Quando abri os olhos no hospital, após perder o nosso bebé de nove meses, a enfermeira trouxe a notícia mais cruel: o meu marido, Leo, tinha ido embora.
"Senhora Alves, o seu marido esteve aqui. Ele disse que tinha um assunto urgente para resolver."
Liguei-lhe, o coração em pedaços pela perda do nosso filho. A resposta dele? "A Sofia... ela tentou suicidar-se. Está no Hospital da Luz, no mesmo andar que tu." Sofia, a ex-namorada dele pela qual jurei ser apenas passado.
No momento mais devastador da minha vida, o meu marido abandonou-me para consolar a sua ex. E o pior: quando a sua mãe me ligou, chamou-me de "egoísta", por não compreender o "dever" do filho.
Eles agiram como se a morte do nosso filho não importasse. Como se o meu sofrimento fosse um mero "capricho".
O vazio no meu ventre era um espelho do vazio que ele deixou no meu coração. Mas por que razão, justo agora, com a vida da ex-namorada dele "em jogo", é que ele se sentiu compelido a abandonarme? E por que raio a Sofia me processou por assédio, alegando que a minha dor era "campanha de difamação"?
Eu via tudo com uma clareza dolorosa. Eles escolheram a narrativa deles, a mentira deles. Eu escolho o divórcio. Eu vou lutar por mim.
Quando abri os olhos, a luz branca do hospital ofuscou-me. A minha cabeça doía, um zumbido constante nos meus ouvidos.
A enfermeira viu que eu estava acordada e aproximou-se.
"Senhora Alves, o seu marido esteve aqui. Ele disse que tinha um assunto urgente para resolver e pediu-nos para a contactar assim que acordasse."
O meu marido, Leo.
Tentei sentar-me, mas uma dor aguda atravessou o meu corpo. Olhei para baixo. A minha barriga, antes redonda, estava agora coberta por um lençol branco e plano.
O bebé. O nosso bebé tinha-se ido.
Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer. Havia dezenas de chamadas não atendidas dele, todas de quando eu estava inconsciente.
Liguei-lhe de volta. Ele atendeu quase instantaneamente.
"Catarina? Graças a Deus, estás acordada! Como te sentes?"
A sua voz soava ansiosa, mas havia algo mais por baixo, uma tensão que eu não conseguia identificar.
"Leo, onde estás?", perguntei, a minha voz rouca. "O nosso bebé..."
"Eu sei, meu amor. Eu sei. Sinto muito."
Fez-se silêncio.
"Tive de ir. A Sofia... ela tentou suicidar-se. Está no Hospital da Luz, no mesmo andar que tu, mas na outra ala."
Sofia. A sua ex-namorada.
A mulher que ele me jurou que já não significava nada.
"Ela está bem?", perguntei, a minha voz desprovida de emoção.
"Os médicos salvaram-na. Ela tomou comprimidos. O pai dela ligou-me, desesperado. Eu era a única pessoa a quem ela queria falar. Tive de ir, Catarina. Percebes, não percebes?"
Não, eu não percebia.
O nosso filho tinha acabado de morrer. Eu tinha acabado de passar por uma cirurgia de emergência. E ele estava com a sua ex-namorada.
"Leo, eu quero o divórcio."
As palavras saíram antes que eu pudesse pensar. Eram frias e definitivas.
Houve um longo silêncio do outro lado. Depois, a sua voz voltou, cheia de raiva contida.
"Divórcio? Estás a falar a sério? O nosso filho acabou de morrer e tu estás a falar em divórcio? O que se passa contigo, Catarina? Não tens coração?"
"O meu coração?", repeti, uma risada amarga a escapar dos meus lábios. "O meu coração estava aqui, contigo e com o nosso bebé. Onde estava o teu?"
"Eu estava a salvar uma vida! O que querias que eu fizesse? Deixá-la morrer?"
"Ela tem família, Leo. Eu não tinha ninguém. Eu estava sozinha."
"Eu não te deixei sozinha! Eu estive aí! Falei com os médicos, certifiquei-me de que estavas estável. Mas a Sofia... ela não tem ninguém que a compreenda como eu."
"Parece que ela tem a ti. Então fica com ela."
Desliguei.
O meu corpo tremia incontrolavelmente. Olhei para a janela. A cidade lá fora continuava a sua vida, indiferente à minha dor.
O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem dele.
"Não sejas ridícula. Estás em choque. Vamos falar quando estiveres mais calma. A Sofia precisa de mim agora. Sê compreensiva."
Bloqueei o número dele.
Eu não estava em choque. Pela primeira vez em muito tempo, via tudo com uma clareza dolorosa.
O nosso bebé, que tínhamos esperado durante dois anos, tinha-se ido. A única coisa que me ligava a Leo, a esperança de uma família, tinha desaparecido.
Ele disse que a Sofia estava na outra ala. Ele podia ter vindo ver-me. Podia ter ficado comigo por cinco minutos.
Mas não o fez.
Ele escolheu-a.
A porta do quarto abriu-se e a minha mãe entrou, os seus olhos vermelhos e inchados. Ela correu para o meu lado e abraçou-me.
"Minha filha, minha querida filha."
Comecei a chorar nos seus braços, um choro silencioso e convulsivo que abalava todo o meu corpo.
"Mãe", sussurrei. "Acabou."
No dia seguinte, o meu advogado, Dr. Mendes, visitou-me no hospital.
Ele era um velho amigo da família, um homem de semblante sério e palavras diretas.
"Catarina, tens a certeza disto?", perguntou ele, olhando para os papéis do divórcio na sua pasta.
"Absoluta", respondi, a minha voz firme.
"Leo vai lutar contra isto. Ele vai dizer que estás emocionalmente instável devido à perda."
"Eu sei. Mas ele não estava lá, Dr. Mendes. O nosso filho morreu, e ele foi consolar a ex-namorada."
O Dr. Mendes suspirou, um som pesado e cansado.
"Isto vai ser feio. A família dele tem influência."
"Eu não me importo. Eu só quero sair disto."
Ele assentiu. "Ok. Vou dar início ao processo. Vou pedir uma ordem de restrição para que ele não te possa incomodar aqui."
"Obrigada."
Depois que ele saiu, a minha mãe trouxe-me uma sopa.
"Precisas de comer, querida. Precisas de recuperar as tuas forças."
Comi em silêncio, cada colherada um esforço.
O meu telemóvel estava desligado, mas o da minha mãe não. À tarde, ele tocou. Era a mãe de Leo, a Sra. Helena.
A minha mãe atendeu, o seu rosto a endurecer enquanto ouvia.
"Helena, não acho que seja uma boa altura."
Houve uma pausa.
"Não, ela não está a ser irracional. O seu filho abandonou-a no momento mais difícil da sua vida."
Outra pausa.
"Não me interessa o que a Sofia fez. A prioridade dele devia ser a sua esposa. Adeus."
A minha mãe desligou, a sua mão a tremer ligeiramente.
"Ela disse que tu és egoísta. Que a Sofia podia ter morrido e que a culpa seria tua se o Leo não estivesse lá."
Fechei os olhos. Egoísta.
Eu, que passei os últimos nove meses a cuidar do neto dela no meu ventre. Eu, que redecora o nosso apartamento para o bebé. Eu, que abdiquei da minha carreira para ser mãe a tempo inteiro.
Eu era a egoísta.
"Mãe, eu quero ir para casa."
"Claro, querida. Vou falar com o médico."
Ir para casa não significava ir para o apartamento que partilhava com o Leo. Significava ir para a casa da minha infância, o único lugar onde me sentia segura.