O exigente trabalho de Rhy Wolfe não lhe deixava tempo para o romance o qual lhe convinha muito bem. Tinha uma amizade muito estreita com sua belíssima vizinha, Mariah. Mas isso era tudo o que eram: amigos. Sua única noite de paixão tinha sido um engano...
Rhys não sabia nem a metade. Já era bastante mau que ela tivesse estado apaixonada por ele por anos. Agora Mariah estava grávida de seu filho! Ela sabia que Rhys tinha sido ferido antes, mas seu bebê necessitava de um pai. Mariah estava empenhada em mostrar a Rhys a amar outra vez, embora tinha menos de nove meses para conseguir-lo.
Capítulo Um
Rhys Wolfe daria sua mão direita por uma ducha bem quente, uma cerveja bem fria e vinte e quatro horas de sono ininterrupto; tudo nessa ordem.
Eram seis horas da manhã na cidade de Nova Iorque: os ônibus já iam abarrotados, a cidade inteira despertava e ele estava disposto a deitar-se.
Porque para ele, para sua cabeça, não eram seis horas. E mais, nem sequer teria podido dizer com segurança que hora era. Do único que estava seguro era de que levava horas subindo e descendo de aviões, trens e carros, e estava destroçado. Abriu a cancela de ferro que dava acesso ao jardim de seu edifício e olhou ao segundo andar.
Mariah estaria acordada?
Estaria esperando-o?
Sim, claro. Provavelmente teria passado as últimas nove horas na janela esperando lhe ver aparecer. Como se lhe importasse algo.
Abriu a cancela e depois a porta de sua casa. Esse era o problema: quem se preocupava com ele de verdade.
Mariah era amiga sua, e ele dela. Ou ao menos o tinha sido, porque já não sabia o que pensar.
Fechou a porta, deixou cair a bolsa de lona, fechou os olhos e apoiou as costas, deixando que o cansaço e a preocupação ganhassem a partida.
Levava mais de dois meses fora de casa. Não havia retornado desde que... desde que uma manhã despertou na mesma cama que sua vizinha do segundo andar. Sua encantadora e deliciosa vizinha de cima. Sua amiga. Mariah.
Deus, grande confusão. O normal teria sido que estivesse desejando chegar em casa, tomar uma pausa do estresse e das exigências que representava seu trabalho em uma unidade de bombeiros de elite. Em condições normais, teria estado desejando subir para ver Mariah e conversar com ela um momento. Suspirou, moveu os ombros para desentorpecê-los e desabotoou a camisa. Mas naquele momento, não queria subir para vê-la. Não teria sabido o que lhe dizer.
Esse era o problema que conduzia o deitar-se com uma mulher pela qual se sentia algo. Complicava tudo. Danificava tudo. Dava lugar a que se criassem expectativas inesperadas, como a do matrimônio.
Não. Atirou ao chão a camisa e entrou no banho. Mariah o conhecia bem. Ninguém melhor que ela sabia qual era sua opinião a respeito do matrimônio. Tinham-no falado em incontáveis ocasiões. Ele não era homem para o matrimônio, os compromissos ou a responsabilidade. Já tinha passado por isso, e não estava disposto a repetir. E mais, tinha tomado a decisão de dizer-lhe assim a qualquer mulher que conhecesse e que pudesse sentir-se tentada de pensar o contrário. Desse modo, ninguém poderia dizer depois que não a tinha advertido. De fato, jamais se deitava com alguém para quem pudesse significar algo mais.
Tratava-se de uma regra de sobrevivência que tinha estabelecido oito anos atrás. Uma regra a qual nunca tinha faltado, até aquela noite fazia já nove semanas. Justo depois da morte de Jack.
Acabavam de terminar sua primeira missão juntos. O duro, competente e risonho Jack. O único homem que maravilhava a todos. O único a quem a morte não podia tocar. «Jack o Afortunado», como o chamavam seus companheiros de equipe, especializado em sufocar incêndios em poços e plataformas petrolíferas.
Mas dez semanas antes, em um poço do Mar do Norte, a sorte de Jack havia acabado. Ocorreu durante um incêndio igual a outros cem que tinham apagado. Ninguém se tinha comportado com imprudência. Ninguém tinha feito mal seu trabalho. Não podia encontrar explicação ao ocorrido.
Cinco dias depois, Rhys tinha voltado para casa depois do funeral de seu amigo, ainda aturdido, comovido, furioso, destroçado. A dor por Jack era muito dura de suportar, mas pior ainda eram as lembranças que despertava.
Lembranças de outro incêndio, de outro funeral: o de Sarah, oito anos antes.
Sarah, sua esposa, seu amor da infância.
Seu tempo não devia ter-se esgotado! Ela não tinha por que ter morrido.
Se ele tivesse estado em casa naquela noite, em lugar de trabalhar horas sem fim; se tivesse estado com ela como o marido que devia ser, Sarah e seu filho que nem havia nascido ainda estariam vivos ainda. Mas não tinha estado ali.
Então trabalhava no negócio da família, acabava de sair da faculdade e estava disposto a demonstrar a Dominic, seu irmão mais velho, que podia trabalhar tantas horas como ele e alcançar a mesma cota de êxito. Nem sequer tinha ido para casa a jantar. Limitou-se a chamar Sarah e lhe dizer: vou chegar tarde. Não me espere acordada.
E assim o tinha feito. O médico lhe tinha prescrito muito repouso, de modo que Sarah se deitou cedo. Mas antes de fazê-lo, tinha aceso uma vela. Ou, ao menos, isso lhe havia dito o chefe de bombeiros.
-Deixarei-te uma luz acesa -lhe havia dito ela.
Devia estar adormecida quando começou o incêndio. Já não voltou a despertar.
Perdeu-a a ela e a seu filho naquela noite, e nada do que pudesse fazer ia devolver-los. No final, tinha terminado aceitando-o.
Tinha aprendido a viver com a dor. E com a culpa.
Para desespero de seu pai, tinha deixado o trabalho na empresa familiar e tinha decidido ser bombeiro.
- Para que demônios quer ser bombeiro? -tinha-lhe perguntado seu pai-. A Sarah já não vais poder recuperar.
-Sei.
Mas precisava fazê-lo. Precisava lutar uma e outra vez contra os demônios que lhe tinham arrebatado a sua esposa, fazer tudo o que estivesse em suas mãos para ganhar a batalha que tinha perdido.
Era um bom bombeiro. Decidido. Sereno. Frio frente às chamas. E assim tinha conseguido encaixar na profissão. Ou ao menos, tentá-lo.
Durante os últimos oito anos, tinha-o conseguido. Agora tinha uma vida: um apartamento no lado oeste, longe da zona leste onde antes vivia com Sarah. Tinha amigos e, de vez em quando, tinha alguma mulher.
Mas não ia voltar a casar-se. Nunca.
Nunca mais ia aproximar-se tanto de alguém. Isso sim que não tinha superado. Querer a alguém do modo como queria Sarah doía muito, e não podia voltar a fazê-lo, e para isso mantinha todas suas relações controladas. Tinha amigos; tinha amantes ocasionais. Mas nunca uma amiga que também fosse sua amante.
Até que voltou para casa depois da morte de Jack.
Naquela noite a dor e as lembranças lhe tinham engolido por completo.
E Mariah, a inocente Mariah, surpreendida de ver suas luzes acesas, passou por sua casa para ver o que acontecia.
Não recordava muito do que tinha ocorrido depois. E mais, tentava não recordá-lo. Durante mais de dois meses, tinha tentado não recordá-lo.
Não queria recordar como lhe tinha abraçado, nem seus beijos, nem suas tentativas de acalmá-lo, a ele, a um homem que não necessitava de ninguém... e que havia se agarrado a ela como um menino desamparado.
A necessidade de um menino lhe tinha empurrado a beijá-la, a acariciá-la, a procurar a suavidade de seu corpo. Seu corpo necessitava de sua paz. Desesperadamente.
E lentamente, Mariah se tinha entregue a ele.
Apertou os dentes. Não podia pensar nisso. Não queria permitir-se recordar, porque quando o fazia, inclusive naquele momento, seu corpo lhe traía e queria que voltasse a ocorrer.
Não! Não podia permiti-lo. Queria Mariah como amiga, e não podia permitir que chegasse a nada mais.
Ainda recordava o estupor que tinha sentido ao despertar e encontrá-la adormecida em sua cama.
Ele não dormia com nenhuma mulher... não desde Sarah.
Era muito íntimo. Implicava muito.
Mas naquela noite tinha dormido com Mariah. Quando por fim tinha aberto os olhos à pálida luz do amanhecer, tinha-a encontrado aconchegada a seu lado, a cabeça recostada no ombro, uma perna sobre a sua e um braço por cima de seu ventre.
Não se tinha atrevido a respirar ou a mover-se. Mas precisava fazê-lo. Tinha que sair dali como fosse, mas sem despertá-la.
Que demônios poderia lhe dizer se seguia ali quando ela abrisse os olhos?
Nem soube então, nem sabia agora.
Havia passado nove semanas tentando sabê-lo.
E ainda esperava que lhe ocorresse algo quando a visse. Possivelmente, com um pouco de sorte, e conhecendo-a, fosse ela quem tomasse a iniciativa. O mais provável era que lhe tirasse importância. Possivelmente lhe diria que não importava, que tinha sido uma noite e nada mais.
Respirou fundo. Sim, talvez ocorresse assim. Mariah era esse tipo de mulher: generosa, amável... uma mulher que lhe agradava de muito.
Uma das coisas que mais gostava nela era que não se parecia em nada com a Sarah.
