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Meu pequeno, meu Cupido

Meu pequeno, meu Cupido

Autor:: Lily Vale
Gênero: Moderno
Por não poder engravidar, Allison foi forçada a se divorciar, encerrando quatro anos de relacionamento. Com o coração em pedaços, foi para uma pequena cidade no interior para curar suas feridas e, por acaso, encontrou um bebê. Movida pelo afeto, decidiu criá-lo como seu filho. Quatro anos depois, uma fileira de carros de luxo estacionou em frente ao prédio de Allison e um homem desceu, lhe estendendo um cartão. "Aqui estão dois milhões. É o pagamento pelos quatro anos em que você criou meu filho." Allison puxou o menino atrás de si, protegendo-o com o próprio corpo. "Ele é meu filho. Jamais vou me separar dele!" Um brilho perigoso surgiu nos olhos do homem. "Tudo bem... Então, levarei vocês dois juntos."

Capítulo 1 Um bebê abandonado

A chuva estava prestes a cair, mas Allison Wade ainda estava parada do lado de fora do cartório, se esforçando para não chorar. Cada piscada doía, e sua maquiagem bem-feita não era suficiente para esconder o cansaço que marcava seu rosto.

Ela se virou para o homem à sua frente e implorou mais uma vez, suas palavras carregadas de angústia: "Kyle, não tem como consertarmos isso? Não me importo com o quanto isso seja difícil. Estou disposta a tentar novamente. Por favor, não podemos ao menos tentar?"

Kyle Clark a puxou para um abraço apertado, enquanto o arrependimento pesava sobre ele. Com dificuldade para falar, sua voz saiu embargada pela emoção. "Allie, nós dois concordamos com isso. Eu também não queria isso. Por favor, não jogue toda a culpa em mim. Estou de mãos atadas."

Ela apoiou a cabeça no peito dele e finalmente se permitiu chorar, suas lágrimas encharcando a camisa dele enquanto ela o abraçava com força. Em meio aos soluços, sua voz se quebrou: "Só nos dê mais uma chance. Por favor, Kyle..."

Kyle acariciou as costas dela suavemente na tentativa de confortá-la, suas palavras não oferecendo muita esperança: "Sei que você sofreu muito, mas é por causa da minha mãe. Você tem que entender, Allie. Eu te amo, amo mesmo. Por favor, não complique ainda mais as coisas."

Allison percebeu que não havia mais nada a dizer que pudesse mudar a situação. Sua compostura se desmoronou e ela começou a cair em prantos, se transformando em uma mulher completamente diferente daquela que se preocupava com cada detalhe da sua aparência antes de sair de casa.

Desde o casamento, os pais de Kyle queriam um neto. Dois anos se passaram sem que ela engravidasse, e a paciência da mãe dele estava se esgotando rapidamente.

No dia em que recebeu o resultado do exame, Allison leu as palavras com descrença. Diagnosticada com infertilidade permanente... aquele papel acabou com seu casamento.

Após a finalização do divórcio, Kyle a olhou com um semblante preocupado. "Me deixe te levar para casa, tá bem?"

Allison balançou a cabeça e respirou fundo. Embora tivesse conseguido parar de chorar, suas palavras saíram carregadas e ríspidas. "Não, não precisa."

Tudo entre eles havia acabado.

Kyle colocou a mão no ombro dela para acalmá-la, temendo que ela pudesse desabar bem na sua frente. "Tem certeza de que está bem?"

Allison o encarou, forçando um sorriso que continha mais dor do que conforto. "Acabei de renunciar aos últimos quatro anos da minha vida. Como eu poderia estar bem?"

Diante da pergunta dela, ele desviou o olhar, a vergonha estampada no rosto. "Desculpe, Allie..."

Sem dizer mais nada, ela afastou a mão dele e se afastou, sem olhar para trás.

Ela já estava farta de ouvir essas desculpas.

Nos últimos tempos, parecia que cada palavra que saía da boca dele era "desculpe" ou algo sobre as últimas ordens da sua mãe.

