado. Nada passava por ele. Estava no comando já faziam quase 10 anos. Ele sentia o cheiro de problemas a km de distâncias. Era um moreno alto, corpo forte, rosto firme e palavras ásperas.
- Rebeca, você vem comigo!
Rebeca gelou. Ai meu Deus, será que fiz mal em me candidatar? Ia com um gelo na barriga atrás do chefe. Ao chegarem em seu escritório, Velasques esperou-a entrar e fechou a porta atrás dela.
- Sim, senhor?
Velasques sabia que Rebeca queria mostrar serviço, ela era muito competente, tinha reação ágil e era correta em suas ações. Quando ela se ofereceu ficou feliz, ela não se deixava intimidar, e nesse caso precisavam de alguém assim.
- Detetive Lorone, sente-se.
Rebeca se sentou-se em silêncio, sentindo as pernas formigarem de nervosismo.
- Fiquei muito satisfeito com sua disposição no caso.
Rebeca respirou aliviada. - Que bom Sargento. - Sorriu um pouco mais confiante.
Velasques assentiu. - Vamos repassar o caso, amanhã você irá direto para a delegacia de homicídios, irá trabalhar com Fernando Favaretto, responsável por casos de Elite. Ele foi designado para esse caso por ser um dos melhores detetives que temos.
- Ok! - Luana ouvia tudo atentamente.
- Ele é um homem muito legal, amigo e divertido, no entanto no trabalho ele é implacável. Ele se transforma. Não seja imprudente, não misture as coisas. Ele é solteiro e ... - Velasques sabia que estava soando ridículo, mas precisava avisá-la, não gostaria de perder uma boa detetive por um casinho amoroso. - ele é muito mulherengo.
Luana estava perplexa com o que ouvia. Quem ele achava que ela era? Uma qualquer que saía com qualquer homem solteiro. Ela já estava abrindo a boca para responder, quando Velasques ergueu a mão, como pedindo que ela ouvisse até o fim. Rebeca só ia ficando cada vez mais vermelha. Sentia seu rosto arder.
- Sei que você tem sido muito honesta e responsável no trabalho. Mas estou falando sobre isso, porque não quero que você se apaixone por ele e depois se atrapalhe no trabalho.
- Não vou me apaixonar por ele? O que é isso ? - Rebeca estava horrorizada e seu rosto demonstrava seu desgosto.
- Rebeca... - Velasques falava devagar, tomando cuidado para não ofendê-la. Ele gostava dela, era uma boa moça e uma detetive excelente. - Não estou a julgando, estou falando pois sei que ele é um Dom Juan com as mulheres. Ok?
Rebeca achava que argumentar e debater não adiantaria muito. Mas estava chateada com o rumo da conversa. Cruzou os braços no peito e respondeu de cabeça erguida por entre os dentes. - Ok, sargento.
Velasques parecia aliviado por ter falado sobre isso. - Ok, agora vamos ao caso!
Assim passaram o resto da tarde e início da noite, repassando os detalhes do caso.
"Homem branco, altura mediana, olhos azuis, cabelos castanhos, uma cicatriz no queixo. Abordava as mulheres em pontos de ônibus por volta das 20hs, sempre nos centros das cidades. Pedia informação, e depois as seguia, esperando o melhor momento para atacar. Sempre atacava mulheres brancas de cabelos castanhos, baixas, magras e que estivessem sozinhas.
Ele cometia crime sexual com elas e após pintava as unhas das vítimas de roxo. Após as matava com um tiro na cabeça. Sempre da mesma forma. Já haviam 8 casos como esse, sem resolução. Ficou um tempo sem atacar, não se sabe porque, mas duas semanas atrás cometeu seu primeiro ataque novamente, depois de 7 dias, outro ataque.
Era metódico, sempre a cada 7 dias. Já estavam se aproximando de um novo possível ataque.
Tinham encontrado restos de pele nas unhas da última vítima, o que possibilitou um exame de dna para tentar descobrir a identidade do homem."
- O resultado sairá amanhã Rebeca, passe no laboratório pegue o resultado e coloquem no sistema. Espero que tenham mais sucesso que nós.
