Três anos depois de ser abandonada grávida pelo meu namorado, Lino, o reencontrei no aeroporto.
Ele estava de braços dados com a herdeira rica por quem me trocou, rindo e cercado por nossos antigos amigos.
Eles me humilharam, zombaram das minhas roupas simples e arrancaram do meu pescoço o colar que meu marido me deu, chamando-o de falsificação barata.
"Olhem só para ela", Heloísa zombou. "Parece que a vida não tem sido muito generosa, não é?"
Lino até me ofereceu um emprego de babá por pena, enquanto me dava um tapa no rosto e jogava dinheiro no chão aos meus pés.
O que eles não sabiam é que o homem que aguardavam ansiosamente para impressionar, o recluso e temido bilionário Gabriel Ortega, era meu marido.
E ele acabara de chegar, vendo sua esposa com a mão sangrando e o rosto marcado.
Capítulo 1
Eu vi Lino Serrano no aeroporto, exatamente onde havíamos nos despedido três anos atrás, quando ele me abandonou grávida. Três anos. Parecia uma vida inteira, mas a memória daquele dia ainda era nítida, uma ferida que eu pensava estar cicatrizada. Eu estava ali, novamente, no mesmo lugar, mas não era a mesma Sofia.
Lino estava rindo, um riso alto e confiante que eu conhecia tão bem. Ele estava de braços dados com Heloísa Peres, a mulher rica por quem ele me trocou. Heloísa era exatamente como eu me lembrava: impecável, com seus cabelos loiros perfeitamente penteados e um sorriso arrogante nos lábios. Eles pareciam esculpidos para o sucesso, a imagem perfeita que Lino sempre almejou.
Minha garganta se apertou. Eu me lembrava de como implorei a ele naquele dia, com a notícia de um bebê crescendo dentro de mim. Ele me olhou com uma frieza que nunca imaginei que possuía. Ele não ofereceu uma palavra de explicação, apenas virou as costas e entrou naquele avião, para Heloísa e para a vida de riqueza que ela representava. Naquele dia, ele me deixou com o coração em pedaços e a vida virada do avesso.
Ele a beijou na testa, um gesto que um dia foi exclusivamente meu. A dor de três anos atrás ameaçou ressurgir, mas eu a empurrei para o fundo da minha mente. Eu não era mais aquela garota ingênua e desesperada.
Lino estava cercado pelos nossos antigos amigos, a quem chamei de "nosso". Eles estavam todos ali, os mesmos rostos que um dia me prometeram lealdade eterna. Eles se divertiam, alheios à minha presença.
Até que um deles, Ricardo, me viu.
Seu sorriso congelou. Seus olhos se arregalaram em choque, então se estreitaram em desdém. Ele sussurrou algo para o grupo, e todos os olhares se voltaram para mim.
Senti o peso de seus julgamentos. As risadas morreram, substituídas por sussurros e olhares curiosos, carregados de pena e superioridade.
Lino se virou. Seus olhos encontraram os meus, e uma expressão de surpresa genuína se espalhou por seu rosto. Era uma mistura de choque e talvez, apenas talvez, um vislumbre de algo que parecia culpa. Mas durou apenas um instante.
Ele se recompôs rapidamente, a máscara de arrogância voltando ao seu lugar.
"Sofia?", ele questionou, sua voz tingida de um falso espanto. "O que você está fazendo aqui? Achei que você tivesse desaparecido do mapa."
Um sorriso zombeteiro surgiu no rosto de Heloísa. Ela me olhou de cima a baixo, sua avaliação óbvia e depreciativa. Meus jeans simples e minha blusa de algodão não combinavam com o luxo do aeroporto, nem com o brilho de suas roupas de grife.
"Olhem só para ela", Heloísa zombou, virando-se para os amigos. "Parece que a vida não tem sido muito generosa, não é? Pensei que você tivesse se virado de alguma forma."
Os amigos riram, alguns escondendo o riso com a mão, outros me fuzilando com o olhar. Ninguém parecia se importar com a minha dignidade.
"Aposto que ela está arrependida de ter me deixado", Lino disse, com um ar de superioridade, a voz alta o suficiente para que todos ouvissem. "Deve estar vivendo uma vida miserável, provavelmente."
