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Meu Ponto de Impacto

Meu Ponto de Impacto

Autor:: Cristinna Guimaraes
Gênero: Romance
Depois que Felippe de Luca Pierce se rebelou do pai e saiu da máfia italiana indo morar em Manhattan, sua vida mudou. Livre do pai e com o perdão do seu primeiro amor a quem ele causou muito sofrimento, ele se sentiu pronto para criar uma nova vida para si e um novo empreendimento, então ele criou sua própria casa noturna, Rumore, e depois criou outras, transformando-se numa cadeia de boates espalhadas pela cidade inteira. Ter seu próprio trabalho e não depender do pai para nada não lhe faz sentir saudade da máfia e ele está muito bem vivendo do seu empreendimento limpo até que pessoas de seu passado sequestram uma garota em sua boate para chegar até ele. Agora ele precisa encarar seus fantasmas do passado e resgatar Kim Kotler, uma garota de língua afiada que faz o seu próprio destino.

Capítulo 1 Finalmente nos encontramos, não é

A vida é boa. É a conclusão que eu chego depois de olhar para todos do camarote particular onde estou. Depois que eu sai da Itália para tentar viver pelas minhas próprias pernas, não teve um dia em que eu posso dizer que foi fácil, mas eu venci. Eu finalmente venci e não preciso mais viver com medo do amanhã, com medo de precisar voltar para a máfia e consequentemente para debaixo das ordens do meu pai. Olho para as pessoas que dançam como se não houvesse amanhã na pista de dança e penso no que pretendo para o meu futuro enquanto abro e fecho o meu isqueiro.

Ouço meu celular tocar e atendo ao ver que o Mike.

– Eles estão na cidade. – Era tudo que eu precisava ouvir para alegrar ainda mais o meu dia. Um sorriso se espalha lentamente pelo meu rosto e eu quero pular de alegria.

– É mesmo? Em que lugar? – Pergunto inocentemente.

– Acabaram de sair do aeroporto, pelo caminho que estão pegando tudo indica que eles estão indo para o apartamento de Dylan.

– Amadores. – Murmuro baixinho.

– Precisa de ajuda?

– Não, eu resolvo tudo sozinho. Obrigada, logo seu pagamento estará em sua conta.

– As ordens, Capo. – Mesmo que eu tenha deixado a máfia, a máfia nunca me deixou. Eu não sou um capo e mesmo assim ele insiste em me chamar de Capo depois que eu o tirei de uma pequena enrascada.

Passo pelo meu escritório, pego a minha Glock para ocasiões especiais na gaveta e confiro se está carregada, puxo uma submetralhadora 5 que gosto muito do fundo da mesma gaveta e sorrio olhando as duas. Guardo o silenciador e algumas balas no bolso, nunca se sabe o dia de amanhã. Pego o meu isqueiro favorito, minha carteira de cigarros, a chave do meu SUV e desço a escada privativa que me leva até a rua. Na escada da boate, paro um pouco e dou um sorriso aproveitando a brisa fria da movimentada Manhattan numa noite de sábado.

Depois de alguns segundos, volto ao meu ritmo e parto em direção ao apartamento de Dylan. Eu só estive lá uma vez, mas foi mais que suficiente para memorizar onde fica. Fiz uma estimativa de tempo que demoraria até que eles chegassem e percebi que a minha estimativa estava certa quando cheguei ao seu apartamento, invadi e vi que ainda estava vazio.

– Está exatamente igual desde que vim a última vez. – Digo olhando para a banana apodrecida no prato na bancada. – Eles devem ter tido um tempo bem ruim fugindo da polícia.

Com as luzes apagadas e admirando a cidade lá fora, eu me sento na poltrona confortável que tem em sua sala com vista panorâmica para Manhattan e acendo um cigarro. Trago e fecho os olhos aproveitando a sensação de calma que o cigarro me dá.

Fico assim em silêncio, tragando o meu cigarro e olhando a vista. Quando ouço um barulho na fechadura, apago o cigarro no sofá e puxo meu silenciador com calma e encaixo na Glock, virando-me na poltrona e ficando diretamente de frente para a porta.

– ... bastardos acabaram com a minha fechadura. – Ouço a voz de Dylan abafada pela porta e dou um risinho.

Quando a porta finalmente se abre, no escuro, eles entram e arrastam as malas.

