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Minha Esposa De Luxo

Minha Esposa De Luxo

Autor:: Lia Tatee
Gênero: Romance
Dayane Johnson é uma garota de programa. Numa noite comum de trabalho, ela conhece um cliente que tem planos maiores do que apenas uma hora de sexo. Anthony Miller precisa de uma esposa com urgência, e sabe que apenas uma mulher que não conhece seu mundo poderia se adaptar facilmente aos seus objetivos secretos. Um contrato é oferecido. Um casamento é anunciado. Duas vidas que se entrelaçam numa trama recheada com amor, suspense e comédia.

Capítulo 1 Esposa Comprada

Os meus saltos ecoavam contra a calçada levemente úmida, provocando um som abafado e incômodo, conforme eu caminhava apressadamente na direção do meu "ponto" de trabalho.

A esquina era ocupada apenas por mim e por minha parceira de trabalho, Suzie. Ela estava parada casualmente contra a parede pichada de uma loja, e jogou seu cigarro fora ao identificar minha silhueta em meio à noite escura. Nosso ponto era o menos iluminado; mais seguro para os clientes, e motivo de medo absoluto para as garotas como nós.

Ruan, nosso cafetão, estava sempre rondando as esquinas com a desculpa esfarrapada de que protegia suas garotas, mas todas nós sabíamos que ele só fazia aquilo para garantir que a coleira em torno do nosso pescoço permanecesse bem apertada.

Muitas garotas aproveitavam estar em pontos menos visíveis da cidade para fugir das dívidas adquiridas ao longo da vida com aquele homem, mas a fuga era apenas mais um motivo para que ele adicionasse mais alguns anos de dívidas em nossa conta; todas pagavam pelo erro de uma, era o que ele dizia, então, foi um acordo entre todas as dezesseis garotas de que Suzie e eu éramos as mais responsáveis para manter naquele ponto.

No momento em que notei o carro preto deslizando suavemente ao meu lado na rua, apressei meu passo, tomando um lugar ao lado de Suzie contra a parede rabiscada pela arte de rua. Ruan acelerou quando percebeu que eu já estava em ativa e muito alerta, então suspirei, sem querer inalando toda a fumaça do cigarro de Suzie.

- Não sei por que é que você continua fodendo seu pulmão com essa coisa, Suzie - reclamei em tom de reprimenda.

Suzie deu uma risada alta que ecoou pela rua parcialmente escura. Os seus cabelos tingidos de vermelho e repicados num corte estranho oscilaram quando ela virou a cabeça para me olhar.

- Day, se tem uma coisa que eu estou nessa vida, é fodida - disse ela, desembalando um chiclete e me oferecendo outro. - Foder meu pulmão não vai fazer diferença.

Eu masquei o chiclete, permitindo que o sabor de menta preenchesse meu estômago vazio. Apesar de ter um cafetão, isso não significava que eu tinha dinheiro para as coisas mais básicas como comer e ter onde dormir.

De vez em quando eu dormia na casa de Suzie, ou então em algum abrigo para os sem-teto. Até os hostel se tornaram um lar para mim. Eu frequentava qualquer lugar que fosse grátis ou bem barato. E, considerando que o dinheiro não ficava comigo - já que Ruan controlava nossos horários com cada cliente e os ganhos para poder tomar tudo no fim da noite -, nem sempre eu tinha algo para comer ou coragem suficiente para pedir.

Suzie enfrentava uma situação semelhante, embora sempre houvesse algum pão velho em sua casa, mas energia eletrécia em casa era um artigo de luxo que ela nem conhecia. E eu muito menos.

- Só vai diminuir seus anos de vida - continuei me referindo ao cigarro.

Suzie apenas deu de ombros. Eu olhei para a placa ao lado da lombada, onde uma de nós sempre deveria estar ao notar a aproximação de um cliente.

- Você conseguiu alguma coisa essa noite?

- Nada - Suspirou ela, fechando os olhos, conforme encostava a cabeça na parede. - O movimento está tão fraco e nossas dívidas cada vez maiores. Parece que ninguém mais valoriza o trabalho de uma puta. Acho isso uma palhaçada.

Eu dei risada, mas a situação era mais trágica do que cômica. Sem clientes, sem dinheiro, e sem chance alguma de quebrar o acordo que fizemos ao conhecer Ruan.