Ela passou quatro anos amando um homem que era um verdadeiro "filhinho da mamãe", nunca livre para ser seu marido de verdade. E agora, lá estava ela, com os papéis do divórcio na mão, mas lutando para arrancá-lo do seu coração.

Kyle observou da calçada enquanto ela chamava um táxi e ia embora. Quando o veículo partiu, ele finalmente olhou para o celular e viu sete chamadas da sua mãe na tela.

Antes que ele pudesse retornar a ligação, o aparelho vibrou na sua mão.

Com um suspiro cansado, ele atendeu, o documento do divórcio ainda na outra mão. "Acabou."

Joan Clark, sua mãe, não perdeu tempo em ir direto ao ponto, com uma alegria indisfarçável na voz. "Bom, já era hora! Aquela mulher era impossível. Não acredito que você demorou tanto!"

Kyle apertou a ponte do nariz. "Mãe, precisa de alguma coisa ou posso desligar?"

Ele já estava pensando em tomar um drinque, ou talvez dois.

"Haylee está chegando hoje. Não ficou sabendo? O voo dela pousa às duas. Não se esqueça de trazê-la para cá. A empregada vai preparar os petiscos favoritos dela."

Joan estava radiante, pois seu filho finalmente estava livre e a mulher que ela havia escolhido estava voltando.

"Sim, sei", respondeu Kyle, jogando o documento do divórcio no porta-luvas e encerrando a ligação antes que a mãe pudesse dizer mais alguma coisa.

Allison voltou para sua antiga casa, mas o lugar parecia vazio agora.

O homem que antes o enchia de risadas e amor se foi, mas as lembranças sobre ele assombravam cada canto.

Na época da faculdade, eles eram apenas um casal de estudantes comuns, perdidamente apaixonados. A família dele, todos empresários, não se impressionou muito com a origem modesta dela no início, mas isso nunca intimidou a ela, a melhor aluna da sua turma numa universidade renomada, determinada, inteligente e com uma beleza que atraía admiração. Mesmo depois de se formar, ela construiu uma reputação de destaque numa empresa respeitada, impressionando todos ao seu redor com seu trabalho e confiança.

Desde o início, Kyle se recusou a desistir de Allison e discutiu até que sua família cedesse, finalmente convencendo-os de que ela seria uma boa esposa para ele e talvez até abriria novas portas para sua carreira. Foi só então que eles deram sua bênção para o casamento.

Allison nunca imaginou que algo tão antiquado como não ter filhos seria o motivo do divórcio. A amargura em relação à família Clark crescia a cada dia, alimentada por suas crenças ultrapassadas, enquanto a decepção com Kyle era ainda mais profunda. Mesmo assim, seu coração se agarrava teimosamente ao amor que ela havia construído ao longo de quatro anos.

Afinal, durante esses anos, ela dedicara cada parte de si a ele.

No seu quarto, Allison puxou as cobertas sobre a cabeça, rezando para que o sono pudesse afogar a dor.

Em nenhum lugar do apartamento ela conseguia escapar das lembranças. O cheiro de Kyle ainda permanecia em cada canto, principalmente no travesseiro, tornando impossível dormir.

Depois de se revirar na cama, ela foi para a varanda em busca de alívio. Lá, encontrou os cigarros dele e um cinzeiro ainda sobre a mesinha.

Com as mãos trêmulas, ela acendeu um cigarro e deixou a fumaça encher seus pulmões. Foi então que percebeu que não era tão forte quanto tentava parecer.

Para onde quer que olhasse, ela era dominada pelas lembranças - o sofá onde eles se abraçavam, a cozinha que ecoava risadas, a varanda onde eles observavam as luzes da cidade juntos. Aquela planejada viagem de inverno para sua cidade natal à beira-mar, repleta de promessas de fogos de artifício e novas lembranças, havia se transformado em nada.

Cinzas e lágrimas caíam enquanto ela dava a última tragada.

Antes do amanhecer, ela arrumou suas malas e saiu do apartamento.

Sem nenhum plano em mente, só sabia que precisava se afastar de tudo que a lembrasse de Kyle.

