ELENA
CINCO ANOS ANTES
- E a Miss Itália 2019 é...? - o apresentador do concurso faz uma breve pausa para causar um certo suspense, e em seguida anuncia: - A MISS NÁPOLES, ELENA GIORDANO - ele fala com entusiasmo, e logo os aplausos da plateia começam.
Na lateral, próximo ao palco, estão a minha melhor amiga, Giulianna, minha mãe, e alguns amigos de Nápoles, da escola e da agência de modelos. Eles estão eufóricos, e a Giu, claro, está dando alguns daqueles seus assovios super estridentes, enquanto eu recebo a faixa e a coroa das mãos da Miss Itália 2018.
Assim que saio do palco, após um breve discurso, os flashes das fotos, vários ao mesmo tempo, chegam a me deixar com dificuldade de enxergar. Logo, jornalistas me cercam e fazem perguntas, uma atrás da outra.
Após responder às curiosidades de cada um deles com cordialidade e acertar alguns detalhes dos meus próximos compromissos com o meu agente e organizadores do concurso, eu sigo para o terraço do hotel, onde todas as Miss estão hospedadas. Lá está acontecendo um evento organizado por patrocinadores do concurso para as participantes e alguns convidados.
Agradeço mentalmente quando vejo que o evento é algo mais reservado, e principalmente, que não tem fotógrafos nem jornalistas. Encosto no bar para pedir um drink, e percebo, mesmo sem olhar para o lado, que alguém se aproxima.
- Nunca achei um resultado de um concurso de Miss tão justo e merecido quanto o de hoje - uma voz masculina fala, chamando a minha atenção.
- Eu conheço você - falo arqueando uma sobrancelha, o fitando.
- Eu sou um empresário bem conhecido na Itália.
- Ah, lembrei - falo levantando o meu dedo indicador até o meu queixo. - Você estampou a capa de uma revista a alguns dias, por ter batido o carro em um poste ao dirigir embriagado.
- Aquilo foi um grande equívoco - ele parece desconcertado.
- Concordo - o encaro. - Um equívoco e uma grande irresponsabilidade.
- Você não baixa a guarda?
Antes que eu possa responder, meu agente me chama. Eu aceno para o homem, que eu sei perfeitamente que se chama Lorenzo Marino, já que ele é o CEO da Fascino, uma das marcas mais famosas da Itália, e me afasto.
Nesse momento, a Giulianna chega. Ela tinha ido deixar a minha mãe no quarto, que preferiu ir descansar.
- O que eu perdi? - ela pergunta.
- Você sabe que esse bofe é sem futuro, não é? - o Leonardo fala, me fitando após me puxar pelo braço por uns cinco metros. A Giu veio logo atrás.
- Claro que sei - reviro os olhos. - Acredite, eu não estava dando mole para ele.
- De quem vocês estão falando? - a minha amiga pergunta.
- Lorenzo Marino - o Léo fala entortando a boca. - A Miss aqui estava dando mole para ele.
- Eu não estava - sorri.
- Acho bom, amiga. Mas não foi o que pareceu quando eu cheguei - a Giu fala, e eu sinto vontade de beliscar ela. Agora o Léo vai falar no meu ouvido até se cansar.
O Leonardo, além de ser meu agente, é um ótimo amigo. Ele namora o Rafaelle, o dono da agência de modelos que eu trabalho desde os meus quatorze anos em Milão, e eles cuidam de mim como se fossem os meus pais. O problema é que o Léo adora um sermão, e eu estava bem exausta para escutar os dele, que por sinal são bem longos.
- Léo, temos que ficar até que horas? - pergunto.
- Você precisa ficar pelo menos uma hora aqui, Miss Itália. Considere como o primeiro compromisso do seu reinado. Agora vem, vamos nos divertir. Eu e a Giu não vamos sair da sua cola e não vamos deixar Lorenzo Marino se aproximar de você.
- Você encasquetou com isso - endureço o semblante.
Após chegar no quarto, exausta, eu tomo um banho e me deito.
Começo a pensar na agenda complexa de compromissos que terei naquele ano, principalmente nos próximos dias. Eu irei aproveitar cada uma das oportunidades que me aparecerem.
