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Meu Doutor - Envolvida no Amor Proibido

Meu Doutor - Envolvida no Amor Proibido

Autor:: Anne Elliot
Gênero: Romance
Amor proibido + Slow burn + Segredo + Superação + Age gap + Gravidez Jullian Müller é um médico renomado em Londres. Filho único, sempre viveu à sombra da responsabilidade, colocando o trabalho acima de tudo. Desde que assumiu o hospital fundado por seu pai, sua vida tem sido regida por regras e perfeição - até o dia em que ela apareceu. Mônica Fontenelle é uma jovem brilhante, formada em medicina por Harvard. Simples, doce e de inteligência notável, sempre teve a mãe como prioridade. Quando soube que dona Alice precisava de cuidados, não hesitou: abandonou tudo e voltou para casa. O destino cruza os caminhos dos dois quando Jullian, em busca de reforço para sua equipe, contrata Mônica para a ala de ginecologia. O que ele não esperava era se apaixonar perdidamente. Pela primeira vez, ele deixa os planos de lado e mergulha em um amor que muda tudo - inclusive o que ele achava que sabia sobre si mesmo. Mas há um segredo que Jullian guarda a sete chaves. Será que Mônica será capaz de perdoá-lo e viver esse amor que virou sua vida do avesso? Ou os valores que aprendeu com a mãe falarão mais alto? 18+ Desejo à vocês, uma ótima leitura!! " O amor verdadeiro não pede permissão, ele simplesmente acontece  e quando chega, transforma tudo ao redor."

Capítulo 1 A noiva traidora

Jullian Muller

Já é tarde, quando passo pelos portões de ferro retorcido da casa da minha família. Hoje, particularmente, resolvi vir ver como estavam meus pais e meus avós. Com o trabalho no hospital, mal tenho tempo de vê-los. Porém, quando piso para o interior da sala, penso que deveria ter ido direto para o meu apartamento. Esse assunto de noivado está acabando com o resto de paciência que me sobra, mas estou a um passo de acabar com toda essa safadeza, da parte da minha "noiva", é claro.

- Boa noite, mamãe. Oi, vovó - entro em casa e vejo minha mãe e avó sentadas na sala, conversando alegremente. Dou um beijo na testa de cada uma e me sento na poltrona de frente para elas. - Estão bem animadas, querem dividir o assunto? - pergunto, mas já estou curioso para saber o que está rolando.

- Estamos falando sobre o seu casamento. A Stefany está retornando ao país, então, estamos bem animadas - diz minha avó, que está sentada ao lado da minha mãe.

Não consigo controlar a cara de desgosto que o assunto me traz, e as duas logo percebem. Não é segredo para ninguém que eu não quero me casar, principalmente com Stefany Costa. Nunca gostei dela, mas meus avós insistem nesse casamento, especialmente por eu ser filho único.

Stefany é o tipo de menina mimada, que gosta de tudo do seu jeito. É a mais velha de duas irmãs. Crescemos praticamente juntos, eu sendo mais velho que ela, pelo menos seis anos. Estudávamos na mesma escola, onde ela enchia a boca para dizer que era minha namorada, mas nunca aceitei esse título. Dei graças por terminar os estudos e iniciar a faculdade; como escolhi um curso totalmente diferente do dela, ela acabou indo embora para outro país, retornando ao menos uma vez ao ano para visitar a família.

Ela é uma mulher muito bonita, sempre foi, não posso negar. Desde menina, encantava o sexo oposto, embora evitasse se envolver com eles, pelo menos na minha presença. Até porque, tinha que se mostrar perfeita, pois era minha prometida, e eu sempre gostei de tudo muito certo. Mas, eu já tinha ouvido, escondido é claro, que um amigo ou outro havia "pegado" ela no escurinho, no caminho de casa.

A partir do momento em que ouvi isso pela primeira vez, decidi, ali naquela hora, nunca mais me envolver com ela, pois não era digna. Eu já não a suportava, então, para mim, aquilo foi a gota d'água. Porém, como eu iria provar que ela era esse tipo de pessoa? Como iria entrar na cabeça dura dos meus avós que ela estava traindo o compromisso feito? Pois bem, tudo se comprova com testemunhas ou provas concretas, e era isso o que eu estava fazendo: juntando tudo.

