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Morro Acima

Morro Acima

Autor: Nayara Barbosa
Gênero: Romance
Ela nasceu cercada de luxo. Ele aprendeu a sobreviver no caos. Margareth, ou simplesmente Meg para quem a conhece, sempre viveu no mundo perfeito que seus pais construíram para ela. Escola de elite, roupas caras, festas exclusivas e uma vida onde problemas parecem não existir. Até que sua melhor amiga, Sarah, decide levá-la para uma festa no morro. Meg só não esperava que aquela noite mudaria sua vida para sempre. Porque no alto do morro existe um homem que todos conhecem pelo mesmo nome: Cobra. Felipe é temido, respeitado e dono de um império construído no lugar onde aprendeu a lutar pela própria sobrevivência. Depois de perder os pais ainda jovem em um confronto entre policiais e criminosos, assumiu a responsabilidade de proteger sua irmã e a comunidade que se tornou sua família. Para alguns, ele é apenas um criminoso. Para quem vive no morro, Felipe é aquele que aparece quando ninguém mais aparece. Meg deveria manter distância. Ele sabe disso. Ela também. Mas entre provocações, olhares proibidos e uma atração impossível de ignorar, os dois acabam atravessando uma fronteira que nenhum deles deveria sequer ter alcançado. Ela não pertence àquele mundo. Ele jamais poderia pertencer ao dela. E quanto mais Meg sobe o morro, mais percebe que o verdadeiro perigo talvez não esteja nas ruas. Talvez esteja no homem que faz seu coração disparar. Porque alguns amores não acontecem quando estamos preparados. Eles acontecem quando tudo está contra nós. E, para encontrar Felipe, Meg vai precisar subir Morro Acima.
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Capítulo 1 Prólogo

MARGARETH "MEG"

Eu sempre acreditei que existiam lugares aos quais certas pessoas simplesmente não pertenciam.

Não por serem melhores ou piores, mas porque o mundo fazia questão de separar cada um em sua própria caixinha. Os ricos dos pobres. Os certinhos dos problemáticos. As meninas que usavam vestidos de grife das que passavam a noite em bailes onde o perigo parecia dançar tão perto quanto a música.

E eu, Margareth Laura Albuquerque, tinha nascido no lado certo dessa divisão.

Pelo menos, era nisso que acreditava.

Minha vida era confortável. Talvez confortável até demais. Eu tinha um closet maior do que o quarto de muita gente, um cartão de crédito que minha mãe fingia controlar e um pai que acreditava que dinheiro era capaz de resolver absolutamente qualquer problema.

Estudava em uma das escolas mais caras da cidade, frequentava lugares onde uma garrafa de bebida custava mais do que algumas pessoas ganhavam em uma semana e reclamava quando o motorista demorava mais de cinco minutos para me buscar.

Eu era mimada?

Talvez.

Arrogante?

Dependia de quem estava perguntando.

Mas burra, definitivamente, eu não era.

E deveria ter desconfiado quando Sarah apareceu na minha casa numa sexta-feira à tarde com um sorriso grande demais para ser inocente.

- Você precisa sair comigo hoje.

Continuei passando o gloss diante do espelho, sem sequer olhar para ela.

- Eu saio com você praticamente todos os dias, Sarah.

- Não desse jeito.

Parei o movimento da mão.

- Que jeito?

Ela se jogou na minha cama, abraçando uma das minhas almofadas como se estivesse prestes a me contar o maior segredo do universo.

- Vai ter um baile hoje.

- Uau. Uma festa. Que novidade extraordinária. Estou emocionada.

- Meg!

Virei-me para encará-la, segurando o riso diante da expressão indignada da minha melhor amiga.

Sarah era uma das poucas pessoas que eu realmente considerava parte da minha família. Estudávamos juntas desde que nos conhecemos, e nossa amizade havia sobrevivido a provas desastrosas, ex-namorados idiotas, brigas por roupas emprestadas e incontáveis noites de fofoca.

Ela conhecia todos os meus defeitos.

Infelizmente, gostava de quase todos eles.

- Onde vai ser essa festa? - perguntei.

O sorriso dela aumentou.

E foi exatamente nesse momento que percebi que deveria ter ficado quieta.

