" Levanto de manhã ponho a cara na janela
Olho para rua os olhos cheios de remelas
Vejo vários camaradas andando por ali
Com algumas minas que eu já saí... "
Diariamente acordo cedo, desço o morro com fone de ouvido escutando meu som, vou à faculdade para meu curso de Secretariado Executivo Trilíngue, onde me esforço para concluir, falta tão pouco, pois já estou no último período, bem perto de atingir meu grande objetivo, poder ajudar financeiramente meus pais. Não vejo a hora, poder comprar uma casa bem confortável, não que isso (morar na comunidade) nos deixe menos felizes, somos felizes com o que temos e com quem somos.
Apesar da correria do dia a dia e das dificuldades, eu não me importava e era muito feliz. Tinha meus pais que me amavam, minha amiga de infância Céia Mara que morava no mesmo morro que eu e minha amiga Simone, que nossa amizade começou na faculdade e às duas juntas eram implacáveis, me incentivavam ao máximo, deixavam meu ego lá em cima, as melhores amigas que eu poderia ter. Fora dona Letícia, patroa da minha mãe que era incrível comigo, uma segunda mãe sem dúvida, pagava minha faculdade, dizia valer a pena investir em mim, porque eu era esforçada e dava-lhe orgulho.
Estudava de manhã, após a aula fazia inglês com o professor Lucas na própria faculdade e trabalhava em uma lanchonete de fast food das 14h às 22h, para poder me bancar na faculdade, sem preocupar meus pais e ajudar em casa quando sobrava, não acho certo dona Letícia ter que fazer mais isso por mim. Chegava cansada diariamente e ainda ficava até tarde ajudando minha mãe com as encomendas de salgados, docinhos ou bolos que às vezes tinha e era muito grande.
Meu professor de inglês, era um homem muito bonito, paulista, moreno, pele queimada de sol, porque adorava surfar, olhos bem escuros, cabelo bem cortado, sedutor, via potencial em mim, por isso resolveu me dar aulas particulares de graça, para aprimorar meu inglês e sempre me incentivava a fazer um intercâmbio para melhorar ainda mais minha pronúncia e ter experiência de vida e profissionalmente evoluir. Ele já fez e me dizia ser uma experiência única, ímpar, se um dia eu ia conseguir ter coragem para isso, não sabia, não queria deixar meus pais, sou muito apegada, eles não têm mais ninguém, só a mim, me dedicam suas vidas, isso nos fez cada vez mais unidos.
Meu pai, João da Silva, 50 anos, negro, olhos castanhos escuros, alto, magro com porte atlético, ou seja, tudo no lugar, cabelos curtos, crespos e pretos, bonito, pedreiro em uma construtora no centro da cidade do Rio de Janeiro, levantava-se bem cedo, para chegar no horário na empresa para poder ir para obra onde fosse designado, era trabalhador e não gostava de dar motivos que o desabonasse.
Minha mãe, Maria dos Santos Silva, 45 anos, branca, olhos verdes, baixa, corpo escultural, cabelos compridos, lisos e pretos como a noite, diarista em condomínios de luxo, em Copacabana, Ipanema e Barra da Tijuca, cada dia estava em um lugar, saia às 16h e ainda ia para casa fazer suas encomendas de bolo, salgados e doces de festa. Fazia porque gostava dessa área e para aumentar nossa renda, vendia muito lá no morro mesmo, mas também vendia no asfalto, sempre indicação da d. Letícia, nossa fada madrinha. Gostaria muito que minha mãe deixasse o serviço de diarista e dedicasse a confeitaria, ela gosta tanto e é tudo maravilhoso, não é só porque é minha mãe.
Apesar da vida simples que levavam, sempre foram moradores do Morro do Peri, no Rio de Janeiro, muito antes de eu nascer teve uma batida da polícia atrás da bandidagem que acabou com toda minha família materna e paterna durante o tiroteio, meus pais se salvaram porque estavam trabalhando fora do morro na hora. Logo depois da chacina foi implantada a UPP (Unidade Pacificadora da Polícia), o morro ficou mais "tranquilo". Meus pais ficaram sem ninguém, desolados, só tinha um ao outro. Resolveram se casar logo, já que perderam todos os entes queridos, não quiseram esperar nem mais um minuto. Minha mãe não conseguia engravidar, passou cerca de 5 anos tentando e nada, d. Letícia, uma das patroas de minha mãe chegou a pagar tratamento para ajudar. Depois que o médico deu por encerrado o tratamento, minha mãe fez uma promessa para Nossa Senhora de Aparecida que se conseguisse engravidar, daria seu nome para a criança. Cerca de 1 ano depois, engravidou sem fazer tratamento e quando nasci me deu o nome de Sara Aparecida. Cuidavam de mim com tanto zelo e cuidado com medo de me perder, porque na hora do parto deu uma complicação e minha mãe precisou tirar o útero e não poderia mais ter filhos. Cresci ouvindo que eu tinha que estudar para ser alguém e ter uma vida melhor, sem riscos.
Mesmo com todo o receio, certo medo de meus pais, pude aproveitar minha infância, enquanto eles trabalhavam, de manhã ia para escola e a tarde ia para o Aprendiz, é um instituto para crianças carentes, onde aprendíamos esportes, danças, línguas, eu fazia inglês, espanhol e ballet, Céia fazia junto comigo e tinha nosso amigo o Joaquim, que chamávamos de Joca, praticava Jiu-Jitsu. Com o tempo Joca foi se mostrando violento e agressivo, até que foi convidado a se retirar por machucar um aluno que parou no hospital em estado grave. Sentimos muito e não entendíamos por que ele ficou dessa forma, só era carinhoso comigo e com a Céia, fora sua tia, quem o criou. Sempre dizia que ia casar comigo quando fossemos adultos, mas nessa de ter saído do instituto acabou se encaminhando para o lado errado, foi para o caminho do tráfico, infelizmente, embora eu não gostasse dele para sermos um casal, disse que não me casaria com alguém dessa vida fácil e quando completou 15 anos sumiu do Peri, sem mais nem menos.
