O início do casamento de Charlotte e seu marido foi um conto de fadas, repleto de alegria e promessas de um futuro juntos. Depois de uma crise que quase resultou em divorcio a felicidade deles foi abruptamente interrompida quando ele recebeu o diagnóstico devastador: ele estava sofrendo de uma rara e cruel doença genética chamada "Síndrome de Lumen". Essa doença não apenas ameaçava sua vida, mas também roubava sua capacidade de ter filhos.
Uma noite, enquanto o casal estava sentado na sala escura e acolhedora de sua casa, as lágrimas nos olhos de Charlotte brilhavam com a incerteza do futuro. Seu marido, com a voz trêmula, explicou a gravidade da situação e a necessidade de congelar seus genes imediatamente, antes que a doença avançasse ainda mais e roubasse completamente sua fertilidade.
Naquela cena dramática, a decisão pesava no ar como uma âncora, uma escolha angustiante que não apenas afetaria o futuro deles como casal, mas também suas esperanças de construir uma família. O desespero pairava, mas Charlotte e seu marido sabiam que não podiam adiar mais a decisão.
Charlotte e seu marido, David, enfrentavam um momento desafiador em suas vidas. David havia sido diagnosticado com uma doença genética rara e debilitante, e a única esperança de preservar sua capacidade de ter filhos era congelar seus genes no hospital local.
Era uma manhã fria de inverno quando eles chegaram ao hospital, mãos dadas, olhos cheios de determinação e amor. A recepção estava iluminada por luzes suaves, mas o coração de Charlotte estava pesado de preocupação. Ela sabia que essa era uma das últimas oportunidades de garantir que teriam uma família juntos.
O médico, Dr. Mitchell, recebeu-os com gentileza. Ele explicou o procedimento em detalhes, deixando claro que não havia garantias, mas que estavam fazendo tudo o que podiam para preservar a chance de ter filhos. David assentiu com firmeza, determinado a lutar contra sua doença com todas as suas forças.
Charlotte olhou nos olhos de David e viu neles a coragem e a esperança que a mantinham forte. Eles se abraçaram com ternura antes de David ser levado para a sala de procedimento. Charlotte esperou ansiosamente na sala de espera, roendo as unhas e orando por um resultado positivo.
Horas depois, Dr. Mitchell voltou com um sorriso suave no rosto. Ele informou que o procedimento tinha sido um sucesso, e os genes de David estavam agora armazenados com segurança para o futuro. Charlotte não conseguiu conter as lágrimas de alívio e alegria. Eles sabiam que a jornada seria difícil, mas estavam dispostos a enfrentá-la juntos.
Nos dias que se seguiram, Charlotte e David se apegaram ainda mais um ao outro. Eles tinham agora a promessa de um futuro juntos, apesar dos desafios que enfrentariam. Cada momento juntos se tornou mais precioso, e o amor que compartilhavam só cresceu mais profundo.
À medida que os meses passaram, eles continuaram a lutar contra a doença de David, mas sempre com a esperança de que um dia sua família se tornaria realidade. O amor deles era a força que os impulsionava, e eles estavam determinados a enfrentar qualquer obstáculo juntos.
Porém não foi exatamente isso que aconteceu, infelizmente a doença de David acabou se agravando, e ele acabou falecendo.
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À beira de um lago sereno, Charlotte se encontrava sozinha, o vento sussurrando suavemente pelas árvores como se tentasse consolá-la. Ela segurava uma fotografia de seu amado David, cujo sorriso radiante parecia ainda mais vívido em sua mente. As lágrimas rolavam pelo rosto de Charlotte, testemunhas silenciosas de sua profunda tristeza. A brisa balançava as folhas das árvores, criando uma melodia suave que ecoava a sensação de perda.
À sua volta, a natureza parecia compartilhar sua dor. O céu estava tingido de tons de laranja e rosa, como se o próprio universo prestasse homenagem ao amor que eles compartilharam. As memórias de suas aventuras juntos, as risadas e até as lágrimas enchiam sua mente, e Charlotte sabia que essas lembranças seriam o legado duradouro de seu querido marido.