Mariah era alta e magra, mas forte. Não tinha nada a ver de frágil com que era Sarah. Enfrentava-se ao mundo com os braços abertos, enquanto que Sarah sempre tinha sido mais precavida, sempre esperando que fosse ele quem tomasse a iniciativa.
Seu cabelo era distinto também. Sarah era loira e levava o cabelo curto, que ele podia revolver com uma mão. O de Mariah era castanho e comprido, e recordava ter enredado os dedos nele aquela noite.
Sacudiu a cabeça e tentou desfazer-se da lembrança.
Tinha que pensar em Mariah como em uma amiga. Era o que ambos queriam. Ela nunca tinha feito nada que sugerisse que quissesse mais. Precisamente por isso se sentia tão cômodo com ela.
Desde que se conheceram em um churrasco que havia organizado em seu terraço e ao qual convidou a todos os vizinhos, fez-lhe sentir-se como um bom amigo. Mariah, sempre estava alegre e era extrovertida, a vizinha perfeita. Uma mulher divertida, com quem era divertido passar o momento. Gostava de ir correr com ela, ao cinema, a algum restaurante novo ou na inauguração de alguma galeria.
Passou-se uma mão pelo cabelo e bocejou. Quando tivesse tomado banho e tivesse dormido, enfrentaria-se a ela, diria-lhe o muito que valorizava sua amizade, e que queria que as coisas seguissem como antes.
E então ela, com um sorriso, proporia-lhe:
-Quer que subamos ao Empire State Building?
E então saberia que tudo tinha voltado para a normalidade.
A histórioa do Empire State tinha começado a ser uma brincadeira entre eles três anos atrás quando Mariah, nascida no Kansas, tinha subido ao último andar do emblemático edifício e ele, nascido em Nova Iorque, não.
Tinha insistido em que subissem, e ele se negou. Uma vez. Duas. Meia dúzia de vezes.
Até que ao final lhe tinha enganchado por um braço quando voltavam caminhando para casa depois de ter ido ao cinema, tinha parado um táxi e tinha dado ao taxista o endereço da rua trinta e quatro.
-Que idiotice -tinha protestado ele.
-É precioso, já o verá. Mágico -tinha insistido ela.
E tinha razão. Tinha sido mágico. Era tarde, assim não havia muita gente. Era uma noite clara e Nova Iorque se estendia a seus pés brilhando como um punhado de diamantes atirados ao azar por um gigante.
-Vê-o? -tinha-lhe perguntado Mariah, olhando a ele e não à vista.
-Vejo-o -tinha respondido, e tinha sido ele quem insistiu em que ficassem até que os vigilantes lhes pediram que partissem.
Haviam retornado muitas vezes depois. Quase cada vez que ele voltava para casa. Exceto naquela noite.
Mas não importava. Tudo já tinha acabado.
Encaminhou-se à ducha, mas a tentação da geladeira lhe deteve, e imaginou a si mesmo com uma cerveja gelada na mão. Embora sabia por experiência que a cerveja seria melhor quando tivesse tomado banho.
Levava sobre seu corpo um mês de areia, pó e graxa do Oriente Médio, além de barro e cinzas.
A ducha ali servia para muito pouco. Sempre havia mais pó, mais areia, mais barro, tanto que chegava a meter-se o sob a pele. E sabia que, por muito que se lavasse, não ia conseguir desprender-se de tudo isso até que voltasse para casa.
Despiu-se, entrou no banho e abriu as torneiras da ducha.
Em segundos, estava sob uma cascata de água quente. Que bênção!
Tomou seu tempo. A água lhe caía com força sobre a cabeça e a sentia clara, pura, fresca.
Sentiu-se melhor. Mais vivo. Assobiando, começou a ensaboar-se. Depois aplicou com as mãos calejadas o xampu e se limpou.
Olhou para baixo e viu que a água saía limpa por fim, assim fechou as torneiras e começou a secar-se.
Em seguida escovou os dentes e passou uma mão pela mandíbula. Não se tinha barbeado em cinco dias. Não tinha tido tempo, e decidiu que podia esperar vinte e quatro horas mais.
Passou uma vez mais a toalha pela cabeça e secando o rosto saiu para o dormitório... e se tropeçou com algo suave, mas indubitavelmente firme.
-Mas que demônios...? -retrocedeu bruscamente, baixou a toalha e olhou boquiaberto-. Mariah?
A última pessoa que esperava ver, a última pessoa a quem queria ver, estava de pé na porta de seu dormitório usando uma camisola curta de algodão e nada mais. Tinha o cabelo revolto de dormir, estava pálida e parecia tão surpreendida como ele. Nos braços levava um montão de roupa.
-Que demônios faz aqui? -perguntou-lhe.
Teria gostado de lhe perguntar o mesmo!
Uns ruídos estranhos a tinham tirado de um profundo sono.
De repente, despertou. Ficou um momento na cama, tentando esclarecer as idéias. Depois, assustada, deu-se conta de quão único podia ser:
Rhys!
Levantou-se da cama e, com a roupa na mão, encaminhou-se para a porta. Vestiria-se em seu próprio apartamento. Assim, mais tranqüila, poderia voltar para falar com ele.
Mas o que na realidade tinha ocorrido era que se topou de frente com ele que saía do banho.
E o único que usava era uma toalha... sobre a cabeça! olharam-se um ao outro atônitos e rapidamente, graças a Deus, ele tinha baixado a toalha.
-Eu.. sinto muito -se desculpou-. Não pretendia te assustar. É que estava... como sempre me diz que posso usar seu apartamento quando você não estiver... se tenho convidados. Minha prima Erica está aqui com sua família, e pensei que seria mais fácil que eles ficassem em minha casa e que eu me descesse para dormir aqui.
-Não se preocupe - lhe disse Rhys -. Claro que não passa nada porque vieste dormir aqui - fez um gesto com a mão-. Não há problema. Volta para a cama, que eu me deitarei no sofá.
-Não -o que queria era falar com ele, limpar o ar entre eles. Mas não naquele momento. Não assim-. Não seja ridículo. Está esgotado e vais dormir em sua cama. De todas formas, já me tinha que levantar. Troco os lençóis e me parto.
Voltou-se sem ter terminado a frase e puxou os lençóis.
Sentia o olhar de Rhys nela enquanto trabalhava. Quisera ter entrado antes para vestir-se no banheiro. Sabia que a camisola apenas lhe cobria o traseiro. E sabia que ele sabia também.
O que não sabia era se lhe importava ou não.
Haviam feito amor na última vez que tinha voltado para casa, mas não era tão tola para acreditar que tinha significado algo especial para ele. Embora ela pudesse desejar que fosse diferente...
Em um minuto tirou os lençóis da cama. Depois, sentiu-o tentando esquivá-la e se deu conta de que pretendia chegar à cômoda.
- Sinto muito - murmurou ela, com as bochechas vermelho vivo-. Em seguida me tiro do meio.
Ele tirou roupa das gavetas e se vestiu rapidamente enquanto Mariah tentava não olhá-lo, embora pela extremidade do olho... Tinha um corpo precioso: firme, magro e vigoroso.
Respirou fundo e tirou uns lençóis limpos.
-Deixa que eu o farei -disse Rhys-. Não se preocupe, Mariah, de verdade. E pode ficar aqui sempre que quiser. Para isso te deixei a chave. Somos amigos, não?
Sim. Eram amigos. Ou o tinham sido. Já não estava segura do que eram.
-Não teria ficado se tivesse sabido -respondeu enquanto estirava o lençol.
-Por que?
-Já sabe.
-Pelo que ocorreu -adivinhou Rhys.
O único que se moveu durante um par de segundos foi o lençol suspenso no ar. Depois Mariah assentiu.
-Temos que falar sobre isso.
-Sim. Sei o que você pensa de...
-Exato -a cortou ele-. E você também o pensa assim, verdade? Por que estragar uma boa amizade como a nossa? Assim que o melhor é seguir adiante a partir daí.
Ela piscou.
-Foi... um impulso. Uma febre. Simplesmente... ocorreu. Não tem por que trocar algo.
Mariah o olhou com uma sensação de náusea no estômago. Sentiu frio de repente, mas estava suarenta. Certamente tinha ficado pálida. Que raiva. Ao fim e ao cabo, era o que esperava, não?
-Nada tem que ser distinto -insistiu ele-. Fomos amigos. Somos amigos - se corrigiu-. E o que... o que fizemos, não tem por que danificá-lo.
-Não, mas...
-E não voltará a ocorrer. Olhe, Mariah, sei que foi uma forma de me consolar... você acreditava que o necessitava e..
Deteve-se e ela o viu tragar saliva. Também se deu conta de que nunca admitiria que o tinha necessitado de verdade.
-Estava passando por um mau momento. A morte de Jack e o funeral.
Mas não era somente por Jack e ela sabia. Jack tinha sido o detonante de tudo, mas sua necessidade ia mais à frente. Chegava até Sarah, a esposa da qual nunca falava a menos que tomasse umas quantas cervejas a mais e se esquecesse de manter a boca fechada.
Sarah, a única mulher a quem tinha amado.
Mariah estava imóvel e Rhys respirou fundo.
-Você estava sendo amável comigo e... e eu não deveria ter feito... o que fiz. Tinha perdido a cabeça, e me aproveitei. Rompi a regra.
-Que regra?
-A de não ter sexo com as amigas. Já sabe. É algo que não faço nunca.
-então te deita com suas inimigas?
-Não, não, claro que não. Mas tampouco me deito com as mulheres às quais me une uma amizade especial. Não... assim não.
-Assim como?