Diante do painel de partidas da estação de trem, Allison leu os nomes desconhecidos até que Blirson, uma pequena cidade que ela não se lembrava de ter ouvido falar, se destacou.

Após comprar uma passagem e embarcar, ela se sentou e digitou sua carta de demissão no celular. Depois, enviou uma mensagem rápida para sua melhor amiga, Tricia Saunders, contando sobre seu divórcio. Por fim, desligou o celular e fechou os olhos.

Depois de uma viagem apertada de dez horas, Allison esticou seus membros rígidos e se juntou à multidão que entrava na cidade desconhecida, pronta para o que viesse pela frente.

Cores vibrantes e ruídos se misturavam do lado de fora da estação de trem, onde vendedores anunciavam seus produtos e taxistas chamavam por passageiros. A energia pulsava nesse cenário agitado, selvagem e indomável.

A mala de Allison batia no pavimento irregular enquanto ela percorria as ruas, até que encontrou um apartamento de dois quartos sem nada de especial. Ela quase não acreditou quando o proprietário lhe informou o valor do aluguel: apenas novecentos por mês.

Blirson era pequena, e o ritmo da cidade era lento e acolhedor. Curiosa sobre o ambiente ao seu redor, Allison decidiu explorar os quarteirões próximos, deixando seus pés a guiarem pelas vitrines das lojas e pelas fachadas de tijolos antigos.

Depois de comprar o básico e carregar suas novas compras de volta, percebeu que o anoitecer já havia deixado o céu azul-escuro. O cansaço a dominava, mas ela não podia descansar até que o apartamento estivesse limpo, então trabalhou metodicamente para deixar o espaço com a sua cara.

Por volta da meia-noite, amarrou dois sacos de lixo cheios e os levou para fora.

Com um pequeno grunhido, ela os jogou na lixeira, pronta para encerrar o dia. De repente, um choro suave e trêmulo rompeu o silêncio, a fazendo parar abruptamente.

O medo a dominava. O que poderia explicar o choro de uma criança a essa hora da noite?

Ela correu em direção ao prédio, mas apenas alguns passos depois, congelou, o som sinistro ainda ecoando na sua mente. Não era sua imaginação - um bebê estava chorando, e o som vinha de trás das lixeiras!

Recusando-se a deixar o medo dominá-la, ela acendeu a lanterna do celular e voltou para investigar.

As sombras obscureciam um pequeno embrulho ao lado da lixeira, de onde vinha o som fraco.

Ao abrir o pano com cuidado, Allison encontrou um recém-nascido, com o rosto vermelho de tanto chorar e a voz mal passando de um sussurro.

Era óbvio que alguém havia abandonado o bebê.

Capítulo 2 Um pequeno encrenqueiro

Sem hesitar, Allison pegou o bebê e olhou para a rua vazia, procurando por alguém que pudesse explicar por que o pequeno estava sozinho.

O pânico a consumia, sem saber o que fazer. Será que ela deveria pedir ajuda, ou talvez levar o bebê para o hospital mais próximo, ou seria melhor chamar a polícia?

Com o choro frenético, o bebê abria e fechava a boquinha, como se estivesse em busca de conforto. Allison passou as costas da mão pela bochecha dele, se surpreendendo com a maciez e o calor da pele sob seu toque.

Uma onda de desejo a invadiu, um desejo intenso e melancólico, pois era um bebê que ela tanto queria, mas o destino acabou entregando um a outra pessoa, que simplesmente o abandonou.

Ela pensou que o pobrezinho devia estar com fome, e isso explicaria o choro incessante.

De repente, ela avistou uma pequena bolsa ao lado do cobertor abandonado. Ao abri-la, encontrou uma lata de leite em pó, uma mamadeira e algumas fraldas. Era só isso? Não havia nenhuma carta, pista ou sequer um nome? Seu peito se apertou. Como alguém poderia abandonar seu filho tão facilmente?

Enquanto ela se perguntava, o choro do bebê se intensificou. Sem perder mais tempo, ela pegou a bolsa e levou o bebê para o andar de cima, decidida a alimentá-lo antes de qualquer coisa.