E a tendência era apenas piorar, porque não era coincidência que as pessoas evitassem certos pontos das esquinas. Toda a cidade sabia que a prostituição tomava as ruas durante o anoitecer, então se algum cliente fosse pego em flagrante por aquelas bandas, ele não teria como se explicar.

Além do mais, tudo o que cobrávamos para fazer, era repetitido de graça ou mais barato ainda pelas mulheres viciadas em drogas. Ainda éramos as escórias da sociedade, e nem ganhávamos bem para aguentar toda a humilhação e sofrimento.

Um carro de polícia passou silenciosamente pela rua, mas não parou. Os policiais eram aqueles que pagavam melhor, sem falar que muito até nos davam alguns pequenos mimos - que fazíamos questão de esconder antes de Ruan encontrar. Só que eles pareciam ocupados demais naquela segunda-feira. Dias de semana eram fraquíssimos.

- Esse ponto de merda não ajuda em nada - reclamei em tom sussurrado.

- Quer ficar mais perto da rua? - perguntou Suzie.

- Pelo menos assim, os clientes podem nos ver melhor - sugeri com um dar de ombros.

O movimento fez com que minha blusa curta subisse ainda mais para cima do umbigo, e eu a ajeitei novamente, dando alguns passos adiante para ficar ao lado da placa que indicava a lombada.

Observei ao longo da rua, procurando algum sinal de carros, enquanto deslizava uma mão sobre a saia de camurça azul para manter tudo no lugar. As minhas botas até os joelhos já estavam tão desgastadas que até faziam o couro preto se soltar ao toque, por isso as arrumei apenas uma vez.

- O primeiro é seu - disse Suzie, tornando a acender mais um cigarro. Ela deveria estar no seu auge da ansiedade- Já estou esperando há horas.

Eu assenti para ela, e voltei minha atenção para a rua. Os faróis brilhavam sempre, mas os motoristas sempre desviavam, virando uma esquina antes para evitar as garotas de programa. Eu me recostei no poste da placa, de braços cruzados e olhos atentos.

No que se pareceu apenas segundos depois, um carro deslizou suavemente pela rua, tão devagar que até pensei que fosse Ruan retornando, mas não era ele. Notei isso apenas quando percebi que o carro em questão era de primeira linha, não aquela lata-velha que Ruan ostentava com o dinheiro da nossa dura jornada de trabalho.

O carro parou ao meu lado, e o vidro abaixou-se para revelar um homem calvo e relativamente gordo. Ou bem forte, considerando que as roupas dele eram pretas e largas, mas eu não podia enxergar muito bem o interior do veículo.

Eu me aproximei da janela com um sorriso doce, daquele tipo que os homens adoravam. O homem no volante também sorriu.

- Qual a sua idade? - ele perguntou.

- Posso ter quantos anos você quiser - respondi no tom mais atrevido que pude forçar.

O homem deixou de sorrir.

- Sua idade verdadeira - ele pediu.

Lancei um olhar para trás, onde Suzie ainda estava, agora boquiaberta e segurando o cigarro com a mão frouxa. Ela acenou com a mão livre para mim, num incentivo mudo, que dizia algo como: "Você não é nem louca de não entrar nesse carro, não é?"

Eu me virei para o homem novamente.

- Acabei de completar vinte e um.

Legalmente, apenas há pouco tempo eu era uma adulta em meu país, mas já estava fazendo coisas para adultos desde muito antes. Quando a vida me mostrou que nem todos nasciam para brilhar, e que meus sonhos tinham pouco valor, diante do custo que era ter uma vida confortável.

O homem assentiu, então um estalo soou, e a luz dentro do carro se acendeu. De fato, ele era forte, não gordo. Mas era velho. E eu tinha uma certa exigência de não me envolver com homens muito velhos, porque eles tinham fetiches questionáveis e de revirar o estômago.

Mesmo assim, me endireitei e deixei que ele observasse o produto que estava adquirindo pela próxima uma hora.

- Entre no carro – ele pediu, sem sequer reparar no meu corpo.

Tudo bem, eu estava acostumada.

Nem todos os homens gostavam de mulheres com coxas grossas e seios pequenos. Só importava o que existia entre minhas pernas.

