O táxi parou em frente ao edifício e Lara Mendes precisou segurar o queixo para não deixá-lo cair.
Aquilo não era um prédio. Era um monumento. Vinte e tantos andares de vidro e aço, uma fachada que brilhava sob o sol de Nova York, e um porteiro de uniforme impecável que abriu a porta do táxi antes mesmo que ela terminasse de pagar.
Lara saiu do carro com duas malas enormes, uma mochila nas costas e uma caixa de papelão na mão. Seus olhos castanhos percorreram a fachada do edifício com uma mistura de admiração e incredulidade. Ela, uma garota do Texas, filha de um mecânico e uma costureira, estava prestes a entrar num dos prédios mais luxuosos de Manhattan.
- Posso ajudar com a bagagem, senhorita? - perguntou o porteiro, com um sotaque carregado de Nova York.
- Ah, sim, por favor! - Lara sorriu - São só essas duas malas e a caixa. O resto vem amanhã com a mudança.
O porteiro assentiu e pegou as malas com uma facilidade que impressionou Lara. Ela seguiu atrás dele, entrando no saguão.
O lugar era deslumbrante. Mármore branco com veios dourados, um lustre gigante no centro, um balcão de recepção onde um homem de terno a observava com curiosidade.
- Seu nome, por favor? - perguntou o recepcionista.
- Lara Mendes. Apartamento 1402.
O homem digitou algo no computador e depois levantou os olhos.
- Ah, o apartamento do Sr. Mendes. - Ele fez uma pausa. - Você é a neta?
- Sou. - Lara endireitou a coluna. Sabia que não parecia uma herdeira de Manhattan. Estava de calça jeans, tênis e uma blusa azul simples. A caixa na mão tinha escrito "FRÁGEIS Utensílios Da Avó" .
- Bem-vinda - disse o recepcionista, com um sorriso educado. - O elevador é ali. O 1402 fica no final do corredor à esquerda.
- Obrigada!
Lara pegou a mala mais pesada a mochila ainda nas costas e arrastou-se até o elevador. Quando as portas se fecharam, ela suspirou fundo.
- Sozinha. Finalmente sozinha. - Ela se olhou no espelho. Cabelos pretos num coque bagunçado, olhos castanhos brilhando com uma mistura de empolgação e cansaço. Ela tinha 1,56 metro de altura e um corpo curvilíneo que sua mãe sempre dizia ser "de comer com os olhos". Lara nunca ligou muito para isso. Ela era alegre, extrovertida, e as vezes se metia em alguns problemas para ela a aparência era só um detalhe.
O elevador subiu em silêncio. As portas se abriram no décimo quarto andar, revelando um corredor silencioso e elegante. Carpete cinza, paredes beges, iluminação suave. Duas portas: 1401 e 1402.
Lara arrastou a mala até a porta da direita, enfiou a chave na fechadura e abriu.
O apartamento era lindo.
Paredes brancas, piso de madeira clara, uma sala ampla com janelas enormes que mostravam o horizonte de Manhattan. A cozinha era moderna, com bancada de granito e eletrodomésticos novos. Dois quartos, dois banheiros. Tudo mobiliado com móveis minimalistas que seu avô havia escolhido.
Lara largou as malas no chão e correu para a janela.
- Uau. Uau. Uau. - disse impressionada - Meu Deus - sussurrou.
A vista era de tirar o fôlego. Arranha-céus, o rio ao fundo, o céu azul. Ela encostou a testa no vidro e sentiu os olhos marejarem.
- Vovô, você me deixou um paraíso.
O telefone vibrou no bolso. Era a sua mãe.
- Mãe? Sim, cheguei! - Lara atendeu, ainda olhando para fora. - É lindo, mãe. Perfeito. Você precisa ver isso.
- Filha, você comeu alguma coisa? - a voz da mãe soou preocupada. - Não esquece de fazer um jantar de verdade, hein? Nada de miojo.
- Mãe, eu sei cozinhar! Você me ensinou. - Lara riu. - Vou fazer um jantar digno hoje. Depois de desfazer as malas, claro.
- Bom, toma cuidado. Nova York é perigosa.