As antigas lições sobre cuidados com bebês voltaram à sua mente - ela já havia lido vários livros sobre o assunto, convencida de que precisaria deles quando tivesse um bebê com Kyle.

Depois de colocar o bebê no sofá, ela foi ferver água. Enquanto esperava, afrouxou cuidadosamente o cobertor e o despiu um pouco para verificar se havia algum ferimento.

Gordinho e perfeito, um menino saudável a olhava, provavelmente com não mais de três meses de idade.

Não havia um único hematoma ou arranhão em sua pele. Seus olhos enormes piscavam para ela, emoldurados por cílios úmidos e curvados, e seus lábios se contraíam, procurando a mamadeira.

Bastou um olhar para que o coração de Allison se derretesse.

As roupas do pequeno eram simples e seu cobertor comum, não oferecendo nenhuma pista sobre de onde ele veio ou quem o deixou.

Sem demora, Allison trocou a fralda do bebê e preparou o leite. No momento em que a mamadeira tocou seus lábios, ele a agarrou e começou a beber com fome. Pela primeira vez desde que ela o encontrou, o choro parou.

Segurando-o nos braços, ela observou suas pálpebras se fecharem e se abrirem, o calor desse pequeno corpo a enchendo com uma sensação de ternura e novidade.

Então era isso que significava segurar um bebê, tão delicado e pequeno... Não era à toa que Joan estava desesperada por um neto.

Nesse momento, Allison foi atormentada por um profundo arrependimento, pensando em um futuro para sempre estéril e em um sonho de maternidade para sempre fora de alcance.

Depois de alguns minutos mamando, os olhos do bebê se fecharam, e o sono o dominou antes que pudesse terminar o leite na mamadeira. Quentinho, satisfeito e finalmente seguro, descansava tranquilamente nos braços dela.

Inicialmente, ela pretendia levar a criança à polícia assim que ele se alimentasse, mas ao segurar esse pequeno e tranquilo pacotinho agora, não conseguia se mover.

Algo dentro dela mudou enquanto ela andava pelo seu apartamento com o bebê aninhado contra seu peito.

Foi então que uma ideia louca e impossível surgiu na sua mente: ficar com ele.

Isso era tão incomum para ela... Geralmente, ela se orgulhava da sua lógica e autocontrole, mas tudo na sua vida havia desmoronado desde que seu casamento terminou, tudo porque ela não podia dar um filho a Kyle. Agora, lá estava um menino pequeno e indefeso, como se o destino tivesse decidido lhe dar uma última chance.

Talvez ela estivesse destinada a aceitar esse milagre. Se alguém viesse buscá-lo, ela o devolveria sem questionar. Antes disso, talvez ela pudesse finalmente experimentar o que era ser mãe.

Na manhã seguinte, Allison agasalhou o bebê e foi à delegacia fazer um boletim de ocorrência.

Em Blirson, uma cidade onde histórias como essa aconteciam com muita frequência, os policiais nem reagiram. Eles a levaram com a criança para um orfanato precário, cuja pintura descascada e paredes desgastadas eram um testemunho mudo de anos de dificuldades.

Lá dentro, as roupas elegantes e o jeito gentil de Allison contrastavam nitidamente com o grupo de crianças de olhos arregalados, seus rostos marcados pela sujeira e pela esperança.

De alguma forma, a papelada foi resolvida rapidamente. Após assinar os formulários necessários, ela entregou um cheque para o orfanato. No final do dia, a adoção foi oficializada.

Os dias se transformaram em semanas enquanto Allison se acostumava com sua nova vida. Quando vizinhos curiosos perguntavam sobre o pai do menino, ela respondia sem hesitar: "Estamos divorciados."

A maternidade preenchia cada momento do seu dia. Ela encontrava alegria nas pequenas coisas, e a dor do seu casamento mal-sucedido foi diminuindo lentamente à medida que o bebê se tornava seu mundo.

Os anos se passaram e, quando ela se deu conta, quatro anos já haviam se passado.

Certa tarde, Allison estava na sala de estar com os braços cruzados e a voz carregada de frustração, olhando fixamente para o filho. "Lucas, pode me dizer por que bateu no seu amigo?"

