Meu pai resolveu se casar novamente, pela segunda vez depois da minha mãe. Sim, ele é bem mulherengo podemos se dizer, mas acredito que dessa vez seja para valer já que Morgana é uma mulher incrível e maravilhosa, meu pai seria louco se perdesse ela. Morgana tem pouco mais de 35 anos, não sei ao certo já que nunca parei para perguntar diretamente e nos víamos pouco por ela ainda morar em outra cidade por causa da filha. Os dois sempre estava juntos, era como se já morasse na mesma casa, mas Morgana queria que tudo fosse certo e por isso que os dois se casam dali há um mês.
Como eu sei? Digamos que eu ouvir uma conversa dos dois.
Até onde sei Morgana também já foi casada, tem uma filha mais nova que eu 5 anos, moram em um cidadezinha próxima, assim eu acho. Nunca vi sua filha e nunca tive curiosidade de conhecer. Os empregados disse certa vez que ela esteve aqui, que a garota é um pouco azeda, mal humorada, pouco fala e está sempre de cara fechada. Acredito que eles esteja querendo apenas puxar um pouco meu saco, já que eu sou o filho do patrão. Sei que iremos nos conhecer em breve, já que com a aproximação do casamento Morgana precisou vender sua antiga casa e mudar definitivamente para a casa do meu pai. Acredito que assim que eu voltar pra casa as duas já estejam de vez por lá.
Estou de férias na casa da minha mãe, já que depois que meu pai se casou da primeira vez ela resolveu mudar de cidade, se mantendo distante do nosso mundo. Eu sabia que no fundo minha mãe ainda amava o velho, mas ela é durona e jamais admitiria isso até mesmo se fosse torturada.
Minha mãe, Jhulia, é uma mulher muito guerreira e batalhadora, nunca deixou que faltasse nada para mim e para a minha irmã Laura, que tem apenas 10 anos. Laura é uma pequena aventureira e arteira. Dou um sorriso só de lembrar das suas artes. Uma vez ela quase colocou fogo na casa com nossa mãe e ela dentro, porque queria comer pão na frigideira. Hoje rimos disso, mas na época foi desesperador até mesmo para o meu pai, que brigou com a minha mãe e queria tomar a guarda de Laura, se eu não interver-se a favor da minha mãe isso não teria acontecido e hoje Laura seria criada por Morgana, mas seria o fim da minha mãe, que nos ama mas que não viveria sem a Laura junto dela.
Estarei voltando para casa na semana seguinte já que as aulas retornam dali há uma semana e se tem uma coisa que meu pai é bastante rígido é com os estudos, principalmente os meus. Estou onde estou na faculdade, porque o senhor Austen quer que eu assuma sua empresa daqui há alguns anos, mas não é uma coisa que eu goste de fazer, porém necessário.
Estou quase finalizando meu curso, mas acredito que meu pai vai arrumar outra coisa pra mim estudar, só para não me ver sem fazer nada. Ele sempre foi assim, por mais que depois da minha mãe sua vida foi regrada a mulheres, ele nunca deixou que meu caminho desviasse do propósito, mal sabe ele que eu sou igualzinho a ele ou até um pouco pior.
- Eu não acredito que você teve coragem de fazer isso comigo mãe! – berro pela milésima vez após ouvir o absurdo que a minha mãe disse.
- Ella foi preciso, não tem porque não ter feito isso filha – minha mãe fala como se fosse a coisa mais normal do mundo.
- Eu nunca, nunca vou ter perdoar por isso – falo e bato a porta do meu quarto.
Meu mundo estava virando de cabeça pra baixo com aquilo, eu sabia que isso poderia acontecer, mas fazer o que a minha mãe fez sem nem me consultar ou ao menos saber a minha opinião me destruiu. Estou me sentindo traída, pela minha própria mãe.
Teria que largar tudo que vivi aqui por puro capricho dela, nem ao menos pensou em como eu ficaria com tudo isso. Meus amigos, minha faculdade, tudo teria que ser deixado para atrás por esse amor que ela diz sentir.
Estou deitada na minha cama chorando, o que seria de mim dali em diante? Olho ao redor observando as paredes do meu quarto, que eu e meu pai pintamos com tanto carinho, suas fotos espalhadas por cada canto, sobre a mesinha o livro inacabado que ele não terminou. Deixo outra lágrima cair com um aperto no peito. Tudo ali era o que tinha me sobrado dele.
E o prazo que minha mãe deu para organizar as minhas coisas foi curto demais e era isso que me deixa ainda mais irritada, ela sabia o quanto tudo ali era importante pra mim. Como eu queria que meu pai estivesse vivo, talvez não precisasse passar por isso e seríamos nós dois felizes aqui, onde nasci e cresci, onde eu deu meus primeiros passos, onde aprendi a falar minhas primeiras palavras, minhas memórias lembranças estão nessa casa.
Meu pai morreu quando eu tinha meus 14 anos em um acidente de carro, ele voltava do trabalho quando um bêbado acertou seu carro em cheio e tirou a sua vida. Desde então a minha vida mudou, não me vejo mais a garotinha como ele me chamava, eu era a sua garotinha e éramos felizes. Mas minha mãe não esperou nem dois anos pra encontrar outra pessoa para ocupar o lugar do meu pai. Sim, a minha mãe já está seguindo com sua vida e eu poderia até tentar entender, mas não consigo. Era o meu pai, éramos uma família feliz e nós duas poderíamos muito bem continuar assim, sem outro homem, outra casa, outra cidade..