- Não deveria me ter deitado contigo, nem deveríamos ter dormido juntos - se obrigou a ser claro-. Complica tudo. Se não nos andarmos com cuidado, poderia inclusive mudar as coisas entre nós, e eu não quero que isso ocorra. Seria um erro. Foi um erro.
Já o havia dito. Ela somente o tinha procurado. Em sua opinião, haviam feito amor por engano.
-É óbvio que foi -respondeu sem imprimir nada a sua voz. Não estava disposta a lhe mostrar a dor que causavam nela aquelas palavras. Deveria haver imaginado.
E sabia, que demônios! Mas naquela noite não tinha podido esquecê-lo.
Rhys sorriu e lhe estendeu a mão.
-Bom, sem ressentimentos, não?
Ela não respondeu, e tampouco estreitou sua mão. Olhou-o nos olhos e depois apartou o olhar. Tentou unir forças. Voltar a ser a pessoa que ele queria que fosse.
Seu amiga, sua companheira.
Rhys baixou a mão, mas não podia deixar as coisas assim.
-Mariah... -sorriu uma vez mais-. Somos amigos? Recolheu a roupa e os lençóis e as apertou contra o peito como se fossem um escudo.
-Amigos -respondeu, com o olhar baixo. Ele sorriu e suspirou aliviado.
-Genial.
Mariah passou de longe e chegou ao vestíbulo, sentia-se fria, suarenta, as náuseas cada vez mais fortes. Já junto à porta, deteve-se.
- Mas as coisas não voltarão a ser como antes - lhe disse.
Ele franziu o cenho.
-Por que não? Mas havias dito que...
-Estou grávida, Rhys. Vou ter teu filho.
Não é que Mariah se esperasse que se ficasse louco de alegria. Ela, melhor que ninguém, conhecia a opinião de Rhys sobre a família.
O tema tinha saído poucos meses depois de que se conhecessem. Tinha-lhe pedido que a acompanhasse à bodas de sua amiga Lizzie e ele tinha aceito de bom grado. Estavam na recepção quando surgiu o tema do matrimônio, um tema que o zangou, mal havia iniciado.
-Estive casado, e não penso repetir -havia dito sem mais.
Naquele tempo, ela não sabia nada de seu passado e lhe tinha surpreendido tanta veemência.
-Então, se conhecesse a mulher adequada, mandaria-a passear? -tinha brincado ela, esperando que cedesse um pouco.
Mas não tinha sido assim.
-Nunca chegaria tão longe. Nunca haverá outra mulher adequada porque eu não chegarei nunca tão longe.
Uma clara advertência. Não podia dizer que a tinha enganado.
Mas com advertência ou sem ela, apaixonou-se por ele irremediavelmente.
Conhecia-o fazia três anos, desde que comprou o apartamento de cima do dele. Viviam um ao lado do outro, falava com ele, comia ou jantava com ele, ria com ele, jogava com ele. E tinha descoberto que ele era tudo o que sempre tinha procurado em um homem.
E ele nunca saberia, porque quando ela se deu conta, decidiu não revelar-lhe precisamente porque sabia que ele não procurava uma relação. Sabia que não queria outro amor.
Assim, durante três anos, nunca lhe tinha pedido mais do que ele estava disposto a dar. Durante esse tempo tinha sido o que ele queria dela: sua amiga. Sua companheira. A pessoa a quem chamava quando queria ir correr, ou a brincar um momento no parque, ao cinema ou para tomar uma cerveja no McCabe. A amiga com a qual ia provar um restaurante novo, ou à última exposição, ou a uma partida dos Yankees.
Ela era a única pessoa com a qual tinha estado no Empire State Building.
E agora, poderia ser que já não voltassem a ir nunca mais. Porque tinha visto o desconcerto em seus olhos. Porque tinha visto a negação neles. Porque tinha visto a mescla de fúria e dor que brilhava em seu olhar.
Qualquer esperança que tivesse podido albergar tinha morrido naquele instante.
E a realidade seguia sendo a mesma.
Dentro de sete meses, ia ter um filho de Rhys Wolfe, tanto se ele gostava como se não, tanto se o queria como se não.
Ela sim o queria. Tinha tido tempo de assimilá-lo e, definitivamente, queria-o.
Não é que fosse sua intenção ficar grávida ao descer ao apartamento de Rhys naquela noite. Tinha sido a curiosidade e a preocupação que a tinham empurrado a chamar a sua porta.
Aquela noite, ver a luz acesa lhe tinha surpreendido. Fazia apenas uma semana que havia partido para Inglaterra, e apesar de que seu calendário trabalhista era bastante anárquico já que os incêndios eram imprevisíveis, não era normal que estivesse de volta tão cedo, e se temeu que tivesse ocorrido algo de mal.
Por isso tinha chamado a sua porta. E quando não lhe abriu, utilizou a chave que lhe tinha dado para que pudesse dar uma olhada à casa de vez em quando.
Tinha-o chamado por seu nome e ele não tinha respondido.
Sabia que luz era a que estava programada para acender-se só quando ele não estava, mas não era a que tinha visto de seu terraço, assim havia voltado a chamá-lo.
-Rhys? Está em casa?
Ao entrar viu a porta de seu dormitório aberta e o abajur da mesinha projetava sua luz sobre o chão de madeira.
- Rhys?
Entrou para o interior. A porta que se comunicava com o jardim também estava aberta.
Imaginou que estivesse lá fora contemplando as estrelas e sorriu. Muitas vezes tinham feito precisamente aquilo: sentar-se sob as estrelas e conversar. Ele gostava disso.
Dizia que lhe ajudava a relaxar.
E ali o encontrou, tal e como se imaginava, sentado em uma das cadeiras, mas com os olhos fechados, os braços caídos, a boca fechada. No chão, junto à cadeira, havia uma garrafa de uísque e um copo.
Mariah arqueou as sobrancelhas. Rhys quase nunca bebia, além de uma cerveja nos dias de calor.
-Rhys?
Não se moveu e pensou que possivelmente estava dormindo.
Então, viu-o apertar os dentes e tragar saliva. Agarrou-se aos braços da poltrona e abriu devagar os olhos.
Não saía suficiente luz da habitação para poder ver sua expressão, mas sim para dar-se conta de que se movia como um ancião.
Rapidamente se aproximou dele. Algo não ia bem.
-Rhys? -agachou-se junto a ele. Então viu a dor. O esgotamento. Tomou sua mão. Estava gelada-. O que passa?
Ele não respondeu. Só a olhava.
-Jack -disse ao final.
Foi como um golpe. Não precisou dizer nada mais.
Conhecia Jack Ou'Day. Viram-se em várias ocasiões, e tinha sentido em si mesma o encanto de sua pele morena, seu infatigável bom humor, seu gênio irlandês e a graça de seus movimentos. Rhys não se parecia nada com Jack. Carecia de sua intensidade, de sua determinação, mas apesar de todas as diferenças, estavam mais unidos do que se fossem irmãos.
E vendo a dor no rosto de Rhys, soube. Não precisou dizer nada mais.
Em silêncio se aproximou dele e lhe abraçou.
E também sem uma palavra, Rhys se abraçou a ela. Agarrou-se a ela como se se estivesse afogando, ocultando o rosto na curva de seu pescoço.
Não poderia dizer quanto tempo estiveram assim, nem quando entraram do jardim à casa. Não poderia saber quando seu abraço deixou de ser consolo e se transformou em algo mais, em um sentimento mais forte, e quando a necessidade de Rhys tinha começado a ser desesperada e algo que só ela podia satisfazer.
Possivelmente deveria havê-lo impedido.
Dos dois, era ela quem devia ter feito um esforço para manter um controle, para pôr freio, a dizer que não.
Ou possivelmente, não fosse assim. Possivelmente, se era sincera, nunca teria podido fazê-lo. Fazia meses. Fazia anos.
Porque esse era o tempo que levava lhe amando.
Assim não disse não quando seus lábios procuraram os seus. Não disse não quando colocou as mãos sob sua blusa, quando lhe tirou as calças e se tirou os jeans, quando caíram sobre a cama abraçados e encontraram a paz um no corpo do outro.
Não queria dizer que não. Queria ter aquela noite. O amor. A união. Queria a Rhys.
Esperava... levava nove semanas esperando, que aquela noite de amor chegasse a ser algo mais. Um pouco mais profundo. Algo duradouro.
Não era sua intenção, certamente, que o duradouro fosse um filho.
Deveria ter tomado precauções, é obvio, mas o que tinha ocorrido não era premeditado. Tinha surpreendido tanto a ela como a ele. Mas não o lamentava.
E possivelmente se equivocava nisso, pensou naquele momento, ainda com os lençóis e a roupa apertada contra o peito e enquanto subia devagar a escada até sua casa.
Mas não. Lamentava algumas coisas, sim, mas não ter feito amor com ele nem ter concebido um filho.
Quão único lamentava era que a Rhys seguia lhe parecendo um erro, e que ela não soubesse como lhe fazer mudar de opinião.
Tinha que fazê-lo. E o faria. Mais adiante.
Naquele momento quão único tinha que fazer era chegar a seu apartamento antes de que o enjôo o impedisse.
-Pode-se saber que demônios há...? -Rhys não terminou a frase e olhou boquiaberto à mulher de cabelo castanho que lhe tinha aberto a porta do apartamento de Mariah -. Quem é você?
-Sou Erica, a prima de Mariah -a mulher o olhou com certo nervosismo ante tanta veemência, mas depois sorriu-. E você deve ser Rhys.
-Por que?
Erica tragou saliva com nervosismo.