- No morro.

Piscar.

Uma vez.

Duas.

- Desculpa. Acho que meu ouvido está apresentando problemas. Você disse o quê?

- No morro, Meg. Vai ser incrível!

Soltei uma gargalhada tão incrédula que Sarah precisou se sentar.

- Você enlouqueceu?

- Não.

- Sarah, meu amor, com todo o respeito à sua sanidade mental, você perdeu completamente a noção da realidade?

- Ah, para!

- Eu não vou para o morro!

- Você nem sabe qual é o morro!

- E preciso saber? A palavra já está fazendo um excelente trabalho em me convencer a ficar em casa!

Ela cruzou os braços.

- Você é muito preconceituosa.

A acusação me atingiu de um jeito que eu não esperava.

Meu sorriso diminuiu.

- Não é isso.

- Então o que é?

Abri a boca, mas nenhuma resposta saiu imediatamente.

A verdade era que eu não conhecia aquele mundo. Conhecia as notícias que passavam na televisão, as histórias que as pessoas contavam nos corredores da escola e os comentários cheios de julgamentos que escutava durante os jantares dos meus pais.

Violência. Tráfico. Tiroteios. Perigo.

Era isso que eu associava ao morro.

Mas não conhecia ninguém de lá, não sabia como aquelas pessoas viviam e nunca tinha me dado ao trabalho de descobrir o que existia além das manchetes.

Talvez Sarah tivesse razão.

Talvez eu estivesse julgando um lugar sem nunca ter colocado os pés nele.

Ainda assim, havia um detalhe que continuava me incomodando.

- Seu irmão sabe que você vai me levar para essa festa?

O rosto dela mudou.

Foi rápido, mas eu percebi.

- Sarah.

- O quê?

- Você contou para o Felipe?

Ela começou a mexer na pulseira em seu pulso.

- Ele não precisa saber de tudo.

Fechei os olhos.

- Nós vamos morrer.

- Para de drama!

- Seu irmão tem cara de quem enterraria alguém antes do café da manhã!

Sarah caiu na gargalhada.

Eu, infelizmente, não estava brincando.

Felipe.

O famoso irmão mais velho de Sarah.

O homem que eu conhecia apenas por fotografias ocasionais no celular dela e por histórias contadas aos pedaços. Ele era alguns anos mais velho do que nós, tinha uma presença que parecia ocupar qualquer ambiente e um olhar que, mesmo através de uma tela, me transmitia a sensação de que eu deveria manter uma distância respeitosa.

Sarah nunca falava muito sobre os negócios dele.

Só dizia que Felipe cuidava dela.

Que sempre cuidara.

Que, depois da morte dos pais, ele havia se tornado tudo o que ela precisava.

E que ninguém deveria confundir o silêncio do irmão com fraqueza.

Eu nunca tinha entendido completamente o que aquilo significava.

Até aquela noite.

Às dez e meia, eu estava diante do espelho, usando um vestido preto curto, botas de cano alto e uma jaqueta que combinava perfeitamente com a minha bolsa.

Meu cabelo caía em ondas sobre os ombros, e o perfume caro que eu havia escolhido provavelmente anunciava minha chegada antes mesmo de eu abrir a boca.

Sarah me observou da porta.

- Você está linda.

- Eu sei.

- Convencida.

- Realista, amor.

Ela revirou os olhos e estendeu a mão.

- Vamos?

Olhei para aquela mão por alguns segundos.

Eu ainda podia desistir.

Podia tirar a maquiagem, colocar meu pijama de seda e passar a noite assistindo a uma série enquanto comia alguma coisa que a cozinheira preparasse.

Era a escolha sensata.

A escolha segura.

A escolha que qualquer pessoa com um mínimo de juízo faria.

Segurei a mão de Sarah.

- Se eu morrer, vou voltar para assombrar você.

- Vai precisar entrar na fila. Meu irmão já ameaça me matar diariamente.

Saímos rindo.

Naquele momento, eu ainda não sabia que, antes do amanhecer, o nome de Felipe estaria gravado na minha cabeça.

Nem que eu passaria a odiar a facilidade com que meu coração reagiria à simples lembrança daquele homem.

