PONTO DE VISTA DA AMANDA:
'Querido diário, hoje é o meu último dia aqui. Completa exatamente um ano que o incidente aconteceu. Dizem que todas as minhas decisões são sempre impulsivas e precipitadas. Porém, estou saindo daqui para continuar os meus estudos e talvez, para dar um tempo. Esse também seria o desejo da mamãe e do papai, certo? Para que eu possa viver uma vida feliz.
Sei que sentirei saudades deste lugar, mas acredito que a minha vida precisa de um novo rumo, e consequentemente, devo buscar um novo lar, caso contrário, acho que nunca vou conseguir superar o fato de que os dois me deixaram sozinha neste mundo para lutar por mim mesma.
Estou me mudando para a casa da tia Bárbara, que fica na cidade de Caninos Perolados. O nome é estranho, não é mesmo? Porém, fica próxima da universidade que gostei e ela cuidará de mim. Ela é ótima e super legal comigo, sempre pensei que morar com ela seria divertido, mas nunca imaginei que faria isso nessas circunstâncias, só espero não atrapalhar a vida dela com a minha presença.
Preciso fazer as malas agora.
Com amor, Am.'
Assim que terminei de escrever no meu diário, o guardei novamente no meu lugar secreto, que fica atrás do meu guarda-roupa.
Na verdade, hoje foi a última vez que escrevi neste diário, porque era a sua última página vazia. Assim que chegar na casa nova, precisarei comprar um novo.
Nova vida, novas experiências, novas lembranças. Esse era o meu plano para o futuro, nada de muito complicado de se conseguir.
Só espero que as coisas saiam como estou esperando.
Verifiquei pela última vez, se tinha tudo o que precisava, fechei a minha mochila e peguei a minha mala. Decidi levar somente o essencial, como as minhas roupas preferidas, e coisas necessárias, como o álbum de fotos dos meus pais, além de pequenas coisas que me deixem feliz e me façam sentir em casa.
O resto das minhas coisas, apenas me certifiquei de que estavam colocadas corretamente nos seus lugares, pois não queria deixar nada bagunçado.
Embora esteja me mudando deste lugar, não pretendo por enquanto, vender a propriedade. Aqui estão muitas memórias minhas com os meus pais. Quem sabe depois de terminar a universidade, voltarei a morar aqui?
Verifiquei se todas as torneiras estavam bem fechadas e se as janelas estavam trancadas, dei uma última olhada na casa, antes de abrir um sorriso triste e trancar a porta.
"Você está indo agora, Amanda?" A tia do meu vizinho, que trabalhava na polícia, perguntou.
"Sim, tia. Desculpe incomodá-la, mas você poderia tomar conta da casa, por favor?" Disse educadamente.
"Claro que sim, querida, não precisa se preocupar. Estou pronta para mantê-la sob o meu controle e intimar aquele meu filho inútil para ajudar, se você concordar." Ela brincou.
"Ei!! Eu escutei isso, mãe!" Uma voz veio de dentro da casa dela.
"A ideia era essa, que você escutasse." Ela gritou de volta para o filho, e voltou o olhar para mim sorrindo.
Meu sorriso era triste, assistindo à interação mãe-filho, algo que não teria mais. Eu sinto muita falta da minha mamãe e do meu papai, embora eles não fossem os meus pais biológicos, isso nunca impediu o meu amor incondicional por eles.
Acenando uma última vez para ela, saí do quintal da casa e caminhei até o outro lado da rua, onde um táxi já estava esperando por mim.
Três horas depois, carregando uma mochila e uma mala, uma em cada mão, caminhei para dentro do aeroporto, quando o táxi me deixou na frente do portão de entrada.
A distância entre a minha cidade e o aeroporto eram de três horas de carro. E o voo levaria cerca de quatro horas até o destino final, então no total, até o meu destino final, seriam mais de sete horas de viagem.
Ótimo!
Para me distrair durante o voo, baixei algumas músicas e também audiolivros. Sei que alguns voos oferecem acesso à internet, porém, é necessário pagar, então, melhor garantir a minha diversão sem gastar dinheiro.