- Mãe, eu tô no décimo quarto andar de um prédio de luxo. O único perigo aqui é o preço do aluguel. - Lara riu. - Mentira, é herança. Não pago nada.
A mãe riu também.
- Seu avô sempre foi generoso. - A voz da mãe ficou mais suave. - Ele ia adorar ver você aí, filha.
Lara sentiu um nó na garganta.
- Eu sei, mãe. Eu sei.
Desligaram com a promessa de se falarem no dia seguinte.
Lara começou a desfazer as malas. Roupas no armário ela tinha levado pouca coisa, afinal, seu guarda-roupa não era exatamente digno de Manhattan. Sapatos organizados na entrada. Produtos de cabelo no banheiro. A caixa da avó foi colocada na estante, dentro havia fotos antigas e algumas porcelanas que a avó colecionava.
Quando terminou, sentiu fome. Foi até a cozinha, abriu a geladeira. Vazia. Suspirou.
- Certo, primeiro jantar em Nova York. Vai ser delivery.
Pegou o celular, procurou um restaurante próximo e pediu uma pizza. Enquanto esperava, explorou mais o apartamento. O segundo quarto era menor, mas com uma vista bonita para o prédio ao lado. Ela imaginou transformá-lo em um home office.
A campainha tocou.
- A pizza! - Lara correu para a porta, abriu com um sorriso. - Oi!
Era o entregador. Pagou, pegou a caixa e fechou a porta.
Sentou no sofá, abriu a pizza, calabresa com cebola e comeu em silêncio, olhando para as luzes de Manhattan através da janela.
Seis meses.
Seis meses desde que o avô partiu. Seis meses de luto, de tristeza, de empacotar sua vida no Texas. Agora estava aqui. Sozinha. Num dos lugares mais caros do mundo.
Lara terminou a pizza, jogou a caixa no lixo e foi tomar banho.
A água quente caiu sobre seus ombros, relaxando os músculos tensos da viagem. Ela fechou os olhos e deixou a mente vagar.
O avô sempre dizia que Nova York era uma cidade de oportunidades. Que ela poderia ser quem quisesse aqui. Que seu talento como designer seria reconhecido.
- Vovô - sussurrou, embaixo da água -, eu vou te orgulhar.
Depois do banho, vestiu um pijama confortável shorts e uma camiseta velha, e deitou na cama. O colchão era macio, os lençóis cheiravam a novo.
Ela pegou o celular, colocou uma música baixinha, um jazz suave que o avô gostava e ficou ouvindo, olhando para o teto.
O cansaço bateu rápido. Lara adormeceu em minutos.
Feliz com sua nova vida.
Lara acordou no dia seguinte com a luz do sol entrando pela janela. Bocejou, espreguiçou-se e ficou um momento na cama, processando onde estava.
- Bom dia, Nova York - murmurou.
Levantou-se, foi até a cozinha e preparou um café. Abriu a geladeira ainda vazia, mas ela tinha comprado pão e manteiga na noite anterior numa loja de conveniência. Café da manhã básico.
Passou a manhã arrumando o apartamento. Pendurou quadros, organizou os livros na estante, colocou as plantas que trouxe do Texas perto da janela.
À tarde, decidiu explorar o bairro. Pegou a bolsa, colocou um casaco leve e saiu.
Andou por Manhattan, maravilhada com tudo. Lojas, restaurantes, pessoas correndo. O barulho constante de carros, sirenes, conversas. Tudo era tão diferente do Texas.
Voltou no final da tarde, cansada mas feliz. Comprou algumas coisas no mercado ovos, leite, frutas, legumes. Ia cozinhar seu primeiro jantar em Nova York.
Enquanto preparava um macarrão simples, ouviu a porta do elevador se abrir no corredor. Passos. Depois, a porta ao lado se fechando.
- Deve ser o vizinho - murmurou.
Curiosa, foi até a porta da entrada e espiou pelo olho mágico. Mas só viu o corredor vazio.
- Hum.
Voltou à cozinha, terminou de cozinhar, comeu e lavou a louça. Depois foi para a sala, sentou no sofá e pegou o celular. Assistiu a um episódio de uma série de romance sua mãe sempre dizia que ela via coisas "muito água com açúcar", mas Lara adorava.
