- Você não pode fazer isso, seu garoto ingrato! - ouvi o grito de Miranda enquanto eu descia as escadas de casa, apressado. - Não pode virar as costas para essa família!
Eu ri, em deboche, ao ouvir as palavras dela. Família... ela não tinha noção do que aquela palavra significava. Nenhum de nós, dentro daquela casa, sabia.
- Família é algo que nunca fomos, Miranda - falei, me virando para encará-la, enquanto ela descia as escadas apressada atrás de mim. - Podemos compartilhar o mesmo sangue, e isso é algo que eu nunca pude escolher. Do contrário, jamais teria nascido!
Coloquei o pé para fora de casa, ansioso para me ver livre daquela megera, longe daquela casa e daquela família amaldiçoada. Mas meus passos vacilaram quando avistei William, recostado contra uma das colunas que ladeavam a entrada de casa.
Os braços cruzados, ombros tensos e o olhar vago... com toda certeza, meu irmão tinha escutado os meus gritos com nossa mãe.
- Então vai mesmo embora, John? - foi tudo o que ele perguntou, e eu agradeci por isso. Não suportaria ouvir, outra vez, seus pedidos para que eu ficasse naquele inferno.
- Sim. E você deveria fazer o mesmo - respondi, sentindo meu peito se apertar ao vê-lo trincar o maxilar. Me aproximei dele. - Will, você poderia fazer tanto longe daqui, longe do nome da nossa família. Deveria ter ido embora há muitos anos, e eu te agradeço por ter ficado por mim. Mas agora não precisa mais, nós dois podemos dar o fora daqui.
Se ao menos eu conseguisse convencê-lo de que não precisávamos do nome ou do dinheiro da nossa família... se eu conseguisse fazê-lo ver que podíamos ser o que quiséssemos, longe dali... ainda ficaríamos juntos. Seríamos nós dois contra tudo, novamente.
- E contar para o mundo o que aconteceu com vocês dois? - a voz dela ressoou às minhas costas, fazendo todo o meu corpo se endurecer, enquanto meu irmão olhava por sobre meu ombro. - Você sempre quis destruir essa família. É isso o que planeja fazer, arrastando seu irmão com você?
- Se eu pudesse, colocaria fogo nessa casa com você dentro dela, apenas para apagar cada uma das minhas lembranças desse lugar. Então, acredite, mamãe, que a última coisa que eu quero é falar de você para alguém - respirei fundo, dando uma última olhada para Will, apenas para ver, em seu olhar, o pedido de desculpas que ele sempre carregava. Como se quisesse me dizer que não poderia ir comigo. - Você tem sorte de William ser tão certinho. Do contrário, estaria debaixo da terra. Adeus, irmão.
Eu o olhei nos olhos por mais um longo segundo antes de me afastar dele e descer os degraus da entrada correndo, sem olhar para aquela mulher novamente.
- Adeus, irmão! - ouvi ele gritar antes que eu apressasse meus passos pelo caminho de cascalho que me levaria para longe daquele lugar.
Assim que me vi fora dos portões da mansão, eu me permiti respirar fundo várias vezes, como se quisesse me livrar do ar tóxico daquela casa.
Eu jamais iria entender por que William não tinha ido embora quando teve a chance, enquanto eu sonhava com o dia em que faria dezoito anos e poderia ir para qualquer lugar do mundo, longe do lugar onde cresci. Mas ele já tinha vinte e um, e mesmo que eu suspeitasse que ele havia ficado por minha causa, hoje ficou provado que não era o caso.
Diferente de mim, Will era o apaziguador. Era calmo e centrado, conseguia ser frio e manipular os próprios sentimentos para agradar as pessoas à sua volta. Já eu não conseguia ser assim. Sentia a necessidade de dizer o que pensava, e um desejo ainda maior por coisas destrutivas.
E foi assim que eu fui direto para o bar do outro lado da cidade. Um bairro onde alguém nascido como eu jamais colocaria os pés, mas que, estranhamente, havia se tornado um refúgio nos últimos meses.
- De novo por aqui, garoto - Jack, o segurança, falou na porta, mas, como todas as outras vezes, não tentou me barrar. - Não vai arrumar confusão e me fazer te levar para o hospital no meio da noite.
