Parte 1.
Kim
Um ano e meio antes...
- Kim? Kim venha aqui, filha. Temos algo para te falar. - Escuto mamãe gritar do andar de baixo e sem ânimo encaro o teto do meu quarto.
- Já estou indo, mamãe! - respondo com um tom sobressaltado para ela me ouvir e ansiosa, pulo para fora da minha cama.
Desde que a Ollie saiu de casa há alguns dias tudo aqui ficou quieto demais, não importa o quão eu seja animada, nada é mais como antes.
- Kim, venha logo, filha! - Ela insiste com uma animação que eu desconheço e empolgada, saio com pressa do quarto. - Vai ser o melhor a fazer, querido. - A escuto dizer para o meu pai à medida que desço os batentes da escadaria e isso me faz desacelerar. - Não podemos correr o risco de perdê-la para esse mundo cruel como aconteceu com a sua irmã.
Suspiro.
Está acontecendo de novo. Penso sentindo o meu coração se comprimir dentro do meu peito.
- Ah, você está aí, querida! - A Senhora Martin fala com um tom doce na voz que também não reconheço. Quer dizer, ela não é uma mãe má, mas também não é um exemplo de amor e de carinho. A verdade, é que eu fui criada no seio de uma família extremamente conservadora e cheia de regras, e a minha mãe é um tanto rígida quanto a nossa educação. O meu pai então nem se fala. Ele rege essa família com punhos de ferro. Contudo, a Senhora Martin também se considera casamenteira. Portanto, a sua melhor habilidade é arranjar casamentos para as moças desse bairro. Uma tradição ridícula que transcende o século atual. Penso que ela tentou fazer isso com a Ollie, mas felizmente não deu certo. Agora sinto que é a minha vez de passar por todo esse tormento. - Sente-se, querida. - Desperto quando ela me pede.
- O que está acontecendo? - pergunto me acomodando em uma cadeira, mesmo sabendo da sua resposta.
- Filha, você já tem a maior idade já tem algum tempo. - Ela começa, mas apenas olho de um para o outro sem nada a dizer. - E pensamos que já está na hora de você assumir uma responsabilidade, meu amor.
- Uma responsabilidade? - Mamãe meneia a cabeça de uma forma positiva, mas eu procuro os olhos do meu pai que nesse instante estão rígidos me encarando. - E o que isso quer dizer?
- Que você precisa se casar, filha.
- Não! - rebato enfática sem pensar duas vezes, ficando de pé.
Essa é a primeira vez que a respondo um tanto autoritária.
- Acontece que não é você quem decide isso, Kimberly! - Papai fala duramente pela primeira vez me fazendo engolir em seco. - A caso quer ficar mal falada igual a sua irmã? - Fecho as mãos em punho, à medida que seguro firme o tecido da saia do meu vestido.
- Se eu não decido nada aqui então por que estão me contando como se eu tivesse uma escolha?
- Sente-se, garota. Não seja insolente com seus pais, Kim!
- Vocês não podem fazer isso comigo! - retruco baixo, porém, firme. - Não podem decidir a minha vida como se ela fosse a droga de um jogo de tabuleiro!
- Vá para o seu quarto, Kimberly e pense um pouco nesse seu comportamento grosseiro. - Abro a boca para rebater, mas sou estupidamente interrompida. - Vá, e só saia de lá na hora do jantar. O seu futuro marido virá para cortejá-la. - Sem pensar duas vezes corro para a escadaria e subo os batentes com pressa, trancando-me no meu quarto, e imediatamente me jogo na minha cama.
Cortejar-me. A que século eles pertencem a final?
- Você disse que viria me buscar, Ollie - sibilo chorosa, abraçando o travesseiro. - Por que você não vem logo e me tira de uma vez desse lugar?
Algumas horas depois estou em agonia e andando de um lado para o outro dentro do cômodo apertado. A noite está chegando e eu sei que não poderei me livrar desse futuro trágico.
