- Estela, você e seu namorado poderiam vir até aqui? - A voz irritante de Scarlet soou em meus ouvidos. Eu quis ignorar, mas todos nos olhavam como se fôssemos estranhos.
Respirei fundo. Zayd e eu fomos até a roda de conversa e esperamos pelo assunto importante.
- Scarlet, o que tem de tão importante? - A vovó perguntou. - Seja rápida ou a comida esfria.
- Quero apenas que a Estela explique algo. - Cerrei os olhos, sem paciência. - É verdade que você e Zayd não são realmente um casal?
A pergunta ecoou na minha cabeça. Todos olharam para nós. Senti meu sangue gelar.
Então, lembrei do celular. A cobra pegou e espiou minhas mensagens.
- Pegou meu celular?
- Então não nega? - Deu um sorriso convencido.
- Na verdade - Zayd se pronunciou - Somos sim um casal.
Ele estava seguro, com uma das mãos no bolso. Até deu um sorriso ao olhar para mim.
- Não é o que Estela disse...
- Eu não disse nada. - Cruzei os braços. - Você quem está nos acusando.
- Tem nas suas...
- Minhas mensagens? - completei. - Jenny e eu temos nosso próprio dialeto. Você é quem é bisbilhoteira.
Senti a raiva esquentar o meu sangue.
Já meu namorado, ele colocou as mãos ao redor da minha cintura e disse:
- Não precisamos fingir nada. E acho que é uma ótima oportunidade de comunicar a todos a nossa decisão.
- Decisão? - O olhei assustada.
- Estela concordou em ir comigo para a Jordânia.
Isso pegou a todos, menos minha avó, de surpresa.
- Espera, você vai se mudar? - Minha irmã ficou surpresa. Foi bom ver a raiva no rosto da minha prima. Ela queria nos derrubar, mas felizmente, as coisas mudaram.
- Ainda não. - Tranquilizei.
- Estela só ficará por um tempo. - Ele explicou. - Mas sei que vamos acabar nos casando. - Espera, eu não estava preparada para isso. Nem a minha família.
- Mas não se preocupem, vamos com calma. - Falei com um sorriso nervoso.
Minha mãe estava radiante. Eu nunca a vi tão feliz. Minha irmã... ela estava terminando de processar tudo.
- Nossa, então estão pensando em levar essa relação a sério? - Minha tia Angelina perguntou, sem graça.
- Sempre foi sério. - Ele disse.
- Espera - o noivo da serpente chamou a atenção de todos. Ele encarava meu namorado como se tentasse lembrar de algo. - Como é o seu sobrenome mesmo?
O sobrenome. Não! Eles não podem saber disso agora.
- James, isso não é importante agora. - Scarlet ficou furiosa.
- Hamdan! - Estalou os dedos. Meu coração parou de funcionar. -
Estava buscando fazer negócios com seu país. Por isso achei que já tinha visto você.
- Zayd - sussurrei. Eu quis me encolher. Se ele dissesse algo, todos fariam um alvoroço.
- Não precisa se preocupar. Uma hora eles iam descobrir. - Ele disse. Puxei seu casaco, eu quis calar a boca do James. Mas estava rezando para que ele se confundisse.
- Descobrir o quê? - minha mãe tem um ouvido bom. A encarei com raiva.
- Aí, meu Deus, você não é um chefe de estado ou algo assim?
- Vó, a comida está esfriando. - Eu queria mudar de assunto.
Contudo, aquela mulher de cabelos dourados, na qual eu achava que era a mesma cobra do Éden, interferiu. Ela estava com o seu celular na mão e achou algo que a deixou de boca aberta.
Era a primeira vez que eu a via tão impressionada.
- ZaydHamdan - Falou. Prendi a respiração, como se estivesse prestes a entrar no mar. - Você é o príncipe da Jordânia.
Até quem não se impressionava fácil, estava chocado.
- Sou. - Confirmou. - Espero que isso não mude nada. Gosto do anonimato.
Minha irmã estava com os olhos em mim. Ela sabia que depois disso, minha vida não seria a mesma.
A semana natalina se aproximava rapidamente, trazendo consigo uma mistura de ansiedade e exaustão. Eu desempenhava o papel de atendente de caixa em um departamento eletrônico, especializado na venda de celulares. O Natal sempre resultava em um aumento no movimento, com todos em busca de presentes festivos para seus entes queridos. No entanto, essa temporada festiva estava começando a me desgastar.