Aquela era uma promessa que eu não poderia cumprir. Havia ido até ali justamente para isso. Agora eu finalmente poderia lutar de verdade, e não apenas provocar algum dos caras para arranjar uma briga.
- Hoje vou ter minha primeira luta de verdade, Jack - respondi, recebendo um olhar desconfiado enquanto ele movia a bunda para abrir a porta.
- Que Deus te ajude.
O cheiro de cigarro e cerveja barata invadiu minhas narinas quando entrei no bar escuro, de aparência duvidosa e com pessoas ainda mais duvidosas. Mas ao menos ali ninguém sabia quem eu realmente era. Não havia tratamento diferente por eu ser um Grant. Ninguém sabia das merdas da minha vida e, de bônus, eu podia socar algumas caras e beber sem ser questionado.
- Olha só quem voltou! - Daniel exclamou de trás do balcão quando me viu me aproximar, e foi logo colocando uma cerveja na minha frente. - Não se cansou de apanhar? Porque, se for isso, posso te dar uns socos eu mesmo.
- Me coloque na luta, Daniel - fui direto ao ponto enquanto pegava a cerveja e a levava à boca.
- O que acabou de dizer?
- Você entendeu perfeitamente. Eu quero entrar naquele ringue essa noite. Então coloque meu nome na lista.
Ele semicerrou os olhos, se aproximando de mim como se quisesse ter certeza sobre isso. Mas eu não podia estar mais certo sobre o que queria. Aquele era o meu presente de aniversário. Eu finalmente tinha idade para subir no ringue e brigar com algum dos brutamontes.
- Tem certeza, garoto? Esses homens não estão brincando, e ninguém vai se responsabilizar pelo que acontecer com você quando estiverem lutando - ele tentou me alertar, usando um tom que eu nunca tinha escutado antes.
- Só coloque meu nome. Eu me preocupo com o resto.
Esperei ansioso até que meu nome fosse anunciado e eu entrasse no ringue como o último vencedor. Depois de derrotar três oponentes, era de se esperar que o homem estivesse cansado, mas, a cada vez que seu punho acertava meu rosto, eu sentia todo o meu corpo oscilar para frente e para trás.
Minhas mãos doíam e, apesar da pequena camada de fita enrolada entre meus dedos, já podia ver o sangue marcando. Só não sabia ao certo se era do estrago que eu havia feito em seu rosto ou se era pelos nós dos dedos cortados.
- Reage, garoto! - ouvi Daniel gritar, e me inflamei com o incentivo, indo contra o homem que parecia uma montanha.
Meus punhos o acertaram duas vezes, em um golpe seguido e perfeito. Mas, antes que eu acertasse o terceiro, um soco atingiu minhas costelas esquerdas, me roubando o ar.
Eu tentei acertar novamente, mesmo que meu corpo gritasse para que eu buscasse por ar. Mas meu olho foi golpeado com força, me fazendo ver estrelas e ser jogado contra as cordas.
Uma repetição de golpes foi deferida em minhas costelas, e todos ao meu redor gritaram. Alguns me chamavam, enquanto a maioria ovacionava o homem que estava prestes a derrotar seu quarto oponente da noite.
Senti meu corpo oscilar para frente e para trás quando o homem se afastou. Mas, ao invés de dar a luta por encerrada, eu avancei em sua direção, acertando um soco e levando outro na altura do queixo.
O gosto metálico invadiu minha boca, mas isso não era uma novidade para mim. Não me incomodava mais tanto assim.
- Desiste, garoto - o lutador falou, me olhando tentar acertar um soco nele, quando tudo o que ele precisava fazer era dar um passo para trás.
- Só quando me derrubar, porra! - gritei, avançando e acertando mais duas vezes suas bochechas, de maneira desengonçada, mas conseguindo meu objetivo.
Mas, antes que eu fosse rápido o bastante, um soco acertou meu nariz, me jogando para trás no tatame.
Eu tentei me levantar, me apoiar nas mãos sujas de sangue, mas meu corpo havia desistido de me obedecer e apenas ficou lá, imóvel no chão, enquanto ele comemorava mais uma vitória.
- Você lutou bem, garoto - Daniel disse, tentando animar meu espírito, enquanto eu limpava o sangue do meu rosto com um pedaço de pano que ele havia atirado para mim. - Quem sabe na próxima.
