Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Meu Melhor Amigo - livro 01
Meu Melhor Amigo - livro 01

Meu Melhor Amigo - livro 01

Autor:: Jéssica_Silva_vbjb
Gênero: Romance
Amigos desde a infância, Ana e Felipe cresceram juntos e sempre confiaram tudo um ao outro. Mas as coisas começaram a mudar quando, dois meses atrás, Felipe resolveu se mudar para a casa ao lado da sua e, assim, estreitar os laços entre eles. E essa aproximação, mesmo Ana tentando reprimir, está mexendo com sua cabeça e seu coração, e ela agora vive em um dilema. Confessar o que sente e arriscar uma amizade de quinze anos ou esconder suas emoções e fingir que ele não é nada além de um amigo para ela? E quando um beijo surgir para mudar toda a história, o que Ana poderá fazer? "Eu sei que Lipe me ama como amiga, mas será que me amaria como mulher?"

Capítulo 1 Um pingo de esperança

Após uma semana dura de trabalho, nada melhor que uma balada para esquecer os problemas e se divertir até a madrugada. Eu mereço. Nós merecemos. Olho para Beatriz e Felipe, meus melhores amigos, que me acompanharam até a boate e estão se enchendo de bebida no bar. Beatriz eu conheci no último ano do ensino médio, quando ela havia acabado de se mudar de São Paulo para o Guarujá, e eu fui a primeira pessoa na turma a conversar com ela; e foi um pouco surpreendente descobrimos tantas coisas em comum. Mas não deu outra; logo nos tornamos inseparáveis.

Já com Felipe as coisas foram mais diferentes. Nos conhecíamos desde que éramos crianças, e com cinco anos de idade, já nos considerávamos melhores amigos. Éramos tão próximos durante as várias fases de nossas vidas que nossas mães brincavam ao dizer que um dia acabaríamos nos casando. E, no fundo, eu sabia que não eram apenas palavras da boca para fora. Elas queriam que isso acontecesse. Seria uma união definitiva das nossas famílias, como sempre sonharam.

Mas nossa amizade nunca foi mais do que isso.

Pelo menos até alguns anos atrás.

Eu suspiro e aperto o copo de bebida, fingindo não vê-lo a poucos metros de mim, flertando com uma morena alta e muito mais bonita que eu.

Desde que se mudou para a casa ao lado da minha, quase dois meses atrás, os sentimentos adormecidos que nutria por ele despertaram, me deixando confusa, desapontada e enciumada com qualquer coisa que ele diga ou faça. Era tão mais fácil antes, quando eu só o via como o garotinho magricela e sorridente que me seguia para todo lugar, e não esse homem lindo, forte e confiante que se tornou.

A boate está lotada, com pessoas dançando, rindo e se divertindo por todos os lados, e a música é tão alta que mal dá para ouvir meus pensamentos. Com o álcool acentuando minhas emoções, eu olho mais uma vez para ele e penso em como é difícil me controlar enquanto o vejo levar essa vida de garanhão, com uma mulher diferente a cada dia, sem nunca se prender a nenhuma delas, como se se cansasse delas após poucas horas ao seu lado. Quem poderia dizer se o mesmo não aconteceria comigo?

Tento reprimir meus sentimentos, mas é mais forte que eu.

Decidida a não facilitar para essa mulher, que já está prestes a se jogar sobre ele, eu o puxo para a pista de dança, levando Beatriz junto, e rio para fingir que não foi nada; apenas o álcool me deixando mais alegrinha. E parece que funciona, pois o foco de Felipe agora está em nós duas, como se nunca houvesse existido outras garotas. Ele se volta para mim, com um meio-sorriso nos lábios, e começa a fazer uma dancinha boba, movendo os braços e a cabeça, sem se importar com quem está olhando. Não consigo conter o riso. Nesse momento, somos duas crianças nos divertindo em uma festa, e não dois adultos cheios de problemas e palavras não ditas.