Quando o episódio terminou, já era quase meia-noite. Lara bocejou, levantou-se para ir dormir.
Foi quando ouviu.
- ...amor, vai devagar...
Lara congelou.
A voz vinha da varanda. Da varanda do lado.
Ela olhou para a janela da sala dava para a varanda ao lado. A cortina estava aberta. Não tinha visto antes, mas agora percebeu que as varandas eram separadas por uma pequena distância. E que a do vizinho estava COM AS LUZES ACESAS.
- Isso... não... - sussurrou Lara.
- Ah, assim, assim!
Era uma mulher. Gemendo. E uma voz masculina, ofegante.
Lara ficou paralizada. O som vinha claro.
Ela olhou para a cortina. Se a cortina estivesse aberta, ela poderia ver.
Não. Ela NÃO ia olhar.
Mas as vozes continuavam.
- Meu Deus - Lara levou as mãos ao rosto. - Meu Deus, meu Deus, meu Deus.
Ela correu para fechar a cortina da sala. Mas as vozes estavam ALTAS. Muito altas.
Lara tapou os ouvidos, mas ainda conseguia ouvir.
- Vamos, amor, mais forte!
Ela correu para o quarto. Fechou a porta. As vozes continuavam.
O quarto também tinha janela para a varanda ao lado.
- Não acredito! - Lara fechou a janela do quarto com força.
Mas a varanda do vizinho ficava entre os dois cômodos. Não importava onde ela estivesse, o som chegava.
Lara se jogou na cama, enterrou o rosto no travesseiro e gritou baixinho.
- Que vizinho é esse?!
Por quase vinte minutos, ela ouviu os sons. Gemidos, respirações, palavras sujas, o barulho do corpo contra a parede.
Quando finalmente o silêncio chegou, Lara estava com o rosto vermelho, os olhos arregalados e uma vontade enorme de se mudar de volta para o Texas.
- Amanhã - disse para si mesma, ofegante -, amanhã eu vou achar esse vizinho e vou DAR UM ESCLARECIMENTO.
Mas a vergonha era tanta que ela nem sabia como ia encarar o homem.
No dia seguinte, Lara acordou tarde. Tinha dormido mal, os sons da noite anterior ainda ecoando na mente.
Olhou no celular: 10h47.
- Ai, meu Deus, eu devia ter ido ao mercado de manhã - murmurou.
Levantou-se, tomou um banho rápido, vestiu uma calça jeans e uma blusa branca simples. Prendeu o cabelo num coque e pegou a bolsa. Precisava comprar mais coisas para a semana.
Saiu do apartamento, fechou a porta, e foi em direção ao elevador.
A porta do elevador estava se fechando.
- Espera! - Lara correu, esticando a mão.
A porta parou. Abriu.
E lá estava ele.
O vizinho.
Lara reconheceu na hora. O homem alto, de quase dois metros, ombros largos, cabelos castanhos escuros bagunçados, olhos negros. Ele usava uma camisa social branca, mangas dobradas até o cotovelo, e calça preta. Parecia ter saído de um comercial de perfume caro.
Ela entrou no elevador. Ele não a olhou.
Apenas ficou ali, em silêncio, olhando para as portas.
Lara engoliu em seco. Lembrou dos sons da noite anterior. O rosto ficou quente.
- Bom dia - disse, tentando soar natural.
O homem não respondeu. Apenas ficou parado, como se ela fosse invisível.
Lara sentiu uma pontada de irritação. Ela era uma pessoa educada. Sempre cumprimentava os outros. Aquele homem podia ao menos ter respondido.
Mas o elevador desceu em silêncio.
Quando as portas se abriram, o homem saiu primeiro. Andou rápido, sem olhar para trás.
Lara ficou parada no elevador por um segundo.
- Que homem mal-educado - murmurou.
Mas não pôde evitar: os sons da noite anterior voltaram à mente. Ela sentiu as bochechas queimarem.
- Não, não, não - disse para si mesma, saindo do elevador. - Você não vai pensar nisso, Lara. Você vai comprar suas coisas e voltar pra casa.