***
O som das vozes animadas vindo da sala de visitas da minha casa me diz que está na hora de enfrentar o meu destino. Portanto, desço as escadas devagar entre um suspiro e outro, sentindo o controle da minha vida ser arrancado das minhas mãos. Eu tenho um sonho, mas a partir de hoje sei que ele nunca se tornará uma realidade. Não com esse casamento inesperado, a final não importa quem seja o meu noivo e futuro marido, ele nunca me permitirá vive-lo um dia.
- Olha ela aí! - Papai fala com uma certa animação na voz, fazendo um gesto para eu me aproximar. - Filha, se lembra do Senhor Galbir, ele é o banqueiro aqui da nossa cidade. Faço uma análise rápida do homem em pé na minha frente enquanto o meu pai nos apresenta. Ele é um homem velho e careca que deve ter pelo menos uns sessenta anos.
Isso é uma grande loucura. Penso quase que petrificada.
- Isso é para você, querida. - Ele diz me estendendo um buquê de rosas vermelhas que apenas fito em silêncio, porém, a minha mãe o recebe por mim.
- Boa noite, Senhor Galbir! - Forço a minha voz a sair da minha garganta apenas por educação me acomodando no sofá maior do lado de minha mãe, porém, bem longe dele.
- Me diga se a Kim não é a coisa mais linda que já viu, Senhor Galbir? - Mamãe comenta me deixando desconfortável. Contudo, o olhar guloso do homem cai em cima de mim, avaliando-me de cima a baixo. - A Kimberly é uma menina muito doce. Ela é muito prendada e nunca responde mal, não é verdade, filha? - Engulo sentindo a minha garganta arder devido a sua secura.
- Mãe, eu posso...
- Querida, sirva um café para o Senhor Galbir. - Ela pede me interrompendo e obediente, vou fazer o que me pediu.
- Senhor e Senhora Martin, eu gostaria de realizar o nosso casamento em uma semana se isso não for um problema para vocês. - Essa informação me faz largar bruscamente a bandeja com algumas xícaras que estão em cima dela e com o impacto da porcelana no chão, o líquido quente molha as minhas pernas, mas o queimor não é meu maior incomodo agora.
- Kimberly, querida, você está bem? - Senhor Galbir pergunta se aproximando rapidamente. Ele parece assustado... preocupado eu acho. Contudo, eu me afasto rapidamente, fazendo-o lançar-me um olhar confuso.
- Filha, responda para o Senhor Galbir! - Mamãe exige. Entretanto, eu queria correr para bem longe daqui.
- Eu... estou bem - gaguejo com um tom baixo demais, recebendo um sorriso seu.
- Vai se limpar, filha e volte para jantar conosco. - Céus, isso soou como música para os meus ouvidos. Penso saindo da sala o mais rápido que posso direto para o banheiro, mas ao entrar no cômodo ofego de desespero.
Deus, eu não consigo fazer isso. Eu não posso me casar com um homem como esse. Penso segurando as lágrimas que insistem em queimar os meus olhos sem dó. Contudo, respiro fundo algumas vezes, paço um pano úmido nas minhas pernas e me forço a voltar para o meio deles.
... Pliê... Tendu... Pliê... Rond de jambe.
Repito cada passo de uma dança clássica de balé dentro da minha cabeça apenas para fugir da conversa na mesa. Eu realmente não quero ouvir sobre os planos para esse dia e não quero saber dos detalhes dessa minha nova prisão. No entanto, desperto com o pedido repentino da minha mãe.
- Querida, leve o seu noivo até o portão. - Engulo em seco outra vez e como se eu fosse um robô me levanto da cadeira e o sigo para fora de casa.
