Era um dia quente de verão. O aguaceiro que caía do céu deixava o clima ainda mais abafado. O ônibus estava apinhado de gente.
Janet Lind desceu dele com sua bagagem. Enquanto seus olhos vagavam, ela notou Bernie Lind perto da saída da rodoviária. Ele parecia bem mais velho agora e seu cabelo estava grisalho. "Pai", o chamou, mordendo o lábio.
"Venha, vamos para casa. Sua mãe fez todas as suas comidas favoritas só porque você está voltando." Bernie sorriu, enrugando o canto dos olhos. Então pegou a mala dela e a colocou no porta-malas.
Janet sentiu dificuldade para respirar.
Bernie e Fiona Duncan não eram seus pais biológicos. Ela era apenas sua filha adotiva. Depois que eles deram à luz uma menina, pararam de tratá-la como se fosse realmente filha deles.
Ela sabia que seu pai só a estava tratando bem hoje porque ele e sua mãe esperavam que casasse no lugar da sua irmã.
O carro atravessou o centro movimentado da cidade e entrou em um condomínio de mansões luxuosas.
Seacisco havia mudado muito nos últimos anos.
Bernie abriu a porta e entrou na mansão carregando a mala de Janet.
Ela o seguiu. Assim que colocou seus pés no tapete, escutou a empregada gritar: "Pelo amor de Deus! Não pise aí! Você está sujando o tapete, acabei de trocá-lo. Olhe só para os seus sapatos! Completamente cobertos de lama. Você estragou todo o meu trabalho."
Janet deu um passo para trás diante do grito ensurdecedor dela.
Ela saiu da casa e olhou para seus sapatos. Uma carranca se formou na sua testa ao ver que não estavam sujos.
A empregada a insultou de propósito.
Nesse momento, um leve som de passos reverberou dentro da mansão.
Era Jocelyn Lind descendo as escadas, enrolando seus cabelos com os dedos enquanto olhava alegremente para a porta. O sorriso em seu rosto congelou assim que viu Janet.
Fazia anos que não via sua irmã, pois seus pais a haviam deixado no campo para ser criada por outras pessoas. Ela sentiu uma pontada de ciúme ao ver que a garota havia crescido e ficado ainda mais atraente. Jocelyn sempre sentiu ciúmes dela e a desprezava por ser uma criança mais bonita. O abismo entre as duas só aumentou ao longo dos anos.
Jocelyn rapidamente esboçou um sorriso falso e repreendeu a empregada: "Por que você não deixou minha irmã entrar?"
"Os sapatos dela estão cobertos de lama", a mulher declarou com desgosto.
"Não importa. Você deve deixar minha irmã entrar em casa, até mesmo se ela se tornar uma pedinte sem-teto. Caso contrário, como poderemos discutir nossos negócios?"
O sarcasmo escorria das palavras dela. Ela se virou e foi para a sala de estar, sem dar mais atenção para Janet.
A empregada rapidamente foi até o móvel onde ficavam os sapatos e tirou um envoltório plástico específico para calçados, o jogando em Janet. "Você se acha a bolachinha mais recheada do pacote, não é mesmo?", ela debochou violentamente. "Coloque isso antes de pisar nessa casa!"
Os insultos da mulher atingiram o coração de Janet. Colocando o envoltório plástico ao redor dos sapatos, ela ergueu a cabeça com a raiva ardendo em seus olhos.
Não podia entrar em uma discussão com eles antes de receber seu dinheiro.
Janet havia perdido o apetite, por isso não conseguiu comer.
Fiona se sentou ao lado dela, deslumbrante como sempre, mesmo tendo mais de cinquenta anos. "Já que você está decidida, o casamento será amanhã. Tudo bem?"
Janet baixou o garfo e a faca para olhá-la. "Só gostaria de confirmar uma coisa antes. Receberei o dinheiro logo depois de me casar no lugar de Jocelyn amanhã?"
Era uma troca: Janet se casaria no lugar de sua irmã por dinheiro. Essa decisão afetaria toda sua vida. Portanto, queria deixar tudo bem claro antes de concordar.
Bernie e Fiona não tiveram filhos por muitos anos após o casamento. Por acharem que nunca conseguiriam, adotaram Janet. Porém, alguns anos depois, Fiona engravidou e deu à luz Jocelyn.
A partir dessa época, Fiona passou a desprezar Janet e tomar sempre o lado da filha de sangue. Não sentia mais necessidade de manter aquela filha adotiva, já que havia concebido uma linda garotinha. Por isso pediu para Bernie levá-la para o campo, onde ela poderia morar com sua antiga empregada, Hannah.
