– Bom dia! – cumprimento a nova mamãe, que está amamentando a filha.
–Bom dia Doutor! – responde a mulher jovem de cabelos escuros com descendência oriental.
– Estou com a sua alta. Está pronta pra ir pra casa. Te vejo daqui 15 dias para checarmos como está indo o puerpério. – falo sorrindo. – Assim que a alta do bebê sair, poderá ir embora. – Explico como será o pós parto, os cuidados que terá que tomar. E lhe entrego todos os papéis. Com um aperto de mão deixo o quarto.
Enquanto ando pelos corredores do enorme hospital, meu celular toca incansavelmente e mais uma vez pego o aparelho e deslizo meu dedo sobre o botão vermelho ignorando a chamada.
Ainda não estou preparado para conversar com Julia, não depois do que descobri e descobri da pior maneira diga-se de passagem.
Julia minha namorada quer dizer ex namorada se envolveu com quem eu achava ser meu melhor amigo. Óbvio que tentaram me passar a perna, dizendo de que tudo não passou de mal entendido. Só peguei minhas coisas no quarto e sai. Indo morar com a minha irmã caçula. Desde então Julia tenta conversar comigo.
Saio dos meus devaneios entrando no quarto da próxima paciente.
[...]
Faço plantões e consulta na clínica. Essa rotina vai me matar. Tem bem dois dias que estou a base de cafeína e energético.
Nossa que descuido da minha parte nem me apresentei.
Meu nome é Vitor Bustamante tenho 31 anos sou ginecologista obstetra, e nas horas vagas faço Box. Solteiro e longe de me apaixonar novamente. Um corpo bom, nem musculoso, nem magrelo. Olhos castanhos, cabelos lisos, mas tão lisos que preciso usar pomada para ficar "bagunçado". Um homem comum embora metade do hospital já tenha me falado que eu sou um dos médicos mais bonitos do hospital. Mas não levo em consideração. Claro que não vou dizer que sou feio e desprezível, porque minha autoestima é boa. Mas também não sou tudo isso.
Agora vocês me pergunta porque estou contando isso. Simplesmente até o fim desse livro você irá se apaixonar por mim.
Voltando para minha vida caótica.
Chego na clínica, cumprimento alguns colegas de trabalho pelo caminho. Abro meu consultório, Deixando minha pasta transversal preta em cima da mesa.
– Boa tarde Clarissa. Por favor me diga que você é boazinha e não agendou muitas pacientes pra hoje. Preciso dormir.– Brinco com minha recepcionista.
– Doutor Vitor, acho que suas preces foram atendidas, hoje você terá apenas cinco pacientes. – Quase choro quando ela diz isso. – Sabia que tu estaria morto, essa rotina não vai te fazer bem. Precisa desacelerar um pouco doutor – fala com uma voz preocupada.
– Eu vou fazer isso. Obrigada Clarissa. Só me de 20 minutinhos pra ajeitar minhas coisas. E pode mandar a primeira paciente entrar – volto para minha sala. Ligo o computador, pego o café que está no meu copo da Stanley é uma fortuna mas conserva o café na temperatura.
Abro o prontuário da primeira paciente, é uma paciente nova. Tanto na idade tem apenas 20 aninhos quanto na consulta é a sua primeira comigo.
Disco o ramal da recepção e peço para minha recepcionista mandar entrar a paciente. Me levanto indo até a porta e abrindo. Não demora muito uma garota de pele clara, olhos cor de mel, e baixinha entrar na sala.
– Boa tarde! Bem vinda Sara. – estendo minha mão pra paciente que aperta sem hesitar.
– Obrigada Doutor. – Sorri e direciona até a cadeira almofadada de frente para minha mesa.
– Farei algumas perguntas como é de costume só pra montar o seu prontuário, tudo bem? – falo olhando no MacBook. Leio em silêncio as principais informações, como nome, idade cidade e estado.
– Quando foi sua última menstruação? – pergunto, ainda sem olhar pra ela.
– 19/05 – fala, estou digitando quando ouço a dar um grito – não espera! 25/05 ou seria 31/05? – paro de digitar e olho para o seu rosto querendo rir.
– Ok vamos pular essa parte. Ciclo desregulado né? – pergunto.
– Sim, como adivinhou? – pergunta chocada.
– Dom que adquiri com a profissão. – levanto os ombros como se não fosse nada demais.
– É sua primeira consulta de pré natal? Ou já fez anteriormente?
– É minha primeira, na verdade eu descobri a gravidez em junho – Responde faço as contas mentalmente, já estamos em setembro, faço uma linha fina com a boca. – Foi muito irresponsável da minha parte né? – pergunta, levanto meu rosto olhando para o seu.