A verdade é que, mesmo tendo perdido, eu estava feliz por ter finalmente lutado naquele ringue. Me bastava saber que havia conseguido acertar vários golpes sem ninguém entrando e tentando me impedir.
- Seria mais vantajoso que não tivesse uma próxima vez - um homem tatuado, com cabelos pretos e uma regata ridícula, se sentou ao meu lado, me analisando de cima a baixo. - Você tem potencial.
- Obrigado - resmunguei, tentando decifrar o que diabos ele queria comigo. Naquele lugar não costumava ter pervertidos, mas eu também nunca tinha visto aquele cara.
- Mas é um desperdício vir aqui só para descarregar a raiva - ele bateu na mesa, e Daniel colocou duas cervejas na nossa frente. - Por que não se junta à Cerberus?
- Escuta, cara, não estou a fim de entrar pra nenhuma porra de seita.
- Que bom, porque isso não é uma seita e sim uma empresa de segurança - o homem explicou, empurrando um cartãozinho contra a cerveja. - Suas habilidades e, especialmente, sua raiva podem ser usadas de forma útil. E você ainda vai ganhar dinheiro.
Eu peguei o cartãozinho preto com a palavra Cerberus escrita de branco, enquanto, em vermelho, estava o desenho em relevo de um cão com três cabeças - o famoso cão que cuidava dos portões do inferno.
Olhei de volta para o homem, o analisando. Ele era intimidante, mas seu olhar e sorriso não o deixavam assim - apenas o corpo grande e tatuado. A última coisa que queria era me envolver com pessoas malucas, mas eu precisava de um emprego, e talvez, nesse lugar, eu aprenderia a usar armas e a lutar como queria.
- Por que eu entraria para sua empresa esquisita?
- John Grant - meu corpo todo entrou em alerta e meu coração disparou quando ouvi meu nome completo. - Um riquinho mimado, filho de uma senadora famosa, herdeiro de uma quarta geração. O único motivo para um garoto como você se enfiar em um bar de malucos e bárbaros toda semana, me diz que sua vida é um verdadeiro inferno, e você quer apenas fugir da sua realidade.
Engoli em seco, vendo que o homem havia acabado de descrever perfeitamente quem eu era e o que acontecia comigo.
- Como sabe tudo isso sobre mim? E como estava me vigiando todo esse tempo sem que eu ao menos te visse?
- Você vai aprender isso e muito mais na Cerberus. Como nocautear seus oponentes, por exemplo - ele falou e estendeu a mão na minha direção. Encarei a palma estendida entre nossos corpos.
Aquilo era uma proposta boa para quem não tinha mais nada na vida além da dor.
- Com uma condição: nunca mais me chame de Grant - respondi, vendo sua sobrancelha esquerda se erguer. - De agora em diante, meu nome é John Reynolds.
O homem apertou minha mão e sorriu largo, quase como se soubesse de algo que eu ainda não tinha ideia. Então voltou a empurrar a cerveja para mim.
- Bem-vindo, Reynolds. Eu sou Cris Miller, seu mentor.
- Não pode me controlar assim, Levi. Eu trabalho com o que amo e você já sabia disso quando decidiu se casar comigo! - afirmei, continuando a arrumar meus croquis, sem me importar se meu marido continuava a gritar para que eu não fosse trabalhar.
A cada dia que passava, nossas brigas estavam ficando mais frequentes, e eu não podia deixar de ouvir a voz da minha mãe e do meu irmão me avisando disso quando quis me casar um ano atrás.
Eu era jovem e estava começando meu próprio ateliê de design, tinha o sonho de construir uma marca que se consolidasse no mundo da moda. Até que me apaixonei pelo policial mais lindo da corporação e coloquei o casamento à frente de todos os meus sonhos.
- Quando vai entender que não tem que trabalhar? Eu sustento essa casa, pago por tudo o que você precisa - ele gritou, chegando mais perto de mim. Mas, assim que me viu continuar a organizar meus papéis para sair, sua mão agarrou meu braço. - Por que quer pegar um maldito trânsito e atravessar a cidade só para trabalhar e se cansar?
- Eu amo o que faço, sempre amei desenhar e costurar roupas. Construí aquele ateliê sozinha antes de você aparecer na minha vida! - gritei de volta, agarrando seu punho para me livrar do aperto. - Não pode me pedir para abrir mão do que amo fazer.