Apesar de eu morar, nunca me envolvi com tráfico, prostituição, com a "vida fácil", minha vida era estudar, trabalhar e casa. Como toda boa carioca, gostava de um bom samba, carnaval e funk, mas não me divertia muito, somente quando dava e tinha algum dinheiro sobrando, geralmente aos sábados quando minha folga era no domingo.
Queria poder comprar uma casa para meus pais, fora do Peri, sei que tinham um pouco de trauma da chacina, mesmo que não tenham vivenciado, mas perderam todo os parentes, não restou um, misericórdia, muito sofrimento, tinham muito medo da violência, embora morar na "favela" não fosse tão ruim como os outros pensam, tem muita gente de bem na comunidade, trabalhadora, tem a escola para os jovens para aprender atividades diversas, cursos profissionalizantes, aonde iniciei meu curso de inglês e surgiu a vontade de fazer secretariado trilíngue, fora o baile que eu pouco frequentava, mais mesmo assim era uma delícia, adorava dançar e fazia muito pouco por falta dos dois tempos. Mas tinha a sombra de como perdi minha família que nem cheguei a conhecer, e tinha medo de perder os que eu conhecia. Mas, como se diz aqui no morro, "Segue o baile".
Chegou o domingo de folga, Simone e Céia insistiam para que eu fosse ao baile, dizia ser para comemorar que logo estávamos formadas, estava cansada, queria dormir cedo, mas não teve jeito. Fui. Estava de jeans escuro, cropped de crochê branco, anabela preta de verniz, cabelo solto, maquiagem leve, porque não estava empolgada, cansada mesmo.
Quando entrei vi um negro, alto, forte, olhos castanhos e cabelos castanhos num black de responsa, lábios carnudos me olhando, sabia que conhecia de algum lugar, me era muito familiar...
- O novinha! Vai ignorar o parça aqui? - disse com aquela voz aveludada. Parei e fiquei olhando para ele, porque sabia que o conhecia, se fosse outro passaria direto. Reconheci num estalo.
- Joca???
- Pensei que tinha me esquecido. - Disse fazendo um carinha triste.
- Cara que saudades de você, sumiu!!!! Olhe Céia quem está aqui! - Pulamos em seus braços de felicidade, até choramos. Nem nos importamos com ausência de 6 anos na hora, mas depois caiu a ficha.
- Peraí, por onde andou? - Perguntei a ele.
- Por aí novinhas, deixa isso para lá. Importante que estou de volta para a felicidade da geral e morrendo de saudades de minhas parças favoritas! - Disse tentando mudar de assunto, mas bem percebi.
- Convencido nada né. Venha curtir com a gente. E vai nos contar direitinho depois esse sumiço. - Nos abraçamos mais, abraço coletivo.
- Deixa eu te apresentar, essa é minha amiga Simone! Si esse é meu amigo Joaquim, mas pode chamar de Joca.
- Prazer todo meu, Joca! - Disse toda assanhadinha, percebi que já gostou do Joca.
Entramos no baile, pagou bebida para gente e começamos a dançar.
- Simone, Joca sempre foi apaixonado pela Sara, ao que tudo indica, continua, então... - Céia cochichou no ouvido de Simone.
- Sério??? Esse pedaço de mau caminho. - Simone faz beicinho.
- O que foi que estão cochichando? - Pergunto.
- Nada! - responde Céia rapidamente. Fiquei sem entender. Continuamos dançando, curtindo, até que Joca segura meu braço e fala.
- O novinha! Está namorando ou ficou esperando por mim? - Disse diretamente.
- Se achando mesmo hein. Me lembro muito bem de não ter feito promessa nenhuma e que eu te disse que não me casaria com alguém dessa vida! Nem tinha como prometer também, já que você sumiu do nada! - Levantei as mãos e dei um tapa no ombro dele para descontrair e fugir do assunto. - Vamos dançar?
- Não agora! Quero você, Sara! - Me agarra pela cintura, me apertando em seu peito. Deixando Simone e Céia de boca aberta.
- Pare Joca de brincadeira! - Digo tentando me soltar.
- Não estou brincando, pensei em você este tempo todo, em todas as horas, todos os minutos e todos o segundos. Sempre gostei de você e sabe disso! - Diz sério me prendendo com aqueles braços fortes, aqueles olhos fixos nos meus, que fiquei sem ação.
- Sempre pensei que fosse de brincadeira, desde a infância até nossa adolescência, quando sumiu... - De repente me beija, sem eu esperar ou permitir, tento me soltar em vão e me entrego aos poucos, então deixo rolar por alguns minutos até que caio em si e peço para ele parar.
- Não faço isso novamente! - Me solto, me dirijo às meninas e digo: - Aproveitem o baile estou indo embora.
- Não, vamos com você! - Disse às duas já me seguindo.
- Prefiro que fiquem e aproveitem. - Digo, levanto uma mão e vou embora. Vejo que às duas se entreolham.
Quando estou fora do baile tomando direção da minha casa, pensando em tudo o que acabou de acontecer, a volta do Joca, a declaração, o beijo, ah.... o beijo que foi de me derreter, nunca alguém conseguiu chegar assim tão perto, por mais cantadas e pedidos de beijos que eu tenha recebido, fiquei um pouco atordoada. Logo sinto um braço me puxando e me prendendo na parede.
- Ai!!! - Vejo Joca em cima de mim, respiração ofegante. - Me deixe ir embora, me solta!!!- Digo brava e gritando.
- Não assim! Quero me desculpar, não resisti, esperei por isso a vida toda, ter você em meus braços, poder te sentir, te beijar. Sara sou louco por você, sempre fui.
- Você nunca me disse nada! Sempre levei na brincadeira! Você some por seis anos, SEIS ANOS!!! Volta como se tivesse saído ontem, me agarrando. - Digo ríspida.
- Sabe muito bem, que nunca eu ia subir o morro na toca do Das Trevas, mais Céia e eu fizemos isso, para saber se tinham notícias, preocupadas com você. Só nos dizia que não sabia, mas sabíamos ser mentira, não queriam nos falar. Por dias choramos e sua tia? Você a abandonou, só tinha você, ela morreu e você não estava aqui, nós aqui do morro, fizemos vaquinha para ela ter um enterro digno, claro que seu parceiro, ajudou bastante nisso, mas ela morreu chamando por você! - Esbravejei.
