Voltei para Campinas depois de quatro anos, feliz da vida, noiva e esperando convidar meu tutor, Marcos, para o meu casamento.
Mas o que encontrei foi um pesadelo: Marcos estava noivo de Clara D'Ávila, a garota que fazia bullying comigo no colégio.
Ele imediatamente descartou a notícia do meu casamento como uma "mentira", favorecendo Clara cegamente enquanto ela me atormentava sistematicamente.
Ele permitiu que ela armasse para mim, me forçou a pedir desculpas e a deixou roubar minha obra de arte mais querida.
Quando denunciei, ele enterrou a investigação policial, me acusando de "causar problemas" e me confinando em casa.
Seu desprezo cruel e favoritismo cego foram uma traição profunda.
Destruída pela injustiça, decidi cortar todos os laços.
Devolvi cada centavo que ele gastou comigo, deixando um bilhete: "A dívida está paga. Estou indo embora."
Enquanto eu voava para Florença, a ilusão de Marcos desmoronou.
Ele correu através de continentes, frenético para impedir meu casamento na Toscana.
Ele invadiu a cerimônia, desesperado e em lágrimas, apenas para me encontrar radiante.
Com calma, revelei as três vezes que quase morri, sozinha e abandonada, depois que ele me mandou embora – e em cada uma delas, minhas ligações não foram atendidas.
Minha felicidade inabalável com Davi e a verdade fria de sua negligência o destruíram por completo.
Capítulo 1
Os portões de ferro forjado da mansão no Condomínio das Palmeiras Imperiais se erguiam diante de mim.
Quatro anos.
Quatro anos desde a última vez que vi aquela imponente casa de estilo colonial em Campinas, São Paulo.
Marcos Alencar, meu tutor, me colocou em um avião para Florença, na Itália.
Suas palavras ecoavam, frias e finais.
"Elisa, não volte até eu mandar."
Eu tinha dezoito anos na época.
Meus pais, ambos arqueólogos, morreram em um deslizamento de terra quando eu tinha dez.
Marcos, o colega mais novo deles, amigo deles, me acolheu. Ele tinha vinte e oito.
Então, ele encontrou meu caderno de esboços.
Página após página, desenhos dele.
Confissões apaixonadas e tolas do amor de uma adolescente.
Seu rosto se contorceu de raiva, de decepção.
Ele chamou meus sentimentos de inapropriados.
Eu não entendi. Ele não era meu parente de sangue. Apenas meu tutor, bem mais velho.
Ele me mandou embora. De Campinas para Florença. Um mundo de distância.
Agora, aos vinte e dois, eu estava aqui.
Pensei que o tinha superado. De verdade.
Meu celular vibrou. "Meu Davi ".
Um pequeno sorriso tocou meus lábios.
"Meu girassol, o local está reservado para o mês que vem! Já decidiu se vamos fazer a cerimônia aqui em Campinas ou em Florença?"
A voz de Davi, quente e firme.
"Florença", eu disse. Parecia o certo.
"Ótimo! Vou começar os preparativos. E ei, não se esqueça de contar para o seu tutor, o Marcos, tá? Adoraríamos que ele estivesse lá."
"Vou contar", prometi.
Florença.
O primeiro ano foi um borrão de solidão.
A língua, uma barreira. A cidade, linda, mas estranha.
Então, o assalto. Um beco escuro, uma faca, puro terror.
Depois disso, pneumonia. Fiquei deitada em um quartinho alugado, febril, convencida de que estava morrendo.
Liguei para o Marcos. De novo e de novo.
Caixas postais ignoradas. Mensagens não lidas.
Davi me encontrou.
Outro estudante brasileiro no programa de artes.
Ele cuidou de mim. Se tornou minha âncora.
Dois anos. Seu cortejo paciente, sua bondade inabalável.
Eu disse sim.
Marcos finalmente ligou há um mês.
"Você pode voltar para casa. Para o memorial dos seus pais."
É por isso que eu estava aqui. Para visitar seus túmulos.
E para entregar o convite de casamento.
Estendi a mão para o interfone do portão.
Ele se abriu.
Clara D'Ávila.
Minha algoz do ensino médio.
Seu cabelo loiro perfeitamente penteado, suas roupas caras.
"Elisa? Uau, quanto tempo! Achei ter ouvido sua voz."