- Logo você será a minha esposa, querida Kimberly. Você precisa perder essa sua timidez e falar mais abertamente comigo. - Ele sugere parando bem na saída da casa. Um sorriso seguido de um gesto carinhoso e uma beijo curto, porém, inesperado no canto da minha boca provoca uma violenta ânsia de vômito. - Boa noite, meu anjo! - Com uma respiração profunda o observo se afastar e depois ele entra no seu carro, só então me permito sair correndo direto para o banheiro da casa e debruçada no vaso sanitário ponho o pouco que ingeri do jantar para fora.
Deus, eu não posso ficar aqui esperando esse dia chegar. Penso determinada. Eu preciso sair daqui o quanto antes. Preciso fugir de casa ou esse será o meu fim.
Parte 2.
Artêmis
Três anos antes...
... Para Athos! Para o carro, porra!
Grito completamente apavorado enquanto ele acelera como um louco no asfalto molhado.
... PARA! VOCÊ VAI NOS MATAR, CARALHO!
Berro dessa vez, mas é tarde demais e o controle da toda a situação escapa das minhas mãos sem que eu possa detê-lo.
...
- Oi, querido! - Escuto o som baixo da voz de Corina bem do meu lado e com uma respiração profunda abro os meus olhos, percebendo que estou em um leito de hospital.
- O que aconteceu? - pergunto aturdido, olhando para os fios colados no meu corpo e depois para as máquinas que não param de fazer barulho. - Onde estou? - inquiro apavorado, arrancando os fios e logo as máquinas começam a protestar.
- Calma, Artêmis, fique calmo por favor! Você sofreu um acidente e precisa ficar parado. - Ela pede segurando as minhas mãos que não param de se mexer. Entretanto, lembranças de algumas cenas de terror preenchem a minha mente. Vidros quebrados, pessoas se aproximando de todos os lados. A minha mãe desacordada no banco de trás e Athos com a cabeça apoiada no volante. Depois, tudo escurece.
- A minha mãe. Onde está a minha mãe? - Procuro saber, porém, os seus olhos vacilam. - Corina... o que aconteceu?
- E-eu... e-eu sinto, querido! - Fecho os meus olhos bem apertados tentando ingerir o que ela quer me dizer.
- Não! - Levo uma mão para o meu rosto. - Não! Não! Não! - Me desespero. Contudo, ofego em seguida. - E o Athos? Me diga que ele está bem? Corina, por favor me diga que o Athos está bem! - sibilo baixinho, porém, desesperado.
- Sim, ele está bem e por incrível que pareça, Athos foi o único que saiu ileso desse acidente. - Sinto um alívio abraçar o meu coração arrasado de dor.
- E onde ele está? - Corina balbucia. - Onde, Corina? - exijo.
- E-eu não sei, Artêmis. Eu juro que não faço ideia de onde ele esteja agora. Eu não vejo o seu irmão desde o... velório da sua mãe. - Franzo a testa.
- Desde o velório? Por Deus, do que você está falando? A quanto tempo estou aqui nessa cama?
- Cerca de uma semana e meia. - Arfo violentamente.
- Então... ela se foi e eu... eu não... pude me despedir dela? - sussurro amargurado e dessa vez não seguro as lágrimas. Contudo, não sei se elas são de raiva ou de desespero. Corina imediatamente me abraça e eu me agarro a esse gesto por alguns minutos. - Pelo menos eu tenho você do meu lado - sibilo baixinho, sentindo a minha voz embargada.
- Sobre isso... - Corina se afasta um pouco para me olhar nos olhos.
- O que? O que foi?
- É que... me desculpe, Artêmis! Eu realmente eu não posso. - Franzo o cenho em confusão.
- O que? O que você não pode, Corina? - A observo levar uma mão aos cabelos e agitar os fios longos.
- Eu pão posso lidar com essa situação, Artêmis. - Confuso, franzo a testa.
- Lidar com o que, Corina? Eu não estou entendo. - Ela aponta para mim e eu imediatamente me olho. - Pode esclarecer melhor? - peço.
