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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei

Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei

Autor:: PageProfit Studio
Gênero: Lobisomem
"Minha irmã tentou roubar o meu companheiro. E eu deixei que ela ficasse com ele." Nascida sem uma loba, Seraphina era a vergonha da sua Alcateia. Até que, em uma noite de bebedeira, engravidou e casou-se com Kieran, o impiedoso Alfa que nunca a quis. Mas o casamento deles, que durou uma década, não era um conto de fadas. Por dez anos, ela suportou a humilhação de não ter o título de Luna nem marca de companheira, apenas lençóis frios e olhares mais frios ainda. Quando sua irmã perfeita voltou, na mesma noite em que o Kieran pediu o divórcio, sua família ficou feliz em ver seu casamento desfeito. Seraphina não brigou, foi embora em silêncio. Contudo, quando o perigo surgiu, verdades chocantes vieram à tona: ☽ Aquela noite não foi um acidente; ☽ Seu "defeito" era, na verdade, um dom raro; ☽ E agora todos os Alfas, incluindo seu ex-marido, iam lutar para reivindicá-la. Pena que ela estava cansada de ser controlada. *** O rosnado do Kieran reverberou pelos meus ossos enquanto ele me prendia contra a parede. O calor dele atravessava as camadas de tecido da minha roupa. "Você acha que é fácil assim ir embora, Seraphina?" Seus dentes roçaram a pele não marcada do meu pescoço. "Você. É. Minha." Uma palma quente subiu pela minha coxa. "Ninguém mais vai tocar em você." "Você teve dez anos pra me reivindicar, Alfa." Mostrei os dentes em um sorriso. "Engraçado como você só se lembra que sou sua... quando estou indo embora."

Capítulo 1 – O ERRO

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

"Seraphina!"

Acordei de sobressalto ao ouvir meu nome ser chamado com urgência pela voz da minha mãe ao telefone. A voz dela tremia, aguda e frágil.

"Mãe?" Minha garganta estava seca. Fazia dez anos que ela não entrava em contato... a menos que fosse com as piores notícias imagináveis.

"Seu pai..." A respiração dela falhou. "Ele foi atacado."

Meu estômago se apertou e um medo gelado me envolveu.

"O quê?!"

"Ah, Sera, ele está lutando pela vida!" Minha mãe choramingou, a voz quebradiça.

Imediatamente, joguei as cobertas de lado e saltei da cama.

"Me manda o endereço do hospital", disse, com a voz trêmula. "Vou pra aí o mais rápido que puder."

Tentei não fazer muito barulho enquanto descia rapidamente as escadas para não acordar meu filho, Daniel. A luz embaixo da porta do escritório do meu marido, Kieran, indicava que ele ainda estava acordado. Como Alfa da alcateia, ele sempre tinha muita coisa para resolver.

E, para ser sincera, ele tinha muita mágoa em relação a mim.

Um erro de uma década nos uniu. Um erro que ele nunca perdoou.

Então, não planejava incomodá-lo.

Quando sentei no banco do motorista, lágrimas corriam pelo meu rosto.

Meu pai sempre foi invencível. Inabalável. O gigante do meu coração, mesmo que ele nunca tenha me aceitado como filha, mesmo que ele me odiasse. Nunca imaginei que ele poderia ser tirado de mim assim...

Pisei no acelerador com força.

Quando cheguei ao hospital, minha mãe e meu irmão estavam sentados como sombras do lado de fora da sala de emergência. Meu peito apertou. Será que o gigante realmente sucumbiria?

Hesitei. Não consegui me aproximar, não quando o desprezo deles me exilou há tanto tempo. Depois daquela noite, há dez anos, eles me apagaram. Para o mundo, eles tinham apenas uma filha agora... Celeste.

Eu deveria estar ali?

Já fazia dez anos desde a última vez que nos falamos. Mesmo depois que o Daniel nasceu, toda a comunicação com a família passava pelo Kieran. Meu pai deixou claro que ele nunca mais queria ver o meu rosto.

Será que ele realmente ia querer me ver agora?

E se não quisesse? E se o ressentimento dele não tivesse diminuído?

Hesitei. Ouvi apenas o som do meu coração batendo forte até que o barulho agudo das portas da sala de emergência interrompeu meus pensamentos. O médico saiu, tirando as luvas.

"Doutor!" Eu avancei antes de conseguir me conter, com a voz tremendo. "Como meu pai está?"

