Otávio caminhou apressado tentando se desviar da imprensa, seus últimos encontros não tinham sido nada favoráveis para ele, por mais que tentasse ser simpático e respeitoso com a maioria dos repórteres sempre acabava passando a impressão contrária, e tudo que ele não podia agora era manchar seu nome, estava prestes a assinar um contrato bilionário com a china e tudo que seu advogado tinha lhe dito sobre Gin Asheng era "ele é um homem de moral e bons costumes, então não faça piadas grosseiras ele não vai entender, não fale sobre mulheres, não fale sobre politica e acima de tudo, defenda a famíl
ia e Deus". Coisas estas que eram vistas por Otávio como desnecessárias na vida de um homem.
Tendo saído recentemente do seu segundo casamento fracassado, Otavio tinha finalmente entendido que entender as mulheres, ser um bom marido e formar uma bela família não era para ele, quanto a Deus, ele nunca tinha pensado a respeito, apesar de sua mãe ser uma mulher muito religiosa, seu pai só tinha um Deus, o dinheiro, e era esse Deus que ele também tinha decidido seguir.
Ele desviou de uma mulher baixa com caderneta e caneta e se perguntou mentalmente, quem ainda fazia entrevistas anotando no papel, diante de toda a tecnologia que havia no mundo, era impossível que alguém ainda se limitasse no papel, balançou a cabeça nervoso, precisava sair daquele tumulto, Gin já o esperava na sala de reuniões e quanto mais tempo ele ficava do lado de fora, mais perigo ele corria de estampar a capa de algum jornal.
Seu advogado abriu caminho por entre dois homens e ele estava quase chegando lá, quando ouviu um grito atrás de si, olhou para trás e congelou instantaneamente, aquela mulher baixa vinha derrubando todos os seus seguranças, dona de uma força absurda ela parecia movê-los de lugar como se eles fossem meros bonecos, seu rosto estava contorcido de raiva e ódio, engolindo a própria saliva ele pensou "espero que ela não esteja atrás de mim".
Bastou apenas o pensar, mal tinha pronunciado a frase em sua cabeça ele ouviu seu nome sendo gritado em alto e bom som.
- Otávio Prestames!
De todas as coisas do mundo, ele tinha logo que ter entrado na fila para problemas com mulheres? Até quando ele as evitava algo acontecia, porém agora ele estava realmente confuso, quem diabos era ela?
- Quem é a garota? Alguma ex da noite passada?
Perguntou seu advogado com o rosto nem um pouco simpático.
- Juro por tudo que é mais sagrado, eu não conheço essa mulher!
Daniel suspirou visivelmente irritado, aquela não era a hora nem o momento para uma confusão, e é claro que todos os repórteres já tinham corrido até ela e como vespas ao redor do ninho a estavam deixando tonta.
Otávio olhou para a mulher novamente, baixa, baixa demais, cabelos longos e encaracolados, olhos verde oliva, bonita, muito bonita, não, era impossível que ele a conhecesse, se conhecesse jamais a esqueceria, era o tipo de mulher que nenhum homem poderia se esquecer.
Enquanto isso a mulher era bombardeada por pelo menos uns quinze fotógrafos e entrevistadores.
Olivia abaixou a cabeça à medida que o número de flashes aumentava, ela tentava se desviar, não tinha vindo ali para ser o holofote dos jornais, apesar de que isso até vinha a calhar, pois já tinha deixado pelo menos umas cinquenta mensagens no celular de Otavio e ele não tinha lhe dado resposta, então pensou, "talvez por medo da imprensa ele decida me ouvir".
Ela precisava se manter firme, permitir que seu ódio e sua raiva de cinco anos a mantessem de pé, ela precisava fazer o que fosse necessário para ter cinco minutos a sós com ele, isso seria o suficiente, apenas cinco minutos e tudo estaria esclarecido.
- O que a senhora deseja?
Perguntou o desconhecido que se aproximou, estava bem vestido, ela o olhou de cima a baixo, já o conhecia, tinha ouvido falar dele, era o responsável por limpar todas as sujeiras de Otavio em volta, aquele que pagava até para o capeta ficar calado, ela o esnobou virando o rosto, típico, Otavio nem ao menos se aproximou, é claro que deixaria seu advogado resolver tudo, Covarde! Ela queria esfregar o rosto dele no chão, mas esse não era o momento, ela precisava dele, só Deus sabia quantas vezes ela tinha destruído seu orgulho para estar ali agora.
- Eu tenho uma filha com esse homem! E se ele não se dirigir a mim agora, todos saberão o que ele fez ao me abandonar quando eu mais precisei!