- Sei de tudo isso, Das Trevas me mantinha informado de tudo por aqui. - Observo a dor e desespero em sua voz.
- Eu sabia que mentiam para gente. - Digo irônica. - Mais nem para sua tia?
- Não podia, era melhor assim, deixa a tia de fora, nem me pergunta o porquê, por favor. Você não sabe a dor que senti e não poder estar por aqui, por ela.... - Chora e vejo muita dor em seus olhos.
- Você não quer falar deste tempo, ok. Direito seu e não me venha cobrar direito nenhum sobre mim, pois não sou e nunca fui propriedade sua.
- Vejo que continua a mesma marrenta de sempre, gosto assim! - Pega em minha mão, a beija e continua segurando. - Eu te amo Sara! Sei da sua vida, sei de tudo sobre você! Que trabalha em uma lanchonete, estuda, acompanhei tudo a distância, me perdoa? Quero desesperadamente ter você, para sempre comigo.
- Não estou com cabeça para homens! Estou me dedicando aos meus estudos como você bem sabe então, quase me formando, para melhorar de vida e ajudar meus pais. Isso é meu propósito de vida, você tem algum?
- No momento só ter você!
- Ah... Para, pelo amor de Deus! - Digo quase surtando. - Desde quando isso é um propósito??? Acorda Joca!!!
- Quanto aos seus pais, posso ajudar você!
- Nem pensar!!! Sempre disse e isso nunca mudará, quando eu tiver alguém não será dessa vida, não quero viver preocupada se chega vivo ou morto, seus meus filhos terão pai hoje e amanhã não. Gosto de você, mas como amigo e sempre será assim! Perdoe-me se dei alguma esperança, quanto a isso, aliás dei algum dia, alguma vez?
- Não me deu nenhuma porra de esperança. - Disse baixinho, quase que para si mesmo.
- Pode me largar? Me dar espaço? - Olho para suas mãos me segurando e volto a olhar firme em seus olhos.
- Claro. Mais uma vez desculpa te invadir assim. - Disse tristonho. Dou um abraço nele, apesar da raiva que sinto, o ódio mesmo, de querer bater nele, mas ainda assim respiro fundo, além da casca de durão, lá, no fundo, vejo meu amigo Joca de sempre. O solto com uma certa dificuldade, porque me prende como se eu fosse fugir.
- Amigos??? - Digo, estendendo a mão a ele.
- Sempre! - Disse com pouco entusiasmo.
- Vou embora agora.
- Te levo até sua porta, pode?
- Sim. Vamos. - Fomos em silêncio até minha casa. Ficamos parados quietos, olhando um ao outro, sem dizer nada.
- Posso te dar mais um abraço? Eu preciso... - Sussurra quase para si, mas escuto.
- Pode. - Me abraça muito forte, como se fosse me esmagar. Deixo, apesar de me sentir desconfortável e querendo me soltar.
Joca
Fico abraçado a Sara sentindo seu cheiro, o calor do seu corpo, morrendo de vontade de tomá-la como minha, mas preciso me controlar se eu quiser conquistá-la. Mais não resisto, vou soltando do abraço com dificuldade, mais sem soltar até que nossas bocas estão bem próximas, roço o dedo pelos lábios dela e como não me afasta, então dou um beijo suave, como não teve repulsa, beijo com intensidade, com vontade, como se fosse o último.
- Para... - Ela diz ofegante - Não faz isso comigo de novo, senão nós não nos vemos mais. Assim não dá...
Aquilo doeu, não posso ficar longe dela, não agora que voltei. Peço desculpa e me viro para ir embora. A vejo parada na porta me olhando, digo tchau em voz alta e bem baixinho para mim - Ainda vai ser minha!
Sara
Entro para casa e vou dormir, melhor a fazer. Rolo a noite toda na cama, não gosto do Joca como homem, só amizade mesmo, mas ele mexeu comigo.
Acordo com Simone e Céia em cima de mim, tenho certeza de que deve ter feito nem uma hora que peguei no sono, loucas para saberem de tudo, reviro os olhos com a insistência delas.
- Acorda!!!! O que houve com você ontem? - Diz Simone - Ignorando aquele pedaço de mau caminho... ah se ele me quisesse!
- Me deixem dormir, por favor. Pode ficar com ele se quiser, não ligo. – Falo manhosa.
- Após nos contar tudo! - Disse Céia.
- Enquanto não falar, não vão me deixar em paz né! - Bufo. Me sento encostada na cama, enquanto olho para elas que ficam me olhando apreensivas.
- Sei que Céia deve ter te informado de tudo sobre o Joca, certo? - Simone assentiu com a cabeça.
- Então, nunca levei a sério que ele gostava de mim, acreditei ser coisa de criança, de amigo protetor talvez, sempre fomos inseparáveis, Joca, Céia e eu. Até que ele começou a ficar violento, agressivo, foi se afastando da gente, foi convidado a se "retirar" do Aprendiz, de repente ele sumiu. Ficamos desesperadas atrás dele, fomos até falar com o traficante, coisa que sempre repelimos, mais pela preocupação fomos. Dona Zélia, a tia dele, ficou muito doente, morrendo chamando por ele... Foi um sufoco e fomos superando aos poucos com o tempo. Agora ele aparece, querendo me tomar como se fosse dele, me agarra e beija? - Digo me sentindo insultada.
- Mais qual é o mal? Uma coisa boa nisso! - Disse Simone com aquele olhar pervertido.
- Sua vaca! Sei muito bem aonde quer chegar! - Digo brava.
- Deixou de ser BV1!!! - Disse Céia.
- Bando de palhaças. - Pego meu travesseiro e abraço.
- Sara! Que mal tem de dar uns beijinhos, uns amassos? É saudável! Ainda mais com um cara que está a fim e muito gostoso. A não ser que você seja lésbica? - Disse Simone bem séria.
- Não sou lésbica!!! Nada contra com quem é, mas gosto de homem. - Digo meio sem graça.
- Como tem certeza se nunca beijou antes, a não ser que com o beijo do Joca, acendeu uma faísca!!! - Disse Céia sendo engraçadinha, rindo demais, mas tentando aliviar a tensão. - Mais agora o que queremos saber, o que aconteceu depois que você saiu? Ele saiu louco atrás de você. Geral do Baile parou para ver.
