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Morpheus: A Primeira Vigília

Morpheus: A Primeira Vigília

Autor:: Rafael Soares
Gênero: Aventura
Em um mundo devastado por um século de guerra, as terras foram subjugadas pelo implacável imperador Hurok, um tirano cujo domínio sombrio foi consolidado por artes mágicas proibidas e uma ambição insaciável. No centro desse conflito épico, os metamorfos – uma raça singular dotada da habilidade de assumir qualquer forma – enfrentaram sua maior tragédia. Capazes de alterar suas identidades e influenciar eventos com sutileza, eles eram temidos por todas as raças, mas sua habilidade única logo se tornou sua maldição. Durante a ascensão de Hurok, os metamorfos foram sistematicamente caçados e eliminados, seus vilarejos destruídos e seus sobreviventes condenados a uma existência nas sombras. Agora, com o fim da guerra e o desaparecimento das forças mágicas que antes equilibravam o poder, os poucos metamorfos restantes lutam para preservar o que restou de sua herança. Sua magia, vista como uma ameaça, tornou-se o símbolo de resistência contra um regime opressor que busca controlar todo o mundo. Nesse cenário de desespero e caos, surge Morpheus, um jovem metamorfo marcado por perdas irreparáveis e impulsionado por um desejo feroz de vingança. Carregando o peso de sua ancestralidade e de um passado destruído, ele se infiltra nas engrenagens do Império, disfarçando sua verdadeira identidade enquanto aprimora suas habilidades para enfrentar forças maiores do que jamais imaginou. Transformação, vingança e esperança se entrelaçam em uma jornada épica que promete revelar segredos antigos e desafiar o próprio destino. Na luta para restaurar a justiça e reescrever o legado de sua raça, Morpheus descobre que sua habilidade, antes vista como maldição, pode ser a chave para libertar um mundo dilacerado pela opressão.

Capítulo 1 O Vilarejo de Nuta

Nuta era um modesto vilarejo situado às margens do pequeno rio Vorter, cercado por colinas verdejantes que escondiam as sombras da guerra. Apesar de pequeno, o vilarejo abrigava almas resilientes que lutavam diariamente para preservar sua cultura e sobrevivência. Athor, o líder da comunidade, era um homem de postura imponente e presença marcante. Alto, de cabelos negros e pele bronzeada, sua fama como um mestre da lâmina o tornava não apenas admirado, mas também temido. Ele era o tipo de homem que, mesmo no silêncio, emanava respeito e autoridade.

Darka, sua esposa, não era menos extraordinária. Seu corpo esguio e seus cabelos negros, característicos dos metamorfos, refletiam uma força que transcendia a habilidade física. Dotada de inteligência e carisma, ela era conhecida por sua sabedoria e pela calma determinação com que encarava as adversidades. Seu papel no vilarejo era tão central quanto o de Athor, e juntos formavam um casal que simbolizava resistência e esperança em tempos sombrios.

Entre eles estava Morpheus, o único filho do casal. Desde pequeno, sua presença exalava algo diferente. Seus cabelos marrons, uma peculiaridade rara entre os metamorfos, faziam com que ele se destacasse de maneira sutil, mas não menos intrigante. Ainda muito jovem, ele já demonstrava sinais de possuir habilidades extraordinárias, muito além do que se esperaria de um garoto de sua idade.

1. Os Laços dos Metamorfos e o Preço da Sobrevivência

Os metamorfos, uma raça singular entre os povos oprimidos por Hurok, eram conhecidos por sua habilidade de assumir a forma de qualquer ser. Contudo, essa dádiva que outrora os tornara temidos agora os condenava. Durante a ascensão de Hurok, os metamorfos foram declarados inimigos do Império, sendo caçados e dizimados. Seus assentamentos foram reduzidos a cinzas, e os poucos que restavam estavam obrigados a viver ocultos, tentando preservar sua existência em silêncio.

Darka carregava em seus olhos a dor do que seu povo havia perdido, mas também a determinação de proteger sua família. Athor, embora fosse um guerreiro experiente, sabia que apenas força não seria suficiente para enfrentar o Império. Como líder, ele tomava decisões calculadas, sempre priorizando a sobrevivência e segurança da sua comunidade. Ambos compreendiam o imenso peso de criar um filho em tempos tão incertos, mas encontravam forças na esperança que o pequeno Morpheus trazia.

Foi em um inverno particularmente rigoroso que essa esperança começou a ganhar novas dimensões. Com apenas três anos, enquanto brincava inocentemente na neve com seus pais, Morpheus fez algo extraordinário. Do nada, um calor intenso emanou dele, derretendo o gelo ao redor e revelando um círculo de terra exposta. O evento durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para deixar Athor e Darka inquietos. Não era apenas o fenômeno em si, mas a possibilidade de que aquilo marcasse o início de algo muito maior - ou perigoso.

Os anos seguintes trouxeram novas revelações. Aos cinco anos, durante um dia tranquilo ao longo do rio Vorter, algo semelhante aconteceu. Enquanto brincava, pequenas bolhas de água começaram a se erguer ao seu redor, flutuando como se obedecessem à sua vontade. A magia de Morpheus, ainda instável e imprevisível, não deixava dúvidas de que havia algo extraordinário nele. Ao mesmo tempo, essa força fascinante também trazia consigo medo - não apenas pelo que poderia significar para a criança, mas pelos perigos que isso poderia atrair para todos à sua volta.

Entre os metamorfos, essas manifestações mágicas eram vistas como presságios. Uma antiga profecia circulava entre eles, afirmando que metamorfos portadores de magia estavam destinados à ruína ou à grandeza. Porém, a grandeza sempre fora mais uma lenda do que uma realidade. Apenas um metamorfo na história havia superado as expectativas da profecia e alcançado feitos extraordinários: Kaelor, o Impassível, um guerreiro e estrategista que liderou as forças mágicas na batalha das Planícies Cinzentas.

Kaelor era conhecido não apenas por sua habilidade de se transformar, mas também por sua magia excepcional e liderança inabalável, qualidades que uniram raças divergentes em um breve momento de resistência contra os antigos opressores mágicos. Mesmo assim, a história de Kaelor terminou tragicamente, pois sua glória foi seguida por uma traição que o levou à morte. Desde então, os metamorfos mágicos eram mais frequentemente considerados uma maldição - um perigo para si mesmos e para aqueles ao redor.

Temerosos de que as habilidades de Morpheus fossem mais uma maldição do que uma dádiva, Athor e Darka tomaram medidas drásticas. Mudaram-se para uma área isolada do vilarejo, erguendo uma cabana entre colinas que ofereciam pouca visibilidade para curiosos. Eles reforçaram as regras:

- Morpheus não deveria usar magia em público, nem mesmo nas brincadeiras mais inocentes.

- A transformação deveria ser praticada apenas sob supervisão de Darka, sempre com cuidado para não chamar atenção.

Apesar de jovem, Morpheus obedecia, compreendendo em sua inocência que havia algo incomum e perigoso em si mesmo.

Aos doze anos, Morpheus já havia aprimorado sua habilidade natural como metamorfo. Sob as orientações rigorosas de sua mãe, ele havia aprendido a transformar-se com precisão. Darka o ensinava com paciência, destacando os limites e riscos do dom:

- Nunca tentar reproduzir alguém com diferenças físicas muito grandes, pois isso causaria dor excruciante ao corpo.

- Transformações mais duradouras exigiam um vínculo com algo pertencente à pessoa - um objeto ou fragmento de DNA.

- A metamorfose era um dom baseado na precisão, e um erro pequeno poderia comprometer todo o disfarce.

Morpheus se destacou pela habilidade de copiar traços e maneirismos, embora sua mãe o advertisse sobre os perigos de se perder na identidade de outra pessoa. Para Darka, o maior risco da metamorfose era esquecer quem você realmente era.