Por volta das duas da madrugada, quando já dançamos até nos cansar, Bia decide ir embora e manda uma mensagem para seu motorista vir buscá-la. Os pais dela são muito ricos, sendo donos da maior empresa de construção civil da Baixada Santista. Mas isso nunca fez dela uma garota metida e esnobe. Lipe e eu a acompanhamos até o lado de fora e noto que ela é a mais alterada do grupo. Está tão bêbada que não para de cantar, com a voz toda embolada, várias das músicas que ouviu na balada. É impossível não rir.

- Vocês dois formam um belo casal, sabiam? - diz Bia, de repente, apontando de um para o outro, e isso faz a diversão sumir do meu corpo e meu coração acelerar. Porque ela sabe. Beatriz sabe o que sinto por Felipe, e temo que, fora de si como está, ela possa contar algo a ele.

- Bia, você está muito engraçada assim - Lipe ri, alheio às minhas preocupações.

- Estou falando sério! - Ela me abraça, e sua falta de equilíbrio quase nos derruba. - Amiga, você acha que devo pintar meu cabelo? - Bia passa os dedos pelas mechas loiras, com um olhar pensativo.

- Não, seu cabelo está perfeito - digo, e abro um sorriso aliviado quando seu carro chega e Felipe, cavalheiro como é, abre a porta para ela.

- Eu amo vocês! - Bia grita, com a cabeça para fora da janela, quando o carro dá partida. - E vocês dois deviam se amar.

- Será que ela tem noção que eu te amo? - Lipe fala, olhando para mim, e sinto minha respiração falhar por um momento. Ele envolve o braço em minha cintura e me puxa para perto dele, e então beija minha testa. - Você é minha melhor amiga, como não iria te amar?

Sorrio para ele.

Claro que sou sua amiga. Nada além disso.

O que eu esperava, afinal?

Dividimos um Uber para casa e, enquanto não chegamos, me encosto em seu ombro e fecho os olhos. Estou muito cansada, e seu cheiro é tão bom, tão inebriante. Sem me dar conta, acabo adormecendo. E acordo com o toque de seus dedos em meu rosto; uma carícia suave e relaxante.

- Ei, docinho. Nós precisamos descer. - Sua voz baixa em meu ouvido me causa arrepios.

Eu amo quando ele me chama assim. Felipe me deu esse apelido porque, quando criança, eu amava doces, e sempre lhe implorava para roubar alguns para mim nas festas de aniversários que íamos.

Sorrio, querendo aproveitar mais um pouco esse momento.

- Lipe, me deixa dormir só mais um pouquinho...

Ouço sua risada em meus cabelos, e ela me atinge em cheio.

- Temos que descer do carro para o Uber poder ir pra outra corrida. - Sua mão continua a acariciar meu rosto, a voz paciente.

Eu suspiro.

- Tudo bem, já que não tenho escolha. - A contragosto, me endireito e abro os olhos.

Lipe paga o Uber, dando um extra pelo tempo que demoramos para descer, e me acompanha até a porta de minha casa.

- Boa noite, docinho. Até amanhã. - Ele beija minha bochecha.

- Boa noite, Lipe. Até amanhã.

Entro em casa com muito cuidado para não acordar minha mãe. Não quero levar uma bronca por chegar a essa hora, e bêbada. E assim que chego no meu quarto, me arrasto até o banheiro e escovo meus dentes, tiro o vestido, visto uma camisola e vou direto para a cama. E meu pensamento logo volta para Felipe. Sua voz, que é tão boa de ouvir, seu toque suave... Como será o gosto dos seus lábios? Como seria ter ele por completo só para mim? Me aconchego no edredom e me permito sonhar um pouco.

***

Depois de tomar um remédio para dor de cabeça e um banho rápido, me visto com uma regata branca e uma calça jeans, deixando meus cabelos pretos soltos, e desço para a cozinha, onde encontro minha mãe sentada na cadeira e bebericando seu café em sua xícara de porcelana favorita. Nela há uma foto de nós duas juntas, com a frase "Melhor mãe do mundo" escrita em letras vermelhas e chamativas. Lembro-me de quando a presenteei com ela e sorrio.

Indo até ela, beijo sua bochecha e me sento ao seu lado.

- Bom dia, senhora Carla Orsini. Como se sente nessa maravilhosa manhã de domingo?

