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Minha Senhora

Minha Senhora

Autor:: Eddy Oliver
Gênero: Romance
Ele já havia sido enganado uma primeira vez, não confiava nas mulheres e nem acreditava no amor. Ela é um mistério, uma total desconhecida que arriscou a sua vida para salvar o filho dele, mas foi atingida e perdeu a memória. Agora Heitor Jiang se vê obrigado a cuidar dessa desconhecida que possui incríveis habilidades e se apega ao garoto Demian, uma criança solitária que nunca soube o que é o amor materno. Em meio a suspense, lutas e mistérios, será que uma grande história de amor surgirá?

Capítulo 1 O Sequestro

O carro parou lentamente, um homem saiu com passos firmes e expressão carrancuda, ele usava roupas casuais e segurava um celular em uma das mãos. Entrou numa espécie de galpão abandonado, parecia longe de tudo. Um outro homem o acompanhou.

Do porta-malas do carro, uma mulher os observava, calma e silenciosamente; ela deixou o veículo e se aproximou do galpão. Agachada na parte detrás do recinto, pela fresta das tábuas, contemplou do lado de dentro um grupo de homens conversando, havia vários malotes escuros no meio e aqueles homens pareciam discordar sobre algo.

Quando direcionou os olhos um pouco mais para o lado, a mulher viu no chão o que parecia ser uma criança, deitada, com seus pés e mãos amarrados e um tecido envolta da sua boca.

"Pobre criança! Quem ousa fazer isso com um garotinho?", pensou a mulher com tristeza interna.

Então um segundo carro chegou, era um veículo de luxo e a pessoa que saiu dele era outra mulher com roupas finas e elegantes, sua maquiagem requintada; logo os homens saíram para recebê-la, parecia que ela estava-os ordenando. Eles pegaram dois dos malotes e colocaram no carro da mulher e mais dois malotes no primeiro carro, enquanto um malote ficou no galpão.

A mulher de aparência delicada sorriu, entrou no seu carro de luxo e saiu devagar.

O homem que a acompanhava também deu uma ordem e saiu no seu automóvel escuro. Ficou apenas os capangas e aquela pobre criança.

"Preciso fazer alguma coisa", pensou a mulher agachada atrás do galpão. De madeira alguma deixaria algo acontecer àquela criança indefesa. A mulher passou a mão no bolso para pegar seu celular com a intenção de pedir ajuda, porém, percebeu que não trazia celular consigo. Sua bolsa, suas coisas "Ai meu Deus! Ficou no trem!", também sua arma. Agora ela tinha que agir sozinha, precisava ser cautelosa para não pôr em risco a vida do menino.

A desconhecida contou o número de capangas, "são cinco no total, não são muitos, mas estão armados. Um ataque surpresa seria mais adequado, porém perigoso". A criança estava gemendo, tremendo naquele chão frio e escuro. "Eu tenho que agir agora ou será tarde demais".

Aqueles homens saíram para frente do galpão, apenas um ficou vigiando a criança. Era a oportunidade perfeita que a mulher esperava. Ao empurrar a velha tábua foi fácil abrir um espaço na parede do casarão. Ela, com movimentos hábeis, se arrastou para dentro do galpão de modo furtivo. O capanga que estava sentado de costas para ela, mas de frente para a criança, não percebeu o que acontecia.

Quando o garoto abriu os olhos, viu, atrás de seu algoz, uma silhueta esguia a qual fez-lhe um sinal de silêncio. O golpe foi certeiro e silencioso, o homem foi ao chão amortecido pelas mãos da mulher, que pegou sua arma e foi até a criança; então desamarrou os pés e as mãos e removeu as ataduras da boca do menino.

"Quem é você?", indagou o garoto bem baixinho. Sua salvadora pareceu ignorar o inquérito, em seguida lhe direcionou outra pergunta:

"Você tá machucado, garoto?"