- Claro senhor. Faremos o máximo para pegar o cretino.
- Por hoje é só. - Olhou o relógio. - Já são 20hs, vá para casa, descanse, e amanhã esteja pronta!
- Sim senhor! Muito obrigada, vamos nos falando. - Rebeca se despediu e foi embora.
Ao sair da delegacia, Rebeca inspirou o ar fresco da noite. Os últimos dias tinham sido quentes e chuvosos. Era um milagre um dia com temperatura amena. Saiu a passos largos até seu carro. Apesar de estar em frente a delegacia, se arrepiava em lembrar-se do caso que estavam repassando.
Rebeca possuía um Fiat Mobi Branco. Era um carro popular e ela o conseguiu em uma promoção excelente. Era confortável e tinha ar condicionado. Tudo que ela precisava. Olhando as horas novamente, Rebeca resolveu passar no supermercado, comprar algo pré pronto para jantar.
Rebeca pegou alguns itens que faltavam em casa e foi para a seção de congelados. Pegou uma pizza congelada de lombo canadense com catupiry e um escondidinho de carne moída. Ao se virar esbarrou em um homem.
- Oh me desculpe, senhor.
O homem a olhou de alto a baixo, com um sorriso leve nos lábios. - Sem problemas senhorita. - E saiu.
Rebeca se arrepiou com aquele homem, a voz dele era aveludada, mas escondia algo. Rebeca balançou a cabeça. - Meu Deus estou ficando muito afetada com esse caso. - Mais uns passos e olhou para trás, e lá estava aquele homem de novo. Parado no mesmo lugar de antes. Focado nas comidas congeladas.
Rebeca se apressou para o caixa. Depois desse caso, pediria umas férias, precisava aliviar a cabeça.
Rebeca entrou em casa e encontrou sua mãe assistindo televisão. - Oi mãe, cheguei.
Rebeca morava com sua mãe e irmã. Seu pai tinha morrido quando ainda era criança, desde então, as três eram inseparáveis.
Ramona, mãe de Rebeca era uma senhora muito simpática, trabalhava como contadora e vivia para sua família. - Oi, meu amor, como foi seu dia ?
- Mãe ... que loucura... estou em um caso de arrepiar, não quero nem falar...
- Oi Beca. - A irmã de Rebeca tinha 17 anos, estava no último ano do ensino médio. Era a cópia mais nova de Rebeca. Loira de olhos verdes, magra, com seios fartos e quadril largo.
- Oi Lari. - Rebeca foi abraçar a irmã. Depois se atirou no sofá ao lado da mãe. - Tô um bagaço. Trouxe pizza e escondidinho, já jantaram ?
- Ainda não. - Respondeu a mãe de Rebeca.
- Então vamos lá, encher a pança! - Larissa pegou as sacolas e correu para a cozinha.
***
Fernando não conseguia dormir, estava preocupado com o caso. Não podiam falhar nessa. Era muito perigoso um cara com esse estar solto ainda. Bufou exasperado. Ainda teria de receber ajuda de outro departamento. Se sentia frustrado, mas não tinha outra opção.
- Favaretto, com licença. - O sargento entrou na sala de Fernando.
Fernando ergueu a cabeça para encontrar o chefe acompanhado de uma bela mulher. Cabelos longos e loiros, pele bronzeada, olhos verdes, um nariz empinado, e uma boca carnuda. Vestia-se com uma calça preta e blusa verde escuro. Era magra e curvilínea ao mesmo tempo, os seios saltando do decote da blusa. Ela parecia uma sereia, que quando abrisse a boca iria encantar todos à sua volta.
- Venho lhe apresentar sua nova parceira para o caso "unhas roxas", ela veio especialmente para esse caso, ela é da Crimes Especiais. - O sargento já havia dito tudo aquilo pra ele, mas repetia para fortalecer o entendimento de Fernando. Ela não trabalhava para ele e sim com ele.
Fernando entendeu o que seu chefe estava querendo dizer, sorriu. - Muito bem-vinda, senhorita?