Lucas Wade, com apenas quatro anos, mas já teimoso, a encarou do canto onde estava. "Ele pegou meu brinquedo e o quebrou! Eu disse para ele não fazer isso, mas ele não me ouviu!"

A raiva de Allison se intensificou. "É só um brinquedo. Posso comprar outro para você, mas bater nas pessoas nunca é a solução. E se você tivesse o machucado de verdade? Entende?"

Com o peito arfando, ela tentava se acalmar e estava prestes a dar um tapa nele, mas acabou desistindo, pois simplesmente não conseguia fazer isso.

Embora ela já tivesse supervisionado uma equipe de vinte pessoas no trabalho, lidar com Lucas era um desafio de outro nível. A cada ano que passava, seu filho ficava mais ousado e rebelde - ele tinha um talento para se meter em encrencas, e todos os vizinhos pareciam ter alguma reclamação para fazer a ela, mas ele nunca recuava de uma discussão.

"Só me meti porque aquele garoto gordinho estava puxando o cabelo de Julia. Alguém tinha que protegê-la! Archie pegou meus lanchinhos, então eu os peguei de volta. Os irmãos Smith soltaram o cachorro deles em todo mundo, então joguei o cachorro no lixo por um tempo. Eles o pegaram de volta, não pegaram? Só que não muito limpo."

Ao ouvir suas explicações, Allison muitas vezes acabava apertando a ponta do nariz, cansada demais para responder. Sempre que ela tentava repreendê-lo, ele tinha uma lista de justificativas prontas e sempre tinha a última palavra.

Entre as crianças do bairro, Lucas tinha uma certa reputação. Alguns o admiravam e o apoiavam, enquanto outros planejavam se vingar, mas não importava o que acontecesse, ele sempre estava um passo à frente.

Numa tarde, enquanto Allison conversava com Tricia online, uma confusão repentina lá fora interrompeu seus pensamentos e a voz de uma mulher ecoou pela janela aberta: "Allison! Desça aqui! Seu filho está aprontando de novo! Se você não consegue lidar com ele, talvez eu devesse!"

Allison largou o celular e saiu correndo para fora. Lucas estava no meio de toda a confusão, com o cabelo bagunçado e as roupas sujas, enquanto uma mulher segurava seu filho, que chorava.

Ao observar a cena, Allison suspirou internamente, pensando que Lucas estava causando problemas de novo.

Com um sorriso educado forçado, ela pediu desculpas e tentou pegar o filho, que subiu as escadas sem olhar para trás.

Enquanto tentava acalmar seu filho, a outra mãe lançou um olhar para Allison e murmurou para si mesma: "Sem pai por perto, não é de se espantar que o menino seja assim. Se dependesse de mim, já teria dado um jeito nele. Ele nunca teve modos."

Allison ignorou o comentário e foi atrás do filho.

Viver numa cidade pequena significava que os boatos se espalhassem rapidamente.

Uma mulher que chegava com um filho, mas sem marido, só aguçava a curiosidade das pessoas, que comentavam sobre como Allison se vestia bem e parecia viver confortavelmente sem um emprego fixo.

Eles especulavam que seu ex-marido devia estar mandando dinheiro, embora ninguém nunca o tivesse visto. A maioria acreditava que ele os havia abandonado completamente.

Em casa, Allison encontrou Lucas num canto, com os braços cruzados e com uma expressão de teimosia desafiadora no rosto. Quanto mais ela o observava, mais se perguntava se não era hora de voltar para Streley. Seu filho estava ficando cada vez mais indomável, e ela temia que ele não conseguisse se adaptar quando voltassem para a cidade. Se as coisas continuassem assim, ele acabaria se tornando isolado e infeliz.

Seu antigo apartamento em Streley ainda estava à sua espera, mas a ideia de levar Lucas de volta para o mesmo lugar onde Kyle morava a deixava apreensiva. Nos últimos dois anos, conforme o garoto crescia, começou a perguntar sobre seu pai.

No início, Allison respondia de forma direta: "Seu pai e eu não estamos mais juntos."

