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Minha vida é tua

Minha vida é tua

Autor:: Regina Alcântara
Gênero: Romance
Sílvia é uma mulher doce que desde muito cedo aprendeu sobre a dor, sobre o que era ser odiada, subjugada, maltratada, sobre perda, a perda de algo que nem se havia ganhado, e depois de ganhar, perder novamente, e isso não lhe traz revolta mas força, para levantar a cada queda, contudo aprendeu também a ser amada onde menos esperava. Este livro fala sobre uma mulher forte que não se dobrou à dor e fugiu do sofrimento por meios sombrios e sem volta, não fala apenas sobre sofrimento, fome e desigualdade, brutalidade e desafeto por alguém que se espera amar, mas também de força, coragem e fé, não posso esquecer também o mais importante de todos, o amor.

Capítulo 1 Prólogo

Ando pela viela da comunidade, passos ligeiros, pernas finas, minhas sandálias gastas não são suficientes para impedir que meus pés toquem a água suja de esgoto a céu aberto que escorre dos barracos de vários moradores, ratos disputam espaço com cachorros, crianças, eu sou mais uma no meio de tantas, a cada passo o coração acelera nos ouvidos, a cada passo me aproximo do inferno, eu preferia não ter nascido ou ter nascido em outra família, mas quem protegeria meu pequeno se eu não existisse? Talvez esse seja meu propósito na vida, impedir que meu irmão passe por tudo que estou passando, ou pel

o menos evitar parte do seu sofrimento.

O Tum... tum... tum... do meu coração não impede que eu escute o choro das crianças dos barracos, a música funk que a Jucélia escuta todos os dias, os gritos de socorro da vizinha que apanha do marido bêbado, mas da mesma forma que para mim, o socorro não vem para ela também.

Meu corpo tem algumas marcas, porém poucas superficiais, o negro da pele esconde algumas, mas as cicatrizes da alma essas nem a melhor maquiagem poderia esconder, eu queria ser igual aquele moleque que acabou de chegar da escola, e não estar chegando do sinal de trânsito sem um centavo no bolso, sei o que me aguarda lá e sei que é algo que eu não desejaria a ninguém.

Dez anos de idade, não lembro a data do meu aniversário, acho que são dez anos, meu corpo começa mudar eu sinto isso, tenho medo de chegar aos onze anos, a mãe da Bruna a vendeu aos onze, e entupiu o nariz de farinha com a Mara, minha mãe, na minha boca esse nome tem um gosto amargo, pior que fel, perdida em pensamentos não percebo que sou encurralada por Josué marido da Patrícia, o mesmo que bate nela todos os dias, a pele branca dela sempre aparece com marcas roxas, sinto um calafrio na alma, sei que ele não quer apenas me assustar, seu sorriso maligno e cheio de malícia me diz isso.

- Que tal a gente brincar um pouquinho ali atrás daquele muro hein Silvinha, vai ser muito divertido, vem.

Não me assusto, fico séria, cruzo os braços, mas não respondo.

- O gato comeu sua língua...

- Você conhece o Martinho Josué? Sabe o que ele faria com você?

Sou firme, não deixo que ele veja o medo tomando conta da minha alma, ele percebe que eu não sou tão inocente, para cair nesse papo de brincadeirinha, mas minha voz infantil não impõe respeito ou medo, pelo contrário, parece diverti-lo.

- Ele não precisa saber, vai ser divertido...vamos.

Ele agarra meu braço e tenta me arrastar, mas ao longe vejo um dos garotos do Martinho e começo a gritar chamando atenção, Josué finge que não escuta mas uma voz o paralisa, Martinho é o traficante da comunidade e todos sabem do seu ódio por pedófilos e estupradores, dizem que ele matou o próprio pai com requintes de crueldade após ficar maior e ter forças o suficiente.

- Eu fiquei sabeno que você é um covarde que bate na muié, até aí até tranquilo, na moral, mais tentá pegá uma criança...

Um rapaz de quinze anos, apelidado de rapadura fala calmamente, ele está parado numa pose despreocupada, nisso Josué me solta sabendo que assinou sua sentença de morte.

- Euu, nã-não estava fazendo nada, era apenas uma brincadeira, não é Silvinha, somos amigos... - Se explica rápido enquanto eu o encaro com o ódio que uma criança de dez anos pode sentir.