- Rebeca Lorone. - Ela estendeu a mão para Fernando, que pegou e depositou um beijo no dorso da mão.
O sargento revirou os olhos. - Espero que consigam fazer uma boa dupla e resolver esse caso. Estamos sendo pressionados. - E saiu sem olhar para trás.
Rebeca olhou para aquele homem com um olhar de desdenho. Ela detestava mulherengos e soube antes mesmo de conhecê-lo por uma colega de trabalho que deveria ter cuidado, pois ele era um Dom Juan. Fora o alerta de seu próprio sargento.
Fernando não imagina os pensamentos de Rebeca. - Vamos ao trabalho?
- Vamos! - Rebeca se surpreendeu, bem, pelo menos ele estava sendo profissional, era isso que se esperava de um policial detetive tão bem conceituado com ele.
Rebeca mostrou o resultado do DNA para Fernando. Colocaram os dados no sistema. Não constava nada de antecedentes criminais. Seria mais difícil descobrir quem era o lunático assim. Luana bufou. Fernando sabia o que ela estava pensando, e estava da mesma maneira, inconformado com esse caso.
Passaram a tarde conferindo o caso. Revendo os depoimentos e as descrições das vítimas. Fernando estava compenetrado nos papéis a sua frente. Rebeca usou a deixa para averiguar os detalhes daquele homem.
Ombros largos, forte, alto, cabelos escuros, duas covinhas que apareciam quando ele dava um sorriso grande, e que sorriso, uuuuh pensou Rebeca, sentindo-se corar. Mas o mais impressionante naquele homem eram os olhos, eram de um azul incrivelmente azul. Como isso era possível? Parecia que mergulhava em um céu límpido de verão. Enquanto viajava nos traços de Fernando, pegou-se olhando para suas coxas grossas e pareciam firmes também, passou a língua nos lábios.
- Tudo bem Rebeca? - Uma voz despertou-a de seu transe, ao erguer a cabeça, encontrou os olhos marotos de Fernando, com uma sobrancelha erguida e um sorriso descarado no rosto. - Gosta do que vê?
Rebeca abriu a boca envergonhada em ser pega: - Não! - respondeu por entre os dentes. - Já está tarde. Chega por hoje, vamos embora?
Fernando pegou-a o inspecionando de cima a baixo. Achou graça do rubor dela. - Vamos! Pra minha ou pra sua? -Fernando perguntou.
Surpresa com a pergunta, Rebeca se virou para ele com os olhos estreitos, sem entender a pergunta: - Minha ou sua o que?
- Casa.
Rebeca estava ouvindo mal, só podia ser isso!
- Eu vou pra minha e você pra sua! - Pegou sua bolsa e foi embora.
Fernando riu. - Ai ai, não adianta resistir Rebeca, logo logo você verá que só há um lugar para você, e é na minha cama. - Desligou o computador e foi para sua casa.
Ao chegar em seu apartamento Fernando se atirou no sofá. - Pensando bem, será bom ter companhia para trabalhar. Rebeca além de linda, parece ser muito inteligente e sagaz. Gostei. - Fernando conversava consigo mesmo. - Amanhã sairemos para conversar com algumas testemunhas, e pessoas da família das vítimas. Teremos progresso! - Se levantou e foi tomar um banho para relaxar e ir dormir.
***
Mais um dia cheio de conferências em papéis, amanhã iriam para ação. - Teremos sucesso!
Rebeca chegou em casa eram 19hs, estava cedo, aproveitou para tomar um banho demorado. Pensando no Fernando bonitão. - Ainda bem que me avisaram. O cara é um gato! - Rebeca se deixou lembrar dos olhos azuis, daquela barba mal feita, das covinhas... - Opa Rebeca! Para com isso sua louca, ele é um mulherengo, todos te avisaram. Não vai cair no papo dele! - Rebeca falava pra si mesmo, dando tapinhas no rosto.
Essa noite Rebeca conseguiu dormir melhor. Se sentia preparada para completar esse caso e colocar aquele assassino horrível na cadeia pra sempre.