Ela ri do meu tom exagerado e formal.

- Bom dia, senhorita Ana Orsini. Estou me sentindo adorável - responde, e eu acabo rindo com ela.

Minha mãe nem parece ter quarenta anos. Sua pele é bem-cuidada e seus cabelos estão sempre pintados de preto para esconder qualquer fio branco que possa aparecer. Por isso as pessoas geralmente pensam que ela é minha irmã mais velha. Somos muito parecidas fisicamente, mas na personalidade acredito que tenha puxado a meu pai, que infelizmente nunca conheci.

Depois do café, decido ir ao supermercado comprar o que falta para o almoço, e me deparo com Felipe em frente a casa lavando o carro, sem camisa e com o peito todo molhado. Como se hipnotizada, fico olhando para ele com cara de boba, sem conseguir desviar a atenção. E então ele me vê e acena. Meu rosto cora e eu torço para ele não ter notado minha expressão.

- Bom dia, docinho. Você está linda como sempre - ele diz, com um sorriso encantador no rosto.

- Bom dia, Lipe. Dormiu bem?

- Dormi sim, e você? Está indo a algum lugar? - Lipe pega uma toalha e começa a enxugar o abdômen, e eu sigo com os olhos cada movimento seu.

- Sim - respondo assim que consigo me livrar desse transe. - Vou fazer compras no supermercado.

- Então espera. Vou trocar de roupa e te levo de carro. Pelo menos não traz as compras nas mãos. - Ele começa a juntar rapidamente as coisas que estava usando.

- Eu não quero incomodar.

Mas seria uma boa ideia. Não precisaria andar nesse sol forte e eu ainda passaria um tempo com ele. Juntaria o útil ao agradável. Lipe olha para mim e sorri. E meu coração se derrete para ele.

- Você nunca me incomoda. Só espera dois minutinhos. Já volto.

Ele entre na casa, levando as coisas consigo, e eu me encosto no carro para esperá-lo.

Queria tanto entender o que estou sentindo. Tudo me diz que é amor, mas estou com medo de assumir isso para mim mesma. Ele nunca me deu nenhum sinal de que sente algo a mais por mim. Eu sei que Lipe me ama como amiga, mas será que me amaria como mulher?

Essas perguntas sem respostas ainda vão me deixar louca.

Não demora para ele sair todo arrumado, com uma calça jeans escura, camisa preta e tênis na mesma cor. Seu cabelo castanho-claro agora está perfeitamente penteado, diferente da bagunça de pouco tempo atrás.

- Vamos, Ana? - me chama, me trazendo de volta à realidade.

- Vamos. Estava perdida em pensamentos - respondo sem jeito.

- E em quem estava pensando? Em mim? - pergunta em um tom brincalhão, mas mesmo assim sinto meu coração acelerar.

Se eu dissesse que sim, o que ele diria?

Não. Não posso fazer isso.

- Claro que não! Nós somos amigos. Isso seria estranho, né? - Olho para ele em busca de uma resposta, mas ele apenas beija minha bochecha e pisca.

- Nunca pensei sobre isso - é o que diz.

E essas palavras vagas, mesmo eu tentando evitar, me dão esperança de uma chance para nós dois.

Capítulo 2 Apaixonada

Felipe abre a porta para mim e em seguida entra. Ele é sempre tão educado.

- Por isso todas se apaixonam por você - brinco, apertando meu cinto. - Com todo esse cavalheirismo...

Ele retribui meu sorriso.

- Posso ser cavalheiro, mas com você isso vai além - ele diz. - Você é minha melhor amiga. Eu não saberia tratá-la como trato as outras.

- Sei, finjo que acredito. - Provoco só para ver sua reação.

Ele se vira para mim, coloca uma mecha de cabelo atrás da minha orelha e desliza o dedo por minha bochecha. Meu corpo responde imediatamente a seu toque e eu fico sem fala. Lipe me olha nos olhos.

- É sério, Ana. Com você é diferente - enfatiza, e eu sinto que ele quer dizer mais alguma coisa, mas se contém. - Agora vamos - fala, por fim. - Antes que sua mãe reclame que você demorou.