- Não era, não sou sua amiga. - Minha voz infantil sai um pouco mais fina, assustada.

- Vá pro seu barraco Sil, com ele a gente se resolve.

O garoto dá um assovio alto e um cara maior chega com dois Pitbull's e eu corro encontrando em duas esquinas depois ela, Mara, minha mãe, primeira vez que a chamei assim nunca vou me esquecer, tenho até hoje os vergões. Sou mais uma no meio de tantas outras, faço parte das estatísticas, e mesmo com a pouca idade percebo que sonhos são vãos, eles não fazem minha barriga parar de doer com o vazio, não fazem ela parar de me bater, muito menos me amar, então não sonho com uma vida melhor, uma família, mas eu sonho em ser alguém melhor que essa mulher estranha que eu deveria chamar de mãe.

Aqui nem a polícia vem, de vez em quando os bandidos usam nosso barraco como esconderijo ou depósito de armas, por algumas gramas de pó ela guarda as armas no teto de madeira puído do que um dia foi um barraco quase decente. De longe escuto o choro do meu irmão Escobar, homenagem ao seu herói, tenho medo, mas preciso cuidar como posso do meu irmãozinho de um ano, que deve chorar de fome, do lado de fora escuto os gritos dela que eu sei que dá para ouvir do outro lado da comunidade.

- Desgraçado deveria ter matado você assim como deveria ter matado a imprestável da sua irmã!

Tenho vontade de sair correndo e ir morar nas ruas, mas o que me aguarda na rua é o mesmo ou talvez pior que o que me aguarda lá dentro. Aos sete anos de idade até que era mais fácil ganhar uns trocados no sinal de trânsito, alguns patrões querendo talvez uma redenção jogasse umas moedinhas, mas aos dez anos, o bico do seio apontando na blusa gasta, não oferecem nada além de cinco reais por uma hora.

Infância? Não sei o que é isso, muito menos inocência depois de ver a Mara com seus clientes, no sofá gasto da sala ou ouvir seus gemidos durante a noite inteira e ela contar para a sua amiga quanto de pó conseguiu com seu trabalho árduo, não há espaço para inocência.

Com minha pouca idade já pedi a Deus várias vezes para morrer, mas acho que ele por ser um velhinho não deve escutar, ela sabe que horas eu chego, parece que sente meu cheiro sujo de longe, não sei como ela ainda pode sentir cheiro com o cheiro podre de dentro do barraco, latinhas de cerveja para todo lado, a louça da pia oferece comida para as batatas e até os ratos, mas nunca sobra para mim, tenho sempre que arrumar um jeito de não morrer de fome.

- Então a putinha chegou... Passa, passa toda a grana, quero meu dinheiro, nem que você tenha que fazer programa... Sua puta dos infernos.

Seu grito é acompanhado de um tapa em meu ouvido que zumbe, ela me puxa pelos cabelos e eu espero o que não demora a chegar, já nem dói mais como antes, estou anestesiada, na segunda chicotada com os fios de energia, cobre roubado envolto por um plástico. Minha mente viaja para o sinal, um garotinho de cinco anos faz uma careta e com a inocência de uma criança bem cuidada pergunta aos pais.

- Mãe, por que ela não toma banho, a mãe dela não gosta de dar banho nela?

Já não me importo mais com os comentários, racismo é crime para aqueles cuja sociedade olham, eu sou invisível, me olham como se eu fosse uma ratazana grande e nojenta, deve ser por isso que ela me chama assim. Sete chibatadas, puxões de cabelo, tapas na cara, meu corpo é arremessado contra o chão, o Escobar continua chorando ao longe, não choro, não peço clemência, misericórdia nem a ela e nem a Deus, não vejo mais nada, a fome, e a dor me apagam, e antes da escuridão me abraçar, escuridão é bem-vinda, ela me tira desse lugar, a dor, nada mais importa.

- Tomara que tenha morrido, vou ligar pra Jucélia para saber o que fazer com o corpo dessa ratinha... Foram suas últimas palavras.

"Me sinto sufocar, balanço a cabeça e me vejo em um lugar totalmente branco, alguém segura minha mão e abre uma porta, assim que entramos passamos por algumas pessoas dormindo em um beco escuro e sujo, algumas crianças não tem com o que se cobrir, outras se cobrem com caixas de papelão, continuamos andando e a pessoa abre outra porta, e agora o cenário é diferente, é tudo muito limpo, branco e tem uma moça negra como eu sorrindo para um bebezinho em uma caixa transparente, ela está toda de branco e parece um anjo."