***
Rebeca acordou em cima da hora. - Droga! Droga! 7:40hs, tenho que correr. - Rebeca tinha que estar na delegacia as 8hs, Fez um rabo de cavalo nos cabelos, colocou uma calça jeans azul escuro, uma blusa preta, agarrou a bolsa e saiu gritando: - Tchau mãe, tô atrasada, não vou tomar café.
- Não mesmo, então pegue aqui um bolinho e compre um café quando chegar lá.
Rebeca pegou o bolinho correndo e saiu apressada. Ontem cometera o erro de usar uma blusa com decote, viu os olhos de Fernando encarando seus peitos. Mas fez de conta que não vira. Hoje, apesar de atrasada, ela se vestiu com uma blusa menos provocante. Entrou no carro e acelerou para a delegacia.
***
Fernando esperava Rebeca na frente da delegacia, já eram 8:05hs e ela ainda não chegara. Já estava enfurecido. - Devia ter pego o telefone dela! - Quando ia voltar para a delegacia para pedir para ligarem para ela, viu-a descendo de um carro e correndo em sua direção.
- Olá Rebeca. - Disse em tom seco. - Está atrasada. - Falou encaminhando-a para um carro preto estacionado um pouco a frente da delegacia.
Rebeca se enrijeceu com o toque. - Desculpe, perdi a hora, mas não acontecerá novamente. - Vendo para onde ele a direcionava, perguntou: - Para onde iremos primeiro?
- Primeiro vamos ao trabalho da última vítima. Já falamos com eles e anotamos tudo. Mas vamos novamente, tentar achar algum furo, algo que nos traga uma luz.
- Ok!
Entraram no carro, Fernando sentou na direção. Virou-se para Rebeca. - Tive uma boa primeira impressão de você, espero que possamos trabalhar muito bem juntos. - E deu um daqueles seus sorrisos charmosos, em que as covinhas aparecem e os olhos brilham.
Rebeca não esperava por essa. - Ah.. an, obrigada. Você também. - Sorriu levemente apenas para retribuir a gentileza. - Agora vamos ?
- Vamos.
Não obtiveram muitas novidades no trabalho dela. Fernando estava pensativo.
- Eu não consegui até o momento encontrar ligação entre as duas vítimas, o que você acha ?
- Bem, pelo que revisamos do caso, este homem não está se vingando das vítimas em si, mas está encontrando nelas algo em comum que lhe desperta essa reação. - Rebeca falava com calma, com voz firme e controlada.
- Hum, pode explicar melhor?
- Veja, são sempre mulheres brancas, morenas, baixas e magras. A idade é por volta dos 25 a 30 anos. Elas não estão relacionadas entre si na vida, mas na aparência apenas. Conversamos com um psiquiatra que está ajudando no caso, e ele acredita que seja um assassino em série, que sofreu algo de uma mulher com essa aparência, e agora ele busca vingança em mulheres que se pareçam com a verdadeira causadora da frustração. Entende... ? - Luana o olhava com curiosidade.
Enquanto ela falava, Fernando admirava a sagacidade, a vibração que ela emitia, o entusiasmo ao entender tão bem o caso. Quando ela perguntou se ele entendia, ele disse convicto: - Você está completamente certa! - Parou um momento pensando, então disse: - Vamos para a família da vítima, falar com eles, se foram ameaçados, perceberam algo diferente, qualquer coisa...
- Mais uma coisa detetive Favaretto...
- Me chame de Fernando.
- Fernando... Amanhã fecha mais um ciclo de 7 dias.
Fernando socou com força o volante! - Ele pode atacar de novo né?
- E ele já percebeu que estamos em seu encalço. É péssimo dizer isso, mas na próxima vítima ele pode cometer algum erro e aí pegamos ele!
Fernando concordou, frustrado com a ideia de ter que perder mais alguém para achar esse psicopata.
***
Visitaram os pais da moça, o namorado, os amigos... nada de novo. Agora iriam, para o local do crime, averiguar se escapou algo.
- Argh esse lugar me causa arrepios. - Rebeca olhava o espaço cercado por fitas amarelas impedindo que outras pessoas avançassem na cena do crime.
