Eu amei Pedro por dez anos, uma década da minha vida dedicada ao homem que eu acreditava ser meu destino.
No auge da minha felicidade, grávida do nosso filho, uma realidade brutal desabou.
Do lado de fora do quarto, ouvi a voz da minha meia-irmã, Juliana, e a dele, zombando da minha "amnésia", da minha "idiotice".
Eles planejavam roubar meu dinheiro, me forçar a abortar e me jogar em uma boate, enquanto celebravam o "nosso" filho – o verdadeiro herdeiro – que seria deles.
Meu mundo virou pó. A dor dilacerou minha alma, mas algo mais forte começou a nascer: a raiva.
Confrontada por eles, sem precisar mais fingir, o terror se instalou quando Pedro e Juliana me arrastaram para uma clínica clandestina, com a intenção não só de eliminar meu bebê, mas de me desumanizar, me transformar em objeto.
Minha dignidade, minha feminilidade - tudo roubado.
Mas, no limite do desespero, uma luz inesperada surgiu na figura de Dona Rosa, uma parteira que se negou a cumprir a ordem hedionda.
Ela me ofereceu uma saída, uma chance de "morrer" para eles e renascer.
Agora, meu filho Rafael está seguro, e eu, Sofia, não sou mais a mulher ingênua e quebrada.
Eu me tornei uma empresária poderosa, pronta para o meu acerto de contas.
Eu amei Pedro por dez anos, uma década inteira da minha vida dedicada a um homem que eu acreditava ser o meu destino, o meu futuro marido.
Ele era um jogador de futebol famoso, o tipo de homem que todas as mulheres desejavam, mas ele, ele me escolheu.
Ou assim eu pensava.
A promessa de casamento ainda ecoava na minha cabeça, doce e calorosa, mas a realidade era um balde de água gelada que me atingiu com a força de um furacão.
Eu estava do lado de fora do quarto, com a mão na maçaneta, pronta para entrar e contar a ele a notícia mais feliz das nossas vidas, que eu estava grávida.
Mas a voz que ouvi do outro lado da porta me paralisou.
Não era a voz dele. Era a voz da minha meia-irmã, Juliana.
"Pedro, meu amor, você tem certeza de que isso vai funcionar? E se a Sofia descobrir tudo?"
A voz de Pedro soou preguiçosa, cheia de um desdém que eu nunca tinha ouvido antes.
"Relaxa, meu bem. Sofia é uma idiota. Ela me ama tanto que faria qualquer coisa por mim, ela acredita naquela história ridícula de amnésia, não acredita?"
Um riso baixo e cruel preencheu o silêncio.
"Ela vai continuar pensando que eu perdi a memória e que ela é a única pessoa em quem posso confiar. Enquanto isso, ela vai trabalhar como uma mula naquela boate para pagar as minhas dívidas de jogo."
O ar sumiu dos meus pulmões.
Amnésia.
A dívida de jogo.
A boate.
Cada palavra era uma peça de um quebra-cabeça medonho que se montava na minha mente.
Juliana riu de novo, um som agudo e venenoso.
"E o bebê? O que vamos fazer com o bastardo que ela está esperando?"
O coração parou no meu peito. Como ela sabia? Eu tinha acabado de descobrir.
"Aquele bastardo não vai nascer" , disse Pedro, com uma frieza que me fez tremer. "Vamos forçá-la a abortar. Depois, vamos pegar o dinheiro dela e criar o nosso filho, o verdadeiro herdeiro."
Nosso filho.
O filho deles.
Juliana soltou um suspiro satisfeito.
"Ah, Pedro, você é tão mau. Eu adoro isso. Finalmente, aquela sonsa vai ter o que merece. Desde que a mãe dela roubou o meu pai da minha mãe, eu jurei que ia destruir a vida da Sofia. Ela vai pagar por tudo."
A voz dela era puro veneno, uma destilação de anos de um ódio que eu nunca soube que existia.
"Ela vai pagar, e nós vamos ficar ricos. O dinheiro que ela ganhar na boate vai ser todo nosso, para sustentar nosso filho e nossa vida de luxo."
Senti o chão desaparecer sob os meus pés.
Dez anos de amor, de dedicação, de sonhos.
Tudo era uma mentira.
Uma farsa cruel, um plano arquitetado por ele e pela minha própria irmã.
A mão que segurava o resultado positivo do teste de gravidez tremia tanto que o papel caiu no chão.
Lágrimas geladas começaram a escorrer pelo meu rosto, mas não havia som. Era um grito silencioso, uma dor tão profunda que rasgava a minha alma em pedaços.
Eu não era o amor da vida dele.
Eu era um peão. Uma ferramenta. Um cofre ambulante para financiar a vida dele com a minha irmã e o filho deles.