– Que cheiro horrível de cigarro dentro desse apartamento. – A voz inconfundível de Anna ressoa no ambiente e eu sorrio um pouco mais, um sorriso silencioso. Quero ver quanto tempo vai demorar até eles perceberem que estou aqui.

Vê-los andar pelo apartamento, ignorantes a minha presença é altamente animador.

– Acenda as luzes, não consigo ver nada nesse escuro. – Dylan diz. – Precisamos ser rápidos.

Assim que a luz é acesa, estou com uma arma apontada para a cabeça de cada um, ainda sentado de pernas cruzadas na poltrona confortável.

– Sorpresa. Bentornato. É um prazer revê-los. – Saudei em italiano, feliz da vida. Anna parece apavorada e Dylan parece uma estátua de sal de tão branco que está. – Finalmente nos reencontramos. Nossa, que mal educados. Vim pessoalmente lhes dar as boas vindas e vocês nem me respondem. A hospitalidade de Manhattan ainda me assusta as vezes.

– O que você quer conosco? – Anna pergunta.

– Preciso dizer quando você sabe a resposta?

– Por que se mete em assuntos que não lhes diz respeito. – Olho para Dylan e arqueio uma sobrancelha.

– Tem muita coragem de dizer isso quando estou com uma submetralhadora apontada para a sua cabeça. Você mexeu com a máfia italiana e achou que sairia impune? Somos primos, família e honramos o nosso sangue. Se você mexe com um, todos se doem.

– Eu não sabia que ela fazia parte da máfia italiana.

– É esse o argumento que vai usar? É bem fraco, sabe. – Digo balançando a arma e fazendo uma careta. Olho para Anna, que parece tremer no lugar. – Apenas aprenda a aceitar a derrota, não lute batalhas que não pode ganhar.

– Quem é você para me dar lição? – Ela diz corajosa e eu me levanto. Os dois recuam e eu suspiro.

– Eu sou Felippe de Luca Pierce. – Digo sorrindo. – Chegou a hora de pagar pelo que fizeram. Fine del gioco.

Não espero responderem e atiro nos dois ao mesmo tempo. Me aproximo para conferir o meu trabalho e há um tiro limpo no meio da testa de cada um e eu sorrio.

Meu objetivo aqui já está cumprido, minha prima está vingada.

Ando entre os dois corpos e puxo meu celular ligando para Mike.

– Mike, trabalho finalizado. Por favor, venha e limpe a bagunça. Estou te esperando.

– Estarei ai em cinco minutos.

Desligo e volto a me sentar na poltrona, guardando as armas dentro do paletó. Acendo um segundo cigarro enquanto espero Mike chegar. Silenciosamente como um gato, ele entra no apartamento acompanhado de alguns homens.

– Pelo visto você foi bem rápido desta vez, chefe. – Ele diz olhando para os dois corpos sem vida.

Eu me levanto e ando até ele com as mãos no bolso e tiro o meu isqueiro, abrindo e fechando-o sequencialmente.

– Eu não gasto balas com quem não merece. Uma foi suficiente para cada um. Deixe tudo impecável. – Ele assente e eu saio.

Hora de voltar a vida normal.

Capítulo 2 Segundas intenções

– Saúde! Não acredito que você vai me deixar! – Grito levantando o copo de tequila e brindando com Desirré. – Você disse que nunca ia me deixar.

Viro o copo e faço beicinho para ela, que gargalha ao ver a minha expressão. Estamos tendo uma espécie de noite das garotas/despedida.

– O que posso fazer, Kim? O destino é algo muito imprevisível.

– Bem, você tem razão.

Desirré e Sebastian passavam o dia juntos e até algumas noites, eram raras as vezes que eu a via chegar e dormir em nosso apartamento. Por fim, ele fez um convite casual para que morassem juntos e ela aceitou, então também estou me mudando para um lugar melhor. Acho que morar juntos será bom para os dois e o casamento não vai tardar a acontecer.

A única parte ruim disso tudo é que vou ficar sozinha e pagar tudo sozinha, mas tudo bem, eu vou dar conta, tenho mais dinheiro do que posso gastar graças aos desfiles. Tenho também o meu fundo de emergência. Meus pais, ao contrário dos pais de Desirré que a abandonaram quando ela se negou a se casar por contrato, me mandam dinheiro todos os meses mesmo eu tendo saído de casa.