- Posso, porque sou a porra do seu marido! - Levi grunhiu, apertando ainda mais os dedos em torno do meu braço, de uma forma como nunca havia feito antes.
O olhar dele já não era o mesmo de quando acordamos naquela manhã. Estava escuro, quase como se ele estivesse possuído por algo ruim.
Sacudi a cabeça em negação. Aquele era o pensamento mais bobo que eu poderia ter. Ele só estava nervoso, como costumava ficar sempre que a chance de ser promovido se aproximava.
Eu já havia lidado com aquele humor azedo várias vezes. Aguentava bem suas palavras duras e suas grosserias, revidando todas elas porque meu sangue fervia e não havia sido ensinada a engolir calada.
- Pare com essa loucura de querer me impedir de trabalhar. Isso nunca vai acontecer. E agora, largue o meu braço. Está começando a me machucar, Levi! - exclamei, sentindo meu coração começar a bombear pura raiva para dentro das minhas veias.
Ser criada com três irmãos e uma mãe latina durona havia me deixado ainda mais forte, me feito mais determinada em momentos como aquele. E homem nenhum me faria desistir da minha carreira.
Uma risada seca ecoou entre nós. Ele riu debochando de mim, ao invés de me soltar. Então, sem que eu esperasse, ele agarrou meu outro braço mais acima, apertando com ainda mais força seus dedos em volta da minha carne, como se realmente quisesse me machucar, me causar dor.
- Eu estou te machucando? Eu? - me questionou, arregalando os olhos e trincando o maxilar, parecendo completamente fora de si, enquanto eu lutava contra seu aperto, puxando meus braços e sacudindo meu corpo.
- Levi, pare com isso! Está me machucando!
- Não é assim que você gosta? Não é assim que o filho da puta que te fode no trabalho faz? - suas palavras me trouxeram ainda mais espanto que sua ação.
Do que diabos ele estava falando? Como podia pensar algo assim de mim, depois de tudo o que abri mão por ele, depois de todos os sonhos que atrasei?
- Que merda é essa agora? Perdeu o juízo?
- Acha que sou idiota? Pensou que conseguiria me fazer de bobo, que eu ficaria rendido por ter uma mulher mais nova e tão bela ao meu lado que não pensaria direito? - ele jogou as palavras sacudindo meu corpo. - Você sai apressada, não responde minhas mensagens, passa horas e mais horas trancada naquele ateliê. E quando chega... ah, quando minha bela esposa chega, está cansada demais para olhar pra mim, com sono para transar, sequer se importa comigo!
Senti um peso se abater em meu peito, dificultando a respiração enquanto eu era obrigada a encarar a realidade do que havia se tornado o nosso relacionamento desde o casamento.
Eu não queria enfrentar isso, porque sabia que só havia uma forma de acabar, e não estava preparada para encarar o fim. Não até agora.
- Quer saber o culpado disso? É você mesmo! - gritei, tentando colocar minhas mãos contra seu peito para me livrar dele. - Você chega em casa bêbado sempre que quer, não faz nada para me ajudar, sequer lembrou do meu aniversário! Uma flor, Levi! Nem mesmo uma maldita flor você me deu desde que nos casamos. Acha mesmo que tem como manter uma mulher interessada quando não faz o mínimo para cuidar dela? Quando não demonstra interesse pelas coisas que ela gosta de fazer ou tentar surpreendê-la?
Minhas palavras pareceram surtir algum efeito sobre ele, já que senti seus dedos perdendo a força em volta de mim. E com um único puxão, consegui me livrar de uma vez por todas.
- Onde você vai? Vamos terminar essa conversa!
- Trabalhar. É isso o que eu vou fazer. E nós já tivemos essa conversa, três meses atrás, quando você me jurou que iria mudar. - o lembrei, cansada demais para continuar com aquela conversa, tentar manter aquele casamento em ruínas de pé, quando era a única a fazer esforço. - Eu fui gentil, Levi, usei as melhores palavras para que você entendesse, e não houve efeito nem por um dia!
- Não vai jogar isso em mim, Carla! A verdade é que você só queria um otário para pagar suas contas, alguém que você pudesse usar enquanto fodia com algum garotão por aí!
