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Minha Voz, Minha Vida: O Renascer da Fadista

Minha Voz, Minha Vida: O Renascer da Fadista

Autor:: Yi Shi
Gênero: Moderno
Por cinco anos, minha vida foi uma coreografia meticulosa de serviço. Na opulenta quinta dos Azevedo, preparei o café, as torradas e o sumo fresco para Diogo. Nosso casamento? Um "contrato de gratidão" impiedoso. Ele descia as escadas, olhos colados ao telemóvel, a minha existência uma sombra em sua rotina. Nem um "bom dia". Um dia, espreitei o ecrã: "Clara". Um sorriso genuíno e luminoso rasgou o rosto de Diogo- um sorriso nunca a mim dirigido. Pousei uma pasta à sua frente. "São os papéis do divórcio. E uns documentos para caridade, para assinares." A matriarca dissera: "A Clara regressou." Era o fim. Ele, distraído pelas mensagens da Clara, assinou sem ler. "Estudos? Vais fazer um curso de culinária?" perguntou ele, a cegueira quase absurda. Na tasca, um tacho de azeite fervente voou. Diogo protegeu Clara, eu fiquei exposta. O azeite queimou-me o braço. Ele partiu comigo ali, para levar Clara ao hospital por uma pequena queimadura na mão. "Podes tratar disso?" A dor física era insignificante perto da humilhação. Cinco anos de dedicação, de fingimento, por um homem que me abandonou sem pestanejar. Eu, a esposa, tratada como um incómodo descartável. O vazio era palpável. Havia um nó na garganta que nunca se desfazia. Como pude permitir isto por tanto tempo? Mas a resposta chegou. Sozinha no hospital, a notificação da academia de Paris brilhou. Minha voz. Meu fado. Minha vida. Silenciosamente, sem drama, deixei a quinta. Era altura de me erguer das cinzas. De ser livre. O espetáculo do meu renascimento estava prestes a começar.

Introdução

Por cinco anos, minha vida foi uma coreografia meticulosa de serviço.

Na opulenta quinta dos Azevedo, preparei o café, as torradas e o sumo fresco para Diogo.

Nosso casamento? Um "contrato de gratidão" impiedoso.

Ele descia as escadas, olhos colados ao telemóvel, a minha existência uma sombra em sua rotina.

Nem um "bom dia".

Um dia, espreitei o ecrã: "Clara".

Um sorriso genuíno e luminoso rasgou o rosto de Diogo- um sorriso nunca a mim dirigido.

Pousei uma pasta à sua frente. "São os papéis do divórcio. E uns documentos para caridade, para assinares."

A matriarca dissera: "A Clara regressou." Era o fim.

Ele, distraído pelas mensagens da Clara, assinou sem ler.

"Estudos? Vais fazer um curso de culinária?" perguntou ele, a cegueira quase absurda.

Na tasca, um tacho de azeite fervente voou. Diogo protegeu Clara, eu fiquei exposta.

O azeite queimou-me o braço.

Ele partiu comigo ali, para levar Clara ao hospital por uma pequena queimadura na mão.

"Podes tratar disso?"

A dor física era insignificante perto da humilhação.

Cinco anos de dedicação, de fingimento, por um homem que me abandonou sem pestanejar.

Eu, a esposa, tratada como um incómodo descartável.

O vazio era palpável. Havia um nó na garganta que nunca se desfazia.

Como pude permitir isto por tanto tempo?

Mas a resposta chegou. Sozinha no hospital, a notificação da academia de Paris brilhou.

Minha voz. Meu fado. Minha vida.

Silenciosamente, sem drama, deixei a quinta.

Era altura de me erguer das cinzas.

De ser livre.

O espetáculo do meu renascimento estava prestes a começar.

Capítulo 1

Cinco da manhã.

Sofia Almeida já estava de pé.

O seu corpo movia-se pela cozinha com a precisão de um relógio.

Primeiro, o café fresco para Diogo Azevedo.

Depois, as torradas, barradas com a compota caseira que ele preferia.

Sumo de laranja natural, espremido na hora.