Eu trabalhava mais do que o habitual, tentando acompanhar a crescente demanda. No balcão de vidro, onde os telefones eram exibidos, eu observava o movimento frenético ao meu redor. No entanto, minha mente estava perdida em pensamentos, dominada pelo temor da iminente semana natalina.
Minha família se reunia todos os anos na casa da minha avó Maria, uma mulher bondosa e forte que criou seus três filhos sozinha. Possuía um carisma e uma força que nenhum outro membro da família parecia ter herdado. Sentia o peso sobre meus ombros, pois a ceia de Natal sempre girava em torno da minha solteirice.
Passei muito tempo tentando namorar caras que me viam apenas como uma segunda mãe ou uma empregada. Ao sentir-me cansada e desvalorizada, terminava os relacionamentos antes mesmo de apresentá-los à família, sabendo que seriam alvo de críticas. Nada do que fazia parecia ser suficiente para agradar a todos.
Minha mãe constantemente reclamava, dizendo que eu era desastrada e que nenhum homem desejaria casar comigo. Meu pai, embora mais amoroso, nunca levantava a voz para me defender diante da minha mãe. Minha irmã era compreensiva e sempre estava ao meu lado, mas minhas tias eram o verdadeiro problema. Os primos bem-sucedidos da família eram constantemente jogados em meu rosto, reforçando a ideia de que eu não tinha um parceiro.
Os comentários e fofocas corriam soltos entre os familiares, inclusive durante os encontros familiares, como a ceia de Natal. Ali, todos sorriam falsamente, enquanto falavam mal uns dos outros em cantos da casa. Eu estava cansada de tudo aquilo e comecei a considerar a possibilidade de não comparecer à ceia deste ano. Planejava passar a noite em casa, usando meu pijama natalino, assistindo televisão. A desculpa perfeita seria fingir que estava doente.
No entanto, sabia que tanto minha mãe quanto minha avó se sentiriam decepcionadas com minha ausência. Mesmo assim, eu não queria passar outra noite com dores de cabeça, cuidando dos sobrinhos e lidando com as expectativas e críticas da família. Entendia que ter um amor em minha vida faria toda a diferença, não apenas aos olhos da família, mas para mim mesma. Desejava alguém que me defendesse, que pensasse em mim constantemente e que nunca me deixasse passar fome de afeto.
A realidade era complicada e a proximidade da semana natalina aumentava a dor de cabeça e a ansiedade. Enquanto estava perdida em meus pensamentos, um cliente me chamou estalando os dedos na minha frente, trazendo-me de volta à realidade. Acordei, dei um sorriso tímido e perguntei:
- Pois não, senhor?
O homem de meia-idade me encarou com os olhos estreitos por um momento e balançou a cabeça em desaprovação antes de sair irritado. Murmurei baixinho para mim mesma, certificando-me de que ninguém mais me ouvisse:
- Como pode? - Fiquei revoltada. Poderia matar esse homem, se ele voltasse aqui. - Esse homem me tirou dos meus pensamentos só para me irritar. - Era o que eu tinha que suportar, por trabalhar com o público. - Como posso continuar trabalhando neste lugar ano após ano? Como as pessoas podem ser tão ruins? Cadê o clima natalino?
Minha mãe adora passar na minha cara o quanto sou uma decepção. Ela iria gostar de explanar esse assunto, se me visse nessa situação.
Nesse momento, minha amiga e colega de trabalho se aproximou de mim.
- Amiga, eu acho melhor você parar de falar sozinha ou ficar distraída. O gerente está de olho em você e você sabe quanto ele é inteligente.
Olhei de relance e o vi. Ele estava furioso, me encarando com seus olhos cerrados. Poderia me matar, se pudesse.
- Quero que ele se f...
Ela me impediu de continuar.
- É melhor continuarmos com o trabalho.
Enquanto o movimento continuava intenso, eu me esforçava para atender cada cliente com um sorriso no rosto, mesmo que por dentro estivesse lutando contra minha própria insegurança. Sabia que precisava encontrar uma maneira de lidar com as expectativas da família e com a pressão que sentia durante o Natal. Talvez fosse hora de tomar as rédeas da minha vida e ser mais assertiva em relação às minhas próprias escolhas.