Sua voz, doentiamente doce, me deu um arrepio.
As memórias me inundaram. Sua crueldade, suas risadas de deboche.
"Clara? O que você está fazendo aqui?" Minha voz era quase um sussurro.
Marcos saiu de trás dela.
Alto, imponente. Seu cabelo escuro penteado para trás, seu terno impecável.
Ele exalava um ar de autoridade fria, exatamente como eu me lembrava.
Ele viu meu rosto, minha reação à Clara.
Uma ruga se formou em sua testa.
"Elisa. Você deveria chamá-la de 'Clara'. Ela é minha noiva."
Noiva?
O ar me faltou.
"Ela? Mas ela costumava..." *me humilhar sem parar. Fazer da minha vida um inferno.*
Marcos me cortou, sua voz afiada. "Costumava o quê?"
Florença. De coração partido e sozinha.
Boatos chegaram até mim. Marcos estava namorando.
Presentes luxuosos. Galas no Jardim Botânico Plantarum. Viagens de jatinho particular para o Vale dos Vinhedos. Compras extravagantes em leilões de arte.
Eu nunca imaginei que seria a Clara.
Engoli as palavras. "Nada."
"Bom", disse Marcos. "Leve suas coisas para dentro. A Clara está se mudando hoje. Vocês duas precisam se dar bem. Visitaremos o memorial dos seus pais na semana que vem."
Ele passou um braço pelos ombros de Clara. Eles caminharam em direção à casa, me deixando parada ali.
Sussurrei para o ar vazio: "Não haverá um 'depois', Marcos. Depois do memorial, eu vou embora para sempre."
Anoitecer. O ar do interior esfriou.
Marcos e Clara voltaram, rindo de alguma coisa.
O convite de casamento parecia um peso de chumbo na minha mão.
Bati na porta do escritório de Marcos.
Clara abriu.
Um brilho malicioso em seus olhos. "Ora, ora. Veio relembrar os velhos tempos?"
Tentei me virar. "Desculpe, hora errada."
Clara agarrou meu braço, suas unhas cravando na minha pele.
"Escuta aqui, sua pobre coitada que vive de favor. Mantenha a boca fechada sobre o colégio, ou eu transformo sua vida num inferno de novo."
Sua voz era um silvo venenoso.
"Você acha que ele não vai descobrir quem você realmente é?" Puxei meu braço, me libertando.
Clara riu, um som áspero e feio. "Veremos. Eu tornei sua vida miserável antes, posso fazer isso agora."
Ela segurava uma xícara de chá fumegante.
Com um movimento súbito, ela "acidentalmente" derramou o líquido escaldante em seu próprio braço.
Ela gritou. Um som agudo, teatral.
Marcos entrou correndo.
Clara desabou em seus braços, soluçando. "Marcos, não culpe a Elisa... ela não fez por mal..."
Marcos se virou para mim, seu rosto uma máscara de fúria.
"Achei que quatro anos longe teriam te ensinado alguma coisa! Você ainda é obcecada, ainda está tentando causar problemas. Estou te avisando, Elisa, isso nunca vai acontecer entre nós!"
Ele achava que eu tinha feito aquilo. Por ciúmes.
A injustiça queimava.
"Eu não fiz! Eu vim te entregar este convi-"
Marcos já estava carregando Clara para fora do quarto, murmurando palavras de consolo para ela.
Terminei minha frase para suas costas que se afastavam.
"...convite. Eu não sou mais obcecada por você, Marcos. Eu vou me casar."
Seus passos sumiram pelo corredor. Ele não tinha ouvido. Ou não se importou.
Na manhã seguinte, a luz do sol invadiu meu quarto de hóspedes.
Eu não tinha dormido.
A porta se abriu abruptamente. Marcos.
Seu rosto estava sombrio. Ele não disse uma palavra.
Ele agarrou minha mão, seu aperto como ferro.
Ele me puxou para fora do quarto, desceu as escadas e me levou para o carro.
Ele dirigiu, rápido e em silêncio, os nós dos dedos brancos no volante.
Hospital Vera Cruz.
Ele me arrastou pelos corredores estéreis até um quarto particular.
Clara estava na cama, o braço enfaixado. Parecia pálida e frágil.
"Peça desculpas para a Clara", ordenou Marcos, sua voz baixa e perigosa.
Eu me mantive firme. "Eu não fiz nada de errado."