– Infelizmente sim, assim que descobriu devia ter marcado uma consulta. – Respondo sincero. – Mas com certeza você devia ter os seus motivos, Porém a partir de agora, vamos seguir certinho. Ok? – Ela acena em positivo.
– Quando foi seu último papanicolau? – pergunto ainda com os olhos para o notebook.
– Eu nunca fiz – olho pra ela meio surpreso.
– É a sua primeira consulta com o ginecologista? – pergunto meio chocado, geralmente as mães trazem as garotas assim que menstruam.
– Sim e já é pra fazer pré natal. Eu perdi a virgindade e engravidei. – fala meio envergonhada. – Perdi tarde né? Eu só queria saber de jogos e videogames que esqueci essa parte da minha vida. Então de tanto minhas amigas encherem o saco perdi. Mas acho que eu não tomei as medidas cabíveis de proteção, então engravidei e aqui estou. – ela desabafa nervosa, mexendo no cabelo.
– Olha – Brinco com o click da caneta – Primeiro não tem tempo pra deixar de ser virgem, só você sabe se está preparada ou não. Segundo a responsabilidade da camisinha não é só sua ou só dele é de ambos. Então a responsabilidade é dos dois agora tudo bem? – Ela dá um sorriso singelo e acena em positivo.
Faço mais algumas perguntas até completar o seu prontuário.
– Sara o certo seria você fazer um ultrassom transvaginal, mas como você está com as semanas já avançadas, vamos fazer um abdominal e deixar pra fazer o transvaginal no segundo trimestre. – falo pegando um robe com a logo da clínica. – Também vou colher o seu papanicolau. Assim matamos dois coelhos numa cajadada só. Você pode trocar de roupa ali. Lá dentro tem um Puff, onde você pode colocar suas roupas. – falo apontando para a cabine. Ela sai e vou até a sala onde fica a mesa de exames que é conjugada com a sala de consulta.
Demorei pra caramba conseguir chegar onde cheguei. Hoje tenho minha própria clínica, que é muito bem estruturada e faço plantões no hospital público, sim não consigo largar os plantões.
Apesar da minha clínica ser particular e eu ter um acordo com os convênios, também atendo os mais necessitados na minha clínica, tudo de graça. Claro que é sempre muito bem organizado, distribuição de senhas. Faço isso não pra dizer que sou diferente ou melhor, mas pra ajudar essas mulheres de rua que infelizmente não tem condições de ter um pré natal, nem pelo SUS por não ter um endereço fixo.
Saio dos meus pensamentos, ligando o ultrassom. E só ai percebo que Sara tá demorando demais. Vou até lá e bato na porta.
– Sara tudo bem? – a cabine tá no completo silêncio. – Sara? – chamo mais uma vez até ouvir ela destrancar a porta dou um passo pra trás. Seus olhos estão vermelhos como se tivesse chorado.
– Oi... Hã... Está tudo bem doutor. – fala mas não acho que seja verdade. Contudo não me intrometo.
– Tá certo então, vamos é por aqui – Aponto o caminho pra ela, que vai cabisbaixa. Não sou de me intrometer na vida alheia, mas sei lá algo nela me chama a atenção, só não sei o que é. Quando chegamos a sala e ela olha a cadeira, paralisa no lugar com certeza se assustando.
– Meu Deus você vai ver minha preciosa? – pergunta travada no lugar.
– Ah menos que inventem outro jeito de fazer papanicolau, sim eu vou ver sua preciosa. – falo achando graça. Cada nome que dão pra vulva.
– Droga! Eu não me depilei, devo estar parecendo um matagal aqui em baixo. – fala nervosa. – Vai ser a pior preciosa que verá na vida. – lamenta.
– Sara eu realmente não me importo com seus pelos. Somente com a sua saúde, já vi mais preciosas do que gente. Te garanto. – falo mas ela parece que empacou no lugar.
– Sara prometo que ela não vai te morder. – falo me referindo a cadeira, já que ela ainda olha assustada para o objeto, seguro o riso passando por ela – Vem – estendo minha mão pra ela ajudando a sentar. Explico a posição correta que deve ficar.
– É constrangedor, porque temos que passar por isso? – ela resmunga mais para ela, o que acaba arrancando uma risada minha.
– Já ouvi muito isso, com o tempo você se acostuma, até porque é importante fazer esse exame todo ano. – falo colocando as luvas. Ela olha para mim, alisando uma mecha do cabelo.
– Você vai colocar esses dedos compridos em mim? – pergunta surpresa dou uma risada, essa garota já arrancou mais risadas minhas do que qualquer outra pessoa.