Muito menos que, quando nossos olhos finalmente se encontrassem, eu descobriria que existiam perigos muito piores do que aqueles sobre os quais minha mãe me alertava.

O pior deles era sentir vontade de permanecer onde eu deveria fugir.

E eu ainda nem tinha chegado ao morro.

---

FELIPE "COBRA"

O problema de ser o homem que todos temiam era que ninguém parecia entender que, antes de me tornar aquele homem, eu tinha sido apenas um garoto.

Um garoto que perdeu os pais cedo demais.

Um garoto que precisou aprender a engolir o choro porque a irmã mais nova ainda precisava de alguém que dissesse que tudo ficaria bem.

Um garoto que descobriu, da pior maneira possível, que o mundo não tinha pena de quem já havia perdido tudo.

Eu me lembrava daquela noite como se tivesse acontecido poucas horas antes.

As sirenes.

Os gritos.

O barulho dos disparos cortando o ar.

Sarah, pequena demais para compreender por que nossos pais não voltariam para casa, agarrada à minha camisa enquanto eu tentava encontrar alguma resposta que não existia.

Eu tinha perdido meu pai.

Minha mãe.

E, junto deles, a última parte da minha infância.

Naquela noite, fiz uma promessa.

Minha irmã nunca mais ficaria sozinha.

E as pessoas que dependessem de mim não precisariam implorar para serem ouvidas.

Eu não podia mudar o que havia acontecido com a minha família. Não podia apagar o passado nem devolver à Sarah os anos em que ela deveria ter sido apenas uma criança.

Mas podia construir alguma coisa com os pedaços que restaram.

Foi assim que me tornei o Cobra.

Não aconteceu de uma hora para outra.

O poder não apareceu de presente, e o respeito nunca veio sem consequências. Aprendi cedo que, naquele mundo, um erro podia custar mais do que dinheiro.

Por isso, eu observava antes de falar.

Escutava antes de decidir.

E jamais esquecia um rosto.

Naquela sexta-feira, eu estava no escritório quando Samurai entrou sem bater.

Kaio tinha esse péssimo hábito.

Na verdade, tinha vários.

A diferença era que ele era um dos poucos homens que podiam cometer aqueles erros e continuar respirando sem que eu precisasse lembrá-lo de quem mandava.

- Sua irmã saiu.

Continuei olhando os documentos sobre a mesa.

- Ela estuda. Sai. Tem amigas. Não vejo nenhuma novidade nisso.

- Foi para o baile.

Minha caneta parou.

Levantei os olhos devagar.

- Que baile?

Kaio sustentou meu olhar por um segundo.

Depois, soltou o ar pelo nariz.

- O nosso, Cobra.

O silêncio que se instalou no escritório foi suficiente para fazê-lo endireitar a postura.

- Ela foi com quem?

- Com uma amiga.

- Nome.

- Margareth. Mas ela prefere Meg.

Recostei-me na cadeira.

Margareth.

O nome não significava absolutamente nada para mim.

Ainda.

- E você deixou?

Samurai arqueou uma sobrancelha.

- Eu sou segurança dela ou babá? Porque, se for babá, quero um aumento.

Olhei para ele.

Ele levantou as mãos.

- Certo. Entendi. Péssima hora para fazer piada.

Levantei-me, abotoando a camisa enquanto caminhava até a janela.

Lá embaixo, a comunidade estava viva.

As luzes das casas se espalhavam pelas encostas, os bares estavam cheios e a música de algum baile distante se misturava às conversas nas calçadas. Crianças brincavam perto de suas casas, enquanto moradores voltavam do trabalho e comerciantes fechavam seus estabelecimentos.

Era aquele lugar que muita gente julgava sem conhecer.

O lugar onde cresci.

Onde enterrei meus pais.

Onde Sarah aprendera a andar.

E onde eu havia jurado que ela nunca precisaria enfrentar sozinha a crueldade que nos atingira.

- Manda alguém ficar de olho nela - ordenei. - Sem assustar a menina. Se acontecer qualquer coisa, quero saber na mesma hora.

- Pode deixar.

Kaio se encaminhou para a porta, mas parou antes de sair.

- Você sabe que ela vai crescer, né?

Meu maxilar se contraiu.

- Ela já cresceu.