Certamente, eu já havia avisado que não me casaria. O motivo? Também expliquei. Mas fazer nossos avós entenderem estava bem complicado. Deixava então o assunto rolar e somente ouvia, até que chegasse o momento certo, que estava bem próximo, aliás.

- Vocês sabem a minha opinião quanto a esse assunto. Stefany não é a santa que se propaga para todos - falo, levantando-me da poltrona, onde estava confortavelmente instalado.

- Esse compromisso foi selado por nós. Escolhemos a melhor do nosso círculo social, então não me venha com essa que não irá se casar! - Minha avó diz, novamente.

- Fico imaginando a pior - resmungo para mim mesmo, mas elas ouvem.

- O que disse, seu pirralho? - Minha avó levanta a cabeça e me desfere um olhar digno de reprovação. - Eu não aceito outra neta que não seja ela. Stefany pode ter seus defeitos, mas é uma boa menina, estudiosa e educada.

- Só essas qualidades ela possui, né, vovó? Porque honrar com o nosso compromisso, isso ela não fez muito bem.

- Esse assunto novamente?! Sugiro que o guarde para você. Logo sua noiva estará de volta, e já iremos marcar um jantar entre a família para decidirmos as datas comemorativas. - Minha mãe apenas observa a guerra que se instala ali, toda vez que a palavra "casamento" é mencionada.

- Estou cansado desse assunto. Vou para o meu quarto, o plantão foi pesado hoje.

- Volta aqui, menino! Eu ainda não terminei de falar! - Estou subindo a escada, quando ouço minha avó gritar da sala, porém minha mãe tenta acalmá-la.

- Calma, mamãe. Deixe que falo com ele.

Termino de subir os degraus, indo diretamente para o meu conforto, mais conhecido como quarto. Ali, eu tinha a tranquilidade e sossego de que tanto gostava, principalmente pós-plantão. Fui direto para o banheiro, deixando meu jaleco pendurado devidamente em seu lugar. Mesmo estando sujo, tomo muito cuidado, por ser meu objeto de trabalho mais importante.

Ligo a ducha na água quente, para tomar um banho relaxante, porém rápido. Assim que termino, a desligo e me enxugo, enrolando a toalha na cintura. Estou com os músculos tensos, então me jogo confortavelmente em minha cama. Permaneço ali por vários minutos, com os olhos fechados, apenas buscando relaxar meu corpo. Quando sinto o meu celular vibrar, já até imagino quem seja, por isso, nem me atrevo a olhar a tela, apenas atendo à chamada.

- Estragou o meu momento de paz. O que é raro!

- É um privilégio para você a minha ligação, então não reclame. Deveria ter escolhido outra profissão. - Meu melhor amigo, Alex, fala do outro lado da linha.

- O que você quer? Fala logo! Estou cansado e quero continuar com meu momento de paz.

- A Abigail me ligou para dizer que encontrou a Stefany. Ela disse que, entre dois a três meses, estará de volta.

- Tão rápido assim? Sabia que estava voltando, mas não esperava que fosse agora.

- Então, liguei para informar o noivinho feliz. - Ele dá uma gargalhada alta, o que me faz afastar o telefone do ouvido.

- Idiota! Sempre feliz com a desgraça alheia, né?! Mas isso será por pouco tempo, logo acabo com essa alegria toda.

Conversamos mais um tempo, marcamos um jantar e, enfim, desligamos. Agora sim, poderei curtir o meu bom e delicioso quarto. Porém, uma batida na porta me faz repensar no descanso. Não é possível! Autorizo a entrada da pessoa atrás da porta, então a maçaneta gira e minha mãe entra.

- Oi, meu filho. Posso entrar?

- Claro, mamãe, entre. Vou vestir uma calça e já retorno - falo, levantando-me e indo em direção ao meu closet. Retorno em seguida, devidamente vestido, com uma calça e uma camiseta. Encontro minha mãe sentada na beirada da minha cama, onde me coloco ao lado dela. Ela pega em minha mão e começa:

- Filho, me desculpe por sua avó. Sabemos que, às vezes, ela excede um pouquinho, então a perdoe. - Ela inicia com o famoso pedido de desculpas de sempre. Meus pais são mais maleáveis, principalmente quando o assunto é o meu casamento.