– Não eu não vou fazer um exame de toque em você. Há menos que esteja com dor, você tá? – ela nega, soltando um ufa.
– Então como é esse exame? – pergunta enquanto eu sento aos pés dela.
– O exame é simples, não é pra doer. Vou introduzir esse espéculo na sua vagina. Vou passar essa escovinha e esse palitinho no seu colo, simples assim. – Explico, mostrando os instrumentos pra ela.
– Certeza que não dói? O pinto do cara era mais fino que isso e doeu até minha alma. – Essa garota é sem filtro. Ela parece se dar conta do que disse e põe a mão na boca – Me desculpa doutor – Dou um sorriso dizendo que não tem problema.
– Não dói, é só estar relaxada – falo. Quando eu coloco o espéculo sinto o corpo dela retesar – Calma, respira que já vai passar – tranquilizo.
Colho seu exame, liberando ela para abaixar as pernas.
– Viu não foi tão ruim – digo entregando as amostras para minha assistente.
– É claro que você fala isso não é na tua buceta que estão mexendo. – arqueio minhas sobrancelhas diante da sua fala. Realmente ela não tem o filtro das palavras. – Nossa como eu fui grossa me desculpa.
– Sem problemas são esses hormônios, que te levam do 8 ao 80 em segundos. – digo me levantando e indo ao seu lado – Chegou o melhor momento vamos ver esse bebezinho. Licença – abro seu robe. E a pequena barriga aponta, deixando claro que tem um pequeno serzinho morando ali. Derramo gel em sua barriga e pego o transdutor espalhando e olho para o monitor.
– Esse é seu bebê – mostro pra ela as primeiras imagens. O feto está numa posição que favorece a visão do seu órgão genital. – Já sei qual o sexo, você quer saber? – pergunto.
– Mas já? – pergunta surpresa.
– Pelo ultrassom você está com 18 semanas + 4 dias. E as genitálias se formam por volta das 14 semanas. Então tenho 90% de certeza do sexo. Mas posso confirmar na próxima consulta.
– Sim eu quero saber o sexo. – ela fala alegre. Movo a seta até o órgão genital.
– É uma menina, aqui é a vulva dela – aponto marcando menina no ultrassom. Movo mais um pouco o transdutor – E esse é o coração da sua princesinha – coloco o som, e os batimentos aparecem rápidos e fortes.
– Que lindo, sabia que eu tinha feito a escolha certa. – fala, não sei do que ela está falando então permaneço em silêncio. Movo mais um pouco pra ver a placenta e o líquido amniótico. Vejo outros órgãos como as trompas e os ovários. Finalizando o ultrassom.
– Acabamos – digo e limpo o gel da sua barriga, tiro as luvas, jogando na lixeira, lavo minhas mãos e passo álcool em gel. Imprimo uma imagem e dou a ela.
– Sara, vou pedir uma bateria de exames, exames de sangue, urina, fezes. – digo prescrevendo os encaminhamentos e também receito algumas vitaminas. Faço sua carteirinha de pré natal. – Essa é sua carteirinha, qualquer lugar que for você levará ela. Aqui conterá todos seus exames, seu peso, e toda evolução da gestação. – explico.
– Está bem doutor mas e a minha menininha como está? – pergunta olhando o ultrassom de perfil do feto.
– Ela está bem, se desenvolvendo como o esperado, está pesando 300 gramas mais ou menos, e medindo cerca de 15 cm. A placenta tá no lugar certo com a maturidade que é esperado. Seu líquido também está com a quantidade adequada. Alguma dúvida?
– Não, só isso – fala olhando admirada ainda o ultrassom.
– Então te vejo mês que vem. Não falte. – entrego as receitas e os encaminhamentos a ela.
– Obrigada Doutor e mais uma vez me desculpa se eu ofendi o senhor, as vezes eu falo sem pensar. – estende a mão pra mim.
– Sem problemas de verdade Sara – devolvo o aperto de mão. E acompanho ela até a porta. Abro a porta e vejo ela sair. Tem alguma coisa com essa garota, mas o que será?
Me recomponho e volto pra minha mesa, ainda tem outras pacientes me esperando.
Assim que abro a porta de casa Letícia minha irmã está sentada na sala com um monte de esmaltes espalhadas no sofá, ela está cutucando a unha, está usando uma touca esquisita na cabeça, e um treco preto na cara enquanto passa algo na televisão.
– Cruzes garoto, você tá com uma péssima cara. – minha irmã me zoa.
– Já se olhou no espelho? Sério Lelê que treco é esse no rosto? – pergunto me sentando ao seu lado.