"Acho que não, só estou com frio", respondeu. A mulher verificou a temperatura da criança e percebeu que, de fato, estava febril.

"Tenho que tirar você daqui, venha!"

Num instante, a mulher pegou a criança nos braços e saiu cautelosa pela mesma abertura que entrou. Ela teria de ser rápida. Do lado de fora havia apenas um carro estacionado naquele fim de mundo. A desconhecida analisou a situação, havia agora só quatro sujeitos, todos armados. Para salvar-se a si mesma e o garoto precisava desarmá-los e tomar o carro. "Pobre de mim", resmungou em seu íntimo.

"Muito bem!", começou firme. "Garoto, qual é o seu nome?"

"Demian Jiang", respondeu o menino com segurança em sua voz.

"Ótimo, é um bonito nome. Agora escuta, Demian, temos que sair, então fique aqui e faça o que eu digo, okay?".

Assentiu o garoto, seus orbes analisavam aquela senhorita desconhecida de maneira minuciosa. Ela parecia não estar com medo, o que passou uma sensação de segurança ao menino o qual, após ouvir com atenção o plano da mulher, estava bastante confiante.

Bom, ele não tinha outra escolha. Só aquela mulher estava ali com ele, disposta a enfrentar tantos bandidos para salvá-lo.

Será a Mulher Maravilha? Demian pensou com seus botões. Nem seu pai, o seu super herói, apareceu. Ele nunca confiou nas mulheres, agora tinha suas esperanças depositadas contra sua vontade numa desconhecida que nem disse a ele o seu nome.

A mulher caminhou furtiva pela lateral do antigo estabelecimento, semelhante a um ladrão que invade uma residência isolada na calada da noite. Logo uma luta sangrenta foi travada, quando a senhorita heroica se depara com os capangas que estavam por lá.

Demian, de longe, pôde ver quão habilidosa era aquela mulher em lutar; seus movimentos precisos como os de um guerreiro, regrados como os de um monge taoísta. Ela derrubou todos os homens apenas com suas artes marciais. Um tiro foi ouvido, depois mais tiros..., os caras ficaram no chão feridos.

Quase que num salto, a senhorita entrou no carro; fez uma ligação direta, pois não tinha tempo a perder procurando as chaves. Demian sabia que aquele era o momento, então correu para entrar no veículo. O carro deu partida e deixou o lugar numa arrancada feroz, as marcas escuras dos pneus ficaram tatuadas no chão. Mais tiros foram ouvidos, porém, nenhum dos fugitivos foram atingidos.

Em algum lugar da cidade C, escondido entre um amontoado de prédios espelhados por colunas de vidraças incrustadas em suas silhuetas de concreto, um celular foi ouvido.

"Mestre, a criança escapou!", uma voz mecânica, quase estridente, chiou por trás do aparelho.

"O quê?", bufou o homem com o rosto obscurecido por uma camada de sombras. Inconscientes, as pontas dos dedos espremiam a beirada da mesa. "Como uma criança de cinco anos pode fugir de um grupo de homens adultos?!". A pessoa do outro lado da linha respondeu:

"Uma mulher louca chegou batendo e atirando na gente e levou o menino".

"Uma mulher? Sério? Isso é vergonhoso". Sua palma quase golpeou a mesa quando ingeriu a notícia.

"Não é uma mulher comum. Essa mulher deve ter algum tipo de treinamento especial pela forma que nos abordou".

"Basta!", gritou, "eu vou resolver isso". Assim que desligou o telefone, ele deu ordem ao seu assistente. "Reúna todos os seus homens, precisamos localizar a criança e a mulher. Vivos ou mortos, de preferência mortos. A nossa chefe quer que a criança morra e é isso que vamos fazer. Você me ouviu?" Ordenou, em seus olhos nadava a mais pura crueldade.

"Sim, senhor".