Aquelas palavras destruíram o resto de vida que havia em Otavio, ele deu para trás e começou a andar em silêncio, não parou até alcançar o saguão da empresa, sentou-se em um banco e colocou as mãos na cabeça, uma filha? Uma filha dele, com uma desconhecida? Não, ele não seria tão baixo, isso era impossível! Vigarista! Estava ali para destruí-lo, certamente a mando de algum inimigo dele que tinha descoberto sobre o negócio que ele fecharia hoje, isso não passava de uma armação.
Daniel se aproximou da mulher e a segurou pelo braço.
- Isso é impossível!
Olivia, porém o olhou no fundo dos olhos.
- Não quero causar alvoroço, porém exijo uma reunião com ele, é caso de vida ou morte!
Por algum motivo desconhecido, algo nos olhos daquela mulher convenceu Daniel de que ela merecia ser ouvida, eles não tinham tempo a perder, olhou em volta e viu os seguranças preparando o material que já estava indo ao ar, se os chineses vissem aquela confusão estaria tudo acabado.
Otavio afundou a cabeça entre as mãos e nesse instante o pior aconteceu, olhou para o elevador e viu toda a comitiva de Gin Asheng sair porta a fora e vir ao seu encontro.
- O que está acontecendo?
Ao longe as pessoas cochichavam entre si, sem nem conseguir se explicar Otavio foi bombardeado pela noticia que começou a passar instantaneamente na televisão do saguão.
"Jovem empresário, descobre em meio a discussão que será pai"!
"Filho não assumido de Otavio Prestames, implora por legitimidade de paternidade".
"sem amor, sem pensão, o filho escondido de Otavio Prestames"!
Otavio sentiu as pernas falharem, seu coração disparou e a saliva secou em sua boca, Gin se aproximou dele e então olhou friamente para a televisão.
- É o senhor naquela matéria?
No vídeo fotos de Otavio circulavam seguidas da descoberta do filho, Otavio tentou gaguejar alguma resposta, porém não conseguiu sair do "vou explicar mais tarde"!
Gin olhou mais uma vez para o vídeo na televisão e então olhou para o seu assessor.
- Encerramos aqui.
Aquelas foram suas únicas palavras, Otavio viu ele se encaminhar até a porta e junto com sua saída a perda de milhões de dólares, fosse quem fosse aquela mulher, bonita ou não, ele a esmagaria feito uma barata, ele acabaria com ela, sem dó nem piedade!
Otavio andou de um lado a outro no escritório tentando entender como tinha vindo de meter nisso, um pouco mais distante a garota desconhecida estava sentada tomando um copo d'agua que a secretaria tinha trazido gentilmente, Daniel cruzou os braços e então olhou para Otavio.
- Como se conhecem?
Otavio olhou para a garota e deu de ombros.
- Eu não conheço essa garota! Não está vendo que isso é um golpe? Certamente um concorrente nosso a mandou aqui para terminar com nossos negócios!
- Não me conhece? Sério mesmo?
Perguntou Olivia se levantando do sofá e colocando as mãos na cintura, novamente ele a observou de cima a baixo.
- Não, não conheço! Não estou louco!
- Talvez estivesse bêbado, sabe como é uma noite de muitas alegrias e muitos pesadelos depois... – Comentou Daniel, Olivia abriu e fechou a boca incrédula.
- Não foi apenas uma noite! Não sou esse tipo de garota que estão acostumados! Foram meses! Ok? Meses!
Otavio soltou uma gargalhada tão alta que as vidraças vibraram.
- Quer mesmo me fazer acreditar que eu saí com você por meses e não sou capaz de me lembrar? Até mês passado eu estava casado!
- Como se isso importasse para pessoas como você! – Disse ela respondendo na cara, Otavio fechou o rosto.
- Não sou esse tipo de homem! Não saio com uma garota apenas por estar bêbado e muito menos traio minhas esposas!
- "Minhas"? Pelo visto teve muito mais que uma.
- Tive duas se quer saber, e não, não tenho vergonha de dizer, por que dei o melhor de mim, nunca as traí as tratei com um enorme respeito, abri minha vida e meu coração a elas! Porém, foi decisão delas partir!
Olivia pôs a mão no coração.
- Estou encantada, foi emocionante, pena que é pura mentira, você não vale nada! Eu o conheço tão bem, nada disso precisaria estar acontecendo se tivesse tido a decência de me responder minhas mensagens! Foram pelo menos cinquenta!
- Mensagens? Eu nem sei quem você é, quando muito tenho seu telefone, você é completamente maluca!