Com um suspiro profundo, Charlotte fechou os olhos e sussurrou palavras de despedida para o vento, deixando suas lágrimas se misturarem com as águas tranquilas do lago. Embora David já não estivesse ao seu lado, seu amor e suas lembranças permaneceriam eternamente vivos em seu coração, um testemunho do poder duradouro do amor verdadeiro.
Charlotte ainda não se via pronta para a fertilização, não apenas emocionalmente, mas também financeiramente. No entanto, havia uma certeza inabalável em seu coração: ela iria dar à luz um filho de David, a única lembrança tangível que teria de seu amado marido.
A ideia de criar uma vida que fosse uma continuação do amor que compartilharam trazia lágrimas aos olhos de Charlotte. Ela sabia que, apesar de todas as dificuldades e incertezas que a vida lhe apresentava, a oportunidade de dar vida a um pedaço de David era um legado que ela estava disposta a honrar a qualquer custo. A força de seu amor era sua bússola, guiando-a através das sombras da perda em direção à luz da esperança e ao futuro que ela estava determinada a construir.
De agora em diante, Charlotte dedicaria sua vida inteira à missão sagrada de construir um futuro que enchesse de orgulho o filho que um dia traria ao mundo, um filho que seria a viva representação do amor e da herança deixada por David. Com uma determinação inabalável, ela moldaria cada passo desse caminho, nutrindo sonhos, valores e memórias que seriam transmitidos de geração em geração.
Nos olhos decididos de Charlotte, brilhava uma promessa solene, um compromisso eterno com a memória de seu amado marido. Ela ansejava pelo dia em que seu filho conheceria a história do homem extraordinário que foi seu pai, inspirando-o a seguir um caminho de amor, integridade e coragem.
Assim, no coração de Charlotte, o legado de David viveria eternamente, como um farol de esperança e amor em direção a um futuro onde o filho deles encontraria força, propósito e a profunda conexão com um pai que ele nunca conheceu, mas que estava presente em cada batida do seu coração.
Charlotte.
Eu já antecipava que o casamento não seria fácil, mas desejava acreditar que o amor superaria desavenças e a monotonia da rotina, algo que ambos juramos diante daquele altar.
Contudo, a vida não se assemelha a um conto de fadas, e parece que apenas eu estou cumprindo nosso acordo matrimonial. Agora, dois anos depois, enfrento uma crise no casamento, pois meu marido, que afirmava me amar, se envolveu com uma de suas modelos favoritas. Vale ressaltar que David é um fotógrafo renomado, cercado por mulheres belíssimas, eu inclusa como uma dessas modelos. Foi assim que nos apaixonamos mutuamente.
Ao casarmos, David insistiu que eu não precisava mais trabalhar, assumindo o papel de provedor. Inicialmente, recusei ser modelo, não por capricho, mas porque não me encaixava no padrão: não era magra, possuía sardas que, apesar dos elogios, me incomodavam, e meu corpo não seguia os ideais sociais. Mesmo com o quadril largo e um bumbum volumoso, aceitei fotografar para uma revista que destacava a beleza natural das ruivas, o que, surpreendentemente, foi o ponto de partida do nosso apaixonado encontro.
Agora, dois anos depois, descubro que ele está me traindo com uma dessas modelos. Aposto que não foi a única. Há algum tempo, venho estranhando sua indiferença em relação a mim. Todo o fogo do início desapareceu. Sempre soube que David tinha fama de mulherengo. Fui alertada por algumas pessoas de que ele jamais conseguiria se submeter a um casamento. No entanto, estava cegamente apaixonada, e, como ele jurava sentir o mesmo, acabei por acreditar em suas falsas promessas de amor.