Acordo com a cabeça doendo, está muito frio, o corpo todo dolorido, as costas em brasas, por incrível que pareça aqui está mais macio que minha cama, abro os olhos assustada, mas não consigo me levantar, meu corpo queima. Abro os olhos e tudo é branco...

No canto vejo uma moça de branco , deve ser um anjo, será que no céu também tem dor?

A porta se abre e uma moça loira, muito bonita também de branco entra.

- Como está nossa paciente Rosa?

- A febre diminuiu.

A moça loira se aproxima e me sorri bondosa.

- Vejo que acordou.

Ela lê algo que está em suas mãos e sorri novamente, parece feliz em me ver, acho estranho, ninguém nunca fica feliz em me ver.

- Apesar da concussão cerebral nada de mais grave, aparentemente, você desmaiou de fraqueza, está me entendendo? Teve febre a noite inteira.

Permaneço calada, mas afirmo com medo de sua reação ao não receber uma resposta.

Capítulo 2 Um

Minha mão pequena bate no vidro escuro do carro, que brilha ao sol do meio-dia, um homem de sorriso maldoso e olhar malicioso, cabelos brancos bem penteados, aparece na janela.

- Te dou tudo que quiser... É só entrar...Te dou até um banho, pra ficar...

Com o tempo eu aprendi o que cada olhar significava, observando os homens que apareciam lá em casa então eu corro para o mais distante possível, mas quando percebo meus passos estão me levando de volta para o inferno não tenho nem como me arrepender, pois ouço gritos desesperados do Báh, sinto a sua dor. Estou em frente à porta que se abre com violência..."

Sinto meu corpo sacolejar, e acordo suada, perdida, eu já deveria ter me acostumado, aos pesadelos vívidos em minha memória, que estão sempre lá, esperando um momento, um cochilo então ela invade meus sonhos e os transformam em pesadelos cruéis.

- Sil... Sil... Acorda... Estamos atrasados...- Levanto-me num salto e olho o garotinho de cinco anos e sorriso maroto de garoto inteligente.

Ele adora me acordar cedo, e me sorrir banguela, é nessas horas que eu ganho meu dia, minha semana.

Dou banho em Daniel, o responsável por me acordar antes das seis da madrugada, com seus olhos azuis incríveis e cabelos loiros.

Que nunca me perguntou por que somos diferentes, já até bateu num coleguinha que lhe disse que eu não sou sua irmã, ele me olha como se eu fosse a pessoa mais incrível do mundo.

Minha mãe... Ah esse nome se tornou tão doce em meus lábios que a primeira vez que falei, repeti e repeti tantas vezes, ela sempre diz a ele que eu sou uma super heroína que eu venci o monstro e também a morte, então ele me pergunta sempre quais são meus super poderes.

- Atravessa paredes? Solta lasers pelos olhos?

Estamos quase entrando na van escolar enquanto sou bombardeada por perguntas, sou uma garota fechada, mas com meu irmão eu não consigo manter a capa que criei para me proteger, eu não sei como, mas a doutora Olívia Mendes para falar a verdade eu sei como eles conseguiram ultrapassar essa parede que eu criei, foi com muito amor, paciência e carinho, ela e o homem que hoje em dia chamo de pai, o doutor Jonathan Mendes ou John. Eu não tinha chances de ser adotada por uma família se fosse parar no abrigo de menores, as ruas e a prostituição eram um inevitável destino, alguns anos depois veio o Daniel, mesmo calada eu senti medo de perder o amor e o carinho deles, mas quando aquele bebezinho, fofinho de olhos azuis foi posto em meu colo eu o amei, como amava meu irmão.

Vocês devem estar se perguntando: Onde está o Escobar? Você não voltou para buscar ele? Voltei sim, voltei e volto todas as noites mesmo que em pesadelos, quando eu cheguei lá acompanhada da polícia e da doutora Olívia, que eu não conseguia mais soltar a mão, sempre senti nela a segurança que tanto precisava e eu só me sentia calma com ela por perto, encontraram apenas um cadáver carbonizado de uma mulher, dívida de drogas, o crime não perdoa, e sem calcular as consequências que isso poderia trazer um dia, a declararam morta, sem exames de DNA, simplesmente pela identidade na bolsa próximo ao corpo.