Ela seguiu em direção à saída.
O vizinho já tinha desaparecido na rua.
Lara suspirou aliviada.
Mal sabia ela que aquela indiferença era apenas o começo.
Lara saiu do prédio e respirou fundo. O ar de Manhattan era diferente do Texas, mais denso, misturado com cheiro de asfalto, comida de rua e o perfume vago de alguém que passou com um café na mão.
Ela apertou a bolsa contra o corpo e começou a andar.
A lista na cabeça era simples: leite, ovos, pão, frutas, legumes, algum tipo de proteína para a semana. E, se sobrasse dinheiro, talvez um chocolate para celebrar sua primeira semana em Nova York.
O mercado ficava a três quarteirões do prédio. Lara tinha visto no caminho no dia anterior. Mas, no meio do trajeto, algo chamou sua atenção.
Uma VITRINE deslumbrante, com manequins vestindo roupas que pareciam ter saído das passarelas de Paris. Vestidos fluidos, blusas de seda, calças de alfaiataria, casacos estruturados. Tudo em cores neutras e elegantes.
Lara parou.
Olhou para a vitrine. Depois para sua própria roupa calça jeans desgastada, blusa azul simples que ela tinha comprado em liquidação no Walmart, tênis surrados que já tinham visto dias melhores.
- Você está em Manhattan, Lara - murmurou para si mesma. - Talvez seja hora de se vestir melhor.
A loja se chamava "Banks & Co." A fachada era de vidro, o interior iluminado com luzes suaves, as roupas penduradas em cabides de madeira. Lara olhou para a porta, hesitou, e depois empurrou.
Uma campainha tilintou.
O interior era ainda mais bonito do que a vitrine. Piso de madeira, espelhos emoldurados a ouro, um balcão de atendimento com flores frescas. O cheiro era de lavanda e algo floral que Lara não conseguiu identificar.
- Bem-vinda! - Uma voz animada veio de trás do balcão.
Uma garota apareceu. Ela tinha cabelos loiros presos num rabo de cavalo alto, olhos azuis brilhantes, sardas espalhadas pelo nariz, e um sorriso tão largo que parecia ocupar metade do rosto. Vestia uma calça de alfaiataria bege e uma blusa de seda creme. Não tinha mais de vinte e poucos anos.
- Oi! - Lara sorriu de volta. - Eu... eu só tô olhando.
- Olhe à vontade! - A garota saiu de trás do balcão. - Sou a Maya. Se precisar de ajuda, é só chamar. Qualquer tamanho, qualquer peça, qualquer dúvida.
- Obrigada. - Lara começou a andar entre os cabides.
As roupas eram lindas. Mas os preços...
Ela pegou uma etiqueta de uma blusa azul-marinho e quase engasgou.
$240,00
- Ai, meu Deus - sussurrou.
- Muito caro, né? - A voz de Maya surgiu ao lado. - Não se preocupa. Temos uma seção de liquidação atrás. As peças são de coleções passadas, mas ainda estão impecáveis.
Lara sentiu o rosto esquentar.
- Eu... eu não tô com orçamento limitado - mentiu. - Só tô...
- Relaxa - Maya riu, e o som era contagiante. - Eu trabalho aqui. Sei que a maioria das pessoas não tem $240 por uma blusa. Vem comigo.
Antes que Lara pudesse protestar, Maya a puxou para o fundo da loja. Lá, em cabides separados, havia roupas lindas com etiquetas de preço reduzido.
- Olha só. - Maya pegou uma calça de alfaiataria preta. - Essa era $350, agora tá $120. E essa blusa - ela pegou uma camisa de seda cor de rosa -, era $280, tá $90. Combinando, fica $210 o look inteiro.
Lara olhou para as peças. Eram lindas. Muito mais elegantes do que qualquer coisa que ela tinha no armário.
- Você acha que fica bem em mim? - perguntou, insegura.
- Com certeza! - Maya olhou para Lara de cima a baixo. - Você tem um corpo maravilhoso, sabia? Ele é bem vantajado... esse tipo de roupa vai valorizar suas curvas. Só precisa do tamanho certo.