A expressão grave no rosto dele disse tudo. "Sinto muito. Fizemos tudo o que podíamos, mas os ferimentos foram graves demais."

Pressionei a mão na boca, sufocando o soluço que subia pela minha garganta.

"Ele... se foi?" Ethan, meu irmão, mal olhou para mim antes de se dirigir ao médico com a voz rouca.

"Ainda não." O homem balançou a cabeça lentamente. "Mas não vai passar dessa noite. Ele está pedindo para ver a filha."

Dei um passo para frente instintivamente... e então congelei.

A filha.

Não podia ser eu. Depois de dez anos de indiferença e ressentimento, a filha que meu pai queria ver, à beira da morte, nunca seria eu.

A risada do Ethan era gelada. "Dez anos, e nossa família ainda está pagando pelos seus erros!"

Virei-me para enfrentá-lo, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Uma década desde a última vez em que estive tão perto dele, desde que ele me olhou. O tempo o havia esculpido em um verdadeiro Alfa: ombros largos, queixo firme, uma presença dominante que emanava dele em ondas.

Mas o ódio em seus olhos? Isso não tinha mudado.

Meu coração deu uma dolorosa reviravolta, como se garras rasgassem a carne.

"Por sua causa", ele rosnou para mim, "a Celeste foi embora. Por sua causa, ela não pôde estar aqui. Por sua causa, o Papai vai morrer sem realizar seu último desejo."

"Sim, é tudo culpa minha." Minha risada era amarga, carregada de uma década de dor. "Depois de todos esses anos, ainda sou a primeira a ser culpada. Ninguém se importa com a verdade ou com como eu me sinto!"

As lágrimas jorraram, minha explosão paralisando o Ethan por um instante. Mas, rapidamente, a voz dele soou, cortante:

"Como você se sente? Você roubou o noivo da sua irmã e ainda ousa falar sobre como se sente?"

Minhas unhas cravaram profundamente nas palmas das minhas mãos, reabrindo a velha cicatriz feia.

Dez anos antes, na Caçada da Lua de Sangue, eu tinha acabado de fazer vinte anos, a idade em que todo lobisomem encontra seu companheiro. Depois de uma vida sendo ignorada, eu estava desesperada por esse vínculo.

Quando criança, sonhei tolamente que poderia ser o Kieran. Mas então ele se apaixonou pela Celeste, a perfeita, radiante Celeste, a queridinha de toda a Alcateia Frostbane, e eu aprendi rapidamente qual era o meu lugar.

O que eu era? A filha defeituosa do Alfa, aquela que nem conseguia se transformar. Nada.

Se até minha própria família e minha alcateia não me davam atenção, como o Kieran poderia me querer? Nunca esperei que a situação mudasse. Mas, naquela noite, ao ouvir sobre o noivado iminente dele com a Celeste, a dor foi mais aguda do que qualquer garra. Pela primeira vez, deixei o álcool me entorpecer.

Esperei acordar esquecida em algum canto escuro. Jamais imaginei que me encontraria nua na cama do Kieran.

O álcool tinha queimado meus sentidos. Aquela noite era uma névoa de lembranças fragmentadas. Antes que eu pudesse juntar as peças do que aconteceu, a Celeste surgiu, seu grito cortando o ar ao ver a cena.

Então, veio o caos: os soluços histéricos da Celeste, os pedidos de desculpas cheios de culpa do Kieran, os sussurros venenosos da alcateia, minhas explicações gaguejadas... todos silenciados pelo estrondoso tapa que o meu pai deu no meu rosto.

"Eu me arrependo de ter te colocado nesse mundo!"

O que se seguiu foi uma cena muda de horror. O Kieran carregando o corpo inconsciente da Celeste para a enfermaria. O Ethan rosnando para os companheiros de alcateia curiosos. O choro abafado da minha mãe. E os olhos do meu pai... Deuses, aquele olhar de puro nojo. Eu sempre soube que ele me desprezava, mas nunca com tamanha intensidade, que tirou o ar dos meus pulmões.

"Eu não..." Meu sussurro morreu sem ser ouvido. Ninguém escutou. Ninguém.

De um dia para o outro, me tornei a pecadora favorita da alcateia para ser punida. Quando antes zombavam do meu problema para me transformar, agora cuspiam "vagabunda" como uma bênção. Até mesmo os Ômegas de baixo escalão me encurralavam em corredores escuros, com mãos bobas e insultos igualmente ousados. As mulheres atravessavam a rua quando eu passava, sibilando "ladra de maridos" como uma maldição.