– É máscara para tirar cravos, idiota. Só estou ficando mais bonita do que já sou – joga o cabelo pra trás drasticamente fazendo os fios acertarem meu rosto.
– Se você diz. Vou tomar um banho e cair na cama. Tô cheio de sono. – falo dando um beijo na sua testa.
– Tá vai lá. – diz voltando cutucar a unha, quando vou subir a escada, ouço ela me chamar. – Ah! Quase esqueci nosso querido irmãozinho vulgo Jorge. Disse pra você ficar esperto porque acha que o nosso sobrinho quer nascer. As contrações da Aline estão ficando menos espaçadas. – Letícia fala voltando a olhar a tv. Começo a subir as escadas e rezar pro meu sobrinho nascer depois que eu dormir pelo menos 5 horinhas. Entro no quarto e já vou logo tirando a roupa para tomar banho.
Espero que Sara faça todos os exames e tome as vitaminas. Ela parece ser meio desligada, se bem que ela ficou emocionada com a filha, talvez isso desperta um lado protetor e cuidadoso.
Saio do banho, me seco, coloco uma cueca qualquer que achei na gaveta e caio na cama.
[...]
Acordo com a Letícia me sacudindo.
– Vitor, Vi – me chama
– Hum – resmungo ainda de olho fechado.
– Jorge está tentando te ligar, a Aline está sentindo muita dor. Ele está desesperado porque não sabe o que fazer. – abro meu olho, merda! devo ter dormido pesado pra não ouvir meu celular.
– Tá, avisa ele que já vou lá pra casa dele. – falo me sentando. Ela sai do quarto e eu vou pegar uma roupa pra vestir. Olho meu celular cacete 5 ligações perdidas do meu irmão. Tô ferrado.
[...]
Paro o carro na garagem do meu irmão. E posso ouvir os gemidos da Aline daqui. Saio do carro acionando o alarme.
Abro a porta da casa dele. Minha cunhada escolheu um parto domiciliar na banheira.
– Vitor graças a Deus, eu só não te soco porque a Aline precisa de você. – fala me abraçando.
– Viu quis ser advogado. – falo rindo, e levo um tapa na cabeça.
Sigo ele até o quarto, onde a Aline está agachada apoiando as mãos na cama.
– As contrações como estão? – pergunto lavando as mãos.
– De cinco em cinco minutos com duração de 50 segundos – meu irmão fala, observando eu colocar as luvas.
– Oi Aline. Como você está? – pergunto enquanto pego o sonar fetal.
– Tirando o fato de que parece que meu corpo vai se rasgar no meio tô bem.
– Jorge ajuda ela a se levantar preciso checar os batimentos do Murilo. – meu irmão vem mais rápido que foguete ajudando a Aline subir na cama. Aline está usando um top preto e já está da cintura pra baixo nua. Derramo gel na barriga. E coloco o sonar em cima procurando os batimentos do bebê.
– Oi Murilo, os papais estão te esperando. – Aline fala assim que ouve o coração do filho e como resposta Murilo se mexe.
– Perfeito Aline, nosso meninão tá esperto. Vou checar sua dilatação. Da licença – Olho pro Jorge, que está atrás da mulher segurando sua mão.– 5 pra 6. – falo – Se quiserem chamar a equipe, Murilo vem nos conhecer hoje no mais tardar amanhã. – falo retirando as luvas. Não sei quem chora mais se é o meu irmão ou a minha cunhada. Meu irmão pega o celular e liga pra equipe que ele contratou para esse momento tão esperado.
– Vamos pra bola? Ajudar esse menino descer mais – Pergunto pra Aline e ajudo ela a se levantar. Cada passo é um gemido, ela senta na bola. Fico atrás dela fazendo massagem nas suas costas pra aliviar a dor.
– Obrigada Vitor, por ter acompanhado minha gravidez. Vocês foram as melhores coisas que aconteceu na minha vida. A melhor família pro meu Murilo nascer. – Aline agradece entre um gemido e outro, ela rebola na bola de Pilates, Jorge chega e coloca a playlist que eles prepararam pra esse momento, e apaga as luzes acendendo as velas. Saio pro meu irmão assumir minha posição.
E deixo eles terem o momento que é só deles, estou encostado no batente da porta olhando pros dois, quando minha irmã chega. E encosta do outro lado.
– É lindo né. – Letícia comenta olhando a cena.
– Demais, o amor é lindo, espero um dia encontrar alguém assim. – falo ainda encantado com a cena. Quando eu achei que tivesse conhecido minha cara metade. Ganhei um par de chifres.