Eu sempre me senti sozinha dentro de casa, principalmente depois que minha mãe resolveu nos abandonar quando eu era criança, as coisas entre meu pai e eu só pioraram desde então.
Sei que no começo ele tentou se manter firme e manter a nossa relação como estava, porém, as coisas não saíram como esperado e eu nem posso culpá-lo por isso, sou extremamente parecida com minha mãe e isso deve ser difícil para ele.
Apesar de não demonstrar mais, eu sinto grande mágoa pelo que ela fez conosco, sempre me pergunto o que a levou a fazer isso, sua relação com meu pai aparentemente era boa e ela sempre fora uma ótima mãe, cuidava muito bem de mim e tinha amigos incríveis.
Bom, nunca saberei a verdade, já que há alguns anos soubemos que ela sofreu um acidente de carro e não sobreviveu, o que despertou uma frieza incomum em meu pai, nos distanciamos ainda mais depois disso.
Inexplicavelmente fui chamada por meu pai para entrar em seu escritório, sendo que nunca posso entrar lá, talvez pelo fato de nunca ter me interessado pelos negócios da empresa, apesar de meu pai ter me feito estudar vários cursos que me preparavam justamente para isso.
Não é fácil ser filha única.
Caminhei calmamente, na verdade, nem tão calma assim, mas precisava manter as aparências, meu pai havia me chamado a sua sala, era algo que eu realmente não esperava.
A ansiedade por saber do que se tratava tomava conta da minha mente, fiquei parada na entrada, por precaução, podia ser uma notícia tão ruim quanto boa.
- Mandou me chamar?
- Sim, entre filha, temos algo a tratar.
Ele me deu um olhar preocupado, automaticamente comecei a me lembrar de todas as coisas que poderia ter feito para que me chamasse aqui, mas eu não sou do tipo que faz besteiras por aí, pelo menos não de propósito, e sua expressão denunciar algo bem sério, e estava me deixando apreensiva...
- Aconteceu algo... ruim? - perguntei
Então ele gesticulou para que eu sentasse na cadeira à frente da sua mesa, onde havia um computador e muitos papéis espalhados desajeitadamente.
- Estamos com grandes problemas. - resmunga.
Permaneci em silêncio reparando que ele não me encarava de forma alguma, parecia evitar contato visual.
- Na empresa.
Por alguns instantes tive certeza do que se tratava, ele estava pedindo para que eu trabalhasse com ele novamente, e isso estava fora de questão.
- Olha Pai, se me trouxe aqui para pedir que eu faça parte da empresa da família, não adianta eu estou decidida a permanecer afastada e nada do que você dis...
- Não é nada disso. - me cortou abruptamente.
- Estamos falindo, e a equipe de administração está quase certa de que será necessário vender tudo, ou declarar falência e se afundar ainda mais em dívidas!
O encarei, perplexa!
Como poderíamos estar falindo? Meu pai não era sempre responsável e tão dedicado?
Essa empresa estava na família há gerações, embora eu não queira fazer parte dos assuntos relacionados a ela por motivos pessoais, reconheço o quanto ela significa para o meu pai e a sua história na minha família.
Sei também que é devido aos seus bons lucros, que possuímos uma vida boa e confortável, o que tem me ajudado com meus projetos de caridade, não tenho medo de ficarmos pobres, mesmo não sendo apegada aos bens materiais, tenho ciência do quanto seria péssimo perder todos os nossos bens!
Seria um grande escândalo na mídia, é verdade, e isso poderia deixar meu pai ainda mais afogado em mágoas, seria mais uma consequência da cicatriz que minha mãe deixou em nossas vidas.
Eu nunca presenciei meu pai chorando, nem mesmo fungando, mas o encarando pude perceber o quanto ele estava abalado e isso me entristecia ainda mais, queria realmente poder ajudar de alguma forma.
- Mas... como? Por quê?