Eu assinto, ainda o observando.

Felipe coloca uma música para tocar no rádio e vamos o caminho todo cantando e rindo. Com ele eu posso ser eu mesma, sem me preocupar com o que vai pensar de mim. E é isso o que alimenta meu medo de revelar meus sentimentos. Não quero, com umas poucas palavras, estragar o que construimos por mais de uma década.

Já no supermercado, começo a escolher as coisas, com Lipe ao meu lado, me ajudando, e quando estamos no corredor dos molhos, uma senhora se aproxima de nós, com olhos gentis e um sorrisinho no rosto.

- Com licença. Só queria dizer que vocês formam um casal muito bonito. Há quanto tempo estão juntos? - pergunta, em um tom simpático.

Quando abro a boca para corrigi-la, Lipe envolve o braço em minha cintura, alheio ao modo como meu coração acelera, e sorri para a mulher.

Agradeço à senhorinha mentalmente.

- Estamos juntos há três anos. - Ele pisca para mim, e decido entrar na brincadeira.

- Oh, sim! Três anos de muito amor. - Dou um beijo em sua bochecha. Como não sou boba, vou me aproveitar da oportunidade.

A mulher sorri, e por um momento me sinto mal por mentir.

- Continuem assim. Seus filhos serão lindos. - Depois de garantirmos que continuaremos, ela acena para nós, contente, e sai.

E quando some de vista, nós começamos a rir.

- Você não presta. - Respiro fundo, tentando controlar o riso. Ele dá de ombros.

- Nunca disse que prestava.

Balanço a cabeça em negação, mas me forço a não pensar mais nisso pelas próximas horas. Passo minhas compras e Felipe me ajuda a levar para o carro, e então dá partida.

- Está gostando de morar sozinho? - eu pergunto.

- Estou sim. Nada melhor do que ter minha liberdade. Só faço as coisas que quero e na hora que quero. E como agora fui promovido a gerente da loja, consigo me virar sozinho sem a ajuda de meus pais.

- Acho que se morasse sozinha, iria sentir saudade da minha mãe. Sempre fomos só nós duas. Como cresci sem pai, criamos uma relação ainda mais forte. - Meu coração se aperta só de me lembrar que nunca tive a oportunidade de saber como meu pai é. Nem por foto. Mas nunca pressionei minha mãe por isso.

- Eu sinto falta dos meus pais, mas com o tempo você se acostuma. Já somos adultos, Ana. Às vezes chega a hora de abandonarmos o ninho.

- Você tem razão.

Vamos o restante do caminho conversando. Eu adoro ouvir o som de sua voz, principalmente o som de sua risada. Quando chegamos, ele leva parte das sacolas para dentro. Minha mãe para o que está fazendo ao vê-lo.

- Bom dia, Felipe. Obrigada por ajudar minha princesa.

Para ela, não importa quantos anos eu tenha, sempre serei sua princesinha. Mas ouvi-la me chamar assim na frente dele é um pouco embaraçoso.

- Mãe, eu não sou mais criança.

- Imagina, foi um prazer ajudar sua princesa - Lipe diz, e eu o encaro sem jeito. Ele sorri e sinto minhas bochechas queimarem. E pelo jeito que minha mãe me olha, ela deve ter percebido.

Nunca consigo esconder nada dessa mulher.

- Você não quer ficar pra almoçar? - pergunta ela.

- Não posso, mas obrigado pelo convite. Meus pais estão me esperando. Como domingo é o único dia que podemos almoçar juntos, não posso faltar.

- Que pena, gostamos tanto de ter você conosco. - Ela me olha e sorri.

A senhora Orsini está querendo que passemos mais tempo juntos. Essa não dá ponto sem nó.

- Podemos marcar outro dia. Agora tenho que ir. Até mais. - Se despede de nós duas com um beijo na bochecha e eu o acompanho até a porta.

Quando volto para a cozinha, minha mãe está me encarando e sorrindo.

- Há quanto tempo você está apaixonada por ele? - pergunta, vindo em minha direção.

- Não estou apaixonada por ele, mãe - digo, tentando convencer a mim mesma sobre isso. - É só amor de amigo.