Clara ofereceu um sorriso fraco e doce. "Está tudo bem, Marcos. A Elisa é só jovem, provavelmente não está acostumada a ver você com outra pessoa."
Os olhos de Marcos se estreitaram para mim. "Ela é só um ano mais nova que você, Clara. E é uma adulta. Peça desculpas, Elisa!"
Sua convicção da minha culpa foi um golpe físico.
A exaustão tomou conta de mim. Ele já tinha me julgado.
"Me desculpe", murmurei, as palavras com gosto de cinzas.
Marcos ainda parecia insatisfeito.
"Preciso usar o banheiro", eu disse, precisando escapar de seu olhar.
No banheiro frio e azulejado, joguei água no rosto.
*Ele sempre vai acreditar no pior de mim agora.*
Era uma pílula amarga.
Quando saí, Marcos estava esperando.
"A Clara quer um sorvete artesanal específico daquele lugar no centro. O perto do Centro de Convivência. Preciso ficar com ela. Você vai buscar."
Seu tom era seco, desprovido de emoção.
Assenti em silêncio. O que mais eu poderia fazer?
Quando passei por ele para sair, ele falou de novo, sua voz um aviso baixo.
"Clara e eu vamos nos casar. Abandone qualquer fantasia que você ainda tenha."
Parei, de costas para ele.
"Não se preocupe, eu já abandonei. Em um mês, eu estarei-"
"Espero que seja verdade", ele interrompeu, a voz afiada. Ele voltou para o quarto de Clara.
Virei-me, chamando por ele, as palavras escapando antes que eu pudesse detê-las.
"Você ama tanto assim a Clara? Ela pode ficar com você, mas eu não podia?"
Era uma pergunta desesperada e tola. Referindo-se ao nosso status não-sanguíneo, a coisa que ele transformou em algo feio.
Ele reapareceu na porta, o rosto duro.
"Sim. Qualquer uma, menos você, Elisa! Nunca mais toque nesse assunto."
Suas palavras foram como tapas na cara.
Assenti lentamente. "Ok. Não vou."
A sorveteria ficava do outro lado da cidade. A fila saía pela porta.
Voltei correndo, o pote gelado contra minha mão.
Clara deu uma mordida delicada e depois empurrou o pote para longe.
"Derreteu. E o sabor está errado. Me traga aquele cupcake vegano da doceria perto da UNICAMP. O de veludo vermelho."
Eu a encarei. Depois para o sorvete mal tocado.
Não disse nada. Eu fui.
Isso continuou a tarde toda.
Uma marca específica de água importada.
Uma revista de uma banca chique.
Flores frescas, mas apenas peônias brancas, e tinham que ser de uma floricultura específica no Cambuí.
Elisa, a garota de recados. Correndo por Campinas atrás de coisas que Clara mal tocava, ou provava uma vez e descartava.
Cada tarefa era uma pequena humilhação.
Cada exigência cumprida, uma confirmação do apoio inabalável de Marcos a ela.
Alguns dias depois, Clara, "recuperada", com o braço ainda levemente enfaixado para fazer cena, se aproximou de mim.
"Elisa, querida", ela arrulhou, "vou fazer uma pequena reunião com alguns velhos amigos do colégio. No 'Scorpius Lounge'. Só uma coisinha de reconciliação. Você deveria vir."
Velhos amigos. Sua panelinha. Aqueles que tornaram minha vida um inferno ao lado dela.
"Acho que não, Clara."
"Ah, mas você tem que vir", ela insistiu, os olhos brilhando. "Marcos acha uma ótima ideia. Ele disse: 'A Clara está tentando, Elisa. Não dificulte as coisas.'"
Marcos. Claro.
Ele queria que eu fingisse, que validasse a farsa de magnanimidade de Clara.
Senti-me encurralada. "Tudo bem."
"Maravilha!" Clara cantou, seu sorriso não alcançando os olhos.
O Scorpius Lounge era mal iluminado, todo de veludo e cromo reluzente.
Clara, no braço de Marcos, era a abelha rainha, cercada por suas "amigas" risonhas e bajuladoras.
Encontrei uma pequena mesa em um canto sombrio, tomando um refrigerante.
Eu observava Marcos.
Ele pediu o mocktail favorito de Clara – uma mistura complicada com flor de sabugueiro e lichia.