Eu, eu não senti nada, só um alívio na alma, o peso dos meus ombros foram retirados, e então pude suspirar tranquila, só para me desesperar alguns minutos depois ao descobrir que o Escobar não estava mais lá, me desesperei e gritei por meu irmão, mas de nada adiantou, a vizinha disse a um dos policiais que um carro grande o havia levado, e rogo a Deus até hoje que ele não tenha sido vendido.

Desço da van escolar e seguro a mão do Dan, o deixo em sua sala e vou para minha escola que fica ao lado, as garotas saem da frente quando eu passo, elas sabem o que pode acontecer se cruzarem o meu caminho, eu fui formada na escola do terror por nome de barraco, por isso nunca precisei bater em ninguém para impor respeito e distância, aprendi a mostrar um olhar frio e cruel quando precisei, infelizmente aprendi com a melhor como suscitar o medo nas pessoas.

Não mostro minhas fraquezas, para ninguém além da minha mãe, sento em minha cadeira e retiro meu caderno de matemática, coloco de volta e pego o de português, sou dedicada aos meus estudos, minhas notas e meu comportamento exemplar me fizeram avançar rapidamente de turma.

Nunca falo sem ser convidada, não tenho amigos, não socializo e também considero o popular da turma um idiota que se escora nas sem cérebro, que se dizem caidinhas por ele, na minha opinião isso tudo é fogo, só querem um motivo pra sair com os caras, mas não julgo, elas não tem culpa dos meus traumas, são só adolescentes.

Faço minha rotina de sempre, busco o Daniel na sala dele e pegamos a van escolar, chego em casa e a Nice está no fogão, nossa mãe a contratou antes mesmo de eu chegar aqui, mesmo depois de muitas terapias e tratamentos eu ainda não confio em muitas pessoas, mesmo a Nice me tratando bem, nunca vi nada em seu olhar que me causasse desconforto ou desconfiança.

- Quer ajuda aí Nice?! - ela me dirige o olhar de sempre, um olhar terno quase maternal ao ouvir minha voz calma.

- Não querida, pode ir estudar, daqui a pouco te chamo pra almoçar. Balanço os ombros indiferente e subo os pequenos degraus, encontro Dan no meio do quarto espalhando seus brinquedos.

- Já sabe, não é? - faço a pergunta de sempre.

- Sim Sil, juntar e guardar tudo assim que terminar.

Lanço-lhe um dos meus raros sorrisos em resposta, Daniel é um garoto muito esperto às vezes eu fico boba com sua inteligência.

- Dan vamos tomar um banho para almoçar. - Eu cuido dele, não por imposição dos meus pais, mas porque o amo, quando minha mãe falou em contratar uma babá eu fui totalmente contra, tive medo de alguma delas machucarem meu bebê, sempre que cuido do Dan peço a Deus que alguém esteja cuidando do meu Báh.

Nosso pai de vez em quando vem em casa almoçar com a gente, então quando a porta da frente é aberta e eu o vejo abraçado a minha mãe que chora copiosamente em seus braços eu corro em sua direção, ela me vê e percebe a dor que sinto a vendo chorar, ela me agarra e me abraça como se eu fosse seu bote salva vidas, Dan que estava almoçando distraído vê o choro da mãe e corre para nós. Ainda não sei o que houve, só sei que minha alma também sangra com seu sofrimento, eu não poderia não amar essa mulher, ela foi muito corajosa adotando uma pré-adolescente e me arrancando da escuridão em que fui jogada, ela me amou primeiro.

Ela nos abraça e nos aconchega em seu colo no sofá da sala que não chega nem perto do conforto dos seus braços.

- Eu preciso de vocês hoje, grudem em mim.

- Não precisa nem pedir mãe - respondo feliz por ter uma mãe de verdade, eu nunca imaginei que era o início de um tormento, mas fazia ideia da gravidade ao ver as lágrimas nos olhos de John, mas não perguntei nada apenas me aconchego no meu lugar favorito, Dan também veio e ficou calado, mas eu sei que ele está estranhando o choro da nossa mãe.

