Uma nova e densa nuvem de fumaça tomou conta do lugar. Os barulhos altos, as vozes estridentes em berro, as chamas das grandes frigideiras de ferro, que eram agilmente mexidas, cintilava no ar... Tudo se misturava com os vários aromas, criando aquela atmosfera de glamour, mas também de sufocamento. Aquele lugar sempre a assustava, mesmo que já estivesse trabalhando ali já a algum tempo.
- Pedido saindo!
A garota de cabelos negro-azulados piscara uma ou duas vezes, perdida no meio das chamas altas, quando o grito chamou sua atenção. Ouvia os comandos no meio do caos à medida que aqueles pratos saiam. Seria algo bonito de se apreciar, mentiria se disse que não via um brilho especial enquanto a cozinha industrial funcionava, se perdendo naquilo. Poderia talvez facilmente ser ver ali entre os cozinheiros, e até tentou uma ou outra vez, mas para o seu azar, ou tamanho pequeno, resultou em algumas queimaduras. Agarrou mais forte o esfregão, que era o seu companheiro constante naquele lugar e auxiliar na sua função. O avental branco que a cobria, parecia ter dois ou três números a mais do que deveria. Um pouco desengonçada, tentava fazer o melhor que conseguia no meio do caos. Não era o trabalho de sua vida, muito menos algo para se apegar, mas era tudo que restava para sobreviver, visto o trabalho que sua mãe desempenhava naquele lugar.
As ordens de Anya, sua mãe, haviam se fixado como um manual na pequena mente: nunca fale nada, jamais responda, nunca pergunte e apenas faça o seu trabalho, não olhe nos olhos de ninguém e o principal, em hipótese alguma, ouse ser alguém, ainda mais aqui.
Triste, não?
Infelizmente aquele espaço era tudo que ela conhecia. Seu pequeno mundo se resumia àquilo e aos livros que conseguia vez ou outra colocar as mãos, e se tinha algo que ela sempre tivera absoluta certeza era isso: ela não era nada, e nunca seria nada. Mas se pudesse um dia apenas vislumbrar a luz do sol, talvez o tocar, teria ela a mesma sina de Ícaro?
Todo o seu mundo se resumia aquele espaço e as vielas e ruas de seu entorno. Seu mundo era tão... pequeno.
A pele branca demais denunciava o excesso de tempo que passava restrita aquelas paredes de contensão. Ali não era apenas o lugar que trabalhava, mas que vivia. Nasceu ali, e rogava a Deus para não morrer ali. Não que nunca tivesse saído, ela o fazia, mas havia sempre um limite, havia sempre o grilhão de retorno, uma espécie de coleira. Era um animalzinho, e como tal, se fugisse, seu dono ficaria muito, muito zangado.
Poderia ser pior, certo? Talvez fosse os momentos em que ela pensava na regra principal e indiscutível: nunca, jamais, deveria entrar na segunda parte daquele lugar. Ela não sabia o que era, muito menos o que tinha depois dali. O que vinha depois das grandes e pesadas portas aço era uma completa incógnita, mas se era uma regra de sua mãe, ela respeitaria, afinal, ela era única pessoa da qual confiava, seu único porto seguro, seu mundo e suas certezas. Ela lidava bem com tal regra, embora quando menina pequena ainda tentou espiar, mas não tinha forças para abrir as tais portas, porem aos poucos fora perdendo a coragem de tentar, mesmo que a curiosidade ainda vivesse em si.
Anya sempre cuidou dela, mas já faziam exatos seis meses que sua mãe havia desaparecido dali. Ela fora levada em uma viagem ao lado de um cara e nunca mais voltou. Seis meses que ela chorava sozinha, seis meses que ela suportava, que orava, que rogava, que mantinha a fé. Seis meses dentro do inferno e sozinha. Era preferível acreditar que ela apenas estava fazendo algum trabalho, certo? A regra especial que ela criara para si: nunca pergunte o que tem medo de saber. O que houvesse do outro lado daquela porta não deveria ser tão bom, afinal, sua mãe trabalhava do outro lado, e ela se foi... Como outras.
Os palavrões proferidos pelo homem gordo, alto e fedorento a despertaram. Boris era o que ela chamava de porco pervertido, um homem nojento em todos os sentidos, agarrava sempre as garotas que trabalhava ali, cheio de toques indecentes, palavras sujas ou outras coisas que ela preferia não se atentar. Tinha certeza que se um dia aquele porco nojento tentasse algo, certamente enfiaria uma daquelas tantas facas que haviam ali na cozinha, nele, sem pensar duas vezes.
A garota de cabelos negros, passou então a dar atenção ao que ele falava e gritava em inglês com alguém ao telefone, ela não entendia bem o tal idioma, mas o suficiente para compreender algumas frases soltas, diferente do que podia parecer, ela era bem mais esperta do que parecia, aprendia com bastante facilidade, lia muito e tinha orgulho, mesmo que ainda escondido. Certamente aquelas pessoas nem imaginavam que a mãe a alfabetizara, e que fora bem além disso. Quando tinha tempo e conseguia se desvencilhar daquilo, se trancava em algum corredor de uma livraria lendo escondida até ser expulsa de lá.
