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Meu nome é Lucy

Meu nome é Lucy

Autor:: Evy Maze
Gênero: LGBT+
Romance LGBT (Transgênero) Lucy nunca foi um garoto. Vivendo presa como um pássaro em gaiola dentro de seu próprio corpo, a garota tinha a sensação de sufocamento todas às vezes que ouvia lhe chamarem por Jeon Woojin. Sentia-se constantemente triste por não poder mostrar-se verdadeiramente ao mundo e, principalmente, à sua família. Porém, Lucy ainda sonhava em voar, em conquistar seu espaço no mundo e ser livre para ser quem realmente era. E foi pensando assim que ela não desistiu de lutar, passando por dezenas de problemas e enfrentando diversos preconceitos para alcançar o que mais desejava: sua liberdade e identidade.

Capítulo 1 Um

Essa é a história de vida de uma garota transgênero, então sejam bem-vindos e se sintam prontos para morrer de amor nas aventuras dela.

_______

Os sonhos nascem como nuvens no céu.

Era assim que Lucy via as coisas.

Andando com seus cabelos voando e batendo em seus olhos, ela via como eram belos os pássaros livres no céu.

Adorava ver aquela liberdade, como podiam ir para onde bem entendiam. Almejava poder viver dessa mesma forma, livre. Mas, infelizmente, parecia que em sua vida, as escolhas eram um pouco mais difíceis do que apenas saber se quer voar ou pousar numa árvore repleta de flores.

Sentia-se diariamente presa dentro de si.

Queria poder correr, livrar-se do peso, mas como o faria? Se em sua própria casa, o medo fazia com que cada vez mais sua personalidade e seu eu interior ficassem presos, vivendo sob uma capa de mentiras e achismo, apenas para agradar aquela que lhe deu a vida.

Fosse assim, viver livre. Poder usar suas saias e meias, como toda e qualquer garota de sua idade.

Lucy se odiava tanto, mas tanto, que chegava a chorar todas as manhãs, perguntando a Deus por que ele, como o ser mais perfeito e bondoso que sua mãe dizia que era todos os dias, havia feito isso com ela.

Ela sequer escolheu ser assim.

Mas, como todos os dias, aquele era mais um onde ela vestiria sua capa, transformando-se assim nele.

Jeon Woojin.

Ajeitando a gravata uma última vez em frente ao espelho, ela bufava e resmungava mais uma das milhares de vezes. Odiava o modo em como aquilo pinicava a pele de seu pescoço. Porém, era regra. O uniforme masculino tinha que estar completo, e ela, como ele, não poderia fazer nada.

ㅡ Woojin você irá se atrasar!

Foi o que ouviu de sua mãe, como todas as manhãs que gritava do início da escada.

Lucy atentou-se em se apressar, ou então realmente se atrasaria, perdendo o ônibus que sempre passava no mesmo horário e a companhia dele, que sempre a espera no mesmo lugar.

Engoliu uma pílula do hormônio que vinha tomando antes de descer e guardou o restante na caixa embaixo de sua cama.

Descendo as escadas, Lucy tentou ajeitar seus cabelos, pondo um pouco dos fios para trás das orelhas e vendo como eles sempre teimavam em voltar e a cair sobre seus olhos.

ㅡ Garoto, olhe a hora. ㅡ sua mãe diz, assim que chega a cozinha. ㅡ Woojin, que modo de pôr a gravata é esse? ㅡ Indagou apontando. Lucy desceu seu olhar, não entendendo ao certo o que estava errado. ㅡ Você não pode andar por aí assim, ainda mais ir para a escola. Você tem dezessete anos, já é um homem.

"Não, mãe, eu não sou."

Era o que Lucy pensava naquele momento, enquanto sua mãe a chacoalhava de um lado a outro, deixando a gravata totalmente alinhada.

ㅡ Ótimo. ㅡ sorriu olhando nos olhos da filha. ㅡ Nunca arrumará uma namorada desse jeito desleixado.

ㅡ Eu não quero arrumar uma namorada.

ㅡ É claro que quer, todo garoto da sua idade quer. Em breve você terá idade para se casar e ter uma boa mulher para cuidar de você e da sua casa.

ㅡ Por deus, Sun-ha, deixe o garoto em paz. ㅡ Jungso, pai de Lucy, adentra o cômodo falando. O homem olhou a filha e sorriu.

Era sempre ele a salvá-la das falações de Jeon Sun-ha.

ㅡ Obrigada, papai. ㅡ Lucy sussurrou sorrindo.

ㅡ Obrigado, Woojin, com O no final. ㅡ a mulher torna a falar. ㅡ homens usam obrigado, mulheres, obrigada.

ㅡ Ah, mãe... tchau.

A garota não estava mais a fim de perder tempo com bobagens, ainda mais vindas de sua mãe, que sempre tocava no mesmo assunto, de como precisava se portar e se organizar para arrumar logo uma garota.

Caminhava afoita a fim de chegar logo à esquina de sua rua, e quando chegou, ela sorriu, tão apaixonada como sempre tivera desde seus treze anos, vendo-o a sua frente, lhe esperando para seguirem para a escola.

ㅡ Woojin, está atrasado! ㅡ Park Ryeon gritou.

Park Ryeon... sua paixão.

Na verdade, era mais para seu amigo, apenas isso no literal, mas Lucy carregava uma paixão secreta pelo garoto desde os treze anos e se tornava mais forte a cada novo dia.

ㅡ Desculpa, Ryeon. ㅡ pediu, arrumando a alça de sua mochila ao parar de frente com ele. ㅡ podemos ir agora?

ㅡ Devemos, ou perderemos o ônibus.

Caminhando lado a lado, Lucy sorria para as bobagens que Ryeon contava que havia feito em seu final de semana.

Ele havia ido ao parque de diversões, e havia ido à montanha-russa sete vezes consecutivas, na última, vomitou em seus próprios sapatos.

ㅡ Você é louco. ㅡ exclamou Lucy.

ㅡ Sou radical, é diferente. ㅡ Ryeon a respondeu, sorrindo e sutilmente roçando seu braço no dela.

Eles caminhavam juntos, quase colados.

E era sempre assim.

Sempre que as peles se esbarravam, Lucy lembrava sempre da noite de sexta-feira no qual Ryeon fez seu coração pulsar tão forte que ela jurava que morreria aos treze anos.

Estavam ambos sentados sobre a cama do quarto azul pastel e sem graça de Lucy. Estavam comentando sobre um filme que haviam acabado de ver, e Ryeon sempre que sorria se jogava sobre as coxas dela, era uma mania sua.

Mania que Lucy adorava bastante.

Ela se sentia ainda mais próxima dele.

E naquele momento, Ryeon havia se jogado sobre ela, rindo de uma das cenas do filme que lembravam, e por um só segundo, o tempo simplesmente parou.

Lucy pôde sentir o modo que Ryeon parava de sorrir gradativamente e lhe encarava, mudando completamente sua feição.

ㅡ Posso te contar um segredo?

Foi o que Ryeon sussurrou, pertinho dela. O garoto tinha um sorriso sapeca nos lábios, o que a fez assentir, curiosa.

ㅡ Eu tive o meu primeiro beijo.

E como se facas adentrassem seu peito tão jovem, Lucy sentiu, pela primeira vez, a dor da desilusão.

Viu naquele momento como era tola. Começava a se reconhecer mais como menina, percebendo que jamais havia sido como todos lhe viam, e achava que Ryeon poderia reparar em si dessa forma. Da forma real.

ㅡ Mesmo? ㅡ Perguntou, fitando as mãos unidas sobre o colo

Sua garganta estava trancada, sequer sabia que doeria tanto ter tal percepção.

E o que faria? Xingaria o garoto por beijar uma boca que não era a sua? Não podia.

ㅡ E eu posso te mostrar como é... ㅡ Ryeon sussurrou outra vez, mordendo o lábio inferior.

E naquele momento, com Ryeon ainda próximo demais, ela realmente achou que morreria.

Seu coração pulsou fortemente, enquanto seus olhos se abriram. A dor que antes sentiu, foi tomada por nervosismo e seu corpo ficou ainda mais inquieto. Viu Ryeon sorrir ainda mais, se aproximando todo sorrateiro até si.

E ela não o afastou. Viu fechar os olhos e respirou fundo antes de fazer o mesmo.

Seria mesmo assim? Iria beijá-lo assim com tanta facilidade?