Ainda assim, o jovem revelava uma inteligência notável, dominando os princípios de sua transformação de maneira impecável. Ele dedicava-se com afinco, praticando os ensinamentos enquanto mantinha uma rotina simples de trabalho no pequeno sítio da família.

Apesar de suas interações limitadas com os outros jovens do vilarejo, Morpheus carregava uma curiosidade latente pelo mundo além das colinas. Mas o medo silencioso de seus pais pelo cumprimento da profecia de ruína o mantinha confinado - protegido, mas também aprisionado.

2. Um Inverno Memorável

O inverno havia envolvido o vilarejo de Nuta em um frio cortante, onde o branco da neve contrastava com os tímidos sinais de vida que insistiam em perdurar. Apesar disso, a rotina seguia como sempre. Athor, com sua postura imponente e movimentos calculados, cuidava dos animais com a mesma destreza com que empunhava sua lâmina. Darka, por sua vez, ocupava-se na pequena cabana, onde o aroma de especiarias começava a encher o ar enquanto ela preparava o jantar.

Morpheus, como de costume, auxiliava seus pais onde podia. Naquele dia, foi enviado por seu pai para buscar lenha. Com um pequeno machado em mãos e uma cesta de vime presa ao ombro, ele partiu em direção à floresta, uma área que conhecia tão bem quanto os próprios arredores de sua casa.

Embora fosse um garoto obediente, sua curiosidade frequentemente o levava além do esperado. Conforme adentrava mais na floresta, os troncos das árvores pareciam abraçá-lo com sua imensidão, e o som de seus próprios passos na neve era quase hipnotizante. Ele demorou-se, observando pequenos esquilos subindo pelos galhos e o rastro de aves migratórias no céu.

Quando finalmente decidiu retornar, percebeu algo incomum. O cheiro de fumaça, inicialmente sutil, tornou-se mais forte a cada passo. Morpheus parou, levantando o olhar para os céus. Nuvens cinzentas subiam em diversas direções, manchando o azul pálido do dia.

Seu coração acelerou. Sem pensar duas vezes, apressou-se em direção à cabana de sua família. Cada passo parecia mais pesado, como se o vento frio conspirasse contra ele, retardando sua chegada. Ao alcançar o pequeno sítio, a visão foi desconcertante: a cabana estava vazia, as cinzas ainda quentes na lareira indicando que seus pais haviam partido há pouco.

Morpheus olhou ao redor, tentando entender a situação. Não havia sinal de Athor ou Darka, mas ele sabia que algo estava errado. Com sua mente correndo em várias direções, deduziu que seus pais deviam ter ido ao vilarejo para ajudar. Era a única explicação lógica, e ele precisava encontrá-los.

Largando o machado e a cesta no chão, Morpheus correu. O caminho até o centro de Nuta parecia mais longo do que nunca. Perguntas tomavam conta de sua mente enquanto ele sentia a adrenalina pulsando. *O que causou o incêndio? Foi algum acidente? Será que seus pais estavam seguros?

Quando finalmente chegou, deparou-se com o caos. O vilarejo que antes conhecia tão bem agora era quase irreconhecível. Corpos estavam espalhados pelo chão, cobertos por neve vermelha de sangue. As chamas consumiam as casas, transformando madeira e telhados em cinzas. Soldados, com armaduras pesadas e espadas desembainhadas, atacavam qualquer um que resistisse.

No centro de tudo, uma bandeira azulada com corvos negros balançava lentamente sob o vento impiedoso. O coração de Morpheus pareceu parar quando reconheceu o símbolo. As palavras de seu pai ecoaram em sua mente, frias como o gelo que cobria o vilarejo.

- Se um dia vir essa bandeira, esconda-se.

Morpheus ficou paralisado por um momento. Ele sabia que precisava agir, mas a cena à sua frente era avassaladora. Pessoas que ele conhecia estavam caídas, algumas em poças de sangue, outras tentando fugir sem sucesso. A realidade parecia distante, como um pesadelo que ele queria acordar, mas sabia que era real.

Determinando-se a encontrar Athor e Darka, o jovem avançou com cautela, esgueirando-se por entre cabanas em chamas. Ele não sabia se seus pais estavam entre os combatentes ou entre as vítimas, mas precisava descobrir a verdade.

3. O duelo Mortal

Movendo-se com cautela, Morpheus chegou ao centro do vilarejo, esgueirando-se entre as casas enquanto o som de metal contra metal ecoava pelas ruas tomadas pelo caos. Soldados do Império gritavam ordens, mas a atenção de Morpheus estava fixada em apenas uma cena: seus pais, Athor e Darka, enfrentando um único homem.

Ele vestia uma armadura vermelha que refletia as chamas ao redor, e seus cabelos loiros brilhavam sob a luz do fogo. Seu semblante era sereno, quase indiferente à intensidade do combate, mas seus movimentos eram rápidos e letais, desviando cada ataque com uma precisão que fazia parecer um jogo.

Athor avançou com sua lâmina curta, tentando desferir um golpe certeiro. O homem, sem sequer perder a compostura, bloqueou com facilidade e deslizou para o lado, fazendo a espada de Athor atingir o vazio. Aproveitando a abertura, desferiu um corte em arco que atingiu a coxa esquerda de Athor, forçando-o a recuar.

Darka não hesitou. Com um movimento ágil, ela atacou pela lateral, sua espada tentando explorar qualquer brecha na defesa do inimigo. Mas o homem girou a lâmina em um movimento perfeito, desviando o golpe e obrigando Darka a dar um passo atrás.

Morpheus, escondido nas sombras, tentava se aproximar. Mas a visão do sangue manchando a perna de seu pai o fez hesitar. Ele sabia que não poderia ajudar - não era um guerreiro, e qualquer intervenção seria um fardo para eles. Mesmo assim, seu corpo tremia, dividido entre o instinto de correr e a necessidade de testemunhar o desfecho.

- Vocês são habilidosos. - O homem loiro comentou com um leve sorriso, desviando outro golpe de Athor com facilidade. - Mas é inútil resistir. Entreguem-se e talvez eu poupe suas vidas.

- Mandaram a mão direita do rei para um vilarejo como este? - Darka respondeu, sua voz carregada de sarcasmo, enquanto preparava sua postura para outro ataque. - Ele deve estar desesperado.

O sorriso do homem vacilou por um momento, mas apenas por um instante. Ele se lançou para frente como um raio, bloqueando uma tentativa conjunta de ataque de Athor e Darka. Sua lâmina colidiu com a de Athor em um impacto que ressoou como trovão, e em um movimento rápido demais para que Morpheus pudesse acompanhar, ele deslizou para o lado e desferiu um corte horizontal.

A espada de Athor foi quebrada com um golpe limpo e violento, os pedaços caindo no chão coberto de neve. O líder do vilarejo tentou recuar, mas não foi rápido o suficiente. Um corte profundo atingiu seu braço direito, e o grito de dor ecoou pela praça, enquanto ele caía de joelhos, sangrando.

- Parabéns, devo admitir, você é muito bom. - O homem loiro inclinou a cabeça, zombando. - Conseguiu se defender no último instante. Pretendia levar sua perna, mas agora... acho que o próximo ataque você não tem como resistir.

Darka, visivelmente abalada, gritou o nome do marido e se colocou entre ele e o inimigo. Apesar do medo que brilhava em seus olhos, ela continuou segurando a espada. Avançou com um golpe desesperado, sua lâmina mirando o pescoço do homem.

O inimigo riu. Com um giro de seu pulso, ele desviou o ataque com facilidade, fazendo Darka recuar um passo para recuperar o equilíbrio.

- Vocês são habilidosos, devo admitir. - O homem loiro falou, examinando o sangue na própria lâmina. - Uma pena que escolheram o lado errado.