Eu venho de uma família nobre de advogados, aquelas onde a tradição é que os filhos sigam o caminho dos pais. Tudo esteve tranquilo por quatro gerações, até que eu me neguei a seguir os passos do meu pai. Foi como se a bomba atômica explodisse em meio a família. Me lembro exatamente das palavras que o meu pai me disse:

"Não vou alimentar nem contribuir para o seu sonho impossível de adolescente. Apenas cresça e encare suas responsabilidades. Foi para isso que te criei e te dei tudo do bom e do melhor. Ou você será ingrata a esse ponto?"

Eu desfilava desde os 12 anos, fazia pequenos comerciais e sempre gostei de moda, fazia questão de me vestir bem até para ir a escola quando atingi a adolescência. Estava tudo bem com o meu pai, afinal estava claro para ele que quando chegasse a hora eu largaria tudo e entraria para o curso de Direito pela Universidade de Harvard. Eu tinha as notas, tinha o apoio da minha família, mas não tinha o principal: vontade.

Por mais que eu tentasse, eu não me imaginava exercendo a profissão e parecia uma tortura para mim passar longos anos estudando para algo que eu não queria.

Então, numa noite de temperaturas negativas em Kent, minha família estava toda reunida para uma noite de jogos. Era feito uma reunião a cada mês e sempre na casa de pessoas diferentes da família, em meia reunião tive um surto de coragem e aproveitei que estavam todos reunidos para contar meus planos para o futuro e eles eram bem diferentes do que o meu pai tinha traçado para mim.

Todos surtaram e ninguém foi ao meu favor em ser modelo, nem mesmo a minha mãe que sempre me apoiava em desfiles e dizia que eu era a mais bonita de todas. Ninguém ficou do meu lado e eu sai de casa ainda naquela noite apenas com o meu portfólio, dinheiro das minhas permutas, minhas roupas e o meu carro. Eu não tinha um plano, eu apenas queria compartilhar meus planos para a faculdade e acabei sendo expulsa de casa nos minutos seguintes. Mas antes de sair, eu disse as minhas últimas palavras olhando nos olhos do meu pai:

"Não vim ao mundo para viver os seus sonhos muito menos para satisfazer as suas expectativas, eu sou dona do meu próprio nariz. Vou fazer sucesso, acredito no meu potencial, espero que você não venha atrás de mim quando for tarde demais. Vou fingir que não te conheço no dia que isso acontecer, guarde as minhas palavras"

Sai pela porta de cabeça erguida, mas por dentro estava apavorada, tinha acabado de terminar a escola e nunca tinha vivido por conta própria, mas eu fui forte e dirigi na direção do meu sonho, um lugar onde eu sabia que teria grandes oportunidades, a grande e iluminada Manhattan. Aluguei um lugar pequeno, fiz a inscrição da faculdade e obtive bolsa, graças as minhas notas, mas ainda havia outros gastos que um adolescente nem mesmo sonha, o dinheiro que eu tinha comigo não duraria fome e a perspectiva de não conseguir pagar as contas me apavorava. Espalhei meu currículo e felizmente fui chamada para fazer trabalhos, não eram coisas grandes, mas pagavam e assim fui sobrevivendo. Alguns meses depois conheci Desirré na faculdade e acabamos conversando e foi assim que descobri que ela tinha passado praticamente pela mesma coisa e então nos aproximamos. Eu não imaginava que aquela amizade duraria tanto, agora não consigo imaginar a minha vida sem ela. Agora somos grandes mulheres, ela está bem estabelecida na carreira dela e é namorada de um CEO, não terá problemas para o resto da vida. Eu? Me tornei uma grande modelo, sou reconhecida internacionalmente e meu rosto está estampado em muitos lugares da cidade e também trabalho para uma marca de roupas. Eu posso dizer que venci na vida.

Já faz anos que sai de casa, eu não recebi uma mensagem se quer de qualquer familiar, mas todos os meses cai dinheiro na minha conta. Eu nunca o usei e guardo em uma conta separada para uma emergência, por que só isso me faria usar o dinheiro que o meu pai mandou para mim.

Somos uma família de pessoas orgulhosas além da conta e eu pretendo devolver cada centavo.

– Garçom, mais uma dose! – Grito chamando a atenção do homem que passa perto da nossa mesa. Olho para a pista de dança lá embaixo e depois olho para Desirré. – Com quem está falando?

– Com quem mais? Sebastian. A propósito, ele está te mandando um oi.