Naquele diálogo, ela percebeu que Boris tinha problemas, e grandes. A menina estava tão concentrada o olhando enquanto ouvia a conversa que nem se deu conta do sorriso perverso que se formava no rosto deste, e quando finalmente o viu, era tarde. Tão frio e maquiavélico... Agarrou seu braço esquerdo com força, a puxando em meio ao turbilhão da cozinha quente, entre tachos imensos e labaredas. De uma estante pegou um par de roupas e jogou contra o peito dela que franziu o cenho confusa.
- A casa está cheia hoje querida, vai servir! – disse ao tirar o cigarro dos lábios e soprar a fumaça na cara dela rindo. – Sua grande chance de brilhar.
A garota de cabelos negros noturnos, no entanto, estendeu a roupa a observando melhor e pela primeira vez na vida quebrou a regra, - bom ao menos na frente de alguém –
- Eu não vou vestir isso! Não tampa nada! – Os olhos arregalados, as bochechas coradas e um ar de certo modo irritadiço e contrariado. Ela tinha uma personalidade bastante calma, tímida..., mas aquilo?
Ela estremeceu diante da possibilidade de usar aquelas vestes, mas mesmo diante de sua pacificidade, seu ato de teimosia fora enxergado como revolta e rebeldia e ela se chocou quando a face ardeu de um tapa certeiro ali.
- Cobre o bastante, garota! Não que você tenha muito que possa interessar alguém – ele riu zombando-a embora os olhos tenham se direcionado aos seios juvenis e um tanto volumosos – vamos! Se troque! Não tenho a droga do dia todo!
Ela olhou em volta procurando algum lugar a fim de entrar para fazê-lo.
- Onde... Eu vou me trocar? – hesitou enquanto sentia a face arder, tendo certeza que deveria estar parecendo um pimentão maduro.
- Use a imaginação, garota idiota!
(... ♠ ...)
O carro SUV de vidros escuros, total blackout estava estacionado frente a um comércio do centro. Uma loja de venda de peças eletrônicas comuns, nada demais. O vidro do carro baixou-se revelando um homem na casa de seus trinta anos, embora parecesse um tanto mais jovem. Cabelos loiros um pouco rebeldes, embora ligeiramente curtos. Os olhos azuis dele lentamente fitaram a fachada daquele lugar, demonstrando imenso desprezo e hostilidade. Frio, indecifrável... Os lábios não passavam de uma linha reta inexpressiva. Encarava aquele lugar de forma analítica
- É aqui, senhor Urasov – Disse um homem de cabelos castanhos selvagens e tatoo de clã no rosto. Por vezes até soava burro, no entanto, era excelente na função que exercia, da qual, aos olhos comuns, não passava de um reles motorista.
A porta fora destravada, o homem loiro descera do carro acompanhado do homem de cabelos castanhos, bem como de outro que tinha cabelos chocolates e compridos preso em um rabo de cavalo baixo. Do segundo carro que o acompanhava naquela manhã, desceram mais alguns homens do tipo... Bem, intimidadores. Todos em seus ternos escuros e alinhados. Era uma comitiva de segurança de alguém bem importante. A mão foi até o bolso interno do paletó e retirou um cigarro do maço o levando os lábios. Com calma e mantendo a caminhada, ele acionou o seu isqueiro que carregava uma insígnia gravada no metal, herança de família. Parou a poucos passos da entrada e tragou longamente aquilo expelindo a fumaça enquanto voltava a guardar seu isqueiro. Os olhos safira analisou tranquilamente todo o trajeto que tomaria enquanto seu segurança tomou frente abrindo-lhe as portas. A caminhada fora praticamente em linha reta. Dentro do lugar, algumas mulheres faziam atendimento aos clientes, bem como haviam várias pessoas ali, mas sinceramente? Ninguém dali o importava. Os olhos encaravam diretamente os fundos do lugar. Atravessou os corredores sem dar qualquer importância até parar diante de uma grande porta de estoque. O seu segurança de cabelos longos chocolate tomou frente abrindo a mesma e entrou junto de outros dois a fim de certificar-se da segurança do Urasov. O loiro, logo atravessou a porta entrando. Não que ele fosse covarde, longe disso. Mas havia hierarquia e comando. E ele tinha muitos inimigos...
Assim que a porta fora fechada atrás de si, ele olhou ao redor e logo seus olhos frios encararam um dos do homem a sua frente e que carregava consigo um sorriso nervoso.
- Está atrasado, Sergei – a voz do Urasov foi firme e cortante, ao tirar o cigarro dos lábios, libertando a fumaça tóxica branca.
Nervoso, Sergei buscou justificar-se. Era bem intimidador todos aqueles caras ali e bem armados.
- E-eu tenho uma boa razão, eu juro –temoroso, ergueu as mãos em rendição e moveu-se bruscamente. Instintivamente, todos os homens de preto sacaram as armas apontando para homem de cabelos castanhos desordenado e curtos. Claro que também havia os homens de Sergei ali, e logicamente que em defesa do seu próprio chefe, as armas também foram erguidas.