Ouvir aquilo foi como receber um balde de água fria. Eu paralisei no meio da sala, olhando para o homem que acreditei amar, mas que agora via que não passou de uma fantasia que criei em minha mente.
Levi nunca foi protetor, amoroso, dedicado. Tudo isso era o que eu esperava que ele fosse. Eram as qualidades que eu admirava em Alejandro, meu irmão - o único homem que esteve ao meu lado enquanto eu crescia. E eu acreditei que estivesse me casando com uma versão desse tipo de homem.
Mas era libertador finalmente ter a verdade escancarada para mim. Ouvi-lo falar aquelas insanidades me fez encarar a realidade e arrancar um peso das minhas costas, porque, naquele momento, eu soube que sairia daquela casa e jamais voltaria.
- Tudo o que você quer é que eu abra as pernas quando pedir, e que sempre esteja em casa à sua disposição, com uma cerveja na mão e um prato de comida quente - respondi com a voz bem mais calma, porque não havia mais motivos para brigar. Não havia nada ali que valesse a pena lutar. - Mas não se importa em fazer o mínimo para apreciar tudo o que faço em casa ou fora. Não admira meu trabalho, nem o esforço que tenho para cuidar da casa e de você. Para mim já chega, Levi.
Então tudo aconteceu rápido. Rápido demais para que eu pudesse me dar conta.
Só percebi o que ele havia feito quando senti o impacto contra meu rosto, me jogando para o lado com força e me deixando completamente desnorteada.
O som da pancada zuniu em meus ouvidos, deixando tudo ao meu redor abafado, enquanto o gosto metálico invadia minha boca.
Ergui a cabeça lentamente, ainda sem conseguir acreditar no que havia acontecido, e meus olhos se encontraram com os dele. O mundo já não parecia o mesmo, ou talvez eu já não fosse a mesma.
Então vi os punhos ainda fechados, como se alguém quisesse me avisar que ainda não havia acabado. E, antes que eu pudesse dizer algo ou correr, Levi acertou outro golpe em meu rosto, me levando ao chão, minha mente tentava processar o que estava acontecendo e meu corpo assimilava a dor que se alastrava em minha mandíbula e bochecha.
Ofeguei, me arrastando no chão, sentindo o desespero no peito ao ouvir o som dos passos dele chegando mais perto, sem que eu conseguisse sequer ficar em pé.
- Você não vai me fazer de bobo, Carla! Não vou deixar que me faça de vilão nessa sua história fantasiosa, quando a única culpada é você! - ele gritou, e eu tateei o chão em busca de algo que pudesse jogar contra ele. - Não vou perder tudo por sua causa.
A dor se alastrava, como um lembrete de que aquilo era real. Estava mesmo acontecendo. Eu precisava reagir, mesmo com o medo se apossando de cada pedacinho meu.
Então senti seu pé perto demais, até que ele estivesse sobre mim, com as mãos agarrando meu pescoço. Meus olhos se abriram com esforço, mas o desespero venceu a dor e o inchaço que já começava.
- Le...
Me debati, encarando Levi de joelhos ao meu lado, com uma expressão perturbada. Os olhos pareciam prestes a saltar das órbitas, vermelhos e esbugalhados, e suas mãos continuavam o trabalho, apertando meu pescoço com força, querendo me arrancar todo o ar.
Eu queria poder gritar, socá-lo ou qualquer coisa, mas a necessidade de ar me fez raciocinar mais devagar do que queria. Meus pulmões queimavam, buscando por ar, e todo o meu corpo sacudia no chão. Minhas pernas se mexiam freneticamente, como se, daquela forma desesperadora, eu fosse conseguir me livrar dele.
A pressão em meu pescoço aumentava e o ar se tornava cada vez mais escasso. Minha garganta ardia como se estivesse em chamas, enquanto eu lutava para respirar. O desespero tomou conta quando um zumbido surdo invadiu meus ouvidos, abafando os gritos dele e os sons ao meu redor.
Minhas mãos, trêmulas e fracas, tentavam encontrar algo. O calor sufocante em meu peito se transformava em um frio gélido que percorria meus membros, enquanto meu coração martelava descompassado. Pânico crescia em ondas, um medo primitivo de que aquele seria meu último suspiro. Eu precisava reagir. Precisava me salvar antes que fosse tarde demais.