Sentindo-me muito satisfeita com minha ideia, estava preparada para enfrentar a minha longa viagem.
__________Nove horas depois__________
Pedi para o motorista do táxi parar na frente de um endereço que eu lembrava, e tirei a minha bagagem do carro, antes de pagar pela corrida.
Não sei dizer o motivo, mas estava sentindo uma vibração estranha desde o momento em que cheguei à cidade.
Era como se algo estivesse me atraindo.
E o fato do motorista do táxi ter me olhado de uma maneira tão estranha quando disse que estava indo para Caninos Perolados, não ajudou em nada, pelo contrário.
Ele cobrou o dobro do preço da corrida normal, revirei os olhos por causa da sua atitude. Ele disse que era um extra que tinha que ser pago por conta da área que ele teve que me levar.
Acabei aceitando o preço dele, com medo de não encontrar mais nenhum motorista disposto a me levar até o local que queria.
Parada na frente de uma casa, fiquei na dúvida se estava no endereço correto ou não? Estive aqui, uma única vez, quando ainda era criança, e naquele dia, briguei com outra criança e, desde então, mamãe e papai nunca me permitiram voltar.
A casa que estava na minha frente não era a mesma da lembrança que tinha de nove anos atrás. Mas, pelo que lembrava, estava no local certo.
Além disso, o carrilhão pendurado na janela do quarto do primeiro andar era muito difícil de ignorar, porque fui eu quem o fiz.
Olhei para a casa, que estava bem conservada, e toquei a campainha duas vezes, porém ninguém veio abrir a porta.
Peguei o meu telefone, rolei a lista de contatos e vi alguns números, até encontrar o que buscava. Liguei para tia Bábara com o número que ela usou para me ligar da última vez que nos falamos. Só esperava que fosse o mesmo, porque ela tem o hábito de mudar de telefone e ter mais de um número, e saber qual ela está usando no momento, não é tarefa fácil.
"Alô! Estou falando com a senhorita Bárbara Costa? Ah, graças a Deus! Bárbara, estou na frente da sua casa. Você pode vir abrir a porta, por favor, se estiver em casa, claro."
"Olá, querida, sinto muito. Estou em um supermercado próximo de casa, comprando algumas coisas para você, em meia hora estarei de volta. Você se incomoda de esperar na cafeteria que está perto de casa?" Bárbara perguntou um pouco sem jeito.
Conhecendo os seus hábitos, ela provavelmente estava fazendo compras de último minuto, comida, lanches e chocolates para mim, e estava pensando se eu gostaria ou não.
"Não se preocupe e não precisa ter pressa. Não se incomode por minha causa. Sempre gosto de tudo o que você escolhe." Depois disso, encerrei a ligação.
Ela disse uma cafeteria próxima? Olhei para a esquerda e para a direita para procurar por uma, e logo, encontrei o local ao qual ela se referiu. A placa da cafeteria era difícil de ignorar.
Coloquei a minha bagagem atrás do portão principal, peguei a minha carteira, e fui na direção da cafeteria.
O local tinha cara de ser bom. Do lado de fora, podia não parecer tão bom, mas dentro era toda uma outra história, totalmente diferente. Era acolhedor e elegante.
"Olá, o que você vai querer?" A senhora atrás do balcão perguntou para mim.
"Hum, um café frio com calda de chocolate extra e chips de chocolate para bebida e mais dois sanduíches? Obrigada!" Fiz o meu pedido educadamente.
"Querida, você escutou o que ela disse. Dois sanduíches e um café frio com chocolate extra e chips de chocolate." A senhora gritou para a funcionária que estava perto da porta da cozinha.
"Querida, você parece nova por aqui. Você veio visitar alguém? Tenho certeza que sim, pois nunca vi você por aqui." A senhora perguntou, porém afirmando.
"Na verdade sim. Vou ficar aqui por algum tempo. Ficarei na casa da minha tia e vou cursar a universidade daqui." Respondi.
Não vi nada de errado em responder algumas perguntas, imaginei. Sem falar, que a senhora parecia inofensiva e acolhedora.