O amor que eu senti por uma década se transformou em cinzas, e no lugar dele, uma semente de ódio começou a brotar.
Eu tinha sido enganada, usada e descartada.
Eu tinha dado a ele todo o meu dinheiro, acreditando que o estava ajudando a se recuperar, a reconstruir sua vida depois do "acidente" que lhe causou a "amnésia".
Cada centavo que eu dei, cada sacrifício que eu fiz, foi para sustentar a mentira deles.
A consequência das minhas ações, da minha fé cega, estava ali, nua e crua.
Eu estava grávida, sem dinheiro e presa em uma teia de traição que ameaçava me consumir por inteiro.
A porta se abriu de repente.
Pedro e Juliana me viram ali, parada, com o rosto banhado em lágrimas e o papel do teste de gravidez aos meus pés.
O sorriso deles desapareceu, mas não havia pânico em seus olhos.
Apenas a fria e calculista constatação de que o jogo havia mudado.
Eles não precisavam mais fingir.
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O médico olhou para mim com uma ponta de hesitação, seus olhos expressando uma mistura de pena e desconforto.
Ele era um homem mais velho, com mãos calejadas e um olhar cansado, como se já tivesse visto muita coisa naquela clínica clandestina.
"Senhor Pedro, tem certeza? A moça está saudável, a gravidez está no início. Interromper agora... é um procedimento arriscado."
Pedro nem sequer olhou para mim.
Seus olhos estavam fixos no médico, frios e duros como pedras de gelo.
"Eu não perguntei a sua opinião. Eu paguei você para fazer um trabalho. Faça."
A voz dele era um chicote, estalando no ar pesado da sala mal iluminada.
Juliana, ao lado dele, sorria. Um sorriso vitorioso e cruel.
Ela se aproximou de mim, que estava deitada na maca, e tocou minha barriga com a ponta dos dedos. Um toque que queimava como ácido.
"Não se preocupe, maninha. Vai ser rápido. Logo você não terá mais esse probleminha atrapalhando a sua vida... e a nossa."
Ela se virou para o médico, o sorriso se alargando.
"Doutor, já que vai tirar o feto, por que não aproveita e tira o útero dela também? Assim a gente evita futuros acidentes. Ela não vai precisar dele mesmo, não é? O destino dela agora é outro."
O médico recuou um passo, chocado.
"O quê? Isso é impossível! É um procedimento muito mais complexo e perigoso, eu não posso fazer isso!"
Pedro se aproximou do médico, sua presença física imponente preenchendo o pequeno espaço.
Ele tirou um maço de notas do bolso e o jogou na mesinha ao lado.
"Você pode e você vai. Ou quer que eu conte para a polícia sobre este seu pequeno negócio? Faça o que eu mandei."
O médico engoliu em seco, seus olhos indo do dinheiro para o rosto ameaçador de Pedro. A hesitação em seu rosto deu lugar à resignação.
Ele sabia que não tinha escolha.
Juliana se inclinou sobre mim, seu hálito quente no meu rosto.
"Sabe, Sofia, você vai ser muito útil para nós. Uma dançarina de boate, talvez até algo mais... Pensa só, todo o dinheiro que você vai ganhar para ajudar o Pedro a pagar as dívidas dele. Para criar o nosso filho. Você vai ser a provedora da nossa família feliz."
O horror me paralisou. Eu queria gritar, lutar, mas meu corpo não obedecia. Era como um pesadelo do qual eu não conseguia acordar.
O plano deles era mais do que cruel, era diabólico.
Eles não queriam apenas tirar meu filho.
Eles queriam tirar minha feminilidade, minha dignidade, meu futuro.
Eles queriam me transformar em um objeto, uma máquina de fazer dinheiro para o prazer deles.
Senti uma pontada aguda e súbita no meu ventre.
Uma dor que não era só física, era a dor da perda, do desespero, da aniquilação.
Meu corpo estava reagindo ao terror, um prenúncio do que estava por vir.
O médico se aproximou com uma seringa na mão. Seus movimentos eram trêmulos.
Pedro deu um tapinha no ombro dele.
"Seja rápido. Eu e a Juliana vamos dar uma volta, tomar um café. Quando voltarmos, quero que tudo esteja resolvido."
Ele pegou a mão de Juliana e a puxou para fora da sala, sem sequer olhar para trás uma última vez.
A porta se fechou com um clique suave, selando meu destino.
Eu estava sozinha, entregue à crueldade de estranhos, enquanto o homem que eu amei e a minha irmã celebravam a minha destruição.
A pontada no meu ventre se intensificou, uma cólica forte que me fez dobrar de dor.
O pesadelo estava apenas começando.
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