E sim, ela beijou.

Sentiu os lábios gordinhos de Ryeon pousarem nos seus com tamanha delicadeza, e ainda sem ter outros movimentos, Lucy suspirou em puro prazer.

Parecia como realizar um sonho, ou se quisesse ir além, a sensação parecia que estava correndo por um arco-íris, pulando em direção ao pote de ouro.

Ainda estava muito confusa, queria que Ryeon reparasse em si como menina, mas não pensou em beijá-lo até então.

Mas pouco se importou naquele momento, aquele ato se tornava o seu favorito dentre todos no mundo.

Queria beijar e beijar Ryeon, até seus lábios ficarem cansados e inchados.

Assim sentiu Ryeon ir além, pousando uma mão em sua nuca e adentrando os dedos nos seus fios curtos. O garoto também suspirava, e com timidez, pousou sua língua sobre o lábio inferior dela, massageando-o.

E Lucy gelou.

Não sabia o que fazer, mas já havia assistido filmes suficientes para saber que tinha que pôr sua língua na dele para poder ir além, e assim o fez.

Timidamente, como Ryeon havia feito consigo, Lucy tocou Ryeon com sua língua, sentindo a maciez e umidade de seu músculo, o recebendo e conhecendo.

E mesmo atrapalhado, o toque foi bom. Era interessante como o Park conduzia com almejo aquilo. Parecia como uma dança, e ele dançava muito bem.

E foi assim que a Jeon deu o seu primeiro beijo.

Ninguém os interrompeu naquele momento, para a salvação de ambos.

Não saberia reagir se Sun-ha visse algo assim, era capaz dela levá-la a uma igreja e pedir a um padre para exorcizá-la, pois, aquilo eram claramente atos demoníacos que dominavam os corpos humanos.

Mas Lucy não sentia que tinham demônios dentro de si.

Mas era isso que sua mãe falava todas às vezes que via um casal gay ou de qualquer outro da comunidade que não fosse à de padrão heterossexual.

Mas saindo de seus devaneios apaixonados de adolescente, Lucy viu Ryeon sentar-se no banco da parada do ônibus, alheio, de olho em seu celular, não lhe dando muita atenção.

Ela achava que ele nem lembrava mais daquilo, era mesmo uma boba.

Sentou-se ao lado, tamborilando os dedos no joelho, sem ter nada para fazer.

Não podia nem mexer em seu celular, esse sempre ficava em casa, pois sua mãe não permitia que ela o levasse para a escola.

ㅡ Você irá ao baile de encerramento? ㅡ ouviu Ryeon perguntar, guardando o celular no bolso.

Lucy negou.

ㅡ Não tenho tanto interesse nesse tipo de coisa, você sabe.

ㅡ Mas eu pensei que você fosse. ㅡ falou, comprimido os lábios. ㅡ não será animado sem você lá, Woojin!

ㅡ Até parece que você se importaria, Ryeon. Você vai estar muito ocupado com a Sun.

ㅡ A Sun só vai comigo porque não achou par e implorou. ㅡ virando de lado para encarar melhor Lucy, o garoto se aproximou devagar. ㅡ Eu pensei que nós dois fôssemos nos divertir...

Lucy deu de ombros, não querendo se iludir com nada que passava em sua mente no momento.

ㅡ Qual é, Woojin... Vamos, por favor... ㅡ pediu juntando as mãos.

ㅡ Não, Ryeon, não vou não.

ㅡ Por favor... A gente pode ir até o shopping e comprar ternos combinando.

ㅡ Somente namorados usam roupas combinando hoje em dia.

ㅡ Então vamos fingir que somos namorados? Desse jeito você vai comigo?

Lucy riu, negando falsamente enquanto seu próprio coração voltava a tamborilar.

Perguntava-se o porquê de seu coração ser tão fraco. Começava mais uma vez a bater forte, e não tinha resposta para dar a Ryeon, porque estava em choque.

Mas, para sua salvação, viu o ônibus dobrar a rua e ficou de pé no mesmo momento, fugindo da conversa.

Adentrou o transporte rápido, indo até às cadeiras do fundo e pôs a mochila sobre as coxas assim que sentou, puxando um pouco da gravata do uniforme que lhe pinicava.

Ryeon fez o mesmo trajeto, sentando ao seu lado, ainda sem uma resposta.

ㅡ Você estudou para o teste de física? ㅡ Lucy desdobrou o papo.

ㅡ Teste? Que teste?

ㅡ Eu não acredito nisso, Ryeon, você se esqueceu?

ㅡ Está falando sério mesmo?

ㅡ É claro que estou! A sua sorte é que ele é em dupla, você pode fazer comigo ou com o seu par do baile...

ㅡ Você não gosta mesmo da Sun, não é? ㅡ perguntou sorrindo.

ㅡ Eu nunca disse que não gostava dela, eu só não quero amizade.

ㅡ Ela disse que você é bonito. ㅡ falou olhando-a de soslaio.

ㅡ Problema dela.

A garota não gostava mesmo de falar da outra, poderia ser vista como egoísta, não ligava.

ㅡ Eu posso ir à sua casa hoje? ㅡ A perguntou, mudando de assunto.

ㅡ À noite? ㅡ assentiu. ㅡ só se ficarmos no quintal. Hoje minha mãe tem reunião com as "senhoras" do bairro.

ㅡ Minha mãe nunca vai a isso ㅡ falou, rindo baixo.

ㅡ Sorte da sua mãe. Elas só falam de como os filhos estão indo bem nas escolas, faculdades e sobre os empregos dos maridos. E ainda criticam as outras mulheres por não serem desse jeito.

ㅡ Ainda bem que a mamãe não vai mesmo a isso, ela iria mandar todo mundo à merda com facilidade... Até a sua mãe.

Lucy riu. Não duvidaria daquilo.

Fitou a janela, vendo as casas e logo o silêncio se instalou entre ambos. Lucy encostou a cabeça e admirou as pessoas que caminhavam com tranquilidade nas ruas.

Sentiu sutilmente sua mão ser segurada, e virou-se rapidamente, vendo Ryeon sorrindo com sua mão presa a dele.

ㅡ Quer escutar música comigo? ㅡ Perguntou, erguendo um dos lados do seu fone de ouvido.

A Jeon assentiu, sorrindo. Encaixou o aparelho na orelha e aguardou.

Ela tentou se concentrar no toque de head first que logo se iniciou, mas Ryeon ainda segurava sua mão, deixando seus dedos tão bem encaixados aos seus que deixava-a completamente ruborizada.

Mas Ryeon pouco parecia se importar, balançava os pés no ritmo da música e até brincava com os dedos juntos ao do seu amigo.

"Você me tem na palma da mão"

Era o que a letra da música dizia, mas Lucy sentia que era como uma indireta mandada diretamente do universo para si.

Park Ryeon a tinha na palma de suas mãos, de certa forma.

"Enrolado em seu dedo até as luzes se apagarem"

Lucy vagou seus olhos por Ryeon, vendo-o dedilhar o celular outra vez.

Ela queria tanto que ele a olhasse e a beijasse ali.

Era tudo o que ela pedia ao universo no momento.

"Alimentando adrenalina que está acelerando meu coração, você anda um pouco mais perto e eu sinto isso chegando".

E Lucy sentia. Sentia o coração pulsar mais, as borboletas em seu estômago, baterem asas e causarem-lhe rebuliços intensos.

E como uma pluma leve, enquanto ainda se perdia no rosto do outro, Ryeon virou-se para ela, não como antes, mas como uma primeira vez.

Seus olhos se cruzaram, fazendo faíscas nascerem de entre os corpos.

"Me atingiu como uma onda, estou caindo... você me hipnotizou, encantado. Enrolado em seu dedo até as luzes se apagarem."

"Você me tem na palma da mão."

"Você me tem..."

E naquele momento foi diferente. Não foi Lucy que se sentiu estranha, e sim Ryeon. O impulso que seu corpo tomou, levando-o para frente, fez com que a garota paralisasse.

Eram apenas centímetros de distância, e ambos respiravam pesadamente com anseios em seus corpos.

Os rostos estavam quase colados, compartilhando ainda a mesma música, e, provavelmente, o mesmo sentimento.

Os olhos se encaravam, mas eram suas bocas que se imploravam ali.

Ryeon desceu o olhar, fitando os lábios finos, bem desenhados e levemente rosados.