Porém, à medida que Lucas se metia em encrencas e as fofocas dos vizinhos a irritavam cada vez mais, ela perdia a paciência e dizia: "Seu pai nos abandonou."

Capítulo 3 Sou seu pai

Allison nunca considerou Kyle como o pai de Lucas. Quando se mudou para Blirson, ela mudou seu número de celular e apagou qualquer vínculo que ainda pudesse ter com o passado.

Por achar que Kyle provavelmente já estava casado e com filhos, ocupado com sua vida, ela parou de prestar atenção às notícias sobre ele.

À noite, ela se aconchegou ao lado de Lucas na cama dele, lendo sua história favorita pela centésima vez, enquanto o garotinho continuava de olhos arregalados e inquieto.

Após fechar o livro de histórias, ela o colocou no criado-mudo. Puxando o cobertor até o pescoço dele, pediu em um tom suave, mas firme: "Feche os olhos. Hora de dormir."

Lucas se enfiou debaixo das cobertas, mas sua voz saiu baixa e magoada. "Mãe, eu errei mesmo hoje?"

Na verdade, ele não havia feito nada de errado, mas sua forma de lidar com os problemas era um pouco desajeitada, e nunca recuava de uma briga quando podia resolver as coisas sozinho.

Dessa vez, Allison não o repreendeu nem insistiu que ele estava errado. Acariciando seus cabelos, ela respondeu baixinho: "Não, você não errou."

Sendo sincera consigo mesma, sabia o quanto era importante para uma criança entender o que era certo e errado, e que guiá-lo era sua função como mãe.

Lucas franziu a testa, confuso. "Então por que todos ficaram bravos comigo? Até você, mãe?"

Allison ficou em silêncio por um momento, depois explicou: "Às vezes, mesmo quando você tem boas intenções, a forma como você lida com as coisas não é o que as pessoas esperam. Quando você tenta proteger alguém, pode acabar machucando outra pessoa no lugar. Muitas vezes, os adultos ficam do lado da criança que chora mais alto, mesmo que isso não seja justo. Às vezes, as coisas são assim."

Lucas franziu a testa, ainda sem se convencer. "Ainda não entendi. Se você entende, por que gritou comigo?"

"Foi porque os outros pais estavam com raiva. Se eu não tivesse intervindo e falado algo, eles poderiam ter tentado te punir, e isso poderia ser muito pior. Eu precisava te proteger, mesmo que isso significasse ter que fingir ser rígida. Mas você sabe que eu nunca te machucaria, não sabe?"

"Se eu fiz algo errado, você deveria me dizer. Se eu fiz algo certo, você também deveria me dizer. Não é assim que deveria ser?", disse ele, olhando para ela e procurando a verdade no seu rosto.

Nesse momento, um alívio invadiu Allison, sabendo que o mundo ainda não havia obscurecido o senso de justiça de seu filho. Beijando a testa dele, ela sussurrou: "Você tem toda a razão. Eu errei hoje. Da próxima vez, pode me dizer se eu cometer um erro também, tá bem?"

Um sorriso se abriu no rosto de Lucas, que acenou com toda a seriedade que um garotinho poderia ter. "Tá bem, mãe!"

Na manhã seguinte, Allison estava na cozinha, preparando o café da manhã como de costume. Enquanto isso, Lucas saiu de fininho, ansioso para mais um dia de aventuras.

Quando o café da manhã ficou pronto e Lucas ainda não havia aparecido, Allison tirou o avental e desceu as escadas para procurá-lo. Na rua, ela foi recebida por uma fileira de elegantes carros pretos que haviam parado no meio-fio e vários homens com ternos pretos impecáveis.

Uma multidão de crianças da região já havia se reunido em volta dos veículos, atraídas pelo cromo brilhante e pelo luxo que raramente viam. No meio de tudo isso, Lucas estava paralisado, olhando para o primeiro homem que saiu do carro da frente.

Sem dizer uma palavra, o homem tirou os óculos de sol e os entregou a alguém.

Ele levou um tempo para observar o bairro, depois olhou para os prédios de apartamentos degradados antes de desviar o olhar para o grupo de crianças e, por fim, para Lucas.

