Por oito anos, minha vida se resumiu à agência Dança de Fogo.
Oito anos de dedicação, noites sem dormir, salvando projetos e a pele da empresa, tudo por um salário congelado de meros três mil reais, mal o suficiente para sobreviver em São Paulo.
A humilhação diária, as risadas zombeteiras de minha chefe, Juliana Costa, e os olhares de pena dos colegas eram meu pão de cada dia. "`Miguel, na minha sala. Agora`", a voz dela ainda ecoa, fria como sempre.
Eu ouvia seus insultos, as palavras de que eu não tinha ambição, de que eu era um designer medíocre, e sentia o sangue subir.
Mas nada me preparou para o que viria: um contrato de trabalho esquecido em sua mesa.
O nome era Pedro Almeida. Cargo: Estagiário de Design.
E o salário? Trinta mil reais. DEZ vezes o meu.
Trinta mil reais para um estagiário! Meu ar sumiu, minha dignidade foi pisoteada.
Quando Juliana me flagrou, sua máscara caiu. "`O dinheiro é meu, a empresa é minha. Eu decido quem vale o quê`".
Ela me chamou de "ferramenta" e jogou uma pasta em mim, me rebaixando para uma mesa ao lado do banheiro, um lixo.
Eu estava destruído, mas não sabia que o pior ainda estava por vir.
Eles me transformaram em bode expiatório, cortaram meu salário pela metade e me tiraram do projeto mais importante da agência, jogando-o nas mãos de Pedro, que claro, arruinou tudo.
A Dança de Fogo estava à beira do colapso e, mais uma vez, ela veio rastejando.
Eu salvei a agência, de novo. Mas em vez de gratidão, recebi mais desprezo: "`Você quis se fazer de herói`".
Naquele instante, algo dentro de mim se quebrou, e eu declarei: "`Juliana, eu me demito`".
E em meio às suas gargalhadas zombeteiras, eu pensei: "o jogo virou".
Miguel Silva olhou para o número no canto do monitor do computador. Oito anos. Oito anos completos naquela agência, a Dança de Fogo. Oito anos de dedicação, de noites viradas, de projetos que salvaram a pele da empresa inúmeras vezes. E por tudo isso, seu salário continuava o mesmo, congelado no tempo, uma piada de R$ 3.000 por mês. Um valor que mal pagava suas contas em São Paulo. Ele sentia a injustiça corroer seu estômago todos os dias, mas continuava ali, esperando por um reconhecimento que nunca chegava.
A porta do escritório de sua chefe, Juliana Costa, se abriu com um rangido.
"Miguel, na minha sala. Agora."
A voz dela era fria como sempre. Miguel respirou fundo. Era a nonagésima nona vez que ele tentaria. Ele se levantou e caminhou até a sala dela, sentindo os olhares curiosos dos colegas. Ele sabia o que eles estavam pensando. Lá vai o Miguel de novo, ser humilhado mais uma vez.
Juliana estava sentada atrás de sua mesa de vidro, imponente. Ela nem o convidou a sentar.
"Juliana, eu gostaria de conversar sobre meu salário novamente."
Ela soltou uma risada curta e debochada.
"De novo essa história, Miguel? Você não se cansa?"
Ela se levantou, contornou a mesa e parou na frente dele. Ela era mais baixa, mas sua atitude a fazia parecer um gigante.
"Eu já te disse que a empresa não tem condições. Você deveria ser grato por ter um emprego."
Então, ela fez o gesto que ele mais odiava. Levantou o dedo indicador e deu um peteleco em sua testa.
"Coloque isso na sua cabeça. Você não vai conseguir um aumento."
Miguel cerrou os punhos, sentindo o sangue subir ao rosto. A humilhação era pública, a porta da sala estava entreaberta. Ele engoliu em seco, a raiva e a impotência formando um nó em sua garganta. Ele pensava em todos os sacrifícios, nos fins de semana perdidos, nas férias adiadas. Tudo para quê? Para ser tratado como uma criança, como um idiota. Ele podia ouvir os sussurros do lado de fora, a voz de Lívia Ramos, a assistente bajuladora de Juliana, provavelmente se deliciando com a cena. Apenas Sofia Mendes, sua colega de baia, lhe lançou um olhar de solidariedade, um misto de pena e raiva compartilhada.
Ele voltou para sua mesa, derrotado. Tentou se concentrar no trabalho, mas as palavras de Juliana ecoavam em sua mente. Naquela noite, já em casa, exausto, seu celular tocou. Era Juliana.
"Miguel, preciso de você. O cliente do Grupo Esplendor está furioso com uma proposta, o prazo é para amanhã de manhã. Preciso que você refaça tudo. Agora."
"Juliana, são onze da noite."
"E daí? Você não quer que a gente perca nosso maior cliente, quer? A responsabilidade é sua, você era o designer principal nesse projeto."