-Não sei... imaginei-me isso. Ao voltar Mariah me há dito que estava em casa. Espero que não te importe que esteja usando sua casa enquanto que nós estamos aqui. Disse-me que não, mas...
-Claro que não me importo -replicou-. Onde ela está?
Tinha subido correndo a escada assim que tinha reunido a coragem suficiente para fazê-lo. Além disso não estava convencido de havê-la entendido bem. Não podia havê-la entendido bem!
-Está no banheiro. Tomando banho, acredito.
Rhys apertou os punhos. Apertando também os dentes, entrou na sala.
- Esperarei.
Queria estrangulá-la. Como podia dizer algo assim e sair correndo escada acima? Não podia acreditar-lo. Grávida? Dele?
Olhou a seu redor tentando encontrar algo com o que desafogar-se. Algo que quebrar, esmagar ou estrangular. Não havia nada.
Nem sequer lhe resultava familiar aquele espaço. A sala normalmente ordenada e acolhedora estava abarrotado e de pernas para cima. Era como se os extraterrestres tivessem se apoderado dela. Extraterrestres com meninos.
Havia montões de bonecos esparramados pelo chão e roupa transbordando das cadeiras. Não havia onde sentar-se. O sofá fora transformado em cama e um menino de pijama estava deitado nela vendo os desenhos na televisão. Olhou a Rhys com mínimo interesse e em seguida voltou-se para a tela.
Não saia da cabeça. Mariah, grávida?
Cada vez que juntava as duas palavras, era como se alguém lhe desse um soco no estômago.
-Tyler, sente-se e deixe o senhor... eh... Rhys se sentar. É Tyler -disse a Rhys-. Meu filho. Quer que te traga um café? Mariah me há dito que ias dormir, assim não sei se quererá café, mas...
Dormir?
Mariah lhe dizia que estava grávida dele, partia como se tal coisanão o importasse, e esperava que ele fosse dormir?
Impossível.
-Não, obrigado -respondeu. Já tinha os nervos de ponta. Começou a passear pela habitação.
Um soluço infantil soou no dormitório e Rhys deu um pulo.
-O que foi isso?
-Ah... Ashley - sorriu-. É nossa filha. Jeff, meu marido, a está trocando. Tinha que vir esta semana para Nova Iorque para um seminário e nos viemos com ele.
Enquanto falava, encheu duas taças de café e ofereceu uma a Rhys como se não acabasse de declinar o oferecimento.
-Mariah é a madrinha de Ty -continuou Erica-, e faz anos que não o via. Nem sequer conhecia Ashley, assim decidimos vir todos para vê-la. Mariah e Sierra não vêm com freqüência para casa e sentimos falta delas. Já sabe... essas coisas de famílias.
-Pois é, não sei. Erica piscou.
Quando demônios Mariah ia sair? Como podia lhe fazer algo assim? Apertou a taça entre as mãos como se queria estrangulá-la.
-Então não tem família? Erica parecia compadecer-se dele.
-Irmãos -respondeu com secura.
-Ah, isso está bem- sorriu-. E te criaste aqui, na cidade?
Rhys se passou uma mão pelo cabelo e voltou a perambular de um lado a outro da habitação.
Ao final, deixou de um golpe a taça sobre a mesa. O café se transbordou e se esparramou.
-Tenho que ir. Diga a Mariah que preciso falar com ela. Que desça.
Mariah não estava segura de querer ouvir o que Rhys teria a dizer, apesar de que a ducha quente e as duas bolachas que comeu esperava que melhorassem seu estado de ânimo.
-Veio te buscar -dizia Erica enquanto ela se penteava-. Precisava ver-te -acrescentou com curiosidade.
-Descerei mais tarde -respondeu. Quando se sentisse menos enjoada e mais forte. Mais capaz.
- Está como um trem. Por que não nos tinha falado dele?
-Porque não há nada que dizer.
- Pois me parece muito interessado por ti.
-Não nesse sentido.
- Que pena. É que é homossexual?
Mariah quase se engasgou.
- O que?
-Pois se não o é, por que não está interessado? É solteira, preparada, bonita, não te falta nenhum dente... que mais pode pedir?
-Não quer nada disso.
-O que?
- Não importa.
Terminou de pentear-se e respirou fundo. Sentia-se um pouco melhor. No momento, lhe tinham passado os enjôos. Essa era uma das razões pelas quais ficou na casa de Rhys: para que sua prima não a visse com o estômago na boca todas as manhãs e não tivesse mais rações para especular.
Não havia dito a ninguém que estava grávida. Tinha esperado para dizer primeiro a Rhys.
E agora que o havia dito... Mesmo assim, não se atreveu a dizer a Erica. Teria que responder a muitas perguntas, e ainda não estava preparada para falar disso.
Se Rhys tivesse se alegrado... se tivesse sorrido e a tivesse tomado nos braços como fez Gibson, o marido de seu amiga Chloe quando lhe disse que estava grávida... bom, nesse caso teria lhe agradado compartilhar a notícia com o mundo inteiro.
Mas não tinha sido assim. Rhys tinha ficado petrificado. Atônito. Destroçado. Ai, Rhys!
-Vá falar com ele -disse Erica-. Pergunte-lhe se quer vir conosco ao Empire State Building.
Mariah esteve a ponto de começar a rir.
-É com ele com quem você foi, não?
- Sim.
-Então, certamente gostará de ir.
- Acaba de chegar em casa.
-Pergunte você.
-De acordo. Farei-o.
-O que é o que vais perguntar? -quis saber Jeff, o marido de Erica, que entrou naquele momento na habitação com a pequena Ashley de oito meses que entregou a sua mulher depois de beijá-la nos lábios. Olhavam-se com tanto amor nos olhos que Mariah não sabia se os olhava verde de inveja, ou dava a volta precisamente pela mesma razão.
Queria um amor como esse.
-Perguntar ao amigo de Mariah, que por certo está como um queijo, que se nos acompanha hoje - disse Erica.
-Mariah tem um amigo que é um queijo? -perguntou Jeff.
-É somente um amigo - esclareceu Mariah.
- E está como um queijo - insistiu Erica-. Sei que você não necessita um homem, mas sua companhia é agradável.
Não era preciso que o dissesse. De onde teria tirado sua família a idéia de que ela era completamente auto-suficiente? Possivelmente fosse porque tinha já trinta e um anos e durante os últimos oito havia se esforçado muito tentando chegar a ser a melhor jornalista para a revista de tiragem nacional em que trabalhava, o qual não lhe deixava tempo para procurar o homem perfeito.
Mas isso não queria dizer que não estivesse interessada.
Porque o estava. E muito.
Podia ter um chefe que a tinha em muito alta consideração, e uns companheiros de profissão que a admiravam. Os temas de seus artigos, muitos dos quais já tinham sido queimados pelo resto da imprensa, falavam bem dela. Mariah Kelly podia ser uma das cronistas mais respeitadas do círculo dos ricos e famosos da América do Norte, uma mulher que tinha alcançado um êxito que jamais poderia haver-se imaginado.
Mas isso não queria dizer que sua vida fosse perfeita. Não queria dizer que queria passar o resto de seus anos sem um homem. Sem o homem ao qual queria. Rhys.
Respirou fundo. Não podia adiar-lo para sempre. Teria que falar com ele, e lhe escutar, em algum momento.
«Por favor, Meu deus», disse no silêncio de seu coração. «Faz que isto funcione».
Rhys não sabia o que fazer com as mãos, assim terminou por guardar-las nos bolsos. Deu-se a volta e a olhou fixamente.
Como podia ficar sentada no sofá tão tranqüila enquanto ele passeava de um lado para outro como um possesso?
-Você já sabe o que penso da família.
Sabia que parecia estar a acusando, mas não podia evitá-lo. Estava fazendo todo o possível para controlar-se. Entre seus companheiros era conhecido por sua serenidade para trabalhar sob pressão... e naquele momento se sentia como se a tampa fosse saltar-lhe de um momento a outro!
Mariah assentiu.
- Já sei o que pensa da família. Pelo menos, sei o que diz. E eu... compreendo, mas...
-Então, como pudeste...?
- Não fui eu sozinha! -espetou, perdendo a calma.
- Já sei, maldita seja! É que...
Fechou os olhos e tentou serenar-se.
Quando abriu de novo os olhos, viu que Mariah o olhava como se a tivesse esbofeteado. E possivelmente tinha sido assim. Mas ele também se sentia mal. Apanhado. Torturado.
-Não contava com algo assim -murmurou, tentando suavizar as coisas.
-E você acha que eu sim?
-Não, claro que não! Eu queria dizer isso. Deve estar sendo tão horrível para ti como para...
-Não -lhe cortou.
-Como?
-Hei dito que não. Não está sendo mau. Não o é -repetiu-Admito que quando me inteirei, fiquei aturdida. E angustiada, porque não tinha ficado grávida do modo que eu tinha imaginado que seria -sorriu com um pouco de tristeza-. Mas agora já o superei. Estou bem, e quero ter a criança.
Parecia totalmente decidida.
-Quer ter-la? -parecia incrédulo-. Mas se és uma mulher de carreira.
-Montões de mulheres trabalham e tem filhos, e eu vou fazer-lo também.
- Mas nunca havia dito que queria ter filhos!
-Nunca me perguntaste isso.
Ele a olhou boquiaberto e depois moveu devagar a cabeça, incrédulo.
-Não tem sentido. Não tem sentido -repetiu, olhando-a como se não a conhecesse. Nos três anos que fazia que se conheciam, nenhuma só vez tinha dado o sinal mais leve de que lhe interessasse casar-se e ter uma família. Precisamente por isso gostava tanto dela!