Eu não disse nada. Apenas os observei. Eles faziam suposições sobre a minha vida, sobre o meu arrependimento, baseados apenas na minha aparência. Eu usava roupas simples, sim, mas eram de seda e cashmere, tecidos leves e confortáveis que Gabriel adorava que eu usasse. Eles viam simplicidade; eu via luxo discreto.
Eles não sabiam que eu era Sofia Ortega, esposa de Gabriel Ortega, o homem mais poderoso do país.
Eles não tinham a menor ideia de que a pessoa que estavam esperando, ansiosamente, para impressionar em um gala de negócios, era meu marido.
Uma pontada de cansaço me atingiu. Aquela cena, aquelas pessoas, aquele passado, tudo parecia tão distante, tão insignificante.
"Mas não se preocupe, Sofia", Lino continuou, com um sorriso condescendente. "Eu sou um homem de bom coração. Sempre fui. Tenho uma proposta para você."
Ele gesticulou para Heloísa e para a criança que estava em seus braços. Heloísa me olhou com uma expressão de nojo.
"Minha Heloísa deu à luz a um lindo menino. Estamos procurando uma babá confiável para ele. Você se encaixaria perfeitamente. Daria para você um lugar para morar e algumas moedas para se virar."
Os amigos assentiram, como se Lino estivesse me fazendo um favor imenso, resgatando-me da miséria.
Senti um leve arrepio. A arrogância dele era tão previsível, tão nauseante. Mas, surpreendentemente, não senti raiva. Apenas um desprezo profundo. Minha vida havia mudado radicalmente. Eu tinha um lar, uma família, um amor que eles jamais poderiam compreender. E eu estava grávida de novo, esperando o segundo filho de Gabriel.
Lino e Heloísa, no entanto, continuavam a me subestimar, cegas pela própria presunção. Era quase divertido observá-los. Era evidente que eles não tinham a menor ideia do quão perto estavam de uma catástrofe colossal, uma que seria inteiramente obra deles.
Eu suprimi um suspiro, não tinha energia para discutir com eles. Minha voz, quando saiu, era calma e controlada, em total contraste com a agitação do meu coração. "Lino, Heloísa. Podemos, por favor, seguir com o que vocês estavam fazendo?"
Um silêncio tenso pairou sobre nós. Os amigos de Lino trocaram olhares rápidos, confusos com a minha inesperada serenidade. Então, uma risada irrompeu de Heloísa, seguida pelos outros.
"Você ouviu isso, Lino?", Heloísa zombou, sua voz estridente. "Ela está nos dando ordens! Como se pudesse!" Ela apontou para um banner enorme pendurado no teto do aeroporto. "Estamos esperando por alguém muito importante, Sofia. Alguém que você nunca teria a chance de conhecer. O bilionário recluso, Gabriel Ortega, e sua ilustre esposa. Eles são os convidados de honra do gala de negócios que meu pai está organizando."
Uma leve curva nos meus lábios. Eles não faziam ideia. O sangue em minhas veias parecia pulsar em um ritmo diferente.
"A esposa dele", Heloísa continuou, os olhos brilhando de inveja e admiração. "Dizem que ela é uma mulher incrível, de uma elegância discreta, mas impecável. Uma verdadeira dama. E Gabriel, ele é um gênio, mas também um lobo. Ele faria qualquer coisa por ela."
Eu sorri internamente. Discreta e impecável. Aquilo me descrevia perfeitamente. E Gabriel? Ah, eles não sabiam o quão certo estavam sobre o "lobo".
"E pensando bem", Heloísa disse, seus olhos fixando-se em mim novamente, "Essa sua velha joia... O colar dela é um presente único de Gabriel. Um colar de esmeraldas e diamantes raríssimos, uma fortuna incalculável. É uma peça exclusiva, feita sob medida."
Ela estreitou os olhos, e então sua voz se tornou um sibilo venenoso. "Mas o que é isso, Sofia? O seu colar... é idêntico! Onde você conseguiu essa imitação barata?"
O ambiente congelou. Todos os olhos se voltaram para o delicado colar que eu usava, o presente de aniversário de Gabriel.
Lino, com um brilho de suspeita nos olhos, deu um passo em minha direção. Ele estendeu a mão, ignorando meu espaço pessoal, e agarrou o colar com força.
"Isso é ridículo", ele zombou, examinando a peça entre os dedos. "Você realmente acha que pode enganar alguém? Isso é uma falsificação. Onde você roubou isso?"