Corina respira fundo e secar uma lágrima sutil que escorre no canto do seu rosto.
- Fala, Corina, que droga!
- O médico disse que parte do seu corpo está paralisado, Artêmis. - Prendo a respiração. - Ele acredita que talvez um dia você possa recuperar os seus movimentos, mas... não é certo. - Rio sem vontade, prendendo o meu lábio inferior com os dentes em seguida, meneando a cabeça negativamente. - Você sabe que eu tenho alguns para o meu futuro profissional e eu não pretendo adia-los por nada, nem mesmo por você.
- Não pode ser, meu Deus! - retruco com amargor. - NÃO PODE SER! - grito desesperado.
- Artêmis, querido eu preciso que me entenda. Eu... realmente tenho que seguir em frente.
- Não faz isso comigo, Corina - suplico com um sussurro. - Eu te amo muito. Tínhamos grandes planos e nós...
- Me desculpe. Artêmis! - Ela pede retirando a aliança de compromisso do seu dedo e larga o objeto em cima de uma mesinha ao lado da cama. - Eu tenho um voou me esperando em meia hora. Eu só... vim porque me disseram que você acordou e queria te dizer pessoalmente. - Engulo o choro.
- Corina, eu não vou conseguir fazer isso sem você. - Ela pressiona os lábios.
- Adeus, Artêmis!
- Corina, não vai! Fica por favor! - peço, mesmo quando ela me dá as costas para sair do quarto. - CORINA? - grito como um condenado pelo seu nome. - CORINA, NÃO VAI?! - grito ainda mais alto e em um ato de espero tento sair da cama para ir atrás dela. Contudo, os meus membros não me obedecem e eu caio da cama batendo a cabeça com violência no chão, apagando em seguida.
***
Um mês depois...
- ATHOS!! - grito enfurecido, quebrando tudo dentro do meu quarto.
- Senhor Artêmis, por favor, o Senhor precisa tomar os seus remédios! - A enfermeira insiste mais uma vez tentando se aproximar de mim.
- SAI DAQUI!!! EU QUERO QUE CHAME O MEU IRMÃO AQUI E AGORA! - berro, jogando o abajur na sua direção. Ela solta um grito agudo, se esquivando do meu ataque e sai rapidamente, batendo a porta com força. Uma dor seguida de um choque se alastra pela minha coluna e segue me rasgando por dentro. No ato, pressiono o meu antebraço com força, fechando os olhos bem apertados contra a minha pele. - AAAAAH, QUE INFERNO! - berro enlouquecido, jogando tudo que está ao meu alcance.
- O que você pensa que está fazendo, Artêmis? - Ouço o seu tom rude, porém, baixo atrás de mim horas depois do meu surto.
- Onde você estava? - inquiro no mesmo tom, ainda de frente para janela, fitando a quietude do jardim. Athos respira fundo.
- Artêmis, você tomou os seus remédios?
- Onde estava, Athos? - exijo um tanto rude, girando a cadeira de rodas para encará-lo firmemente.
- Eu precisava esfriar um pouco a cabeça. - Ele solta uma respiração alta pela e eu rio debochadamente.
- É claro, dentro de uma boceta bem quentinha e viscosa - rosno ironicamente. - Enquanto isso eu fico aqui preso dentro dessa droga de quarto e nessa DROGA DE CADEIRA! - grito o final da frase e o observo respirar fundo.
- Você pensa que é fácil para mim, não é? - Meu sorriso debochado cresce e eu não seguro a acusação.
- Você a matou, Athos e me destruiu. Me confinou a essa droga de cadeira, mas a vive a vida como se nada tivesse acontecido.
- VOCÊ NÃO ENTENDE? ESSE SERÁ O MEU INFERNO PARA SEMPRE, ARTÊMIS! - Ele berra enfurecido e eu trinco o maxilar.