Logo houve uma agitação na cidade. Pessoas olhavam assustadas o ror de veículos que aceleravam seus pneus pelas ruas, algo perigoso se desenrolava naquele dia. Muitos carros com homens encapuzados circulavam pela cidade. Também havia homens preto em automóveis escuros a perseguir os primeiros carros. A polícia também foi acionada e já chegava às ruas, era um burburinho de faróis, luzes e sirenes.

No topo de uma torre de noventa e nove andares, um homem estava parado, rigidamente posto de pé frente a uma janela de vidro, uma aura terrificante emanava de seu corpo. Seu rosto banhado de sombras era frio, porém omitia no oculto de sua alma uma dor e preocupação velada.

Seu filho de cinco anos havia sido sequestrado há seis dias. Seis dias sem ver a criança parecia uma eternidade. Não havia notícias, ele já havia pagado os dois bilhões do resgate. No entanto, até então nada, nenhuma ação positiva da parte dos sequestradores. Seu coração temia o pior.

Seus melhores homens já haviam virado a cidade de pernas para o ar, e nada. Havia uma sensação de culpa e impotência se apoderando dele. Ele precisava fazer alguma coisa. De repente o telefone tocou.

Algo foi relatado. Algo que o fez pegar sua arma e sair às pressas da torre. Um Rolls-Royce Sweptail, parado obedientemente no estacionamento, já o esperava com alguns seguranças. Numa arrancada furiosa a lateria escura do veículo desapareceu na noite.

"Senhor Heitor, vamos para a estrada D; houve um tiroteio, parece que uma criança foi vista com uma mulher".

"Uma mulher?", indagou o homem com uma carranca visível.

"Sim, parece que há uma perseguição em resenha. A mulher está no prédio da antiga escola naval, a mulher está protegendo a criança, mas são muitos os peões, a polícia já foi para lá", disse Marcos, seu pé afundava cada vez mais no acelerador.

"Então seja rápido!", ordenou Heitor. Era óbvia a sua preocupação, mas ainda assim demonstrava uma calma mesclada a uma frieza estranha.

No antigo prédio de uma Escola Naval, cercado por viaturas, a situação era delicada. Tudo se desenrolava numa agitação fatal. Ouvia-se muitos tiros e ruídos, gritos e palavrões. Um grupo de homens armados, cercados por um ar perigoso, perseguia a moça a qual segurava a criança em suas mãos lhe dando proteção com o próprio corpo.

Naquela agitação, a sirene da polícia era ouvida e as luzes coloridas dos camburões refletia no escuro do ambiente estraçalhado por tiros ensurdecedores.

Num instante a polícia invadiu o local, mais tiros foram ouvidos. Sem dúvidas o conflito era sangrento, havia alguns homens estirados pelo chão, fossem mortos ou nocauteados.

Logo o carro chegou ao local.

Heitor desceu às pressas, ao se deparar com aquela cena digna de guerra, de repente parecia que uma geleira percorria suas veias, e não sangue. Ele teve um mal pressentimento, antes de seu cérebro pensar com mais clareza, seu corpo já invadia o local. Ninguém ousou pará-lo. Quem iria detê-lo? Era a vida do seu filho que estava em jogo.

Com passadas rápidas chegou ao último andar. Ele puxou sua arma a caminho, ao estar lá, contemplou a seguinte cena: Uma mulher envolvida numa luta acirrada com vários homens. Ele não viu o menino de primeira, e a mulher não percebeu a sua presença. Ela era como um deus marcial, violento e implacável; semelhante a uma fera indomável.

Um dos homens deixou a luta e se aproximou da sacada, local no qual a criança estava escondida apenas a ouvir os barulhos dos golpes e os gemidos de dor provenientes da batalha. A desconhecida percebeu, como se tivesse olhos atrás da cabeça, e o seguiu.

Vários tiros foram disparados. Aqueles homens que estavam lutando com ela foram mortos pelo pai da criança sem piedade.