- Em meus anos como policial vi muitas coisas terríveis, mas ainda assim, eu me impressiono com as coisas. E lamento que talvez não consigamos impedir esse cara de fazer outra vítima.
- Hoje será o enterro da última vítima certo? - Rebeca teve uma ideia.
- Sim... o que tem ?
- Vamos lá, que horas são ? Você sabe?
- Pra que irmos lá?
- Pensa comigo, assassinos em série, são malucos né? Eles geralmente ficam com algo da vítima, mas não sabemos se ele pegou algo, porque esse cara tem um estilo diferente, ele pinta as unhas de suas vítimas. Já ouvi casos que os assassinos vão nos velórios e enterros das vítimas, como que pra .. sei lá, eles são malucos né...
Fernando tinha as ideias a milhão. Fora muito bom que Rebeca viesse, ela estava vendo o caso por uma perspectiva muito boa e diferente da dele. Ela não focava nas vítimas e sim no criminoso.
- Certo! Acho que dá tempo de pegarmos o enterro, vamos...
Correram de volta para o carro e foram para o local do enterro da última vítima. Uma moça de 26 anos, branca, cabelos e olhos castanhos, baixa e magra.
Ao chegarem no local se distanciaram para olhar bem para todos os presentes. Por serem detetives, não costumavam usar uniforme, o que facilitava pra se infiltrar em locais públicos sem serem descobertos.
Fernando se afastara de Rebeca e procurava um homem branco, altura mediana, olhos azuis e uma cicatriz no queixo. Ele só tinha que se concentrar e procurar bem. Estava a alguns passos de distância de Rebeca, e pode ouvi-la. - Aquele cara...
Fernando virou-se para ela, e se aproximou: - O que você viu ?
- Aquele cara, a a esquerda, atrás da mãe da vítima.
- O que tem ele.
- Há dois dias, eu esbarrei com ele no mercado, ele parecia estranho. A voz dele me deixou incomodada e o jeito que ele focava nas comidas congeladas... era muito estranho...
Fernando, observou o homem ao qual Rebeca se referia, ele tinha altura mediana, da distância que estava não conseguia ver a cor dos olhos ou se tinha uma cicatriz. - Você olhou ele no mercado? Ele tinhas olhos azuis ou uma cicatriz no queixo?
- Não... ele tinha olhos castanhos eu acho, e não tinha nada de mais no rosto, que chamasse a atenção. Mas ele é estranho...
- Vamos até lá. - Fernando saiu na frente a passos firmes.
Rebeca o seguia quase correndo. Ao chegarem próximo ao homem, ele a encarou, os olhos brilhando e aquele leve sorriso no rosto, o mesmo do dia do mercado.
Fernando tomou a iniciativa: - Olá somos detetives que investigam o caso da morte da moça... O que você era dela? - Fernando notou que o homem encarava Rebeca e sentiu um calafrio.
- Olá, senhorita. lembro de você do mercado, nos esbarramos outro dia.
Rebeca, sustentou o olhar. Se aquele maluco achava que ia assustá-la estava muito enganado.
- Sim, eu me lembro.
Fernando interveio. - O senhor não respondeu minha pergunta.
- Oh que descuido o meu... sou Dr. LeBlanc, Alexandre LeBlanc.
- De onde conhecia a vítima? - Fernando pegava cada detalhe daquele homem.
- Eu... não, não conhecia a vítima. Só estava passando e vim dar meus pêsames.
- O senhor poderia nos acompanhar por favor?
- Estou preso? - LeBlanc encarava Fernando diretamente nos olhos, com um leve sorriso nos lábios.
- Não senhor. Porque? Deveria?
LeBlanc deu uma gargalhada, que chamou a atenção de todos no local.
- Oh me desculpem. - Falou com tom suave na voz, arrepiando Rebeca até a o couro cabeludo. - Se não estou preso, temo que tenho que ir, ou me atrasarei para meu próximo compromisso. - Virou as costas e saiu.
Fernando e Rebeca ficaram perplexos, se encararam.
- Ele é suspeito pra mim. - Rebeca falava.