A verdade é que ambos somos prisioneiros do mesmo inferno e nenhum dos dois nunca conseguirá se libertar dele um dia.
- Saia do meu quarto! - peço baixinho lhe dando as costas outra vez.
- Você precisa tomar os remédios, irmão. - Ele insiste. Respiro fundo fechando os meus olhos com força. - Por favor, Artêmis! - Apenas concordo com um aceno de cabeça e recebo os comprimidos da sua mão, os jogando dentro da minha boca.
- Satisfeito? - rosno contrariado, porém, não demora para o meu corpo começar a adormecer e eu penso que terei algumas horas de paz.
- Obrigado, irmão!
- Sai daqui Athos! - peço baixo, porém, seco o suficiente para ele saber que não o quero por perto agora. Contudo, assim que a porta se fecha me deixo levar pelo choro. Maldita Estela! Ela roubou tudo de mim. A minha família e a minha vida, e agora estou condenado a viver em cima de uma droga de cadeira para sempre. Penso fazendo força para ir para a minha cama e após me acomodar, fito os destroços espalhados por todo o cômodo.
Sinto a sua falta, Corina! Sibilo mentalmente, secando as lágrimas em seguida.
- Essa será a última vez que derramarei as minhas lágrimas por você, meu amor - prometo fitando o céu escuro através da minha janela. - Você será apenas uma lembrança boa na minha vida e eu juro que te entendo. Um homem inválido jamais poderia fazer parte da sua vida. Seja feliz, Corina! - E com esse desejo sou levado para o mundo dos sonhos onde eu sou poderoso e posso fazer o que bem entender.
Kim
- Kim, filha, olha o que acabou de chegar aqui pra você! - Mamãe entra esfuziante no meu quarto. Ela segura uma caixa branca grande e um tanto pesada. Curiosa me ponho de pé, porém, não chego perto. Apenas espero ela a abrir e não demora para um lindo e exuberante vestido de noiva aparecer no meu campo de visão. No mesmo instante perco a capacidade de respirar, pois a visão do vestido torna tudo mais real. - Meu Deus, como ele é muito lindo, filha! Realmente o Senhor Galbir tem muito bom gosto. O que achou dele, querida? - Não a respondo. Eu simplesmente não tenho palavras para dizer, só continuo olhando para o objeto, enquanto puxo uma respiração que não vem. - Eu vou deixá-lo aqui mesmo no seu quarto, querida. Assim poderá admirá-lo até o momento do casamento. - Ela fala e o arruma em um cabide, abrindo um sorriso tão grande que quase não cabe no seu rosto e por fim, sai do quarto fechando a porta.
Admirá-lo até o momento. Eu sinto raiva só de olhá-lo. Penso e saio imediatamente do cômodo. Contudo, a minha casa inteira parece gritar em festa por esse dia, pois não há para onde olhar que não encontre qualquer vestígio desse matrimônio.
- Veja, querida Kim, as flores acabaram de chegar. Elas não são lindas? - Uma vizinha anuncia com um entusiasmo palpável enquanto manuseia alguns arranjos.
- Kim, você quer ver os convites? Eles chegaram essa manhã. - Forço um sorriso de boca fechada.
- Quem sabe outra hora, Senhora Judite - Me forço a responder com uma calma que eu não tenho e vou para o único lugar dessa casa onde terei paz, e onde ninguém me lembrará da minha infelicidade eterna. O pequeno jardim no fundo do quintal.
À noite, após um banho longo o cansaço somado ao estresse desses últimos dias me deixa esgotada, porém, eu não consigo dormir. A minha cabeça está cheia de pensamentos, mas nenhum deles me traz uma solução para esse meu problema. Portanto, passo um bom tempo me virando em cima da cama e essa inquietude me leva a exaustão, e mesmo assim ainda não consigo dormir.