- Filha, eu te conheço muito bem. Nos somos melhores amigas, não somos? - Me olha nos olhos.

- Claro que sim, mãe.

- Está estampado na sua cara. Você já falou pra ele?

- Mãe, eu não sei se ele sente o mesmo. E se estragar nossa amizade? São quinze anos tendo ele ao meu lado. Não posso colocar tudo a perder.

- Pense bem, Ana. Faço muito gosto desse namoro. Vocês são amigos desde a infância, e sabe como a mãe dele e eu torcemos por vocês. - Seu entusiasmo é notável.

- Tenho medo. Ele sai com tantas garotas, e nunca namorou ou se apaixonou por ninguém. Pelo menos que eu saiba. Isso seria estranho. Será que logo eu conseguiria mudar isso nele? Já me fiz essa pergunta várias vezes.

- Minha filha, tudo tem a primeira vez. Você é linda e inteligente, e qualquer homem que namorar você será muito sortudo. Você só vai saber se tentar. Pense bem pra não se arrepender depois. - Beija minha testa. - Agora vai lá arrumar seu quarto que eu preparo o almoço.

E é isso que eu faço. E quando termino, pego o celular e vejo que tem duas mensagens não lidas de Bia.

Bia: Ana, acordei com uma ressaca da brava.

Bia: Você está aí?

Ana: Oi, fui ao mercado e esqueci de levar o celular. Desculpa.

Bia: imagina, pensei que ainda estava dormindo. Alguma novidade?

Ana: Lipe me levou e me trouxe.

Bia: Que fofo. E você já contou a ele o que está sentindo? Você precisa se abrir, Ana. Às vezes na vida precisamos arriscar.

Ana: Você sabe o que penso sobre isso.

Bia: Eu sei, mas você é uma mulher forte e corajosa. Toma coragem de assumir logo isso. Estou torcendo por vocês. Só quero te ver feliz, e esconder esse sentimento não está te fazendo bem.

Ana: Obrigada, amiga. Te amo.

Bia: Eu também. Mais tarde mando mensagem. Agora vou tomar um remédio e um banho. Beijo.

Ana: Beijos.

Passo a tarde toda no computador, adiantando alguns trabalhos da semana. Esse é meu primeiro emprego, e não quero vacilar. O senhor Carlos é bem exigente, e por causa disso nenhuma secretaria para naquele escritório. Quando dou por mim, já está anoitecendo. Me levanto, acendo as luzes e vou até a janela. E então vejo Felipe chegando em casa. Deve ter saído com alguém, pois não pode ter ficado até essa hora com os pais. Ele me vê olhando em sua direção, acena e faz um coraçãozinho com as mãos. Aceno de volta e fecho a janela rapidamente.

Agora ele vai pensar que sou uma louca que fica vigiando cada passo seu.

Mas o que Bia me disse ainda permanece em minha cabeça. Eu preciso tomar coragem e assumir o que sinto por ele. Não posso continuar reprimindo esse sentimento ou vou acabar enlouquecendo.

Capítulo 3 Meu herói

Assim que o despertador toca, eu me levanto, tomo um banho, visto minhas roupas sociais e saio para o trabalho. Chego antes do senhor Carlos no escritório e arrumo minha mesa. E poucos minutos depois, o elevador se abre e ele sai, vestido em um terno azul-escuro que parece custar os olhos da cara. O senhor Carlos é um homem muito bonito, com cabelos e olhos castanhos e uma barba muito bem feita, que o deixa ainda mais belo. E mesmo sempre o vendo de terno, imagino que também seja forte.

- Bom dia, Ana. Como foi o fim de semana?

- Bom dia, senhor Carlos. Foi ótimo, obrigada por perguntar. E o do senhor?

- O meu foi perfeito. Te espero daqui a cinco minutos no meu escritório.

Assinto.

O senhor Carlos, apesar de ser bem exigente, não é grosseiro. Temos uma relação até que boa. Espero passar os cinco minutos, me levanto, arrumo minha roupa e bato à sua porta antes de entrar.