Fiz mencão de abrir a porta, mas ele acrescentou: - Lá atrás.

Eu dei de ombros e fui até a porta de trás, abrindo sem fazer muita força por medo de estragar algo na pintura do carro. Entrei depois de acenar para Suzie e me sentei.

O banco era tão macio que parecia um sofá, e o cheiro do carro era de algo novo e bem caro. Porém, ao acostumar minha visão com a luz amarelada do teto, eu notei que havia outro homem ao meu lado.

O segundo homem era bem diferente do primeiro. Os cabelos curtos eram castanhos e os olhos possuíam uma cor que lembrava às folhas em época de outono, marrom claro, dando profundidade para a sua compleição absurdamente linda.

O maxilar forte era contornado por uma barba feita, e as bochechas eram levemente altas. Um perfume maravilhoso estava vindo dele, embora eu não soubesse como descrever sem ter tempo o bastante para inspirar. Ele tinha ombros largos e uma aparência respeitável. Usava um terno branco acima de uma camisa social azul, calças pretas e sapatos lustrosos.

Eu dei um sorriso de cumprimento e ele retribuiu de maneira fria, então me dirigi ao homem no volante:

- Eu cobro a mais por dois.

- Não queremos esse tipo de serviço - disse o homem ao meu lado, num tom de voz baixo e poderoso, cujo sotaque não pude identificar.

O homem no volante apenas observou pelo espelho retrovisor no centro do carro. Eu não achei estranho ao ponto de sentir medo. Uma das vantagens em acostumar com a brutalidade da vida real, era nunca temer nada antes que minha vida realmente fosse ameaçada.

Os homens pelo menos ainda não tinham me trancado dentro do carro. Eu era descarada o bastante para considerar o joguinho que eles gostariam de fazer. Homens e seus fetiches.

- O que querem então? - indaguei, franzindo o cenho.

- Seu nome - disse o homem misterioso ao meu lado, deixando um pequeno sorriso surgir em seu rosto bonito. - Preciso arranjar uma esposa em menos de doze horas, e você acabou de ser a escolhida, meu amor.

Capítulo 2 Contrato

Como resposta àquela afirmação maluca, eu dei uma risada baixa, observando o homem estranho e sedutor ao meu lado no banco de trás do carro.

Então, quando nem ele e nem o homem ao volante deram risada, fiquei tensa, e acabei engolindo o chiclete sem querer.

Havia poucas coisas que provocavam medo numa garota de programa. Homens que se demonstravam ser possessivos logo num primeiro momento era uma delas.

Porque tudo o que podíamos dar era algumas horas de prazer; não uma vida. Não um nome. E o que ele estava me propondo, era mais indecente do que pedir por um Ménage em público.

As piores tragédias já tinham acontecido com minhas colegas de profissão ao se envolver com homens daquele tipo, que pensavam poder comprar mais do que apenas o que havia entre nossas pernas. Um homem possessivo e rico era ainda pior. Nem mesmo cavar um buraco até o inferno nos protegia deles.

- Eu não estou entendendo - falei num tom submisso, embora já estivesse procurando por uma rota de fuga. Será que Suzie seria esperta o bastante para entender que o carro só não havia seguido caminho até o motel mais próximo por que eu estava enrascada? - Por que precisa se casar com tanta pressa?

- Isso não é da sua conta, infelizmente - disse o homem, abrindo um sorriso gelado, logo antes de apoiar um braço contra a própria porta e me deixar ver o relógio dourado que usava. Tudo o que ele tinha de bonito e rico, tinha de arrogante e assustador. - Apenas preciso que você se prepare para ir embora comigo. Você não vai continuar trabalhando essa noite, nem nunca mais. Não como prostituta.

Eu pisquei, aturdida.

- Ir embora? Para onde?

O homem deu de ombros, como se questionar suas ordens fosse o tipo de coisa que ele não estivesse muito acostumado.

- Não pode se casar comigo e continuar se prostituindo.

- Sim, mas, quem disse que vou me casar com você? - indaguei com um leve franzir de cenho.

- Eu disse - ele falou simplesmente.