Uma guerra fria existia ali, e embora Sergei ficasse um tanto nervoso com tal situação, o jovem Urasov parecia impassível, colocando a mão no bolso da calça e olhando com um pouco de tédio a situação como todo. Bastou apenas um mísero gesto dele com a cabeça para que Sergei entendesse e continuasse, muito embora as armas ainda estavam apontadas.
- N-não confia em mim, meu chapa? Qual é, Nikolai. Achei que a essa altura já pudéssemos nos chamar de amigos. – Havia aquela tensão pesada e um sorriso amarelado nervoso nos lábios dele.
- Não – Saiu como um sopro mortal, enquanto um meio sorriso formou-se no canto dos lábios dele. – Não existem amigos, nesse mundo – Deu um pequeno passo à frente, fazendo Sergei, mesmo com cobertura de seus homens, dar um para trás – Acho realmente bom que me agrade dessa vez, ou vão te apelidar de peneira, se é que me entende... amigo – o sorriso era tão gélido e assustador. Cruel para dizer o mínimo. O cigarro retornou aos lábios novamente.
Sergei gargalho nervoso e com um estalar de dedos, grandes bolsas pretas foram tragas e colocadas diante de Nikolai. Todas posicionadas sobre os pallets de mercadorias que havia no estoque daquele lugar que era o ponto de encontro.
- Ivan – a simples menção de seu nome, fizera o segurança de tatoo no rosto adiantar-se a uma das bolsas a abrindo. Dentro dessa era possível ver uma grande quantidade de malotes muito bem embrulhados.
Ele levou a mão até o mesmo, e essa estava perceptivelmente enluvada, pegou um das tabletes que havia ali e o retirou colocando sobre a pilha de mercadorias embrulhadas que havia naquele pallet. Tirou da cintura um brilhante karambit o girando habilmente entre os dedos, perfurando logo em seguida o pacote, revelando assim o pó fino e branco. Ele estendeu assim a faca de caça para Nikolai, que segurou a mesma tocando a ponta da língua no resquício de pó que havia ali e imediatamente o loiro negou.
- Não foi esse o nosso combinado, ou foi? – disse calmamente – espero que tenha mais... – Olhos azuis contabilizaram rapidamente aquelas bolsas ali dispostas, mentalmente tudo se calculou, então prosseguiu - metade do que eu pedi de cocaína, já começamos mal...
- Entenda, sei o que me pediu, mas é difícil conseguir META assim tão fácil, ainda mais nas quantidades que pediu e... – Sergei busca justificar a falha antecipadamente. No entanto, estampidos secos ecoaram, e graças aos silenciadores que haviam nas pistolas, os homens de Sergei agora estavam caídos sangrando, abatidos no chão em poças de seus próprios sangues. Desespero, era apenas isso que havia ali, e justamente por isso ele gritou – É COCAÍNA PURA! – as mãos ergueram-se em desespero e rendição ganhando um gesto do loiro que era de calma para seus homens. Com uma respiração aliviada, Sergei entendeu que Nikolai o ouviria, por tanto prosseguiu – é a melhor cocaína. É colombiana. Direto da fonte. Por isso foi difícil de entrar essa merda. É lucro certo e triplicado. Você sabe – riu nervoso enquanto sentia-se suar cada vez mais enquanto era analisado por aquele par de olhos azuis.
Nikolai erguera sutilmente o queixo enquanto analisava aquilo. Ele pediu meta, teve cocaína colombiana... Com um gesto de sua cabeça, um dos seus homens saiu dali pela mesma porta que haviam entrado para voltar minutos depois com uma das garotas que trabalhavam naquele lugar. O Urasov jogou a bituca do cigarro no chão, a amassando. Virou-se um pouco e caminhou até as pilhas da tal droga, enquanto seguia com toda a tranquilidade do mundo, os lábios unidos dele sopravam em um assovia sinistramente alguma canção que fazia Sergei apavorar-se cada instante mais. Tirando de seu próprio bolso, o loiro enfincou um punhal em um dos tabletes, com a outra mão ele pegou o seu lenço e depositou ali uma pequena quantidade da droga, era relativamente mínima, seu olhar ergueu-se encontrando o de Ivan que, segurou o braço da garota a puxando em direção ao loiro, mostrava-se assustada e arredia. Não entendia absolutamente nada que acontecia ali. Assim que ela fora traga perto o bastante, Nikolai segurou os cabelos da garota e com a outra mão impulsionou o lenço contra o nariz dela ao mesmo tempo que tampava a boca, a forçando a aspirar do pó puro.
As pupilas dilatas, a respiração rápida, o primeiro espasmo no corpo... Eram pequenas denúncias da eficácia da droga que corria pelo sistema nervoso dela, agindo dentro do organismo. O riso frenético explodido em euforia e o corpo que perdera a tensão do nervosismo. Todos a olhavam, bem como acompanharam o movimento vindo de Nikolai, que, pegando a pequena faca novamente, a alojou no vão dos seios dela e puxou para baixo cortando as peças superiores que essa vestia a expondo. A mão empurrou-a de volta em direção a Ivan.