- Então talvez esteja na hora de você entender que não pode controlar cada passo dela.

Virei o rosto.

- Está querendo me ensinar a criar minha irmã?

- Deus me livre. Eu gosto de viver.

Ele desapareceu pelo corredor antes que eu pudesse responder.

Fiquei sozinho.

Por alguns segundos, permiti que meus pensamentos voltassem para a única pessoa capaz de me fazer esquecer que o mundo inteiro me chamava de Cobra.

Sarah.

Minha menina.

A única parte da minha vida que eu ainda tentava manter longe de tudo aquilo.

Eu pagava a escola dela. Garantia que tivesse roupas, livros, conforto e oportunidades que eu nunca tive. Queria que ela estudasse, viajasse, se apaixonasse por alguém decente e construísse uma vida em que não precisasse olhar por cima do ombro.

Queria que ela pudesse escolher.

Mesmo que eu não soubesse como deixá-la fazer isso.

Peguei o celular e encontrei uma mensagem dela.

Não fica bravo comigo, tá? Te amo. ❤️

Soltei uma risada sem humor.

Aquela garota ainda acabaria comigo.

Digitei uma resposta, apaguei e guardei o aparelho.

Eu falaria com ela pessoalmente.

Mas, antes disso, precisava descer.

O baile estava cheio, e eu não costumava deixar as coisas acontecerem sem saber exatamente o que estava acontecendo.

Principalmente quando Sarah estava envolvida.

O grave da música fazia o chão vibrar.

Luzes coloridas cortavam a multidão, e o cheiro de perfume, bebida e comida se misturava ao ar quente da noite. As pessoas dançavam, riam e conversavam, aproveitando aquelas horas em que podiam esquecer os próprios problemas.

Eu caminhava entre elas quando percebi os olhares.

Alguns cumprimentavam com respeito.

Outros apenas abriam espaço.

Eu não precisava exigir silêncio para ser ouvido. Tampouco precisava levantar a voz para que soubessem que eu havia chegado.

Era assim que funcionava.

Samurai surgiu ao meu lado.

- Sarah está ali.

Segui a direção indicada por ele.

Encontrei minha irmã perto de algumas amigas, sorrindo como se não existissem problemas no mundo.

Por um instante, a tensão em meus ombros diminuiu.

Até perceber a garota ao lado dela.

Vestido preto.

Cabelo impecável.

Bolsa que provavelmente custava mais do que muita coisa que eu tinha comprado na vida.

Ela gesticulava enquanto falava, com uma expressão indignada que parecia não combinar nem um pouco com o lugar.

A patricinha.

Margareth.

Meg.

Ela não me viu imediatamente.

Estava ocupada demais reclamando de alguma coisa para Sarah, que ria da cara dela.

Então a música mudou.

Sarah se virou para cumprimentar alguém, e Meg ficou sozinha por alguns segundos.

Foi quando nossos olhos se encontraram.

Não sei o que esperava.

Medo, talvez.

A maioria das pessoas que não me conhecia baixava os olhos quando percebia quem eu era. Algumas tentavam disfarçar. Outras simplesmente se afastavam.

Ela não fez nada disso.

Olhou diretamente para mim.

Primeiro, com curiosidade.

Depois, com uma espécie de desafio silencioso.

Como se estivesse tentando decidir se eu era tão perigoso quanto imaginava.

Inclinei ligeiramente a cabeça.

Ela estreitou os olhos.

E, por algum motivo absolutamente ridículo, tive vontade de rir.

- Aquela é a Margareth? - perguntei.

Samurai acompanhou meu olhar.

- A própria.

- Ela sempre faz essa cara?

- Que cara?

- De quem está prestes a reclamar com o gerente.

Kaio soltou uma gargalhada.

- Irmão, pelo amor de Deus...

Ignorei-o.

Meg disse alguma coisa para Sarah e voltou a olhar na minha direção.

Dessa vez, não desviou.

Eu também não.

Havia alguma coisa insolente naquela garota.

Alguma coisa que me dizia que ela não estava acostumada a ouvir não, que provavelmente acreditava que o mundo inteiro devia se adaptar às suas vontades.

O tipo de pessoa que eu costumava evitar.

O tipo de problema que não tinha motivo algum para me interessar.