- Ele veio atrás, se declarou, me pegou pelo braço e me segurou na parede com aquele hálito quente muito próximo a mim... - só de lembrar fico arrepiada - Dizendo que foi sempre verdade, que sempre me quis. Joguei umas coisas na cara dele, como quando ele foi embora, quando a tia morreu chamando por ele. Vi que toquei na ferida, vi dor e angústia em seus olhos, mas não me arrependi. Ele não pode chegar agora me tratando como se fosse sua namorada, como se tivesse ido embora ontem. Nunca tivemos nada para ele agir assim, possessivo. Falei ser meu amigo e nada mais que isso. Disse que ia embora e perguntou se podia me levar até minha casa. Deixei. Chegando lá, me pediu um abraço, dizendo precisar. Novamente deixei. Me abraçou apertado, quase me deixou sem ar, quando fomos nos separando, nossos rostos ficaram muito perto, passou os dedos pelos meus lábios, deu um beijo suave, casto e na sequência um intenso, eu não tive nenhuma reação e deixei acontecer. Quando dei por mim, pedi para ele parar porque senão não nos veríamos mais, pediu desculpa e se foi.
- Caraca! Joca é mesmo gamado em você, Sara! O que você fez com esse homem lindo que ele se tornou! Pelo menos isso você percebeu né? - Disse Céia. - Mas me fala o que achou do beijo?
- Foi ótimo, mexeu comigo de certa forma, não que eu queira ficar com o Joca, mas beija maravilhosamente bem, apesar de eu não ter nenhum parâmetro sobre isso... - dou uma risada sem graça. Elas caem na risada.
- Deixei claro que não vou me envolver com uma pessoa dessa vida, não quero viver preocupada se tenho ou não alguém, se meus filhos têm pai hoje e amanhã não.
- Está certa! Está correndo atrás do seu há tempos, para se perder agora. - Ficamos conversando sobre outros assuntos, assim meu sono passou, Joca saiu da minha mente por hora.
Encontrei Joca pelo morro quando voltava do trabalho, sempre rondando perto de casa, mas não tentou mais nada e assim foi passando aquela ansiedade, voltou tudo ao normal.
Enfim, minha formatura estava chegando. Não tinha dinheiro para o vestido, d. Letícia, uma senhora de 70 anos, morena, olhos verdes, muito bonita, elegante e viúva, que me deu o vestido novo, gostava de mim como uma filha, sempre me incentivou a estudar, o que eu fazia com gosto, diferente da Melissa, que todos chamavam de Mel, uma morena de olhos mel, corpo esguio, alta, 25 anos, sua filha que só gostava de esbanjar dinheiro em festas, baladas. Não tive condições de participar do baile, mas isso também eu não me importava, embora d.
Letícia insistiu para me dar de presente, mais não achei justo e também não queria confusão com Mel, tinha ciúmes da mãe comigo, embora nos déssemos muito bem, o importante é que eu estava formada, poderia arranjar um emprego melhor e ajudar minha família, nossa vida não era tão ruim comparada a muitas famílias que tinha no morro, porque meus pais tinham chefes ótimos, viam serem de boa índole, tinham caráter e faziam de tudo para ajudar as pessoas necessitadas também.
Chegado o grande o dia, ansiosa para pegar meu diploma, estávamos sentados após ouvir as palavras do Reitor, nosso paraninfo foi o professor Lucas, que Simone, minha amiga de sala, 24 anos, ruiva, olhos castanhos, bem magrinha, super extrovertida, insistia em dizer ser doido por mim, mas não acreditava nisso, ele não me atraia, nunca olhei para ele com toda essa atenção, coisa que Simone e a Céia achavam um absurdo, só de lembrar delas me atormentando, já reviro os olhos. Só esperando a hora de ouvir o meu nome, então, eu escuto Sara Aparecida dos Santos Silva, meus pais em pé, chorando com muita emoção, porque nós 3 sabíamos do esforço, da batalha para chegar até o final. Quando cheguei perto de Lucas, me entregou o diploma, me deu um abraço e disse:
- Você é a formanda mais linda da turma, aceita jantar comigo? -Levei um susto, porque não esperava, fiquei olhando para ele e logo atrás de mim, estava Simone, que só me olhou e disse sem som "te falei". Não respondi e sai, afinal tinha que entregar o diploma para os outros e não sabia o que responder.
Depois, da colação de grau estávamos conversando. Simone era de família de classe média alta e não tinha preconceito comigo por ser morro, pelo contrário adorava isso, porque amava funk, vivia subindo o morro para curtir o baile e dormia em casa ou na casa da Ceía, meus pais a adoravam. O Lucas se aproximou, perguntando a resposta para seu convite.
- Não posso aceitar.
- Por quê? - Lucas pergunta sendo incisivo.
- Simone e Céia querem que eu vá com elas comemorar a formatura.
- Vai jantar com ele Sara, depois ele te deixa em casa e comemoramos! Levo seus pais para casa, vamos d. Maria e seu João! - Disse já carregando meus pais, me dando uma piscadinha, eles ficando sem ação, sem saber o que dizer, mais seguiram Simone.
Naquele momento fiquei sem graça, mas não tinha como recusar mais. Chegamos ao restaurante italiano, adoro massas foi a melhor escolha, ele pediu um vinho, não estou acostumada a beber muito, mas me disse que a ocasião merecia, afinal eu estava formada.
- Somente uma taça para brindarmos! - Disse sorridente.
Conversamos animadamente, falamos da faculdade, de futuro profissional. Até que ele fica parado me olhando, comecei a sentir um frio na espinha, nunca fiquei sozinha com homem algum, com exceção do Joca me prendendo na parede e ainda mais me olhando daquele jeito. Chegou nossos pratos dele spaghetti com porpeta e o meu de nhoque. Começamos a comer, concentrada em meu prato, até que ele não resiste e quebra o silêncio.
- Sara, nunca te falei nada, mais gosto muito de você. - Diz me olhando firme nos olhos.
Fiquei estática olhando para ele sem reação nenhuma. Não sabia nem o que eu podia dizer naquele momento, Simone com certeza saberia como agir. Peguei minha taça de água e dei um grande gole como se isso fosse me ajudar em algo.