O peso disso me esmagava. Quando os admiradores da Celeste deixaram ameaças de morte esculpidas na minha porta, reuni o pouco que possuía e fugi sob um lua nova. Pretendia desaparecer para sempre, até que o enjoo matinal começou. Até que o médico anunciou minha gravidez para todo o Conselho de Sangue.

Essa foi a única razão pela qual o Kieran se casou comigo. Ele era um homem honrado, um Alfa que nunca abandonaria seu herdeiro.

No entanto, isso despedaçou minha família.

Meus pais e meu irmão me odiavam por ter partido o coração da Celeste. A Alcateia do Kieran, NightFang, me detestava porque eu não era a Luna que eles desejavam. E a Celeste ficou tão furiosa que se mudou para o exterior.

"Você destruiu tudo!" A voz acusadora do Ethan cortou meus pensamentos. O veneno em seu olhar era indissolúvel mesmo após uma década e me feriu profundamente.

O sangue pode ter nos feito irmãos, mas o Ethan nunca me tratou como irmã. A Celeste era a única irmã que ele gostava e ele me desprezava por tê-la afastado.

Mas será que realmente foi tudo minha culpa? Posso ser fraca e sem talento, mas nunca fui tão vil a ponto de seduzir deliberadamente o pretendente da minha irmã. No entanto, eles nunca se importaram. Só precisavam de alguém para culpar.

"Você viu isso?" Minhas mãos tremiam, mas minha voz se endureceu como a geada de inverno. "Minha voz nunca foi ouvida. Minha existência nunca importou. Então me diga, Mãe." Virei-me para encará-la, a garganta apertada. "Se você nunca me quis, por que não me sufocou no berço? Por que fingir que eu ainda importava o suficiente para me chamar aqui?"

"Como você se atreve a falar com a mamãe assim?!", Ethan rugiu, seus caninos se alongando. "Casar com o Kieran não te fez automaticamente digna de ser Luna. Esse título sempre foi destinado à Celeste!"

"Eu nunca pedi nada disso!", retruquei, com a amargura preenchendo meu tom. "Eu estava pronta para desaparecer. Vocês podiam ter deixado a Celeste e o Kieran terem a cerimônia perfeita de acasalamento e fingido que eu nunca existi!"

Os lábios do Ethan se curvaram de forma zombeteira. "Não banque a mártir", ele zombou. "Você sabia muito bem que o Kieran nunca abandonaria seu filhote..."

"Ethan!" O comando da mãe carregava o resquício da sua antiga autoridade de Luna, embora seu cheiro agora carregasse apenas cansaço e tristeza. "Chega. Não desperdiçaremos os últimos momentos do seu pai com esta velha rixa de sangue."

Ela nem conseguiu olhar para mim enquanto falava. "Vá ver o seu pai." O olhar dela desviou como se minha presença a machucasse. Ethan me lançou um último olhar venenoso antes de afundar em uma cadeira.

Firmando-me, empurrei a porta.

O medo da sensação de ver aquela decepção familiar em seus olhos pela última vez quase me sufocou. Mas, quando o vi deitado, o homem que eu passara a vida tanto temendo quanto desejando agradar.

A figura imponente desapareceu dos meus pesadelos. O pai que antes parecia invencível agora estava imóvel, com o peito envolto em curativos e o rosto pálido. Os olhos, que sempre brilhavam com desprezo ao me vislumbrarem, agora não tinham nada.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto. Por que doía tanto?

Esse homem... Esse gigante que me odiou desde o momento em que me apresentei sem loba, que olhava para a Celeste com orgulho e para mim com vergonha.

A memória do nosso último encontro ainda arranhava meu coração.

O Kieran e eu não nos casamos, não houve nenhuma celebração, apenas o aperto de ferro do meu pai forçando minha mão a assinar meu nome na certidão de casamento.

"Agora você conseguiu o que queria", ele rosnou, seu poder de Alfa sufocando o ar entre nós. "A partir de hoje, você não é mais minha filha."

Eu nunca havia chorado tão intensamente nem jamais implorado com tanto desespero. Mas tudo o que ganhei foi a visão gélida das costas dele e sua última maldição venenosa:

"Sua vinda ao mundo foi um erro, Seraphina. Ouse aparecer novamente, e juro que nunca mais terá um momento de felicidade."

Ele cumpriu sua promessa.