- Eu não sou maluca! Não se faça de sonso comigo! Estivemos juntos sim e temos um filho! Agora haja como um homem e cumpra com seu papel!
Otavio caminhou até ela bufando de ódio.
- Tudo bem! Acho isso perfeito, mas primeiro exijo um teste de DNA, e caso ele dê negativo quero ver você ir à imprensa dizer em alto e bom som que eu não sou o pai! Você é o tipo de mulher que eu mais desprezo, se deita com qualquer um e depois seleciona o mais rico para assumir o filho, mas eu não sou tão estupido! Quero o DNA!
Ele gritou na cara dela, a fazendo fazer as lágrimas, porém Olivia se manteve firme, ela sabia que não seria fácil chegar até ali e convence-lo da paternidade, porém considerava isso uma vitória, ele estava disposto a fazer o teste e assim que a prova estivesse ali, ele seria obrigado aceitar a realidade.
Otavio deu as costas caminhando apressado até a porta, porém não escapou a tempo de ouvir a resposta dela.
- Tudo bem, não vejo problema algum nisso, assim que quiser, minha filha está disponível para a coleta de sangue.
Otavio quase excitou, até onde aquela mulher seria capaz de ir com essa mentira, ela já tinha destruído a reunião dele, então se era para isso que ela tinha sido contratada então porque não recuar agora? Por que ir tão longe? Por que insistir em uma história que não tinha nexo algum?
Olivia pegou suas coisas e se retirou da sala, Daniel a observou sair, ele não fazia ideia de quem era aquela garota, porém tinha uma leve impressão de que já a tinha visto em algum lugar, porém onde? Balançou a cabeça tonto com tudo aquilo e foi atrás de Otavio, precisava por o plano do amigo em dia, afinal aquilo tinha mudado totalmente os planos.
Assim que entrou no escritório viu que o amigo tinha aflouxado a gravata, andava de um lado a outro com um copo de uísque na mão.
- Ela já foi embora, pedi que a secretária pegasse os dados dela, nome, telefone e endereço para investigarmos depois, mas agora preciso que seja sincero comigo, não a conhece mesmo?
- Mas é claro que não! Por favor, Daniel?! Você me conhece desde a faculdade eu não sou esse tipo de homem que saí com uma mulher hoje e outra amanhã, eu não me lembro dessa garota, eu nunca a vi na vida, eu saberia se a tivesse visto e, aliás, ela nem faz o meu tipo, eu sempre gostei mais das loiras!
- Não desdenhe tanto, você a achou bonita sim, eu vi o jeito como olhou para ela ainda do lado de fora, estava encantado...
- Ela me fez perder um negócio de bilhões de dólares se alguma vez eu me senti encantado acredite o encantamento já passou!
- Não a conhece mesmo, esforce-se um pouco...
- Eu não a conheço, e se quer mesmo saber não é segredo para ninguém que eu não posso ter filhos, foi por isso que meus casamentos acabaram, você bem sabe, eu fiz muitos exames, sou totalmente estéril, minhas antigas esposas não suportaram saber que nunca seriam mães!
Daniel revirou os olhos.
- Não quer mesmo acreditar nisso quer? Você sabe muito bem que tudo que elas não queriam era ter que cuidar de um filho, elas queriam mesmo era garantir uma pensão e uma parte na empresa, e o fato de você ser estéril destruía o sonho delas.
Otavio secou o copo de uísque.
- Estava apenas tentando ver as coisas de uma forma romântica.
- Você é tão romântico, quando um coice de um cavalo.
Otavio abriu e fechou a boca fingindo estar ofendido, porém ele conhecia o amigo tão bem quanto o amigo o conhecia, era por isso que eram sócios, não havia outra pessoa no mundo que ele confiasse tanto quanto Daniel, portanto não tinha como querer negar, ele sabia o que estava falando.
Assim que Olivia chegou a casa ela desmoronou no sofá, afundando a cabeça entre as mãos, o que ela tinha feito? Tinha mesmo encarado um homem tão poderoso quanto Otavio Prestames frente a frente? Ela só podia ter surtado, ele a esmagaria, neste instante Freya correu até ela com um lindo desenho colorido nas mãos.
- Mamãe! Mamãe, você chagou! Olha o desenho que eu fiz!
Olivia levantou o rosto das mãos e pegou o desenho cuidadosamente, era lindo, Freya tinha muito talento.
- Você estava chorando mamãe?
Olivia suspirou, podia mentir, mas Freya não era tola, ela não acreditaria.
- Estava, mas não importa, já passou, sempre que vejo você minhas dores desaparecem.