- Um prêmiozinho de consolação por hoje, Ivan, divirta-se – concluiu ali e virou novamente para Sergei – agora... Quanto de metanfetamina você trouxe exatamente? – pediu enquanto dois dos seus homens pegavam as bolsas fechando-as e as levando para os carros.
Ligações entrecortadas, respostas indiretas e insuficientes, uma conta que certamente não fechava... Sentado frente à mesa de um dos seus escritórios, Ele tinha algumas pilhas de papéis que analisava minunciosamente. Aquele lugar, em especial, ficava em uma zona industrial afastada. Era um imenso galpão de produção de bolsas, malas... De certo modo era apenas mais uma das lavagens de dinheiro que fazia.
O escritório era visto como uma jaula, uma caixa de contenção que tinha a frente toda em uma parede de vidro, o que aterrorizava as trabalhadoras daquela parte que ficava literalmente frente ao espaço. A zona de costura. Porque era dali que vinha os olhos da chefia e isso bastava para impor medo. Naquele momento, a dita parede estava coberta completamente pela cortina negra que impedia qualquer visão tanto de dentro, quanto de fora, e o loiro estava com o olhar concentrado sobre uma ata manual contábil. Não era como se aquilo pudesse entrar no sistema. Diferente do que se esperava, aquela ata não pertencia aquela fábrica, mas a um dos comércios que carregava "donos fachadas", mas claramente o pertencia. Veja bem, Nikolai era um homem de negócios, e parte deles foram herdados de família. Ele cresceu naquele meio, ele aprendeu a lidar com aquilo, e mais que isso, ele era uma figura pública conhecida, tinha um nome e sobrenome a zelar sobre toda aquela sujeira que construía todo o império por trás. Dinheiro ilícito, tráfico de drogas, armas, influência... Isso era uma mera ponta do iceberg. Na fachada, ele possuía domínio sobre um conglomerado de empresas honestas que não apenas geravam renda e emprego, geravam impostos legais... Um homem limpo e íntegro que ajudava a sociedade economicamente, mas que por baixo dos panos era a degradação dela.
Como ele citava-se: um bom homem de negócios.
Finalizando aquela leitura, ele estava intrigado demais com tudo que divergia. Poderia ser relativamente jovem, mas não era estupido, afinal, era uma raposa nos negócios. Um prodígio moldado por seu pai da qual ele, rebelando-se, o matou.
Não levava para vida, afinal, negócios eram apenas negócios, nada pessoal.
Levantando-se da poltrona, coçou os olhos cansados, caminhando até o minibar, serviu assim, em seu copo, um cubo de gelo e uma dose de whisky. Girou o lentamente misturando o líquido a água congelada despertando assim o líquido âmbar. Levou ao nariz apreciando o aroma levemente baunilhado que esse exalava. Gostava de tal cheiro. Virou o copo lentamente nos lábios, apreciando o sabor que escorria pela garganta enquanto caminhava em direção a parede de vidro. Moveu parte da cortina, podendo assim contemplar por alguns instantes a sua frente as mulheres que estavam frente aquele maquinário industrial de corte, costura e bordados. O vidro reflexivo, naquele momento, permitia que ele, de dentro, observasse o lado de fora tranquilamente, mas não deixava o mesmo acontecer no inverso, dada a baixa luz do interior do escritório. O porte ereto, firme e arrogante, soava bastante intimidador, mas, ao mesmo tempo, instigante e chamativo. Afinal, era um homem com mais de um metro de oitenta, loiro, olhos azuis safiras, usando um belo e caro terno completo. A definição de sexy cabia muito bem.
Entediado, ele levou a mão ao bolso enquanto a outra ainda alimentava o copo nos lábios, ao passo que os olhos perdiam-se naquele mar de máquinas e pessoas. A verdade era que a mente estava fervilhando com os dados analisados ao ponto de doer, estava inquieto, e justamente nessa inquietude ele formulava suas verdades. De fato, sempre teve confiança em Kazuki. Esse lhe dedicara lealdade por anos, inclusive quando o Urasov derrubou o pai, esse já o servia com muita fidelidade, mas Nikolai sabia bem que naquele mundo obscuro, as coisas mudavam rapidamente, fidelidades eram compradas, amizades eram subornadas, e lealdade era sempre movida para o lado ganhador. Ninguém queria estar do lado fodido da vala, afinal. A verdade é que ele não queria desconfiar, mas sua aguçada percepção o levava somente a um resultado: traidor. E traidores tinham um destino certo.
Estava tão concentrado tecendo aquela teia de ideia que só despertou com a entrada de um de seus homens: Yuri. Esse costumeiramente fazia serviços por vezes burocráticos, bem como sujos demais. O homem de cabelos castanhos longos tinha mais do que o respeito do loiro, tinha confiança. Por isso costumava entregar parte dos seus relatórios logísticos, mas naquele momento não eram números que Nikolai queria - que a proposito foram tragos a ele justamente por Yuri - Ele queria aliviar, e justamente por isso, ainda focado na fábrica abaixo de si, ele perguntou:
- Quem é aquela garota ali? - o dedo ergueu-se quase tocando o vidro temperado de quinze milímetros. Ele observava a garota de cabelos ruivos claros que lhe chamou bastante atenção em meio as outras mulheres e garotas que trabalhavam ali. Não se lembrava dela da última vez que piSofia naquela fábrica, e ele costumava ser bom com fisionomias. - Quando ela começou a trabalhar aqui?