- Eu também acho. Vamos descobrir quem ele é. Vamos voltar para a delegacia.
Já eram quase 21hs, ainda estavam na delegacia.
Dr. LeBlanc era médico pediatra, tinha 35 anos e morava num bairro rico da cidade. Sem antecedentes criminais.
- Mas uma testemunha disse que o suspeito tinha olhos azuis e uma cicatriz... - Poderíamos conversar com a testemunha novamente, quem sabe um retrato falado. Assim poderíamos ver se eles se parecem, mesmo sem cicatriz ou olhos verdes. - Fernando falava enquanto buscava nas pastas os nomes das testemunhas.
Rebeca ajudou-o a buscar nas pastas os nomes das testemunhas, para achar qual falou da aparência do suspeito. De repente Rebeca xinga. - Merda! Merda! Merda!
- O que foi? - Fernando a encara assustado.
- Dr. Alexandre LeBlanc, testemunha número três, passava pelo local quando viu um homem correndo do local em que a vítima foi encontrada. Estava em uma parte bem iluminada da rua e pôde ver o rosto do suspeito. - Rebeca leu o que estava na ficha.
Fernando socou a mesa com força! - Desgraçado! Ele zombou da nossa cara!
Telefone de Rebeca toca: - Detetive Lorone.
Rebeca ouve com atenção. Desliga o telefone e encara Fernando com lágrimas nos olhos.
- Encontraram mais uma vítima.
Fernando empalideceu. Abriu a boca mas nenhum som saiu. - Ele se apressou. Era só amanhã o sétimo dia.
- Ele deve ter percebido que desconfiamos dele, e se descontrolou.
Rebeca se levantou. - Vamos para a unidade de vítimas especiais. Precisamos de mais ajuda. Vamos encontrar esse homem.
- Ok, mas antes vamos no local do crime, pegar evidências, ele é esperto, mas ele está desesperado.
- É a hora que ele comete um erro.
***
Fernando e Rebeca chegam na cena do crime, as mesmas evidências, mulher, baixa, pele branca, olhos e cabelos castanhos, tiro na cabeça e... unhas pintadas de roxo.
Rebeca sente um calafrio percorrer seu corpo. Fernando percebe e franze o cenho. - Está com frio ? - Ele pergunta, mesmo sabendo que não está.
- Nã... não... é só essa situação toda. Que crueldade, que loucura. - Rebeca responde e Fernando assente.
Ambos verificam a vítima, colhem alguns dados de pessoas que passavam pelo local e como a encontraram.
Depois vão para a unidade de vítimas especiais.
A delegacia está um alvoroço. Todos em choque porque não acreditam que deixaram mais um crime acontecer.
Rebeca toma a frente. - Já temos um suspeito. - Ela respira fundo enquanto todos a encaram. - Alexandre LeBlanc, médico pediatra. - Todos se surpreendem, um pediatra? alguém questiona.
- Sim... - Fernando responde. - Precisamos saber onde ele trabalha, e onde estava na hora dos crimes. Isso pra começar.
- Também precisamos de um mandado de busca na casa dele. Urgente!
***
Policiais por toda a parte, entrando na casa de Dr. LeBlanc, revirando sofás, armários, tudo que veem pela frente. Fernando e Rebeca estão de luvas, ajudando na busca. Dois outros detetives foram no hospital perguntar por LeBlanc.
"Vruuum Vruuum" o celular de Rebeca vibra. Ela não olha.
"Vrummmm Vruuuummm Vrummm" uma ligação, Rebeca olha o identificador de chamadas e é sua Mãe.
Afasta-se um pouco de Fernando e atende. - Oi mãe. Estou trabalhando.
Seus olhos se arregalam quando ela ouve a voz do outro lado, seu coração começa a bater rápido demais, suas pernas amolecem e seu estomago se embrulha. "Ai meu Deus, é ele. É aquela maldita voz." Rebeca amolece e desmaia.
Fernando vê Rebeca se afastar, percebe que ela fala com alguém em voz baixa, de repente ela desmaia. Fernando corre até, ela, pede que tragam água. Outro detetive corre e se aproxima com a água.