- Você não vai falar nada? Vai ficar me olhando com esses seus olhos verdes intensos?
- Lucas, não sei o que dizer! Nunca te olhei com outros olhos, te tinha como um amigo querido além do professor do curso, claro.
- Fica comigo? - Fala direto.
- Lucas...
- Não gosta nenhum pouco de mim? Sou feio para você? - Disse com aquele olhar do gato de botas.
- Não é isso, passei a vida toda pensando só em trabalhar e estudar para ajudar minha família, nunca pensei em namorar tão cedo, nem ficar com alguém.
- Me dá uma chance??? - Disse enfático.
Fiquei muda... Coração aceleradíssimo, pensei que ia sair pela boca, ele foi se aproximando mais, pegou em minha mão, não tive nem o ímpeto de tirar, ele deu um beijo na minha mão.
- Me deixa te mostrar que posso ser um bom homem para você, um namorado talvez. - Fiquei quieta só olhando. Para quebrar a tensão, disse:
-Onde vão comemorar? - Pergunta e continua alisando minha mão.
- Baile funk, lá no morro, Simone sempre que pode, vai para lá, fez até amizade com Céia, minha amiga de infância.
- Posso ir com você?
- Tem certeza???? Não tem cara que gosta de baile funk.
- Só quero ir onde você for. - Novamente me deixou sem ação.
Entramos no carro, fiquei pensativa, no que eu ia fazer, não estava nos meus planos ficar com alguém quanto mais namorar agora, queria seguir com meu propósito, mais fiquei tocada. O que eu faço, senhor, eu pensava. Quando chegou à entrada do morro, ele estacionou onde indiquei. Virou para mim, pegou na minha mão, ficou alisando com o polegar, não posso negar que aquele toque, esquentou meu corpo inteiro, afinal já tinha 21 anos, apesar de não ter ninguém, ter somente beijado o Joca, mais não sou nenhuma idiota também, não sou tão inocente como pensam, só sou reservada, mas preferi me afastar dos homens até atingir meu objetivo. Já vi muitas meninas no morro sofrendo, grávida muito cedo, abandonadas, outras abortando por insistência dos caras e não queria isso para mim.
Queria sair correndo, mais antes mesmo de eu pensar em abrir a porta, ele me pega pela nuca e me dá um beijo. Num primeiro momento fiquei sem ação, só para variar, isso está ficando complicado, coloquei a mão em seu peito para tentar afastá-lo, mas aquilo me queimou mais, o pior foi que gostei e acabei correspondendo. Cara como ele beijava bem, tão bem quanto o Joca, meu Deus lembrando dele agora por quê? Um beijo carinhoso, mas, ao mesmo tempo, ardente, de tirar o folego. Nesse momento, não pensei mais em nada me entreguei e deixei rolar, ficamos nos beijando. Só aproveitei aquele momento que particularmente não queria que acabasse.
- Sei que você gostou Sara, eu senti no seu beijo, fica comigo? Diz que sim!!!
Não vou mentir que fiquei muito tentada em aceitar, a sensação de ter um corpo masculino próximo ao meu novamente, foi demais, mas não queria machucá-lo porque eu gostava dele, mas não como ele queria.
- Lucas, não vou mentir, gostei sim, como sabe nunca tive um namorado, a minha preocupação sempre foi estudar e trabalhar, mas eu não quero te machucar gosto de você, mas não desse jeito que você está demonstrando gostar de mim. - Estava sendo sincera com ele.
- Não me importo, com o tempo você aprenderá gostar de mim, vamos tentar pelo menos? Mal não fará mesmo rsrs.
- Vamos fazer assim, a gente vai se curtindo e ver no que dá. Tudo bem?
Ele me abraçou tão feliz, igual criança quando ganha um presente novo e me beijava na boca, no rosto, na testa ficamos assim por um tempo, eu sem ação porque não estou acostumada com essas atitudes, essas demonstrações de carinho e subimos o morro. Cheguei em casa entrei com ele logo atrás de mim, Simone já veio toda saltitante, falando que sabia que ia dar certo.
- Como assim Simone, sabia que ia dar certo o quê??? - Fiquei confusa.
- Eu sempre soube que o Lucas gostava de você e te falava, só você, uma tonta mesmo, que não percebia, isso até que um dia tomei iniciativa e fui conversar com ele sobre, falei que ia ajudá-lo que você precisava namorar e ter um cara legal do seu lado.
- Muito obrigada por ficar me negociando viu. - Disse brava, revirando os olhos e olhei para Lucas. Ele sem graça só sorriu sem dizer nada.
Lucas colocou a mão em meus ombros, e deu um leve apertão, já senti aquele calor tomando conta do meu corpo novamente, estremeci e segurei firme, para que ninguém percebesse principalmente meus pais, que vergonha. Os dois que souberam sempre que o Lucas me dava aula particular de graça para me ajudar nos estudos, sempre foram muito agradecidos, correram até ele e o abraçaram forte, agradeceram o que ele fez por mim. Era só o que faltava, meus pais já aceitarem o Lucas logo de cara, cheio de abraços e beijos o convidaram a sentar e tomar um refresco, minha mãe fez um bolo antes de sairmos e já foi logo oferecendo. Pronto já conquistou os coroas!
Tirei o vestido da formatura e fomos até o baile, lá Céia Mara já estava nos esperando, era uma negra de olhos castanhos, o corpo volumoso, era gordinha, linda por sinal, que seus poros expeliam sex appeal, tava lá com seu shortinho curtinho, seu cropped, sandália de salto e se acabando no funk.
Céia, sempre foi muito bem resolvida com seu corpo, aliás sempre gostou muito dele assim, sempre falava que mulher de verdade tem que ter carne, por isso as meninas do Morro eram recalcadas, porque os caras não se importavam, era morador do Morro, era turista, eram os playboyzinhos que subiam para curtir baile funk ficavam todos em cima, ela abalava geral.
Quando viu a gente já saiu correndo veio nos abraçar, claro que ela já sabia da armação da Simone minhas melhores amigas tramando pelas minhas costas, sem conhecer o Lucas já chegou abraçando e falando que ele era um cara de sorte que mulher igual não ia achar em lugar nenhum, aí dele se me fizesse sofrer.