Sua maldição envenenou todos os momentos da minha vida, enquanto meu "honrado" marido transformou nosso casamento em uma gaiola dourada com seu desprezo e silêncio interminável.

Eu deveria odiar a todos: minha família, meu destino.

Mas, quando os dedos do meu pai se mexeram debilmente nos lençóis, meu coração traiçoeiro vacilou. Antes que pudesse pensar, estava ao lado dele, segurando sua mão gelada.

"Papai?" Minha voz tremia com algo perigosamente próximo à esperança.

Os lábios pálidos dele se entreabriram ligeiramente, como se lutassem para formar palavras.

Mas, antes que pudesse falar...

BEEEP!

O monitor cardíaco gritou. A linha na tela se achatou.

"NÃO!" O grito saiu rasgando da minha garganta. Ele não podia partir, não assim. Não antes de eu ver o perdão em seus olhos. Não antes de pudermos desatar os nós que amarravam nossos corações.

A porta se abriu com um estrondo. O Ethan e a mamãe me empurraram para o lado, me fazendo cair no chão.

"Ele se foi..." Mamãe desabou contra Ethan, o corpo sacudido por soluços violentos. "Meu companheiro... Meu Alfa...!"

A dor do Ethan o sufocou silenciosamente até que seu olhar travou em mim. Seu lobo estava à superfície, os dentes à mostra. Não duvidei nem por um segundo que ele rasgaria a minha garganta. Até que a mamãe segurou o braço dele.

"Você, sua víbora!" , ele sibilou. "Qualquer fragmento de felicidade ao qual você se agarrou... Eu vou arrancar de você."

Uma risada vazia ecoou em minha mente. Por que todos estavam tão obcecados em destruir a minha felicidade, algo que eu nunca tive?

O médico entrou, murmurando para minha mãe: "Luna, precisamos preparar o corpo do Alfa Edward."

Andei sem rumo pelo corredor, minha alma em carne viva, as lágrimas caindo sem controle. Quando a elite da Alcateia chegou, ninguém me deu atenção, como sempre.

Mas, agora, a indiferença deles mal me afetava. Fiquei parada, atordoada, diante da sala onde estava o corpo do meu pai, ainda incapaz de compreender que ele nunca mais abriria os olhos para nós.

Até que a voz do Kieran cortou o silêncio.

"Minhas profundas condolências, Margaret." Ele segurou as mãos da minha mãe, como um genro exemplar. "Fique tranquila, vou ajudar o Ethan com todos os preparativos."

A luz da lua iluminava seus ombros largos através das janelas e os fios prateados nas têmporas só aumentavam a aura do Alfa em seu auge. Nem um fio de cabelo dele estava fora do lugar, apesar da convocação à meia-noite.

O Alfa mais letal da Alcateia NightFang. Só sua presença já era suficiente para dominar o ambiente.

"Sua presença me conforta, Kieran." Minha mãe chorou, agarrando seu braço.

Quando ele a abraçou, aqueles olhos ambares penetrantes encontraram os meus por cima do ombro dela. Depois, desviaram, como se tivessem visto uma mancha na parede.

"O que aconteceu exatamente?", ele perguntou, virando-se para o Ethan. "Como Edward pode ter sido atacado?"

A mandíbula do Ethan se apertou. "Patrulha de rotina na fronteira. Mas os malditos renegados apareceram em um número que nunca vimos antes, armados com armas de prata." Sua garganta se contraiu enquanto ele lutava para se controlar. "Foi uma emboscada. Meu pai não teve chance."

Os soluços da minha mãe preencheram o corredor. Kieran apertou o ombro do Ethan.

"Os renegados vão pagar por isso." , ele prometeu.

Eu estava esquecida, uma estranha no drama da minha própria família. Os três, mamãe, Ethan e Kieran, estavam unidos em seu luto, formando um círculo inquebrável que eu não conseguia atravessar.

"Eu mandei chamar a Celeste.", Ethan acrescentou de repente. "Ela deve chegar em breve."

"Oh, minha pobre menina!" Mamãe chorava, enterrando o rosto nas mãos. "Perder os últimos momentos com o pai dela..."

Meu olhar se encontrou involuntariamente com o de Kieran. Nossos olhos se cruzaram novamente. Sua expressão permanecia indecifrável: fria, analítica, completamente desprovida de calor. Dez anos compartilhando a vida, mas ainda parecia tão distante quanto outra galáxia. Eu nunca toquei seu coração. E agora, com o retorno da Celeste, uma terrível verdade esmagava meu peito como um peso de ferro: eu estava prestes a perder minha segunda família. Se minha loba vivesse dentro de mim, ela teria gemido baixo. Eu não sabia se sobreviveria à tempestade que se aproximava, mas algo queimava mais forte do que o medo: não importava o que acontecesse, ninguém tiraria meu filho de mim. Ninguém.