- É um império caindo, uma soma de muitas decisões ruins, desvios de dinheiro... a lista é imensa.
- Mas não há solução?
Apesar de meu pai ter os defeitos dele, eu o amo, e neste momento até pensei na possibilidade de passar por cima do meu orgulho e entrar na empresa, se eu pudesse ajudá-lo de alguma forma...
- Na verdade... tem sim!
Ele parou e respirou fundo
- Eu juro, minha filha, que eu pensei em todas as possibilidades possíveis, mas essa é a única que daria certo de forma mais imediata.
Comecei a me questionar o que seria, e acredito que chegamos a parte que me diz respeito, receio até mesmo em saber do que se trata, pela forma como está se comportando, dificilmente será algo ruim.
- Você conhece a maior empresa de tecnologia de Lindermayer certo?
Assenti vagarosamente, então ele continuou sem devaneios.
- O diretor dela, Jasiel Lindermayer, me... nos fez uma proposta.
Me encarando temerosamente, ele fez uma pausa, o que me deixou ainda mais receosa do que poderia ser.
De onde reconheço este sobrenome? Talvez já tenha visto por aí visando que é a segunda maior empresa da cidade depois da nossa.
- Ele propôs um empréstimo, onde eu compro a parte de todos os que pretendem aceitar a venda da empresa, e ao invés de pagá-lo de volta, ele se torna o segundo proprietário.
Não me parecia uma proposta ruim, mas sempre há algo por trás e nem consigo imaginar o que seria.
- Isso é bom, a empresa vai aumentar a visibilidade, ele pode melhorar o setor de tecnologia, mas creio que não seja apenas isso.
Ele assentiu.
- E as chances de ela cair com essa parceria são ínfimas, na verdade, podemos crescer ainda mais.
- Então... pretende aceitar?
- Não temos opção melhor!
Voltei a questionar mentalmente o que tudo isso tem a ver comigo, por acaso isso significa que eu serei obrigada a participar mais ativamente nos negócios da empresa? Estar a par de tudo?
- Lindermayer tem outra condição.
- E qual seria?
- Seu filho... Jonas Lindermayer...
Lembrei-me automaticamente de onde lembrava deste sobrenome, maldito Jonas Lindermayer, o garoto que fez bullying comigo durante os últimos anos do fundamental, que me causou anorexia por me chamar de gorda, que me fez ter acompanhamento psicológico e passar meses internada, e que mesmo após eu ter passado pelos piores momentos da minha vida, fora tanto sofrimento que meu pai precisou me trocar de escola.
Desde aquele momento, eu decidi fingir que ele nunca existiu e recomeçar, mas eu não o perdoei, a sede de vingança passou, mas eu ainda o odeio por tudo o que ele fez e causou em minha vida, mesmo tendo se passado alguns anos.
Meu pai continuou explicando, tentei prestar atenção.
- Ele anda causando muitos problemas para a reputação da sua família, do seu sobrenome e consequentemente da empresa.
Eu olhei para ele para prestar mais atenção, me desviando das memórias ruins.
- Ele quer que ele se case.
Não pode ser o que estou pensando, meu pai jamais faria isso...
- ...com você. - finalizou.
Minha expressão foi o suficiente para ele entender nitidamente minha resposta.
- FICOU LOUCO? - berrei me levantando e inclinando em sua mesa - CASAR COM ELE? POR ACASO VOCÊ SE ESQUECEU TUDO O QUE PASSEI POR CAUSA DESSE GAROTO IMBECIL?
- Além de salvar a empresa, isso também nos ajudaria visualmente, a não parecer que foi apenas um contrato entre uma empresa que estava caindo e outra com uma reputação ruim por causa do filho, vai parecer que nos unimos por família, por vocês terem se casado, tenho certeza que parece algo ruim, mas 2 anos são o suficiente para que tudo se acerte e então você estará livre para fazer o que bem entender.