Sabia que ele não queria me contar a verdade para não me machucar. De alguma forma, sentia que ele tinha sentimentos por mim, mas na realidade não conseguia mais dizer se era verdade. Hoje, recordo-me da expressão dele no dia do casamento; qualquer um poderia dizer que estava indo ao matadouro, mas eu, tola, pensava que era apenas nervosismo.
__ Então é isso, David? Você nem ao menos vai tentar negar a traição? - Cruzei os braços, encarando-o decepcionada.
__ Não adiantaria negar. Juro que tentei ser fiel a esse casamento, porque, apesar de tudo, eu te amo, Charlotte. Mas sou humano, pô! Talvez eu não tenha nascido para casar e constituir uma família; isso é tudo bobagem. No final, sempre alguém acaba traindo o outro, e antes que seja você, é melhor que eu faça.
__ Espera. Você está me dizendo que a justificativa para me trair é o medo de ser traído? Você só pode ter perdido o juízo. - Dei uma risada sarcástica.
__ Pense o que quiser, Charlotte, mas acho que está mais do que claro que nosso casamento chegou ao fim.
Na mesma hora, foi como se uma lanterna tivesse se acendido na minha mente. Nunca achei que me submeteria a essa humilhação, mas como eu havia dito anteriormente, o amor costuma cegar as pessoas, e certamente eu não seria a primeira nem a última a me colocar nessa situação deprimente.
Imediatamente, corri até onde ele estava sentado e me ajoelhei aos seus pés, desesperada.
__ Por favor, David, não diga isso. Podemos resolver esse problema. Entendo que talvez o casamento não seja como você sonhou, mas juro que posso reacender a chama apagada entre nós. Podemos voltar a ser como éramos quando éramos namorados, lembra? - Dei um sorriso travesso.
__ Charlotte, não perca seu tempo. É impossível voltarmos ao que éramos no passado, e sabe o motivo? Antes, eu era apaixonado por você, mas agora não sou mais. Apesar de te amar, nossa relação já não tem a mesma graça.
__ Não diga isso, não vamos dar por perdida nossa relação sem ao menos tentarmos. Isso não é justo. - Choraminguei. David revirou os olhos relutante, mas, no fim das contas, acabou cedendo.
__ Tudo bem, vou te dar uma chance de tentar recuperar nossa relação, mas se não funcionar, nós iremos nos divorciar, e assunto encerrado.
__ Está bem, então se prepare, porque hoje teremos um jantar especial preparado exclusivamente por mim. Por isso, se puder permanecer fora o dia inteiro e só retornar à noite, eu agradeço.
- Como preferir madame! - David concordou com um sorriso debochado.
Assim que David se retirou, iniciei os preparativos para aquela noite que esperava ser perfeita. Não queria aceitar o fracasso em minha relação conjugal, especialmente para não dar o gostinho de minha mãe dizer que avisou sobre os desafios do casamento. Sentia uma mistura de sensações: medo, ansiedade, frustração e, principalmente, decepção. Acreditava sinceramente que David mudaria por mim, mas era um mero engano.
Arrumei o apartamento, que, embora não fosse muito grande, era um dos mais luxuosos do condomínio. Isso se devia ao fato de David não ser uma pessoa comum; ele era um fotógrafo excepcional e um modelo famoso. No entanto, ele evitava falar sobre suas origens devido a problemas pessoais com sua família. Sabia apenas que sua mãe falecera, e isso era basicamente tudo que eu conhecia sobre ele. Essa ausência familiar poderia explicar alguns de seus comportamentos e aversão a compromissos sérios.
Preparando o ambiente para a noite, coloquei a toalha vermelha na mesa, os talheres e um vaso de rosas. Acendi as velas enquanto a comida cozinhava. Estava preparando seu prato favorito, espaguete de camarão, e até abri uma garrafa do vinho mais claro. Além disso, decidi apimentar nossa relação com uma fantasia para impressioná-lo.