Então por que continuei olhando?

- Vai lá cumprimentar sua cunhada. - Samurai provocou.

Virei o rosto tão depressa que ele ergueu as mãos.

- Calma, Cobra! Foi brincadeira!

- Repete.

- Não, obrigado. Tenho amor à vida.

Voltei a encarar a multidão.

Sarah percebeu minha presença e começou a acenar, sorrindo.

Meg acompanhou o movimento da amiga.

Seu sorriso desapareceu quando percebeu que Sarah estava chamando justamente o homem para quem ela vinha olhando.

Eu caminhei na direção das duas.

Sem pressa.

Sem tirar os olhos dela.

Quanto mais me aproximava, mais evidente ficava o desconforto que a garota tentava esconder atrás de uma expressão arrogante.

Interessante.

Muito interessante.

Parei diante da minha irmã e beijei o topo da cabeça dela.

- Está se divertindo?

- Muito! - respondeu, animada. - Você chegou cedo.

- E você saiu sem me avisar.

- Felipe...

- Depois conversamos.

Sarah fez uma careta, mas assentiu.

Só então me virei para a amiga dela.

De perto, Meg era ainda mais bonita.

E parecia estar fazendo um esforço monumental para não demonstrar que minha presença a intimidava.

- Então você é a famosa Margareth.

Ela ergueu o queixo.

- Depende. Famosa por quê?

A resposta me pegou desprevenido.

Samurai, atrás de mim, soltou uma tosse que tinha toda a intenção de esconder uma risada.

Observei a garota por alguns segundos.

- Pela coragem de vir até aqui sem saber onde está pisando.

Ela cruzou os braços.

- E você é sempre simpático assim ou hoje é uma ocasião especial?

Agora, sim, tive vontade de rir.

Não ri.

- Felipe. - apresentei-me, estendendo a mão.

Ela olhou para minha mão antes de voltar os olhos para o meu rosto.

- Eu sei quem você é.

- Sabe?

- Você é o irmão da Sarah.

Sorri de lado.

- Entre outras coisas.

Ela apertou minha mão.

A mão dela era pequena dentro da minha.

E, quando nossos dedos se tocaram, aconteceu algo que eu não soube explicar - um instante breve, quase imperceptível, que não deveria ter significado absolutamente nada.

Mas significou.

Pelo menos para mim.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, senti curiosidade por alguém que não fazia parte do meu mundo.

E curiosidade, para um homem como eu, costumava ser o primeiro passo para um problema.

Soltei a mão dela.

- Aproveite a festa, patricinha.

Meg estreitou os olhos.

- Não me chame assim.

Inclinei-me ligeiramente, apenas o suficiente para que ela escutasse minha resposta em meio à música.

- Então me dê um motivo para chamar você de outra coisa.

Afastei-me antes que ela respondesse.

Não precisava olhar para trás para saber que estava me encarando.

Eu sentia.

E aquilo me incomodava mais do que deveria.

Porque Margareth não era apenas uma garota bonita que havia aparecido no baile com a minha irmã.

Era uma desconhecida de um mundo que eu não compreendia, trazendo consigo perguntas que eu não tinha interesse em responder.

Ela não conhecia minhas perdas.

Não conhecia meus limites.

Não sabia o que significava ser Felipe.

Muito menos o que significava ser Cobra.

E eu não tinha a menor intenção de permitir que ela descobrisse.

Naquela noite, fiz o que sempre fazia quando algo ameaçava atravessar as barreiras que eu havia construído ao meu redor.

Decidi manter distância.

O problema?

Eu já havia olhado para ela uma vez.

E, quando olhei novamente, percebi que a distância talvez fosse a única coisa que eu não conseguiria controlar.

Eu ainda não sabia, mas a patricinha que havia subido o morro por uma noite de diversão estava prestes a se tornar o maior problema da minha vida.

E, quando isso acontecesse, não existiria dinheiro, poder ou medo capaz de me proteger da única coisa que eu jamais deveria ter permitido:

Me apaixonar por ela.

{...}

Capítulo 2 01

Margareth "Meg"

Acordei naquela manhã com uma dor de cabeça dos infernos. Isso era o que dava sair para baile na favela com a Sarah, em pleno domingo, sabendo que segunda-feira teria aula bem cedo. Por Deus! O que eu fui fazer?