- ESCUTA O QUE O SENHOR ESTÁ DIZENDO! QUER QUE EU CASE COM MEU PIOR PESADELO? NA VERDADE, CASAR COM QUALQUER PESSOA, SEM ANTES PLANEJAR TUDO E CONHECÊ-LO BEM SERIA RUIM, IMAGINA ISSO? LOGO ELE?
Ele permaneceu em silêncio sem saber o que dizer, olhei no fundo dos seus olhos, antes de sair da sala e fiz questão de bater a porta bem forte, fui para o meu quarto e me tranquei.
Era inacreditável!
Não queria pensar nisso, mas comecei a me lembrar de todo o mal que sofri e meu coração começou a acelerar, comecei a sentir um desespero, ficar sem ar, e corri pro meu banheiro procurando meus remédios, precisava tomar logo, meu tempo se esgotava, sentia o peito acelerado e grande falta de ar, era como se estivesse tendo um infarto.
Raiva e ódio era o que me resumia no momento, sentimentos que tentei manter longe de mim e agora voltavam com tudo.
Eu coloquei 2 comprimidos na boca e deitei fazendo os exercícios de respiração que a psicóloga me ensinou e me concentrei nas minhas mãos tremendo, tentando controlá-las e fazer parar.
Em algum tempo que não sei ao certo se foram minutos ou horas, eu apaguei completamente, a calmaria e a escuridão me envolveram, como um cobertor aconchegante.
Não costumo sonhar ou ter pesadelos, mas essa noite me causou tantas sensações ruins, geralmente os comprimidos me fazem apagar totalmente e esquecer de tudo ao redor, não tinha palavras para explicar como me sentia, a boca amargava de uma maneira inexplicável, parte disso tudo eu sei que é psicológico.
Acordei extremamente tarde, uma forte enxaqueca tomava conta da minha cabeça, levantei calmamente, tentando não fazer muito esforço, cada passo fazia meu corpo doer, parecia que eu tinha levado uma surra, só que é apenas uma das reações que tenho após uma crise de ansiedade, meu corpo inteiro sofre.
O relógio do celular mostrava já ser bem tarde, eu havia perdido os dois alarmes da manhã, tudo por causa daquela maldita conversa da noite anterior, ou melhor, a péssima notícia foi o que me desconcertou totalmente, nem sabia se tinha forças o suficiente para encarar esse dia, todos os meus pensamentos voltavam para o mesmo ponto e isso é desgastante.
Entrei no chuveiro e senti a água gelada descendo sobre minha cabeça e corpo, sem pensar em nada, após sair do banheiro percebi haver demorado mais de 1 hora no banho, o que não era de costume, no entanto, eu precisava daquele momento, a forma como a água gelada parece tirar todas as minhas frustrações e cansaço chega a ser mágica.
Precisava ir ao abrigo que ajudo, porém, ainda dava tempo de tomar um bom café da manhã, frutas e um copo grande de suco de preferência e foi o que fiz, desci as escadas vagarosamente, por sorte não encontrei meu pai, ele não costuma estar em casa nesse horário mesmo.
Comi calmamente, o quanto consegui, o silêncio e toda a calmaria me fez lembrar da noite anterior e toda a conversa, a garganta queria fechar e os olhos marejaram levemente, tenho certeza que se eu fosse dizer algo naquele momento, minha voz sairia embargada.
Entrei no meu carro e segui rapidamente para o abrigo, a melhor parte era que não precisei topar com meu pai pelos corredores, ainda estava magoada com ele por tudo, de certa forma foi a má gestão dele que nos trouxe a esse ponto.
Entendo suas mágoas e frustrações por causa da minha mãe, mas eu também estou ferida.
Cheguei já estourando meu horário, faz um bom tempo que trabalho voluntariamente aqui, em outros dois lugares, apesar de amar todos, aqui é onde me sinto ainda melhor e não gosto de ficar um dia sequer longe.