Ele avançou mais uma vez, com precisão letal. Darka tentou se mover para proteger Athor, mas a velocidade do golpe era impossível de acompanhar. A luz vermelha de sua lâmina reluziu no ar, e tudo terminou em um instante.

A cabeça de Darka rolou pelo chão, seus olhos ainda abertos em desafio. Athor, ajoelhado e com o olhar fixo no homem, não teve tempo de reagir antes que um segundo golpe o silenciasse para sempre.

Morpheus estava paralisado, seu corpo congelado em choque. O som ao redor desapareceu, e tudo o que ele conseguia ver eram os corpos de seus pais no chão. Ele quis gritar, mas sua voz não saía. Quis correr até eles, mas suas pernas não obedeciam.

O homem loiro limpou a lâmina com calma antes de dar ordens aos soldados.

- Ateiem fogo em todo o lugar. Se encontrarem alguém vivo, matem.

Um dos soldados hesitou.

- Mulheres e crianças também, senhor?

O homem loiro deu de ombros, ajustando a espada na cintura.

- Façam o que quiserem com elas, contanto que morram no final.

Enquanto os soldados seguiam as ordens, Morpheus recuou lentamente para as sombras, forçando suas pernas a se moverem. Cada passo parecia pesar uma tonelada, mas ele sabia que não podia ser visto. O cheiro de fumaça e sangue enchia o ar enquanto ele se afastava, seus olhos ainda fixos na cena devastadora que o assombraria para sempre.

Ele correu. Correu para longe das chamas, longe do vilarejo que queimava e dos corpos de seus pais. Mas sabia que não havia distância suficiente para escapar da dor daquele momento.

Capítulo 2 As Cinzas e a Jornada

Morpheus não sabia quanto tempo havia passado, imóvel, observando as chamas consumirem tudo o que ele conhecia. As casas ardiam como tochas na noite gélida, e o cheiro de madeira queimada e carne carbonizada pairava no ar pesado. O calor do incêndio e o frio do vento misturavam-se em contraste, mas ele já não sentia mais nada. Seu corpo permanecia entorpecido, e sua mente era um turbilhão de pensamentos contraditórios e emoções conflitantes.

Quando o último dos soldados finalmente partiu, arrastando consigo alguns prisioneiros - mulheres e crianças poupadas temporariamente apenas para servirem a um propósito cruel -, Morpheus obrigou-se a se mover. Com passos trôpegos, ele caminhou pelo vilarejo destruído, o crepitar das brasas ecoando como sussurros de condenação.

No centro de Nuta, onde o combate havia acontecido, Morpheus se deparou com um cenário devastador. Corpos de moradores e soldados jaziam espalhados pelo chão. Entre eles, ele avistou o de Athor, ainda ajoelhado, a cabeça separada do corpo. O sangue havia se misturado à neve, criando uma visão que ele sabia que nunca esqueceria.

Um pouco mais à frente, Darka estava caída, seu corpo inclinado para o lado, com os olhos ainda abertos, fixados em um vazio que Morpheus não conseguia encarar. A espada dela, partida ao meio, estava jogada ao lado de sua mão. O jovem metamorfo caminhou lentamente até eles, lutando para manter a calma.

Ele não chorou. Sabia que não havia espaço para fraqueza naquele momento. Ao invés disso, ajoelhou-se diante dos corpos de seus pais. Suas mãos tremeram enquanto ele estendeu os dedos para tocar o fragmento da espada de Athor. Era a única lembrança tangível que ele poderia carregar dali, e ele a segurou com força.

Entre os pertences de Darka, encontrou um pedaço de seu manto chamuscado, onde ainda havia um fio de cabelo intacto. Ele o guardou cuidadosamente, lembrando-se dos ensinamentos de sua mãe. A metamorfose exigia algo que carregasse a essência da pessoa, e agora ele tinha isso.

Morpheus permaneceu ali por um tempo, segurando o punho da espada e o fio de cabelo de sua mãe. Dentro de si, uma ideia começou a se formar. Ele se lembrou dos conselhos de Darka sobre a metamorfose e do que seria necessário para assumir uma transformação mais duradoura, algo que exigisse não apenas habilidade, mas também coragem.

Com um último olhar aos seus pais, ele se afastou dos corpos. Sua mente estava decidida. Ele não podia mais ser Morpheus de Nuta, o garoto. Isso não o salvaria. Era preciso renascer de outra forma, não apenas para sobreviver, mas para levar adiante a memória de sua família e sua vingança.

Nas cinzas do vilarejo destruído, Morpheus começou a dar seus primeiros passos rumo ao desconhecido. As chamas diminuíam, mas o ódio que crescia dentro dele queimava mais intensamente do que qualquer incêndio que o Império pudesse causar.

Ele não era mais apenas um garoto. Ele era a última lembrança viva de Nuta - e seu destino seria reescrever o legado de sua raça.

1. O Caminho da Vingança

Morpheus saiu dos escombros de Nuta, com os olhos fixos no horizonte e as chamas do vilarejo ainda brilhando em sua memória. Ele não tinha um plano claro, mas havia uma certeza que queimava em sua mente: o homem loiro de armadura vermelha era a chave. Ele havia destruído tudo o que Morpheus conhecia, e era a mão direita de Hurok, o símbolo do poder opressivo do Império.

Se Morpheus queria desafiar Hurok, precisava enfrentar esse homem primeiro. Mas como? Ele era apenas um garoto. Um metamorfo que ainda não havia utilizado seu dom para combate, sem treinamento, sem armas adequadas e com pouca força física. Seus pais, mesmo sendo guerreiros habilidosos, haviam sido derrotados com facilidade. Morpheus sabia que precisava de mais.

Foi então que ele se lembrou das histórias que seu pai contava ao redor da lareira durante os longos invernos:

- Os Andarilhos do Abismo. Um grupo de guerreiros renegados que sobreviveram à destruição do Império. Eles treinavam os sobreviventes mais fortes das raças oprimidas, preparando-os para um levante contra Hurok.

Essas palavras ecoaram em sua mente como um sinal de esperança. Se os Andarilhos ainda existissem, talvez fossem sua única chance. Eles poderiam ensinar-lhe o que ele não sabia: força, técnica, resistência. Mais importante, poderiam ajudá-lo a transformar sua dor em uma arma.

2 .A Estrada Sombria

Os dias que seguiram foram marcados por uma viagem solitária e perigosa se disfarçado como um mercenário comum, evitando estradas movimentadas e cidades fortificadas. Ele usava sua habilidade para assumir formas diferentes quando necessário-um mendigo aqui, um comerciante ali-sempre mantendo sua verdadeira identidade oculta.

Vestindo roupas simples e carregando o punho da espada de seu pai como única lembrança tangível, Morpheus se misturava ao ambiente. Ele disfarçava sua presença, mantendo a cabeça baixa e interagindo apenas quando necessário. Cada decisão era calculada para garantir sua sobrevivência.

Em uma das cidades fronteiriças, ele encontrou um rumor que mudaria seu rumo. Morpheus estava sentado em uma taverna decadente quando ouviu dois homens discutindo em voz baixa:

- Você ouviu falar dos Andarilhos? - murmurou o primeiro, com um olhar desconfiado.

- Claro. Sempre se fala deles. Mas dizem que um deles apareceu nas Ruínas de Vhal, recrutando sobreviventes.

Morpheus não perdeu tempo. Naquela mesma noite, ele deixou a cidade e começou sua jornada em direção às ruínas. Ele estava decidido a encontrar os Andarilhos, independentemente do que enfrentasse pelo caminho.

Capítulo 3 A Resistência e o Plano de Infiltraçã

O corpo de Morpheus doía a cada passo.