Eu consegui comprar uma casa confortável para a minha mãe em Nápoles, com o dinheiro que eu juntei dos meus trabalhos como modelo, mas quero que ela e a Chiara, minha irmãzinha, que hoje tem treze anos, tenham tudo do bom e do melhor. Sem falar que eu sonho em ser uma estilista e ter a minha própria marca.
Por isso, aceitei participar do concurso, e por isso, agarrarei com unhas e dentes todas as oportunidades que aparecerem.
Logo que acordo na manhã seguinte, já começam os preparativos com maquiagem, cabelo e provas de roupas para uma entrevista em um programa de tv. E isso acaba se tornando rotina nas próximas semanas.
Passam-se alguns dias sem que eu tenha notícias de Lorenzo Marino, até que o encontro em um desfile que eu participo fazendo a entrada e o encerramento.
Que o Leonardo e a Giu não fiquem sabendo, ou me esfolam viva, mas acabo aceitando sair com ele.
ELENA
QUATRO ANOS DEPOIS
Eu seguro aquela caneta como quem segurava uma tábua de salvação. Em seguida, olho para o papel à minha frente, o documento do meu divórcio, com um nó na garganta. Mas não de tristeza, e sim, de emoção, alívio... Eu enfim me livraria daquele casamento que representou os piores anos da minha vida.
Assino sem demora, em seguida, o Lorenzo, que para por alguns segundos com a caneta na mão, antes de assinar, fazendo a minha alma quase sair do corpo ao pensar que ele poderia desistir.
Quando ele enfim assina, saio daquele cartório sem olhar para trás. Ele não viu, eu estava de costas, mas um sorriso de felicidade estava estampado no meu rosto.
Eu chego no apartamento da Giulianna, onde ficarei até me reorganizar, e sou recebida com o estouro de uma garrafa de espumante barato. Estávamos fodidas demais para comprar o nosso champanhe favorito ou algo mais caro.
Ainda demoraria um pouco para eu receber minha indenização pelo tanto que tive que aguentar do Lorenzo, e pelo maledetto ter me roubado, já que fez comigo um empréstimo de um valor considerável, e nunca me pagou.
- O Lorenzo vai ter um troço quando descobrir que te deve dez milhões de euros - a Giu fala, com um sorriso vitorioso.
- Ainda está saindo barato para o maledetto - respondo tomando um gole da minha bebida. - Isso é só o início. Eu vou destruir o bastardo.
Após saborear a bebida, que parece a mais cara do mundo por ter sabor de vitória e liberdade, a Giu me ajuda a tirar todos esses adereços que cobrem o meu corpo. Começamos pela calça de alfaiataria e a camisa de linho, de tamanhos bem maiores do que costumo usar. Logo, os enchimentos que me fazem parecer ter trinta quilos a mais também são retirados. Eles estão espalhados pelos meus braços, busto, cintura, quadril, nádegas e vão até a altura dos joelhos.
Você pode estar se perguntando: porque precisou fazer algo tão estupido, Elena? Pois bem, lá vai a resposta: eu fui casada com um ser desprezível, e estava disposta a fazer o que fosse preciso para me livrar daquele casamento.
O Lorenzo começou do dia para a noite a transformar a minha vida em um verdadeiro inferno. Me trancava em casa, me batia, me traía, me torturava psicologicamente, e o pior de tudo, ele foi indiretamente responsável por eu ter perdido o meu bebê. E sobre isso, ele nunca terá o meu perdão.
O maledetto é daquele tipo de pessoa que não está nem aí se você tem um interior oco. Ele quer te exibir como um troféu, e por isso, sempre colecionou modelos e mulheres com curvas "perfeitas". Infelizmente, eu descobri isso só depois de casada, mas não tarde demais para usar ao meu favor.
Os enchimentos foram obra da imaginação fértil da minha melhor amiga. Quando a Giu me falou, eu simplesmente dei uma gargalhada. Achei que era mais uma das coisas cômicas que ela costumava falar ao longo do dia. Mas não, ela estava falando muito sério, e eu sorri ainda mais quando tive essa constatação.
Duas semanas depois, o plano maluco da Giulianna estava sendo colocado em ação. Não dava para aparecer com trinta quilos a mais do nada, então fui trocando os enchimentos gradualmente.
E não é que deu certo? Além de ter me livrado de qualquer investida dele, já que não me tocava desde que engravidei, ainda me livrei dos eventos sociais que eu era obrigada a frequentar. Ele já não queria me exibir como seu troféu, mas sim, me esconder a sete chaves.