Era uma mentira. Ele mal tinha tocado no projeto, que fora liderado por outro time. Mas Juliana era mestre na chantagem emocional. Sem escolha, ele ligou o computador novamente e passou a madrugada trabalhando, movido a café e frustração.
Na manhã seguinte, ele chegou na agência com olheiras profundas, mas com o projeto impecável em mãos. Entregou para Juliana, esperando, talvez, um mínimo de reconhecimento. Ela folheou os slides rapidamente, a expressão azeda.
"Humm... essa fonte aqui está um pouco conservadora demais. Você não tem mais criatividade, Miguel?"
Ele ficou sem palavras. Depois de uma noite inteira salvando o pescoço dela, era isso que ele recebia.
"Sabe qual é o seu problema, Miguel? Você não tem ambição. Oito anos aqui e continua o mesmo designerzinho medíocre. Se dependesse de gente como você, a empresa já teria falido."
Ela jogou a apresentação na mesa dele e voltou para sua sala, batendo a porta. Miguel ficou parado, o insulto pairando no ar como fumaça tóxica. A esperança que ele ainda nutria, por menor que fosse, morreu naquele instante.
A gota d'água veio dois dias depois, de uma forma tão banal que chegava a ser cruel. Miguel foi à sala de Juliana para pegar uma referência de cor em um manual que ficava na estante dela. A sala estava vazia, ela devia estar em alguma reunião. Sobre a mesa de vidro, esquecido, estava um documento. Um contrato de trabalho. A curiosidade foi mais forte que ele.
O nome no contrato era Pedro Almeida. O cargo: Estagiário de Design. Miguel sorriu com amargura. Mais um garoto para ele ter que treinar. Então, seus olhos desceram para a cláusula do salário.
Seu coração parou.
R$ 30.000,00.
Trinta mil reais. Por mês. Para um estagiário.
Dez vezes o seu salário.
O ar faltou em seus pulmões. Ele sentiu uma tontura, uma onda de náusea. Aquele número dançava na sua frente, zombando dele, de seus oito anos de lealdade, de suas noites mal dormidas, de sua dignidade pisoteada. Era um tapa na cara. Não, era um soco no estômago.
Naquele exato momento, Juliana entrou na sala, falando ao celular. Ela o viu parado, pálido, olhando para o contrato. O sorriso dela desapareceu. Ela encerrou a ligação bruscamente.
"O que você está fazendo aqui?"
Miguel levantou o olhar, e pela primeira vez em oito anos, não havia submissão em seus olhos. Havia fogo.
"Trinta mil reais, Juliana? Para um estagiário?"
A voz dele era baixa, mas carregada de uma fúria contida.
Juliana cruzou os braços, a arrogância voltando a tomar conta de sua expressão. Ela não demonstrou um pingo de vergonha.
"E qual o problema? O dinheiro é meu, a empresa é minha. Eu decido quem vale o quê."
"Quem vale o quê?", ele repetiu, incrédulo. "Eu estou aqui há oito anos. Eu construí a reputação desta agência junto com você. E você me paga um salário de miséria enquanto joga uma fortuna para um garoto que provavelmente nem sabe usar o Photoshop direito!"
"Isso se chama investimento, Miguel. Investimento em talento novo, em sangue novo, em uma nova direção para a empresa. Algo que você, com suas ideias velhas e sua falta de ambição, não pode oferecer."
A justificativa dela era tão falsa, tão desonesta, que o enojou. Era pura exploração disfarçada de estratégia de negócios. Ele sabia o que era aquilo. Era um sobrinho, um afilhado, algum protegido com um sobrenome importante. E ele, Miguel, o idiota leal, estava sendo descartado.
"Você é uma mentirosa", ele cuspiu as palavras.
A máscara de calma de Juliana caiu. O rosto dela se contorceu em uma careta de ódio.
"COMO VOCÊ OUSA?"
Ela bateu com as duas mãos na mesa com uma força que fez o vidro tremer. Num movimento rápido, ela pegou uma pasta de apresentação que estava sobre a mesa e a arremessou contra ele.
O canto da pasta bateu com força em sua bochecha. A dor foi aguda, ardente. Ele levou a mão ao rosto, sentindo o papelão duro que o atingiu. Mais do que a dor física, foi a humilhação final, o golpe que selou seu destino ali. Ele sentia o sangue pulsar na bochecha, a pele latejando. Ele estava chocado, mas o sentimento mais forte era o de um profundo e amargo ressentimento.
Juliana o encarava, ofegante de raiva.
"Você está demitido do seu posto. Mas não vou te mandar embora. Vou te fazer desejar nunca ter me confrontado."
Ela apontou para o fundo do escritório, para uma pequena mesa de metal encostada na parede, ao lado da porta do banheiro.
"A partir de amanhã, aquele é o seu lugar. Limpe sua mesa antiga. O Pedro começa amanhã, e ele vai precisar do espaço."
Aquele era o seu lugar agora. Ao lado do banheiro. Um símbolo claro de sua nova posição na empresa: lixo.