Algo nos ternos impecáveis e na autoridade silenciosa do grupo chamou a atenção de Allison, pois esses homens não pareciam pertencer a esse lugar.

De repente, ela se deu conta de que havia deixado a porta do seu apartamento destrancada. Não querendo se envolver com o que quer que estivesse acontecendo, gritou: "Lucas! Venha, o café da manhã está esfriando!"

Em Streley, ela conseguia manter a compostura, mas aqui, tinha que aprender a gritar até ficar rouca só para chamar a atenção do filho.

"Estou indo!", gritou Lucas, se afastando do homem e correndo na direção de Allison.

Allison pegou a mão dele e eles subiram as escadas correndo. Quando ela estava secando as mãos após lavá-las, uma batida forte na porta soou.

"Quem é?", ela perguntou sem pensar, colocando os pratos do café da manhã sobre a mesa e limpando as mãos na calça.

Ao abrir a porta, se deparou com o mesmo homem que liderava o grupo lá fora e ficou sem palavras por um momento.

Allison já havia conhecido muitas pessoas na sua vida profissional, mas tinha certeza de que nunca havia visto esse homem antes.

De longe, ele não parecia tão intimidador, mas de perto, ela sentiu a intensidade da sua presença.

Ele era alto, com pelo menos um metro e oitenta, ombros largos e traços marcantes, usando um terno que provavelmente custava mais do que o aluguel dela.

A princípio, ele não disse nada, apenas a observando em silêncio com um semblante indecifrável.

Enquanto isso, Allison segurava firmemente o batente da porta, sem se mover. "Posso te ajudar em alguma coisa?"

"Onde Lucian está?", ele perguntou num tom seco.

As sobrancelhas de Allison se franziram em confusão. "Lucian? Quem é esse? Não conheço ninguém com esse nome."

"Meu filho." O tom do homem permanecia calmo, cada sílaba lenta e deliberada. "Lucian Lawson."

O coração de Allison batia tão forte que chegava a doer. Lutando para manter a voz firme, ela respondeu, tentando fechar a porta: "Você está no lugar errado. Não há nenhum Lucian aqui."

O homem não disse nada, apenas dando um passo à frente e bloqueando a porta com a mão. Sem pedir permissão, entrou e parou para observar o espaço organizado, mas modesto, a pilha de livros infantis sobre a mesa e os brinquedos por baixo do sofá. Após um aceno de cabeça silencioso, se sentou no sofá como se fosse dono do lugar.

Nesse momento, passos ecoaram no corredor. Lucas apareceu, esfregando as mãos úmidas na calça, e parou, seus olhos indo e vindo entre a mãe e o estranho sentado confortavelmente na sala de estar. Algo na postura rígida da mãe lhe dizia que a situação era séria.

Geralmente, ela era inabalável, mas agora parecia menor do que ele jamais a vira.

Aproximando-se, Lucas tentou parecer o mais maduro possível ao perguntar: "Quem é você e por que está na nossa casa?"

Os lábios do homem se curvaram num sorriso lento. Ele estendeu a mão, como se quisesse puxar Lucas, que se afastou, o olhando com cautela.

Sem se ofender, o homem se recostou e disse, sua voz suave, mas convicta: "Sou seu pai."

Allison sentiu suas pernas fraquejarem, pois temia esse momento há anos. Depois de todo esse tempo mantendo Lucas por perto de si, agora a verdade estava na sua sala de estar, impossivelmente real.

Lucas olhou para o estranho, depois para o rosto pálido da mãe e franziu a testa. "Mas a mãe disse que meu pai estava morto."

Os olhos do homem se desviaram para Allison, seu sorriso se intensificando, quase como um aviso. "Sinto muito em te decepcionar, mas estou muito vivo. E vim levar meu filho para casa."

Nesse momento, o silêncio se instalou, e nem Allison nem Lucas conseguiram dizer uma palavra.

Mesmo com quatro anos, Lucas percebeu a mudança no clima, olhou para a mãe e começou a juntar as peças, se dando conta de que a história do estranho poderia ser verdadeira.

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