Bom... por isso -e porque era uma mulher divertida, uma grande conversadora, que sabia escutar e que era compassiva e generosa.
Sentia-se enganado. Defraudado.
-Tudo isto... foi...?
Não sabia como dizê-lo, mas ela o intuiu e seu olhar se tornou duro como o aço.
- Não, não foi deliberado! E se por um segundo só foste capaz de pensar que eu... -tinha perdido por completo a calma - ... vá para o inferno!
Deu meia volta e pôs-se a andar para a porta.
Rhys correu atrás dela e a segurou pelo braço. De repente ficaram a escassos centímetros de distância, tão perto que pôde sentir sua respiração na bochecha, tão perto que quando seus seios subiram com a respiração, estiveram a ponto de lhe roçar.
E de repente recordou o que havia sentido quando lhe roçaram de verdade.
Soltou seu braço e retrocedeu.
-Não o pensei -lhe disse-. Não... sério. É que... - passou-se a mão pelo cabelo, deixando-o de pé-. É que... estou... arrasado. Não... não esperava algo... assim.
Mariah foi dizer algo, mas ele levantou a mão para que não lhe interrompesse. Tinha que terminar.
-Não é que não tenha pensado em... o que passou. Mas não tinha pensado... nisso.
Possivelmente porque todas as mulheres com as quais havia se deitado desde a morte de Sarah, que não eram tantas, sempre tinham estado preparadas. Procuravam o mesmo que ele, e a gravidez nunca tinha sido uma opção.
Olhou para Mariah. Ela não o olhava. Estava de braços cruzados com o olhar perdido rua abaixo. Baixou o olhar às escondidas tentando descobrir alguma diferença, mas não viu nada. Tampouco tinha visto em Sarah no primeiro mês.
- Só tinha uma pequena barriguinha quando... morreu.
A garganta lse apertou e algo começou a lhe palpitar atrás dos olhos. Doía-lhe.
Tinha que recuperar a calma. A distância. A serenidade que tinha conseguido depois da morte de Sarah, a sensação de caminhar em uma espécie de bolha de vidro, desligado de tudo e de todos.
Era o único modo de sobreviver.
Respirou fundo e tentou tragar o nó que tinha na garganta. Umedeceu-se os lábios.
-Não quero me casar -disse com firmeza.
-Ninguém te pediu que o faça - respondeu ela.
Ele piscou várias vezes.
-Dá-me dito isso -a acusou.
Ela se encolheu de ombros.
-Porque tinha direito de saber, mas isso é tudo. Se não querer ter nada que ver com o bebê... ou comigo, não passa nada.
- Claro que passa! Passa tudo! Estás grávida!
- Sim. E vou ser mãe. Vai me encantar sê-lo. O olhou desafiante-. Mas não vou obrigar a ti a ser pai, Rhys.
- Segundo você, isso já está feito.
- Só biologicamente.
E já era suficiente. Mais que suficiente.
-Darei-te dinheiro -disse-. Te ajudarei economicamente. Não te faltará nada. Ao... bebê -quase se engasguou ao dizer a palavra- ...não faltará nada. Mas isso é tudo. É tudo o que posso fazer. Tudo o que quero fazer. Entendido?
Esperava uma discussão. Uma condenação. Que lhe dissesse quão bastardo era. E ele, não o negaria.
Mas ela não discutiu. Não o condenou. Limitou-se a aproximar-se da porta e olhá-lo nos olhos.
-Você escolhe, Rhys. Você perde isso.
Foram ao World Trade Center.
Era mais alto que Empire State Building, disse-lhes Mariah. Se queriam subir o mais alto de um arranha-céu, o melhor seria escolher o mais alto de todos.
-Não tem que convencernos -disse Jeff alegremente-. Iremos aonde você diga.
-Ao World Trade Center -decretou Mariah. E não ao Empire State Building.
Não teria podido suportá-lo.
Se concedesse um Oscar para melhor interpretação da vida real, ela o mereceria. Não só por passar toda uma tarde de visita turística pela cidade quando o que de verdade desejava era escavar um buraco na terra e morrer nele, mas sim por ter mantido a calma ante a explosão de Rhys, por não haver-se vindo abaixo... bom, quase.
Mas o tinha conseguido. Não teria servido de nada zangar-se com ele, discutir, tentar convencê-lo. Ela jamais tentaria ganhar desse modo o amor de um homem, nem para si mesmo, nem para seu filho. Tinha que ser porque ele o sentisse assim.
E sabia que terminaria por ser assim. Só tinha que lhe dar tempo.
E depois de se esquivar o mais habilmente que pôde das perguntas de sua prima sobre Rhys, Jeff e ela se entusiasmaram tanto com tudo o que iam vendo, Tyler fez tantas perguntas, e Ashley reclamou tanta atenção como o bebê de oito meses que era, que ninguém se deu conta de que o sorriso de Mariah empalidecia de vez em quando, que às vezes tinha que segurar as mãos para que não tremessem, e que embora o World Trade Center oferecia uma vista espetacular de Manhattan e do Empire State Building, Mariah não foi capaz de olhá-lo.
Em seu lugar, deixou vagar o olhar pela Staten Island, e tentou não recordar o dia que Rhys e ela tomaram o ferry para ir e voltar para a ilha. E mais, tentou não pensar em Rhys nem um segundo.
Porque se o fizesse, suas emoções se descontrolariam. Começaria a preocupar-se. A assustar-se. E já não teria como voltar atrás.
Era difícil prestar atenção ao que estavam vendo.
-Eu vigiarei o menino - disse a Erica e Jeff, quando eles duvidavam entre desfrutar da vista ou vigiar a seu filho-. Vamos, sócio. Deixemos um momento tranqüilo a papai e a mamãe.
Foi o melhor que pôde ter feito. Tyler resultou ser a distração perfeita com suas mil perguntas, e nenhuma só sobre Rhys.
Apenas lhe dava tempo de recuperar a respiração entre as respostas, o qual não estava mal. Não queria ter tempo de pensar.
Mas não podia evitá-lo. Seria seu filho tão inquisitivo como Tyler? Seria movido e curioso como ele, ou tranqüilo e plácido como Ashley? Teria seu cabelo castanho, ou o cabelo preto como o do homem que dizia não querer crianças? Qual seria sua cor de olhos: cinza escuro como os seus, ou azuis como as do homem que a tinha olhado com tanta ferocidade naquela manhã?
Apoiou a mão em seu ventre como se pudesse proteger a seu bebê da ira e das acusações que tinham brilhado em seu olhar.
-Dói-te o estômago? -perguntou Tyler. María apartou a mão e sorriu.
-Não. É que tenho fome. Eu diria que um sorvete não nos viria nada mal. Você o que acha?
Tyler sorriu.
- Genial!
Rhys despertou sentindo-se ainda pior do que se sentia antes de deitar-se. Por um instante não foi capaz de recordar por que.
Mas um segundo depois, soube. E não lhe pareceu real. Não lhe pareceu possível.
Deu-se a volta com um gemido, abriu os olhos e recordou a última vez que tinha dormido ali. Mariah havia compartilhado com ele a cama.
A lembrança era tão vívida, tão intensa, tão estremecedora que inclusive naquelas circunstâncias, seu corpo se endureceu de desejo.
Com um movimento brusco, apartou a roupa da cama e se levantou.
Entrou no banheiro, abriu a torneira de água fria e colocou a cabeça embaixo. Lavou-se o rosto. Escovou-se os dentes. Barbeou-se. Vestiu-se.
Foi depois à cozinha, preparou a cafeteira e bebeu quase de um gole todo seu conteúdo.
E enquanto estava ali de pé, com a taça nas mãos, pensou em como tinha estado no dia anterior... nervoso, temeroso, perguntando-se se Mariah e ele poderiam superar aquela noite.
Agora já sabia, não sem certa amarga ironia, que nunca poderiam superá-lo.
Possivelmente, pensou, animado pelo café e uma esperança despejada, se mudaria. Não tinha que viver ali por causa de seu trabalho. No verão anterior, por exemplo, ele tinha passado em Hamptons enquanto estavam de obras em sua casa. Talvez decidia ir viver ali.
Assim não teriam que ver-se. E tudo seria mais fácil. Podia lhe enviar o cheque uma vez ao mês ao endereço que lhe desse. Assim faria a sua obrigação . Certamente não lhe pediria mais.
Não tinha discutido com ele. Não havia dito uma palavra. Tinha compreendido.
Respirou fundo e sentiu que o peito lhe expandia, que a opressão que vindo sentindo desde que ela pronunciasse a palavra grávida, remetia. Provou respirar fundo outra vez, e outra.
Sim, sentia-se melhor.
Poderia assimilá-lo. Poderia lutar. Como sempre o tinha feito.
Acabou-se o café. Depois, recolheu sua bolsa de roupa, levou-a ao porão e colocou todas suas roupas na máquina de lavar roupa, tal e como sempre fazia cada vez que chegava a casa.
Tentou concentrar-se em cada um de seus movimentos: medir o sabão e acrescentar amaciante.
Fechou a caixinha, girou o programador e puxou. A máquina começou a encher-se de água, como fazia sempre.
Subiu cantarolando uma canção, como fazia sempre.
Pegou o telefone. E se deteve. Ia chamar Mariah para ver se queria ir comer algo com ele. Bem. Algumas coisas teriam que mudar. Mas não as importantes. Ia seguir vivendo sozinho. Seguiria solitário. Inalcançável. Incólume. Exatamente como ele queria.
Os convidados de Mariah se foram no sábado.