Hannah foi uma criada fiel da família Lind até sua aposentadoria. Havia criado Janet sozinha e as duas eram como avó e neta. Cerca de três meses atrás, ela foi diagnosticada com cirrose hepática avançada. Agora precisava de um transplante de fígado. O procedimento era caro, demandando que juntassem muito dinheiro para tratar Hannah. Além disso, corriam contra o tempo. Não podiam postergar mais a operação.
"Nós somos uma família. Por que você vive trazendo o tema do dinheiro? Não se preocupe, darei todo o dinheiro que você precisar. Só peço que se case em breve." Havia um leve traço de impaciência no tom gentil de Fiona.
Ela odiava Janet. No passado, só adotou a garota por causa de toda a pressão que estava sofrendo. A família Lind a provocava, e a presença dela era prova viva da sua infertilidade. Só ver a garota já era o suficiente para enfurecê-la.
Tempos depois, Janet cresceu e se tornou uma mulher melhor do que sua filha em todos os âmbitos, o que só intensificou seu ódio por ela.
Se não fosse pelo noivado da sua própria filha com o bastardo da família Lester, Fiona não a teria trazido de volta do campo. Acreditava piamente que aquela pária deveria passar o resto da vida no interior.
"Se dissemos que vamos dar o dinheiro, é porque você vai recebê-lo, entendeu? Pedinte estúpida!", Jocelyn bufou.
"Vocês me pagam e faço o que me pediram. É justo", Janet retorquiu, franzindo a testa.
Embora raramente demonstrasse sua raiva diante dos seus parentes da família Lind, Janet não deixava que pisassem em seus calos.
Também havia escutado histórias sobre o homem com quem se casaria amanhã. Seu nome era Ethan Lester, um filho ilegítimo da família Lester. Era noivo de Jocelyn desde que os dois eram crianças.
Jocelyn era uma mulher vaidosa. Nunca se casaria com um bastardo. Além disso, os rumores eram que a família Lester o havia expulsado do seu círculo há muitos anos atrás. Ele nem sequer possuía um emprego decente e precisava lutar pela própria sobrevivência.
Embora Janet parecesse calma, a ideia de se casar com alguém assim a assustava. No entanto, precisava fazer isso para salvar Hannah. "Não se preocupem. Me casarei com ele amanhã."
No dia seguinte, Janet foi sozinha até uma pequena igreja no subúrbio, usando apenas um vestido branco comum.
Não se incomodou em alugar um vestido de noiva porque não queria pagar. Ela já tinha que arcar com os honorários médicos da cirurgia de Hannah.
Apenas comprou um ramo de flores brancas e delicadas e pediu uma fita branca de seda ao vendedor para trançar seu cabelo. A imagem dela exalava pureza e inocência.
Estava na hora do casamento. Quase todos os assentos na igreja ainda estavam vagos, apenas algumas pessoas vieram à cerimônia.
Bernie e Fiona olhavam de vez em quando para o portão, segurando o fôlego por ansiedade.
"Por que o noivo e sua família ainda não vieram?" Fiona franziu a testa enquanto olhava para os bancos vazios.
Estava usando uma roupa deslumbrante nesse dia. O vestido roxo e a maquiagem discreta dela acentuavam seus traços, a deixando com uma aparência divina.
"Talvez estejam presos em um engarrafamento. Vamos esperar mais um pouco."
Aparentemente os Lesters não valorizavam esse casamento. Contudo, Janet não se incomodou por causa disso. Só estava ali pelo dinheiro que receberia de Fiona depois de se casar.
Pouco depois, Jocelyn chegou. Acompanhada pelo namorado, ela usava roupas de grife e joias caras. Ela caminhou arrogantemente até Bernie e Fiona, como se estivesse dizendo que o homem ao seu lado era mil vezes melhor do que Ethan.
"Essa é sua irmã mais velha Janet?", o namorado dela perguntou, boquiaberto ao vê-la. A beleza natural dela pareceu atraí-lo.
Jocelyn cerrou os dentes. Seu namorado fixou o olhar em Janet assim que entraram. Isso não podia ficar assim. Sem esforço algum, Janet o seduziu em questão de minutos.
Nada havia mudado mesmo depois de todos esses anos. Janet cativava a todos com seu charme. As pessoas sempre prestavam mais atenção nela do que em Jocelyn.
O ciúme despontou dentro dela terrivelmente. "Qual é o seu problema?", Jocelyn rosnou. "Acredite ou não, arrancarei seus olhos fora. Como você pode se interessar por uma cadela do campo?", sibilou para seu namorado.
"Por que o bastardo do Ethan não chegou ainda?" O nariz de Jocelyn se torceu em desgosto. "Ele ainda tem coragem de se atrasar para o próprio casamento. Como confiar em alguém assim? Além disso, a família dele tampouco veio. Parece que não se importam com ele."
Jocelyn era tratada como uma princesa em casa. Ninguém a culparia por fazer comentários tão rudes. No entanto, estavam em um lugar público e ela era a irmã da noiva. Seu temperamento grosseiro e prepotente se tornou assunto de fofoca entre todos.