- Céia!!! Para com isso!!! - Repreendi-a
- Para de modéstia, Sarinha tanto eu quanto a Simone sabemos que o cara que ficar com você é um homem de sorte, sei que me entende!!!
Ficamos curtindo, aproveitando o baile, sempre gostei muito de dançar. Claro que eu não era "profissional" como Céia e Simone, mas sabia quebrar também. Começou a tocar os funks, com aquelas batidas envolventes, sem putaria, que eu mais gostava, empolguei e esqueci-me do Lucas já sai dançando com as meninas, ainda sob efeito do vinho, o que uma ou duas taças não faz. Escutando Ludmila: " Cheguei, cheguei chegando, balançando a zorra toda e o resto eu quero mais é que se exploda, porque ninguém vai estragar o meu diaaaa... Pode avisar, pode falar... ", depois MC G15, com Deu Onda, MC Don Juan com Oh, Novinha e todos esses Mc's que eu curto, estava me acabando, toda suada, meu short não tão curto quanto o da Céia, cintura alta e cropped, colando em meu corpo. Quando dei por mim, Lucas só me olhando dançar, com uma garrafa de Skol Beats Azul nas mãos, via em seus olhos, o fogo aceso, o quanto a dança estava mexendo com seus hormônios.
Funk é sensual acaba se tornando sexual para quem não está acostumado. Sentia todo o desejo dele em cima de mim, aquilo mexeu com minha libido, estava despertando em mim todo o desejo nunca sentido e, ao mesmo tempo, vi Joca do outro lado, só me olhando, mas preferi ignorar. Hoje não quero guerra com ninguém.
- Sara olha o que você está fazendo com esse homem, tá deixando ele louco! - Disse Simone.
- Também com uma nega dessa até eu fico louca. - disse Céia e às duas riram.
- Vocês são malucas!!! Olha o que vocês fazem comigo, me arranjam um namorado sem nem saber se eu ia querer. Aliás, ainda não é um namorado, um peguete, vamos curtir e ver no que dá. - Disse ainda dançando.
- Para Sara, já passou da hora de você soltar essa periquita aí, você já tem 21 anos e nunca nem tinha beijado na boca até esses dias. Me desculpa não queria tocar no assunto, sei que não gosta. - Falando do Joca. - Aliás você já beijou o Lucas? - Disse Céia tentando desviar o assunto.
- Claro que sim Céia Mara, senão ele não estava aqui! - Simone ria, já estava alta com a bebida.
- Geral aqui do Morro querendo ficar com você e nunca deu bola, se proibindo de se divertir. Libera essa bagaceira logo, daqui a pouco morre, enterra e à terra que vai comer e nem aproveitou em vida, nem sabe o quanto é bom né Simone!
- Uma delícia Céia, dá mesmo, nem ligo se conheci hoje, o que eu quero é aproveitar e você devia fazer o mesmo, Sara, a vida é muito curta. Olha esse moreno louco para te comer e você aí de doce.
- Vocês são umas pervertidas, só pensam naquilo! - Gargalhamos juntas.
- Vai lá dá um trato no seu macho que está te comendo com olhos e deixa a gente ir à caça, já comemoramos nossa formatura juntas o suficiente. - Disse Simone, deixando nítido que tinha achado sua presa, seu alvo.
- Lucas, me desculpa! Empolguei-me com as músicas! – Cheguei perto dele toda sem graça.
Ele me puxou, me abraçou de uma forma, que não tinha nenhum ar entre a gente, ficou me encarando com os olhos em chamas.
- Estou louco por você, sempre fui desde a primeira vez que te vi, mas hoje...
- Lucas...
- Mas hoje... Você está de parabéns!!!
Senti calafrios, fiquei toda arrepiada. Foi a deixa que tive para sairmos do baile, já era tarde, as meninas já tinham sumido. Falei que era melhor irmos embora. Sem me soltar, senti uma pressão logo abaixo da barriga, Lucas estava excitado, baile lotado, me desvencilhei dele, peguei em sua mão e fomos saindo. Com o aperto, Lucas encostava, me segurava pelo quadril, apertava e eu sentia seu membro em minha bunda, o que era aquilo, eu comecei a ficar excitada também, que loucura. Para quem nunca quis nada, agora vem tudo de uma vez. De repente Joca aparece bem na minha frente impedindo minha passagem.
- Algum problema por aqui? - Disse com um tom ameaçador e olhando direto para Lucas.
- Nada. Lucas esse é o Joaquim, meu amigo de infância. Joca, Lucas. - Lucas estendeu a mão, mais Joca não, olhei de uma mão a outra e fixei meus olhos em Joca, percebeu que fiquei brava e logo deu um aperto forte, encarando Lucas.
- Vamos Lucas embora.
- Prazer em conhecê-lo cara. - Disse Lucas tentando ser simpático. Enquanto Joca só assente com a cabeça.
- Acho que ele não gostou muito de me conhecer. - Disse Lucas olhando para trás.
- Deve ser só impressão. Joca me conhece desde que me entendo por gente.
Levei o Lucas até o carro para que ele fosse embora, naquele momento era a melhor coisa a se fazer, antes que eu cometesse uma loucura, porque já não estava raciocinando o suficiente, com toda aquela pressão, aquele esfrega, esfrega em mim e sempre fui muito centrada, "certinha" como elas dizem e por Joca, com aquele olhar ameaçador, preciso falar com ele depois de hoje, bem sério.
- Fica aqui comigo no carro um pouco? - Queria hesitar, mais estava sendo mais forte que eu.
- Melhor eu ir embora! - Alertei.
- Só um pouquinho!!! - Percebi que ele estava alegrinho de tanta skol beats que tomou. Mas por dentro, meu corpo pedia para ficar, fogo consumindo, olha... Vou arder no mármore do inferno como diria em Caminho das Índias.
- Só um pouco. Até passar um pouco o nível de álcool, fico com medo de você dirigir neste estado.
- Fica tranquila que estou bem, foram só 3 dessas. - Disse com um sorriso de canto de boca, balançando a garrafa na mão.