Eu ainda fui além, e não só fiz uso dos enchimentos, como passei a usar a maquiagem contra mim, ao invés de usá-la a meu favor. Fiz um mini curso onde aprendi a deixar o rosto com marcas de expressões e manchas. Testei várias e várias vezes na frente do espelho, até que consegui chegar em um bom resultado.
Depois que já estava tudo certo com a caracterização, eu comecei a segunda etapa do plano. Ao invés de deixar claro que eu estava sedenta por me divorciar do Lorenzo, eu passei a implorar para que ele não me deixasse, e cheguei a falar que eu não conseguiria viver sem ele.
Quando o Lorenzo me pediu o divórcio, a sua justificativa foi que não queria ter a sua imagem vinculada a uma mulher gorda que não se cuidava. Aquilo foi melhor do que qualquer declaração de amor que ele já havia me feito. Até porque, não demorou para eu perceber que nenhuma delas foi sincera.
MATTEO
UM ANO DEPOIS
Um belo par de scarpin preto com solado vermelho, surge de um carro luxuoso preto. Uma delicada mão com unhas em um vermelho vibrante se ergue para o cordial motorista que estava com sua mão direita estendida.
Uma bela silhueta em formato de ampulheta, sai do carro trajando um vestido preto de corte perfeito. A bolsa de grife sendo elegantemente carregada, não deixa dúvidas de que uma mulher muito poderosa está por trás daqueles óculos escuros de edição limitada.
Ela passa pela porta giratória e segue em direção ao elevador. E eu, é claro, vou atrás meio que à francesa.
Eu a conheço de algum lugar, mas de onde?
Ninguém ousa parar aquela elegante criatura, visto que ela parece saber exatamente onde vai.
Ao entrar no elevador, todos os olhares se voltam para ela. Mas isso não parece constrangê-la, muito pelo contrário, aqueles olhares de admiração e inveja fazem o pequeno nariz afilado se empinar ainda mais.
Ao sair do elevador, ela dá passadas elegantes pelo enorme corredor, se direcionando para a principal sala de reuniões da Fascino, e apenas o barulho dos seus saltos são ouvidos no caminho, visto que eu ando sorrateiramente alguns metros atrás.
Ao se aproximar da sala de reuniões, Alessia Rossi, a secretária e algumas coisas mais do meu irmão. Uma loira bonita e esguia, com algumas coleções de procedimentos estéticos, entre harmonizações e cirurgias, fica imóvel ao vislumbrar a mulher à sua frente.
A mulher, por sua vez, abaixa um pouco os óculos escuros, olha com desdém para a loira, e em seguida a ignora, girando a maçaneta da enorme porta de duas folhas.
- Você não pode... - a Alessia até tenta barrá-la, mas é ignorada com sucesso.
Eu faço sinal com a minha mão para que a secretária pare bem onde está.
- Bom dia, querido! - A mulher fala abrindo a porta, e todos naquela sala a olham dos pés à cabeça.
Peraí... Querido? Ela chamou o meu irmão de querido?
- Elena? - o Lorenzo que está em pé próximo a um aparador, tomando um café, e que estava segundos antes conversando com um dos acionistas, olha confuso, e parece levar alguns segundos para conseguir acreditar no que os seus olhos estão vislumbrando.
Ele olha a mulher dos pés à cabeça, provavelmente procurando as curvas na lateral da barriga saliente.
Ele vivia se gabando de ter pedido o divórcio após sua ex -esposa ter aumentado trinta quilos durante o casamento.
Eu não posso perder a oportunidade, então passo pela mulher, ando até o Lorenzo e pressiono o seu queixo para que feche a boca.
Ele falou... Elena? Não é possível... Não pode ser... É claro que é... Céus, é a Miss Itália, Elena Giordano.
Nesse momento, como quem adivinha os meus pensamentos, a Elena tira os seus óculos escuros, não deixando com que reste mais nenhuma dúvida de que eu realmente estou em frente a Miss Itália. Aquela que se manteve em meus pensamentos por tanto tempo.
- Como vai, Lorenzo? Vejo que nada mudou por aqui - ela fala, e logo dá uma risada carregada de sarcasmo. - Perdão, quase nada... Digo... O rosto da sua amante mudou bastante desde a última vez que a vi.