Capítulo 2 – FRIO E VAZIO

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

O silêncio frágil foi despedaçado por um grito agudo que ecoou pelo corredor estéril.

"Papai! Onde você está?"

Todos viraram a cabeça ao mesmo tempo. Meu estômago despencou quando a Celeste apareceu, com seus cabelos dourados voado atrás dela e as bochechas ruborizadas de tanto correr. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas sua beleza permanecia absolutamente estonteante.

Após dez anos, o aparecimento repentino da minha irmã me atingiu como um golpe físico.

Quase instintivamente, me virei para o Kieran, cuja boca estava escancarada, olhando para a Celeste como se ela fosse um sonho do qual ele tinha medo de acordar. O desejo puro em seus olhos era suficiente para responder à pergunta que me atormentava há uma década: seu coração nunca foi meu.

"Me diga que não cheguei tarde demais," implorou Celeste, sua voz se despedaçando. Quando ninguém respondeu imediatamente, seus joelhos fraquejaram.

Kieran se moveu mais rápido do que qualquer lobisomem. Ele a segurou antes que ela tocasse o chão, aconchegando-a contra seu peito enquanto minha mãe e meu irmão se juntavam ao abraço. Os membros entrelaçados e soluços compartilhados pintavam o retrato perfeito de uma família da qual eu nunca tinha feito parte.

Um pensamento me estrangulava: eu também tinha perdido meu pai, não tinha direito ao luto?

Mas esse era o mundo da Celeste. Sempre tinha sido. Desde o momento que deu seus primeiros passos, todos a observaram, admiraram, amaram. Enquanto a Celeste brilhava, eu me tornava uma sombra.

E agora, enquanto os soluços dela enchiam o ambiente, eu parecia ser invisível.

A saída me chamou. Seria melhor partir com o pouco de dignidade que me restava do que esperar pela rejeição inevitável.

Nenhuma cabeça se virou enquanto eu saía discretamente.

Minhas lágrimas já haviam secado quando cheguei em casa, deixando rastros salgados nas bochechas, mas o vazio no meu peito parecia que iria ficar para sempre.

Minha primeira parada foi no quarto do Daniel para ver como ele estava.

Fiquei surpresa ao ver luz embaixo da porta dele e, quando a empurrei, encontrei meu filho de nove anos encolhido com os joelhos contra o peito, como uma pequena fortaleza contra o mundo.

"Mamãe?" A voz dele era muito baixa e tinha um tom de reconhecimento.

Sentei na beirada da cama em forma de carro de corrida. "Querido, por que você tá acordado?"

Ele mordeu o lábio inferior, preocupado. "Tem algo errado com o Vovô Edward, né?"

Senti o ar fugir dos meus pulmões. Como eu contaria para esse menino de olhos brilhantes que o homem que o ensinou a rastrear cervos no último verão se foi? Alisei seu joelho coberto pelo pijama. "Querido, houve... um incidente esta noite. O vovô se machucou..."

"Ele morreu." O sussurro de Daniel tinha uma certeza assustadora. "Nosso vínculo... se quebrou."

Minha mão parou. Aos nove anos, ele não deveria ser capaz de sentir a ruptura dos laços da Alcateia. E, ainda assim, ali estava ele, demonstrando a sensibilidade de lobo que eu passara a vida inteira dele rezando para que ele herdasse.

Alívio e assombro lutavam em mim. Ele não seria como eu, não carregaria a vergonha de ser a filha defeituosa do Alfa, uma lobisomem cuja loba nunca se manifestou.

"Vem cá, meu menino corajoso." Eu o aconcheguei, respirando seu cheiro de xarope de mel e suor infantil. Por mais que eu lamentasse os acontecimentos desastrosos daquela Caçada da Lua de Sangue, nunca me arrependi do milagre que ela me deu.

Daniel era a única coisa pura na minha vida, a única pessoa que me amava acima de tudo.

Enquanto eu arrumava o cobertor de foguetes sobre os ombros dele, ele me olhou com aqueles olhos profundos, as miniatura dos olhos do Kieran.

"Você e o Papai vão estar sempre aqui, né?"