- Rebeca, Rebeca... - Fernando dá batidinhas em seu rosto, e joga um pouco de água. - Rebeca...
Rebeca dá um salto: - Minha mãe, cadê meu celular... - procura pelo chão, Fernando o entrega sem entender, ela disca o número e cai na caixa postal. - Merda!
Fernando a olha com ar interrogativo, ainda preocupado.
- Era ele, LeBlanc, ligou do celular da minha mãe. - Rebeca deixou lágrimas escorrerem, mas seu olhar não era de medo, era de raiva, determinação.
Fernando endureceu o semblante. - Vamos encontrá-la. Eu juro.
Rebeca assente. - Podemos ir na minha casa agora ? Preciso ver se minha irmã está lá, ou ... - Balança a cabeça.
- Claro, vamos para lá agora. Pedirei reforços. - Fernando faz uma ligação e se afasta. Volta encarando Rebeca bem nos olhos. Por um momento ele enxerga o medo nos olhos dela, mas é breve. Ela o encara e diz: - Vamos?
- Vamos.
Ao chegarem na casa de Rebeca, Fernando toma a frente, Rebeca vai pelo lado direito da casa, abaixada para não ser vista por quem esteja dentro da casa, em sua cola vem outro policial armado.
- Nada. - Rebeca faz movimento com os lábios para o policial a seu lado.
Ambos entram pela janela lateral, enquanto ouvem a porta sendo arrombada. - Droga! - Rebeca pensa. Devia ter dado a chave, assim não teria feito tanto barulho. Correm pela casa procurando por alguém. Nada. A casa está vazia.
A cada passo que dá, Rebeca sente que vai vomitar. A cada passo perde um fio de esperança. - Aquele verme! - Ela grita, enquanto todos se encontram na entrada sem encontrarem ninguém na casa. Sai a passos largos para fora. Sente-se sufocando. Corre, corre, corre.
Rebeca não sabe pra onde está indo, apenas corre, tentando desesperadamente controlar as lágrimas. Que merda Rebeca! Ela pensa. Porque você não podia ser uma professora, ou uma dentista... porque ser policial e arriscar a vida dos que mais ama. Rebeca sentia que não podia mais correr, sua garganta ardia, com o ar que entrava por sua boca, o suor escorria por seu rosto e pescoço.
Fernando corria alucinado atrás de Rebeca. - Mas que mulher que corre rápido, pensava enquanto corria. REBECA, REBECA PARE, POR FAVOR! - Ele gritava atrás dela. Quando percebeu que estava sem folego e parou, ele correu mais rápido e a alcançou.
Rebeca sentiu um par de mãos fortes a virarem, ela fechou os olhos e começou a lutar com ele. Ela nem mesmo sabia com quem lutava, mas não podia deixá-lo vencer.
De repente uma boca colou-se na sua. Rebeca abriu os olhos. Encontrou Fernando com aqueles incríveis olhos azuis a encarando com desespero no olhar. Seus lábios estavam colados nos dela. Ela fechou os olhos. Fernando aprofundou o beijo, sentindo-a relaxar. Foi um beijo calmo, um beijo terno e acalentador.
Fernando se afastou e a abraçou. Neste momento Rebeca se deixou cair. Chorou até não ter mais lágrimas. Sentou no chão. - O que vamos fazer ?
Fernando estava a vendo tão vulnerável, quase não acreditava que era a mesma mulher forte e determinada de antes. Sentiu-se compelido a abraça-la, mas não queria exagerar. Ela poderia entender mal.
Suspirou. - Estão tentando localizar o celular de sua mãe. - pensou por um momento. - Não o encontraram no hospital também.
Rebeca soluçou. Fernando não aguentou mais e a abraçou. Estava sentado ao lado dela, meio de lado, a abraçou sentindo o seu perfume misturado com suor. Aquilo o excitou. Merda! O que estava havendo com ele!?
Se afastou, se levantou. - Vamos Rebeca. Precisamos encontrá-las.