Quando chegou o fim do expediente, respirei aliviada. Eu estava exausta, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Caminhei até o ponto de ônibus, sentindo o ar fresco da noite acalmar meus pensamentos turbulentos. Naquele momento, decidi que não deixaria mais as opiniões alheias controlarem minha felicidade. Eu merecia ser valorizada e amada, independentemente do meu estado civil.
Cheguei em casa e me joguei no sofá, deixando que a sensação de alívio me envolvesse. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para minha irmã, compartilhando meus sentimentos e incertezas em relação à ceia de Natal.
"Olha, eu não deveria estar dizendo isso, mas acho melhor você se preparar."
Olhei para a mensagem, sem saber o que pensar. Do que ela estava falando?
Então, pensei por um minuto e me achei burra. Obviamente, os comentários sobre mim, este ano, não mudariam muito. Eles sempre fazem questão de jogar meus erros em minha cara.
Então, digitei em resposta:
"Anna, estou ciente de que, novamente, serei o assunto do Natal, então, não precisa se preocupar.
"Não é só isso não."
Encarei o telefone por um tempo, refletindo. O que ela quis dizer com isso?
"Como assim: Não é só isso?"
"O que quer dizer?"
Ela estava digitando a resposta. Os pontos dançavam na tela, enquanto ela escrevia. Demorou tanto que achei que ela estava digitando uma história completa. Isso me deixou ansiosa. O que ela quis dizer com isso? Será que vão me vestir de Papai Noel e me fazer entregar os presentes das crianças ou de anão de jardim?
"A mamãe me mata se souber que eu te disse isso. Ela quer fazer uma surpresa, pois sabe que você não vai concordar. Aliás, nem vai vir para o Natal, se souber disso, então é melhor você fechar esse bico. Você é minha irmã e eu te amo. A mamãe e as nossas tias estão... planejando uma surpresa. Elas vão trazer um amigo do Thomas, nosso primo. Ele é solteiro, e a fofoca que está rolando é que eles querem juntar vocês dois..."
Meu cérebro parou de funcionar quando li essa linha. Como eles podem ser tão malvados?
Quis jogar o telefone contra a parede, mas continuei lendo.
"Ele até que é bonito. É advogado, mas não acho que vá gostar da surpresa. Todos dizem que esse é o melhor presente para dar a você."
Coloquei o telefone sobre o sofá. Tentei respirar fundo e me concentrar na realidade. Como eles podem ser tão malvados? Sério que vão me fazer passar por essa vergonha?
"Juro que vou tocar fogo na cama de todos eles."
Eu estava furiosa. Se estivesse lá, gritaria com todos eles. Isso não pode ser possível.
"Juro que este ano não vou para a casa da vovó."
"Não faz isso. Sabe que ela ama ter a família reunida no Natal."
"Ama me ver sendo humilhada, também?"
"A vovó não sabe de nada. Com certeza ela não concordaria."
"Isso é tão humilhante."
"Também não gostei. Tentei argumentar, pensando que assim eles desistiriam da ideia, mas não consegui."
"Obrigada, Anna. Amo você."
"Amo você, também."
Eu estava parado em frente à enorme janela do meu quarto no castelo, observando as pessoas transitando lá fora. Os guardas e outros funcionários estavam por toda parte. Minha mente estava distante, perdida em pensamentos. Eu havia acabado de sair de uma reunião conturbada que me deixou contra a parede.
Minha mãe, a rainha, estava ficando idosa e em breve se aposentaria, passando o trono para mim, como seu único filho. Eu estava preparado para isso, mas o que me preocupava era a responsabilidade de encontrar uma esposa. Eu estava sozinho, sem ninguém em minha vida. Concentrei-me tanto nos estudos e obrigações que esqueci de viver como um homem e me apaixonar.
Agora, os conselheiros e minha mãe estavam me pressionando para encontrar uma esposa e me casar antes da coroação. Eu entendia a exaustão da minha mãe e reconhecia a necessidade de ter uma esposa ao meu lado. No entanto, a forma como me colocaram nessa situação fez parecer urgente, como se o destino do mundo dependesse disso.
Passei a mão pela têmpora, sentindo uma leve dor de cabeça. Meus cachos caíam sobre a testa, e eu estava nervoso, com alguns botões da minha camisa branca desabotoados. Tentei imaginar como resolver essa situação. Não queria simplesmente sair e encontrar a primeira mulher que cruzasse meu caminho. Sendo o príncipe, todas as mulheres do reino almejavam se tornar rainha ao meu lado. Meu medo era encontrar alguém que estivesse interessada apenas na posição, não nos meus sentimentos.