Juro que, se alguém me oferecesse a oportunidade de voltar no tempo, eu voltaria exatamente para o momento em que minha melhor amiga apareceu na minha casa com aquele sorriso de quem estava prestes a cometer uma atrocidade. Teria fechado a porta na cara dela, desligado o celular e dormido até segunda-feira à tarde.

Mas não. A bonita aqui precisava viver experiências novas, sair da própria bolha e descobrir o que existia além das festas de gente rica.

Pois bem, descobri.

Descobri que minhas botas caríssimas não foram feitas para andar por qualquer lugar, que música alta depois de algumas horas se transforma em tortura e que o irmão da minha melhor amiga era um homem absurdamente convencido.

Felipe.

Ou, como todos o chamavam, Cobra.

Só de lembrar daquele homem, revirei os olhos.

- Nunca mais. - murmurei contra o travesseiro. - Nunca mais na minha vida.

Mentira, provavelmente.

Mas, naquele momento, precisava acreditar nisso para conseguir sobreviver à manhã.

Levantei com uma coragem que, sinceramente, não sei de onde tirei. Meus pés tocaram o chão frio, e imediatamente me arrependi de todas as decisões que me levaram até ali. Caminhei até o banheiro arrastando os pés, peguei uma aspirina e tomei com um copo de água antes de entrar no banho.

Gelado.

A água estava gelada.

- Ah, não! Não, não, não!

Girei o registro desesperadamente, mas parecia que até o encanamento da minha casa tinha decidido conspirar contra mim.

Depois de alguns minutos de sofrimento, consegui terminar o banho, cuidar da pele e me arrumar. Escolhi uma calça jeans de corte reto, uma blusa branca e um blazer bege. Fiz uma maquiagem leve para esconder as olheiras e deixei meus cabelos soltos, caindo em ondas sobre os ombros.

Diante do espelho, observei meu reflexo.

Continuava linda.

Pelo menos alguma coisa naquela manhã estava funcionando.

Peguei minha bolsa, coloquei o celular dentro e desci as escadas da mansão.

Eu poderia ir dirigindo até a escola, como fazia quase todos os dias, mas estava sem a menor condição de enfrentar o trânsito. Não confiava nem na minha capacidade de atravessar a rua naquele estado, imagine dirigir.

Por isso, decidi ir com o motorista.

Assim que cheguei à sala de jantar, encontrei minha mãe sentada à mesa, tomando café enquanto lia alguma coisa no tablet. Meu pai estava do outro lado, com o celular em uma mão e uma xícara de café na outra.

- Bom dia, meus amores. - falei, depositando um beijo na bochecha da minha mãe e outro na do meu pai.

Minha mãe ergueu os olhos e franziu a testa.

- Meu Deus, Margareth! O que aconteceu com você?

Puxei uma cadeira.

- Bom dia para você também, mamãe.

- Você está com uma cara péssima.

- Obrigada. É exatamente o que uma filha precisa ouvir logo cedo.

Meu pai abaixou o celular, observando-me por alguns segundos.

- Você saiu ontem?

Peguei uma torrada e passei geleia.

- Saí.

- Onde?

Mordi a torrada, mastiguei tranquilamente e respondi:

- Na casa da Sarah.

Não era exatamente mentira. Eu tinha saído com Sarah, e em algum momento da noite também estive na casa dela.

Antes de ir para o baile.

Detalhes.

Minha mãe estreitou os olhos.

- E por que não nos avisou que chegaria tão tarde?

Engoli a comida e tomei um gole de suco.

- Mãe, eu já tenho idade para sair com minhas amigas sem precisar apresentar um relatório completo das minhas atividades.

- Enquanto morar sob o nosso teto, vai nos dar satisfação, sim, mocinha. - meu pai respondeu, com aquela voz séria que costumava usar quando queria deixar claro que o assunto não estava aberto para discussão.

Suspirei.

- Eu cheguei em casa, estou inteira, ninguém me sequestrou e, como podem ver, continuo sendo a filha mais bonita de vocês. Podemos encerrar o interrogatório?

Minha mãe tentou segurar o sorriso.