Por semanas, ele se mantivera transformado - ora num velho mercador de pele enrugada, ora num caçador aleijado de andar desajeitado - sempre mudando de forma antes que qualquer suspeita pudesse recair sobre ele. Cada transformação era uma barreira, uma camada de proteção contra os olhos vigilantes do Império.

Morpheus havia aprendido, ao longo de sua jornada, que assumir novas formas era mais do que um disfarce. Ele precisava das histórias que as identidades traziam, as migalhas de informação que as pessoas compartilhavam. Como mercador, ouvia rumores sobre a movimentação de tropas em vilarejos distantes. Como caçador, aprendia sobre esconderijos naturais que poderiam servir de refúgio. A transformação era sua ferramenta para explorar o mundo sem ser visto, mas também sua maior maldição.

A metamorfose prolongada cobrava seu preço. Sua pele ardia como se mil lâminas rasgassem sob sua carne, e os músculos pareciam implorar por descanso. À noite, os rostos das pessoas que ele imitava surgiam em seus sonhos, distorcidos e ameaçadores, como se cobrassem dele o preço por roubar suas formas.

Naquela manhã, a dor se tornara insuportável. Ele finalmente voltou à sua forma verdadeira - um jovem magro de cabelos castanhos e olhos marcados pela fadiga - apenas para perceber que seu próprio reflexo lhe parecia estranho.

Morpheus encarou o riacho onde sua imagem se refletia.

- Quem sou eu agora? - murmurou, sentindo uma mistura de vazio e desconforto.

Foi assim, em sua forma natural e vulnerável, que os caçadores o encontraram.

1. O Encontro com a Resistência

Três homens emergiram da penumbra da floresta, movendo-se como lobos famintos que haviam farejado sua presa. Eles cercaram Morpheus na clareira, passos lentos e calculados que refletiam a confiança de predadores experientes. O maior deles, um homem de barba ruiva e olhos estreitos, ergueu o rosto para o ar, cheirando como um animal rastreando sangue.

- Bem, bem. - Sua voz era grave, carregada com uma ironia maldosa enquanto seus dentes podres surgiam em um sorriso deformado. - O que temos aqui? Um filhote perdido?

Morpheus deu um passo atrás, mas sabia que não poderia fugir. Seus músculos estavam fracos, seus dedos formigando de exaustão. Ele sentia o peso das semanas transformado, o desgaste de sua magia que antes fluía facilmente agora era nada mais do que um eco distante. Cada fibra de seu corpo parecia gritar em protesto.

- Não cheira a um nobre, - o homem comentou, fitando Morpheus com olhos avaliadores. Ele cuspiu no chão e fez um gesto para o companheiro ao lado.

O segundo caçador era magro, com um olhar astuto que parecia perfurar qualquer tentativa de disfarce. Com destreza, ele puxou uma corda nodosa de sua cintura e começou a enrolá-la lentamente em seus dedos, como se já antecipasse o desfecho do confronto.

- O Império paga bem por metamorfos, especialmente jovens. - Sua voz era quase casual, como se discutisse mercadorias em vez de pessoas. Ele sorriu de canto. - Mais ainda por um que parece tão... comum.

Os dois avançaram, com o terceiro homem os acompanhando logo atrás, o cabo de sua arma refletindo a luz pálida da manhã. Morpheus recuou mais um passo, sentindo suas costas tocarem a aspereza de uma árvore. Não havia para onde fugir, e lutar estava fora de questão. Seu corpo não obedeceria, sua magia estava dormente, e a transformação era impensável naquele estado.

Ele cerrou os punhos, o coração batendo violentamente contra o peito enquanto os caçadores se aproximavam. - Será este o fim? - Ele pensou, forçando-se a manter os olhos fixos nos homens. Se fosse cair, cairia com dignidade.

Mas o destino tinha outros planos.

Antes que o primeiro caçador, o de barba ruiva, pudesse dar o golpe final, algo cortou o ar com um assovio agudo. Uma adaga negra atravessou o espaço como um raio, cravando-se profundamente em sua garganta. Ele engasgou, o sangue manchando sua barba enquanto caía no chão com um baque pesado.

Os outros dois congelaram por um instante, surpresos demais para reagir. Foi então que figuras encapuzadas emergiram das sombras dos arbustos, movendo-se como fantasmas vindos de um pesadelo. Eles eram rápidos, precisos, e cada movimento parecia ensaiado.

O homem que liderava o grupo tirou o capuz com um gesto lento e deliberado. Seu rosto, marcado por cicatrizes que desciam como lágrimas petrificadas, era uma visão que parecia misturar o terror e o comando absoluto. Seus olhos eram frios como aço, avaliando Morpheus com uma intensidade que fez o garoto esquecer a dor por um momento.

- Garrik. - Sua voz era firme, carregada de autoridade e uma ameaça implícita, enquanto ele puxava a lâmina da garganta do corpo caído. - E você... você é exatamente o que estávamos procurando.

Morpheus tentou responder, abrir a boca, mas as palavras fugiram dele. O alívio e o choque disputavam espaço em sua mente, enquanto seu corpo finalmente cedia ao cansaço. Sua visão começou a escurecer, os sons ao redor transformando-se em murmúrios distantes.

Seu último pensamento, enquanto mergulhava na inconsciência, foi uma estranha aceitação: - Talvez a morte não fosse tão má companhia...

2. O Covil da Resistência

As Catacumbas de Vhal eram um pesadelo de pedra e sombras, um labirinto de túneis estreitos que serpenteavam sob as ruínas de uma cidade esquecida pelo tempo. As paredes eram ásperas, cobertas de musgo e inscrições antigas, como se o próprio lugar resistisse em permanecer vivo. A única luz vinha de tochas fixadas nas paredes, cujas chamas azuis ardiam sem emitir fumaça, lançando um brilho espectral que parecia realçar os sussurros que ecoavam pelo ambiente.

Morpheus seguia Garrik de perto, tentando não tropeçar nos caminhos traiçoeiros. As botas do líder da resistência faziam ecoar um som abafado contra o chão de pedra, misturando-se ao tinir de metais - espadas sendo afiadas, ferramentas manipuladas. Era um som de preparação constante, de guerra iminente.

Passaram por celas esculpidas na rocha, onde prisioneiros do Império estavam acorrentados. Alguns gritavam em desespero, outros apenas encaravam o vazio, como se tivessem desistido de lutar. Em outra sala, homens e mulheres marcados por cicatrizes inclinavam-se sobre mapas detalhados, traçando rotas de ataque, seus rostos endurecidos pela determinação. Morpheus sentiu um arrepio. Ele estava no coração da resistência, entre aqueles que ousavam desafiar o império que destruíra sua vida.

- Somos ratos, - disse Garrik, sua voz reverberando pelo túnel enquanto ele caminhava, sem nunca olhar para trás. - Ratos que roem as fundações do trono de Hurok. Um dia, ele vai cair... e nós estaremos lá para assistir.

Morpheus não respondeu. Ele sabia que seu lugar ali ainda não estava garantido. Entre aqueles guerreiros e estrategistas, ele era apenas um garoto, um metamorfo sem treinamento, arrastado por um golpe de sorte - ou talvez pela própria ironia do destino.

Após o que pareceu uma eternidade, chegaram a uma câmara circular. O espaço era iluminado por uma luz mais forte, mas ainda fria, que refletia nas paredes lisas e nos instrumentos alinhados sobre uma longa mesa de pedra. Havia frascos com líquidos de cores estranhas, instrumentos cirúrgicos brilhando sob a luz e rolos de pergaminhos parcialmente abertos.

- Eis nosso alquimista louco, - disse Garrik, com um gesto teatral que contrastava com sua postura geralmente rígida. - Mestra Yrva.