A pergunta atravessou meu coração. Passei os dedos pelos cabelos dele, do jeito que fazia quando ele era um bebê lutando contra o sono. "Oh, meu amor..."

Como eu poderia explicar que o pai dele nunca foi verdadeiramente meu? Que o jeito como o Kieran olhou para a Celeste naquela noite, como se o sol tivesse nascido depois de uma década de escuridão, era um olhar que ele nunca me deu? Que o abraço deles no corredor do hospital foi mais íntimo do que qualquer coisa que o Kieran e eu compartilhamos em dez anos de casamento?

"A Mamãe não vai a lugar nenhum", prometi, dando um beijo em sua testa franzida. "Seu Papai e eu amamos você mais do que tudo," sussurrei. "E nada vai mudar isso."

Seu sorriso sonolento me emocionou. "Boa noite, Mamãe."

"Doces sonhos, meu amor." Beijei a testa dele, demorando um pouco mais do que o necessário, antes de sair do quarto.

As luzes fluorescentes da cozinha faziam um leve zumbido enquanto eu mexia distraída na geladeira. Garrafas de vidro tilintaram e congelei onde estava ao ouvir o som da porta da frente.

Kieran tinha chegado em casa.

Eu imaginei que ele passaria a noite no hospital, confortando-a, reconectando-se com ela.

Ele se movia pela casa escura como uma sombra e seus ombros largos preencheram o vão da porta da cozinha. A luz da lua destacava os ângulos rígidos do seu rosto enquanto seu olhar passava por mim, vazio. Sempre vazio.

A geladeira zumbiu entre nós enquanto ele passava o braço por cima do meu ombro. Seu cheiro de cedro e chuva me envolveu por um breve e traiçoeiro momento antes dele se afastar, abrindo uma garrafa de água.

"Você... quer algo para comer?" Minha voz soou fraca no silêncio. "Você não jantou."

Nada. Apenas o som da garganta dele enquanto engolia a água, os músculos se flexionando sob a barba por fazer que eu nunca tive permissão de tocar. O som da garrafa plástica sendo jogada na lixeira me fez estremecer.

Ele se apoiou no balcão, a cabeça abaixada como Atlas carregando o mundo. Eu conhecia essa dança de cor. Eram dez anos falando com um fantasma.

"Eu só vou..." Eu me movi lentamente em direção à porta.

"Seraphina."

Meu nome na boca dele sempre era um choque, como ser mergulhada em água gelada.

Me virei devagar. A luz da lua esculpia sombras sob as maçãs do rosto dele, sua expressão ilegível como sempre.

"Precisamos conversar."

As palavras frias enviaram uma onda de pavor pelo meu corpo. O aperto no balcão fez os nós dos dedos dele ficarem brancos como ossos.

Sem cerimônias. Sem abrandar. Apenas o Kieran com sua eficiência brutal, como sempre.

"Quero o divórcio."

Dez anos. Dez anos eu esperei que esse machado caísse.

Engraçado como ainda me cortou como uma surpresa.

Capítulo 3 TUDO O QUE EU QUERO

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

As palavras não deveriam ter machucado, não depois de uma década esperando por este momento. No entanto, elas me cortaram como prata, a dor irradiando do meu coração despedaçado para cada terminação nervosa.

Eu sempre soube que o Kieran acabaria pedindo isso, principalmente agora. Celeste. Seu primeiro amor. Seu verdadeiro amor. Voltou.

Não importava que eu o amasse desde que éramos crianças, muito antes da Celeste sequer perceber sua presença. Não importava que eu tivesse dado a ele um filho. No momento em que ela retornou, eu me tornei invisível, assim como sempre tinha sido aos olhos dele.

Celeste era o diamante deslumbrante, ofuscando todos com seu brilho, enquanto eu era apenas uma pedra comum aos seus pés. Eu sabia disso. Então, por que ainda parecia que minha alma estava sendo partida ao meio?

"É por causa da Celeste, não é mesmo?" Minha voz soou estranhamente calma. Eu já sabia a resposta, mas uma parte masoquista de mim precisava ouvir da boca dele, precisava que ele enfiasse a faca mais fundo.

Os olhos do Kieran brilharam, a primeira emoção real que ele me mostrou em anos. "Não," ele disparou, com o maxilar travado. "Claro que não."

Mentiroso.

Ele passou a mão pelos cabelos escuros, soltando o ar de forma brusca. "A morte do Edward só... me lembrou que a vida é curta demais para ser desperdiçada com um erro."