Em seguida, me sentei perto da janela, esperando pelo meu pedido.
Olhando pela janela, vi do lado de fora um monte de adolescentes da minha idade, rindo e brincando. Foi uma visão maravilhosa para mim. Eu costumava a me divertir com os meus amigos daquela maneira, antes dos meus pais partirem.
Balancei a cabeça para me livrar das memórias tristes, olhei de volta para o grupo de jovens e percebi algo.
Não apenas os meninos do grupo exibiam corpos esculturais e eram bonitos, mas as meninas também eram incrivelmente lindas.
'Este é o lugar de onde saem os futuros modelos e artistas em geral?'
Um dos rapazes, que parecia o meu tipo, ou talvez, meu tipo até antes do ano passado, chamou a minha atenção. Em seguida, eles entraram na cafeteria, e então, a agitação que estava acontecendo lá fora foi transladada para dentro do local.
"Pessoal, parem de gritar! Vocês estão arruinando uma boa primeira impressão desta cidade, na frente da nossa hóspede." A balconista disse, apontando com o olhar para mim.
Suas palavras pareciam ter um super poder, porque os acalmou na mesma hora e eles começaram a olhar na minha direção.
Então, é assim que você se torna o centro das atenções, quando não é a sua intenção.
Tive vontade de revirar os olhos. Será que alguém de fora é tão raro nesta cidade?
"Ei, você é nova aqui?" O cara que comentei que era o meu tipo veio até mim e perguntou educadamente.
'Obrigada por perguntar o óbvio, senhor óbvio.' Tive vontade de responder.
"Sim. Vim para começar a universidade." Respondi, e em seguida, agradeci ao garçom que trouxe o meu pedido à mesa.
A comida no voo não era muito boa, então, estava com fome.
"Uau! Que legal! Todos nós vamos para a universidade este ano. Ei pessoal, temos uma nova colega de classe aqui. Venham conhecê-la!" Ele gritou para os amigos.
"Oh, esqueci de me apresentar, sou Marcelo. Você pode me chamar de Mar, Celo ou Marcelo. Como preferir. Eu não me importo." Ele disse, mostrando os seus dentes perfeitos.
"Amanda", disse o meu nome.
"Ei, se apressem! Eu quero me apresentar para a garota." Escutei uma conversa distante, que achei um pouco estranha. Já tinha se passado muito tempo desde que alguém me chamou de 'garota' daquela maneira. Tirando aquela vez, estava acostumada com olhares simpáticos dos meus amigos e de qualquer outra pessoa que fosse apresentada.
De qualquer forma, Marcelo tinha sido simpático e sorri para ele.
Ele era bonito e simpático, mas ainda assim, não me sentia confortável com tantas pessoas ao meu redor. Antes que todos pudessem vir até mim, após realizarem os seus pedidos, peguei o meu lanche para deixar a cafeteria.
Eu sei, fui covarde, e tinha dito que estava indo para mudar, mas simplesmente não conseguia manter um sorriso falso por muito tempo. Vou levar algum tempo para me acostumar com o lugar e com as pessoas, especialmente, com a floresta ao redor.
Quando voltei para a casa da minha tia, percebi que a minha bagagem não estava onde tinha deixado. Provavelmente, a tia Bárbara já levou tudo para dentro de casa.
Vamos lá! Olhei para a casa, respirei fundo, antes de abrir o melhor sorriso natural que pude e entrei.
'Aqui vou eu, rumo a uma nova vida.'
Assim que entrei em casa, cumprimentei a tia Bárbara com um abraço carinho, que foi correspondido por um quase esmagar de ossos.
Mesmo sendo minha tia, ela nunca gostou de ser chamada de tia.
Segundo ela, ser chamada de tia a fazia se sentir velha, e sinceramente, acho que ela tinha razão. Quem não a conhecia, provavelmente pensaria que ela tinha apenas vinte dois ou vinte três anos, quando na verdade, ela tinha completado trinta quatro anos este ano.