Puxei minha mão de volta. O metal frio do colar ainda me dava uma sensação de segurança.
Eu apenas sorri, deslizando os dedos sobre as pedras. Para mim, o valor do colar não estava no preço, mas no amor de Gabriel. Era um símbolo de nossa união, da nossa história.
Eles não podiam ver isso. Eles viam um colar, um objeto, um status. Eles não viam o amor que o envolvia. A dúvida se espalhava nos olhos de Lino. Ele esperava que eu entrasse em pânico, que me desculpasse. Mas eu não o fiz.
"Você está tão calma", Lino disse, a voz cheia de desconfiança. "Por que? Você está escondendo alguma coisa, não está?"
Antes que eu pudesse responder, ele, num acesso de raiva, puxou o colar do meu pescoço. Senti um puxão forte, seguido por uma dor aguda. As pedras se espalharam pelo chão, o fio de ouro se partiu. As esmeraldas e diamantes rolaram pelos mármores polidos do aeroporto, como lágrimas de um passado que se recusava a ser esquecido.
Heloísa pegou uma das pedras, rindo com escárnio. "Olhem só! Que falsificação patética! Você realmente pensou que poderia nos enganar com isso, Sofia?"
"Você é a convidada especial, não é?", Heloísa continuou, a voz cheia de deboche. "Você é a esposa do bilionário, não é?"
Os amigos de Lino caíram na gargalhada. A ideia era tão absurda para eles que se tornou hilária. Eles não podiam imaginar a Sofia de três anos atrás, a Sofia abandonada e humilhada, como a esposa do homem mais poderoso do país.
Mas a Sofia de agora era diferente. Eu me tornei forte, mais forte do que eles poderiam imaginar. A dor física era insignificante perto da dor que ele me causou anos atrás. Eu olhei para Lino, para Heloísa, para seus amigos, e senti um nó na garganta.
Eu tentei falar, tentei dizer a verdade, mas Lino me deu um tapa no rosto, tão forte que o canto da minha boca sangrou.
"Cale a boca!", ele gritou, os olhos injetados de fúria. "Não minta! Não ouse mentir!"
Os amigos dele se mostraram indignados.
"Ela está tentando sabotar nosso relacionamento com Gabriel!", um deles gritou.
"Ela está tentando se passar pela esposa dele para nos humilhar!", outro acrescentou.
Limpei o sangue da minha boca e olhei para Lino. Seus olhos, por um instante, brilharam com um medo fugaz.
"Ela é uma manipuladora! Uma interesseira!", Heloísa gritou, a voz cheia de ódio. Ela se adiantou, apontando o dedo para mim. "Você sempre foi assim, Sofia! Sempre invejando o que é dos outros!"
Uma memória antiga me atingiu. Lino e eu, anos atrás, em uma discussão. Ele sempre foi assim, sempre me acusando, sempre me diminuindo. Ele nunca mudou.
"Você é patética, Sofia", Lino disse, a voz fria e calculista. Ele tirou algumas notas da carteira e jogou-as no chão, aos meus pés. "Aqui. Isso deve ser suficiente para você se alimentar por alguns dias. E, se você for uma boa menina, posso te dar aquele emprego de babá para o meu filho. É o máximo que você vai conseguir na vida."
Ele se gabava do seu novo status, do seu sucesso, da sua "generosidade" . Eu olhei para as notas espalhadas no chão, e para ele. Sua expressão era de auto-satisfação, de triunfo. Ele estava se divertindo. Ele realmente acreditava que eu era a mesma mulher de três anos atrás.
Lino, você não faz ideia.
Eu ignorei Lino e as notas no chão. Apenas me virei, pronta para partir. Preciso sair daqui.
Ele me barrou, colocando a mão no meu braço. "Onde você pensa que vai? Por que você está desprezando meu dinheiro, meu favor? Você está tentando me fazer sentir culpado? Você ainda está com raiva por eu ter te deixado?"
"Lino", eu disse, a voz mais calma do que eu esperava. "Depois de um rompimento, o ideal é não haver contato." Aquela foi a regra que impus a Gabriel, e ele, em sua possessividade peculiar, concordou. Ele não me queria perto de ninguém do meu passado. E se ele visse essa cena... o pensamento me deu um calafrio. Mas Lino, cego pelo seu próprio ego, não entendeu a gravidade da situação.