Depois de tudo pronto em casa, percebi que a única que estava desarrumada era eu. Decidi, então, ir ao cabeleireiro e ter um dia de beleza. Talvez a monotonia no casamento fosse causada pelo meu descuido com a aparência. Não que eu fosse uma mulher descuidada, mas admito que não era tão vaidosa quanto na época em que era modelo. Com David, vendo tantas mulheres deslumbrantes, fica difícil não me comparar.
Enviei uma mensagem para o David avisando que chegaria um pouco tarde, pedindo que ele me aguardasse para o jantar, pois tinha uma grande surpresa. No entanto, não recebi resposta, presumi que ele estivesse ocupado. Peguei minha bolsa, entrei no carro e segui em direção ao meu destino.
Atravessei a rua em direção ao salão, cuidando de cada detalhe para uma hidratação nos meus cabelos ruivos naturais. Sempre recebia elogios das cabeleireiras pelo meu cabelo, e eu o amava assim, natural, diferente das sardas que não me agradavam. Após a transformação no salão, com cabelos escovados e maquiagem feita, escolhi um vestido vermelho ajustado, uma fantasia da Jéssica Habit, e coloquei um sobretudo por cima.
Ao retornar para casa, percebi que David ainda não havia respondido à minha mensagem. Estacionei o carro em frente ao prédio, vi o seu carro estacionado e entrei. Subindo o elevador, a ansiedade crescia. Ao chegar à porta, ouvi a TV ligada, indicando que ele se cansou de esperar. Respirei fundo, abri a porta de uma vez, revelando-me com o sobretudo aberto.
-"Surpresa!", exclamei sorridente. No entanto, meu sorriso congelou no rosto no exato momento em que me deparei com a loira ao lado de David, os dois se beijando.
- O que diabos está acontecendo aqui?!! - bradei transtornada, e ambos me olharam atônitos.
- Amor, eu posso explicar. Você está linda. - David olhou para mim, tentando se aproximar.
- Não me toque! E muito menos me elogie, David. Quem você pensa que eu sou?! Aposto que se divertiram bastante comendo a minha comida, não é verdade?! Tiveram essa audácia? - Olhei para ele incrédula e corri para a cozinha, confirmando minhas suspeitas ao encontrar pratos sujos em cima da mesa.
- Charlotte!?
- E nem tiveram a decência de lavar os pratos? Que grande babaca você é! É assim que você queria recuperar nosso casamento, trazendo uma amante para dentro de casa?
- Quem queria recuperar era você. Eu já tomei minha decisão, Charlotte. Eu quero o divórcio, e essa garota veio aqui sem meu consentimento. Não tive culpa. - Olhou para mim com pesar.
- Então, nem eu vestida dessa forma fez você mudar de ideia? - O encarei com os olhos marejados.
- Sinto muito, você é linda, de verdade. Mas eu não estou mais apaixonado.
- Ótimo, então vou encontrar um homem que esteja apaixonado ainda esta noite, porque eu não comprei essa fantasia à toa. - Trinquei os dentes, mantendo meu orgulho.
- O quê? Charlotte, para com isso. Você não é assim. - Seus olhos se tornaram confusos.
- Por que você se importa? Não sente mais nada por mim. Aliás, descobri que tem um novo vizinho gato no apartamento ao lado, e adivinha? É para lá que eu vou. - Sorri provocativa, me desvencilhei dele e corri em direção à sala. Peguei o sobretudo que estava no chão, vesti, abotoando-o. Escutei David resmungar, parecendo preocupado. Será que era impressão minha ou ele estava com ciúmes? Imediatamente, lembrei-me do apartamento ao lado, que estava vazio, e tive uma ideia brilhante.
Charlotte.
Retirei-me imediatamente da casa e, envolto no sobretudo, dirigi-me ao apartamento vizinho. Ao me aproximar, percebi que a porta não estava trancada. Abri-a rapidamente, fechando-a logo em seguida, encostando-me nela. Agora, bastava aguardar que David se aproximasse para iniciar minha encenação. Não tinha certeza se funcionaria, mas não custava tentar, não é mesmo?