"Olá, Amanda! Então, finalmente vamos morar juntas! Sei que você deve estar triste e se sentindo chateada com o que aconteceu, mas você não tem permissão para ficar triste nesta casa. Deve me prometer que vai esquecer as lembranças ruins e vai seguir em frente, valorizando as coisas boas." Ela disse.
"Eu prometo", respondi. Era exatamente o meu objetivo aqui. Para esquecer as lembranças ruins e seguir em frente, apreciando as coisas boas.
"Ah, esqueci de contar para você! Estou namorando e o nome dele é Cauã. A maior parte do tempo passo na casa dele, mas não se preocupe, virei aqui todos os dias para fazer companhia para você durante um tempo." Ela disse, enquanto se movia pela cozinha para colocar as compras nos armários.
"É um relacionamento sério?" Perguntei curiosa. Era a primeira vez que a escutava falando de um namorado, pois ela costumava dizer que estava esperando o homem certo, justificando o fato de estar sozinha.
"Claro, ele é o meu companheiro." Ela disse.
"Companheiro? Tipo alma gêmea?" Perguntei. Nunca imaginei que alguém tão legal como a tia Bárbara acreditasse nessa besteira de companheiro.
Tudo o que sei é que as pessoas hoje em dia são tão gananciosas que não se aproximam de ninguém sem ter um motivo oculto. E mesmo que alguém esteja em um relacionamento, isso não garante que eles ficarão juntos para sempre.
"Hum... Alma gêmea. Bem, falamos sobre esse assunto um outro dia. Coloquei a comida e os lanches que você vai precisar nos armários. Sei que você sempre amou ficar sozinha, não pense que não sei como era a vida de merda que você levou no passado." Bárbara me repreendeu novamente.
Apenas dei uma mordida em um doce que ela tinha comprado para mim, enquanto a escutava falando.
"O que quero dizer é que é hora de você seguir em frente, Amanda. Há pessoas que se preocupam com você. E em breve, você descobrirá quem são. Preciso ir agora. Lembre-se de fechar as portas e as janelas à noite. Muitos lobos saem da floresta à noite para pegar as meninas." Ela brincou se fazendo de séria.
"Ah tá! E como sou carne nova por aqui." Continuei.
"Bem, pelo menos você entendeu o que falei." Ela riu antes de me abraçar e sair com a sua bolsa, com coisas dentro que é melhor não mencionar.
'Parece que eles estão levando muito a sério o relacionamento, dada a quantidade de proteção que ela comprou. Eles estão planejando não sair do quarto durante um ano inteiro?' Pensei comigo mesma.
PONTO DE VISTA DA AMANDA:
Hoje foi o meu primeiro dia de universidade. Acordei cedo, tomei um banho e me vesti, escolhi um top curto que combinava com a jaqueta jeans lavada, um jeans de cintura alta e botas. Prendi o cabelo com um rabo de cavalo alto; estava pronta para a minha primeira aventura fora de casa, pronta para começar a minha nova vida.
Para ser honesta, estava muito nervosa. Não queria ler o pensamento das pessoas, que sempre foi a minha maior preocupação.
Sim, vocês acertaram, posso ler pensamentos. Às vezes, com uma boa concentração, consigo ler o pensamento das pessoas, com quase noventa e nove por cento de acerto.
É muito cansativo e na verdade, absolutamente irritante.
Pois sempre sinto que estou invadindo a privacidade de alguém e não gosto dessa ideia.
Com 16 anos de idade, não tinha amigos, pela simples razão de que sempre encontrava algum defeito na atitude das pessoas e no pensamento delas, quando os lia.
Por causa disso, tento controlar esse dom, ou maldição, ao máximo que posso. Agora só leio os pensamentos de alguém quando quero.
Porém antes não tinha nenhum controle sobre isso e na maioria das vezes, voltava para casa gritando de dor e agoniada por causa da minha cabeça latejando, com uma pressão insuportável.
Dei um belo suspiro antes de trancar a porta, e enfim, respirar o ar fresco.
A universidade não ficava muito longe da casa de Bárbara, apenas uns dez quilômetros. Assim que, decidi ir caminhando.