Lucy havia passado seu batom de pêssego naquela manhã. E como se tivesse o faro aguçado, o Park pôde sentir o aroma doce, e engoliu em seco, louco para prová-lo.

Mas Lucy teve que intervir. Mesmo que quisesse, não conseguiria beijá-lo ali, no meio de tantas outras pessoas.

Ergueu-se rápido do banco, fazendo o fone cair de seus ouvidos.

ㅡ É a nossa parada. ㅡ avisou, desviando os olhos.

Ryeon assentiu, sentindo-se envergonhado. Andou para fora do ônibus junto a ela, e quando adentraram a escola, se separaram apenas com um "Te vejo na sala".

E quando ficou sozinha, a garota pôde respirar profundamente por várias vezes, assimilando o que poderia ter acontecido.

Lucy tremia, caminhava com pressa. Correu até a sala de aula, direto para os braços do único que lhe entendia por completo até então.

Assim que adentrou o local, agradeceu aos céus por seu melhor amigo estar ali, sozinho, sentado na última cadeira da fileira da direita, próximo às janelas, como sempre ficava.

A Jeon correu, se atrapalhando nos próprios pés, jogando a mochila sobre a carteira para sentar-se enquanto seu amigo a encarava ainda sem saber o porquê de seu comportamento um pouco elevado. Lucy respirou fundo e falou de uma só vez:

ㅡ Estou ficando louca!

Capítulo 2 Dois

Lucy sentia-se atordoada.

Mas não era para menos. Havia passado por um momento que, ao seu ponto de vista, era quase enlouquecedor.

Havia quase beijado Ryeon. Quase...

Jaesun ainda a encarava, à espera de mais do que aquela curta frase, mas a garota apenas respirou de modo profundo e arregalou ainda mais os olhos.

ㅡ Por que está louca? ㅡ indagou, percebendo que ela não falaria.

ㅡ Por causa do Ryeon, é por isso!

ㅡ Ande, me explique melhor, não sou adivinho.

Jaesun voltou a relaxar sobre a carteira. Apoiou as mãos na banca e deitou a cabeça sobre, ainda olhando sua amiga.

ㅡ Ele pediu para dividirmos o fone de ouvido, e pediu para escutarmos música.

ㅡ Mas vocês sempre fazem isso.

ㅡ Sim, mas foi diferente, entende? Eu senti que ele... por um momento quisesse me beijar.

ㅡ Tipo, na boca?

Lucy apenas assentiu, passando a mão sobre seus cabelos e o jogando para o lado, ainda nervosa.

ㅡ E por que você não beijou? ㅡ Jaesun perguntou. ㅡ não é isso que você quer desde os doze anos?

ㅡ Treze. ㅡ corrigiu-o. ㅡ mas esse não é o caso, oppa. ㅡ falou aproximando-se para sussurrar. ㅡ Ele não sabe nada sobre mim.

ㅡ E nunca saberá se você não contar. ㅡ Jaesun sussurrou no mesmo volume. ㅡ Eu já te disse, eu te apoio, o Ryeon com certeza também te apoiará.

ㅡ Eu duvido disso... Ninguém apoia o que eu sou. ㅡ lamenta-se.

ㅡ Deixa de ser boba, eu apoio e não sou ninguém, sou seu melhor amigo. Mas você precisa falar, principalmente para os seus pais, e parar de tomar aquela porcaria sem prescrição. Uma hora ou outra ficará evidente, e o que você fará?

Lucy vinha tomando alguns hormônios escondidos que havia comprado pela internet, mas não fazia muito tempo, seu corpo estava praticamente igual a antes. Jaesun brigou e até tentou tomar e proibir-lhe de tomar aquele tipo de coisa sem acompanhamento médico. Mas sabia que não teria apoio de ninguém além dele. Se não fosse assim, como conseguiria prosseguir?

ㅡ Quando isso acontecer, oppa, eu já vou estar longe. ㅡ disse animada. ㅡ Serei eu mesma e serei dona da minha própria vida.

ㅡ Você sabe que sou contra a tudo isso. Digo, a fazer isso dessa maneira. Você é dona de si mesma de qualquer forma. Mas isso pode até te matar se for ingerido de forma irresponsável. Você nem comprar numa farmácia ou lugar apropriado. Compra por contrabando! Quem garante que é hormônio feminino mesmo?

Jaesun via nos olhos da garota que ela, de coração, não queria fazer desse jeito.

ㅡ Eu só não posso parar, oppa. Não posso...

O garoto suspirou. Aquele assunto não era novo, e sabia bem como a Jeon era insistente.

ㅡ Mudando de assunto. ㅡ voltou a sentar melhor sobre a cadeira ㅡ Você viu o Mark?

ㅡ Aqui? ㅡ referiu-se à escola. O garoto assentiu. ㅡ entrei correndo, Jae, não notei quem estava pelo caminho.

ㅡ Eu queria perguntar se ele vai ao baile... ㅡ murmurou.

ㅡ vai convidar ele?

ㅡ E levar o fora do garoto novato, que é nerd e gato demais? Não Lu, eu não vou, não. Mas pensei que me aproximando, a gente poderia conversar no baile. Isso se ele não for com um par grudento demais.

ㅡ Jae, você fica suspirando por ele sempre que ele passa por aquela porta. Você precisa chamá-lo!

ㅡ É? E por que você também não chama o Ryeon?

ㅡ É diferente.

ㅡ Não é nada.

ㅡ É sim. O Ryeon não sabe de nada.

ㅡ Eu não sei do que?

E naquele momento, Lucy gelou.

Ela nunca havia virado tão rápido para olhar para alguém, como fez com Ryeon.

ㅡ Nada. ㅡ disse desviando o olhar, mexendo em sua mochila, louca para que Ryeon seguisse para seu rotineiro lugar ali, onde sempre ficava atrás de Jaesun.

Mas, naquele dia, parecia que todo o universo brincava com a sanidade mental da garota, pois seu coração quis saltar por sua boca assim que percebeu que Ryeon depositava a mochila calmamente na carteira ao lado, sorrindo para si ao sentar-se.

ㅡ Olha lá. ㅡ Jaesun cutucou a amiga, suspirando.

A garota ergueu o olhar, vendo que Mark adentrando a sala.

Seus cabelos devidamente penteados e castanhos entregavam toda a sua beleza extraordinária, assim como era também a sua inteligência.

Jaesun suspirou mais uma vez, apoiando a bochecha sobre o punho direito.

Mark ajeitou seus óculos no rosto e sorriu em direção a eles, abaixando o olhar em seguida, e sentando-se a cadeiras de distância, sempre perto demais da lousa.

ㅡ Eu vou me casar com ele. ㅡ balbuciou Jaesun.

Lucy somente sorriu, ouvindo em seguida a risada baixa de Ryeon. Ela olhou de soslaio para o amigo e viu como suas mãos pequenas batucavam sobre a mesa no mesmo ritmo da música em que haviam escutado no ônibus.

A música que a partir daquele momento Lucy já intitulava como a deles.

Mesmo que não existissem "eles" no mundo.

A professora adentrou a sala, retirando Lucy de seus devaneios. Foi rápida em pedir para que todos pegassem seus livros e abrissem na página correta.

Estudariam a biologia humana aquela manhã.

ㅡ Mas não podia ser outro assunto? ㅡ Lucy reclamou para si mesmo, buscando a página do livro.

ㅡ Falando sozinho? ㅡ Ryeon perguntou, inclinando-se um pouco até que tomasse para si a atenção da garota.

ㅡ São só besteiras na minha mente. ㅡ respondeu baixo.

ㅡ Tem algo diferente em você, Woojin, mas eu não sei.

A garota não queria dar bola para aquilo, mas Ryeon permanecia a olhando, e seu corpo arrepiava-se somente em notar aquilo.

ㅡ Tipo o quê? ㅡ perguntou sem olhá-lo.

ㅡ Não sei. ㅡ disse Ryeon, ainda a olhando. ㅡ Talvez o cabelo? ㅡ Tocou sutilmente os fios compridos. ㅡ estão tão bonitos... você está deixando crescer, eu gostei.

Lucy sorriu pequeno, fitando os cabelos sobre os ombros. Encarou Ryeon ainda os tocando e desviou o olhar, sentindo-se atingida por tudo nele.