Lara sentiu o rosto aquecer, mas dessa vez com um sorriso.
- Obrigada.
- Qual é o seu nome, aliás?
- Lara. Lara Mendes de Texas.
- Prazer, Lara. - Maya estendeu a mão. - Maya Lopes de Nova York. Agora vamos provar as roupas.
Lara pegou as peças que Maya sugeriu e foi até o provador.
O provador era espaçoso, com um espelho de corpo inteiro e uma cortina de veludo. Lara tirou a blusa e a calça jeans e vestiu a calça de alfaiataria preta.
Ela olhou no espelho.
A calça assentava perfeitamente em seus quadris, realçando suas curvas. A cintura alta alongava a silhueta, e o caimento era impecável.
- Uau - sussurrou.
Vestiu a blusa de seda cor de rosa. A cor combinava com seu tom de pele, e o tecido leve caía suavemente sobre seu corpo.
Lara se virou de um lado para o outro, admirando o reflexo.
Ela parecia... elegante. Sofisticada. Uma mulher de Manhattan.
- E aí? - a voz de Maya veio de fora. - Deixa eu ver!
Lara abriu a cortina e saiu.
Maya soltou um assobio baixo.
- Você tá INCRÍVEL. - Ela deu um passo ao redor de Lara, examinando cada detalhe. - O caimento ficou perfeito. A cor combinou com você. - Ela bateu palmas. - Levou!
Lara riu.
- Eu tô gostando muito, mas... $210 ainda é bastante.
- Escuta, eu posso te dar um desconto de funcionária. - Maya piscou. - $180 pelo conjunto. É o máximo que posso fazer.
Lara fez as contas rápidas na cabeça. Era caro, mas... ela estava em Manhattan. Queria começar uma nova vida. Talvez precisasse de roupas novas.
- Tá bom - disse, sorrindo. - Vou levar.
- Boa! - Maya aplaudiu. - E já que você gostou, quer ver mais uma peça? Tenho uma coisa que combina perfeitamente com esse look.
Maya foi até o fundo da loja e voltou com um casaco curto, de corte estruturado, na cor creme.
- Isso aqui é um clássico. Combina com tudo. E tá em promoção também.
Lara provou o casaco. Ficou perfeito sobre o conjunto.
- Quanto?
- Originalmente $400, tô vendendo a $150.
Lara hesitou. Sua mãe ia ter um ataque se soubesse que ela gastou $330 em roupas.
- Vai, vai - Maya incentivou. - Você merece. É um presente pra si mesma.
Lara riu.
- Tá bom. Levo o casaco também.
- Aí sim!
Maya correu para o balcão e começou a embalar as roupas em sacolas de papel creme, com o logo "Banks & Co." em dourado.
- Então, Lara - Maya disse, enquanto passava o cartão de Lara na máquina -, o que trouxe você a Manhattan?
- Meu avô. - Lara assinou o comprovante. - Ele faleceu há seis meses e me deixou o apartamento dele. Resolvi mudar de vida.
- Sinto muito pelo seu avô. - Maya colocou a mão no ombro de Lara. - Mas que coragem, hein? Deixar tudo pra trás e vir pra cá sozinha.
- É... foi difícil. Mas meu avô sempre disse que eu tinha talento como designer gráfica. Que Nova York era o lugar certo.
- Designer gráfica? Que legal! - Maya se animou. - Eu tô fazendo faculdade de administração, mas sempre admirei quem trabalha com criatividade. - Ela inclinou a cabeça. - Você trabalha em casa?
- Por enquanto. Tô montando meu portfólio. Quero pegar freelas.
- Olha, se precisar de indicação, eu conheço um monte de gente. - Maya pegou um cartão de visitas e escreveu algo atrás. - Meu número. Me chama quando quiser tomar um café.
Lara pegou o cartão, surpresa.
- Nossa, obrigada. - Ela guardou o cartão na bolsa. - Você é muito gentil.