- Ah! - resmungo contrariada me sentando no colchão e por mais que eu não queira os meus olhos vão para o vestido de noiva que está em um suporte na parede. Fito demoradamente as suas minúsculas flores brancas, depois os tules e o tecido de seda. O seu comprimento, os detalhes delicados do seu busto, as belas ramificações dos apliques que se alastram pela sua saia longa.
... Realmente o Senhor Galbir tem muito bom gosto.
Ele é realmente muito lindo!
Penso saindo da cama sem tirar os meus olhos de cima dele. E como se estivesse sendo atraída por objeto chego cada vez mais perto dele. O toco com delicadeza, deslizando as pontas dos meus dedos pelo seu tecido delicado, pelos seus detalhes deslumbrantes e respiro fundo sentindo as lágrimas silenciosas inundarem os meus olhos, e sem qualquer cerimônia elas molham o meu rosto. Um sentimento de revolta me preenche à medida que percebo a suavidade do pano na minha pele e a aspereza dos apliques, e na sequência o tiro do cabide para colocá-lo bem na frente do meu corpo. Admiro a peça elegante diante do espelho por míseros segundos. Observo atentamente o quanto ele me deixa exultante e glamurosa. No entanto, sinto ainda mais raiva dele e os soluços tomam conta de mim. Eu simplesmente não consigo me conter. Mas de repente tudo parece mudar. As lágrimas param, a admiração também, apenas a raiva e a revolta ficam armazenadas no meu sistema e impulsiva, começo a rasgá-lo inteiro.
- Eu nunca serei sua, entendeu?! - sussurro entre dentes, destruindo a peça com as minhas próprias mãos e do jeito que eu posso, largando os seus pedaços pelo chão do quarto. - Você nunca vai me tocar, seu velho escroto, nunca! - A cada esforço, a minha raiva parece se avançar aquecendo o meu corpo, fazendo o meu coração antes congelado bater cada vez mais forte e a minha corrente sanguínea esquenta demasiadamente e quando paro estou extremamente ofegante. Olho ao meu redor, para os vários pedaços de tecido branco espalhados pelo chão e tapete. No entanto, não paro aí. Viro a peça de costas para mim e faço um último esforço, e os seus incontáveis botões saltam violentamente se espalhando por todos os lugares. E quando não sobra mais nada para destruir estou completamente cansada e sem forças. Portanto, fito o vestido danificado por algum tempo, sentindo a minha respiração pesar dentro do peito e vou imediatamente para o meu guarda-roupas. Pego uma bolsa lá dentro e começo a jogar algumas roupas minhas dentro dela. Contudo, antes de sair do meu quarto verifico a quietude do pequeno do corredor e depois da casa, e vou cuidadosamente para o banheiro. Pego alguns itens em cima do balcão para em seguida descer os degraus sem fazer barulho. Entro na cozinha, abro a geladeira e os armários, e olho atentamente dentro deles.
- Deixe-me ver - sussurro pegando algumas coisas. - Garrafinhas d'água, biscoitos e salgadinhos. Isso deve servir - resmungo jogando tudo dentro da bolsa, e caminho apressada para a saída. No entanto, paro assim que abro a porta e olho para trás sentindo um pesar por ter que deixar o meu lar. - Eu quero que você vá para o inferno, seu velho asqueroso! - rosno entre dentes e saio completamente sem destino.
***
Alguns meses...
- Ei, novata o salão está cheio. Você não vem? - Desperto quando um dos garçons fala comigo, mas apenas aceno para ele me mexendo do meu lugar.
Não foi nada fácil caminhar por três dias sem destino até finalmente encontrar uma cidade. Na verdade, foi desesperador. E devo dizer que tive muita sorte de encontra a Senhora Marceli que mesmo sem me conhecer me ofereceu um lugar para ficar e um trabalho. É claro que tive que aprender tudo, mas sou uma garota esforçada e em quatro meses já havia decorado o número de mesas desse lugar, o cardápio inteiro e até consegui equilibrar uma bandeja pesada na palma da minha mão. Entretanto, a noite quando estou entre quatro paredes sou tomada pela solidão e pelas boas lembranças que guardei comigo. E por muitas vezes me pergunto onde a Ollie andará e como farei para encontrá-la.