ㅡ Preste atenção, ou a senhorita Hyejin irá reclamar. ㅡ pediu, voltando sua atenção para o livro.

Lucy foi prática, fazendo Ryeon soltar seus cabelos antes que ela desmaiasse ali mesmo.

Ele fez como havia sido pedido. Endireitou-se na cadeira e focou na leitura que era iniciada no momento.

Sozinha, a garota liberou o ar preso em seus pulmões. Percebia o sorriso de Jaesun logo atrás de si, não era preciso nem olhá-lo, mas ela fez questão de olhá-lo para constatar. O Kim tinha as sobrancelhas arqueadas e olhava de si para Ryeon.

Tentou não ligar, voltando para a leitura.

Precisou focar-se com almejo, até que seu pensamento tivesse focado somente no que interessava ali, o estudo.

Não podia perder-se com besteiras, sua única saída da vida que tinha era a bolsa integral em Seul, e está, ela tentaria conseguir com toda a garra.

[...]

ㅡ Você vai ficar só nessa, Jaesun? ㅡ Ryeon perguntou enquanto comia seu sanduíche de geleia de pêssego.

Não aguentava mais ver o amigo suspirar pelos cantos, completamente apaixonado por o novato, e não entendia o porquê dele não ter ido até o mesmo ainda.

ㅡ Quando você quis dar uns beijos no Kuan, você foi direto nele, não foi? ㅡ Lucy bradou, mordendo seu biscoito seco de aveia.

Odiava aquilo.

Mas segundo sua mãe, uma boa alimentação é o que faz o ser humano.

Balela, ela queria estar comendo do sanduíche de Ryeon, e se possível, com Ryeon, como a cena da dama e o vagabundo, onde dividem o espaguete.

ㅡ Ouvi meu nome?

Todos os três sentados à mesa ergueram o olhar e encontraram o rapaz parado ali.

Jaesun revirou os olhos, adorava implicar com Kuan.

ㅡ Sim, falávamos de você e como você é um saco. ㅡ brincou.

ㅡ Isso ainda é amor, não é? ㅡ Kuan sorriu, sentando-se bem ao lado do outro.

ㅡ Onde está seu namorado? ㅡ perguntou olhando-o.

ㅡ Vem já ㅡ deu de ombros, e retirou um pote com laranjas cortadas em rodelas.

Jaesun achava aquilo uma frescura.

ㅡ Olha lá, Jae, você vai perder.

Ryeon falou brincando, mas para Jaesun era mais do que sério.

Via como Sun se inclinava e ria tocando sobre o ombro de Mark.

Jaesun quis cuspir fogo.

ㅡ Será possível que ela quer todo mundo? Não é sua namorada, Ryeon?

ㅡ Ela não é nada minha não. ㅡ defendeu-se.

ㅡ Qual é a do novato? ㅡ Kuan perguntou, fitando Mark e a garota.

ㅡ Jaesun quer casar com ele. ㅡ Lucy explicou e apenas viu seu amigo assentir, ainda vidrado na cena logo à frente.

ㅡ E por que você ainda não chegou nele? Você chegou em mim quando me quis.

E novamente, Jaesun revirou os olhos.

ㅡ É diferente, Kuan. Você não é... Aquilo tudo. ㅡ suspirou novamente.

ㅡ Me senti ofendido, fique sabendo disso ㅡ falou colocando mais um pedaço de sua laranja na boca ㅡ Se eu não tivesse com o Daniel, pegava o grandão só para te desbancar.

ㅡ Eu quebrava as suas canelas. ㅡ respondeu enraivecido, fazendo Kuan apenas sorrir, não dando muita bola.

O horário de descanso seguiu assim, como sempre era. Havia falatórios, brincadeiras bobas, e até brigas.

Ryeon a todo o momento tentava falar com Lucy, e ela até tentava focar-se, mas via a boca dele, e pensava no que havia acontecido mais cedo.

Queria poder ser a garota que é, pois, com certeza estaria beijando Ryeon naquele momento, sem que a achassem repugnante ou que ele saísse correndo.

Seguiram para o tempo restante de aula, tendo enfim aulas de matemática.

Jaesun nunca havia gostado tanto de matemática como estava naquele semestre. Segundo ele, o universo enfim estava sendo bom consigo, colocando-o como o par de Kim Mark naquela matéria.

Lucy observava o jeito que seu amigo sorria torto e abaixava por diversas vezes o olhar, completamente desnorteado com o outro tão perto.

Ela achava engraçado, ver Jaesun tão determinado para algumas coisas, e tão molenga para outras.

Mas sua atenção sempre mudava, e não era para o exercício incompleto em seu caderno.

Sua atenção sempre ia para Ryeon e Sun, logo à frente.

Lucy nunca gostou muito da garota, ela era um tanto irritante, e parecia que esse sentimento só crescia a cada novo momento que ela os presenciava juntos.

ㅡ Qual a necessidade de misturar letra e número? ㅡ Daniel, o par de Lucy, reclamava olhando a equação como se fosse um monstro.

ㅡ É para complicar tudo, 'tá ligado? ㅡ Kuan, que estava logo atrás do namorado, respondeu. ㅡ Quer fugir para dar uns beijos?

ㅡ Nem ouse! ㅡ Lucy foi quem respondeu, segurando o braço do parceiro, quando este já se levantava. ㅡ Precisamos terminar isso, ou eu paro de fazer com você, e você toma um zero imenso.

O garoto quis reclamar, mas não tinha mesmo o que fazer, então bufou, voltando a encarar o caderno, enquanto Kuan reclamava mais que idoso em fila para comprar pão.

Quando todas as aulas chegaram ao fim, Lucy sentia-se um pouco aliviada.

Sentia-se bem por terminar mais um dia no colégio, mas sentia-se mal por ter que voltar para a casa.

ㅡ Eu te odeio, Jaesun. ㅡ falou, quase choramingando.

ㅡ Desculpa, mas é meu pai. Eu tenho que ir para a casa dele hoje.

ㅡ Porque os seus pais tinham que se separar justo agora?

O amigo apenas riu, abraçando-a para se despedir.

Então ela o viu ir, e seguiu sozinha até o ponto de ônibus.

ㅡ Ei, me espera!

Lucy ouviu a voz de Ryeon e o viu correndo como louco em sua direção. Não queria, mas sentiu-se bem por um instante em saber que voltaria com Ryeon.

Quem sabe não ouviam música novamente, não é?

ㅡ Não me esperou por quê? ㅡ O garoto perguntou ofegante, acompanhando os passos lentos dela.

ㅡ Porque você estava conversando com o seu par do baile, eu não queria interromper.

ㅡ Que bobagem. Mas se quer saber, nós estávamos falando justamente sobre o baile. Nós não iremos mais juntos.

ㅡ Como assim não vão? ㅡ Lucy freou os pés, tão bruscos, que fez com que Ryeon batesse em si.

O que aquilo queria dizer?

ㅡ Que eu e ela não vamos mais ㅡ disse alisando seu braço, que doía devido à batida. ㅡ Ela disse que achava que gostava de mim, mas percebeu que não gostava.

ㅡ Mas e você?

Lucy não queria, mas perguntou num impulso.

E se Ryeon gostasse da outra?

ㅡ Eu 'tô de boa, não gosto dela nesse sentido. ㅡ deu de ombros. ㅡ e ela quer o intelectual.

ㅡ Quem? ㅡ franziu o cenho novamente.

ㅡ Mark. Ela disse que acha que está apaixonada por ele, então ia tentar chamá-lo para o baile.

ㅡ Jaesun terá um troço se isso acontecer antes dele ter coragem para chegar no Kim. ㅡ respondeu negando, continuando a andar. ㅡ ele quer muito o chamar para o baile.

ㅡ Eu pensei a mesma coisa, e quer saber? Mark ainda não foi convidado pela Sun, Jae ainda tem suas chances.

ㅡ Mas nem sabemos se Mark curte homens... Jaesun poderia levar um fora.

ㅡ É um risco, não? E não precisa gostar de alguém para se ir a um lugar com a mesma. Eu, por exemplo, iria ao baile somente com você.

Isso queria dizer que Ryeon não gostava dela?

ㅡ Mas eu gosto de você. ㅡ Ryeon continuou sua frase, fazendo a garota olhá-lo.

ㅡ G-Gosta? ㅡ perguntou vendo Ryeon sorrir e assentir, e em seguida, abaixou o olhar não podendo se conter.