- Boa tarde, querida, eles estão te esperando! - disse a irmã Marie na porta, sorri gentilmente para ela antes de seguir para a sala de leitura.
- Boa tarde, meus amores! - um mar de "oi, tia" surgiu, eram esses momentos que aqueciam meu coração.
Este é um lar para crianças carentes, eu leio para elas todas as segundas e ajudo com doação financeira, amo cada segundo que passamos juntos, faz lembrar o quanto sou privilegiada e eu agradeço muito por isso e uso minha posição para ajudar quem precisa.
Os outros 2 locais que sou voluntária e colaboradora são um ong de animais de rua, na qual eu orgulhosamente digo que ajudei a expandir muito, e onde havia apenas 50 cachorros e 15 gatos quando a conheci, por falta de espaço e recursos, hoje temos um espaço maior e mais adequado, com mais de 200 animais, que recebem amor e carinho, essa ong precisa demais de mim, pois além da minha visita semanal para ajudar nas atividades, eu também estou sempre participando dos projetos de arrecadação e doação, temos conseguido intermediar muitas adoções também, o que é uma grande conquista.
A terceira instituição que ajudo é um asilo, foi o primeiro lugar que decidi ajudar, e que despertou esse meu amor pelo trabalho voluntário, pois infelizmente não conheci meus avós, e sempre quis ter alguma figura por perto que suprisse a falta deles, então na época, pesquisando, descobri que a irmã da minha avó materna, a qual teve um desentendimento na família, residia nesse lar de idosos por não ter nenhum familiar para cuidar dela, minha mãe nunca teve contato com sua tia, e como ela não tinha filhos, eu fui a única pessoa que a visitei até o dia de sua morte.
Queria tê-la levado para morar comigo, porém precisava de muitos cuidados médicos e meu pai não foi conivente com a ideia, pelo contrário, ele repudiava tudo que o fazia lembrar da minha mãe.
Ela faleceu de parada cardíaca e desde então eu decidi ser voluntária deste asilo, e também dou assistência financeira, mas sempre que vou lá, percebo que eles preferem conversar com alguém, sentem-se muito sozinhos, hoje eu digo que tenho vários avôs e avós, e a maioria deles me chama de neta.
Após ler para as crianças me despedi carinhosamente de cada uma e retornei para casa rapidamente, só de pensar em não poder ajudá-los financeiramente, fico muito triste, apesar das doações, o valor arrecadado sempre é irrisório, perto do que necessitam.
Subi calmamente para o meu quarto e me joguei na cama, o cansaço tomava conta do meu corpo, sabia exatamente aonde aqueles pensamentos me levariam, se aquela era a única saída aparente, eu precisava aceitar, de maneira alguma ficarei sem poder ajudar aqueles que precisam, me sentiria culpada pelo resto da vida, de certa forma é um ato egoísta, visto que eu tenho como escolher e eles não.
Acabei faltando a faculdade, não estava com ânimo para sair de casa, precisava realmente aceitar essa ideia, por amor ao que faço, me senti obrigada a concordar com a proposta, como meu pai disse, não precisarei ficar casada por muito tempo, apenas o necessário, então poderia viver livre de novo e tudo voltaria ao normal.
Já tarde da noite, após conseguir comer um pouco, lavei meu rosto na pia do banheiro, meus olhos vermelhos de tanto chorar e a aparência desleixada demonstravam toda a minha luta em fazer o que era necessário, não sou do tipo que volta atrás em uma decisão, por isso não vacilei e fui em frente.
Caminhei a passos curtos até o escritório do meu pai, sabia que ele já havia chegado, bati algumas vezes na porta antes de entrar, sua expressão era de surpresa ao me ver ali, eu mesma estava surpresa com minha decisão, após minha reação da noite anterior.
- Estou disposta a fazer isso. - disse calmamente.
Ele me encarou por alguns segundos, acho que ele não esperava por isso.