Mesmo que não tenha me dedicado a relacionamentos ao longo dos anos, eu queria uma esposa que amasse, alguém com quem tivesse filhos por amor, não por obrigação. Então, comecei a pensar em uma estratégia. Sabia que não encontraria as respostas preso no palácio. Respirei fundo e fechei os olhos.
A época natalina estava chegando, e embora não fosse comemorada da mesma forma que nos filmes americanos, eu sonhava em experimentar aquela magia para saber se realmente valia a pena. Eu sonhava em estar no meio da neve, escolhendo uma árvore de Natal para colocar na sala. Quando a neve caísse durante a noite, eu sairia e aproveitaria o frio, sentindo a neve tocar meu rosto enquanto olhava para a mulher que ainda não encontrei.
Seria tolice imaginar que um príncipe, próximo ao trono da Jordânia, pensasse em algo tão simples. Mas para mim, isso nunca foi possível. Eu nunca pude ser um homem comum. Sempre fui o príncipe com inúmeras responsabilidades. No entanto, naquele momento, uma ideia surgiu em minha mente como um estalo.
Mesmo sabendo que o tempo era curto e que eu era o príncipe, decidi que iria para os Estados Unidos, sem a coroa e sem os inúmeros guardas que sempre me acompanhavam. Eu não queria ser o príncipe, queria ser um homem comum. Minha ideia era convencer minha mãe a me permitir sair do país por algumas semanas, sem as obrigações reais, para colocar meus pensamentos em ordem.
Saí do meu quarto, as portas sendo abertas pelos guardas. Eles estavam à espera, com um fio de esperança em seus corações. Caminhei pelos corredores adornados com imagens de reis, rainhas e princesas que haviam passado por ali. Quadros importantes, vasos, ouro, tapetes... nada daquilo me trazia prazer. Dirigi-me ao escritório da rainha, os guardas abrindo as portas antes mesmo que eu pedisse.
Minha mãe estava sentada à sua mesa de madeira, tirando os óculos para me ver melhor. Sua expressão cansada me preocupou. Afastar-me por alguns dias também me incomodava, pois eu amava minha mãe e sabia o quanto ela precisava de mim. Mas se ela queria que eu encontrasse uma esposa, teria que me dar pelo menos duas semanas de férias. Férias da realeza. Eu me aproximei da mesa da minha mãe e a cumprimentei com um beijo na bochecha. Ela sorriu, mas seus olhos mostravam preocupação.
- Algum problema, filho? - Ela perguntou, sua voz suave e maternal.
- Entendo a importância de encontrar uma esposa, mãe, mas não posso simplesmente escolher alguém por obrigação. - respondi com sinceridade. - Quero encontrar o amor verdadeiro, alguém que esteja ao meu lado não apenas como uma rainha, mas como uma parceira de vida.
Minha mãe suspirou e acariciou meu rosto.
- Eu sei, meu querido. Eu também gostaria que você encontrasse o amor verdadeiro. Mas o tempo está se esgotando, e as responsabilidades reais não podem ser adiadas indefinidamente.
Eu assenti, compreendendo a situação difícil em que nos encontrávamos.
- Tenho uma ideia, mãe. Eu gostaria de tirar algumas semanas para viajar, longe das obrigações reais. Quero conhecer pessoas, explorar o mundo lá fora, sem a pressão de encontrar uma esposa imediatamente.
Minha mãe franziu a testa, mas eu continuei.
- Prometo que voltarei a tempo para a coroação. Essa viagem é importante para mim, para que eu possa encontrar clareza e descobrir o que realmente quero.
Minha mãe ponderou minhas palavras por um momento e então suspirou novamente.
- Você sempre foi um filho dedicado e responsável, e confio em suas decisões. Se essa viagem é o que você precisa, então eu permito. Mas lembre-se, meu filho, que o destino não espera por nós.
Eu sorri, grato pela compreensão da minha mãe.
- Eu entendo, mãe, e sou grato pela sua permissão. Prometo que voltarei a tempo para a coroação e farei o possível para encontrar uma esposa adequada.
Com a permissão da minha mãe, comecei a planejar minha viagem, escolhendo destinos que sempre me fascinaram. Sabia que a estrada à frente seria desafiadora, mas também estava cheia de possibilidades. Eu me sentia vivo novamente, pronto para enfrentar o desconhecido.