- Gentil nada. - Maya riu. - Só tô feliz de conhecer alguém que não é um daqueles clientes estressados. Você é legal. - Ela piscou. - E a gente se identifica. Moças humildes tentando sobreviver em Manhattan. - Ela baixou a voz. - Minha família é rica, mas eu tô aqui trabalhando igual todo mundo. Não quero viver às custas dos meus pais.
Lara sentiu uma conexão imediata.
- Eu entendo. Meus pais são classe média. Nunca tivemos muito, mas nunca faltou nada. Meu avô que construiu essa vida em Nova York sozinho. - Ela sorriu. - Quero honrar isso.
- A gente vai dar certo, Lara. - Maya deu um tapinha no ombro dela. - Pode apostar.
As duas trocaram mais alguns minutos de conversa Maya contou que trabalhava na loja há dois anos, que morava num apartamento em Brooklyn, que adorava moda mas odiava clientes esnobes.
Lara riu tanto que quase esqueceu a hora.
- Preciso ir - disse, finalmente. - Ainda tenho que fazer compras no mercado.
- Vai, vai. - Maya acenou. - Mas me liga, hein? A gente toma um café.
- Pode deixar. - Lara pegou as sacolas e saiu da loja.
A campainha tilintou atrás dela.
Lara andou pela calçada com um sorriso no rosto. Conhecer Maya tinha sido uma sorte. Uma amiga em Manhattan. Alguém com quem ela podia desabafar, rir, compartilhar a vida.
Ela olhou para as sacolas da Banks & Co.
- Primeiro dia, primeiras roupas novas, primeira amiga. - Ela riu sozinha.
Lara chegou ao mercado e fez as compras. Leite, ovos, pão, frutas, legumes, frango, macarrão. Coisas básicas para sobreviver a semana.
Enquanto escolhia os tomates, lembrou do vizinho. O homem alto, de olhos negros, que a ignorou no elevador.
- Que pessoa mal-educada - murmurou.
Mas, ao mesmo tempo, sentiu um alívio. Melhor ser ignorada do que ouvir uma reclamação. Ela ainda estava se adaptando, ainda tentando descobrir os limites de viver em um apartamento .
Pagou as compras e voltou para casa.
Chegou ao prédio, subiu no elevador, e chegou ao décimo quarto andar. O corredor estava vazio. A porta do 1401 a do vizinho fechada.
Lara enfiou a chave na porta e entrou em seu apartamento.
Largou as compras na cozinha, guardou os mantimentos, e depois colocou as roupas novas no armário. O conjunto preto e rosa ficou pendurado ao lado de suas outras roupas e parecia destoar completamente. As peças eram tão elegantes que faziam as outras parecerem velhas e desgastadas.
- Preciso comprar mais roupas novas - murmurou.
Sentou no sofá e pegou o celular. Encontrou o número que Maya tinha escrito no cartão e salvou como "Maya Banks & Co.".
Depois, abriu o WhatsApp e enviou uma mensagem:
"Oi, Maya! Sou a Lara. Acabei de chegar em casa. Obrigada pela ajuda hoje! Adorei as roupas."
A resposta veio em segundos:
"Lara! Que bom que você chegou bem. As roupas ficaram perfeitas em você, tô até com inveja. Bora tomar café amanhã? Conheço um lugar perto da sua loja que tem um cappuccino maravilhoso!"
Lara sorriu.
"Amanhã? Pode ser sim! Que horas?"
"14h? Tô de folga amanhã."
"Fechado! Me manda o endereço."
"Mando sim. Até amanhã! 💕"
Lara guardou o celular e deitou no sofá, olhando para o teto.
Sua primeira semana em Nova York estava apenas começando, e ela já tinha feito uma amiga. Parecia que as coisas estavam se encaixando.
Só faltava resolver o problema do vizinho.
- Mas amanhã eu penso nisso - murmurou, fechando os olhos.
Do outro lado da parede, ouviu-se uma música. Piano. Melodia suave, clássica.
Lara franziu a testa.
- Ele toca piano? - sussurrou.
A música continuou, bonita e complexa.
Lara ouviu por alguns minutos, encantada, apesar de si mesma.
- Pelo menos ele tem bom gosto musical - murmurou.
E apesar de tudo, o som do piano a fez sentir-se um pouco menos sozinha.