Uma figura encapuzada estava de pé atrás da mesa, os braços cruzados. Com um movimento quase teatral, ergueu as mãos e abaixou o capuz, revelando um rosto pálido emoldurado por cabelos brancos e olhos dourados que brilhavam como os de um felino. Morpheus sentiu seu coração acelerar. A presença dela era tão imponente quanto fascinante, uma mistura de perigo e mistério.

- Ah. - Yrva inclinou a cabeça, observando Morpheus com um sorriso que revelava dentes ligeiramente pontiagudos. - O metamorfo que quase morreu de ser ele mesmo.

Morpheus engoliu em seco, mas manteve o olhar firme. Ele sabia que estava ali não para ser aceito, mas para provar seu valor. Yrva deu um passo à frente, os olhos dourados brilhando enquanto o examinava como se ele fosse um espécime raro, e o sorriso dela parecia guardar segredos que ele ainda não estava preparado para desvendar.

3. O Exame de Yrva

Yrva não pediu permissão. Suas mãos firmes e frias como pedra agarraram o rosto de Morpheus, forçando-o a encará-la sob a luz fantasmagórica das tochas azuladas. Ela virou sua cabeça de um lado para o outro, analisando cada traço com uma precisão inquietante, como se estivesse avaliando um cavalo antes de uma compra.

- Pele rachando nas têmporas... unhas azuladas... ah, e isso! - disse ela, pressionando um dedo abaixo do olho esquerdo de Morpheus. A dor foi aguda, e ele estremeceu involuntariamente. - Sangue metamorfo envenenado. Você abusou demais do seu dom sem nenhum treinamento adequado. Está se matando devagar.

Morpheus arrancou o rosto de seu aperto, ofegante, mas não com medo. Seu tom carregava um desafio mordaz.

- E você é o que? Médica da Resistência?

Yrva não recuou. Pelo contrário, inclinou-se para frente, os olhos dourados brilhando como os de um felino à espreita.

- Algo assim. - Ela se virou, pegando um frasco de vidro contendo um líquido negro viscoso que parecia se mover por conta própria. O aroma metálico que exalava fez Morpheus franzir o nariz. - Eu estudo os segredos que Hurok teme. Sangue, metamorfoses, magia proibida... E você, garoto, é interessante.

Ela estendeu o frasco na direção dele, o líquido negro girando como se tivesse vida própria.

- Beba. Vai doer, mas vai limpar seu sangue antes que a magia acabe com você por dentro.

Garrik, que observava tudo com os braços cruzados, inclinou a cabeça em direção a Morpheus e falou com voz grave:

- É isso ou morrer em uma semana, garoto. Sua escolha.

Morpheus hesitou, mas não por covardia. Ele sabia que confiar na Resistência não era garantido. Ainda assim, o desespero por sobrevivência superou suas dúvidas. Sem dizer uma palavra, ele pegou o frasco e engoliu o líquido de uma só vez.

A reação foi imediata. Seu corpo arqueou como se tivesse sido atingido por uma lâmina invisível, e um grito rouco escapou de sua garganta. Ele caiu de joelhos no chão de pedra, convulsionando enquanto o veneno e o antídoto travavam uma guerra brutal dentro de suas veias. Suas mãos arranharam o chão, e sua visão turvou. Quando a dor finalmente cedeu, deixando-o ofegante, Yrva estava ajoelhada ao seu lado, o sorriso satisfeito cortando seu rosto.

- Bom. Você sobreviveu. Agora podemos começar.

Morpheus piscou lentamente, ainda lutando para recuperar o fôlego.

- Começar o quê? - Ele conseguiu sussurrar, a voz fraca.

O sorriso de Yrva aumentou, e ela se levantou, limpando as mãos em seu manto.

- Vou precisar entrar na sua cabeça. Preciso ver quem você é, garoto. E, com sorte, confirmar que não somos idiotas por termos lhe salvado.

Morpheus tentou se sentar, os músculos ainda trêmulos.

- Entrar na minha cabeça? Você vai pedir permissão antes de invadir minha mente?

Ela inclinou a cabeça, como se estivesse se divertindo com a ideia.

- Estou pedindo agora. - Seus olhos dourados brilharam mais intensamente. - Mas mesmo que diga não, vou fazer de qualquer forma.

Garrik deu um passo à frente, curvando-se ao nível de Morpheus.

- Não lute contra ela, garoto. Vai ser pior se resistir.

Morpheus suspirou, relutante, mas não tinha outra escolha. Ele fechou os olhos, preparando-se para o que viria. Yrva colocou as pontas dos dedos em sua testa, e uma onda de energia percorreu seu corpo. A sensação era como mergulhar em água gelada, enquanto imagens de sua vida passavam diante dele.

Yrva não teve piedade. Ela vasculhou suas lembranças como uma ladra invadindo um cofre, revendo cada detalhe: o vilarejo de Nuta queimando, o duelo de seus pais contra o homem loiro de armadura vermelha, suas transformações desgastantes enquanto fugia pelas estradas.

- Interessante. - murmurou ela enquanto revirava as profundezas de sua mente. - Você é um sobrevivente, isso é certo. Mas será que tem o que é necessário para nos ajudar?

Morpheus tentou bloquear os pensamentos mais íntimos, mas Yrva era implacável. Ela arrancou cada memória importante, cada fragmento de dor e determinação. Quando finalmente recuou, ele estava ofegante, suando, mas de pé.

- Você é um sobrevivente. - Ela disse, mais para si mesma do que para ele. - E há algo de especial em você, garoto. Talvez você valha o risco.

Ela olhou para Garrik, que assentiu em silêncio.

- Ele é confiável? - Perguntou o líder da resistência.

Yrva sorriu, mostrando seus dentes afiados.

- Oh, ele tem seus segredos. Mas, sim, ele vai servir.

Morpheus limpou a testa com as costas da mão, sentindo um peso estranho em sua mente. Ele sabia que havia algo mais por trás do sorriso de Yrva, mas decidiu guardar suas perguntas para outro momento. Ele precisaria de todas as forças para o que viria a seguir.

4. Treinamento com Lâminas

Antes mesmo de se recuperar totalmente, Garrik arrastou Morpheus para o pátio de treinamento - uma caverna ampla com o teto repleto de estalactites que pareciam ameaçar despencar a qualquer momento. O chão era um mosaico irregular de marcas de combate, cicatrizes de lâminas e manchas escuras de sangue seco que haviam se acumulado ao longo dos anos.

- Magia é útil, - disse Garrik, enquanto jogava uma espada velha e enferrujada aos pés de Morpheus. - Mas ferro... ferro é mais confiável.

Morpheus hesitou por um momento antes de se abaixar para pegar a arma. O peso da lâmina em suas mãos parecia desproporcional, como se carregasse o fardo de todas as batalhas que ele nunca havia lutado. Ele tentou assumir uma posição que achava defensiva, mas Garrik bufou ao vê-lo, a descrença clara em seu rosto.

As primeiras lições foram um desastre humilhante. Morpheus, que jamais tinha segurado uma arma de verdade, mal sabia como manter o equilíbrio. Garrik o derrubava com golpes simples, a maior parte deles nem mesmo mirando com força total. Cada queda o deixava ensanguentado, coberto de poeira e com a dignidade ainda mais ferida.

- Você luta como um bebê tentando segurar uma colher. - Garrik zombou após o décimo tombo, seus olhos brilhando de frustração e diversão. - Vamos começar do zero.

Os dias seguintes foram brutais, dedicados aos fundamentos que Garrik não permitia que Morpheus ignorasse:

Posição dos pés: Morpheus deveria manter os pés firmes e bem posicionados para garantir equilíbrio e mobilidade. Quando errava, Garrik não hesitava em bater-lhe nas canelas com uma vara, provocando dor aguda como lembrete.