Ele abriu a porta para eu entrar, deu a volta e entrou, já veio me pegando, me beijando, estava saindo fora de mim, só no beijo, já estava flutuando. Fui colocar a mão em sua coxa, não me atentei e coloquei a mão no seu membro, tirei na hora, envergonhada.
- Safadinha, já quer brincar com ele! Vai em frente deixo com todo prazer. - Corei envergonhada. Fingi que não ouvi. Ele veio com mais sede depois disso, tentando abrir meu short.
- Lucas, calma aí, preciso falar, sou virgem! Quando eu disse que nunca tive um namorado é porque eu nunca tive um homem na vida.
- Sério??? Nunca imaginei isso. Nossa, perdi o rumo agora. - Lucas murchou na hora, imagina seu brinquedo...
- Algum problema para você? Melhor até pararmos por aqui e seguir cada um para seu lado.
- NÃO!!! Quis dizer vamos com calma, eu quero que seja especial para você. - Sem muito entusiasmo.
Ele me beijou mais um pouco e disse que era melhor ir embora agora, não sabe o quanto conseguiria se segurar. Ofegante e com vontade de continuar, nos afastamos e ele se foi.
Sai do carro e comecei a subir o morro sem fôlego, com as pernas bambas. Pensando no que tinha acabado de acontecer, caracas isso era bom demais... levo um susto, com alguém encostado na parede assim que dobro a esquina.
- Joca que susto!!! Está louco????
- Quem é esse cara, Sara? - Disse com uma voz ameaçadora.
- Até o momento não tenho uma palavra para definir, mas estamos nos conhecendo, aliás, não te devo satisfação nenhuma. - Digo brava.
- Não, não deve! Mesmo assim quero saber! - Disse enfático.
- Toma conta da sua vida, dos seus "negócios" e deixa que da minha vida cuido eu, aliás tenho um pai para fazer isso, que no caso não é você! - Segura meu braço e não me deixa ir.
- Por que está fazendo isso comigo? - Disse com um tom de confusão.
- Eu? Não estou fazendo nada! Tá louco??? Você que volta dos mortos e pensa que tudo tem que ser como era antes. Céia e eu, crescemos, estamos tocando nossa vida e nesses últimos 6 anos você não estava presente, nem de longe, aliás de longe estava, só a gente que não sabia, então, não me venha cobrar nada, porque não lhe devo nada. Mas, como você acredita que lhe devo alguma explicação, ele é um cara trabalhador de verdade, gosta de mim, faz tempo, respeitador, não me machuca, segurando meu braço assim, por exemplo. - Afrouxa o aperto no meu braço, acredito que nem imaginava estar tão forte. - E agora me deixe em paz, antes que eu me arrependa de estar feliz por ter voltado, se é que posso dizer isso mesmo.
- Não acredito que vai me trocar por esse playboyzinho??? - Ainda me segurando, porém, não tão forte.
- Playboyzinho? Não me ouviu dizer? Ele é trabalhador de verdade, deu duro na vida, teve propósitos e ainda tem! E, outra coisa, te trocar??? Não posso trocar o que nunca tive! Quer algo mais? Me solta!
Sem me largar, me vira e me prende na parede, com as mãos aos lados da minha cabeça, sua respiração quente em meu ouvido, não posso dizer que não me assustou e, ao mesmo tempo, correu uma faísca, eu ainda estava esfriando do que estava fazendo com o Lucas, apesar da raiva que estava sentindo do Joca, pela sua atitude, mas ainda estava em ponto de explodir, vem e faz isso, ah.... não dá.
- Vou te soltar, vou te deixar ir, mais uma coisa eu te digo, ainda vai ser minha, porque é assim que eu quero! - Disse com uma voz assustadora, mais quente, que me faz querer continuar com o Joca o que eu estava fazendo com Lucas, mais não posso, não sou esse tipo de mulher, sempre fui contida e não é agora que serei diferente.
- Não serei sua, porque não quero essa vida para mim. Não tenho cacife para ser mulher de bandido, traficante, sei lá como se determina. Gosto de você como meu amigo de sempre e não como um homem que quero que esteja ao meu lado para tudo, em tudo. Coisa que tenho certeza de que nunca conseguirá ser. - Vejo que aperta os olhos, respira fundo, em seguida os abre, sua pupila dilata, constato o desejo em seus olhos, roça seus lábios carnudos em minha orelha, enquanto me derreto, mais tento não demonstrar nenhum sinal. Desce pelo meu pescoço, sentido meu perfume como se quisesse guardar o momento. Arrasta pela minha bochecha, o maldito sabe o que faz, dá um beijo suave, casto, se afasta e me olha, eu estou imóvel tentando parecer fria, mas por dentro só eu sei que estou como uma panela de pressão. Me beija, suave, na sequência forte, me invadindo, coloco as mãos em seu peito, que está tensionado, músculos fortes, desejo tocar mais, mais não posso, tento empurrá-lo, não consigo, ele se prende mais a mim, encostando todo seu corpo, sinto sua ereção presa a minha barriga, pulsando, pega minhas mãos e prende acima da minha cabeça, luto, tentando me soltar, mas ele é muito mais forte que eu, fica difícil e não resisto mais e me entrego ao beijo, parece uma eternidade, até que caio em mim, começo a lutar novamente para me soltar e começo a chorar. Parece que meu choro tira Joca do transe.
- Porra!!!! Me desculpa, te machuquei? - Disse todo preocupado e ofegante.
- Não! - Choramingo - Mais vai me machucar se continuar me forçando a te querer sem eu querer. - Na hora ele me solta.
- Não quero te forçar a me querer, mas você vai me querer! Sinto no seu beijo, que você gosta de como eu te pego, de como te toco. Tenho certeza de que aquele playboy não sabe fazer! Nem tem pegada!
- Não fale de Lucas! Nunca mais! Deixe-o em paz, não toque em um fio de cabelo dele! Me entendeu? Porque terei certeza de que qualquer coisa que acontecer, será sua culpa. Te entrego para polícia, pode ter certeza disso!!! - Saio sem olhar para trás. Deito em minha cama, olho para o teto e fico pensando em tudo que aconteceu comigo nas últimas horas, cada loucura, para quem tinha uma vida de certo modo pacata, de repente vira uma loucura e acabo adormecendo.