Ele colocou seu paletó caro sobre os ombros dela quando ela fingiu sentir um calafrio no ar-condicionado.
Mais tarde, ele anunciou ao grupo: "A Clara está se divertindo, então as bebidas são por minha conta hoje."
Um coro de "uau" e "ah".
"Marcos, você está mimando ela!" uma das amigas de Clara elogiou.
Ele sorriu, um braço possessivo em volta da cintura de Clara.
Alguém mais disse: "Clara, você e o Marcos são tão perfeitos! Quando é o grande dia?"
Clara corou, uma imagem de felicidade recatada.
Marcos olhou para mim, apenas por um segundo. Meu rosto estava cuidadosamente neutro.
Então ele sorriu para Clara. "Em breve. Já estamos planejando."
A conversa fluiu ao redor deles, um rio de bajulação e excitação.
Então, alguém sugeriu um jogo. "Verdade ou Desafio, mas com um toque de 'revelação de celular'."
Tentei recusar, mas Clara, com uma insistência açucarada, me puxou para o círculo. "Ah, vamos, Elisa, não seja estraga-prazeres!"
Marcos perdeu uma rodada.
A prenda, lida com alegria por uma das amigas de Clara: "Beije seu parceiro apaixonadamente por um minuto."
Marcos não hesitou. Ele se virou para Clara, segurou seu rosto e a beijou.
Profundamente.
O grupo aplaudiu, assobiou.
Eu assisti, sentindo nada além de um leve e distante desgosto. A Elisa que teria ficado arrasada com tal cena já não existia mais.
Então, inevitavelmente, foi a minha vez de perder.
A prenda: "Mostre sua conversa de texto mais recente."
Uma onda de antecipação percorreu o grupo.
Peguei meu celular, minha expressão calma.
Abri minhas mensagens.
A conversa no topo: "Meu Davi " seguida por uma série de emojis de coração.
Alguém ofegou. "Elisa, você tem um 'Davi'? Com corações? Você está namorando sério?"
Eu sorri, um sorriso genuíno e caloroso.
"Sim. Vamos nos casar no mês que vem. Em Florença. Todos vocês estão convidados, se puderem ir!"
Guardei meu celular, meu olhar encontrando o de Marcos.
Seus olhos estavam escuros, indecifráveis. Um músculo se contraiu em sua mandíbula.
Mais tarde, pedi licença para ir ao banheiro.
Marcos estava esperando no corredor quando saí.
Ele bloqueou meu caminho.
"Que história é essa de se casar?" Sua voz era baixa, intensa. "É mais um dos seus joguinhos, Elisa?"
"Não é um jogo, Marcos." Mantive minha voz firme. "Eu voltei para visitar o memorial da mamãe e do papai, e para te convidar. Ficaria honrada se você me levasse ao altar, como meu tutor, para testemunhar minha felicidade com o Davi."
Seu rosto se contraiu. Raiva, incredulidade, algo mais que eu não conseguia nomear.
"Tudo bem", ele disse, a voz tensa de emoção contida. "Ligue para esse 'Davi' agora mesmo. Quero ouvir dele."
Peguei meu celular. Disquei.
Caiu na caixa postal.
"É madrugada em Florença", expliquei. "Ele provavelmente está dormindo."
Marcos zombou, um som áspero e desdenhoso. "Patético. Pare com essas mentiras ridículas, Elisa."
Ele se virou e foi embora.
Naquele exato momento, meu celular vibrou. Davi. Retornando a ligação.
Ele parecia sonolento. "Desculpa, meu girassol, estava dormindo. O que foi?"
Suspirei. Marcos já tinha ido. "Nada, meu bem. Desculpa te acordar. Volte a dormir."
"Você sabe que pode me ligar a qualquer hora", disse Davi, sua voz mais clara agora, mais desperta.
"Ah, a propósito, eu estava pensando naquela escultura que você desenhou anos atrás, a que você chamou de 'Flor do Deserto'. Aquela que você sempre disse que era para o dia do seu casamento. Você vai trazê-la para Florença? Ficaria incrível na cerimônia."
'Flor do Deserto'.
Eu tinha derramado meu coração de dezoito anos naquela escultura.
Um coração que, tolamente, batia por Marcos.
Hesitei por uma fração de segundo.
"Sim", eu disse. "Ok. Eu vou levá-la."