Janet ergueu delicadamente a barra do vestido e deu um passo à frente. Já havia tolerado sua irmã muitas vezes, independente do quão arrogante e cruel ela havia se comportado. No entanto, não podia mais aturar esse absurdo. "Jocelyn, não se deve chamar ninguém de bastardo. Estamos em uma igreja agora. Cuide com seu jeito que fala! Você não sabe se comportar?"
Jocelyn ficou surpresa com essa reação. Nunca havia visto sua irmã retrucar, ela sempre tolerou seu comportamento.
Ao ouvirem suas palavras, todos os outros na igreja ficaram em silêncio. Nesse momento, o portão se abriu com um rangido.
Um homem alto entrou. A luz do sol que brilhava através da entrada delineou seu corpo esbelto.
Quando o portão se fechou novamente, ele ergueu a cabeça. Seu olhar profundo percorreu a multidão enquanto mantinha uma expressão séria no rosto. Ele abotoou o terno e o ajeitou, como se tivesse vindo correndo.
A luminosidade do dia concedia um leve brilho ao seu lindo rosto. Era como se Deus tivesse esforçado um pouco mais para criá-lo. A atenção de todos na igreja se cravou nele como se ele tivesse enfeitiçado as pessoas.
Todos se viraram para contemplar o homem com admiração. Sua figura parecia exalar charme sem esforço algum.
Os olhos de Jocelyn brilharam. Ela imaginou que esse lindo homem devia ser um dos irmãos mais velhos de Ethan. A família Lester era uma das mais poderosas na cidade. Como Ethan era um filho ilegítimo, Jocelyn sentia que ele não tinha chance contra o sangue nobre que corria na veia dos demais membros da família. Aquela pessoa que entrou na igreja exalava encanto e realeza, por isso pensou se tratar de um dos herdeiros legais da família.
A boa aparência e a elegância dele a surpreenderam e excitaram. Jocelyn sempre achou seu namorado bonito, mas ele não era ninguém em comparação com aquele homem na sua frente.
Ela avançou na sua direção para cumprimentá-lo. "Você é irmão de Ethan?" Só encará-lo nos olhos já foi o suficiente para que corasse. "Bem, a família do noivo ainda não chegou. Por favor, sente-se. Vai levar algum tempo até o casamento começar."
A vontade dela era pedir o número de telefone dele, mas não podia cruzar essa linha com seu namorado presente.
O homem mal olhou para ela. Simplesmente a ignorou e foi direto até Janet.
O rosto de Jocelyn ardeu de vergonha. Toda timidez e empolgação dela desapareceram em um segundo.
Bufando de raiva, voltou até seu lugar. Seus olhos se arregalaram horrorizados ao ver aquele lindo homem se colocar ao lado de Janet. Foi quando entendeu: não era ninguém menos do que o noivo, Ethan.
A cabeça dela balançou em descrença. 'Como Ethan pode ser tão bonito?'
Se inclinado para o lado, sussurrou no ouvido de Fiona: "Mãe, por que você não me mostrou uma foto dele antes? Se soubesse que era tão lindo, não teria pedido para Janet se casar no meu lugar."
Fiona fechou os olhos e suspirou sonoramente, balançando a cabeça em desaprovação. Então, virando-se para a filha, a repreendeu com o olhar. "Você ainda é jovem. Quando crescer, vai entender que a aparência de um homem é a coisa menos importante nele. Ethan não passa de um perdedor, nem sequer possui um emprego decente. Ele é um idiota inútil que mal consegue pagar suas contas. É o par perfeito para Janet. Os dois vão se resumir às suas insignificâncias para sempre."
Jocelyn não se deu o trabalho de responder. Contudo, odiou o fato de que sua irmã casaria com um homem bonito. Ele era como um galã de cinema.
Ethan caminhou até Janet e estudou seu rosto. "Me atrasei porque precisei lidar com alguns assuntos pessoais", falou indo direto ao ponto e esfregando as sobrancelhas.
"Está tudo bem." Janet realmente não se importou. Ficou feliz em saber que Ethan era um homem bonito. Pelo menos havia algo de bom nele.
Assim que virou seu rosto, seu olhar pousou sobre o relógio Patek Philippe no pulso dele que reluzia deslumbrante sobre o sol.
Embora Janet tivesse crescido no campo, não era uma completa ignorante. Com uma mirada apenas de relance, podia dizer que aquele relógio valia ao menos um milhão de dólares. Suas sobrancelhas se arquearam surpresas.
Todo mundo havia dito a ela que Ethan era pobre e miserável. Era por isso que a chamaram para se casar com ele em primeiro lugar. Como ele havia feito para pagar um relógio tão caro?