- Sente-se, por favor. Eu preciso que reveja toda a minha agenda da semana, confirme os compromissos importantes e faça também uma pesquisa sobre as melhores pousadas de Guarujá. Os investidores que virão para uma reunião semana que vem querem ficar alguns dias por aqui.

Anoto tudo com atenção no bloquinho. E assim que levanto o rosto, vejo que seus olhos estão fixos em mim.

- Sim, senhor. Tudo anotado. Algo mais?

- Só isso, por enquanto. - Ele sorri.

Volto para minha mesa e foco em meu trabalho e em cumprir o que me pediu. Começo a confirmar seus compromissos enquanto pesquiso as pousadas e só paro no horário de almoço. Me mantenho tão focada que quando dou por mim, já são quase seis da tarde. Graças a Deus está chegando a hora de ir para casa.

- Boa noite, Ana. Até amanhã - o senhor Carlos se despede.

- Boa noite, senhor. Até amanhã.

Assim que ele sai, desligo o computador, arrumo minha bolsa e ando até o ponto de ônibus. Hoje está vazio, por isso fico receosa de ficar aqui sozinha. Já faz dez minutos que estou esperando o ônibus e nada. Não sei por que hoje está demorando tanto. Meu coração acelera quando três rapazes se aproximam. Ansiosa, mando uma mensagem para Bia, mas ela não visualiza. Ainda deve estar no trabalho. Mando outra para Lipe, que também não visualiza. Parece que hoje não estou com sorte. Guardo meu celular na bolsa rapidamente.

- Oi, gatinha. - diz o mais velho - Sozinha no ponto. - Me rodeia e minhas mãos tremem. - Precisa de alguma coisa? Uma companhia?

- Estou bem, obrigada. - Tento soar o mais calma possível, mas por dentro já estou em pânico.

- Nós três adoraríamos te fazer companhia. - O rapaz mais alto passa a mão em meu cabelo.

- Você pode parar, por favor? - Minha voz sai embargada.

- Mas só queremos nos divertir. Tenho certeza que vai gostar. - O mais velho dá um passo, se aproximando mais. Ele fede a bebida barata, e seu odor me enjoa.

Fecho os olhos com força, tentando reunir forças para fugir ou gritar por ajuda, e quando os abro, meu coração se enche de esperança. Vejo de longe um carro familiar se aproximar e, instantes depois, a porta é aberta e Felipe sai.

- Afastem-se dela agora! - grita.

Lipe chega empurrando o rapaz para longe de mim, e ele cai de bunda no chão, resmungando. O segundo tenta avançar nele, mas um soco atinge seu nariz em cheio. Notando que não têm a menor chance, eles saem correndo e entram na primeira viela que encontram. Felipe se vira para mim e me abraça forte.

- Está tudo bem agora, estou aqui com você. Ninguém vai te fazer mal, eu não vou deixar - diz, me apertando em seus braços. - Vamos, vou te tirar daqui.

Estou com tanto medo. Não consigo nem agradecer, as palavras não saem. Lipe me conduz para dentro do carro, e quando estamos no meio do caminho, enfim consigo me controlar.

- Muito obrigada, se você não tivesse chegado... Não quero nem pensar nisso. Você me salvou. Foi meu herói, como sempre. - Forço um sorriso. Minha cabeça ainda está atordoada com tudo que aconteceu.

- Não precisa me agradecer, docinho. Peço desculpas por não ter visto sua mensagem antes. Ainda estava fechando a loja. Mas o bom é que fica bem perto do seu trabalho. Não teria me perdoado se tivesse acontecido alguma coisa com você, Ana. - Lipe me olha rapidamente e volta a atenção à estrada.

O restante do caminho ficamos em silêncio. Eu não sei o que mais dizer para ele nesse momento. Lipe me salvou, e não foi a primeira vez.

- Chegamos. Tente descansar bem. A noite foi muito tensa. - Ele beija minha testa; um gesto tão simples que significa tanto para mim.

- Obrigada novamente, meu herói. - Dou um beijo em sua bochecha e ele sorri.