Embora ouvisse com clareza os disparos atrás de si, a mulher não teve tempo de olhar o que ocorria. Contato que os tiros não a atingissem, estava, até então, de bom tamanho. Ela precisava impedir o assassino de se aproximar da criança. Foi isso que ela fez.

Para não desperdiçar a oportunidade, sem perda de tempo, o sujeito mirou a arma para o garotinho encurralado no canto da sacada do edifício. Num impulso instintivo, a senhorita desconhecida lançou seu próprio corpo em direção a arma para proteger o menino. Dois tiros soaram no estreito do local.

Como resultado dos disparos, duas silhuetas caíram: o homem e a mulher; esta última teve seu corpo estirado frente aos olhos da criança, sua cabeça bateu num pedaço de concreto. Ela apenas sentiu uma dor na lateral de sua cabeça antes de apagar.

Capítulo 2 No Hospital

Fora, o dia parecia cheio duma atmosfera fresca e úmida como o cenário ficaria após uma garoa gelada, com trinados de pássaros se fundindo ao buzinar dos automóveis, os quais chegavam a todo momento no estacionamento do Hospital Long Horata – um prédio imponente que rasgava o azul vibrante do céu como uma enorme fenda branca repleta de vidraças espelhadas.

De longe, a luz do sol ricocheteava nos vidros das janelas como se estas, de repente, fossem lanternas que cintilavam em plena manhã.

Em um quarto do Long Horata – nome dado em homenagem ao seu fundador cuja propriedade natal carregava nome semelhante –, na área VIP, um homem assentado sobre a típica poltrona de couro branco de Hospital segurava seu laptop em mãos, parecia deveras concentrado no que fazia.

Nesse momento, do lado de fora, alguns homens conversavam no acostamento.

Num canto do quarto, onde a luz chegava sem força, encontrava-se uma mulher com seu corpo magro estendido nos lençóis claros do leito; um soro estremecia aos poucos acima de sua cabeça, a cada gota que deslizava e sumia no tubo transparente.

Alguns fios, vindos dos aparelhos ligados às máquinas que estavam na cabeceira da cama, emaranhavam-se em outras partes de sua figura.

Sua cabeça estava enfaixada com gaze branca, seu rosto estava pálido.

A moça usava roupas hospitalares, exibia um aspecto abatido, um tanto lamentável. De repente, suas pálpebras tremeram. Os longos cílios negros se moveram vagamente.

Ela tentou abrir os olhos, porém, a hipersensibilidade à luz lhe causou dor, ela os fechou outra vez e gemeu, o que chamou a atenção da outra pessoa no quarto.

O Senhor Jiang olhou para ela, nesse momento ela ainda tentava abrir os olhos. Tudo estava embaçado e uma quantidade significativa de lágrimas embotavam seus orbes, tornando impossível distinguir as formas à sua frente. Heitor observou o seu esforço e decidiu se inclinar.

A mulher lutou mais uma vez para enxergar, seus os olhos já vermelhos viram um lindo rosto se aproximar dela. Os lábios do homem se mexiam, pareciam pronunciar algumas palavras, mas a mulher não conseguia ouvi-lo com clareza, tampouco entender o que ele dizia apenas por leitura labial, ela estava desorientada.

Sua expressão confusa seria até engraçada, se as circunstâncias não fossem trágicas.

Ela gemeu.

Então Heitor saiu da sala, sem demora retornou com um homem de meia-idade alto, esguio e coberto por roupas brancas. Era o médico. Ele a examinou:

"Senhor Jiang, é como eu lhe disse, a paciente está muito debilitada", ele começou. "É um milagre acordar do coma. Mas as sequelas são incalculáveis, precisamos monitorá-la para dar um parecer mais preciso".

Expressou o médico com o olhar preocupado, "eu sou um médico, eu não faço milagres", disse a si mesmo enquanto olhava para a mulher na cama.