- Eu sei, mamãe, por isso já não discuto mais. Simplesmente a deixo falar. Contudo, eu não estou feliz com esse assunto, especialmente conhecendo a Stefany como eu a conheço.

- Eu e seu pai te apoiamos em suas decisões. Apenas faço parte das conversas com sua avó pelo fato de respeitá-la. No entanto, o mais importante, meu filho, é a sua felicidade. Somente faça o que é correto, como sempre te ensinamos.

- Sim, mamãe, eu agradeço muito pelo apoio seu e do papai. Isso me deixa bem mais aliviado. Realmente, eu não quero me casar. Apesar de estar muito bem posicionado na minha carreira, sinto que ainda não é o momento de tomar uma decisão, pelo menos, não agora.

- Só quero que escolha alguém que realmente te faça feliz. Irá acontecer naturalmente. Você já não é mais um menino, meu filho. Eu e seu pai já estamos ficando velhos, queremos netos correndo pela casa. - Ela fala e sorri; eu retribuo o sorriso gentil que ela me direciona.

Meus pais se casaram novos. Devido à diversão, ela acabou ficando grávida e foi obrigada a se casar. Apesar disso, eles se amavam muito. Na época, minha mãe ainda estava decidindo o que fazer da vida, e acabou não cursando faculdade, deixando essa parte para o meu pai, que já estava estudando medicina.

Quando ele se formou, montou um pequeno consultório, onde minha mãe o ajudava com as consultas. Os pacientes foram chegando e as especialidades do meu pai foram aumentando, o que acarretou ter que admitir alguns funcionários. Porém, três anos após, aquele espaço também ficou pequeno. E em poucos anos, ele conseguiu construir um hospital.

Hoje, sou o responsável pelo hospital. No início, ficava por conta somente dos atendimentos, o que mais amo. Então, meu pai decidiu se aposentar, e foi quando assumi a presidência.

Sou feliz assim. Atualmente, aos trinta e quatro anos, montei uma equipe ótima que me ajuda com tudo. Portanto, posso finalmente exercer minha função: ser médico em tempo integral. Foi complicado no início, pois meus pais diziam que eu deveria tomar conta de tudo. Mas, com muita conversa, eles aceitaram o que eu tinha em mente, e sou muito grato por isso.

Capítulo 2 Uma mulher bonita, de pele clara, com algumas sardas no rosto

Jullian Muller

Cada dia que passa, penso em uma forma melhor de atender os meus pacientes. Confesso que tomar conta de um hospital não é fácil, sempre há algo novo para fazer ou adaptar. Fomos considerados o melhor hospital-base de Londres e, com isso, procuro sempre manter o foco para continuar sendo o melhor, sucessivamente.

Coloquei um programa bem legal aqui, que seria atender uma demanda de pacientes gratuitamente. No início, o projeto foi bem difícil, mas depois, colocando em prática e com alguns ajustes, ficou perfeito. Com isso, é inevitável a contratação de alguns médicos e enfermeiros, como também atendentes para a recepção de vários setores.

Hoje é um daqueles dias intensos. Após um plantão exaustivo ontem, agora meu trabalho é como presidente. Temos uma reunião muito importante, na qual irei analisar e selecionar alguns currículos para a contratação de novos médicos.

Cheguei cedo no hospital e já fui direto para a minha sala, na presidência. Passei pela minha secretária, Clara, e pedi um café, educadamente. Ela já está comigo há longos seis anos, é muito responsável e dedicada no que faz e, quando não estou, sempre resolve os assuntos mais urgentes.

Estou confortavelmente sentado em minha cadeira, iniciando a leitura de alguns currículos que selecionei anteriormente, quando ouço uma batida na porta. Logo, Clara entra com meu café, que solicitei quando passei por ela.

- Seu café, doutor! E aqui eu tenho um currículo. O senhor ainda não o leu, mas acho que seria indispensável. - Ela fala, me entregando em seguida uma pasta marrom. Pego-a e abro, fazendo a leitura. Me surpreendo positivamente. Encontro o melhor perfil que já vi. Em todo o tempo que estou aqui, dificilmente acredito, ainda, em tudo o que estou lendo.