-Passamos-o maravilhosamente -a ponto de subir no táxi que os levava a aeroporto, Erica se voltou para abraçar Mariah pela última vez-. Não sei como te agradecer por nos suportar.
-Foi um prazer -lhe assegurou Mariah. E o tinha sido... até certo ponto. Ter Erica, Jeff e aos três meninos toda a semana a tinha mantido ocupada... e calma. Tinha-lhe impedido de perguntar-se o que estaria fazendo Rhys, se estaria começando a assimilar tudo, o que lhe passaria pela cabeça.
Não tinha sabido nada dele em toda a semana.
Havia imaginado que se zangaria, que inclusive podia fingir que não estava grávida, mas não que pretendesse ignorar sua existência.
Eram amigos! E os amigos não davam as costas um ao outro. Os amigos não se deixavam na mão. Os amigos não ignoravam um ao outro.
E isso era precisamente o que estava fazendo Rhys.
Não lhe tinha visto, nem tinha sabido nada dele. Tinha-lhe desculpado dizendo-se que não queria subir para sua casa enquanto que Erica e Jeff estivessem ali, e não podia lhe culpar. Além disso, tinha muito que pensar.
Não esperava que lhe fosse fácil. Não esperava, nem sequer quando tivesse conseguido pô-lo tudo em claro em sua cabeça, que ficasse louco de alegria.
Não esperava que lhe pedisse que se casasse com ele. Não em um primeiro momento. Ainda não.
Embora no fundo de seu coração, atreveu-se a esperá-lo.
Mas, ao menos, esperava voltar a vê-lo.
E não lhe tinha visto em toda a semana.
Na noite anterior a partida de Erica e Jeff, preparou um jantar para todos e convidou a Sierra, sua irmã, e a alguns amigos que seus primos tinham conhecido durante sua estadia: Finn e Izzy MacCauley, Gib e Chloe Walker e Sani e Josie Fletcher. Rhys conhecia a todos, e todos se perguntariam por que não estava ali.
Assim o convidou. Não estava em casa, de modo que lhe deixou uma mensagem na secretária eletrônica. Não estava lhe pressionando. Só estava sendo boa vizinha... estava sendo sua amiga.
À manhã seguinte, ao voltar de fazer um pouco de compra, encontrou sua mensagem na secretária eletrônica.
-Obrigado por seu convite - dizia em um tom tão distante que quase não o reconheceu-, mas não vou poder ir. Tenho outro compromisso.
Todos os outros chegaram pontualamente ao jantar, e todos perguntaram por Rhys.
-Tinha outro compromisso -repetiu, tentando não parecer sarcástica, mas Izzy e Finn a olharam arqueando as sobrancelhas, Chloe parecia atônita e Sam perguntou:
-Não está fora, não?
E Gib disse:
-Que outro compromisso pode ser melhor que este?
-Aparecerá -vaticinou Sierra com seu habitual otimismo-. Certamente teria algum rolo desses de família dos quais não se pode escapar.
Possivelmente, pensou Mariah, mas que ela soubesse, quão único fazia com seus irmãos era ir pescar.
Em qualquer caso, não apareceu.
Sentia-se vazia. Preocupada. Vagamente perdida. Tentou convencer-se de que necessitava tempo, que possivelmente não queria encontrar-se com ela enquanto estivessem ali seus primos. Quer dizer, que lhe concedeu o benefício da dúvida.
Mas naquele momento, ao dar a Erica o último abraço, viu aberta a porta da cancela que conduzia a seu apartamento e o coração lhe deu um salto.
- Voltem logo - disse a sua prima.
-É tua vez de vir para casa -respondeu Erica, tomando Ashley nos braços.
-É certo -respondeu. Rhys estava fechando a porta a suas costas.
-Olhe! É Rhys! Olá, Rhys! -exclamou Erica. Mariah se voltou para lhe ver esboçar um sorriso dirigido a sua prima.
-Vamos -disse-. Ontem à noite sentimos sua falta durante o jantar.
Rhys seguiu com o sorriso de cortesia, mas não respondeu. Ia vestido para ir correr e, normalmente, teria se aproximado e, lhe passando um braço pelos ombros, haveria-lhe dito:
- Anda, vá pôr o moletom. Espero-te. Mas naquela ocasião, nem sequer a olhou.
- Que tenham uma boa viagem -disse a sua prima, tentando parecer alegre-. Adeus, Ty. Adeus, Jeff.
Beliscou brandamente a bochecha de Ashley e a menina sorriu.
Pela extremidade do olho viu Rhys fechar a porta. Estava a apenas metro e meio dela. Menos, inclusive. Em seguida começou a afastar-se. Nem sequer se deteve. Nem sequer a olhou. Saiu e pôs-se a correr rua abaixo.
As portas do táxi se fecharam, e Mariah contemplou como se afastava.
- Adeus! Adeus, Mariah! -despediu-se sua família pelas janelas.
- Adeus! -respondeu, agitando a mão, e depois olhou ao homem que se afastava em direção ao parque-. Adeus -repetiu com suavidade.
Mas sabia que não era com Erica, Jeff, Tyler ou Ashley com quem estava falando.
Manteve-se afastado.
Tomou um avião para Colorado para passar uns dias com seu irmão fotógrafo, Nathan. Depois foi ao Montauk para passar um fim de semana de pesca com seu irmão executivo, Dominic.
E, ao voltar, sempre via Mariah.
Ela não fazia esforços por evitá-lo. Sorria. Inclusive lhe dizia olá. Olhava-lhe com aqueles olhos cinzas que ele recordava perfeitamente da noite que tinham feito amor... algo que, apesar de tudo, desejava voltar a fazer.
Mas o que mais desejava, por cima de tudo, era deixar de pensar nela.
Quando estava em casa, via-a todos os dias. Saía ao terraço para regar as plantas quando ele estava embaixo no jardim. Punha sua roupa para secar nesse diminuto varal no qual pendurava o que ela chamava roupa delicada.
Estava ficando louco.
Possivelmente não voltasse a falar com ela. Inclusive podia ser que não se encontrassem nunca mais cara a cara.
Mas não ficou no jardim. Não estava sendo um dia agradável para ele. Não tinha por que ficar fora se ocupando do jardim. Já teria tempo para fazê-lo mais adiante.
Quando a escandalosa roupa interior de Mariah Kelly estivesse seca e guardada em uma gaveta.
A estava evitando.
Não havia outra palavra para descrevê-lo. Era escritora, e ganhava a vida utilizando as palavras adequadas.
Evitando-a. Sim, isso era o que estava fazendo. Não só não a chamava, nem se passava por sua casa, mas sim trocava de direção se a via. Metia-se em qualquer loja que encontrasse para não cruzar-se com ela. Trocava de caminho para não ficar no seu.
Pois não lhe evitava.
Mariah sempre havia se enfrentado cara a cara com a vida, e isso era o que seguia fazendo. Seguia caminhando para onde fosse embora o visse vindo em sentido contrário, e quando o via meter-se no supermercado para evitá-la, tragava-se a dor e seguia caminhando. Não tinha deixado de regar as plantas ou de estender a roupa quando ele estava no jardim. Inclusive lhe dizia olá, ou lhe saudava com um gesto da mão. E se ele a ignorava ou fingia não ter ouvido, tentava convencer-se de que necessitava mais tempo para assimilar as coisas.
Mas estava começando a cansar-se de esperar.
Esse era o problema de trabalhar em casa: ficava ali muito tempo.
Precisava sair, afastar-se. Tinha rechaçado uns quantos trabalhos por temor ao comportamento de seu estômago. A última hora da manhã estava acostumada a encontrar-se bem, mas não podia levantar-se cedo para ir a uma entrevista porque iria dando enjôos por todo o caminho.
Não sabia quanto tempo mais Stelle, sua chefa, ia tolerar suas negativas, já que não sabia que estava grávida.
Somente Rhys sabia.
Dentro de muito pouco teria que começar a dizer a todo mundo, mas ainda não. Isso era o que se dizia todos os dias: ainda não.
O telefone soou naquela noite na hora do jantar. Tinha desistido de ter esperança de que fosse Rhys. Bom, quase. O coração seguia lhe pulsando mais forte cada vez que soava o telefone.
Era Stella.
- Tenho uma entrevista para ti!
-Uma entrevista? Quando? Onde? Não sei se posso ir neste momento - anunciou com cautela.
-Poderá. Trata-se de Sloan Gallagher.
-Sloan Gallagher? Mas se não concede entrevistas -lhe recordou. Ninguém tinha conseguido uma entrevista com ele fazia anos. Nem sequer se sabia onde vivia com exatidão. Se soubesse, meio mundo estaria acampado ante sua porta.
-Sand Gap, Montana -anunciou Stella-. E quer falar contigo!
-Comigo? Mas se eu nunca lhe pedi que me concedesse uma entrevista.
-Não, mas todos outros, sim. E quer fazê-la para promocionar seu novo filme. Parece que lhe importa mais que todas as outras, assim concordou em conceder uma entrevista. E a conceder-la a ti.
-E por que a mim?
-Diz que é justa e sensível. Ao que parece leu a que fez com Gavin McCormell e lhe impressionou, assim ligou.
Gavin McConnell, outro dos astros de Hollywood mais resistentes a conceder entrevistas, tinha falado com Mariah no outono anterior. O artigo tinha saído no mês passado.
-E chamou a ti?
-Incrível, verdade? -Stella parecia alucinada-. Quer que vá a seu rancho. Quer que esteja ali quando recolherem o gado e o marcarem... para que o retrate tal e como é, e não como Hollywood acredita que é.