Longe do Senhor Jiang ouvir seus pensamentos. Seria o seu fim.

"Doutor, veja, ela já está acordada, no entanto, parece não me ouvir. O senhor precisa fazer alguma coisa; é para isso que está aqui, certo? Então faça algo!", ordenou o Senhor como se o médico fosse um de seus subordinados.

"O cérebro humano é um mistério", fingiu não se afetar pelo tom autoritário do jovem homem, porém, ao ter um par de olhos tão terrificantes em si, não pôde evitar dar um passo para trás e se mover para o lado; numa distância que julgou segura, prosseguiu:

"Não podemos afirmar com precisão tudo o que vai acontecer a esta paciente. As sequelas neste caso são inevitáveis, meu Senhor. Conseguimos retirar a bala com sucesso, sem riscos, porque não atingiu nenhum órgão vital, mas o trauma na cabeça...", outra pausa por segurança.

Se os olhares congelassem, o médico já seria uma pedra de gelo há tempos. Mas o quê?! A culpa não era sua. Ele apenas faria seu trabalho.

Expelir a última frase não seria fácil; porém, ele tomou coragem e terminou:

"Bom..., fez um estrago enorme. Ela pode perder os movimentos ou até mesmo nunca se lembrar de nada".

"O quê?! Amnésia permanente? Sem movimentos?", O Senhor Jiang espremeu o cenho, seus dedos percorreram seus cabelos num movimento instintivo. Ele estava atordoado.

Aquela mulher na cama salvou a vida de seu filho. Ela se machucou pela criança e ele nem sabia quem ela era, sua família, seu nome, enfim nada, era uma total desconhecida. Mas ainda assim, ele se sentia responsável por ela.

"O que devo fazer?", resmungou internamente. Ele prometeu ao filho salvar a vida da mulher. Perdido em pensamentos, de repente houve um balbuciar na sala.

"Água..., por favor, eu quero um pouco de água", a moça sem nome bodejou. A figura tentou se levantar, mas não podia, além de tantos aparelhos, não possuía forças. Apenas olhou ao redor e não gostou daquele lugar.

"Por favor, não se mexa, senhorita, vou lhe dar água". Imediatamente o homem de rosto bonito se aproximou com um copo de água na mão.

Deixou o copo de vidro na mesinha ao lado da cama, enquanto ajudava a levantar o corpo da mulher para que pudesse beber água.

"Obrigada", disse quase que em um fio de voz. "Hum...", mais um gemido. "Minha cabeça dói".

"Mas é claro! Você caiu e bateu a cabeça", ela olhou o desconhecido que praticamente resmungou. "Lembra disso?", indagou o homem com muita expectativa.

Ela levou as mãos até a cabeça, como se quisesse conferir esse fato, sentiu a textura áspera da gaze e olhou para ele cada vez mais confusa.

"É? Quem é você, mesmo?", indagou, sua expressão tornava-se complicada a cada dúvida sobre si que ela não encontrava resposta em sua mente, "Aliás, quem sou eu? E que lugar é este? Aconteceu algo, não é? O que aconteceu? Por que isso aconteceu? O que você é para mim? Por que está aqui?"

A pobre jorrou uma série de perguntas que deixou Heitor quase tão aturdido quanto ela por um momento, a ponto de ele precisar segurar a própria cabeça. "Ah..., sobre isso...", murmurou.

Sem saber o que responder, depois de um tempo, no qual ela o admirou bem, com os olhos inteiros abertos, ele falou:

"Eu sou Heitor Jiang, sou o pai de Demian Jiang, o garotinho que você salvou".

Confusa demais, ela não entendeu o que o homem disse. Quer dizer, óbvio que ela entendeu as palavras usadas, e entendeu o que a palavra salvar significava, porém, não compreendia a situação, muito menos o que se sucedeu.