Meu pai, infelizmente, não tinha o mesmo senso de humor.

- Margareth.

- Sérgio. - imitei o tom dele, levando outra torrada à boca.

- Não abuse da minha paciência.

- E você não abuse da minha dor de cabeça. Estamos todos sofrendo nesta manhã.

Minha mãe soltou uma risada, e meu pai balançou a cabeça antes de voltar ao celular.

Aproveitei a distração para terminar meu café.

- Vou com o motorista hoje. - avisei, levantando-me.

- Por quê? - minha mãe perguntou.

- Porque estou cansada.

- Cansada de quê? Você passou o fim de semana inteiro descansando!

Parei ao lado da cadeira e a encarei.

- Mãe, eu te amo, mas, por favor, não me faça explicar o conceito de cansaço às sete da manhã.

Ela riu novamente.

Peguei minha bolsa e fui até a porta, agradecendo mentalmente por ter conseguido escapar sem mais perguntas.

Ou quase.

- Margareth! - meu pai chamou.

Virei-me devagar.

- Oi, papai?

- Hoje você vai voltar direto para casa.

Arqueei uma sobrancelha.

- Por quê?

- Porque eu quero.

Respirei fundo.

Homens.

Às vezes, eu tinha certeza de que meu pai e Felipe compartilhavam algum tipo de parentesco espiritual quando o assunto era querer mandar na vida dos outros.

- Está bem.

Saí antes que ele pudesse acrescentar qualquer coisa.

O motorista já me esperava diante da entrada, e entrei no carro praticamente me jogando no banco.

- Bom dia, seu Antônio.

- Bom dia, senhorita Meg. Tudo bem?

- Tirando a vontade de voltar para a cama e esquecer que o mundo existe, estou ótima.

Ele riu discretamente e deu partida.

Encostei a cabeça no banco, fechei os olhos e tentei aproveitar o silêncio.

Tentei.

Porque meu celular resolveu vibrar.

Uma vez.

Duas.

Três.

Peguei o aparelho, pronta para reclamar com quem quer que estivesse perturbando minha paz, e encontrei uma sequência de mensagens no grupo das meninas.

Bianca: BOM DIA, RESSACADAS!

Júlia: Eu ainda estou tentando descobrir como voltei para casa.

Bianca: KKKKKKKKKKK.

Júlia: Meg, você sobreviveu?

Eu: Infelizmente.

Bianca: AHAHAHAHAHAHA.

Júlia: E aí, como foi o baile?

Fiquei olhando para a tela, pensando em como resumir a experiência.

Como explicar que tinha ido parar em um lugar completamente diferente do meu cotidiano, que havia conhecido pessoas que provavelmente nunca encontraria nos nossos círculos habituais e que o irmão da Sarah tinha o péssimo hábito de me olhar como se conseguisse enxergar todos os meus pensamentos?

Digitei apenas:

Eu: Diferente.

Bianca: DIFERENTE BOM OU DIFERENTE RUIM?

Eu: Sim.

Elas começaram a mandar mensagens e emojis, mas deixei o grupo de lado quando outra notificação apareceu no topo da tela.

Uma mensagem privada.

De um número que eu não tinha salvo.

Abri a conversa.

Bom dia, patricinha. Sobreviveu à noite?

Fiquei imóvel.

Meu coração deu uma batida esquisita.

Não porque eu estivesse feliz.

Claro que não.

Era indignação.

Pura indignação.

Quem aquele homem pensava que era para conseguir meu número e ainda ter a audácia de me chamar de patricinha antes das oito da manhã?

Eu sabia exatamente quem era.

Felipe.

O infeliz.

Olhei para o motorista pelo retrovisor, como se ele pudesse me oferecer alguma explicação para aquela situação.

Não ofereceu.

Voltei à mensagem e digitei:

Eu: Quem é?

A resposta chegou em segundos.

Desconhecido: Sério?

Revirei os olhos.

Eu: Não costumo salvar números de homens convencidos.

Desconhecido: Então salva o meu.

Fiquei encarando a tela.

Ele tinha algum problema?

Algum tipo de deficiência emocional que o impedia de conversar normalmente?

Eu: Você sempre é assim?

Desconhecido: Assim como?