-Recolher o gado? Marcá-lo? De verdade Gallagher marca seu gado? De verdade trabalha em seu rancho?
Mariah tinha ouvido esses rumores, mas os tinha considerado somente isso, rumores.
-Parece ser que sim. Por isso te convidou para ficar uma semana lá.
-Uma semana?
- Foi isso que disse. E suponho que você não quererá fazê-lo em menos tempo, não?
Dava a impressão de que Stella duvidaria de sua prudência se lhe dizia o contrário.
Mariah não estava segura de querer fazê-lo. E se passasse o dia com enjôos?
Mas que bem podia fazer ficar em casa? Passaria o dia ali colocada pensando em Rhys. E uma vez ali, poderia escolher o melhor momento para entrevistá-lo.
-De acordo. Irei.
Mariah estava em qualquer lugar que olhasse.
E, de repente, um dia, deixou de estar ali.
Rhys se alegrou. Assim poderia ocupar-se do jardim, sorrindo ao não vê-la no terraço. Nada de roupa interior movendo-se ao vento. Algo mais do que alegrar-se.
Foi correr no parque e tampouco a viu. Sentou-se para ler o jornal na sala e não a viu descer nenhuma só vez pelas escadas.
Tampouco no dia seguinte.
Certamente estaria fazendo alguma entrevista fora da cidade. Saía de vez em quando um dia ou dois. Às vezes ia a Hamptons, ou a Greenwich ou a Cape, e inclusive mais longe.
A revista para a qual escrevia era de cobertura nacional, mas normalmente estava acostumado a ter trabalhos relacionados com o nordeste. Em condições normais, saberia onde estava porque ela o teria dito.
Disse-se que não lhe importava onde estivesse. Não era assunto dele. Além disso, não precisava sabê-lo para nada.
Só tinham sido amigos. E agora, eram até... menos.
Saiu sozinho para jantar a um novo restaurante tailandês que tinham aberto na Broadway. Mariah adorava a comida tailandesa, e se perguntou se ela já conheceria o lugar.
Depois fez todo o possível para não voltar a pensar nela em toda a noite.
Já lhe perguntaria no dia seguinte quando a visse. Como sem lhe dar importância. Ao fim e ao cabo, não havia razão para a afastar de sua vida por completo. Só precisava manter distância, não permitir que chegasse a depender emocionalmente dele. Nada de compromissos.
Mas Mariah não apareceu tampouco no dia seguinte.
Nem no outro.
Ao não vê-la durante cinco dias seguidos, começou a preocupar-se, o qual lhe incomodava enormemente.
-Pois então, pergunta -resmungou entre dentes.
A senhora Álvarez, uma vizinha, o diria.
-Está em East Hampton, entrevistando a esse político tão bonito -ou-: está em Newport, com esse bonito marine - diria, com a esperança de pô-lo ciumento.
Sempre o esperava, porque segundo ela, Mariah e ele pareciam feitos um para o outro.
O qual, é obvio, não era certo.
Ele não era feito para ninguém, e não conhecia o ciúmes. Mas lhe teria gostado de saber onde estava.
Não é que tivesse muita importância, porque não ia sugerir que fossem jantar nesse novo restaurante tailandês, nem a uma partida dos Yankees, nem a ver um filme no Lincoln Plaza.
Saudou timidamente à senhora Álvarez ao sair a correr naquela tarde. Estava sentada na porta, esperando ao entregador.
Não gostou de como lhe tinha olhado. Fixamente. Com curiosidade.
Mariah lhe teria falado do bebê? Se ela teria imaginado-o?
A Mariah ainda não se notava nada, mas não demoraria para começar a ter uma barriguinha. Que aspecto teria com o ventre inchado e seu filho dentro?
Imaginar-lo lhe fez tropeçar no último degrau.
-Cuidado -disse a senhora Álvarez.
Rhys não respondeu, mas sim começou a correr e tirou da cabeça aqueles negros pensamentos.
Não lhe importava. Não queria sabê-lo! Sarah estava já de quatro meses quando... Não! Apertou o passo. Não ia pensar nisso tampouco. Não queria recordar. Seguiu imprimindo velocidade a seu passo.
Não foi exercício que fez naquela noite, senão correr a tudo o que lhe davam as pernas.
A senhora Álvarez seguia sentada nas escadas quando voltou uma hora mais tarde, empapado de suor.
-Corre como alma que foge do diabo -disse.
Rhys não respondeu, mas pensou que era uma imagem muito adequada.
No oitavo dia de ausência, viu-a descendo de um táxi.
Rhys acabava de dobrar na esquina. Vinha de uma de suas corridas noturnas, que já tinham deixado de ser somente exercício. E embora tivesse dado tudo o que podia uns minutos antes, voltou a correr a toda velocidade para agarrar Mariah pelo braço antes de que chegasse à porta.
-Onde demônios estavas?
Ela o olhou. Parecia cansada. E surpreendida.
Ele também o estava. Rapidamente soltou seu braço e se afastou um passo.
-É que as pessoas perguntavam por ti -explicou. Mariah arqueou as sobrancelhas.
-Pessoas?
- Chloe.
O qual não era certo, mas poderia havê-lo sido. Chloe tinha vivido na casa de Mariah no verão passado enquanto estava de obras na sua e tinha saído com Rhys alguma vez enquanto ela estava em Hamptons. No outono passado, em lugar de voltar para sua casa de Iowa para casar-se com seu prometido, tinha-o feito com Gibson Walker, o fotógrafo com o qual trabalhava.
Agora Chloe estava grávida. Gravidíssima. Como se tivesse inquilinos vivendo em sua barriga. Rhys se tinha tropeçado com ela, literalmente, dois dias antes no Zabar.
-Sentimos a sua falta no outro dia na casa de Mariah - lhe havia dito ela, e ele tinha murmurado uma desculpa qualquer.
Na realidade, foi-se a um clube de jazz no Soho para estar fora de casa quando chegassem os convidados de Mariah.
- Bom, já nos veremos - se despediu alegremente Chloe-. Lhe convidaremos para vir em casa quando nascer o bebê. Dá um beijo a Mariah de minha parte.
-Disse-me que não tinha falado contigo desde o jantar -lhe disse naquele momento a Mariah-, e que se perguntava onde te tinha metido.
-Em Montana. Tinha trabalho ali.
Aquilo lhe surpreendeu. Não estava acostumado a afastar-se tanto de casa. Tivesse querido lhe perguntar que tal lhe tinha ido. Sempre gostava que ela lhe contasse coisas sobre os ricos e famosos, já que Mariah entendia a essa gente melhor que ninguém. Sabia encontrar pontos em comum com eles. Metia-se sob sua pele. Sabia conseguir que fossem totalmente naturais com ela.
Mas não perguntou nada.
Recolheu sua mala do chão antes de que ela pudesse fazê-lo.
-Eu levarei isso -disse isso com brutalidade.
Demônios... deveria havê-la deixado subir sozinha, mas é que aquela mala parecia muito pesada. Certamente não deveria levar pesos. Não em seu... estado. Tentou não lhe olhar a barriga.
Ela pôs-se a andar, e ele a seguiu.
Abriu a porta em silêncio e começou a subir as escadas. Então começou a falar, a lhe contar como lhe tinha ido a entrevista. Quando mencionou o nome de Sloan Gallagher, arqueou as sobrancelhas. Inclusive ele sabia que Gallagher não concedia entrevistas e sentiu curiosidade por saber como ela tinha arrumado para que a estrela mais procurada e mais resistente de Hollywood tivesse concordado em falar com ela.
Mas não perguntou.
Apertou os dentes e subiu atrás dela.
Resultou ser uma vista memorável.
De fato, ver o traseiro de Mariah usando umas calças de linho à altura de seus olhos esteve a ponto de ganhar a partida. Esgotado depois da corrida e incomodo consigo mesmo por aquela reação, quando chegou à porta lhe faltava oxigênio.
Mariah se voltou para olhá-lo.
- Não estás em forma? -perguntou-lhe, mas ele não respondeu. Não podia fazê-lo sem ofegar, assim esperou que ela abrisse a porta de seu apartamento e entrou atrás dela para deixar a mala.
-Obrigado - sorriu Mariah-. Quer água? Parecia alegre, contente de vê-lo, como se nada tivesse mudado.
Mas não era assim.
-Não -deu a volta-. Tenho que ir.
Ela piscou várias vezes e seu sorriso empalideceu antes de morrer por completo.
-Já nos veremos -disse ele, e desceu as escadas de dois em dois.
Suas esperanças tinham acabado em água.
Ela havia partido dizendo-se que não estar ali, esperando saber dele a cada instante ajudaria... ajudaria a ambos. Que ele assim teria tempo suficiente para assimilar a nova situação.
Tinha voltado para casa acreditando que assim seria, disposta a lhe abrir os braços, a alegrar-se com ele, a convir com ele que, apesar de que aquele não era o melhor modo de iniciar uma família, tudo ia sair bem; que podiam consegui-lo... os três.
E quando lhe tinha recolhido a mala, tinha tido que conter-se para não lhe abraçar naquele mesmo instante. Menos mal que não o tinha feito porque, ao que parecia, Rhys não estava mais preparado do que quando se foi para aceitar sua paternidade. Não estava preparado para formar parte do milagre da nova vida que tinham criado entre ambos.
E podia ser que nunca o estivesse.
Era a primeira vez que se permitia formular aquele pensamento.
Sua mente e seu coração o rechaçaram quase imediatamente. Queria Rhys, e não estava disposta a acreditar que ele ia dar as costas a esse amor... ou a seu filho.