Caminhar sempre me ajudou a clarear a mente, e olhando para a floresta e este lugar naturalmente lindo, estava me sentindo mais à vontade.
Conectei os meus fones de ouvido, estava ajustando as minhas músicas favoritas, quando vi um borrão passando na minha frente. Parecia a silhueta de um animal gigante.
Pausei a música, e olhei para a minha esquerda, estava nervosa, mas não vi mais nada suspeito ou qualquer sinal de um grande animal daquele lado.
'Foi apenas imaginação', disse para mim mesma.
Talvez, porque este lugar se chama Caninos Perolados e Bárbara costumava contar histórias sobre por que esta cidade tinha recebido esse nome, e agora, estou imaginando coisas.
Lobos que vivem com humanos como amigos? Sério? Por favor, não me faça perder tempo com besteira!
Olhando para o relógio, que era um presente da minha mãe, percebi que só tinha meia hora para chegar na universidade, portanto, achei melhor fazer o resto do caminho correndo.
No entanto, a imagem daquela figura borrada não parava atormentar a minha cabeça.
Ao chegar à universidade, fiquei surpresa com o tamanho do prédio. Não sei por que uma universidade tão grande e com boa reputação não é popular e ainda por cima, fica em uma cidade isolada como esta.
Bárbara disse que existe um processo rigoroso para aceitar alunos, e os critérios dessa seleção são um mistério para todo mundo.
E aproveito agora para deixar uma coisa clara, não sou um tipo de pessoa estudiosa, embora meu QI seja sempre estado considerado mais alto do que a média, o que torna mais fácil para mim conseguir boas notas.
"Ei! Amanda, certo?"
Me virei para ver quem estava me chamando e dei de cara com Marcelo caminhando com os seus amigos na minha direção.
"Sim. Você é o Marcelo, correto?"
"Sim! Isso mesmo. Da outra vez, você saiu tão apressada. Vou apresentar os meus amigos para você. Esta é Felipa, este é Luca, este é Mateus, esta é Iara e esta é Carol. E os dois caras que estão correndo, vindo na nossa direção, são Gael e Davi." Ele disse o nome de todos os seus amigos para mim.
Apenas olhei com um sorriso tímido para todos eles, antes de falar o meu nome.
"Sou Amanda, Amanda Costa."
Dito isso, me virei e ia continuar caminhando até a minha sala de aula, quando senti uma mão pesada sobre o meu ombro.
'Vamos falar sobre espaço pessoal?' Pensei, revirando os olhos.
"Agora, você mora na nossa cidade e temos uma regra que diz que ninguém deve ser deixado sozinho. Se você é um tipo de geek, que gosta de viver em uma bolha, você está no lugar errado, querida. Por isso, é que temos o orgulho de incluí-la no nosso grupo." Gael disse para mim.
Olhei para os demais, que estavam apenas sorrindo, e balançando a cabeça para ele. Na verdade, foi muito gentil da parte deles, me incluir no grupo, considerando que eles não sabiam nada sobre mim e nem sequer tinha perguntado.
"Ha, ha, ha... Ele está certo. Ouvimos falar de você. Recentemente, você se mudou para cá, para prosseguir os seus estudos, porque queria estudar em um lugar mais tranquilo. No entanto, não gostamos que ninguém que more na nossa cidade fique sozinho e na sombra, e faremos o possível para tirá-la da sua concha. Porque acreditamos que somos uma família." Marcelo disse olhando nos meus olhos, como se conhecesse os meus segredos mais sombrios e profundos.
Interrompendo a 'competição' de encarar, ele olhou para o telefone dele e depois para os seus amigos, antes de gritar:
"Pessoal! Adivinha, o quê? Edgar está voltando de viagem. Deve chegar amanhã à noite ou depois de amanhã. Vamos ter que celebrar, não é?"
Todos começaram a vibrar com a menção dessa tal pessoa voltando, Edgar; e eu, sem saber o motivo, senti um arrepio correr pela minha espinha.
Esse nome, porque estava me fazendo ter um pressentimento estranho.