Um erro.

Eu teria preferido a faca. Teria preferido que ele gritasse o nome da Celeste em vez de reduzir nosso casamento, nosso filho, a um erro.

Não pude conter uma gargalhada.

O som foi áspero, histérico, saiu rasgado minha garganta, enquanto o Kieran me encarava como se eu estivesse louca. Talvez estivesse.

Ri porque a alternativa era gritar.

Meu olhar seguiu as linhas deste homem que eu conhecia e, ao mesmo tempo, não conhecia, este estranho que amei por dezoito anos e que nunca realmente me enxergou.

Quem era mais digno de pena, ele ou eu?

Ele amava a Celeste, mas a honra e um único erro o prenderam a um casamento que ele nunca quis. O que esses dez anos nos deram? Se não fosse por aquela noite, se não tivéssemos sido obrigados a uma união sem amor, ele teria olhado para mim, ao menos uma vez, com algum calor no olhar?

Nunca deveria ter sido assim.

Mesmo que eu nunca pudesse me arrepender do Daniel, naquela noite eu estava decidida e pronta para desaparecer. Eu deveria ter ido mais longe. Nunca deveria ter entrado naquela clínica, nunca deveria ter contado sobre a gravidez.

Eu dizia para mim mesma que tinha ficado e suportado tudo por causa do Daniel. Mas agora, não podia mais mentir para mim mesma. Que tipo de vida eu tinha dado a ele, com pais cujos corações estavam a oceanos de distância? Enquanto a Celeste estava longe, o Kieran fez o papel de pai dedicado. Mas, agora que ela voltou, a frágil fachada do nosso casamento ia desmoronar.

Não ia deixar meu filho ver a mãe dele se tornar motivo de piada.

"Certo," eu disse finalmente, com o sorriso morrendo nos meus lábios.

As sobrancelhas do Kieran se ergueram. Ele esperava lágrimas? Súplicas? Queria me ver desmoronar?

Que pena.

As pessoas ansiaram pela minha rendição minha vida toda, mas eu me recusava a dar-lhes mais um instante da minha dor.

Ao terminar esse casamento, levaria apenas duas coisas:

Minha dignidade.

E meu filho.

"Quero a guarda unilateral do Daniel."

O choque dele se transformou em fúria. "De jeito nenhum! Ele é meu filho!"

"E meu!", eu rebati, com raiva.

"Você não pode tirar o herdeiro da Alcateia do seu Alfa!" A voz do Kieran tremia de tanta raiva contida.

"E você não pode arrancar o coração do peito de uma mãe!" Minhas mãos tremiam, mas minha voz permaneceu firme. "Eu não quero seu dinheiro, sua propriedade, nada, apenas o meu filho."

Daniel era minha única luz neste mundo miserável. Se o Kieran o tirasse de mim...

Eu não sobreviveria.

"E, além disso, você e a Celeste terão mais filhos."

As palavras roubaram meu fôlego. Só de pensar nela dando a ele os filhos que eu nunca pude dar, senti uma dor no peito como uma ferida aberta. Mas, pelo Daniel, eu suportaria qualquer coisa. Até mesmo isso.

Fitei o Kieran atentamente. A expressão dele era indecifrável sob a luz fraca da cozinha. Finalmente, ele assentiu rigidamente.

"Tudo bem. Você pode ficar com a guarda unilateral."

Tinha um porém. Ele concordou fácil demais.

Não negou, não falou nenhuma palavra para contradizer o que eu disse sobre ele e a Celeste. Ele ainda preferia uma família com ela, não é?

E a parte mais patética? Em algum canto tolo e desesperado do meu coração, eu ainda tinha esperança. Ainda esperava que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa, para provar que nosso casamento não tinha sido apenas uma sentença de prisão para ele.

Pressionei as palmas das mãos sobre meus olhos ardentes. Meu Deus, o que havia de errado comigo?

Eu não podia me dar ao luxo de ter esperança. Não esta noite. Se eu não saísse logo dali, desabaria sobre os azulejos frios.

Então, o Kieran segurou meu pulso.

Ele pigarrou desajeitadamente, sua mão quente contra minha pele. "Podemos esperar até depois do funeral para finalizar tudo, se preferir."

Por um momento arriscado, quase acreditei nele. Quase pensei que fosse gentileza.

Quem dera ele tivesse demostrado tamanha consideração alguma vez em dez anos.