Golpes básicos: O mesmo movimento era repetido incessantemente até que suas mãos começassem a sangrar devido ao atrito com o punho da espada. Garrik observava cada golpe com atenção, corrigindo detalhes com críticas mordazes.

Bloqueios: Não havia simulações brandas. Garrik atacava de verdade, forçando Morpheus a aprender a bloquear ou enfrentar as consequências de falhar.

A rotina era extenuante. A cada dia, o corpo de Morpheus acumulava mais ferimentos, mas também se tornava mais forte. Sua determinação, alimentada pelas lembranças de Nuta e pela memória de seus pais, não o deixava desistir.

Na segunda semana, algo inesperado aconteceu. Durante um exercício, o corpo de Morpheus reagiu instintivamente a um golpe pesado de Garrik. Sem perceber, ele se transformou parcialmente. Seus braços assumiram a musculatura de Garrik por um instante - as veias saltaram, os músculos se tensionaram como cordas, e de repente, a espada parecia mais leve, mais ágil em suas mãos. Ele conseguiu aparar o golpe e, pela primeira vez, empurrar Garrik para trás.

Houve um momento de silêncio. Garrik olhou para Morpheus com uma expressão de surpresa, mas logo riu alto, um som grave que reverberou pelas paredes da caverna.

- Trapaceiro, - disse Garrik, com um sorriso quase orgulhoso. - Mas guerra não tem regras. Use tudo o que tem.

Morpheus ficou em silêncio, ofegante. Ele não sabia se o que sentia era alívio ou vergonha, mas as palavras de Garrik ficaram gravadas em sua mente. Naquele dia, ele entendeu que não precisava seguir as regras do mundo que o oprimia. Ele poderia criar as suas próprias, usar cada vantagem que sua raça lhe dava para sobreviver e vencer.

A espada em suas mãos já não parecia tão pesada.

5. O Treino Brutal

Nas semanas que se seguiram, Morpheus foi submetido ao tipo de treinamento que fazia até os mais endurecidos questionarem sua força. Yrva e Garrik se revezavam, testando sua resistência física, mental e emocional até o limite.

Com Yrva, o foco era controle absoluto:

Ele mantinha formas diferentes por horas, enquanto Yrva aplicava queimaduras na pele, marcando padrões para medir sua capacidade de manter a metamorfose sob estresse extremo.

Ela o fazia imitar vozes de prisioneiros capturados pelo Império, exigindo perfeição não apenas na entonação, mas também na emoção transmitida. Se ele falhava, as punições eram imediatas.

A dor tornava-se parte do exercício. Yrva testava sua concentração, infligindo pequenas torturas enquanto o fazia recitar encantos ou manter transformações. Qualquer hesitação era considerada uma falha.

Com Garrik, o treinamento era tão sujo quanto letal:

Ele ensinava Morpheus a lutar sem honra, utilizando areia nos olhos, golpes baixos e movimentos traiçoeiros.

Armas improvisadas eram parte do cotidiano - facas feitas de osso, correntes enferrujadas, e até mesmo pedaços quebrados de madeira se tornavam extensões de seu corpo.

Mais importante, Garrik explorava como a metamorfose podia ser usada para melhorar reflexos. "Seja mais rápido, mais forte, até que eles nem consigam acompanhar", dizia enquanto Morpheus adaptava partes de seu corpo para sobreviver aos ataques.

A rotina era brutal. Cada dia deixava novos hematomas, cortes e cicatrizes no corpo de Morpheus, mas também moldava algo dentro dele - uma força que ele não sabia que possuía.

O momento crucial chegou durante mais um dos experimentos impiedosos de Yrva. Ela observava Morpheus com aqueles olhos dourados e felinos, um sorriso estranho brincando em seus lábios.

- Coloque sua mão aqui. - Ordenou, gesticulando para uma tigela fumegante de água fervente.

Morpheus hesitou, o vapor subindo e irritando seu rosto.

- Está esperando uma festa de boas-vindas? - Yrva provocou, e Garrik, que estava sentado nas sombras, riu baixinho. - Faça logo.

Com um suspiro de resignação, Morpheus mergulhou a mão na água. A dor o atingiu como uma lâmina, cortando profundamente e tirando-lhe o fôlego. Ele gritou, um som primal e desesperado, e então algo incrível aconteceu. No auge da agonia, a água congelou instantaneamente, formando uma camada sólida de gelo em torno de sua mão.

Houve um momento de silêncio absoluto na caverna, quebrado apenas pelo som do gelo estalando à medida que Morpheus retirava a mão.

- Isso é novo. - Garrik assobiou, levantando-se da parede onde estava apoiado. Sua expressão misturava surpresa e aprovação.

Yrva, por sua vez, sorriu, mostrando todos os dentes de forma predatória.

- Ele está aprendendo. - Disse ela, suas palavras carregadas de uma satisfação quase maliciosa.

Morpheus, ainda ofegante, olhou de Garrik para Yrva. Algo parecia errado. Ele se lembrou de quando Yrva invadira sua mente semanas atrás, vasculhando suas memórias. Se ela realmente tinha visto tudo o que ele era, como poderia essa magia ser uma surpresa para ela?

- Será que ela não viu?- Ele se perguntou, inquieto. - Ou será que essa parte de mim estava tão enterrada, tão suprimida até por mim mesmo, que ela simplesmente não conseguiu alcançar?

Ou talvez fosse algo mais simples - e mais assustador. Talvez ela apenas estivesse fingindo.

6. O Plano Toma Forma

Naquela noite, enquanto Morpheus enfaixava suas mãos ainda doloridas pelos treinos extenuantes, ele estava sozinho. As luzes azuladas das tochas lançavam sombras longas pelas paredes úmidas das catacumbas, e o eco distante de passos e vozes se misturava aos sons metálicos de armas sendo preparadas.

Morpheus olhou para suas mãos marcadas por calos e cicatrizes, fruto de semanas de treinamento brutal. Cada golpe, cada transformação e cada teste imposto por Yrva e Garrik moldavam uma versão nova de si mesmo. Ele sabia que estava sendo preparado para algo maior, embora o verdadeiro propósito ainda fosse um mistério.

Os dias seguintes trouxeram um silêncio incomum entre os membros da resistência, como se algo estivesse sendo tramado longe dos olhos de Morpheus. Yrva e Garrik se tornaram mais reservados, e suas interações com o jovem metamorfo eram mais diretas, focadas no treino e na disciplina. Ele sabia que a tensão crescente indicava que mudanças estavam por vir.

Quando finalmente chegou o momento de revelar o plano, Garrik não escolheu o quarto de Morpheus como palco. Ele reuniu Yrva e o jovem em uma sala iluminada por tochas de fogo azul, suas chamas tremeluzindo suavemente. Com um gesto firme, Garrik abriu um mapa sobre a mesa central, suas mãos calejadas traçando linhas e pontos marcados com precisão militar.

- A Escola Real de Magia de Nihlys. - Ele apontou para a ilustração detalhada que mostrava o complexo cercado por torres e muralhas. Sua voz era firme, cheia de gravidade. - É onde Hurok molda suas armas mais afiadas.

Yrva aproximou-se em silêncio, o manto arrastando-se pelo chão como um espectro. Com um movimento deliberado, ela colocou três objetos sobre a mesa, cada um carregando um peso sinistro:

Um frasco de sangue que parecia pulsar como se tivesse vida própria.

Uma máscara feita de pele humana, sua textura perturbadora e os olhos vazios encarando Morpheus como um aviso.

Um punhal de osso gravado com runas que brilhavam fracamente sob a luz.

- Você será Dain Vors, - sussurrou Yrva, os olhos dourados fixos em Morpheus. - E entrará no covil do lobo.

Morpheus olhou para os objetos, absorvendo o significado de cada um. Ele sabia que não era apenas um disfarce; era uma identidade nova que precisaria habitar completamente.