"Mônica Fontenelle, vinte e quatro anos, formada com honras na faculdade de medicina de Harvard, terminando a especialidade em obstetrícia no momento, foi destaque como interno..." Continuei com a leitura, e cada linha me via mais admirado com o perfil. Perguntei para Clara, que estava ali de pé me encarando, se aquela pessoa existia mesmo.

- Clara, onde está essa raridade? Ela existe mesmo? - indaguei para minha secretária, em tom de brincadeira, e ela me encara sorrindo, entrando no clima.

- Sim, doutor. Existe, e é a minha amiga. Ela veio embora recentemente, a mãe ficou doente e, sem ajuda, teve que retornar para Londres.

- Mas ela já terminou a faculdade?

- A Mônica é maravilhosa e muito inteligente. Iniciou a faculdade antes mesmo de terminar a escola, o que ajudou na formação precipitada. E, respondendo à sua pergunta, ela está terminando obstetrícia, se transferiu para cá.

- Você pode, por favor, entrar em contato e ver se é possível que ela venha para nossa reunião?

- Sim, eu falo com ela e vejo se é possível. Apesar de que faltam apenas quarenta minutos para iniciar...

- Gostaria muito de tê-la presente e, se for de interesse dela, vir trabalhar conosco.

- Mas o senhor nem a viu e já gostou tanto assim dela?

- O currículo é impecável, e precisamos de pessoas assim aqui.

- Com certeza! Por isso, quando ela me disse que iria procurar trabalho, eu procurei ajudá-la.

- Muito bom, Clara! Agora, vai lá e liga para ela, por favor. Não posso perdê-la. - Ela vira as costas para mim, já com a mão na maçaneta da porta, e eu continuo: - Espero que tudo dê certo. E, se ela gostar daqui, você terá um prêmio pela indicação. - Clara aumenta o sorriso e fecha a porta atrás de si.

Assim que ela sai, dou mais uma olhada no papel em minhas mãos. Eu também me formei em Harvard, porém, não no tempo em que ela fez. Com isso em mente, decido falar com um amigo que trabalha lá dando aulas. Pego meu celular e procuro em meus contatos pelo nome do William. Logo ao vê-lo, toco o dedo na tela para iniciar a chamada, que é atendida no segundo toque.

- Você não morre mais... - ele atende todo animado do outro lado - estava com seu nome em minha boca, nesse exato minuto.

- Espero que esteja falando bem. E ainda bem que é o nome, né? - termino de falar e dou uma gargalhada.

- Engraçadinho, como sempre. Sim, estou fazendo a minha lista de casamento e acabei de citar seu nome para a Izabela. Afinal, não posso esquecer de convidar meu único amigo que restou da faculdade.

- Bons tempos, né?! Mas me conta, quando irão se casar?

- Estamos planejando para daqui a quatro meses. Não podemos esperar muito.

- Não me diga que vocês pularam o processo?

- Pois é, a família queria aumentar... e aconteceu. - Ele fala rindo.

- Isso é uma notícia maravilhosa! E, sim, já estou aceitando seu convite de antemão.

- Estamos, na realidade, esperando para ser convidados para uma visita.

- Podem vir quando quiserem. Meu apartamento está de portas abertas para vocês.

- Perfeito, então. Iremos nos organizar para realizar essa visita. Mas me diga, qual o motivo da sua ligação...?

- Estou com um currículo em minhas mãos e gostaria de...

- Mônica, né? - Ele nem me deixa terminar de falar e já emenda, sabendo do que se trata: - É espetacular, inteligente demais. Não a deixe escapar.

- Era isso mesmo que eu precisava ouvir. Fiquei admirado com o perfil e desacreditado no início. Claro que sei que existem pessoas muito inteligentes, mas ela excede.

- Sim, a Mônica foi uma das minhas alunas que mais se destacou. Temos vários com a mesma inteligência dela, mas tem um detalhe que ela não deve ter colocado aí: ela fez o curso porque ganhou uma bolsa de estudos. E, quando chegou, não tinha onde ficar até esperar o processo dos dormitórios, então tivemos que ajudá-la.

- Pelo que fui informado, ela se transferiu para Londres devido à doença da mãe.