Chegar até a sala de aula foi uma tarefa árdua para mim.
Mesmo caminhando com esse grupo, algumas pessoas me deram tapinhas e comentavam sobre a minha presença.
O que foi muito pior foi que, para evitar esses comentários, tive que me concentrar na minha caminhada, o que resultou em escutar os pensamentos das pessoas sobre mim, e alguns deles não eram nada agradáveis.
Um estava até pensando no corredor que eu poderia ser a sua noiva. O que me fez rir por dentro.
Tenho cabelo castanho longo e natural, que chega até abaixo do meu quadril, e com bastante volume. Peso 60 quilos e o meu peso está bem distribuído, as minhas curvas, digamos, estão onde devem estar.
Não sou magra e nem gorda, tenho o peso ideal para a minha altura. Os meus olhos são castanho âmbar, que sob a luz do sol, parece amêndoa.
Para ser honesta, estava acostumada a receber aqueles olhares de simpatia, uma vez, quando tive uma vida em que era uma garota festeira, uma garota com quem a maioria dos caras da minha escola queria sair.
"Você ganhou alguns fãs, Amanda!" A garota, acho que se chama Felipa, disse, enquanto batia no meu ombro de brincadeira.
"Eu não entendo, sinceramente, estou andando com as garotas mais lindas que já vi, então por que todos esses olhares sobre mim?" Perguntei sinceramente confusa.
Aos meus olhos, sou uma garota comum, e comparada com as garotas gostosas que estavam do meu lado, provavelmente parecia uma mendiga andando com celebridades.
Por que aqueles caras nem olhavam para elas? Eles sofrem de miopia ou sei lá que tipo de problema de visão?
"Ha, ha, ha, isso é porque as garotas já têm namorado", Davi disse, como se estivesse irritado com o fato de que ele ainda não tinha namorada.
"E claro, porque você é tipo carne fresca na cidade, agora." Mateus disse, ganhando um olhar furioso do Marcelo.
Fiquei sem graça com o comentário dele. Ele estava usando a mesma frase que usei para me descrever quando conversava com Bárbara.
Entrei na sala de aula com Marcelo, Felipa, Luca e Gael porque tínhamos o mesmo horário com o mesmo professor.
Antes que tivesse a chance de colocar o meu livro sobre a mesa, um cara parou do meu lado do nada e perguntou:
"Ei, querida! Você é gostosa! O que você acha de vir à minha festa hoje à noite na praia? Vamos nos divertir muito com tudo o que você possa imaginar. E nós dois também podemos nos divertir juntos um pouco, se você quiser." Ele sugeriu.
Olhei para os olhos dele e pude ler os seus pensamentos desagradáveis sobre mim, o que me fez sentir enojada.
Queria revirar os meus olhos e ranger os dentes. Como assim? Você precisa mesmo ir direto ao ponto?
Vi quando o Marcelo se levantou da sua cadeira e veio na nossa direção, com uma expressão de raiva no rosto, talvez sua intenção fosse me defender.
Olhei para o cara e respondi educadamente.
"Desculpe, senhor! Você também é bonito, mas só quero usar os meus órgãos reprodutivos com alguém que queira reproduzir. E você certamente não é essa pessoa." Disse fazendo cara feia para que ficasse clara a minha insatisfação.
Todos que estavam ao meu redor olharam para mim como se eu tivesse duas cabeças. De repente, o bate-papo que tinha dentro da sala em todos os cantos, parou e deu lugar a um silêncio mortal, até que Gael começou a rir.
Ele estava rindo tanto que poderia ter caído da cadeira, se não fosse por Luca usando a mão para segurá-lo.
Todos na sala estavam rindo da minha resposta.
Não entendi o que tinha de tão engraçado no que falei, quer dizer, apenas recusei um convite de maneira educada. E na verdade, não foi fácil chamá-lo de bonito.
Revirando os olhos para a sua figura furiosa se afastando de mim, abri o meu livro e me concentrei no texto que estava escrito nele, mantendo a minha barreira mental, porque não queria escutar o pensamento de mais ninguém.