Foi quando, enfim, senti algo gelado e duro contra meus dedos. Agarrei sem pensar duas vezes e mirei no braço à minha frente, cuja mão estava prestes a me matar. Cravei em sua pele, rasgando-a e arrancando um grito de dor.
Levi soltou meu pescoço, tentando arrancar a pequena tesoura de ponta de seu braço. E isso me deu a chance que precisava para fugir.
- Volte aqui, sua vadia! - o ouvi gritar dentro da casa, enquanto eu corria aos tropeços, me apoiando nas paredes para conseguir sair dali.
- O senhor tem certeza sobre isso? - questionei Patrick, que parecia mais focado nos filhos brincando no chão do que no que estava me pedindo. - Não me sinto confortável em deixá-los. Eu sou o chefe da segurança, deveríamos enviar qualquer outro homem.
Aquela ideia de me mandar para a casa de Alejandro não me parecia certa. Eu era o chefe ali, quem dava as ordens aos seguranças e mantinha tudo funcionando.
Claro que todos os homens ali sabiam bem seu trabalho. Eu os tinha treinado da mesma forma que Cris me treinou, mas era diferente ser o cabeça que mantinha tudo em ordem.
- Poderíamos, mas Alejandro te conhece e confia em você - ele murmurou depois de um longo tempo, e então se levantou, indo se sentar junto dos filhos.
- Ele está desesperado, então vai acreditar na nossa palavra quando dissermos que qualquer outro dos meus homens é tão confiável e capaz quanto eu. Posso ir até lá e fazer as apresentações, garantir isso a ele.
Depois de tudo o que aconteceu naquela família, eu não me sentia nem um pouco animado em sair de perto deles. Foram meses de terror para Patrick e Sophie. Se algo acontecesse enquanto eu estivesse longe, não me perdoaria.
- É algo temporário, John - Sophie apareceu, com a voz doce e calma, segurando as mamadeiras dos gêmeos. - Pelo que eu entendi, é até que o marido da irmã seja preso.
- Preso? - questionei, confuso, olhando para o meu amigo bancando o pai babão, de volta para sua esposa em busca de uma resposta.
- Patrick não te contou? - Eu neguei com a cabeça e ela bufou. - Meu Deus, a irmã de Alejandro foi espancada pelo marido, e Ale está com a perna quebrada. Não pode protegê-la nesse momento.
Engoli em seco com a imagem do que Sophie acabara de descrever se formando em minha mente.
Se havia uma coisa que eu odiava nessa vida eram homens que, ao invés de proteger, se aproveitavam dos mais fracos e indefesos. Meu coração bateu mais forte enquanto eu contorcia os lábios, tentando manter meus próprios demônios presos no fundo da minha mente.
Desde o dia em que Cris me recrutou para a Cerberus, eu aprendi que poderia usar todo o meu ódio e revolta para ajudar as pessoas. Enquanto meu irmão crescia na política, tentando causar uma mudança nesse mundo podre, eu fazia o mesmo com meus punhos.
Saber daquilo me fez decidir ir de uma vez por todas. Eu poderia continuar dando ordens aos meus homens de longe e monitorar o que acontecia na casa. Meus amigos estavam em boas mãos, mas aquela garota precisava de proteção.
- Onde ela está?
Meia hora depois, eu estava esperando em frente ao hospital onde Alejandro havia me avisado que estariam, enquanto lia tudo o que havia conseguido levantar sobre Carla Fontes.
Ela era mais nova do que eu esperava - vinte e três anos - e já tinha se casado com um policial filho da puta. Torci para que uma garota esperta como ela estivesse pronta para largar o desgraçado e não perdoá-lo como muitas faziam.
Não precisei que ninguém me dissesse que ela era determinada e esperta. Bastou ler todas as informações que reuni, e soube que Carla era muito sagaz. Seus esforços para criar a própria empresa e se dedicar dia e noite ao mercado da moda provavam isso.
Ergui minha cabeça no instante em que vi as duas mulheres saindo do hospital. A loira era Magie - eu a conhecia por ser próxima a Sophie - e então havia a baixinha de cabelos pretos que chegavam até o meio das costas, a pele levemente bronzeada, o corpo envolto em um vestido azul-claro, com sapatilhas que combinavam.