Capítulo 3 Dois

Sílvia Mendes

Mais uma vez a vida é uma cadela comigo, nunca vou me achar digna de ser feliz, pois ela me arranca tudo de bom que aparece em minha vida e mais uma vez me arrasta pela lama, aquela mesma lama fedida daquele barraco, não sei quantas rasteiras vou ter que levar para desistir de vez. Incontáveis, esses são os números de rasteiras que essa puta barata me deu. Quantas vezes tenho que me lembrar de suas últimas palavras para não voltar para a escuridão, me agarro a elas sempre que fraquejo, sempre que minhas pernas travam e meus pés tentam parar, quando eu só quero ficar em minha cama e nunca mais sair, eu me lembro.

"Você é forte, Sil, nunca vi nada e nem ninguém mais forte que você, estarei lá por você aonde quer que esteja, levante-se e olhe sempre para a frente."

- Serei forte e Sil, aguentarei o máximo que puder, por vocês, meus filhos e pelo John, mas principalmente por você que me mostrou o quão forte podemos ser, não perca o brilho sorria, por mim, não se perca em sua dor, por seu pai, seu irmão que ainda é tão novo e precisa de ti.

Ela lutou por três anos, três anos de incontáveis idas ao hospital do câncer, incontáveis quimioterapias, tentativas frustradas de transplantes de medula, três anos vendo-a definhar, perder os lindos cabelos, o peso e o seu brilho, três malditos anos lutando contra algo que no fim a venceu, derrubou e por fim a tirou de mim.

"Não perca o foco Sil, continue cuidando do seu irmão, você pode fazer isso por mim? Cuide também do seu pai, ele é maravilhoso! Não se esqueça de sorrir por mim..."

- Não me sinto forte agora mãe... Não sou forte, nunca fui, covardia não pode ser confundida com força - falo ao acordar de um sonho com ela.

Como sorrir? Para uma vida que tudo que eu recebo de bom trata de logo me arrancar? Ninguém verá meu sorriso, ninguém verá alegria em mim, além do Daniel que perdeu sua mãe e também sofre por sua falta, meu pai... Esse só sabe trabalhar, também perdeu o brilho, a vontade de viver, naquele dia não perdi apenas uma mãe, perdi uma amiga, mas percebo que estou perdendo também um pai. Já se faz um ano que ela se foi e a cada canto dessa casa tem lembranças suas, de momentos felizes ou momentos em que ela buscou trazer um sorriso nem que fosse mínimo aos meus lábios.

É tarde de sexta-feira eu e Dan acabamos de chegar da escola, estou no meu último ano escolar e ele em seu quinto ano, é raro seus sorrisos, acho que minha tristeza só aumenta pela tristeza dele, subimos e guardamos nossos materiais escolares, ele não sobe as escadas correndo como antes, seus ombros encurvado mostram que ele não está feliz com o horário do almoço, esse é o horário mais doloroso para todos nós, pois é o horário que ela vinha almoçar em casa, às vezes escuto o som da porta se fechando e as chaves sendo colocadas no aparador, chego a levantar para ir ver, mas a realidade bate e desisto, desço para almoçar e Nice não diz absolutamente nada ao ver minha expressão fechada, ela já se acostumou, eu sempre fui calada, mas estou muito mais reservada que antes, não ofereço ajuda, sempre que chego e vejo que a pia tem alguma louça suja eu lavo, e ela não diz nada, acho que tem medo da minha reação.

Passa alguns minutos e ouço coisas se quebrando no quarto do Dan, corro escada acima com o coração acelerado e o que vejo transforma minha alma quebrada em caquinhos pela milionésima vez, o Dan joga seus brinquedos preferidos, seu notebook no chão, e empurra sua estante de brinquedos e livros a derruba, entro no quarto desvio dos objetos, os porta-retratos de vidro quebrados e o abraço, ele esperneia e tenta me ferir, mas sou mais forte e o seguro, então ele chora e se agarra a mim.

- Shiiii... Shiiii...- o abraço forte e choro junto a ele que se acalma aos poucos, cansado.

- Estou esquecendo ela Sil... Estou esquecendo seu rosto...- ele volta a chorar.

- Até o papai está morrendo Sil... Não quero perder o papai também...- Meu coração partido se quebra pela milionésima vez e se junta para consolar o meu irmãozinho do coração.

Estamos sentados no chão do seu quarto, junto todas as minhas forças e me levanto com ele que dorme cansado de chorar, não suporto vê-lo assim, ele que por tantas vezes tentou tirar um sorriso meu, agora precisa que eu o faça sorrir, não me sinto pronta ainda, mas preciso ficar, preciso mudar, por ele, por mim, e também pelo meu pai.