Lentamente, uma das minhas mãos se colocou à procura da porta, buscando um meio de fugir dali antes que ele pudesse mesmo acelerar o maldito carro. Talvez se eu abrisse a porta e gritasse, Suzie pelo menos teria tempo para correr atrás de Ruan.

Era impossível que meu cafetão permitisse aquele tipo de coisa. Ele jamais abriria mão de alguma de suas garotas. Aquele homem rico se meteria em sérios problemas.

Quando alcancei a maçaneta com as pontas dos dedos, um estalo soou, e eu soube que com um único aperto de botão, o motorista tinha me selado dentro do carro.

O homem ao meu lado apenas inclinou a cabeça, parecendo se divertir com o pânico que certamente estaria visível em meus olhos.

Eu era uma mulher expressiva demais. E, naquele momento, era esperado que meu medo estivesse exposto demais.

- Por favor - pedi baixinho, já que não teria nem coragem e nem força o suficiente para encarar os dois homens. - Eu sou apenas uma garota comum. Estou apenas trabalhando dignamente como qualquer outra. Por favor, me deixe ir embora se não quiser o que tenho a oferecer.

- Meu amor, eu acabei de dizer o que quero de você - disse o homem, sorrindo com diversão maldosa. - E você não vai sair desse carro até que possamos acertar como é que tudo isso irá funcionar.

- Pelo amor de Deus - implorei, agora me virando para o motorista. Era culpa dele, afinal, já que tinha parado ao meu lado na calçada. Ele tinha me escolhido para qualquer que fosse o plano perverso daquele homem bonito. - Eu não quero me envolver em algo perigoso.

- Não há nada mais perigoso do que a sua profissão, Dayane - disse o homem ao meu lado, num tom de voz menos irritado do que antes. - Além do mais, você não tem motivos para se preocupar. Só preciso da sua assinatura, então sua vida terá mudado completamente do dia para a noite.

Eu o observei com olhos arregalados.

- Como você sabe meu nome?

O homem deu uma risada genuína. Aquele som me arrepiou mais do que receber um beijo naquele lugar. O motorista sequer me observou novamente, ainda ocupado demais observando a rua escura ou o painel do carro. Ele não iria me ajudar em nada.

Era apenas eu e o homem misterioso. Apenas nós e sua proposta sem cabimento.

- Eu sei tudo sobre você, meu amor - disse ele, entoando uma certa malícia naquele apelido besta. - Não costumo comprar nada antes de saber todos os detalhes que podem me ser favoráveis.

Novamente, aquela onda de medo passou por cima de mim, deixando minha boca seca.

- Comprar? Você me comprou? Como assim?

- Seu cafetão ofereceu um preço - ele disse, gesticulando com os ombros. - Então eu paguei. Agora você é minha.

Não pensei que meus olhos pudessem se arregalar ainda mais, no entanto, eles fizeram.

E me peguei realmente afundando naquele pânico. Ruan jamais venderia uma garota. Ele jamais perderia todos os lucros que ganhava conosco em cada noite.

Ainda mais uma garota como eu, que era relativamente nova naquela área, e sempre motivo de curiosidade dos novos clientes.

A menos que o valor fosse realmente bom o bastante para que ele nem mesmo pudesse reconsiderar. O carro daquele homem, o relógio de ouro em seu pulso, e o arrogante motorista que o servia, me dizia o bastante sobre ele ter tido notas o suficiente para pagar sem problemas por qualquer coisa que encontrasse de interessante em seu caminho.

- Não, eu não sou de ninguém - respondi com pânico total. Eu me virei para a porta, puxando a maçaneta e batendo na janela. Suzie estava encostada distraidamente contra a parede, ela nem se preocupava de que o carro ainda estivesse parado. Voltei a encarar o homem. - Eu quero sair daqui!

- Vamos sair - disse ele, então escutei o som de algo farfalhando, e voltei minha atenção para o motorista. Ele esticou um papel entre os bancos frontais, e o homem bonito pegou. - Depois que assinar nosso contrato de casamento, meu amor.

Capítulo 3 Liberdade Perdida

- Eu não vou assinar porra nenhuma - resmunguei, já erguendo as pernas no banco para chutar aquele homem na cara. Ele que se fodesse. Uma prostituta não tinha nada além da sua própria liberdade. Eu não podia abrir mão daquilo. Não depois de perder tudo. Não depois de nunca ter tido nada. - Enfia essa merda no seu...