Nas três aulas seguintes não aconteceu nada de especial, somente os professores que me lançavam um olhar estranho, assim que notavam a minha presença, e provavelmente, porque não estavam acostumados a ver gente nova na cidade.
Eu não entendo isso.
Bem, esta cidade é rodeada de florestas, é um lugar muito seguro para viver, mesmo com todos aqueles rumores sobre lobos e animais selvagens, mesmo assim é muito bonita.
A minha caminhada para a universidade foi muito tranquila.
Estava sentada na cantina com o tal grupo, ao qual fui adicionada sem ser perguntada se gostaria, embora não me importasse com isso, e já até meio que gostava deles.
Eles eram como uma rajada de vento fresco na minha vida. E o mais importante, eles não eram do tipo críticos ou intrometidos.
Estava ocupada tomando o meu milkshake de chocolate, enquanto Gael e Luca estavam ocupados recriando a cena em que rejeitei aquele garoto na sala de aula.
Ainda não tinha conseguido descobrir o que tinha de tão errado com o que falei. Sei que fui muito direta, mas não acho que fui rude ou algo parecido.
"Ha, ha, ha... Isso é muito engraçado, gostaria de estar lá para presenciar a cena com os meus próprios olhos. Aqueles gambás estavam muito orgulhosos de pegarem tantas garotas. É bom ver alguém os rejeitando." Mateus disse rindo.
"Você é uma garota muito atrevida, tenho que admitir", Felipa disse rindo junto com ele.
"Verdade. Pela cara dela, alguém poderia imaginar que ela sairia com uma resposta daquela? E mais, dizendo com suaves desculpas. Você nos surpreendeu." Iara disse piscando para mim.
"Está bem, parem com isso, pessoal! Olhem para o rosto dela, ela está ficando vermelha com toda essa atenção. Vamos mudar de assunto agora." Marcelo tentou me salvar.
Sorri para agradecê-lo.
O resto do dia passou muito rápido, nem senti.
Na volta para casa, decidi fazer o caminho do bosque. Não sei por quê, mas senti que algo estava me chamando, e sendo a idiota que sou, segui o meu coração, embora a minha mente soubesse que o que estava fazendo era perigoso.
Sim, provavelmente estava agindo como a heroína daqueles filmes infantis, que sabe que há perigo lá fora, mas ainda assim, vai para a floresta, porque provavelmente é burra demais.
Dizendo para mim mesma que era o caminho mais curto, três ou quatro quilômetros para chegar em casa, comecei a caminhar junto às árvores altas com os fones de ouvido ligados. Coloquei o volume no mínimo para que pudesse escutar qualquer outro barulho perto de mim.
Ainda não estava escuro, eram apenas quatro horas da tarde e, portanto, eu tinha muito tempo para passear. Então, decidi dar uma olhada no lago, que Bárbara tinha me falado sobre ele uma vez.
Quando cheguei perto do lago, inalei profundamente o cheiro fresco da água, solo úmido e o perfume das flores.
Era um cenário lindo.
Depois de ficar admirando a natureza por uns dez minutos, decidi que era hora de voltar para casa, e também, porque senti um arrepio percorrendo a minha espinha.
Suspirei alto e comecei a caminhar na direção da minha casa, prometendo para mim mesma nunca mais voltar naquele lugar.
PONTO DE VISTA DE EDGAR:
Enquanto enviava uma mensagem para o meu alfa-beta Marcelo, me recostei mais relaxado na cadeira. Não queria dizer a ele que já estava na cidade, num chalé de madeira nos limites dela, nos últimos dois dias.
Não queria alertá-los, de forma que pudesse observar como estava a segurança da minha matilha e como as coisas haviam sido administradas durante minha ausência.
Sabia que meu pai estava lá para guiá-los durante esse período, mas também sabia que ele confiava demais no alfa-beta. E eu queria ver se ele era digno desse cargo na matilha ou não.
Esse foi o único motivo pelo qual escolhi ficar no chalé e também, para relaxar um pouco.