Yuri aproximou-se do vidro vendo de cara a quem Nikolai se referia, e com isso esboçou um pequeno sorriso malicioso.
- Aquela é Sofia, é filha de Vera, na verdade, ela começou hoje - Cruzou os braços frente ao peito enquanto fitava o olhar de Nikolai para a garota a medida que bebia, conhecia bem aquele olhar e seu significado. - Precisa relaxar? - Indagou como se já soubesse da resposta e buscasse apenas a ordem. O Urasov permaneceu fintando-a através do vidro em completo silêncio como se a avaliasse dos pés à cabeça, até que se virou para Yuri e falou:
- Traga ela aqui - Caminhou ao minibar reenchendo o copo novamente, e então antes de Yuri cumprir a ordem, ele acrescentou - Ligue para Kazuki e avise, vamos jantar lá essa noite. Farei uma visita em um dos meus negócios, afinal, o olho do dono que faz a diferença, não é? - Yuri sentiu um leve arrepio ao constatar o sorriso diabolicamente demoníaco que se formou nos lábios do chefe. O julgamento já havia sido feito, e essa era a verdade.
Nikolai era a lei, o acusador e o juiz. Ele era acima de tudo o executor.
- Certo - assentiu retirando-se.
Nikolai, quando sozinho, levou a mão livre aos botões do paletó, os abrindo lentamente o tirando. Repousou o copo sobre a mesa, tirando completamente a peça colocando sobre a poltrona. Desabotoou os punhos da camisa azul-marinho que usava e puxou até um quarto dos braços revelando partes de uma tatuagem que tinha, e logo em seguida, a porta foi aberta por Yuri que trazia consigo a tal garota que parecia assustada, afinal, era o seu primeiro dia e já estava encrencada no escritório do chefe? Os olhos azuis recaíram sobre ela, sobre o corpo dela, enquanto a face dele mantinha-se inexpressiva. Um aceno de Nikolai bastou, para que Yuri soltasse a garota e saísse fechando a porta. O som do baque fizera ela estremecer da cabeça aos pés vendo aquele olhar azul, que embora claro como o verão, era gélido como o inverno. E esses olhos a causavam medo a olhando daquela forma. Os passos dele, aproximando-se lentamente como um predador, a fizeram entrar em um tipo de pânico da qual a travou. Sentia-o próximo de si, nas suas costas, os dedos que percorriam e enroscaram nos fios do seu cabelo e os lábios que aproximaram do seu ouvido com um sussurro que a causaria pesadelos no futuro:
- Boo...
(... ♠...)
Quanto tempo havia se passado ao certo? Não saberia precisar, mas quando a porta do escritório se abriu, Yuri levantou-se com um impulso do sofá em que estava sentado na recepção do lugar, vendo Nikolai sair com o paletó em mãos. A camisa estava aberta, deixando à mostra a pele clara em um tom levemente bronzeado, bem como o abdômen muito bem definido dos constantes exercícios por ele praticado desde os dez anos. Nikolai possuía um porte atlético completo. Ombros largos, braços fortes e definidos, maxilar marcado. Próximo ao peito do lado esquerdo era possível ver traços de uma tatuagem que parecia percorrer quase todo o braço. O segurança observou em silêncio o loiro terminar de fechar a camisa e vestir o paletó. O tom de voz soou frio e cortante em um comando que deveria ser obedecido de imediato:
- De um jeito nela e mande arrumar e limpar esse lugar. Estarei em casa.
(... ♠...)
Aquele jantar não era um prazer, longe disso, era um encontro de negócios e pelo clima pesado que ele causava sempre que visitava algum lugar, não estranharia a tensão. Optou por entrar pelos fundos. Como sempre, prezava por passar invisível como um fantasma. Fora recebido pessoalmente por Kakazu e começaram aquele "tour" por onde interessava e o lado lucrativo do lugar: o prostíbulo. Não pelas razões sexuais, longe disso, mas pelo negócio que havia por trás do sexo, o tráfico e tudo diretamente relacionado a esse. Enquanto caminhava ao lado do homem de longos cabelos negros, Nikolai ouvia-o falar e falar, rindo e se divertido ao citar sempre dinheiro, mas o jovem Urasov deixava o olhar concentrado em pequenas coisas que chamavam sua atenção. Era notório que havia peças faltando, algo não estava no lugar e se havia alguém que entendia bem de fachadas, esse era Nikolai Urasov. Virou o rosto sutilmente em direção a Ivan e sussurrou quase inaudível a um dos seus melhores rastreadores:
- Reviste esse lugar todo e ache os erros, quero os livros verdadeiros - Voltou a conversar com Kazuki o interrompendo ao fazer uma pergunta completamente fora do que parecia os negócios - Onde está Anya? - Lembrava-se da mulher que tinha lindos e exóticos olhos lavanda, e um sorriso sempre bonito. Gostava de vê-la dançar e ocasionalmente... Bem, fodê-la.