- Hm... Precisaremos de algumas aulas de boas maneiras, Alonso - disse o homem bonito, interrompendo-me. - Imagine se ela se comporta assim durante um evento? Apesar de achar graça, vou estar arruinado.

Fiquei boquiaberta ao examinar o documento em sua mão apoiada na perna, onde havia espaço para duas assinaturas. Uma das assinaturas já estava preenchida, e meu nome completo surgia naquela ainda em branco. Era sério aquela merda?

- Madame Bittencourt ficará feliz em prestar serviços para o senhor - disse Alonso, abrindo um sorriso largo para o maldito homem engravatado. - Posso pedir para que ela nos encontre no hotel hoje mesmo.

Ofegando pelo pânico, voltei a olhar pela janela. Suzie estava agora se encaminhando para a traseira do carro, e eu tive de me virar para ver quando ela se encostou na janela de um cliente que acabava de chegar. Ela sequer reparou que havia alguma coisa errada comigo. Ou não se importava de verdade.

Éramos amigas, pelo menos eu considerava, só que jamais soubemos muito sobre a outra. Era um tipo de parceria que funcionava, que nos protegia, mas não havia lealdade de verdade. E Suzie entrou no carro do seu cliente e partiu para o seu programa da noite. Enquanto eu fiquei presa com dois malucos num carro luxuoso.

Tudo bem, eu não podia ser hipócrita. Houve uma época em que tudo o que eu sonhava era de ter um príncipe encantado para me tirar daquela vida miserável. Não era atoa que meu conto de fadas favorito fosse a Cinderella. Porém, nunca tive aquela sorte.

Desde pequena aprendi que o mundo era cruel, na adolescência isso se confirmou, e depois de adulta, foi só ladeira abaixo. Eu ainda tinha alguns sonhos idiotas de algum dia não me preocupar com as contas, de ter algo de boa qualidade para vestir, um prato de comida sempre quente, e preocupações bobas sobre a previsão do tempo ou qual seria o melhor destino para uma próxima viagem. Só que nada daquilo estava acompanhado com um homem me tendo em suas mãos para todo o sempre.

Aquela profissão era humilhante por si só, me deixou traumatizada o suficiente para não aguentar mais do que uma hora com cada homem, e parecia inconcebível ter de ganhar aquela vida dos sonhos através de um contrato. Qualquer outra garota aceitaria. Qualquer uma. Nem mesmo precisava ser uma prostituta.

Mas eu queria alcançar aquilo tudo sozinha, com meu esforço, com aquelas merrecas que eu ganhava em cada noite. Eu sempre invejei as mulheres poderosas e independentes, porque nunca fui uma delas. E a chance de crescer por minhas próprias habilidades só estaria deslizando para fora dos meus dedos abertos, se eu concordasse com aquilo.

- Faça isso - disse o bonitão. Ele me lançou um olhar da cabeça aos pés, notando desde os meus ruivos cabelos repicados num corte estranho e com franjinha, até as minhas botas de cano longo. Ele notou até mesmo a qualidade das minhas roupas! - E lembre-se de pedir para que peguem as medidas dela. Não consigo nem olhar para esse tipo de roupa barata.

- Eu já disse que não vou a lugar nenhum! - esbravejei, totalmente irritada. Se Ruan passasse com seu carro naquela esquina, eu me jogaria da janela só para espancá-lo. Ele não podia ter feito aquilo comigo. Não depois de tudo. - Não quero me casar. Não aceito a proposta. Eu quero sair daqui agora mesmo.

O homem suspirou, erguendo os olhos para o teto. Quando ele voltou a me observar, já não havia aquela gentileza forçada que eu tinha visto em seu rosto. Ele estava livre de qualquer disfarce de homem sedutor e gentil. Havia apenas um maldito machista diante dos meus olhos.

- Dayane, você vai entender em algum momento do nosso contrato, que não sou um homem que costuma se explicar mais do que o necessário - disse ele, afrouxando a gravata com uma mão e mantendo o documento cheio de linhas na outra. - Você é minha agora. Mesmo que não aceite o contrato, não vai deixar de ser minha. Então, se você for sensata, ou pelo menos tiver algum amor à sua própria vida, que tal considerar? Darei tudo o que quiser em troca desse acordo. Só preciso da sua assinatura.