ㅡ Claro que gosto. Você gosta de mim também, não é, Woojin?

Lucy sentiu o arrepio que lhe subiu dos pés à cabeça. Não podia dizer a verdade, que ela gostava muito de Ryeon, tanto, que queria se tornar namorada dele um dia. Mas, ela não sabia também qual o sentido da pergunta. Ryeon poderia estar falando apenas do gostar entre "amigos".

Ledo engano.

Lucy não fazia mesmo ideia do que acontecia à sua volta.

Mas, como tudo em sua vida, ela não podia simplesmente ser ela e responder um simples: "Sim, Ryeon, eu gosto". Tinha um roteiro, um padrão para seguir.

E para não deixar com que ele soubesse de si e lhe odiasse, ela procurou a saída.

E esta, estava bem à sua frente, parando no ponto de ônibus e permitindo que o último passageiro embarcasse em si.

Lucy arregalou os olhos e apontou, fazendo com que Ryeon olhasse também.

Ambos correram, gritando e acenando para que o motorista responsável os esperasse.

E para a sorte, aquele era um dia bom.

Ambos embarcaram ofegantes, risonhos demais.

Pagaram com seus passes estudantis e caminharam até a última fileira.

Ryeon desta vez sentou-se ao lado da janela, logo buscando seu celular para pôr outra vez música. Lucy esperou ansiosa, e sorriu quando ele apenas esticou um dos lados em sua direção.

Ouviam Falling, e Lucy arrepiou-se ao lembrar-se da letra forte que Harry cantava.

Ouvia sempre que sentia seu mundo afundar. Sempre que pensamentos ruins lhe assombravam.

Fechou os olhos, navegando na imensidão nublada de sua mente empilhada de coisas ruins.

Sentiu-se amarga de imediato.

Por que tudo era tão difícil para si?

Sabia que queria chorar a cada segundo que passava, era sempre assim. Afundava seu rosto nos travesseiros brancos, e os deixava com rios cinzas e azuis, mostrando o caminho que a sua dor em forma de líquido foi expelida.

Mostrando como as marcas novas de lágrimas ficavam sobre as antigas.

Então veio o refrão que mais a tocava.

What if I'm someone I don't want around?

"E se eu for uma pessoa que não quero por perto?".

ㅡ Eu sou mesmo uma pessoa de verdade?

Perguntou baixo, em um sussurro para si mesma. Negou, sabia que não era, mas Ryeon lhe ouvia, e sem que percebesse, a observava também.

Sentia a dor nos pequenos movimentos que o rosto belo dela fazia bem, e encabulou-se, sem saber como agir.

ㅡ Eu gosto mesmo de você. ㅡ falou, fazendo Lucy suspirar e abrir os olhos lacrimejados.

A garota sorriu.

ㅡ Você não gosta, Ryeon.

Foi a única coisa que ela disse.

Pois, em seguida, se ergueu, pedindo para que o ônibus parasse, mesmo que ainda não fosse a sua parada.

Ryeon seguiu todos os movimentos com os olhos, e viu, através da janela, a garota ir.

Andava com a cabeça baixa, com seus cabelos teimosos cobrindo parte das bochechas, e suas mãos segurando as alças da mochila.

Queria ir atrás, mas não teve coragem.

Não entendeu o que havia acontecido, e nem porque quis tanto dizer aquilo, mas entendia que seu coração estava pesado, e isso era culpa apenas de Woojin.

Lucy caminhou sentindo-se tonta. Queria transcender, mas somente retrocedia.

Tomava tanto dos remédios escondidos, mas ainda continuava presa, dentro daquela carcaça na qual não se agradava nem por um segundo.

Viu o ônibus passar por si, e não quis erguer o rosto para fitar Ryeon, pois sabia que o garoto ainda estaria a olhando.

Era melhor assim, não? Ela estava se afastando.

Afastando todo o erro de perto de Ryeon.

Bufou quando sua barriga roncou. Tinha a mania de, assim que chegasse em casa, correr para trocar-se e enfim se alimentar.

Mas, por sua decisão, lá estava ela, caminhando por vinte e cinco minutos sob um sol de rachar.

Tirava a todo o instante os cabelos grudados de sua testa, mas não adiantava muito.

Viu o alívio quando dobrou a esquina de casa, tendo apenas cinco casas lhe separando de sua cama e de um delicioso prato com macarrão, mas gelou, quando viu que Ryeon estava sentado sob os degraus de cimento da entrada.

Lucy engoliu em seco, mas continuou a andar. Não podia desviar ou voltar, ele já sorria covardemente lindo para ela.

ㅡ O que aconteceu? ㅡ Ryeon perguntou, ainda distante dela.

ㅡ Não quero falar sobre, Ryeon. ㅡ apenas respondeu, parando em frente a ele. ㅡ O que você faz aqui?

ㅡ Eu disse que viria para a sua casa depois da aula, se esqueceu? Você concordou e tudo, e disse que poderíamos ficar no quintal...

Lucy fechou os olhos por breves momentos, se praguejando por ser tão descuidada. Como queria afastar Ryeon assim, se ela mesma dava ideias para que sua cabeça planejasse um tempo perfeito com direito a beijos e tudo?

Mas despertou quando seu cenho franziu, vendo como Ryeon a encarava de forma ansiosa.

ㅡ Você disse que era só à noite, não? ㅡ indagou, confusa.

Ryeon sorriu totalmente sem graça enquanto seus dedos bagunçaram os cabelos de sua nuca.

ㅡ Ok, eu só fiquei preocupado com você... vim aqui para saber de você. Saber porque saiu daquele jeito.

Lucy só deu de ombros, sequer ela saberia explicar suas decisões.

ㅡ Só me diga que está tudo bem e então irei para a casa. Só me preocupa te ver tão triste ultimamente.

ㅡ Estou bem.ㅡ disse, apertando mais as alças da mochila, ainda com o olhar de Ryeon sobre si. ㅡ você pode ir para a casa...

Ryeon suspirou, demorando-se mais, apenas lhe observando

ㅡ Tudo bem.ㅡ ele disse no fim, buscando sua mochila do chão. ㅡ Posso te falar algo antes de ir?

Lucy assentiu, percebendo o modo em como, vagarosamente, Ryeon se aproximou.

ㅡ Seu cabelo está realmente bonito. ㅡ Tocou sutilmente uma mecha fria, molhada de suor, colocando-a atrás da orelha, e deslizando sutilmente o dedo por ali. ㅡ assim como você também está.

Lucy instantaneamente corou, abaixando o olhar e fazendo com que Ryeon sorrisse de si.

ㅡ Até mais, Woojin. ㅡ disse livrando-se, caminhando à frente.

A garota o viu ir, caminhando calmamente. Olhando para trás apenas algumas vezes antes de dobrar a esquina da rua.

Queria entender como funcionava Ryeon, mas tinha a certeza que o garoto era complexo demais.

Tão completo quanto ela. Era demais para si.

[...]

Enquanto terminava de escovar os dentes, Lucy olhava como estava seu cabelo.

Havia ousado, permitindo colocar duas presilhas de cor rosa e roxa sob a mesma mecha que Ryeon havia segurado mais cedo, e havia sorrido ao perceber como ficaram bonitas ali.

Cuspiu o último filete de saliva e creme dental, e limpou sua boca, passando água por todo o rosto também.

Sentou-se em sua cama e observou as horas no celular. Ainda eram seis e quarenta, Ryeon viria às sete, e já era possível ouvir sua mãe com suas "amigas" na sala, falando se coisas importantes, como o novo carro da vizinha debaixo.

A mulher havia se mudado há pouco tempo, e trabalhava num escritório "masculino".

Que absurdo era para Sun-ha, uma mulher trabalhar em meio aos homens.

Seu lugar, segundo ela, era em casa, cuidando de um marido, e talvez de filhos, mas não vivendo de aventuras de modo livre, isso jamais.

Lucy enojava-se dos pensamentos arcaicos.

Era uma mulher muito diferente da que havia lhe dado à vida, e isso ia muito além do que apenas o gênero de nascimento.

Buscou a pequena bolsinha que guardava debaixo de sua cama, e buscou suas maquiagens ali.

Ajeitou as sobrancelhas e passou batom, o mesmo de sempre.

Atreveu-se a fazer algo nos olhos, como um delineado, mas enquanto lia as embalagens, vendo se era o de cor preta ou marrom, viu sua porta ser aberta com força, evidenciando seu pai ali.