Preciso me reconstruir, para ergue-los, preciso jogar minhas dores para o canto mais escuro da minha alma para tentar amenizar as dores deles, vou sorrir mesmo que minha alma chore e sangre. Acabo dormindo em sua cama abraçada a ele e acordo com um carinho em meu rosto, abro os olhos e vejo as lágrimas nos olhos amorosos do meu pai, não vejo maldade neles, só a dor e a tristeza de ter perdido seu grande amor.

Dan ainda dorme agarrado a mim, John faz sinal para que eu o siga e sai do quarto, eu o acompanho, ele entra no escritório, eu entro logo em seguida, confio nele sei que seu coração é bom, fecho a porta e o encontro sentado atrás de sua mesa, ele parece tão cansado, mais velho e com olheiras, entendo sobre morte em vida já estive lá, mesmo aos dezenove anos sei como é se sentir assim.

Olho para a janela incapaz de me ver refletida em seu olhar que se tornaram poços profundos de dor.

- Sei que não tenho sido um bom pai... Tenho estado ausente...

Dou um sorriso amargo, não o culpo.

- Eu gostaria de estar ausente...

Ele concorda com a cabeça.

- Nice me ligou... Vim correndo, mas cheguei tarde... - ele suspira.

- O senhor não chegou tarde, ainda dá tempo, e é bom que seja rápido, ele sente a falta dela, sentimos a falta dela, mas precisamos nos reerguer, senão por ela, que seja por ele.

Ele disfarça uma lágrima, tentando parecer forte.

- Está difícil... Sil. - Ele olha pela janela.

- Parece que ela vai chegar a qualquer momento nos abraçar e dizer que somos as pessoas mais importantes do mundo. - Pela primeira vez meu sorriso sai verdadeiro.

- E éramos... - Pelo menos eu fui amada por uma mãe verdadeira.

- Às vezes esqueço e faço o percurso que fazia para buscá-la na clínica e a dor é tão grande quando eu não a encontro me esperando que me falta ar.

- Eu sei um pouco como é essa dor, e eu nunca vou me esquecer do dia em que ela me contou como me encontrou, por que foi nesse dia que eu descobri o que era ser amada.

Me perco nas lembranças.

" Estávamos acampando na mata do outro lado da comunidade quando vimos duas mulheres descerem de um antigo carro meio enferrujado e um homem mal encarado, graças a Deus ele não nos viu, eles abriram um cava rasa e jogaram o corpo de uma criança, seu corpo, dentro e jogaram algumas pás de terra."

" Eu sei, ela pensou que havia me matado."

Foi minha resposta.

" Então quando eles foram embora não pensamos duas vezes em verificar o que havia acontecido com aquela criança, e quando a vimos nos apaixonamos por você, era uma menina magrinha, com marcas de espancamento por todo corpo, me perdoe querida mas foi você quem pediu."

" Eu sei, ela sabia ser cruel, não apenas com o fio..."- Meu corpo inteiro tremeu em repulsa.

" A senhora me salvou duas vezes, ela ia me vender, como a mãe da Bruna a vendeu para um americano endinheirado, ele sempre comprava meninas de algumas mães usuárias desesperadas por dinheiro."

Ela fez uma careta indignada.

- Vamos nos mudar daqui... - Sou arrancada dos meus devaneios com a declaração. - Comprei uma casa um pouco mais afastada da cidade, vamos nos refazer, o Dan precisa de nós.

Isso encheu-me de esperança, escuto a porta ser aberta e Dan entra com os olhos vermelhos de lágrimas.

- Pensei que você tinha ido embora também Sil...- me diz triste e eu o abraço.

- Eu nunca vou embora Dan. - prometo sabendo que promessas nem sempre são cumpridas.

- Filho... - nosso pai exclama e nos abraça, eu sinto nesse abraço o abraço dela e isso me conforta.

**********

Uma semana depois estamos entrando em uma casa grande numa rua arborizada, com casinha na árvore, balanço e até uma piscina.

Nessas duas semanas o Dan pareceu mais feliz, voltou a acordar cedo e me olhar dormindo.

Nosso pai está mais leve e parece que está saindo com alguém, tenho quase certeza que é do trabalho.

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