- Tem certeza? - questionou receoso - Talvez haja alguma outra possibilidade que ainda não vimos, então...
- Não tente mentir para mim, nem você acredita nas suas palavras... - o cortei.
Só queria que tudo fosse rápido, minha força de vontade não é tão grande.
- Certo... tem razão, essa é a saída mais rápida e benéfica para nós, tanto a curto quanto a longo prazo.
- Assim que possível irei pedir o divórcio, não permanecerei nisso mais do que o necessário.
- Claro, não se preocupe quanto a isso, a separação futura de vocês não irá afeta a empresa, creio eu que Jasiel irá entender, ele conhece o filho melhor do que ninguém. - tossiu levemente - Prometo que não irá se arrepender dessa decisão, não sabe o quanto isso é importante para mim, minha filha!
Eu já estava completamente arrependida da minha decisão, mas era o certo, não tinha dúvidas.
- Espero que reconheça o quanto isso é difícil para mim...
Saí da sala sem esperar nenhuma resposta, aquela foi toda a força que tinha pra manter uma conversa com meu pai, mais um pouco e eu acabaria desistindo, a vontade de sumir no mundo era muito grande, mas logo me sentia um pouco culpada internamente, porque foi exatamente o que minha mãe fez... acho que talvez eu a entenda de certa forma, por isso evito falar nesse assunto com qualquer pessoa.
Só espero que ele saiba que não darei uma de boa moça, serei tão cruel com ele quanto ele foi comigo, sei que havia dito que o meu desejo de vingança havia passado, porém foi ele apareceu de novo na minha vida, eu não o procurei, então era mais do que justo devolver na mesma moeda.
Entrei em meu quarto e me joguei sobre a cama, só espero acordar no dia seguinte com essa mesma força de vontade, não quero perder a convicção quando o vir de novo, nem sei qual será a minha reação.
Medo com certeza não é a palavra, farei de tudo para não ser aquela garotinha assustada de anos atrás, preciso sempre demonstrar força e vigor, manter a sanidade mental, Jonas me fez mudar muito, tanto em minha forma de pensar como em agir, mas ele não faria mais nada contra mim.
Fechei os olhos suspirando, a cama me chamava para um sono profundo, porém, minha mente fervilhava em pensamentos, um dos maiores problemas de se ter ansiedade é que sua mente não para quieta, praticamente nunca, dependo dos remédios para isso, chegando a ser digno de pena.
Levantei e fui ao banheiro, sei que não deveria abusar dos remédios para dormir, porém, é uma situação complicada, eu estou sob muito estresse, peguei um dos comprimidos e o coloquei embaixo da língua, em seguida voltei para a cama e me deitei novamente.
Mais um dia "normal" se iniciava, a chuva resolveu se fazer presente hoje tornando o dia ainda mais difícil de ser vivido, cada segundo que passava eu só conseguia me lembrar da enorme confusão onde havia me metido.
Essa tinha sido a pior semana da minha vida, a ansiedade resolveu me corroer de novo, mas não estava disposta a voltar atrás em minha decisão.
A manhã escura e fria não parecia do tipo que nos fazia querer ficar debaixo da coberta apenas curtindo, assistindo ou lendo algo, era mais como uma forma de mostrar como eu me sentia, chegava a ser cômico.
Me casar com esse monstro, parecia o fim pra mim, eu nunca nos meus pesadelos mais assustadores imaginei que um dia isso poderia acontecer, na verdade, eu cheguei a acreditar que nunca mais veria ele.
Eu tentei muito não pensar em como vai ser, mas é inevitável, tenho pensado muito e isso está me destruindo, não sei se estava dormindo ou acordada ou quase dormindo quando ouvi dois toques na porta, afinal, estar dormindo ou acordada eram quase a mesma coisa, aquele vazio e escuro de quando você fecha os olhos, é o que eu sinto o tempo todo, mesmo quando eles estão abertos.
- Entra! - eu disse.