- Charlotte, abra essa porta agora! - Ouvi-o bater na porta, e um sorriso surgiu em meus lábios.
- Hum... Realmente, você beija muito melhor que meu ex-marido. - Coloquei a palma da mão no peito, simulando um beijo.
- Charlotte! Abra a maldita porta agora! Isso não tem graça, sei que não tem ninguém aí com você. Pelo amor de Deus, a que ponto você é capaz de chegar para evitar que eu me divorcie de você? Chega a ser ridículo!
- Você ouviu alguma coisa, gato? Porque eu não! - Afastei-me da porta, em seguida, bati nela com força, simulando uma pegada. Continuei a encenar uma cena digna de novela, com direito a suspiros e tudo mais.
Foi quando, de repente, as luzes se acenderam, e uma claridade intensa ofuscou meus olhos, obrigando-me a interromper a encenação. Na minha frente, havia um sofá branco, e sobre ele, a silhueta de um homem. Seus cabelos eram negros como carvão, vestia uma jaqueta da mesma cor, seus ombros eram largos, e sua postura parecia rígida.
- Vim atrás do cobre e encontrei o ouro. Obrigado pelo show grátis; foi melhor do que qualquer coisa que eu pudesse pagar e bem mais divertido que qualquer programa cômico. - Sua voz grave ecoou, e então percebi que havia um espelho refletindo minha imagem para ele. Meu corpo estremeceu, assim como meu rosto queimou, quando seus olhos azuis como o oceano me fitaram intensamente, como se estivesse despindo minha alma. Naquele momento, mesmo envolta em um roupão, senti-me como se estivesse nua.
- Eu... eu não sabia que tinha alguém aqui. - Gaguejei nervosa.
- É claro que não, ou não teria protagonizado uma cena daquelas. - Ele se levantou, olhando-me intensamente, e pude perceber a imagem angelical daquele homem, quase sombria. Parecia ser um rapaz jovem, vestindo uma camisa branca por baixo, uma jaqueta preta, calças escuras cheias de detalhes prateados. Seus cabelos eram negros como azeviche, as sobrancelhas grossas destacavam-se em contraste com a pele clara. No entanto, havia algo nele que o tornava misterioso e extremamente atraente, e não podia ser o cigarro em seu dedo, já que eu detestava cigarros.
Pensei em correr, fugir para o mais longe possível dali. Eu era madura o suficiente para reconhecer um problema de perto, e aquele rapaz na casa dos vinte anos exalava problemas, e dos grandes. No entanto, por algum motivo que não conseguia explicar, meu corpo traiçoeiro paralisou no lugar, dando-lhe a oportunidade que precisava para se aproximar. Ele me encarou com um olhar sombrio e cheio de malícia, e antes de soltar uma lufada de fumaça no meu rosto, o que fez meu estômago revirar, sussurrou ao meu ouvido.
- Se realmente deseja provocar ciúmes no seu marido, não acha que seria melhor fazer isso com um homem de verdade? Acredito que posso ser muito mais convincente do que essa encenação fajuta sua. - Comentou sarcástico, e meu rosto queimou violentamente. Não conseguia dizer se era pela vergonha protagonizada ou pela maneira afiada como ele me olhava.
- Muito obrigada, mas se eu estivesse precisando de um homem, eu mesmo encomendava. - Respondi retórica, e ele soltou uma risada debochada.
- Como quiser, mas pelo visto você não parece nem um pouco desesperada, precisando de um homem. Poderíamos nos divertir fazendo o que de melhor nascemos para fazer, quero dizer, não procriar, mas podemos fingir que queremos tentar. - Ele piscou travesso.
- O quê? Nem morta eu dormiria com um desconhecido como você, e muito menos tentaria algo que pudesse gerar uma versão jovem sua no futuro. Meu filho vai ser um grande homem. - Ergui o queixo orgulhosa.
- Bom, então de fato existem pessoas como você? Que não têm uma vida social, ou saberia quem eu sou. De acordo com a genética que se encontra do outro lado da porta, eu duvido muito. Mas boa sorte e até mais. - Ele bateu continência, enfiou o cigarro na boca e se retirou.