Anya era uma mulher peculiar e de humor interessante, mesmo vivendo no meio daquela merda de lugar. Talvez falasse demais, mas compensava, mesmo que fosse alguns poucos anos mais velha que ele. No entanto, fora surpreendido pela resposta que recebera.
- Infelizmente... Morta - seco, Kazuki acendeu um cigarro o tragando - Ela, e o maldito traidor do Antony Scott. Era um limpa arquivo, infelizmente ela estava junto. Dia errado, hora errada, lugar errado para ela.
- Humm... Pena, gostava do traseiro dela - respondeu sem dar grande importância ao caso, mas guardando tal informação. Saíram da zona das putas e daquele antro, o segurança abriu a porta que dava acesso a um corredor longo, tão logo o cheiro de comida se fez sentir.
A sua frente, Yuri abriu a porta dupla da qual dava acesso ao restaurante contemporâneo. Os olhos azuis deslizaram por todo o espaço rapidamente e esboçou um sorriso miúdo.
- Esse lugar continua uma espelunca, não muda nunca. - comentou com um fio de nostalgia.
- Ora, vamos, eu cuido bem daqui. Tem ótima comida, um bom ambiente e o povo gosta - afirmou Kazuki com um sorriso malicioso - Já fazem o que, dois?
- Quatro anos - completou Nikolai enquanto caminhava ao lado daquele que deveria ser um dos seus fiéis administradores. Observou a luz baixa dali, e a luz atrativa que forçava a olhar para o bar - E olha... Não mudou nadinha essa porcaria.
- Decoração é algo frívolo. - Começou Kazuki a falar. No entanto, subitamente o olhar de Nikolai fora capturado na direção oposta, onde um rabo-de-cavalo longo negro-azulado chamou sua atenção.
Seus olhos fitaram a garota que tinha uma pele pálida, tão branca quanto uma bela tigela de leite cheia, e por míseras frações de segundos ele contemplou-a inteiramente, quando essa virou-se para tirar o pedido de uma das mesas que atendia. Como se os olhos azuis pudessem subitamente atraí-la, ou como se ela sentisse o olhar sobre si ou um alarme de perigo, os azuis de nuances lilás fixaram-se nele. Míseros segundos o bastante para ele achá-la miúda demais, jovem demais, praticamente uma menina, que, no entanto, trajava roupas de mulher naquele ousado uniforme, que, sob qualquer outro olhar, talvez não chamasse tanta atenção por parecer desengonçada. Ela não possuía todo o volume certamente necessário para preencher todo aquele vestido que usava, ainda assim... Tornou-se interessante aos olhos azuis que eram habilidosamente predatórios.
Como praxe das regras, ela baixou o olhar rapidamente sentindo as bochechas arderem, mas não sem antes ver um tipo de brilho metálico da qual ela identificou como o cabo de uma pistola, que se revelou presa ao coldre na cintura daquele homem. Ela estremeceu, tinha vários homens ali, sabia que, homens armados e juntos nunca era boa coisa. Geralmente ela sempre estava nos fundos do restaurante, fosse de plongeur limpando e lavando pratos, fosse tirando o lixo, era mais fácil esconder-se. Sua mãe sempre a dizia: homens perigosos andavam com a morte lado a lado. Bem, não era aquele tipo de vida que sonhava para si, não desejava ter aqueles grilhões eternamente, porque mesmo no meio do inferno, ela ainda conseguia ter sonhos.
Um cartão de liberdade, sua carta de alforria... Era dona de uma dívida que nascera com ela e agora com sua mãe desaparecida... Talvez morresse sem liquidar tal conta e sem saber que sua mãe era apenas uma de centenas de mulheres vítimas do tráfico humano.
A garota de olhos lavanda então viu aquele grupo de homens se afastar, foram recepcionados em uma área tida como "VIP" sentados como reis do mundo, e talvez realmente fossem. Reis de mundos como o dela. Ela então se afastou sem ver mais.
Assim que se reclinou contra a poltrona estofada, Nikolai viu uma das garotas que serviam ali se aproximar a fim de atender aquela mesa em particular, no entanto, os seus olhos fixaram-se na garota miúda que se voltava pelo salão. Aqueles olhos... Talvez tivesse atração pela peculiaridade, talvez fosse um colecionador que gostasse de coisas mais... Únicas e exclusivas, certamente o seu impulsivo por ter coisas que outras pessoas não tinham sempre o dominasse... Bem, em todo caso, ela conseguira atrair a sua atenção e tudo que ele colocava diante dos olhos, de uma forma ou de outra, o pertencia. Enquanto a garota começava a anotar algumas coisas, a mão de Nikolai levantou-se em um gesto firme que fizera todos calarem-se. O dedo indicador apenas apontou para o meio do salão, onde a garota de cabelos negros azulados e olhos lavanda lutava equilibrando uma bandeja pesada demais e cheias de pratos prontos para serem servidos.