Entro e vou direto para o banheiro tirar essa roupa e tomar o banho mais longo da minha vida. Estou me sentindo suja. Depois, vou direto para a cama sem nem jantar. Fico mexendo no celular e agradecendo aos céus por não ter acontecido nada comigo. Bloqueio o celular para tentar dormir, mas assim que o coloco em cima do criado-mudo, ele apita, avisando que chegou uma nova mensagem, e quando olho para a tela, vejo o nome de Lipe.

🍂Felipe🍂

Estou terminando de fechar a loja e ligar os alarmes quando sinto meu celular vibrar. Mas não o pego na hora, pois quero terminar de fechar tudo primeiro. Não posso me distrair e acabar deixando algo passar. Não faz muito tempo que subi de cargo, e nessa loja há muitos carros de luxo. Não dá para vacilar. Quando tudo está terminado e entro em meu veículo, puxo o celular do bolso e leio a mensagem.

"Você pode me ajudar? Estou sozinha no ponto. Estou com medo."

Jogo o aparelho no banco do passageiro e saio o mais rápido possível do estacionamento. Parece que a estrada não tem fim. Quanto mais rápido tento chegar até Ana, mais distante parece que ela está. De longe a vejo no ponto, mas ela não está sozinha. Há três homens a cercando; um deles muito perto dela. É impossível não perceber como está com medo. Meu coração se aperta.

- Afastem-se dela agora! - É a primeira coisa que grito ao sair do carro.

Confesso que as coisas saíram do controle. Eu preciso proteger Ana, e se isso significa enfrentar três homens sozinho... É o que eu farei.

Quando eles fogem e Ana começa a chorar, puxo-a para meus braços. Eu odeio vê-la chorar. Gosto de vê-la sorrindo, brincando. Feliz.

- Está tudo bem agora, estou aqui com você. Ninguém vai te fazer mal, eu não vou deixar. - E cada palavra foi sincera.

Tudo que quero é manter Ana em meus braços e protegê-la do resto do mundo. Ela sempre foi tão doce, frágil, e linda... Tão linda. Afasto esses pensamentos. Ana é minha amiga, nada mais que isso. Eu não posso amar, e ela é demais para mim. Jamais arriscaria perdê-la. Já não sei mais viver sem Ana ao meu lado.

- Vamos, vou te tirar daqui.

A conduzo até o carro. Tento parecer calmo, mas por dentro a adrenalina ainda corre solta. Assim que paro em frente a sua casa, me despeço e peço para que ela descanse. E mais uma vez ela me chama de "meu herói". Eu gosto disso. Gosto de ser o herói de Ana. Nunca contei a ela, mas escolhi a casa ao lado só pra poder ficar mais perto dela. Porque quando estamos juntos, sinto que sou a melhor versão de mim mesmo.

Em casa, tomo um banho e preparo algo para comer. E enquanto cozinho, minha cabeça está a mil. Tenho que fazer algo para que isso não se repita. Não posso deixar ela correr esse risco sempre que sair do serviço. Subo para o quarto, pego meu celular e mando mensagem pra ela, que não demora a responder.

Lipe: Oi, docinho. Pode conversar?

Ana: Claro. Aconteceu alguma coisa?

Lipe: Tive uma ideia. Quero saber o que você acha.

Ana: E qual ideia foi essa? Não foi de abrir uma casa de stripper de novo não, né?

Lipe: Kkk não. Aquilo foi brincadeira. Já te falei isso várias vezes. Agora, falando sério, nosso trabalho é perto e saímos no mesmo horário... quero passar no seu e te trazer pra casa, assim não fica esperando ônibus. O que acha?

Ana: Eu não quero incomodar você.

Lipe: Você nunca me incomoda, Ana. Quantas vezes vou ter que repetir? Começamos amanhã. Me espera dentro do prédio. Quando te mandar mensagem, você sai.

Ana: Tudo bem, muito obrigada. Boa noite.

Lipe: Boa noite. Sonhe com coisas boas. A melhor de todo o mundo sou eu, então sonhe comigo.

Ana: Pode deixar, senhor convencido.

Leio a última mensagem com um sorriso no rosto e possa imaginá-la rindo enquanto escrevia isso. Bloqueio o celular. Agora mais tranquilo, já posso me deitar e dormir.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022