Arranquei meu braço das mãos dele. "Não há necessidade esperar. Não é como se houvesse muito pra finalizar, você nunca nem me deu uma marca de união."

A única coisa que ele recusou quando nos casamos. Isso, e me amar.

"Sua loba nunca surgiu", ele disse, na noite em que nos casamos, com a voz cuidadosamente neutra. "Um laço de união só te causaria dor quando..."

Quando inevitavelmente nos divorciássemos.

Ele não terminou a frase, mas ambos sabíamos. Assim como ambos sabíamos a verdadeira razão: na mente dele, a marca pertencia à Celeste. Sempre pertenceu.

A amarga verdade se instalou no meu peito: ele planejou esse desfecho desde o início.

Que diferença fazia agora? Fosse por pena ou premeditação, o resultado era o mesmo: meu pescoço permanecia sem marca, meu coração permanecia partido e o Kieran sairia livre.

A testa do Kieran se franziu ainda mais.

"Seraphina, não precisa ficar amargurada. Nosso casamento foi um erro. Só espero que possamos seguir em frente." A voz dele suavizou, aquele tom de piedade fazendo meu estômago revirar. "Você merece..."

"Ah, me poupe." Virei-me antes que ele pudesse ver como a pena dele me cortava mais fundo do que a raiva jamais poderia cortar. "Não se preocupe. Economizei o suficiente para sustentar a mim e ao Daniel. Você estará livre amanhã."

O choque no rosto dele era quase cômico. Ele realmente esperava que eu lutasse por ele? Que implorasse?

Sim, eu o amava. Ainda amo.

Mas dez anos tentando derreter o gelo no coração dele me ensinaram uma coisa: nenhum calor pode derreter uma geleira que não quer ser movida. E, agora que a Celeste estava de volta, será que ele realmente achava que eu me iludiria ao ponto de acreditar que eu tinha alguma chance?

Por que destruir o pouco que restava do meu orgulho só para alimentar o ego de um Alfa? Aprendi minha lição. Uma década neste casamento sem amor foi suficiente. Eu cansei de lutar por pessoas que nunca me quiseram.

Meus passos eram mecânicos enquanto subia as escadas, com memórias do Kieran passando como fantasmas atrás dos meus olhos:

*O sorriso brilhante que ele me deu quando nos conhecemos, ainda crianças;

*Eu, olhando das sombras, quando ele ganhou sua primeira Caçada;

*Meu coração se partindo enquanto ele colocava a coroa da vitória na cabeça da Celeste e seus lábios se encontravam em um beijo doce;

*O borrão dos copos de bebida quando anunciaram o noivado deles;

*Aquela noite catastrófica que deu início a tudo;

*E depois o nascimento de Daniel, seus primeiros passos, cada marco desde então...

No meio da escadaria, a voz sonolenta do Daniel ecoou em minha mente: "Você e o Papai vão estar sempre aqui, né?"

Meu coração apertou. Meu Deus. Como vamos contar para ele?

Virei-me rapidamente, minha determinação se despedaçando. "Como... Como explicamos isso para o Daniel?"

Kieran parou no meio do gole de água. "Eu cuido disso."

Claro. Ele já tinha planejado isso também. Meus punhos se cerraram.

"E você não precisa se preocupar com as finanças", acrescentou, tenso. "O Daniel ainda é meu filho. Vou cobrir as despesas dele... e as suas."

Não consegui ler sua expressão. Depois de dez anos, seu rosto inexpressivo ainda era a visão mais familiar. Mas, desta vez, me recusei a gastar energia tentando decifrá-lo.

No dia seguinte, assim que os papéis fossem assinados, seríamos estranhos. Como ele queria.

Virei-me sem responder.

A porta do quarto se fechou com um clique atrás de mim. E, então, a represa rompeu.

Soluços silenciosos sacudiram meu corpo enquanto eu deslizava para o chão, a tristeza do dia finalmente me dominando. Em algum lugar lá embaixo, as tábuas do chão rangeram.

Kieran provavelmente já estava arrumando as malas, provavelmente já imaginando a Celeste nesta casa, criando o meu filho.

Minha mão voou para o meu pescoço sem marcas, onde os dentes dele deveriam estar, onde um vínculo deveria nos unido.

"Está tudo bem, Sera", sussurrei no escuro vazio, com os braços apertados ao redor das minhas costelas trêmulas. "Você vai superar isso."

Pelo meu filho, vou sobreviver a qualquer coisa.

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