- Abusado! - Disse em voz alta, e foi nesse momento que percebi que David estava do outro lado, perguntando algo sobre mim. Saí imediatamente.
- Não aconteceu nada entre nós! - Falei desesperada, e ambos me olharam. David parecia ter sangue nos olhos, enquanto o rapaz desconhecido parecia se divertir com meu embaraço.
- Então o que eu ouvi agora pouco foi uma alucinação? - David afrouxou a gravata, parecendo buscar algum tipo de controle.
- Não, quero dizer sim.
- Sim ou não? O momento que eu tive pareceu bem real para mim, para você não?
- Charlotte, por favor, me diga que você não ficou com o Henry Castelli. - Assim que o sobrenome saiu da boca de David, cheio de fúria, virei o rosto bruscamente na direção daquele homem. Castelli? Ele era da família mais poderosa do país, os irmãos Castelli. Eram quatro, mas recordo que um vivia em outro país. Com certeza era ele, e por isso esse ar rebelde e sombrio, tão diferente dos irmãos que pareciam elegantes e simpáticos.
- O que foi? Por que está me olhando assim? Vai dizer que agora que descobriu meu sobrenome mudou de ideia? - Henry ergueu a sobrancelha sugestivo, e engoli seco, desviando o olhar sem graça.
- Não, David, não aconteceu nada entre nós. Aquilo foi apenas uma encenação para te fazer ciúmes. Diferente de você, eu não sou uma devassa que sai pegando o primeiro homem que vê na frente. - Comentei chateada.
- Você jura que vou acreditar nessa mentira? Então por que esse moleque estava no mesmo apartamento que você, Charlotte? Você não tem como se explicar, está tudo acabado entre nós.
- O quê? David, não. Vamos conversar. - Ameacei tocar nele, e ele se afastou, olhando-me com total frieza.
- Não que eu lhe deva explicações, mas eu acabei de comprá-lo, e eu deixo permanecer quem eu quiser. Sua ex-esposa está convidada a ficar, ao contrário de você. - Henry encarou-me de maneira firme.
- Como se eu fosse querer ficar naquele apartamento.
- Mas quem disse que eu vou ser o dono somente daquele apartamento? A partir de hoje, esse prédio é meu, e eu proíbo a entrada de traidores e covardes como você, David. Por isso, pega sua mulher e dá o fora daqui. - Eles se encararam como dois machos alfas, e percebi que havia alguma rixa estranha da qual eu não fazia ideia do que se tratava.
- Vamos, Charlotte! - David veio até mim, pegando minha mão. Antes que eu fosse embora com ele, senti um par de dedos fechar no meu braço, fazendo-me parar no lugar. Um arrepio percorreu meu corpo quando seus dedos gelados encostaram na minha pele.
- Essa não. Aquela mulher, sua amante, sua esposa, vai ficar comigo. Ela precisa pensar melhor no tipo de homem com quem construiu uma família antes de aceitar te perdoar por ser um grande idiota.
- Ela é minha esposa, Charlotte. - David o encarou de igual para igual, e eu poderia jurar que ele voaria nele a qualquer momento. Por isso, tomei a única opção que me cabia naquele momento.
- Me solta, eu vou com ele. - Esquivei-me dele, que virou o rosto como se estivesse incrédulo.
- Eu já ouvi muito sobre loiras serem desprovidas de inteligência, mas ruivas é a primeira vez. Se essa é sua escolha, fique à vontade. Só espero não te encontrar novamente para te salvar desse cretino. - Estreitei os olhos confusa, enquanto mantinha os seus fixos nos meus, com um misto de decepção e algo que eu não conseguia decifrar.
- Vamos, amor. - David segurou minha mão, arrastando-me para fora, enquanto eu olhava para trás, tentando decifrar o que havia por trás daqueles olhos rebeldes que tanto me fascinavam.