As duas estavam tão distraídas, conversando e rindo, que nem ao menos perceberam a minha presença.
- Magie! - chamei alto, finalmente atraindo a atenção das duas mulheres.
Ao menos era bom ver que Carla estava tendo alguma distração. Magie também havia passado por algo parecido com o ex, poderia ajudar Carla nesse momento difícil.
- John? O que está fazendo aqui? - a loira me questionou, parecendo confusa, e isso me fez perceber que Alejandro não havia avisado sobre a minha presença ali.
As duas me observaram enquanto me aproximava, os olhos descaradamente me analisando, mas aproveitei para fazer o mesmo com a garota que estava sob a minha proteção.
Seus machucados estavam visíveis e arroxeados. O olho esquerdo estava inchado e quase se fechando, enquanto o lado direito tinha uma marca roxa que, com toda certeza, havia sido feita por um punho. Mas nada se comparava ao pescoço dela, com as marcas dos dedos desenhadas em sua pele, quase como se fossem tatuagens de tão nítidas que estavam.
O desejo de ver o sangue do verme escorrendo me encheu, mas apenas levei os braços às costas, apertando os punhos para controlar os pensamentos assassinos, antes de sorrir.
- Patrick me mandou. Vou cuidar da escolta de vocês duas hoje - respondi, soando amigável e polido, agindo como aprendi desde criança: mascarar meus sentimentos.
- Você o quê?
- Quem é você? - foram as primeiras palavras de Carla direcionadas a mim, enquanto seus olhos iam de cima a baixo, me analisando cautelosamente.
- Sou John Reynolds. Vou acompanhar vocês duas até em casa e me certificar da segurança da senhorita Carla de hoje em diante.
- O quê? Como assim? Eu nem te conheço! - ela bradou, colocando as mãos na cintura e crispando os olhos em minha direção, sem se importar com os próprios machucados.
Eu já havia lidado com esse tipo de problema: pessoas que não queriam seguranças como suas sombras até que realmente estivessem em perigo. Isso não mesmo me afetava mais. Anos na Cerberus me fizeram tolerante.
- Você vai ter toda a explicação assim que chegar em casa - Magie disse, tentando acalmar a fera de um metro e meio. - O irmão protetor ataca novamente.
- Ele não pode fazer isso! - Carla exclamou, batendo o pequeno pé no chão, como se fosse uma criança mimada.
Eu quis rir. Tanta teimosia em um corpo tão pequeno, mas a situação era séria demais para isso.
- Seu irmão está machucado e se sentindo mais do que impotente nesse momento - Magie falou mais uma vez, tentando trazer juízo à cabeça da outra, e eu me perguntei se ela teria gostado de ter um Alejandro para mantê-la segura no meio do inferno pelo qual passou. - Ele sente a necessidade de proteger vocês todas, e com a perna assim não vai conseguir. Então dê um desconto a ele, que só está querendo o seu bem.
- Você o defende agora porque não é com você! - Carla retrucou, irredutível, me dando vontade de curvá-la sobre o capô do carro e lhe dar umas palmadas para que deixasse de teimosia.
- Não estou defendendo-o. Estou lembrando o quão importante é o que ele está fazendo por você - eu quis gritar em comemoração por uma delas ao menos ter bom senso. - Algumas pessoas não têm essa mesma sorte!
Magie deu a volta e entrou no carro, parecendo um tanto melancólica - e eu até poderia imaginar o motivo. Mas Carla permaneceu do lado de fora por mais alguns segundos, me encarando como se eu fosse uma pedra em seu sapato que ela precisava remover.
Entrei no meu carro e saí logo atrás delas. Isso iria mudar em breve. Andaríamos juntos no mesmo carro, mas, por ora, deixaria que ela aproveitasse os últimos momentos de liberdade até que falasse com o irmão e eu assumisse sua proteção oficialmente.
Por sorte, o caminho até a casa de Alejandro não demorou. Mesmo assim, Carla mal esperou que Magie estacionasse o carro para pular fora dele, se apressando a entrar em casa - sem deixar de me lançar um olhar mortal.
Mal sabia ela que eu estava sorrindo por dentro, querendo dizer o quão boba era por estar com raiva de ter um segurança. Existiam coisas muito piores na vida do que ter alguém do seu lado vinte e quatro horas por dia para garantir seu bem-estar.