A garota deu um salto com o impulso do susto, e fechou os pulsos, tentando esconder o que carregava, mas os olhos do homem já estavam ali, percebendo com clareza do que se tratava.

ㅡ Vim avisar que Ryeon está lá embaixo. ㅡ disse desviando o olhar para os olhos assustados da filha.

ㅡ Tudo bem, estou descendo.

O homem assentiu, virando-se para ir, mas parou na porta, ficando daquele modo por segundos afins, até que seu corpo vira e seus pés o levam até Lucy.

ㅡ Está tudo bem. ㅡ disse olhando-a de modo suave. ㅡ entende?

Lucy o encarou de início, não entendendo o que dizia. Mas viu-o apontar, fazendo-a perceber que aquela conversa se tratava da maquiagem que tinha nas mãos.

ㅡ Eu não me importo com nada disso, ainda vou te amar. ㅡ Jungso falou verdadeiro.

ㅡ Papai, o que quer dizer? ㅡ tomou o impulso de perguntar, vendo como o homem parecia aflito.

ㅡ De ser gay, eu ainda vou te amar, Woojin.

Lucy não deveria, mas riu, negando enquanto caminhava até ele para o abraçar.

ㅡ Já tivemos essa conversa antes, não foi?

ㅡ Sim, mas é só uma coisa no qual quero que saiba.

ㅡ Papai, eu não sou gay.

ㅡ Não se preocupe com sua mãe, eu converso com ela se precisar e quiser.

Lucy mais uma vez sorriu e negou, não se permitindo falar mais algo, pois sabia que não mudaria nada.

ㅡ Avise a Ryeon que estou indo, tudo bem?

ㅡ Tudo bem. ㅡ respondeu, deixando um beijo sobre a testa dela e saindo.

Lucy sempre sentia-se acolhida, quente, e feliz quando estava perto de seu pai.

Sabia que ao menos com ele, poderia contar sempre.

Desistiu do delineado, e apenas correu para passar do seu perfume doce.

Passou mais do que necessitava, mas não se importou. Ajeitou o casaco que usava e viu como ele ficava bonito junto à calça folgada e cinza que cobria suas pernas cumpridas.

Saiu saltitante de seu quarto, indo o mais depressa que podia, e encontrou Ryeon encarando a enorme árvore no centro de seu quintal e sorriu para aquilo.

ㅡ O que foi? ㅡ perguntou sentando no balanço de pneu bem abaixo do galho grande que sustentava dezenas de flores.

ㅡ Essa árvore é assustadora ㅡ respondeu, ainda olhando. ㅡ ela me lembra das árvores de filmes de terror.

ㅡ Deixa de bobagem, Ryeon. É uma árvore bonita.

Ryeon sorriu, desviando os olhos para Lucy e admirou como a pele se iluminava bem com a luz do luar.

ㅡ Eu vim te pedir desculpas. ㅡ é o que ele diz, sentando-se no chão, bem em frente a ela.

ㅡ Desculpas?

ㅡ Eu não sei o que fiz mais cedo, mas se te assustei ou magoei, eu quero dizer que foi sem intenção...

Lucy negou, não sabendo de início o que dizer.

Não queria que Ryeon se culpasse de suas bobeiras. Era ela o problema, somente ela.

ㅡ Você não fez nada ㅡ respondeu baixo, impulsionando os pés para que o balanço começasse a se mover sutilmente. ㅡ Eu só precisava respirar um pouco.

ㅡ Você quer conversar um pouco? ㅡ Ryeon tinha os olhos cravados nela. Suas pernas dobradas balançavam de leve, evidenciando o quão angustiado ele também estava.

ㅡ Eu não quero, oppa...

Ryeon apenas assentiu, permanecendo quieto ali, observando-a em suas nuances.

ㅡ Tem algo a mais para falar? ㅡ a garota perguntou se erguendo. Sentia-se envergonhada quando Ryeon lhe olhava como estava olhando aquele momento. Ele sempre parecia que buscava seus detalhes.

O Park também se ergueu, focado demais sobre o rosto dela. Aproximou-se mais, ficando apenas alguns centímetros dela e negou.

E Lucy precisou suspirar.

Por que tão próximo, e tão difícil?

Encaravam-se de uma forma tão intensa que não entendiam o porquê não se aproximavam mais. A força entre aqueles corpos era tão grande que parecia existir um enorme ímã ali, mas era somente a tensão.

ㅡ Por que eu não consigo parar de querer ficar perto de você? ㅡ Ryeon perguntou num sussurro baixo, fazendo o corpo dela tremer.

Lucy engoliu em seco, não contendo seus olhos dos lábios gordinhos do outro. Queria tanto beijá-los e senti-los mais uma vez.

Sentir como as nuvens passeiam pelo céu, assim como sua língua passeou um dia pela dele.

Mas, antes que qualquer movimento fosse feito, ou palavra fosse dita, a porta de trás foi aberta, fazendo ambos darem um sobressalto, observando quem estava ali.

ㅡ Meninos, entrem, não é bom que fiquem aqui sozinhos.

Era uma das amigas e vizinhas de Sun-ha, uma das que amava fofocas.

Ryeon sorriu brevemente para ela, não sabendo o que dizer e apenas assentiu. Lucy segurou firme o pulso de seu amigo e caminhou para dentro, passando rapidamente pelas mulheres e indo de volta para seu quarto.

ㅡ Mamãe realmente não se encaixa nisso ㅡ foi o que Ryeon disse aos risos, subindo as escadas.

A garota concordou. Com certeza a senhora Park não se encaixava naquilo.

Soltando o pulso do outro já no andar de cima, Lucy abriu a porta e passou primeiro. Ryeon já conhecia bem o lugar, não era a primeira vez dele ali, então apenas seguiu-a e fechou a porta.

A garota sentou-se sobre sua cama, dobrando as pernas e sentindo o coração pulsar. Viu Ryeon caminhar e parar a sua frente, sentando-se da mesma forma, e entrando em um absoluto silêncio.

Lucy sentia-se estranha.

Na verdade, sentia que tudo estava estranho.

Olhou para seus próprios pés, mas desviou o olhar para os de Ryeon. Seus dedos estavam encolhidos, mas brincavam uns nos outros e por vezes com o tecido azul da colcha.

Ela mordeu o lábio inferior, não sabendo o que falar ou perguntar, mas viu Ryeon se inclinar e sorrir.

ㅡ O que é aquilo? ㅡ perguntou apontando para baixo.

Lucy olhou em direção e viu que Ryeon apontava para a sua caixa de segredos. Arregalou os olhos, com medo, mas antes que dissesse algo, viu o garoto se inclinar e capturá-la com suas mãos.

ㅡ Não é nada ㅡ disse rápido, esticando-se para pegar, mas Ryeon sorriu, levando aquilo na brincadeira, e abriu-a sem ao menos se importar.

Seus olhos foram rápidos de encontro ao tecido preto e fino logo acima. Fitou o potinho transparente com pílulas coloridas, mas Lucy buscou-o e escondeu-o com rapidez. Ryeon fitou-a com o cenho franzido, mas foi levado pela curiosidade, tocou o tecido e puxou-o, erguendo e analisando.

Era um vestido.

ㅡ De quem é isso?

Lucy se desesperou, puxando-o para seu peito, a fim de esconder aquilo junto a suas pílulas.

Mas Ryeon não entendeu, e viu que como aquele vestido, havia outros naquela caixa. Puxou-os sem rumo, vendo as peças em suas mãos, analisando as saias e sutiãs.

Não sabia o que pensar, mas viu como Lucy os puxou rápido de seus braços e devolveu a caixa, fechando-a e devolvendo ao mesmo lugar.

ㅡ De quem é isso? ㅡ Ryeon não sabia nem o que pensar. ㅡ Que remédio era aquele?

ㅡ Está na hora de você ir, Ryeon ㅡ disse, ficando de pé e caminhando até a porta.

ㅡ Woojin! ㅡ Ryeon ficou de pé, e foi até onde a garota estava, mas viu o modo em como ela desviou o olhar, não querendo encarar-lhe. ㅡ O que é tudo isso?

ㅡ Ryeon, por favor...

ㅡ Você tem uma namorada, é isso?

ㅡ Claro que não...

ㅡ Então porque não me conta nada? Não confia em mim?