- Na realidade, ela contou que teria que ir embora e solicitou os papéis da transferência, mas eu não sabia o motivo. A mãe dela está doente, então. Bom, meu amigo, a única dica que te dou é: não a perca. Ela fará uma grande diferença aí, no seu hospital.

- Já solicitei a vinda dela. Estou aguardando e, no que depender de mim, ela será a minha mais nova contratada.

Conversamos por mais um tempo e desligamos, com a promessa de que ele e Iza viriam dentro de dois meses, que seria o mais indicado, devido à gravidez.

Estou perdido em meio aos meus papéis quando ouço uma batida na porta. Novamente, Clara entra, agora para me informar sobre a reunião, que já está no horário.

Pego minha pasta, com meus documentos dentro, e me levanto, caminhando até a sala de reuniões, que fica ao lado da minha. Entro e olho para todos os presentes, tentando reconhecer algum, mas sem sucesso. Caminho até a minha cadeira e me sento, colocando a pasta, que antes estava em minhas mãos, à minha frente, em cima da mesa. Começo a retirar os documentos que havia dentro dela, porém, paro no segundo seguinte, sentindo um olhar sobre mim. Levanto minha cabeça e a encaro.

Uma mulher bonita, de pele clara, com algumas sardas no rosto. Esbelta, cabelos castanho-escuros, quase um chocolate, e olhos também castanhos, me encara. Parece que a conheço de algum lugar, mas, quando devolvo o olhar, ela se esquiva. Dou um sorriso e continuo o que estava fazendo anteriormente. E então digo:

- Vamos iniciar...

Capítulo 3 De volta pra casa!

Mônica Fontenelle

Finalmente, pisando em terras europeias novamente. Como estava com saudades de casa, e claro, da minha mãe também. Já havia pensado em me transferir para Londres quando, alguns meses atrás, entrei em contato com a Clara, minha amiga de infância que ajudava minha mãe enquanto eu permanecia fora. Ela me disse que dona Alice estava com alguns problemas de saúde. Apesar de ainda ser jovem, com seus quarenta e oito anos, ela sempre trabalhou muito e mal cuidava de si mesma. Por isso, decidi que era a hora certa para voltar.

Fiz todos os procedimentos de transferência da faculdade, o que acabou levando um tempinho, porque eu tinha que entregar algumas matérias. Também comprei minha passagem de volta, mas ainda não contei para minha mãe. Ela não sabe, porque, se eu tivesse contado, ela nunca teria me deixado fazer isso. Ela conhece todo o esforço que tive para entrar em Harvard e manter meu lugar lá. Então, quero que seja uma surpresa para ela. Confesso que estou bastante ansiosa para revê-la.

Cheguei ao aeroporto já tem alguns minutos. Clara disse que iria se atrasar, pois não está conseguindo vaga próximo à entrada. Marcamos um ponto de encontro, e estou aqui parada, quando ouço uma doida gritar:

- Môooooniiiiiiii...

Olho para o lado e vejo minha amiga correndo como uma seriema, na minha direção, com os braços levantados e os cabelos cacheados e vermelhos esvoaçando. Ela corria de forma desajeitada, mas era minha melhor amiga, e eu a amava exatamente assim. Começo a caminhar com passos largos e apressados para encontrar-me com ela. Quando nos encontramos, finalmente, abraçamo-nos. Minha mana, como eu sempre a chamei, era alguns centímetros mais alta que eu; ela era linda, uma ruiva cheia de sardas espalhadas pelo rosto, um corpo lindo, de dar inveja a muitas mulheres, e um humor maravilhoso, sempre sorrindo e fazendo as pessoas ao seu redor sorrirem também.

- Amiga, que saudade eu estava - falo, apertando-a em meus braços.

- Eu também, amiga. Desde que foi embora, não veio nos visitar mais, e isso já tem quase sete anos.

- Estava focada nos estudos. Faculdade de medicina não é fácil.

- Uma nerd me dizendo isso, fazendo-me me sentir uma burra agora, amiga. Você sempre foi a melhor da sala, estava sempre acima de tudo e todos, enquanto eu repeti dois anos. - Ela faz uma cara feia de desgosto, e eu sorrio para ela.

- Não diga isso, mana! Você só precisa encontrar o seu lugar.