Garrik cruzou os braços, sua postura firme e autoritária.

- Três meses. - Sua voz carregava o peso da tarefa. - Para se tornar alguém novo.

Morpheus abaixou os olhos para suas mãos novamente. As marcas deixadas pelo treinamento eram prova do que ele havia suportado. Um sorriso breve e quase desafiador surgiu em seus lábios.

- Já estou me acostumando com isso.

O som da risada de Yrva ecoou pelas catacumbas, cortando o silêncio como o estalar de gelo sob pressão.

- Então vamos começar.

7. Adaptação ao Desafio: Água Salgada

Morpheus sentiu o peso da exaustão enquanto observava os grãos de sal se dissolverem na água da piscina. Sua mente ainda processava o comando de Yrva, mas seu corpo clamava por descanso. A mulher de olhos dourados não tinha pressa; ela o encarava com uma mistura de paciência impiedosa e expectativa calculada.

- Água salgada congela diferente. Adapte-se. - Repetiu Yrva, cruzando os braços, como se fosse óbvio que ele entenderia no instante seguinte.

Morpheus respirou fundo, tentando acessar o mesmo foco que o permitira fazer a água tremer antes. Mas agora, a superfície da piscina parecia estranhamente distante, resistente aos seus esforços. Ele fechou os olhos, tentando visualizar o gelo, sentir o frio, e lembrar-se de sua própria sensação de desespero que antes catalisara a magia.

- Está pensando demais. - Yrva interrompeu, cortando o fio de concentração que ele tentava tecer. - A água salgada não se importa com sua hesitação. Você não pode forçá-la, mas também não pode se entregar ao fracasso.

A voz dela era afiada, mas havia uma lição em suas palavras. Morpheus estreitou os olhos para a superfície da água, que agora parecia quase zombar de sua incapacidade. Ele estendeu a mão e tocou a água gelada, sentindo a diferença sutil em sua densidade, na textura ligeiramente mais pesada. O sal transformava mais do que o estado físico da água; parecia testar a própria conexão que ele estava tentando formar com o elemento.

- Escute, garoto. - Yrva abaixou-se à beira da piscina, os olhos fixos em cada movimento dele. - A transformação deve vir de dentro, mas a adaptação é o que define a sobrevivência. Não lute contra o que você sente; use-o.

Morpheus fechou os olhos novamente, desta vez mergulhando não na dor ou no esforço, mas em uma lembrança. Ele se forçou a imaginar as correntes de água gélida nas noites em que atravessava riachos fugindo de patrulhas do Império. O som do gelo rachando sob seus passos, o frio que mordia sua pele. Sentindo isso, ele estendeu as mãos, permitindo que os sentimentos guiassem a intenção.

A água respondeu lentamente. Pequenos cristais começaram a se formar na superfície, como teias de aranha se espalhando. Morpheus abriu os olhos ao perceber, e algo dentro dele se solidificou junto com o gelo. Com mais um esforço, ele impeliu a magia, e a camada de cristais cresceu até cobrir boa parte da piscina.

Yrva não sorriu imediatamente. Ela estendeu a mão e tocou o gelo, observando-o com olhos críticos antes de assentir.

- Progresso verdadeiro. - Disse ela, finalmente quebrando o silêncio, mas seu tom ainda era mais exigente do que louvável. - Agora você entende que o mundo não se ajusta ao que você deseja. Você é quem deve se ajustar a ele.

Morpheus desabou de joelhos, ofegante, mas satisfeito. Ele sabia que aquele pequeno triunfo custaria energia e força mental, mas também percebia que a exaustão fazia parte de quem ele estava se tornando. Cada desafio superado o moldava, cada obstáculo era mais uma arma que ele poderia usar contra aqueles que haviam destruído sua vida.

Enquanto saía da piscina, o frio ainda irradiando de sua pele, Yrva ficou ao lado dele por um momento, observando-o como se procurasse algo mais profundo.

- Boa tentativa. - Disse ela finalmente, seu tom quase brando. - Mas terá que fazer mais do que isso se quiser sobreviver.

Morpheus não respondeu. Ele sentiu a força voltar lentamente enquanto olhava para o gelo agora derretendo na piscina salgada. A dificuldade havia sido maior, sim, mas ele entendeu que o que antes parecia impossível agora não era mais. Ele podia se adaptar. Ele precisava se adaptar.

8. Lições de Ferro

Enquanto Yrva trabalhava para aprofundar a conexão de Morpheus com sua magia, Garrik se dedicava a moldar suas habilidades sociais e físicas para garantir que ele encarnasse completamente a identidade de Dain Vors. O jovem metamorfo precisaria personificar o papel com perfeição, não apenas em aparência, mas em comportamento, gestos e até mesmo pensamentos.

Garrik estruturou o treinamento de Morpheus para refletir rituais e práticas comuns na Escola Real de Magia de Nihlys, focando nos aspectos mais desafiadores e psicológicos:

Prova do Espelho: Morpheus treinava a arte de mentir sem hesitar, aprendendo a manter contato visual enquanto sustentava falsidades. Se piscasse ou demonstrasse dúvida, Yrva queimava seus cílios com uma chama sutil, uma lição dolorosa e eficaz.

Jejum Mágico: Para simular as Privações Iniciais de Nihlys, Morpheus passou três dias sem comer, enquanto continuava a treinar rigorosamente sob as ordens de Garrik. O cansaço físico e mental era essencial para recriar a exaustão que ele enfrentaria no campo.

Na véspera da partida, Yrva e Garrik apresentaram a prova final.

Morpheus foi conduzido a uma câmara ampla, onde sete figuras aguardavam em silêncio. Eles estavam vestidos de forma imponente, suas expressões afiadas e olhos avaliadores. Embora fossem membros da resistência, Morpheus nunca os havia visto antes, e cada um deles era experiente em detectar fraudes. Este seria seu teste mais difícil até agora.

- Eles foram criados na Corte Leste. - Disse Yrva, ajustando o colar de dentes pendurado em seu pescoço. Seu tom era frio e calculado. - Se descobrirem que você não é quem diz ser, você não será o único a morrer.

As palavras cortaram como lâminas. Morpheus sabia que falhar não era uma opção. Ele respirou fundo, alinhando seus pensamentos com a persona de Dain Vors, o nobre insuportavelmente pretensioso e culto que ele havia sido treinado para representar.

A noite foi uma dança de palavras e manipulações, com Morpheus interpretando seu papel com uma precisão que beirava o natural:

Bebendo como Dain Vors: Ele exigiu vinhos do sul, desprezando opções locais com um desdém sutil. Cada gole era tomado com confiança, reforçando sua identidade como alguém de gostos refinados.

Discussões acadêmicas: Quando o grupo mencionou poesia, Morpheus dominou a conversa, citando versos obscuros e debatendo interpretações com ar de superioridade. Ele transformou o diálogo em um jogo, mantendo sempre o controle.

Resistindo às provocações: Quando questionaram a postura de Dain sobre rebeldes, Hurok e as políticas do Império, Morpheus respondeu com ironia e ambiguidade, evitando comprometer-se demais, mas mantendo-se alinhado ao papel esperado de um nobre.

Cada interação era uma prova. A forma como Morpheus se movia, falava e reagia era analisada por olhos atentos. Ele sabia que mesmo o menor deslize poderia ser fatal.

Quando o sol finalmente começou a nascer, tingindo a câmara de pedra com uma luz pálida, Yrva entrou. Seus passos ecoaram pelo espaço, e os olhares de todos se voltaram para ela.

Ela parou ao lado de Morpheus, inspecionando-o de cima a baixo antes de se voltar para os outros.

- Dois suspeitaram. - Disse ela casualmente, enquanto limpava manchas de sangue fresco das garras afiadas. - Eles estão mortos.