Tudo disposto na mesa da copa, impecavelmente.

Há cinco anos que esta era a sua rotina.

Cinco anos a cuidar de Diogo, da casa, da quinta.

Cinco anos de um casamento que era um contrato.

Ele desceu as escadas perto das oito.

Os olhos fixos no ecrã do telemóvel.

Nem um bom dia.

Sentou-se, comeu em silêncio, absorto nas mensagens.

Sofia serviu-o, recolheu a loiça, sem uma palavra.

A indiferença dele era uma constante, uma paisagem familiar.

De relance, enquanto ele pousava o telemóvel para pegar na chávena de café, ela viu o nome.

Clara.

Sempre Clara.

O fantasma que assombrava a vida deles, ou melhor, a vida dele.

Sofia engoliu em seco. A presença de Clara, mesmo virtual, era um lembrete doloroso.

O telefone fixo tocou.

Sofia atendeu.

"Sofia, minha querida?" A voz de Dona Helena Azevedo, a matriarca, soou do outro lado.

"Bom dia, Dona Helena."

"Liguei para saber como estão as coisas. O Diogo... ele parece mais animado. Ouvi dizer que a Clara regressou a Portugal."

A preocupação na voz dela era palpável.

Preocupação com o filho, com o fim iminente do acordo.

"Sim, Dona Helena. O contrato está a terminar."

Sofia olhou pela janela. O sol da manhã iluminava as vinhas da quinta.

"E a Clara está de volta. Para mim, significa liberdade."

A voz dela era calma, resignada.

"Oh, Sofia... Lamento tanto por tudo isto. Pelos teus sacrifícios."

Dona Helena suspirou.

"Se precisares de alguma coisa para os teus planos futuros, sabes que podes contar connosco."

"Obrigada, Dona Helena. Só quero o meu tempo de volta. A minha vida."

Uma flor efémera, pensou Sofia. Foi isso que ela foi. Plantada para murchar.

Um flashback rápido.

Sofia, órfã, criada numa instituição de caridade em Alfama.

A sua avó, a única família que lhe restava, adoecera gravemente.

As dívidas acumulavam-se.

A família Azevedo, rica e tradicional, dona de uma vasta quinta produtora de vinho do Porto, ajudou.

Pagaram as despesas médicas, salvaram a pequena casa da avó.

Uma dívida de gratidão.

Foi então que Dona Helena lhe propôs o "contrato de gratidão".

Diogo Azevedo, o herdeiro, estava destroçado.

Clara Vasconcelos, o seu amor de juventude, elegante e de família tradicional, partira para o estrangeiro.

Casara com outro.

Diogo mergulhara numa apatia profunda, negligenciando tudo.

Um acidente de carro quase o matara. Ou talvez ele quisesse morrer.

Sofia tinha um sonho: uma bolsa de estudo numa conceituada casa de fados.

O seu talento era inato, a sua voz carregava a alma de Alfama.

Mas abdicou de tudo.

Assinou o contrato de cinco anos.

Casar com Diogo. Cuidar dele. Ajudá-lo a superar o desgosto.

Manter a casa, a quinta, com dedicação exemplar.

Em troca, a dívida da sua família seria esquecida.

Houve um momento, um vislumbre de esperança.

Numa regata, anos antes do contrato, mas já sob a sombra da dívida, Diogo, para impressioná-la, ou talvez para se impressionar a si mesmo, deixara cair ao mar uma joia de família.

Sofia, sem hesitar, mergulhara nas águas frias do Tejo e recuperara a peça.

Ele ficara genuinamente impressionado. Usou esse momento, esse anel recuperado, para a "pedir em casamento" como parte do contrato.

Um pedido vazio, motivado pela necessidade de cumprir o acordo, de ter alguém que o amparasse enquanto ele sofria por Clara.

Ela soube, mesmo ali, que o coração dele pertencia a outra.

Durante cinco anos, ela dedicou-se.

Refeições tradicionais portuguesas, as preferidas dele.

A quinta organizada, a casa a brilhar.

Ele, consistentemente, negligenciava-a.