Então se deitou bem devagar e pensou consigo: "Demian? Quem diabos é Demian?", repetia essa frase, mas não conseguia se lembrar de nada. Sua mente estava em completo branco, feito uma folha de papel a qual acabou de sair das lâminas da fábrica. E por que ela o salvaria? Ela era guarda-costas ou policial, por acaso?

"Quem é Demian?", perguntou em voz alta.

"É o meu filho", Heitor repetiu pacientemente, apesar de sua postura fria. "Ele foi sequestrado; você o salvou. Ele contou como tudo aconteceu". Então olhou para ela, analisou seu semblante e prosseguiu, "Você não se lembra, certo?"

"Não", tentou balançar a cabeça, porém sentiu uma pitada de dor a fazê-lo. "Eu não me lembro de nada, eu realmente não consigo me lembra", a mulher passou a mão na testa outra vez.

Viu suas mãos com agulhas e fios, ela ficou nervosa e queria tirar tudo aquilo. Podia não recordar quem era, nem o que fazia, mas tinha certeza de uma coisa: aquele lugar lhe dava fobia.

Todos aqueles aparelhos gelados e aquele bip irritante que eriçava até o último de seus pelos. Ela não gostava de nada daquilo.

"Você não pode fazer isso, okay? Não pode", O Senhor Jiang prendeu-lhe os braços e disse casualmente como se falasse com uma criança. "Tente se acalmar, o médico vai ajudá-la."

Ela assentiu e relaxou as costas. Mesmo por um momento, o estranho Senhor sem expressões, que mais parecia uma estátua, passou-lhe um pouco de segurança.

No entanto, sua cabeça ainda estava dando voltas e mais indagações brotavam em seu cérebro como mato silvestre após chuvas torrenciais: quem era ela, qual o seu nome, o que de fato aconteceu, quem era aquele homem que estava com ela.

Aliás, quem poderia lhe dar as respostas?

Capítulo 3 Aura de um Rei

Nesse ínterim, a mulher direcionou toda a sua atenção para o Senhor Jiang, olhou-o de cima a baixo sem o mínimo de decoro. Absorvia cada centímetro daquela ótima aparência à sua frente. Não possuía qualquer catálogo de imagens viris em sua mente para comparar, porém o tal sujeito Jiang era, sem dúvidas, alto e forte. Bonito?

Bom, seus braços, mesmo sob o tecido denso das mangas do blazer preto, pareciam estarem repletos de relevos notáveis, palpáveis e atrativos, suas pernas eram longas.

Em seu rosto as feições angulares encaixavam-se bem definidas as suas demais características faciais. Todo seu rosto trazia uma harmonia digna de uma escultura em mármore. Ele tinha olhos azuis brilhantes, com a borda da íris acentuada. Longos cílios arrebitados guarneciam suas pálpebras bem marcadas.

Céus, ele ainda tinha lábios modelados e vermelhos, sem qualquer sombra de um sorriso; ele era um homem realmente muito atraente. De cabelos escuros e curtos. Algumas mechas caiam em sua testa, o que criava um contraste com a sua pele clara e delicada, imaculada.

Esse tal homem tinha a aura de um rei, ele era imponente em seus movimentos, feito um lustre que rouba a atenção de todos no centro do salão. Suas palavras eram firmes e banhadas de uma autoridade ressoante. Ele parecia um sujeito dominador.

"Mas o que ela está pensando?", o Senhor Jiang remoeu internamente ao notar dois orbes vidrados em sua silhueta. Até se incomodou! Ora, pois. Aquela mulher o olhava tão atentamente que parecia sugá-lo para dentro de seus olhos.

Ao mesmo tempo, Heitor resolveu examiná-la, este queria entender o que a mulher estava pensando, desejava entender cada expressão, mas era difícil. Tão difícil quanto ler o coração de uma pedra!

Essa estranha tinha olhos claros, tingidos de uma profundidade tão intensa quanto um poço sem fim, um olhar distante, porém desconfiado. Mesmo sua figura abatida não diminuía a essência de sua alma, ela parecia ter uma nobreza natural.