Uma das empregadas, Jacinta, colocou a cabeça para dentro da porta e disse:
- Senhorita Amanda, seu pai pediu que se vestisse e fosse até a sala de recepção, Jasiel Lindermayer está aqui.
- Obrigada Ananda, avise que já estou descendo.
Eu não queria descer, não queria sair da cama, muito menos ver o pai do meu terrível inimigo e agora futuro marido.
Eu levantei vagarosamente, tomei um banho rápido, penteei meu cabelo e vesti uma calça de moletom azul-escuro, cropped rosa, o casaco que é par da calça, pois já que tive que levantar da cama, decidi que iria sair de casa depois que meu pai falasse o que ele tinha para falar e ver o tal do Jasiel Lindermayer, então usei um pouco de base, rímel e um lip tint nos lábios, calcei uma sapatilha vermelho-escuro e desci as escadas de madeira, respirando fundo e encontrando dentro de mim a melhor expressão e o sorriso mais genuíno que consegui.
Avistei meu pai na sala, que sorriu quando me viu, e o homem de costas então se virou e olhou para mim, Jasiel Lindermayer, será que ele sabe o quão detestável é o filho dele?
- Aqui está ela, minha menina linda! - disse meu pai.
- Olá, papai. - sorri para o homem, que aparentava ter a mesma idade que meu pai, porém visivelmente com algumas injeções de Botox, os olhos verde água, levemente azulados nas bordas, que seriam lindos se não me lembrassem do filho odioso dele.
- Prazer, Amanda. - eu disse sorrindo amigavelmente, torcendo para não estar tão falso quanto realmente era, e então estendi a mão.
- Prazer, futura nora. - disse em tom de brincadeira.
- Ela não é linda? - meu pai disse
E, só falta me tratar como uma mercadoria agora, na qual ele precisa apresentar "qualidades" e evidenciá-las.
- Realmente linda, a propósito, não se parece nada com você, Ricardo. - Ele disse em tom de brincadeira, e eles riram.
- Eu espero que você e Jonas se deem bem, saiba que vamos prosperar muito com esta parceria.
Querido, se você soubesse o risco de morte que seu filho corre morando na mesma casa que eu você não diria isso.
Tentei demonstrar um sorriso, mas era difícil agora.
- Nós vamos nos entender. - menti.
- Estou aqui para tratar detalhes sobre o casamento, e marcar um encontro para vocês dois...
Ele continuou falando por muito tempo, eu não via a hora que isso tudo acabasse, cada detalhe desinteressante não me convinha, mas quando ele mencionava seu filho, meu corpo gelou, era até estranho, uma mistura de medo e raiva.
Ele falou que temos que ser visto juntos algumas vezes durante 2 meses para o casamento não parecer falso, parece que ele, de uma forma assustadora, já tem tudo planejado, inclusive cada um dos encontros e onde eles seriam, tudo o que eu consigo pensar é que a certeza de que vou estar perto daquele nojo de ser humano me dá vontade de vomitar.
O casamento já tem data marcada, 30 de abril, meu pai vai nos dar de presente um apartamento e Jasiel, nossa viagem de lua de mel, vamos para Paris, todas as lembranças boas que eu tinha sobre a cidade vão simplesmente ser estragadas.
Conforme eles iam falando eu pensei em até mesmo desistir disso tudo, mandar o Sr. Lindermayer se ferrar com o filho dele e tanto faz como fosse daqui para frente, mas sempre tinha as ongs, me segurando, me mantendo firme, "precisam de mim" eu repetia mentalmente...
Aproveitei o momento em que ele foi embora para ir em direção ao meu carro, pretendia correr um pouco para espairecer a mente, nem me importei em estar usando um dos meus croppeds favorito.
Eu me lembrei da primeira vez que fui à academia, eu já estava com bulimia há alguns anos por culpa do Jonas e seus amiguinhos nojentos, eu comecei a vomitar tudo o que eu comia, me senti péssima.