Nos aniversários dela, ele estava sempre "ocupado".

Em momentos importantes, ele só tinha olhos para as memórias de Clara.

O segundo acidente de Diogo, dois anos após o início do contrato, foi um ponto de viragem para Sofia.

Ele estava no hospital, vulnerável.

E chamava por Clara.

"Clara... Clara..."

O nome ecoava no quarto, cada sílaba uma confirmação da futilidade dos seus esforços.

Foi ali, ao lado da cama dele, ouvindo o nome da outra, que Sofia teve a sua epifania dolorosa.

A sua missão falhara.

Diogo nunca esqueceria Clara.

E ela, Sofia, nunca teria o seu amor, nem sequer a sua atenção genuína.

O contrato estava a chegar ao fim.

Era hora de seguir em frente.

De reclamar a sua vida, a sua voz, o seu fado.

Capítulo 2

"Com quem estavas a falar?"

A voz de Diogo sobressaltou-a. Ele tinha descido, já vestido para sair.

"Com a tua mãe," respondeu Sofia, evasiva.

Ele deu de ombros, sem interesse. Pegou na pasta e saiu.

Sofia passou a noite em claro.

A conversa com Dona Helena, a imagem de Clara, a perspetiva da liberdade.

Tudo se misturava na sua mente.

A decisão estava tomada. Faltava apenas a execução.

De manhã, o pequeno-almoço de Diogo foi diferente.

Em vez das torradas e compota, havia croissants e iogurte grego com fruta.

"O que é isto?" ele perguntou, o tom ligeiramente irritado.

"Pensei em variar um pouco. Para te habituares a outros sabores," disse Sofia, calmamente.

Ela precisava de um pretexto para as mudanças que viriam.

Ele resmungou qualquer coisa, mas comeu.

O telemóvel vibrou. Ele pegou nele de imediato.

Sofia viu a ansiedade no rosto dele. Clara.

Ele ignorou-a completamente, os dedos a deslizar pelo ecrã.

De repente, um sorriso rasgou o rosto de Diogo.

Um sorriso genuíno, luminoso.

Um sorriso que Sofia raramente via, e nunca dirigido a ela.

Era por causa de uma mensagem de Clara.

A dor, já familiar, apertou o peito de Sofia.

Ela respirou fundo. Era agora.

Pousou uma pasta com documentos à frente dele.

"O que é isto?" ele perguntou, ainda a sorrir para o telemóvel.

"São os papéis do divórcio. E uns documentos para uma obra de caridade da família, para assinares."

A voz dela era firme, sem emoção.

Ele olhou para os papéis, distraído.

"Divórcio? Ah, sim. Claro."

Assinou onde ela indicou, sem ler, os olhos a voltarem para as mensagens de Clara.

A facilidade com que ele aceitou, a indiferença, confirmaram tudo.

"Vou retomar os meus estudos de fado," disse Sofia, mais para si mesma do que para ele.

"Talvez em Coimbra. Ou Paris. Preciso de tempo para mim."

Ele levantou a cabeça, confuso. "Estudos? Vais fazer um curso de culinária?"

A total falta de atenção dele era quase cómica, se não fosse tão trágica.

Sofia sorriu. Um sorriso de resignação, de libertação.

Ele não fazia ideia. Nunca fizera.

"Algo assim," respondeu ela.

Pegou nos papéis assinados e saiu da sala.

Era o início do fim.

Mais tarde, nesse dia, Sofia visitou a instituição de caridade em Alfama.

Madre Teresa recebeu-a com um abraço caloroso.

"Minha filha, pareces mais leve."

Sofia contou-lhe os seus planos. O divórcio, os estudos.

"Paris? Que maravilha! Sempre soube que o teu talento te levaria longe."

"O Diogo... ele nunca te mereceu, Sofia."

A voz de Madre Teresa era firme, mas carregada de carinho.

"Cinco anos é muito tempo. Ele teve a oportunidade dele. Não soube aproveitá-la."

As palavras da madre foram um bálsamo para a alma de Sofia.

Uma confirmação externa de que estava a fazer o correto.

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