Entretanto, uma coisa ele já sabia, ela era teimosa. Muito teimosa. E orgulhosa. Ela tentou se levantar da cama com as próprias forças, sem ao menos considerar pedir ajuda a ele. Primeiro, o Senhor Jiang não fez menção de que iria interferir. Apenas a observou solene, de braços cruzados e um sorriso velado nos olhos.

"O médico não disse que ela não iria andar?", pensou Heitor irônico. Quando percebeu que ela não pararia por si só, após fracassar de início, o Senhor Jiang tentou segurá-la na cama. "Acho melhor não fazer isso. Pelo que sei, você ainda está muito fraca".

"Preciso ir ao banheiro", respondeu. Seu corpo magro ainda tentava se sentar na cama.

"Então eu vou ajudá-la". Heitor a aparou com suas mãos grandes e a puxou para se apoiar melhor no leito.

Em pouco tempo, após o momento que ele deu a ela para se nortear na nova posição, Heitor fez menção de guiá-la. Nesse período, o ambiente estava quase isento de sons, apenas alguns ruídos mecânicos eram ouvidos pelo corredor e o cochicho de alguns profissionais vestidos de branco que passavam frente ao quarto.

Assim que entendeu a intenção do jovem homem, a senhorita franziu a testa. "Esse tio quer me levar pessoalmente ao banheiro?", cogitou.

"Senhor, eu não o conheço, agradeço a sua ajuda. Mas como eu posso ir ao banheiro com um homem estranho?", ela enfatizou bem os termos homem e estranho. Seu tom de voz deveras sugestivo.

Logo Heitor compreendeu o que ela queria dizer e sugeriu chamar uma enfermeira, a qual com uma agilidade magistral, veio e ajudou em tudo. Sempre com uma paciência materna e um sorriso afetivo.

Aliviado, o homem pensou que isso era bom.

Pelo menos ele já sabia que a mulher não havia perdido nenhum de seus movimentos, que ela falava, enxergava e tinha um pingo de senso rastejando em algum lugar de sua cabeça. No entanto, infelizmente, não se lembrava de nada.

Já se havia passado um mês desde o incidente, ela estava em coma todo esse tempo. Entre a vida e a morte, cercada por riscos e chances negativas. Felizmente ela despertou, como que por um milagre, disse o médico.

Todos os dias Heitor ia ao hospital e ficava com ela, por algum tempo, ele tinha uma dívida eterna com ela. Ela cuidou de seu filho quando ele não pôde. Como ele poderia ignorar isso?

Além disso, Demian se afeiçoou aquela mulher, uma vez que ninguém o tratava assim desde que ele conseguia se lembrar. Todas as suas babás – ou outras mulheres – que eram gentis com ele faziam isso só por causa de seu pai. Todas elas queriam a mesma coisa: ser sua madrasta. Na sua compreensão, eram todas mulheres más.

Por isso nunca deixou nenhuma se aproximar. Por isso era tão fechado, como o Senhor Jiang. Ele só confiava em seu pai, até agora. Até essa desconhecida aparecer e o salvar daquele lugar horrível e das mãos dos bandidos. Ainda por cima, levou um tiro por ele!

Quem faria isso?

Foi assim que Demian abriu o seu coração para aquela desconhecida. Todos os dias o garoto perguntava ao seu pai pela sua salvadora. Às vezes ele estava pessoalmente no hospital só para vê-la.

Na sua visão, ela era como as princesas dos contos de fadas. Era a bela adormecida a qual ele ansiava que acordasse logo. Quando seu pai lhe deu a maravilhosa notícia de que sua heroína havia enfim despertado, Demian vibrou de alegria.

Claro! Ele sabia que ela havia se machucado por ele. E ele queria vê-la novamente, falar com ela, estar com ela. Bom, isso foi o que ele fez.

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