Eu realmente era uma criança gordinha, bem acima do peso, mas eu nunca tinha me importado com isso, até que de repente ele estava no refeitório do colégio com seus amigos rindo de mim, me chamando de gorda e outros nomes piores, tudo porque eu amava comer bolo, doces e outras guloseimas, mas por um tempo passei a odiá-los de coração, hoje já consigo comer sem me sentir mal.
A bulimia não me ajudava a emagrecer, na verdade, eu comia até mais, compulsivamente, porque sabia que podia vomitar tudo depois, mas depois descobri que vomitar não removia as calorias e foi aí que conheci a anorexia.
Quando tinha 15 anos, já estava extremamente cansada de todo o bullying, que só tinha piorado, acabei perdendo alguns amigos, eles passaram a me evitar e eu acreditava que emagrecer seria a solução dos meus problemas, porém estava errada, óbvio, tudo o que consegui foi desenvolver problemas alimentares, entrei para a academia e me forçava a treinos intensos, apenas para chegar em resultados inalcançáveis.
O pior de tudo, é a depressão e a ansiedade que inevitavelmente surgiram com tudo isso, perdi 15 kg em 2 meses, tinha dias que passava sem comer nada, e isso começou a me empolgar, eu queria mais, muito mais, eu me sentia obesa, todos diziam que eu era obesa, eu precisava perder peso e ser uma garota normal.
Um dia eu estava na academia, e desmaiei, bati a cabeça em um dos aparelhos e acordei no hospital, eu recebi atendimento psicológico depois disso, questionários e exames de todo tipo para saberem o que aconteceu, e então descobriram sobre a anorexia, a bulimia, os problemas emocionais e até sobre o bullying.
Comecei o tratamento com a psicóloga e a nutricionista, que me recomendaram internação em uma clínica específica para esse tipo de problema, porque sabiam que se eu voltasse para casa e permanecesse sem supervisão constante, os problemas iriam piorar, o acompanhamento devido era necessário para o meu bem, apesar de estarmos já com problemas familiares naquele tempo, meu pai não recusou a ajuda psicológica.
Quando ele disse isso, eu acabei cedendo e assim foram 3 meses internada, eu tentei fazer truques de todo tipo na clínica, para não comer ou para vomitar, mas era observada o tempo todo, não podia sair da mesa enquanto não comesse, assim eu ganhei grande parte do peso que havia perdido.
Quando voltei para casa, tinha me livrado dos transtornos alimentares, uma pena que todo o bullying voltou quando eu voltei para escola.
Implorei ao meu pai que me trocasse de escola, eu não aguentei uma semana com todo o bullying de novo em cima de mim, até alguns antigos "amigos" se juntaram a Jonas, isso me deixou ainda muito triste.
Eu continuei o tratamento com a mesma nutricionista e pedi que me ajudasse a emagrecer de forma saudável, e hoje tenho um corpo considerado padrão, mas o melhor de tudo é que minha mente está mais saudável, tenho certeza que jamais voltarei a fazer isso de novo.
Eu percebi algumas lágrimas quando cheguei ao lugar onde costumo correr, lembrar disso tudo me deixa um pouco sentimental, mas enquanto corria tentei não pensar mais nisso, haviam outras pessoas por ali, todos pareciam bem animados.
O tempo ainda continuava fechado, apesar de ter chovido durante o tempo em que estive na "conversa" com meu pai e o Sr. Lindermayer, agora apenas um vento frio se fazia presente, minhas bochechas ficaram geladas rapidamente, não ia conseguir ficar muito tempo, apenas uma meia hora seria suficiente.
Depois que saí de lá, passei na ong dos animais, mesmo não sendo dia de ir lá, e me senti ótima estando ali, fiquei pensando, como pode haver um contraste tão grande na minha vida, entre o caos dentro de casa e a paz quando estou fazendo o que gosto.