Renato, esse é o nome do novo namorado da minha mãe. Eu já o vi algumas vezes na tentativa da minha mãe de nos aproximar, eu não consigo gostar dele ou de qualquer coisa que ele faça, eu sei que ele não tem culpa de nada que aconteceu em nossas vidas mas ainda era difícil aceitar outra pessoa no lugar que era pra ser somente do meu pai. Apesar de tudo eu sei que Renato gosta realmente da minha mãe.
Renato é bem de vida, até onde sei tem várias empresas de construtora pela cidade onde mora e muito rico. Não que isso fosse chamar a atenção da minha mãe, porque ela nunca se importou com bens materiais de ninguém, já que meu pai não tinha muita coisa e eles viviam bem até o dia que tudo mudou para nós . Eu sei que ela gosta de verdade de Renato, mas ir morar com ele em outra cidade? Não podíamos continuar como estava? Ela não estava se precipitando demais?
Eles se conheceram quando Renato veio até aqui em um evento onde minha mãe estava trabalhando, trocaram algumas palavras e como passe de mágica os dois estavam namorando. Muito rápido para o meu gosto, mas quem sou eu?
Minha mãe ia muita mais pra lá do que Renato vinha pra cá, estava acostumada com isso e tudo, porque minha mãe mudou de ideia para ir morar com ele e ainda por cima me levar junto? Já tenho 19 anos e posso muito bem me virar sozinha, não posso? Mas não foi isso que a disse:
- Você ainda é minha garotinha, Ella, preciso que venha comigo.
- Tudo bem mãe.
Aquela palavras me pegaram e eu não podia dizer não, mas porque ela vendeu a casa que meu pai fez tanto se esforçou para comprar? Aqui que construímos grande memórias, que quero levar pra sempre comigo.
Não me conformava como as ordens das coisas estava se desenrolando. Vinte e quatro horas, foi o prazo que ela me deu pra arrumar a minhas coisas até o caminhão de mudança chegar.
24 horas.
Como? Como a minha mãe fez isso comigo? Renato não poderia ser tão importante assim.
Com os olhos ainda cheios de lágrimas levanto da cama e começo a arrumar minhas coisas em uma mala, eu não tinha escolha e não saberia viver sem a minha mãe por perto, por mais que ela me traiu dessa maneira. Eu já não tinha meu pai não suportaria sem ela.
No meio da organização meu telefone toca e vejo o nome de Ashley no visor. Ashley é a minha melhor amiga e única. Ela é incrível, sentiria falta dela.
- Oi Ash – atendo com a voz ainda de choro e minha amiga logo percebe.
- Ai amiga que voz é essa? Nem parece que hoje é sexta pra você – brinca.
Nós duas sempre combinamos algo para fazer nas sextas, era o dia que curtíamos como se não houvesse o amanhã, sem medo de ser feliz. Olho uma foto nossa que eu tinha grudada no guarda roupa.
- Você não vai acreditar o que aconteceu Ash – digo com um pouco de drama..
- Como assim El? O que está rolando amiga? – Ash pergunta com a voz preocupada, já que uma coisa que era difícil é me ver triste.
- Eu vou me mudar amiga – conto de uma vez me sentando na beirada da cama.
- Se mudar? Se mudar para onde Ella? – percebo o desespero em sua voz assim que me chama pelo nome.
- Phoenix, Arizona – respondo respirando fundo e olhando novamente para as paredes..
- Puta merda Ella, quase 1200km daqui, 13 horas de viagem – sua voz não deixa de demostrar o quanto está nervosa.
- Você acha que eu estou como com essa notícia? – pergunto.
- Mas as aulas voltam daqui uns dias, como vai fazer? – sério? Ela está preocupada com as aulas? Me jogo de costas na cama.
- Minha mãe já pensou em tudo Ash, me transferiu de universidade sem me consultar e o pior não é nem isso – solto.
- Tem como piorar? – pergunta assustada.
- Nós mudamos amanhã – Ash fica em silêncio por um tempo e depois solta.
- O que? – Posso ver sua expressão através do aparelho.
Eu conhecia bem Ashley, estudamos juntas desde o berçário e desde então não nos desgrudamos e cada uma da sua reação ou como seria resposta para alguma coisa eu conhecia. Eu sentiria muita falta dela, de tudo em Los Angeles.
- Ella, me fala que isso é alguma brincadeira sem graça sua – pedi com a voz embargada querendo chorar..
- Não amiga, minha mãe me disse hoje de tarde – deixo outra lágrima escorrer.
- Mas.. – sua voz falha - você não poderia ficar? Eu te ajudo com o que precisar. O que vai ser de mim sem você aqui Ella?
- Não posso ficar longe da minha mãe, Ash – respondo.
- A casa..
- Ela vendeu a casa amiga – Ash fica muda – ela tinha tudo planejado e arquitetado – continuo – não tenho escolhas amiga.
- E por causa do namorado dela? – Ash pergunta.
- Claro que sim, ele deve ter convencido ela e minha mãe ultimamente anda muito influenciável – falo irritada com a decisão dela.
- Isso significar que não teremos mas nossas noites de sextas?
- Eu não conseguiria ir e vim toda semana amiga, e não seria justo o mesmo pra você – ouço ela fungar e sei que Ashley está chorando.
- Ainda não estou acreditando nisso – ficamos muda - Você já contou para o Chris?
- Não é como se fôssemos namorados, então não tenho o que contar à ele.