Disse pegando a menina no colo e lhe dando um beijo carinhoso na face, ficou ali por algum tempo embalando ela em seus braços e cheirando o doce perfume que vinha dos seus cachos dourados, ela tinha um cheiro tão bom que era capaz de acalmar qualquer agonia que pudesse estar sentindo naquele instante, por sua filha ela seria capaz de tudo até mesmo de derrubar o poderoso bilionário Otavio Prestames.
Freya tinha nascido em inicio de Outubro, na época Olivia já não estava mais com Otavio, na realidade hoje ela percebia que eles nunca estiveram realmente juntos, o que para ela era um relacionamento para ele nunca passou de uma diversão, quando Olivia descobriu a gravidez ela chegou a acreditar que ele mudaria, que ficaria animado com a ideia de ser pai, que pararia de se envolver em confusões e em meio aos seus delírios românticos, chegou a acreditar em casamento, porém nada disso aconteceu, Otavio nunca respondeu suas ligações insistentes, ou suas inúmeras mensagens, nunca visualizou as fotos enviadas por ela, dos exames, do pré natal ou dos primeiros meses de vida de Freya, com o passar do tempo ela começou a se conformar com o fato de que ele não se importava e então passou também a não se importar, ela era autossuficiente e sua filha não precisava de um pai que não queria saber da existência dela, foi quando ela começou a seguir com a própria vida, até se envolveu romanticamente com outros homens e tudo foi seguindo seu curso normal.
Quando Olivia, porém completou dois anos de idade algo estranho começou a acontecer, manchas roxas começaram a marcar o corpo da menina , que vivia cansada, não queria brincar e apenas dormia, de inicio os pediatras acreditaram ser apenas uma anemia, coisa muito comum em crianças, mas com o passar dos meses e o aumento dos sintomas logo perceberam que não era algo tão simples, Freya tinha nascido com a doença de gaucher.
A doença de gaucher é uma doença genética e hereditária, causada pela deficiência na produção da enzima glicocerebrosidase, essa enzima é responsável pela digestão da glicocerebrosideo, um tipo de gordura facilmente encontrado nos alimentos, com o passar do tempo essa gordura que não é diluída passa a acumular e causar inúmeros problemas de saúde.
Acreditasse que apenas uma a cada 100 mil pessoas possua essa doença o que a torna muito rara, essa doença que afeta não apenas o sistema digestivo como também o baço e o fígado pode ser a precursora de outras doenças como o câncer, quando Olívia descobriu seu mundo perdeu as cores, ela desmoronou totalmente, faria tudo que estivesse ao seu alcance para ser sua pequena bem e curada, porém logo foi bombardeada com a notícia de essa ser uma doença crônica, ainda sem cura.
De inicio Freya foi submetida a um tratamento quinzenal para a reposição das enzimas necessárias para o funcionamento correto da digestão, mas com o passar do tempo aquilo já passou a não dar mais tanta resposta como no inicio, agora com ela chegando aos quatro anos de idade, a situação só tinha se agravado cada vez mais.
Suzan, médica de Freya e amiga de Olívia a chamou para um almoço certo dia, enquanto a pequena brincava no jardim com os filhos da amiga, Olívia questionou o que poderia fazer para tentar curar Freya.
- Sabe que não há cura não é?
- Mas deve existir alguma coisa, algo que possa ser feito, além das injeções...
- Bom, na verdade há, mas está em fase de testes ainda, existe um tratamento experimental com o uso de células tronco hematopoiéticas, porém não é nada comprovado.
- Certo, ainda que não seja certo, eu preciso tentar, como faço?
Suzan segurou a mão dela sobre a mesa.
- Olivia querida, tem falado com o pai de Freya?
- Quem? Otavio? Não! Deus me livre, eu o quero morto, ele nunca se importou com ela, nunca quis saber dela, nós não precisamos dele.
- Na verdade precisam sim.
- Como é?
- Um tratamento eficaz seria usar as células tronco de um bebê recém-nascido com material genético igual ou similar ao de Freya, se você fosse casada eu diria, tenha um segundo filho com o pai dela, mas nesse caso, acho que não seria um bom conselho.
Naquela noite, ao chegar a casa, ela colocou Freya para dormir e se acabou de tanto chorar sobre a cama, não queria que sua filha a visse assim, mas como faria para reencontrá-lo se ele tinha feito questão de sumir do mundo dela? Como encontrar alguém que não a queria, que não amava e como ter um segundo filho se ele nem ao menos tinha aceitado a primeira? Seu mundo desmoronou, ela encontraria outra forma, teria que haver outra forma.