Rebeca se levantou, respirou o ar da noite e foram em direção a sua casa. Ela nem percebera que tinha corrido tanto, estavam a várias quadras de distância.
Quando chegaram encontraram todos esperando-os. Assentiram para Rebeca e foram fazer uma revista na casa. Quando telefone de Rebeca toca novamente. Ela congela. - É o número da minha mãe.
- Quer que eu atenda? - Fernando se oferece.
- Não. - Então ela mesmo atende o celular. Apertando tanto o aparelho que os dedos ficam esbranquiçados.
- Alô. - Diz com voz firme.
- Olá, querida Beca. - Ele fala com a voz aveludada que tanto anoja Rebeca.
- O que você quer LeBlanc?
- Quero você!
- Se soltar minha mãe e minha irmã.
- Ótimo! Venha buscá-las então. Mas venha sozinha. Ou você já sabe o que acontecerá a elas.
Rebeca engole o nó que se forma em sua garganta. - Quero ouvi-las antes. Passe o telefone.
Um silêncio se ouve, Rebeca pensa que ele irá recusar, quando ouve a voz de sua mãe. - Beca.
Sua voz está embargada, percebe-se que chorou. - Mãe, vou tirar vocês daí. - Sua mãe interrompe. - A Lari... - sua voz falha. O telefone é tirado dela. A voz de LeBlanc surge novamente no telefone. - Meia hora. Você tem meia hora ou eu as mato! - E desligou.
Rebeca não sabe o que fazer, se for sozinha é capaz de ele matar as três, caso não vá sozinha ele mata elas.
Fernando olha naqueles olhos que são como esmeraldas, e vê dúvida, medo, indecisão... Mas que droga! - O que ele disse Rebeca? - Fernando fala sério, já imaginando o que o homem na ligação pediu. Ela não responde. - Você não irá sozinha a lugar algum ouviu bem? - Fernando a sacudia pelos braços.
- Eu preciso, ou ele vai matá-las.
- Não mesmo! Esse caso é de todos nós e vamos salvar sua família! - Fernando falava com convicção, quase acreditou nele mesmo, mas seu coração batia descompassado. Não se perdoaria se algo acontecesse a Rebeca. Apesar do pouco tempo juntos, ele sentia-se conectado a ela.
A equipe foi redirecionada para o endereço que LeBlanc passou, todos com cuidado e escondidos para não serem descobertos antes da hora certa.
Rebeca entrou no prédio abandonado em que dava o endereço passado, seus passos eram lentos, não querendo fazer qualquer barulho. Parecia se tudo ao seu redor estava suspenso, não havia ar para respirar. Rebeca deu mais alguns passos, pegou sua arma devagar, e com passos lentos continuou no escuro. Seus olhos já estavam se acostumando com a escuridão e se adaptando.
Fernando estava do lado de fora. Cada segundo parecia uma eternidade, como concordou com aquele plano? Tudo que fizera em sua vida foi ser um bom policial, ótimo detetive e se manter seguro. E manter os seus seguros também. De repente se deu conta que estava considerando Rebeca como uma das suas. Sorriu por dentro. Esperava poder dizer isso a ela.
- Já passaram 5 minutos. - Fernando olhava para o sargento, pedindo que fizesse algo.
O sargento o olhou e ergueu a mão, o mandando esperar mais um pouco. Fernando sentia o suor escorrer na face, as suas mãos formigavam enquanto segurava a arma. Sentia seus pés gelados na botina, o colete a prova de balas o incomodava embaixo dos braços, o lembrando de que poderia levar um tiro a qualquer momento. Pensar nisso o deixava mais tenso, pois se fosse assim, Rebeca já estaria também baleada.
Engoliu seco. Fechou os olhos e tentou se acalmar. Precisava se concentrar. Agora entendia porque evitavam deixar as pessoas que trabalham juntas namorarem, ou ter envolvimento em caso de família envolvida. Mas Rebeca não era nada sua, porque estava tão desesperado?!
PÁ! PÁ!
Um tiro, dois tiros. Ouviu o sargento gritando, mandando todos entrarem. Fernando corria como se sua vida dependesse disso, e talvez dependesse mesmo.