– E dai? Ainda não o perdoei por ter me deixado sem notícias suas. – Desirré foi sequestrada pelo ex namorado e fiquei sem notícias no momento mais crucial. Quase enlouqueci tentando encontrar os dois por conta própria.

Faz algum tempo que ele pede desculpas para mim, mas ainda não o perdoei.

– Ele está me perguntando se deve comprar algo para agilizar o processo de perdão. Você sabe, ele não quer ficar brigado com a melhor amiga da namorada dele. – Ela diz me olhando com um sorrisinho.

– Um presente? Não, não há nada que eu queira.

– Ele está perguntando se você quer o lançamento novo da Gucci. É exclusivo e limitado.

– Porque tenho um amigo tão bom? – Pergunto abrindo um sorriso e mudando a minha expressão. – Diga a ele que escolha bem. Adoro o bom gosto dele.

– Como você se vende fácil. – Desirré diz com uma falsa expressão de choque enquanto o garçom serve as nossas bebidas.

– E Gucci é fácil desde quando?

– Está certa. A propósito, seu cabelo ficou lindo assim curtinho. Não sabia que combinaria tanto com você, se bem que você fica bem até com um saco. – Ela diz e eu passo a mão nas madeixas curtas.

– O cachê foi bem alto, precisava ficar bonito. – Digo levantando o celular e me observando pelo vidro da tela.

Estava secretamente insegura com o resultado final, mas ficou ainda melhor do que pensei.

– Garçom, a última rodada, por favor! – Desirré diz ao homem que está passando, que assente e se vai.

– A última rodada? Você já vai? Está cedo, ainda não é nem meia-noite. – Digo indignada olhando o meu relógio. – Eu nem estou tonta ainda e você já quer ir embora. Está me abandonando por aquele homem só por que ele tem um corpo gostoso.

– Hoje é segunda-feira, eu trabalho amanhã e você sabe disso. Não estou te trocando só por um corpo gostoso. – Estreito os meus olhos para ela, que sorri. – É brincadeira, você sabe disso muito bem. Prometo que sairemos outra vez sozinhas, dessa vez vou deixar meu celular em casa.

– Amanhã é a sua mudança, como vai trabalhar? – Pergunto cruzando os braços.

– Acredite, eu vou. Consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo, você me conhece. E é a sua mudança também.

– Eu te conheço. – Resmungo. – Sim, é a minha mudança, mas as minhas malas já estão prontas. Que droga, já que você vai embora, temos dez minutos para aproveitar. Garçom, uma rodada tripla em vez de uma rodada convencional.

– Está querendo me embebedar?

– Claro, se não para que te traria a uma boate?

– Gostei daqui.

– Também gosto bastante, é um lugar muito legal. Vim outras vezes sozinha, você sabe, nas noites de abate. Ouvi dizer que o dono é um gato, mas ainda não tive a oportunidade de comprovar.

– Com quem está ficando no momento? Alguém interessante do aplicativo?

– Ninguém, dei um tempo dos apps.

– Por que? Você amava aquilo, até me meteu na mesma coisa. – Sebastian e Desirré se conheceram pelo aplicativo. Estranhamente, ele foi o único match que ela deu e veja só, agora vão morar juntos.

– E deu certo para você, portanto me agradeça para sempre me chamando para ser madrinha de casamento e dos seus futuros filhos. – Digo apontando para ela e pegando uma das doses recém-servidas na mesa. Tomo um gole de tequila e olho para a pista de dança lá embaixo enquanto penso na resposta. – Apenas estou cansada das mesmas coisas. Quero romance, flores, beijos na boca, dividir a cama, acordar com as pernas enroscadas, cozinhar juntos, brigar, presentear, sorrir, quero ser amada, quero amar. É isso que quero, não esses casos de uma noite que não me agregam em nada.

– Uau, mas você gostava bastante. Era meio que um estilo de vida, você mesmo disse que não tem tempo para namorar por causa da sua agenda lotada e suas viagens repentinas.

– E é verdade, eu não tenho, mas pela pessoa certa posso arrumar. Temos que fazer sacrifícios em nome do amor, não? – Digo dando de ombros e pensando sobre isso.

Por que o amor parece tão distante aos meus olhos? Por que parece que nunca vai acontecer? Esse pensamento me causa amargura no estômago e eu viro o resto da dose no meu copo.