Ainda seguia tendo náuseas, mas não tão intensas nem tão seguidas como antes. Além disso, agora era necessário que algo as desencadeasse, como por exemplo aquela ocasião em que Sloan Gallagher lhe ofereceu para provar algo que ele chamava ostras das montanhas Rochosas para tomar no café da manhã.
Ela o tinha olhado com desconfiança.
-O que é?
- Testículos. Testículo.
E tinha tido que sair correndo ao banheiro.
Mais tarde, para recuperar sua credibilidade e que ele não acreditasse que era uma questão de melindres femininos, tinha-lhe explicado que se devia a seu estado.
A confissão lhe tinha feito sentir-se sobressaltada e vulnerável, mas surpreendentemente ele se mostrou pormenorizado e desejoso de apoiá-la. Por ter reputação de estirado e insensível, Sloan Gallagher a tinha surpreendido gratamente, algo que pretendia refletir claramente em seu artigo. Stella ia se encantar.
O qual, por outro lado, estava muito bem, já que ao que parecia ia ser mãe solteira.
Rhys lhe havia dito que a ajudaria economicamente. E certamente o faria. Mas a economia doméstica não era o maior de seus problemas. Não é que fosse rica, mas ganhava o suficiente dinheiro para viver.
Não era nessa área em que queria o apoio de Rhys.
Era em sua vida, e na vida de seu bebê.
Mas não estava disposta a lhe rogar.
Tinha-lhe sorrido ao vê-lo. Tinha falado com ele ao encontrar-lhe nas escadas. Esperava alguma sinal que indicasse que estava repensando.
E seguiu esperando.
-Uma festa para um bebê que ainda não nasceu? -Rhys esteve a ponto de tragar a língua e olhou aturdido o telefone que tinha na mão-. De que bebê?
-Pois o de Chloe, é obvio -respondeu alegremente Izzy MacCauley-. A quem mais conhece que vai ter uma criança?
Rhys respirou um pouco mais tranqüilo.
-Essas coisas são para mulheres.
-Que tolice. Gib e Finn estarão lá. E Sam e Fletcher. Conhece a todos.
Izzy não aceitava um não por resposta com facilidade.
-Está bem -respondeu Rhys-. Irei.
-Estupendo. Por que não vem com Mariah?
-Não posso!
-Por que não?
-Eu... fiquei de ir pescar com meu irmão nesse dia. Não sei quando voltaremos.
-Ora. Enfim, nós gostaríamos que viesse. Sentimos sua falta na festa de Mariah.
-Já...
Desligaram pouco depois.
Rhys cometeu o engano de falar com seu irmão Dominic da festa para o bebê enquanto pescavam.
-É uma tolice. Não importa se chegarmos tarde e não posso ir.
-Uma festa para um bebê? Grande vida social a tua - exclamou, sorrindo-. Seria imperdoável que perdesse isso.
E se assegurou de que voltassem a tempo. Assim não teve mais remédio do que ir.
-Que passe bem -se despediu seu irmão.
- Sim. Genial.
Todo mundo estava ali quando chegou.
- Entra -Tansy e Pansy, sobrinhas de Izzy e Finn, convidaram-lhe a entrar-. Estão todos no terraço.
E lhe conduziram através de uma espaçosa sala de teto alto para o terraço no conversavam e riam uma dúzia de pessoas.
Mas ele somente viu uma: Mariah.
Na realidade, viu dois. Mariah estava sentada no balanço com Crash, o menino de dez meses de Finn e Izzy, no colo. Balançando-se brandamente, Mariah segurava as mãos do pequeno enquanto este dançava sobre seus joelhos. Os dois riam e ela parecia... parecia uma mãe.
E naquele momento, seguiu olhando-a.... até que ela reparou nele e afastou rapidamente os olhos.
-Quer tomar algo? -oferecer-lhe Finn-. Cerveja? Chá gelado?
-Cerveja -murmurei Rhys, embora o que de verdade tivesse querido era um uísque. Só.
Bebeu a cerveja sem aproximar-se de Mariah. Estava claro que não tinha falado a ninguém de sua gravidez. Todo mundo revoava ao redor de Chloe, lhe tocando a barriga e recordando quando Izzy estava tão gorda como ela.
Dentro de uns meses, Mariah estaria igual.
De um gole, bebeu a cerveja.
-Quer outra? -ofereceu-lhe Finn.
-Claro.
Esteve conversando com ele e Gibb sobre os dias que tinha passado no Colorado com Nathan.
Conversou também com Sam Fletcher e Damon Alexakis, ambos os importadores e amigos de Izzy e Finn. Sam acabava de chegar de Singapura, e Damon, da Grécia. Rhys tinha estado em ambos os lugares no ano interior.
Falou também com Tansy, Pansy e Izzy, e não deixou de observar Mariah em toda a noite.
Estava preciosa. Resplandecente. Tinha-o notado assim que havia entrado. Sentia-se cômoda com Crash, e o pequeno respondia a suas atenções com entusiasmo, o qual estava muito bem, já que ia necessitar desses dotes dentro de poucos meses.
Então Finn se aproximou para levar ao pequeno.
-Chegou a hora do recreio -lhe disse-. Já o agüentaste o suficiente.
-Não me importa -respondeu Mariah.
-Importaria-te se tivesse que fazê-lo continuamente.
E tinha razão. Finn e Izzy trabalhavam em equipe para ocupar-se das gêmeas, de Crash e de seu irmão maior, Rip. Sam e Josie Fletcher faziam o mesmo com seu filho, Jake. E a Chloe, Gib a atendia constantemente.
Tudo aquilo fez Rhys pensar.
Mariah não deveria ter que passar por tudo aquilo sozinha. Ia necessitar de apoio, e não bastaria com um cheque mensal.
Não lhe havia dito nenhuma só palavra em toda a noite. Tinha falado com todos outros, com todos os homens e mulheres, exceto com Chloe e ela.
Tentou não irritar-se por isso, que não lhe importasse, mas não era fácil, sobretudo quando, ao vê-la partir, Izzy perguntou a Rhys:
-Você também parte?
-Não. Vou ficar mais um pouco.
Izzy pareceu surpreender-se muito, mas Mariah tentou dissimular.
-Não necessito de guarda-costas -disse com um sorriso, e depois de despedir-se de todos, saiu sem olhá-lo.
Foi para casa e se meteu na cama, mas não conseguiu dormir. Não podia deixar de dar voltas, de preocupar-se, de perguntar-se. Em pouco mais de um ano, teria um bebê do tamanho de Crash.
Saberia lhe dar o que necessitasse? Seria capaz?
É obvio que sim.
Mas em plena noite era difícil sentir a mesma confiança que a pleno sol do verão.
Felizmente, a tarde estava alagada de sol e estava trabalhando em um artigo quando soou a campainha da porta.
Esperava que fosse a senhora Álvarez, que ia levar-lhe um cartão de leite do supermercado.
Mas quando abriu a porta se encontrou frente a Rhys.
-Olá.
Ela sorriu com cautela. Ele também sorriu um pouco. Sentiu que suas esperanças ressurgiam. Possivelmente tivesse estado refletindo sobre a paternidade depois da festa do dia anterior. Possivelmente tivesse sido o despertador que necessitava. Possivelmente não disse nada na noite anterior para esperar que estivessem sozinhos.
Rhys se cocçou a nuca e trocou de pé seu peso.
-Vim para falar contigo. Posso entrar?
Ela assentiu e abriu a porta.
-Quer te sentar? Posso preparar um chá gelado.
-Não, obrigado -respondeu. Atravessou a sala e se voltou a olhá-la-. Estive pensando... em ti. Em você... grávida.
Fez uma pausa e ela assentiu para animá-lo.
-A festa de ontem à noite me tem feito pensar. Ver Gib com Chloe, Finn com Izzy e Sam com Josie... tem-me feito pensar.
Mariah voltou a assentir.
-Fazem falta dois -disse.
- Sim -disse Mariah-. Estou de acordo.
- Vais necessitar de apoio emocional. Não só econômico.
«Graças a Deus», pensou Mariah.
-Isso é o que estive pensando. Eu posso me ocupar do econômico, mas do outro... sei que é muito importante.
Mariah não entendia o que pretendia dizer.
-Sim -repetiu-. O que tenta me dizer, Rhys?
-Bom... como já hei dito, acredito que é importante que um menino tenha pai e mãe. Duas pessoas que dele se ocupem. E você também vais necessitar de alguém, assim acredito... que vais ter que buscar a alguém. Um homem, quero dizer.
Mariah sentiu que ficava de boca aberta.
- E queria que soubesse que não me importaria que... que encontrasse a alguém. E que tivesse uma relação. Que se casasse contigo.
Olhou-a como se esperasse que lhe agradecesse, mas ela não podia dizer uma só palavra. Estava atônita. Não podia acreditar no que estava ouvindo.
-É uma mulher fantástica, Mariah. Bonita. Inteligente. Sensível. Poderia ter ao homem que quisesse, até estando grávida. Sei que para alguns não faz graça criar os filhos de outro, mas quando escolher a alguém... poderá lhe dizer que não terá que preocupar-se com o dinheiro. Disso me ocuparei eu, assim não terá que... que arcar com o menino. Com seus gastos.
Parecia um pouco desesperado, como se estivesse brigando com as palavras, como se não estivesse seguro de que o que estava dizendo tivesse algum sentido mas precisasse dizer algo.
Mariah conseguiu por fim fechar a boca.
-E bem? -perguntou ele-. O que achas?
Ela abriu de novo a porta, escancarou-a.
-Pois acho que podes ir ao diabo, Rhys Wolfe. Fora de minha casa!