- Boa tarde! O Senhor deseja fazer o seu pedido agora? - pergunto solicita como sempre, segurando o meu bloquinho e uma caneta, pronta para as anotações.
- Sim. Eu vou querer dois duplos com batatas fritas e um refrigerante sem... - O homem para de falar me encarando com uma admiração esquisita. No entanto, forço um sorriso para ele e arqueio as sobrancelhas pedindo para continuar. - Não é possível! - Ele sibila ficando de pé, porém, sem parar de me olhar e receosa, eu me afasto dando um passo para trás.
- Desculpe, o que disse? - inquiro, mas ele sorri e eu penso que só pode ser um maluco.
- Como pode ser isso? - Respiro fundo olhando para os lados e depois para ele outra vez.
- Desculpe, Senhor, mas precisa concluir o seu pedido. - Ele dá uma sacudida leve na cabeça, como se quisesse afastar os seus próprios pensamentos. - Senhor? - insisto.
- É que... você se parece muito com uma amiga minha.
Ah, o velho conto da amiga. Esse eu já conheço de cor.
- Uma amiga, é sério? - inquiro um tanto debochada.
- Olivia Martin, já ouviu falar dela? - Engulo o meu sorriso zombeteiro e o encaro confusa. - Você a conhece, não é? - Ele brinca e eu balbucio.
Quais as chances de isso acontecer comigo? Quer dizer, milagres realmente existem?
- Olha só... se isso for uma brincadeira, eu...
- Espere um pouco! - O homem ergue um dedo em riste e tira o celular do bolso interno do seu paletó. Ele mexe no aparelho e me mostra a imagem da minha irmã ao lado de um homem. Sinto as minhas pernas fraquejarem e imediatamente eu me sento em uma cadeira. - Ela é a sua irmã, não é?
Ollie! Penso exultante.
- Como... como sabe disso? - Ele apenas sorri, porém, permaneço séria e olhando dentro dos seus olhos.
- Você se parece muito com ela. Os cabelos ondulados e cheios, o sorriso marcante, essa sua maneira de falar. Seria muita coincidência se parecerem tanto assim, não acha? - Pigarreio.
- Onde ela está?
- Espere, eu preciso fazer uma ligação. - Ele pede e eu o observo se levantar para ir para fora do prédio. A maneira como ele fala com a pessoa do outro lado da linha. O seu sorriso largo e espontâneo que ele abre. Não pode ser mentira, não é? Ele não pode estar me enganando. Deus, eu quero tanto que isso seja verdade! Penso e nervosa, esvazio o copo com água que está em cima da mesa.
- Kimberly, o que está fazendo aí? Se levante agora e vá atender as outras mesas! - O gerente ordena rudemente. Contudo, eu mal fico de pé e uma voz imponente o faz se calar no mesmo instante.
- Ela vem comigo!
- Senhor Nunes? Me desculpe, é que...
- Eu já disse que a moça vem comigo.
- É claro, Senhor Nunes! - O gerente se afasta com o seu rabinho entre as pernas e eu volto a fitar a figura imponente, e cheia de si. - Eu quero que pegue as suas coisas, Kim.
- Espera, como você sabe o meu apelido? - Ele revira os olhos. Parece impaciente agora.
- Porque eu conheço a sua irmã e ela não para de falar de você um só dia. Agora me diga, não quer ir encontrá-la? - Meu coração disparar violentamente.
- Você diz... agora?
- Agora. - Respiro profundamente.
- Ai meu Deus! Mas, é claro que eu quero! - Quase grito a frase e o sorriso do estranho se amplia.
- Então vamos embora!