- Ahh... isso eu já sei. Meu lugar é ao lado do meu chefe, lindo e gostoso. - Ela reúne ambas as mãos e as coloca em seu coração e, suspirando, faz uma cara de apaixonada.

- Nunca se envolva com o chefe, não dá certo.

- Diz isso, porque ainda não conhece o doutor Jullian maravilha.

- Jullian o quê?! - Olho para ela com uma cara engraçada, e ela ri.

- Ele é maravilhoso em tudo o que faz, por isso o apelido.

- E tenho certeza de que ele nem faz ideia disso, né?

- Claro que não, amiga! Apesar dele ser maravilhoso, é um ótimo profissional e gosta de tudo muito certo.

- Isso é o mínimo, né!? Mas me diz, como está dona Alice? Guardou segredo que eu estava chegando?

- Claro, Môni! Você me pediu para não contar. E ela está bem, só precisando de férias. Ela trabalha demais.

- Ela se sente essencial dessa maneira. Já havia falado com ela para parar um pouco. Com os meus estágios, estou conseguindo mantê-la bem.

- Eu também já conversei com ela, mas dona Alice gosta de ser independente. Ela te criou sozinha. A casa onde vocês moram, conquistou sozinha também, então eu a entendo.

Neste momento, já estamos organizando as malas no bagageiro. Retorno para guardar o carrinho que peguei para carregá-las e volto, entrando no carro para irmos embora. Seguimos direto para casa, ouvindo Guns N' Roses, um estilo de música que sempre amamos ouvir juntas. Estamos próximas de casa, Clara abaixa o volume do som e estaciona na porta. Um misto de emoções me invade; não tinha ideia do quanto senti falta daqui. Estou parada, apenas observando, e tudo está como antes: nossa casa, que era linda, com um jardim imenso na frente, todo colorido, onde minha mãe cultivava seus lírios, dálias e rosa-silvestres.

Retornei na primavera, a época que eu mais amava. As lembranças invadem a minha mente, e regresso para antes da faculdade, quando, apesar de frio, eu me sentava em nosso balanço, que ficava no meio do jardim, e observava os pássaros que ficavam ali. Às vezes, bebendo água de uma pequena fonte que tinha no meio do gramado, ou em algum galho de uma árvore, ou até mesmo passeando entre as lindas e coloridas flores.

A nostalgia me bateu, e percebi que ali era o meu lugar, onde cresci, com a presença da minha mãe e dos nossos vizinhos. Estou paralisada ainda no portão, quando vejo a porta sendo aberta e minha mãe saindo dela. Está com sua bolsa a tiracolo, provavelmente indo comprar algo para o café da tarde, que era o costume de todos os dias.

Abro o portão devagar e entro. Minha mãe para no alto da pequena escada e procura algo dentro da pequena peça que está em sua mão. Então eu a chamo:

- Mamãe!! - Ela paralisa seus precisos movimentos e olha para cima, não acreditando no que está vendo.

- Ah, meu Deus, filha, é você mesmo?

- Sim, mamãe, sou eu.

Corro para o lado dela, querendo sentir seu carinho, seu cheiro, tocá-la e ver como realmente estava. Quando eu a abracei, senti todo aquele calor gostoso que só um abraço de mãe transmite. Como estava sentindo falta disso! Me afastei dela e a olhei da cabeça aos pés. Mamãe era assim como eu: baixa, cabelos castanhos, olhos castanhos quase pretos, uma pele branca e magra. Entretanto, ela estava muito magra.

- Ah, mamãe, quanta saudade eu estava de você. Me perdoe por não poder vir antes. Estava estudando para poder te dar o melhor - digo com lágrimas nos olhos, acariciando o rosto magro de dona Alice. Ela retribui o carinho com um olhar fraterno e cheio de amor.

- Eu sei, minha filha. Você é uma ótima menina e fez tudo o que podia de longe. Mas estou bem, e agradecida por ter uma companheira maravilhosa. Eu também estava com muita saudade. Mas... você veio para me visitar, e seu curso, que está quase terminando, não irá atrapalhar ter saído assim? - Ela pergunta com um semblante de reprovação.

- Calma, mamãe, eu me transferi para cá. Agora permanecerei mais pertinho da senhora. Eu vim para ficar - dou um enorme sorriso para ela, porém, o que escuto em seguida não era o que eu esperava.

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