O Lorenzo, com sua testa levemente enrugada, não fala uma única palavra. O meu irmão parece estar tentando assimilar as coisas.
A Elena dá passadas lentas e percorre toda aquela mesa que mede aproximadamente cinco metros, se sentando na última cadeira da ponta. Ao ver que sua ex mulher sentou em sua cadeira, o Lorenzo sai do seu estado de transe.
- Elena, o que faz aqui? - ele pergunta visivelmente incomodado, visto que ninguém jamais ousaria se sentar no lugar reservado ao CEO da empresa.
Isso está divertido.
- Querido, não vai me apresentar para os outros acionistas? - a Elena pergunta girando sua cadeira levemente para o lado e cruzando as suas pernas. - Apesar de que dois eu já sei bem quem são - ela encara o Pasquale e o Dante, dois dos acionistas.
- Claro - ele força a garganta três vezes antes de falar. - Essa é Elena Marino, minha ex esposa, e assim como vocês, eu estou curioso para saber o que ela faz aqui - o Lorenzo fala ainda de pé.
- Giordano - ela diz.
- O que? - Lorenzo pergunta com os seus olhos em uma linha reta.
- Elena Giordano - ela o corrigi. - Eu não quero absolutamente nada vindo de você, muito menos o sobrenome que está tão manchado por polêmicas e repercussões negativas na imprensa - ela diz o fitando, e eu preciso fazer um esforço descomunal para conter o riso.
- Se não quer nada de mim, o que faz na minha empresa? - o Lorenzo pergunta com seu semblante endurecido. - Já não basta ter me roubado dez... Deixa para lá.
Eu sei exatamente do que ele está se referindo. Eu ouvi rumores, na época, de que a ex -esposa conseguiu arrancar do Lorenzo dez milhões de euros com o divórcio.
- Pode procurar uma cadeira e se sentar, Lorenzo - a Elena fala com um leve sorriso, quase imperceptível em seu rosto. - Eu não pretendo me levantar daqui tão cedo.
Se eu bem o conheço, ele está se segurando para não a tirar a força dessa cadeira.
- Elena, você não respondeu: o que faz na minha empresa? - dá para ver a mandíbula do bastardo pressionada.
- Sua empresa? - ela pergunta encostando os cotovelos na mesa, juntando os seus punhos abaixo do queixo. - Você não está sendo muito prepotente para um acionista que tem apenas vinte e nove por cento das ações da Fascino?
- Ainda assim, eu sou o sócio majoritário dessa empresa - o Lorenzo fala, travando ali, uma guerra de olhares com a sua ex-esposa.
- Lamento ser eu a te tirar do seu pedestal, Lorenzo... Na verdade, eu não lamento nem um pouco - ela sorri. - E estou amando ser eu a te dar essa notícia.
- Do que está falando? - ele pergunta com a sua testa bem franzida.
- Agora eu sou a sócia majoritária da Fascino, com trinta e quatro por cento das ações - todos na sala que acompanham aquele impasse, ficam perplexos diante de tal informação, inclusive eu.
- Como isso é possível? - Pasquale, um dos acionistas, pergunta.
- Digamos que as notícias negativas que estão sendo veiculadas sobre a família Marino, assustaram os irmãos Mancini, e eles resolveram me vender as ações deles - a Elena explica com toda sua calma. É palpável o quanto está saboreando cada segundo desse momento. - Eu comprei dezessete por cento de cada um, totalizando assim a maioria das ações da Fascino.
Perdoem a minha falta de educação de não ter me apresentado antes, mas é que a ex Miss Itália e ex do meu irmão, acabou roubando a cena. Eu me chamo Matteo Médici, sou irmão do Lorenzo Marino, CEO da Fascino.
Somos irmãos apenas por parte de pai, mas assim como a Elena, me nego a carregar o sobrenome Marino. Digamos que o nosso pai tem um caráter "questionável", e só se lembrou de contar para a minha mãe que era casado, quando ela já estava grávida de mim.
Eu sou acionista, detentor de dez por cento das ações da Fascino, e fotógrafo oficial da marca. A verdade é que eu comprei secretamente algumas ações do Lorenzo, apenas para fazê-lo passar raiva. Se soubesse que eu era a pessoa por trás da aquisição, ele jamais teria vendido.
Há um ano, ele colocou as ações à venda justamente para pagar os dez milhões de euros para a Elena.