Seu pedido era mais que óbvio. Para Kazuki, era interessante e no mínimo excêntrico, mas gosto era gosto e cada fetiche era exclusivo. Conhecia cada uma de suas garotas, de seus empregados ali, e a primeira coisa que disse foi:
- Vai querer atirar nela, antes da bebida chegar! - riu malicioso, sendo acompanhado de outros dois homens. Sabia bem da impaciência de Nikolai e do quanto detestava serviços mal-executados. No entanto, a presença dela talvez viria a calhar. Talvez servisse, sim, de fato para distrair o Urasov, e ele realmente atirasse nela antes do fim da noite. Uma coisa ele sabia, que no revólver carregado por Nikolai havia uma bala que certamente não voltaria para casa com ele aquela noite.
A garota tinha acabado de servir uma das mesas que estava atendendo quando foi abordada por Tanisha. Essa expressou com certo alívio o desejo daquela mesa lota de homens perigosos: Nina seria a atendente da vez. A garota de olhos azuis-violeta, olhou sobre o ombro em direção ao lugar constatando de qual mesa se tratava e logo negou veemente e desesperada.
- Eu sinto muito, Nina, eles pediram por você - disse a garota de cabelos ruivos nem um pouco preocupada, aliás, aliviada era a palavra - Não irei mais lá. Estão te esperando, e ah... É melhor não cometer erros, para o seu bem. Aqueles tipos de caras...
Os olhos incomuns arregalaram-se em pavor. Sentiu o corpo todo estremecer enquanto engolia em seco. Seu coração acelerou violentamente no peito enquanto sua respiração parecia querer fugir de si.
- Como não cometer erros, Tanisha?! Estou trabalhando a pouco mais de oito horas! - bradou baixo, deixando claro o seu pavor enquanto a garota apenas ria daquele desespero.
- Então boa sorte, e torça para sua gorjeta não ser uma bala. - Afirmou e virou-se, deixando Nina trêmula e desesperada para trás, bem no meio do salão, e quando ela lentamente se virou em direção a tal mesa nada ajudou ao receber aquele olhar azul e intimidador que viu logo na entrada.
Respirando fundo, caminhou em direção a eles. Embora por fora tentasse inutilmente mostrar uma força e segurança que não tinha, por dentro, Nina não passava de uma geleia. Tinha medo de suas pernas falharem a qualquer instante. Seu desespero provou-se poder aumentar ainda mais quando chegou finalmente a mesa e viu aquele homem de cabelos loiros e olhos tão azuis quanto o próprio céu, levar a mão ao coldre na cintura e puxar de lá uma pistola USP ELITE .45, que fora personaliza ao seu gosto. Uma arma da qual ela não sabia, mas ele tinha grande apego sentimental. E colocá-la sobre a mesa bem diante dos seus olhos. Seu olhar temoroso então subiu da peça até aqueles olhos que a encaravam como se pudessem sugar toda a sua vida, dada a intensidade, e esse também a causava muito desconforto, porque aquele homem a intimidava e apavorava muito.
Atrapalhada, nervosa, com medo... Talvez tenha gaguejado mais do que falado enquanto observava o cenho dele franzir-se a encarando.
- Inútil!
Esse fora o brado dado por Kazuki para ela, estava literalmente pronto para enxotá-la dali quando todos se surpreenderam com o riso de Nikolai, que gesticulou com um humor pouco convencional.
- Vamos ver o show até o fim... - disse, e antes que Nina pudesse sair dali ainda ouviu a pergunta que Nikolai dirigiu para Kazuki - Se você treina suas putas, não deveria treinar suas garçonetes? - imediatamente as gargalhadas dos homens tomaram o lugar.
As bochechas de Nina tingiram-se de escarlate. Sentia um misto de sentimentos, sentia-se um bichinho acanhado e, no fundo, era, não fora o homem que a comparou a um show? Ela não passava de uma piada ingrata.
- Sabe bem como se treina putas nessa casa... No entanto, não há um método para essas cadelas que servem - disse com desprezo e zombaria - Poderia por uma coleira e ainda não adiantaria. Elas se adestram na força bruta - Concluiu aquilo enquanto direcionava o olhar para a garota de cabelos negros, mas essa permanecia cabisbaixa enquanto apertava com força o pequeno bloco que usava para anotar os pedidos. Na primeira oportunidade, ela se retirou.
Tinha vontade de gritar e chorar. Encostada na boqueta de saída de pratos, ela deslizou os punhos sobre os olhos, os secando. Respirou fundo. Nem sempre morrer era uma opção viável na vida, era uma saída por vezes covarde, mas só talvez...
Ela respirou fundo. Buscava em palavras específicas presas em sua memória o acalanto e a força necessária, e por isso ela pegou uma nova bandeja e retirou no bar os pedidos de bebida daqueles homens - a primeira rodada da noite - sentiu o peso da mesma diante de braços não tão acostumados aquela jornada, ainda assim, manteve-se firme como podia as levando até a mesa começando a servir aqueles homens. Todos eram igualmente perigosos, todos representavam em si um grau de desprezo mesmo sem conhecê-los, mas apenas um, a intimidava. Ela sentia um arrepio frio ao estar perto dele, era como a sensação da morte. Seria fácil a partir daquele instante associar realmente aquele anjo negro do fim, ao homem de olhos azuis e cabelos loiros como o sol.