– Não fique assim, eu sei que vai aparecer alguém legal na sua vida. Você é incrível e merece muito ser feliz. Há alguém para você, tenha certeza disso. – Desirré diz pegando na minha mão por cima da mesa e eu sorrio.

– Tudo bem, é uma noite de comemoração, não vamos nos deixar levar pela tristeza. – Digo mudando a expressão. – Saúde?

– Saúde!

Nós brindamos e eu bebo tudo de uma vez.

O celular de Desirré se acende em cima da mesa e eu observo enquanto ela pega e abre um sorriso para o celular.

– Sebastian está me esperando lá fora. Você vai conosco? – Balanço a cabeça negando e ela faz beicinho. – Você vai me visitar na casa nova? – Ela pergunta se levantando e pegando a bolsa, então eu me levanto também.

– Claro que vou, acha que eu perderia a oportunidade de te visitar? Vou te visitar muito, se prepare para mim. – Digo me aproximando e abraçando-a.

– Até amanhã. Não beba muito.

– Eu prometo.

– Como se eu acreditasse em você.

– Sou uma santa. Eu juro.

– Até mais. – Ela diz passando a mão no meu braço e sorrindo.

– Até.

Observo ela se afastar até sumir de vista e viro a dose restante. Olho para o outro lado da mesa e dou risada sozinha. Pedi três rodadas e ela só tomou uma.

– Ela me enrolou e tomou apenas uma. Ela e suas técnicas para não ficar bêbada. – Digo para mim mesma puxando as doses para mim.

– Uma mulher tão bonita bebendo sozinha? Não me diga que está sofrendo por amor? – Ouço a voz antes de ver a pessoa e sorrio. Levanto os olhos e o homem que encontro me faz ofegar. Os olhos dele parecem saber o que estou pensando, pois ele sorri de lado e se senta na cadeira mais próxima. – Vejo segundas intenções em seus olhos. Estou certo? Devo temer?

Capítulo 3 Estamos emboscados.

Olho para a linda mulher a minha frente e me sinto um pouco intimidado pela expressão que ela me dirige. Sempre que eu conheço uma mulher, normalmente elas me olham com admiração, interesse, luxúria e se eu estiver sendo um pouco exagerado comigo mesmo, até mesmo com êxtase já me olharam. Mas ela não.

A mulher a minha frente me encara com uma dose de curiosidade e ao mesmo tempo um pouco de descaso. Acho que a única pessoa que já me olhou assim antes foi a minha ex noiva, Kelyne, quando descobriu que a trai com a sua amiga no banheiro do lugar onde estava acontecendo a recepção do nosso noivado. Muito cafajeste e imprudente ao mesmo tempo, eu sei, mas em minha defesa, eu não faço mais esse tipo de coisa.

Sou um novo homem.

– Continuo a ver segundas intenções em seus olhos, estou ficando seriamente preocupado. – Me pronuncio primeiro e puxo um cigarro do bolso, assim como o meu isqueiro preferido. Com calma, levo o cigarro aos lábios e acendo, dando uma tragada longa e jogando a fumaça para cima.

Sinto que ela não gostaria de receber uma dose de fumaça em sua cara.

– Acho que está equivocado. Não estou te olhando com segundas intenções. – A voz dela é parecida com ela, atrevida e clara, sem espaço para dúvidas. Surpreendendo a mim, ela pega o cigarro em meu dedo e leva a boca, dando uma tragada sexy e soltando a fumaça pelo nariz logo em seguida.

– Não? – Pergunto, observando-a sem ressalvas. Pela primeira vez desde Kelyne, acho uma mulher naturalmente interessante. Achei que isso nunca mais fosse acontecer.

Não sou muito adepto a conversar com as mulheres, já que elas sempre gostam do mesmo tipo de conversa. Conversar, ir a encontros e me mostrar interessado vai fazê-las se apaixonarem por mim e esse não é o meu objetivo.

Não devo cativar se não tenho o intuito de permanecer.

– Não. Estou apenas querendo saber quem é tão corajoso a ponto de sentar na minha mesa sem ser convidado. – Ok, ela é mais que interessante.

– Já disseram que você é diferente do que aparenta ser? – Pergunto mudando de assunto enquanto assisto ela fumar o meu cigarro. Claramente ela não pretende me devolver.

– Algumas vezes, na maioria soou como um insulto.

– Não estou te insultando, estou te elogiando.

– Pelo quê exatamente?