"Ah, entendi", ele disse, com um sorriso condescendente. "Você quer que eu te persiga, não é? Quer que eu implore. Mas você sabe que sou um homem ocupado agora. Venha, vou te levar para o gala. Você pode me agradecer lá. Mas você vai ter que trocar essas roupas de mendiga."
Eu o observei, a expressão de escárnio no rosto dele, o brilho de poder em seus olhos. Aquele era o Lino que eu odiava, o Lino que me abandonou.
"Não, obrigada", eu respondi, a voz firme. "Eu tenho meus próprios planos."
O sorriso dele desapareceu. A mão dele, que ainda estava no meu braço, congelou no ar. Seus olhos se estreitaram de raiva e humilhação.
"Você... você ousa me recusar?", ele rosnou, a voz baixa e perigosa. "Você, uma mulher que não tem nada, recusando a minha oferta? Quem você pensa que é? Uma rainha?" Ele virou-se para Heloísa. "Heloísa, vamos. Essa mulher não vale o meu tempo."
Heloísa abriu um sorriso triunfante e se adiantou, os olhos brilhando. "Pelo menos eu sei reconhecer uma oportunidade, não é, Lino? E eu sei me vestir para uma."
Enquanto eles se afastavam, eu dei um passo para trás, deixando o aeroporto para trás. Eu precisava de ar.
A brisa fresca no meu rosto era um alívio. Meus pensamentos voltaram para o passado. Eu me lembrava daquele dia, há três anos, quando eu o implorei para não me deixar. O bebê crescendo dentro de mim, a esperança de uma família. Ele me abandonou. Ele me trocou por Heloísa, pela riqueza e pelo status que ela representava.
Minha família, desesperada, arranjou um casamento para mim. Um bilionário recluso, Gabriel Ortega. Ele me tratou com amor, com respeito. Ele aceitou meu filho, Júnior, como se fosse dele. E agora, eu estava grávida de novo, nosso segundo filho.
Eu voltei para essa cidade com meus próprios motivos, talvez para me despedir de vez do passado. Mas o que eu encontrei foi uma humilhação que me revoltou.
Três dias depois.
Eu estava no meu quarto de hotel, me preparando para o gala de negócios. Usei um vestido simples, mas elegante, um presente de Gabriel. Eu não queria chamar atenção, mas queria mostrar que não era mais a Sofia de três anos atrás. Eu queria que eles vissem a mulher que eu me tornei.
Cheguei ao local do evento sozinha. A sala de baile estava lotada de pessoas importantes, todas vestidas em trajes de gala. Lino me viu assim que entrei. Seus olhos se iluminaram, e um sorriso predatório surgiu em seus lábios.
Ele se adiantou, seus olhos me percorrendo de cima a baixo. "Então você veio", ele disse, um ar de satisfação em sua voz. "Achei que você tivesse se esgueirado para dentro, sem ser convidada. Mas estou surpreso, você até se arrumou um pouco."
Eu o ignorei. Eu estava cansada de suas provocações. Eu apenas tentei passar por ele, mas ele me impediu, agarrando meu braço novamente.
"Onde você pensa que vai?", ele perguntou, a voz mais exigente agora.
Eu me soltei dele, a voz um pouco mais alta do que eu pretendia. "Para o meu lugar."
Os olhos de Lino seguiram meu olhar, e ele viu a mesa principal, a mesa do anfitrião, onde Heloísa estava sentada com seus pais. A mesa destinada aos convidados de honra. A mesa de Gabriel Ortega. O sorriso de Lino vacilou. Seus olhos se arregalaram em choque, e um rastro de medo passou por seu rosto.
Heloísa, que estava conversando com alguns convidados, percebeu a cena. Seus olhos se arregalaram em fúria quando me viu. "O que ela está fazendo aqui, Lino? Ela está tentando se passar pela esposa de Gabriel Ortega novamente? Ela está tentando nos humilhar?" Ela virou-se para a multidão, sua voz em um tom alto. "Essa mulher, Sofia Moreira, é uma impostora! Ela está usando um colar falso e está tentando se infiltrar na festa para tentar roubar o que não é dela!"
Um burburinho percorreu a sala. Todos os olhares se voltaram para mim.