No entanto, agora me sentia um pouco confuso e a expectativa de encontrar minha companheira aumentava a cada segundo, desde que havia captado seu cheiro intoxicante em algum lugar.
Não sabia exatamente o que era, mas estava farejando esse aroma atraente próximo da cidade ou mesmo dentro dela, sem conseguir descobrir de onde vinha. Já havia tentado perseguir sua origem algumas vezes, porém sempre o perdia após algum tempo, o que estava deixando meu lobo louco.
Para um lobo, ser incapaz de rastrear alguém ou algo pelo cheiro era motivo de grande vergonha, uma vez que era dessa dessa maneira que capturávamos caça e protegíamos nossos entes queridos.
Por isso, minha outra metade estava no limite, agoniado de não saber exatamente que cheiro era esse.
Sim, isso mesmo.
Sou um lobisomem e por sinal, bem forte.
Todos nós fazemos parte de uma matilha de lobisomens e não, não é fantasia, nós existimos mesmo. Contudo, devido ao convívio natural que surgia entre nós e humanos, ninguém nunca suspeitou de nada.
Do xerife da cidade, passando por professores e até estudantes e outras pessoas, todos éramos lobisomens iguais a mim e parte da minha matilha. Estamos espalhados pelo mundo inteiro, sendo muito difícil distinguir um de nós de um humano se não nos revelarmos.
Queria um tempo dos meus deveres de alfa. O trabalho estava mais intenso nos últimos dias por causa de intrusos que assolavam outras matilhas, o que fazia seus alfas me pedirem ajuda e sugestões, além da pressão constante dos meus pais em encontrar uma companheira para mim.
Às vezes só queria gritar para que eles parassem com isso e me dessem tempo para respirar, mas também não podia culpá-los por isso. Afinal, eu não sou um alfa normal, para começo de conversa. Sou o rei-alfa e estou acima de todos os outros. Todos olham para mim buscando um espelho para muitas decisões importantes, não só sobre suas matilhas, mas também sobre assuntos do dia-a-dia. E um rei alfa sem sua luna era como um rei alfa com apenas metade da sua capacidade.
Além disso, eu também queria muito encontrá-la, a minha companheira. Já havia passado da idade certa para isso fazia dois anos e agora, estava um pouco angustiado com esse tópico da minha vida.
Havia escutado histórias de outras pessoas que não encontraram suas companheiras em suas vidas e precisaram se contentar com alguém que não era seu par para compensar.
Eu não queria isso, queria me estabelecer e ter quatro, não, oito filhos com a minha companheira.
Às vezes me pegava imaginando, como será que ela é? Seria parte da comunidade de lobisomens ou uma humana normal?
Isso também era uma verdade. Podíamos desposar humanas como companheiras. E, na última década, os casos de humanos casando com lobisomens, fossem eles homens ou mulheres, eram mais comuns do que casamentos entre lobisomens.
Aparentemente a Deusa da Lua queria que as nossas duas espécies convivessem pacificamente.
Me inclinei para trás na cadeira, fechando meus olhos e me concentrando naquele cheiro que me chamou atenção.
Antes que pudesse relaxar completamente, uma lufada de vendo invadiu a cabine e senti exatamente esse aroma intoxicante vindo de algum lugar nas proximidades.
Meu lobo ronronou satisfeito, me instigando a sair rapidamente e encontrar a pessoa a quem pertencia esse cheiro.
Me metamorfoseando rapidamente em lobo, pulei para dentro da floresta, amplificando meu faro para encontrar a trilha da pessoa. Senti que o aroma ia se esvaindo a cada segundo que passava, o que foi deixando meu lobo ansioso novamente.
Fui até o lago para tentar me acalmar, porém ao chegar lá... senti o mesmo odor intoxicante e agora parecia vir de dentro da cidade. Meu lobo começou a ficar com raiva de mim.
'Está bem, está bem. Vou encurtar o período que passaria observando e entrarei na cidade para ver quem é essa pessoa', disse para meu lobo antes de voltar para a cabana e me transformar em humano novamente.
Aparentemente minhas férias tinham acabado.