– Você é mais que um rostinho bonito. – Digo sendo sincero com um dar de ombros. Aproveito enquanto ela está me observando para pegar o cigarro que está entre os seus dedos.

– Estou surpresa. Descobriu isso em cinco minutos de conversa? – Ela pergunta sarcástica e toma um gole da sua bebida enquanto olha para a pista de dança lá embaixo por um momento.

O seu cabelo curto deixa a sua nuca em evidência e eu sinto uma pequena vontade de mordê-la. Estranho, acho que nunca fui muito atraído por nucas.

O que há de especial na dela?

– Sinceramente? Sim. Tudo o que você falou até agora foi totalmente diferente do que costumo ouvir de garotas.

– Uau, devo dizer que você é muito seguro de si ou que é rápido em ver por baixo de alguém? – Ela pergunta. Vejo que está na defensiva pelo olhar que me dá e pela posição do seu corpo.

– Os dois. Você ficaria surpresa em como sou bom em ver por baixo das pessoas. – Digo tragando o cigarro, arqueio a minha sobrancelha ressaltando o duplo sentido da frase e pela primeira vez ela me dirige um sorriso, mas não é um sorriso que estou acostumado a receber.

Normalmente recebo sorrisos de cobiça, interesse e amor. Todos dizem "me leve para a cama e me faça sua hoje", mas o dela é apenas um... sorriso simples. Não há nada por baixo, há apenas um sorriso genuíno de alguém que se divertiu com o que ouviu, nenhum interesse, nem mesmo um flerte.

– Essa foi muito boa. – Ela elogia ainda sorrindo.

– Obrigada? – Por que não sinto isso como um elogio? Será que minhas habilidades de sedução estão decaindo? Talvez seja melhor mudar a minha estratégia. – Então, o que faz numa boate num dia útil?

– Minha melhor amiga se casou então eu achei que seria uma boa ideia comemorar a mudança dela. Apesar de estar uma fera com o noivo dela, devo admitir que o grande idiota cuida muito bem dela. Espero que dê tudo certo e que ela seja a mais feliz das mulheres. – Ela parece sincera e eu sinto o carinho em sua voz.

As amizades ainda existem nesse mundo, poucas, mas existem.

– Casar? Congratulazioni ad entrambi. Auguro le cose migliori. – Digo desejando felicidades e boas coisas aos recém-casados. Gosto da energia de pessoas recém-casadas.

– Dico lo stesso. – Ela me responde em italiano e eu levanto as minhas sobrancelhas em surpresa para ela.

– Oh, você fala italiano. – Constato. O italiano é a vigésima primeira língua mais falada no mundo, então há muitas outras línguas que as pessoas escolhem aprender além do idioma nativo e o italiano nem sempre é uma opção.

– Um pouco aqui e ali, aprendi por causa da minha amiga que fala italiano. Eu não gostaria de saber que estava sendo xingada e não poder devolver, então aprendi algumas coisas com ela. Posso dizer que consigo me virar bem com o que sei.

– Isso é ótimo. Fala alguma outra língua?

– A língua dos homens conta? – Ela pergunta sarcástica

– Deveria. Posso dizer que é uma ótima forma de sobrevivência neste mundo. – O cigarro acabou e eu nem mesmo havia percebido.

– Concordo, ela me salva de homens como você.

– Como eu? – Pergunto colocando a mão no peito. – Isso me magoa profundamente.

– Para se magoar profundamente você primeiro precisaria de um coração, o que você não tem. – Ela é mesmo rápida.

– Isso é algo que você não tem como saber. – Respondo imediatamente.

– Então sugere que eu faça um teste? – Finalmente chegamos no ponto onde quero e estou pronto para dizer o que ela precisa ouvir quando o meu celular toca, levanto o dedo pedindo um minuto e puxo o celular. O nome de Mike pisca na tela e eu atendo no mesmo instante.

– Sim? – Pergunto.

"Estamos emboscados." Duas palavras e eu estou de pé desligando o celular e puxando a chave do carro.

– Desculpe, surgiu uma emergência e eu preciso mesmo ir. Esperarei o dia que a verei novamente com ansiedade. – Faço uma mesura, pego a sua mão e dou-lhe um beijo antes de lhe dar as costas e sair andando a passos largos.

Enquanto passo pelas pessoas a fim de chegar até a saída só consigo pensar em duas coisas:

1. Vou matar quem emboscou meu pessoal e me atrapalhou;

2. Definitivamente quero vê-la novamente.

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