A segui, observando desde a entrada da casa até o quarto do irmão, analisando todos os pontos vulneráveis da propriedade e o que precisaria ser feito para melhorar a segurança.
- E então, como foi? - ouvi Alejandro gritar assim que alcancei o último degrau da escada, enquanto Carla já corria pelo corredor.
- Quem é esse homem que está me seguindo o tempo todo? - ela perguntou, colocando as mãos na cintura, parecendo um pequeno touro ranzinza.
Parei logo atrás dela, passando os olhos rapidamente pelo quarto, gravando tudo o que havia ali, mas meu olhar insistia em seu voltar para ela.
- Oi, John. Muito obrigado por ter vindo - voltei meus olhos para Alejandro, observando a perna engessada antes de dar um passo à frente, estendendo a mão para ele.
Normalmente, não faria algo tão formal assim, mas ele ainda não estava na minha lista de amigos próximos, mesmo que fôssemos todos gratos por ele ter ajudado Sophie.
- É um prazer poder ajudar.
- Eu não preciso de ajuda! - ela gritou ao meu lado, semicerrando o olho bom em minha direção. - Não quero ninguém atrás de mim, me seguindo como uma sombra.
- Tarde demais, querida. Assim que seu marido souber da queixa, vai querer ir atrás de você por vingança ou querendo tê-la de volta - Alejandro disse, repetindo exatamente o que pensei ao saber da história completa. - Então, para sua segurança, John vai garantir que o filho da puta não tenha chance de te causar mais mal do que já causou.
Ela bufou, soltando os braços, antes de sair batendo os pés contra a madeira, rebolando a bunda arrebitada. Mas, dessa vez, eu não fui atrás dela. Tinha outros assuntos para discutir com seu irmão.
- É normal reagir assim, logo ela vai se acalmar. Trabalhei por dois anos na empresa de Cris antes de pedir demissão e ir trabalhar exclusivamente para Patrick. Sei bem como são essas coisas.
- É bom saber disso. É bom saber que minha irmã está em boas mãos.
- Agora me conte mais sobre Carla e esse relacionamento deles - pedi, sabendo que precisava de toda informação pessoal, que não encontraria em nenhum lugar além de com alguém próximo.
Saber como o relacionamento dos dois começou e qual era o comportamento do ex-marido, quanto ele era bem visto por todos, era essencial para eu ter certeza de qual terreno estava pisando.
- Preciso pegar minhas coisas. Não consegui trazer nada quando fugi - Carla apareceu no quarto, avisando, sem nem ao menos se dignar a me olhar. - E tem que ser agora. Quero aproveitar enquanto Levi está no trabalho, porque assim que for suspenso, ele com certeza vai colocar fogo em tudo que for meu.
- Vamos no meu carro. Eu dirijo - respondi, apontando o caminho do corredor para ela, que travou um instante, me encarando como se quisesse arrancar minha cabeça.
- Ótimo! Se quer bancar o empregado, vai carregar todas as minhas coisas! - ela afirmou, passando por mim com a mesma fúria de antes.
Respirei fundo para me controlar - e só me dei conta do meu erro quando senti o perfume adocicado dela invadir minhas narinas, bagunçando meus sentidos.
- Será um prazer, senhorita.
Mas, assim que alcançou o portão, ela estancou no lugar ouvindo o celular tocar. Os ombros ganharam uma tensão que não estava ali nem mesmo com toda a raiva que estava sentindo por ter sua liberdade roubada. O corpo todo pareceu oscilar para frente e para trás. Então eu a segurei, colocando minhas mãos cuidadosamente no centro de suas costas, torcendo para que ela não estivesse machucada ali também.
- Ele... - ouvi um sussurro escapar de sua boca, e olhei por cima de seu ombro, vendo a foto do desgraçado preencher a tela enquanto o nome piscava em uma chamada.
Ela estava sem a armadura naquele momento. Não era mais a mulher durona cheia de raiva, mas sim uma mulher assustada a ponto de tremer apenas por ver uma foto através do telefone.
- Está tudo bem. Ele não pode te tocar através do celular - tentei garantir a ela, já pegando o aparelho de sua mão e colocando no meu bolso. - Ele nunca mais vai te tocar. Teria que passar por mim primeiro.