Morpheus sentiu uma onda de alívio misturada com desconforto. Ele havia passado, mas a custo de vidas - mesmo que fossem apenas um teste, o peso das ações de Yrva era inegável.

Yrva se aproximou ainda mais, seus olhos dourados brilhando à luz do amanhecer.

- Você está quase pronto. - Disse ela, com um tom que soava tanto como aprovação quanto como aviso.

Enquanto os outros deixavam a câmara, Morpheus ficou parado por um momento, refletindo sobre a noite. Ele pensava em como cada palavra e gesto precisavam ser medidos com precisão, em como a tensão quase constante o deixara à beira do colapso, e em como o peso de sua nova identidade começava a se misturar com quem ele realmente era.

Será que essa máscara se tornaria parte de mim? Ele se perguntou. Ou será que estou começando a perder quem eu realmente sou?

O pensamento permaneceu enquanto ele se afastava da sala, preparando-se mentalmente para o que estava por vir. Não havia mais espaço para dúvidas. Ele precisava vencer, não importa o custo.

9. O Sangue de Vors

Na véspera da partida, Yrva iniciou o ritual que selaria a transformação de Morpheus em Dain Vors, garantindo que ele pudesse manter a forma sem sofrer os terríveis efeitos colaterais de uma metamorfose prolongada. Ele foi despido e pintado com runas intricadas que cheiravam a cobre e mirra, aplicadas com precisão sobre sua pele. Cada traço parecia pulsar com energia própria, emitindo um calor estranho que Morpheus podia sentir penetrando em seus ossos.

Quando o frasco de sangue de Dain Vors foi derramado em seu peito, as runas absorveram o líquido como terra ressequida por uma tempestade repentina. A reação foi quase instantânea: uma sensação de peso deixou seu corpo, enquanto as marcas rúnicas brilhavam por alguns segundos antes de se estabilizarem.

- Este é seu disfarce mais importante. - Disse Yrva, esfregando cinzas em seus lábios com um gesto calculado. - O sangue mentirá por você, sustentará sua forma... e o protegerá dos custos de uma transformação tão demorada. Mas lembre-se...

Antes que pudesse reagir, Yrva cravou uma agulha sob sua clavícula. A dor foi aguda, arrancando um engasgo involuntário de Morpheus, mas ele se forçou a permanecer imóvel.

- ...lá embaixo, você sempre será Morpheus de Nuta.

As palavras dela eram tanto um aviso quanto um lembrete de sua verdadeira identidade, enterrada sob o disfarce que agora fazia parte dele.

Na entrada da câmara, a silhueta de Garrik surgiu, carregando um pacote de couro preso firmemente com cordões. Ele caminhou com passos firmes, parando ao lado de Yrva antes de abrir o pacote. Dentro, havia uma espada curta que imediatamente chamou a atenção de Morpheus.

A lâmina era lisa e sombria, sem adornos desnecessários, mas o punho... Morpheus reconheceu a guarda da espada de imediato. Era a mesma da lâmina partida de seu pai, Athor, esculpida em forma de uma serpente, cada detalhe tão familiar quanto as lembranças que ele carregava de sua infância.

- Para você. - Disse Garrik, entregando a espada com reverência. - Aço de Vhal. Corta até a verdade.

Morpheus pegou a espada, sentindo o peso sólido e equilibrado em suas mãos. Ele se perguntou quando Garrik a havia recuperado, como ele havia conseguido sem que Morpheus percebesse. Por um momento, o cansaço e a dor desapareceram, substituídos por uma onda de gratidão silenciosa. Era mais do que uma arma; era uma conexão com seu passado e um lembrete da luta que o havia trazido até ali.

- E se eu não voltar? - Perguntou Morpheus, enquanto girava a lâmina, observando os detalhes com olhos fixos.

Yrva respondeu com uma risada fria que ecoou pelas catacumbas como o estalo de gelo se quebrando.

- Oh, você voltará. Seja em carne... ou em pedaços.

As palavras eram um misto de provocação e verdade, carregando um peso que Morpheus não podia ignorar.

Garrik colocou uma mão firme em seu ombro, sua expressão endurecida, mas com um traço de preocupação genuína nas sombras de seus olhos.

- A escola fica a três dias de viagem. - Disse ele, a voz grave. - Você vai como um nobre, mas pense como um rato. Roer. Observar. Sobreviver.

Morpheus assentiu lentamente, ajustando o colar de dentes que agora pendia em volta de seu pescoço. Ele olhou para Garrik e Yrva, e depois para a lâmina em sua mão, sentindo uma mistura de determinação e aceitação.

Ele sabia que o caminho à frente seria perigoso, mas o ritual havia removido pelo menos uma preocupação. Sem a poção, ele poderia manter sua forma disfarçada por longos períodos, concentrando-se em sua missão sem medo de colapsar. Ainda assim, ele não podia esquecer as palavras de Yrva. Sob a pele e o sangue de Dain Vors, ele sempre seria Morpheus de Nuta - e era essa parte dele que impulsionava sua luta.

10. A Partida

A madrugada era fria e silenciosa, o tipo de escuridão que parecia engolir até mesmo os pensamentos. Morpheus, despertado antes do primeiro raio de sol, começou sua preparação.

Vestiu as roupas de linho fino, cuidadosamente ajustadas e roubadas de Eldrith. Os tecidos, leves e elegantes, moldavam sua nova identidade com precisão desconfortável.

Enterrou seus trapos antigos sob uma pedra marcada em um canto esquecido das catacumbas. Aquela pedra seria o único elo tangível com quem ele havia sido, escondida de todos, exceto dele mesmo.

Por fim, olhou pela última vez para o sul, onde a lembrança de Nuta em chamas ainda queimava em sua mente. Mesmo àquela distância, ele podia quase sentir o calor das labaredas e ouvir os gritos de sua terra perdida.

Foi nesse momento que Yrva apareceu, movendo-se com o silêncio de um predador nas sombras. Morpheus se virou para encará-la, mas não disse nada. Ela se aproximou com a graça de quem tinha domínio completo sobre a situação, uma pequena pedra azul cintilando em sua mão.

- Última lição, metamorfo. - Disse ela, a voz baixa mas carregada de significado. Com cuidado, ela colocou o cristal em sua mão. A superfície fria parecia pulsar levemente contra sua pele, como se guardasse uma energia oculta. - Guarde isso. Quando ficar quente, saberá que estamos perto.

Morpheus examinou o cristal por um momento, percebendo a complexidade da magia ali contida. Não precisou perguntar mais; o objeto seria tanto um aviso quanto uma promessa.

Pouco depois, Garrik surgiu na entrada das catacumbas, carregando as rédeas de um cavalo robusto com marcas da Escola Real de Magia de Nihlys. Ele caminhou até Morpheus com passos firmes, mas sua expressão era mais difícil de ler do que o habitual. Quando chegou perto, sem cerimônia, jogou-lhe as rédeas.

- Para você. - Disse ele, com um tom mais brando do que o normal. - Vai servir.

Garrik colocou uma mão firme em seu ombro.

- A escola fica a três dias de viagem. - Disse ele, em um tom grave mas carregado de determinação. - Você vai como um nobre, mas pense como um rato. Roer. Observar. Sobreviver.

Morpheus assentiu, ajustando o colar de dentes em volta do pescoço. Enquanto montava no cavalo, sentiu:

O peso do colar contra o peito, como se fosse tanto uma proteção quanto uma âncora.

O sabor mentiroso de vinho do sul ainda em sua língua, um lembrete de sua nova identidade.

Ele partiu sem olhar para trás, sabendo que o futuro não ofereceria garantias, apenas mais desafios. Três dias de viagem o aguardavam. Três dias até o primeiro teste de sangue.

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