Pelo menos ele não estava me ofendendo ainda. Homens acostumados com pessoas nas palmas das mãos costumavam agir com agressividade quando contrariados. Ele poderia ter me chamado de puta e descartável em pelo menos cinco vezes naquele diálogo, mas não fez. Eu sabia que era uma possibilidade porque homens com menos dinheiro tinham feito algo parecido.

- Mas... eu... merda, eu não posso me casar - murmurei com choque. Meu corpo estava inteiramente gelado. - Não posso perder tudo.

- Tudo o quê? - ele perguntou, franzindo o cenho.

- Tudo - falei de modo automático, dando de ombros.

Nada.

Eu não tinha nada a perder.

Isso era o pior.

Como explicar que a minha liberdade ainda era tudo o que eu não podia negociar? Fiquei em silêncio por um momento, encolhendo-me dentro das minhas próprias divagações. Eu já tinha me rendido por muitas vezes naquela vida. Perdido muitos anos de juventude ao me tornar adulta antes da hora. E agora estava perdendo a única coisa que me restava.

- Você é magra desse jeito ou apenas está passando fome? - ele perguntou do nada. Eu tornei a encará-lo, confusa.

- Sou magra - respondi com orgulho, mas também passava fome, inclusive meu estômago estava completamente vazio naquele momento.

O homem me observou novamente, então soltou um suspiro profundo. Ele acenou com uma mão para o motorista, nem precisou dar a ordem com a própria voz, e o carro foi ligado. As luzes no interior do carro se apagaram, deixando-me com uma sensação terrível de enclausuramento. Eu me empertiguei no banco, alarmada.

O veículo se moveu com suavidade, embora estivesse rápido. As ruas estavam vazias naquele horário, principalmente na localização em que estávamos. O homem ao meu lado não ofereceu qualquer informação sobre onde estaríamos indo. E o motorista facilmente alcançou o fluxo de carros na avenida principal, levando-nos ao centro da cidade.

As luzes, os sons, e o grande movimento de pessoas nas calçadas logo surgiram. O meu pânico foi se aliviando um pouco, como se as rédeas em torno do meu coração fossem afrouxadas. Quando as luzes familiares de um letreiro em neon amarelo e vermelho surgiram, fiquei um pouco aliviada, achando estar diante de algum motel.

Era melhor que toda aquela noite terminasse em sexo do que com a minha vida tomada permanentemente por um homem. Divórcios existiam, mas não no mundo dos ricos que pensavam ter direito sobre a vida de outras pessoas.

Só que o alívio durou segundos, até que eu visse que o motorista não estava parando para estacionar, mas para se aproximar de uma guarita tão bem iluminada em vermelho e amarelo quanto toda a fachada do local. As luzes dentro do carro se acenderem, e eu pisquei com o atordoamento, até me acostumar novamente.

- O que você quer comer? - perguntou o motorista, virando-se para me olhar.

Estávamos num drive-thru? Mas que porra era aquela?

- Qualquer coisa - respondi baixinho.

Eu não era doida de negar comida.

- Peça algum combo - disse o homem bonito, observando-me mais uma vez da cabeça aos pés. - Ela parece que não se alimenta há dias.

Como ele sabia daquilo também, só Deus poderia me responder.

O motorista obedeceu, e a mulher gentil atrás do vidro blindado prontamente anotou o pedido. Considerei se clamar pela ajuda dela me renderia mais do que uma risada de desdém ou um olhar impotente.

Não arrisquei.

Comer primeiro, fugir depois. Prioridades devem ser respeitadas.

Por um momento todos ficamos em silêncio, então eu me voltei para o homem bonito, que continuava me observando com um misto de pena e desgosto.

- Está me alimentando para saber se posso mudar de ideia? - perguntei com leve desconfiança.

- Apenas para que entenda que pode ser mais vantajoso estar comigo do que se manter naquela vida - disse ele com frieza, embora as palavras fossem gentis. - Você não pode decidir o que fará a partir de agora. Você é minha e continuará sendo, mesmo se não assinar o documento. Então, sugiro que assine, antes que eu perca a paciência.

Aquela merda não era justa.

Nem um pouco justa.

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