ㅡ Você não entenderia ㅡ respondeu baixo, engolindo o bolo que já se formava. ㅡ Por favor, vá.

ㅡ Woojin... aquilo é seu? ㅡ Ryeon tentou entender, tentou fazê-la lhe contar enquanto seus dedos iam de encontro à bochecha cor de marfim que ela tinha.

ㅡ Não ㅡ Mas Lucy negou, não suportava ouvir Ryeon a chamar daquele jeito, perguntando aquilo, doía demais porque saberia que nunca entenderia. ㅡ Não quero falar sobre isso, apenas vá embora, por favor.

ㅡ Mas...

ㅡ Apenas vá, Ryeon. ㅡ tocou-lhe no pulso outra vez, mas diferente de antes, o puxou em direção à porta. ㅡ Depois a gente se fala.

E antes que o garoto pudesse falar qualquer outra coisa, já estava do lado de fora e a porta era fechada.

Ryeon ficou por segundos perdido ali, apenas encarando a porta, sem entender nada. E do outro lado, a garota já entrava em mais uma de suas crises de choro.

Perguntava-se até quando viveria daquele modo, às escondidas e em fugas.

Até quando viveria sem ser ela mesma?

Caminhou até sua cama, com seu rosto já banhado por lágrimas. Buscou o vestido no qual foi visto por Ryeon e colocou-o sobre o corpo.

Lembrou-se de quando juntou suas economias e comprou-o às escondidas.

Não pôde provar no momento, pois disse para a vendedora que lhe atendia que seria para sua irmã mais jovem, mas assim que chegou em casa, trancou-se e vestiu-o, sentindo-se livre, enquanto estava presa no quarto.

Minutos depois chorou, do mesmo modo como fazia naquele momento. Sabia que não teria momento ou liberdade para vesti-lo, então aquele seria somente um pedaço de tecido para lembrar-lhe de tudo.

Sentiu vontade de rasgá-lo e queimá-lo, amargurada por tudo o que lhe enchia, mas juntou-o junto às saias e dobrou-os com cuidado, fungando e se lamentando, sentindo como cada um ali tinha um breve significado de momentos certos em sua vida.

Após guardá-los e devolvê-los a seu lugar escondido, ela deitou sobre a cama e cobriu-se por completo, limpando enfim as lágrimas.

Suspirava aliviada, recuperando sua respiração, mas ainda sentia sua mente turbilhonar com todas as suas dores.

Quando... Quando ela seria livre, então?

Será que algum dia?

Lucy sentia que seria mais fácil morrer, do que conseguir ser livre.

Capítulo 3 Três

Lucy não sabia o que de fato estava fazendo.

Sentada sobre a beira de sua cama, ainda olhava a caixa que há três dias, Ryeon havia visto.

Ainda não tinha encarado o garoto, pois não sabia como iria reagir, então havia inventado que sentia dores de cabeça durante todos aqueles dias, e assim evitava ir à escola.

Seu pai todas as manhã ainda batia à sua porta e sentava na sua cama, implorando para que ela falasse o que estava acontecendo, porque ele sentia que tinha problemas ali. Mas ela ainda sentia medo, e não sabia como contar algo de si para ele, e como se fosse para piorar tudo, suas pílulas diárias de hormônios haviam acabado.

Falava com Jaesun ao celular, sua voz rouca e fraca lamentava.

Seu fornecedor estava sem estoques.

ㅡ Isso parece Deus mandando uma mensagem para você, sabe? Eu já te disse, para de tomar essas coisas sem prescrição!

ㅡ Aigoo. O que quer que eu faça, Jae? Eu preciso tomá-los caso queira ser eu.

ㅡ Lu, entenda, você é você com ou sem os remédios. Tomá-los da forma errada que você está fazendo, só vai te deixar mal. Eu te mandei a médica que eu consegui, por que você não vai lá?

ㅡ Eu liguei lá, mas é muito caro. Eles cobram cinquenta mil won por consulta.

ㅡ Você gasta duzentos a cada novo frasco de remédios. Não se faça de vítima.

ㅡ Não é se fazer de vítima, é ter desespero. Eu não aguento mais viver sufocada do jeito em como vivo, eu preciso ir a Seul, e eu não quero ir como Woojin. Eu nunca fui Woojin!

ㅡ Tudo bem, Lu, eu te entendo. Mas, por favor, vamos numa consulta? Eu pago a primeira, e depois vemos como tudo fica.

A garota não queria recusar. Ela sabia que aquilo era bom para si, mas sentia na pele o desejo de tomar os remédios e ansiar ㅡ como já ansiava ㅡ por um dia acordar como a garota que é.

ㅡ Eu vou pensar.

ㅡ Pense, e, por favor, fale comigo.

ㅡ Tudo bem.

A ligação foi findada, e a garota apenas se jogou de volta à cama. Agradecia por sua mãe ter saído para fazer as compras de alimentos da casa, então aquele momento estava sozinha.

Ela podia gastar o tempo como sempre fazia em momentos como aquele. Adorava vestir suas roupas, e roubar os sapatos de salto alto de sua mãe.

Eles ficavam apertados, pois infelizmente Lucy calçava trinta e nove e sua mãe apenas o trinta e cinco.

Ela também via o modo em como o corpo de sua mãe era menor e isso até a fazia pensar que mesmo vestida como garota, algumas pessoas poderiam estranhar.

Não que garotas altas fossem algo abominável, porque Lucy era uma delas, e não via problema. Media cerca de um e setenta e cinco, e sabia que teriam garotos altos para cobrir-lhe o corpo como via nos dramas rotineiros que ela achava um saco.

Mas, no país em que vivia, havia um padrão como em todo país. E lá, mulheres geralmente eram pequenas. Magras demais e frágeis.

E Lucy não se encaixava em nada disso.

Então apenas continuou deitada, querendo não se frustrar naquele momento, mas falhando miseravelmente.

Com o celular nas mãos, ela insistia em ligar para o homem que lhe fornecia as pílulas, mas ele sempre a atendia com o tom rude e áspero.

Na última tentativa, ele desligou sem nem se despedir e mandou-lhe o número de outra pessoa.

Disse que talvez a pessoa pudesse ajudar a garota, e pediu que, por favor, ela o deixasse em paz.

A garota quis o mandar à merda, mas apenas digitou o número que ele mandou e esperou ser atendida.

Não sabia com quem iria falar, mas foi atendida por uma mulher.

Falou sem pontos na linha o que queria, e se surpreendeu quando foi cobrado apenas cento e vinte mil won por um frasco.

Ela fez o pedido e marcou em uma praça para buscá-los, assim não entraria em uma enrascada por estar comprando-os sem receita.

Calçou seus coturnos marrons rápido e buscou um casaco xadrez no armário. Seus cabelos estavam secos e não eram penteados há dias, mas ela apenas os prendeu com um elástico e fez um coque alto, procurando pelas cédulas de won que guardava debaixo da cama.

O dia estava frio demais, e ela caminhava esfregando as mãos. Não tinha muito conhecimento com a vizinhança, então não teve vizinhos lhe parando ou cumprimentando.

Mas, como tudo na vida de Lucy parece querer fazê-la ter um treco, ela freou os passos assim que chegou à esquina da rua.

Park Ryeon estava lá, e ele parecia ainda mais bonito.

Ryeon estava alheio, sentado e suado na calçada de sua porta. O skate ao lado de seu corpo indicava o que o garoto havia feito para estar em tal estado, e a língua para fora enquanto buscava por ar, deixou a garota desnorteada.

Mas Ryeon não estava só.

Ao lado do garoto estavam seus amigos, Noah, Daniel e Jerry, os que sempre perdiam tempo com Ryeon andando de skate.

Lucy suspirou pesadamente, e virou-se. Não podia seguir por ali. Estava evitando Ryeon e ainda teria que falar o que iria fazer. Possivelmente Ryeon pediria para ir com ela, e ela se atrapalharia toda para inventar algo que o fizesse ficar onde estava.

Então ela seguiu para o outro lado. Bufou quando teve que dar uma volta completa na rua, por simplesmente ser uma idiota, mas sorrio quando chegou à praça e viu a mulher já a sua espera.

A mulher sorriu para ela, e sentou-se em um dos bancos. Sempre tinham que agir como se fossem amigas, então Lucy apenas sentou e sorriu também. Fingiram conversar sobre bobeiras, até a mulher passar a sacola marrom de papel para a outra.