Assim que depositou o último copo sobre a mesa, viu um dos homens ofertar uma pasta de couro marrom justamente para o loiro. Sabia que se tratava de negócios, e por isso curvou-se respeitosamente e saiu dali, no entanto, sua curiosidade agora gritava, que tipo de negócios eram aqueles? Mentalmente reprimia-se ao repetir: lembra das regras, lembra das regras... Curiosidade naquele mundo era muito, muito perigoso, e justamente por ser assim, algo aguçou em si, queria saber o que tinha naquela maldita pasta, queria principalmente ouvir o teor da conversa. Não que ela fosse fofoqueira, não era, mas estava curiosa, afinal, quase nunca acontecia coisas tão grandes naquele lugar.
- Bom, Kazuki, eu... Estive analisando os últimos números desse negócio em especial e devo dizer que são... - houve uma pausa enquanto Nikolai deslizou a mão pelo queixo - Promissores - a voz carregava mais malícia do que devia, e sem jeito, Kazuki sorriu, afinal, era ótimo com finanças.
- É um bom ponto, bons negócios e bons fornecedores - concluiu com uma modéstia que Nikolai sabia que certamente não tinha.
O Urasov abriu a pasta lendo o conteúdo da primeira página e assoviou alto e longamente com um certo desdém.
- E essa última compra aqui então? - desenhou um sorriso sádico no mesmo instante que Ivan voltara ao chefe. O homem de confiança de Nikolai abaixou-se ao nível do ouvido dele e sussurrou algo que certamente deixou Kazuki um tanto nervoso a ponto de puxar um lenço do bolso do terno e enxugar a testa.
Nikolai esboçou um sorriso mínimo e pegou o seu copo de bebida virando um bom gole. As safiras encontraram o par de olhos esmeraldinos novamente. Esperava por uma resposta.
- Bom... Tive sorte - afirmou Kazuki. O Urasov virou mais um gole do whisky e olhou na direção do salão, onde pode ver aquela garota de olhos incomuns ainda parada de frente ao bar preparando a próxima rodada de bebidas da mesa. Sorriu, mas não era aqueles sorrisos bonitos, oh não! Tinha um tom de perversidade imenso, e quando Nina o viu, estremeceu completamente.
Definitivamente no seu alarme interior aquele homem gritava perigo. Alto, intenso, e sufocante... Um tipo de perigo que chegava a galope.
Ela tornou a preencher a bandeja com mais bebida voltando a caminhar em direção a mesa, com sorte, ouviria algo da tal conversa que ainda aguçava sua imaginação. Para o completo azar de Nina, quando ela chegou à mesa, a conversa não era apenas sobre negócios, ela passava de amistosa para perigosa e por isso sua mão tremeu um tanto nervosa enquanto ela os servia.
- Todo esse negócio é mais que um bom fornecedor. Tem muito sobre perspicácia, enxergar além, intimidar, extorquir, gerenciar... No fim... Não passam de relatórios e números como qualquer outro negócio, e lucro é o único fator que importa - pontuou Nikolai, colocando um novo cigarro nos lábios no exato momento que Nina, depositava o novo copo de bebida dele.
Ela sobressaiu-se quando a mão grande e forte dele envolveu seu punho de supetão. Não esperava, e por isso deixou um gritinho escapar. A mão fria a fizera estremecer. Suas pernas bambearem e não era de excitação, mas sim de pavor. Esperava pelo pior quando sentiu o toque metálico ser deslizado entre os dedos, percebendo se tratar de um isqueiro prateado. Conseguia ver claramente a espiral de fogo entalhada nesse que se destacava no tom vermelho metálico. Intimidada e trêmula, ela ainda sentia a dominância da mão dele sobre a sua que forçou o polegar delicado dela a abrir a tampa com um click disparando o gatilho e acendendo a chama. Os olhos dele estavam focados nela, enquanto os dela focaram-se no fogo de chama azulada. A mão nervosa, tremia com o toque dele contra a pele pálida, então sentiu o puxar suave que ele fazia levando sua mão com o isqueiro aos lábios acendendo assim o cigarro, e só aí ela se deu conta que ele a encarava, os olhos nunca deixaram de notá-la. Sim, um animalzinho acuado era uma perfeita definição de si naquele momento.
Ele tragou o cigarro e levou a mão livre ao cigarro, o tirando e libertando a fumaça, mas tudo que ela queria era que ele a soltasse. Veja, para ele, aquilo não passava de uma diversão. Do medo dela, as expressões, ou aqueles olhos curiosos e ansiosos... Aquela garota exalava algo que o capturava, o instigava de algum modo a pressioná-la, porque cada reação dela pulsava diretamente em seu corpo. É... Talvez fosse a imaturidade dela... talvez. Porque, lentamente, as expressões de medo dela conseguiam acender um fulgor em si.
Nina, assim que liberta daquele aperto, terminou de servir as bebidas enquanto ouvia Kazuki explicando coisas aleatórias que ela não compreendia totalmente, mas sabia que ele estava nervoso com o rumo daquela conversa.