Nos últimos dias de aula, meus professores me indicaram algumas empresas multinacionais que eu deveria entrar em contato para levar meu currículo, meus professores gostavam muito do meu desempenho na faculdade, inclusive Lucas me indicou a filial da Turner Entertainment, que poderia ter uma possibilidade de eu trabalhar na matriz na Califórnia.
Acredito que se fosse hoje Lucas não teria me falado. Pesquisei sobre a Turner Entertainment e essa empresa, foi a que mais gostei e me deu vontade de trabalhar lá, mais no momento não podia me dar ao luxo de escolher, o importante é conseguir entrar na área, o restante damos um jeitinho.
Me formei no começo de dezembro de 2016, eu ia esperar passar as festas de fim de ano, em janeiro já começaria a procurar essas empresas para me apresentar para uma entrevista.
Estava tão ansiosa para chegar, logo dia 2 de janeiro para começar a fazer as entrevistas para saber se eu ia me encaixar no perfil de algumas delas e começar a exercer na minha função logo, poderia sair da lanchonete, estava tão feliz, mais tão feliz e meus professores falavam que em alguma dessas empresas eu ia conseguir entrar, eu me apegava nessa esperança. Porque eu tinha certeza de que era aquilo que eu queria para minha vida. Embora meus pais fossem felizes, mais queria dar uma vida melhor para eles, mais segura e de menos trabalho. Sempre me diziam bastar eu estar feliz para ficarem também. Meus pais são demais amores da minha vida.
Chegou à véspera de Natal, pensei que Lucas iria a São Paulo passar o final de ano com a família dele, não que fosse ficar comigo. Disse que não passaria longe nosso primeiro fim de ano juntos, foi um fofo, mas eu uma ogra bem estilo Shrek mesmo, nem me importava se fosse para São Paulo passar com a família, porque a gente não namorava, estamos nos curtindo. Me encheu de presentes e mimos de Natal, não posso mentir, estou gostando desse paparico todo, nunca tive isso. Trouxe comes e bebes para contribuir com nossa ceia. Joca também resolveu aparecer, pensei que ia dar merda, mas quando viu que o Lucas estava por lá, deu um buquê de flores para minha mãe, uma garrafa de cerveja importada para meu pai, agradecendo por tudo que fizeram por ele e pedindo desculpas pelos transtornos destes 6 anos sumido e para mim, entregou uma caixinha, uma corrente com um pingente de coração de diamante, entendi estar me entregando seu coração, sem dizer nada e saiu. Meus pais se entreolharam preocupados, senti um aperto no peito, mas não podia demonstrar nada por causa do Lucas.
- O que esse cara tem? Ele gosta de você, não é? - Disse desconfiado.
- Claro que gosta Lucas, é meu amigo desde a infância. - Digo tentando quebrar o clima, mas não cola muito. Então retomamos de onde paramos e brindamos o Natal, nossa vida.
Não vi mais Joca pelo morro, não contei nada do que aconteceu a Simone e Ceia, para não piorar a situação, porque às duas juntas se tornam uma avalanche em certas horas e não estava a fim de mais especulações.No fundo deu uma dó do Joca, jamais desejaria algum mal para ele, nunca pensei que fosse real esse sentimento e fosse tão grande assim, me senti desconfortável e com vontade chorar, mas não podia, dei uma segurada.
Na véspera de Ano Novo, estamos nós coladinhos de novo, dessa vez fomos à praia ver a queima de fogos, Lucas fez questão de levar meus pais. Eles adoraram, nunca foram ver a queima tão de perto. Estou muito feliz com o rumo que minha vida está tomando. Nunca pensei que pudesse me dedicar ao meu projeto de vida e curtir em conjunto.
No dia 2 de janeiro, liguei para as empresas para saber como eu poderia marcar uma entrevista de trabalho, todos me orientaram a mandar um e-mail e aguardar confirmação e eu elaborei isso no mesmo momento. Na semana seguinte diariamente eu tinha uma entrevista marcada no período da manhã, graças a Deus, tudo se encaminhando, apesar de ser só uma entrevista, nada confirmado, mas me sentia esperançosa e no período da tarde ia trabalhar na lanchonete.
D. Letícia pediu para a costureira que fez meu vestido de formatura, fazer uns terninhos, tailleur para eu poder ir às entrevistas, bem apresentável, ela me deu de presente e ainda me deu uns sapatos da Mel, nem sabia como agradecer a ajuda que me dava, uma segunda mãe para mim.
Passei a semana fazendo entrevistas e a tarde indo para lanchonete. A única empresa que ainda não marcou entrevista foi a Turner Entertainment. Não entendia o porquê, era a empresa que eu mais me identifiquei e a possibilidade de carreira e de trabalhar fora do país, embora não fosse meu interesse direto ir trabalhar fora. Obtive nenhum retorno das entrevistas até o momento. No domingo de manhã recebi uma mensagem pelo WhatsApp, dizendo que deveria comparecer a Turner na segunda às 9h, meu coração acelerou, fiquei muito feliz e mandei uma mensagem para o Lucas.
Whatsapp*
- Lu, acabei de receber uma mensagem da Turner falando para comparecer amanhã às 9h.
- Que bom.
- O que foi? Aconteceu alguma coisa?
- Tenho certeza de que você vai passar na entrevista deles, tem perfil de lá e vai me esquecer.
- Porque diz isso?
-Tenho certeza, que logo trabalhará na matriz!
- Nossa!!! Nem fiz a entrevista e já está contando com tudo isso?
- Me Desculpa... Estou feliz por você!!! Parabéns!!! Vai se dar muito bem lá, certeza que vai passar na entrevista. Estou indo aí, vamos a praia? Hoje é domingo, dia de descanso e sei que está de folga.
- Tenho como recusar?
- Claro que não, vamos comemorar a entrevista!
- 10h passo aí.
- Ok.
Esse Lucas me mata ainda um dia. Tem 3 semanas que estamos nos curtindo, aceitei o título de namorada no dia do ano novo, para que ele largasse do meu pé um pouco. Gosto de estar com ele, dele, mais não tem amor. Já queria me apresentar para família, barrei e pedi para esperar um pouco, ir com calma. Minha sorte que a família é de São Paulo. Ufaaa...