ㅡ Rápido, o pagamento.

Lucy assentiu, buscando de dentro do bolso do casaco. Ela era péssima em disfarces, mas conseguiu fazer aquele fluir até o último momento.

ㅡ Você tem meu número, no que precisar, ligue.

A garota assentiu, sorrindo para a outra.

ㅡ E aliás, você é linda.

Ela sentiu as bochechas esquentarem, mas despediu-se com um abraço como mandava o personagem, e esperou que a mulher sumisse de seu campo de visão para enfim se erguer. E quando ela o fez, deu de cara com Ryeon.

ㅡ Então ela é a sua namorada? ㅡ o garoto perguntou em um tom chateado.

A garota engoliu em seco, buscando uma resposta.

ㅡ Qual o nome dela?

ㅡ V-Você me seguiu?

ㅡ Segui sim. Eu vi você e ela sorrindo e se abraçando.

ㅡ E o que há? ㅡ a garota desviou e seguiu seu caminho, sentindo Ryeon bem atrás de si.

ㅡ O que há? Por que você não me contou?

ㅡ Ela não é minha namorada.

ㅡ Não? Então é o quê? Uma ficante? Alguém que você está conhecendo?

ㅡ Por que... ㅡ a garota virou-se, dando de cara com Ryeon e seu peito suado. Ela se sentiu desnorteada, e se afastou. ㅡ por que você está me fazendo esse tipo de pergunta?

ㅡ Por que eu achei que fôssemos amigos.

ㅡ E nós somos. ㅡ ela disse ainda sem o encarar. ㅡ não somos?

ㅡ Amigos contam tudo para os outros, sabia?

Lucy então resolveu olhar Ryeon e viu como ele parecia realmente chateado. Ela não queria que ele permanecesse daquele jeito, mas não tinha nada que pudesse fazer.

ㅡ Contam mesmo? ㅡ ela perguntou desviando o olhar para o pescoço dele. ㅡ então quem fez isso em você? Foi sua namorada? ㅡ falou debochando.

Ryeon tocou sobre a mão de Lucy, mas ela a retirou. O garoto fechou os olhos rapidamente, se praguejando por sua maquiagem fajuta ter saído com o suor.

ㅡ Eu não tenho namoradas. Eu acabei me machucando, só isso.

ㅡ Uhum, então parece que estamos do mesmo jeito. ㅡ ela disse sorrindo e se virou, a fim de sair dali e não precisar olhar para aquela marca ridiculamente roxa na pele do garoto que gostava.

ㅡ Eu não tenho namoradas. Porque eu não gosto de garotas.

Aquilo fez Lucy gelar. A garota não podia acreditar no que havia escutado.

Se Ryeon não gostava de garotas, aquilo significava que ele nunca poderia gostar dela, não é?

Droga.

A garota negou, fechando os olhos em seguida. Praguejava-se por ser tão tola. Como ela nunca percebeu isso?

ㅡ Mas... Mas você beijou a Sun e... Você gosta dela.

ㅡ Eu realmente beijei a sun, mas eu também beijei você. ㅡ Ryeon falou e parou na frente da garota, observando seus olhos arregalados. ㅡ e eu percebi que eu gosto mesmo de garotos.

ㅡ Como descobriu?

ㅡ Por que eu não paro de pensar em um em especial.

Lucy sentiu os olhos arderem, mas desviou-os e apenas encolheu o corpo, desviando de Ryeon para seguir.

ㅡ Você não se importa com isso? ㅡ Ryeon gritou, caminhando logo atrás da garota.

Mas ela não respondeu, apenas apressou o passo e tentou a todo o momento se desvencilhar dos pensamentos fúteis.

ㅡ Me responde. ㅡ Ryeon a parou, segurando em seus ombros e novamente parando a sua frente. ㅡ Isso não importa para você?

ㅡ E o que eu tenho a ver com isso?

Ryeon piscou perdido. Não entendia porque estava sendo tratado com tanta amargura. Não entendia porque o seu Woojin estava daquele jeito.

ㅡ Eu preciso ir.

E desviando mais uma vez do outro, Lucy caminhou e seguiu para sua casa. Diferente de antes, Ryeon não a seguiu. Ficou parado no mesmo lugar enquanto via a pessoa que não saia de seu pensamento ir.

Sentiu-se perdido.

Mas Lucy foi rápida, chegou a casa ainda antes de sua mãe e já subiu para seu quarto retirando as roupas que usava.

Chorava, molhando a pele rosada de sua bochecha com abundância, mas já não ligava para mais nada.

Sentia-se cheia de nada a sua volta ou em sua vida dar errado, então despiu-se e buscou três das pílulas do frasco. Havia parado com as outras há três dias, então seria o certo ingerir uma para cada dia, certo?

Errado.

E Lucy sabia, mas como ela estava cansada, talvez se tudo desse errado nada mudaria mesmo.

Ligou o chuveiro, olhando como a água caia ligeira, e sentou no chão frio.

As lágrimas ainda desciam de forma volumosa, e os soluços mudos saiam de sua boca, mas o cansaço foi tanto, que ela apenas pôs as três pílulas na boca, e engoliu com a água que caia diretamente do chuveiro.

Sentiu a dificuldade para engolir todas as pílulas de uma só vez, mas quando o fez, deixou que a água limpasse por si só seu corpo, enquanto seus olhos fechavam.

Lucy imaginava-se com os seios que queria ter. Com as curvas e sem os pelos que teimam em crescer nos lugares inoportunos em seu corpo.

Não aguentava mais que lhe visse como Woojin, então era somente para livrar-se rápido da sensação agoniante que ela continuava tomando aquilo.

E quando ela achou que já estava bom o "banho" que tomava, levantou-se do chão e desligou o registro.

Secou-se de modo desleixado, sentindo o corpo parecer mais cansado a cada segundo, e sorriu quando viu sua cama mudar rapidamente de lugar.

Ela abanou a cabeça, tentando tirar a sensação esquisita de enjoo de dentro de si, mas viu todo o quarto girar rápido e caiu sobre a cama, fechando os olhos.

Seu coração acelerou e um zumbido veio ao seu ouvido, então ela se encolheu sentindo a respiração mudar.

Sabia que poderia ser o efeito colateral do medicamento, mas havia ingerido além da conta e naquele momento sentiu medo.

Rapidamente ela se ergueu da cama e procurou por suas roupas. Vestiu-as sem saber se fazia do modo correto e buscou seu celular.

Precisava ligar para Jaesun, e pedir para que o garoto fosse lá. Somente ele sabia o que acontecia com a garota e poderia ajudá-la.

Tentou desbloquear o celular uma nova vez, mas não conseguiu. Via tudo balançar e rodar, então o feito se tornou impossível de fazer.

Lucy, agoniada, olhou ao redor, e viu o frasco jogado sobre a cama.

Buscou-o para verificar a bula e viu que não havia. O nome era desconhecido por ela, e as substâncias presentes também.

A garota lamentou. Possivelmente estava tendo algum tipo de reação contrária e estava sozinha em casa, ninguém a ajudaria.

Provavelmente ela morreria ali, e somente após horas achariam seu corpo.

Suas mãos começaram a tremer, enquanto seus olhos voltaram a derramar lágrimas. Suas pernas pareciam como geleia e também tremiam para sustentá-la de pé.

Mas Lucy não queria morrer daquele jeito. A garota tinha que lutar, só não sabia como.

A garota tentou caminhar até a porta, mas caiu com força no chão, machucando sua mão, e rasgando sutilmente seu braço.

Ela gemeu de dor, mas ouviu o toque agudo de seu celular logo ao lado.

Não conseguiu ver o nome, tudo se tornava como vultos, então apenas tocou no botão de cor verde e pôs o aparelho sobre o ouvido.

ㅡ Woojin?

Ela não conseguiu responder, mas gemia, e chorava compulsivamente.

ㅡ O quê? Está chorando? Foi o que eu fiz? Me desculpa, eu não quis te seguir.

Ryeon não entendia nada do que ouvia, mas a garota juntava forças enquanto sentia o ar deixar-lhe os pulmões.

ㅡ Woojin? ㅡ Ryeon chamou de forma desesperada.

A visão da garota tornou-se nublada, escura, e tudo o que conseguiu falar antes de apagar foi:

ㅡ Me ajude...

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