Eu: Insuportável.

Desconhecido: Só com quem merece.

Soltei uma risada incrédula.

- Filho da mãe!

- Algum problema, senhorita? - seu Antônio perguntou.

- Não, seu Antônio. Só estou descobrindo que existem pessoas que deveriam ser proibidas de usar celular.

Ele riu, e eu voltei à conversa.

Eu: E como conseguiu meu número?

A resposta demorou um pouco mais.

Desconhecido: Tenho meus contatos.

Eu: Isso não responde à minha pergunta.

Desconhecido: Pergunta para sua amiga.

Mordi o lábio, irritada.

É claro.

Sarah.

Aquela traidora tinha entregado meu número para o irmão sem nem me consultar.

Abri a conversa com ela imediatamente.

Eu: VOCÊ DEU MEU NÚMERO PARA O SEU IRMÃO?

A resposta veio quase instantaneamente.

Sarah: BOM DIAAAAAA! ❤️

Eu: SARAH!

Sarah: O que foi, mulher?

Eu: O SEU IRMÃO ESTÁ ME MANDANDO MENSAGENS!

Sarah: Ah, ele já acordou?

Parei.

Li novamente.

Eu: COMO ASSIM, ELE JÁ ACORDOU?

Sarah: Ué, Meg. Ele tem que trabalhar, né?

Fechei os olhos.

Eu precisava urgentemente de amigas novas.

Eu: Você deu meu número para ele?

Sarah: Dei.

Eu: SEM ME PEDIR PERMISSÃO?

Sarah: Amiga, calma! Ele perguntou se você tinha chegado bem em casa ontem, e eu falei que sim. Aí ele pediu seu número porque queria confirmar.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

Aquela explicação era razoável.

O que não tornava a situação menos irritante.

Eu: Ele poderia ter perguntado para você.

Sarah: E perder a oportunidade de conversar com você? KKKKKKKKK.

Meu rosto esquentou.

Não.

Não, não, não.

Eu não aceitaria aquilo.

Eu: Você está delirando.

Sarah: Sei.

Eu: Vou bloquear vocês dois.

Sarah: Te amo, amiga! ❤️

Joguei o celular no colo e encarei a paisagem pela janela.

A cidade passava diante dos meus olhos, mas minha cabeça estava ocupada demais tentando entender por que Felipe tinha demonstrado qualquer interesse em saber se eu havia chegado bem.

Talvez fosse apenas educação.

Talvez ele se sentisse responsável porque eu era amiga da irmã dele.

Talvez estivesse apenas se divertindo às minhas custas.

A terceira opção parecia a mais provável.

E eu não daria a ele o prazer de perceber que tinha conseguido chamar minha atenção.

Nem pensar.

Cheguei à escola pouco antes do sinal.

Seu Antônio parou diante da entrada, e agradeci antes de descer do carro.

O movimento já era intenso. Alunos conversavam em pequenos grupos, alguns corriam para não se atrasar, enquanto outros aproveitavam os últimos minutos para terminar atividades que deveriam ter feito no fim de semana.

Assim que atravessei o portão, Bianca apareceu ao meu lado.

- Finalmente! Pensei que tivesse sido sequestrada.

- Não tive essa sorte.

Ela gargalhou.

Bianca era uma das minhas amigas mais próximas na escola. Diferentemente de Sarah, que conseguia me convencer a fazer coisas absurdas com uma facilidade assustadora, Bianca geralmente era a responsável por rir das consequências.

Júlia apareceu logo atrás, segurando um copo de café.

- Amiga, você precisa contar tudo sobre ontem.

- Não aconteceu nada.

As duas pararam de andar.

Bianca me encarou.

Júlia quase derramou o café.

- Como assim, não aconteceu nada? - Bianca perguntou. - Você foi a um baile na favela com a Sarah! Alguma coisa aconteceu!

- Eu dancei, conversei com algumas pessoas e voltei para casa.

- E o irmão dela?

Parei de andar.

As duas trocaram um olhar.

Droga.

- Que irmão?

Bianca abriu um sorriso malicioso.

- Ah, não. Você está fazendo exatamente essa cara porque tem história.

- Não estou fazendo cara nenhuma!

- Meg, querida, eu conheço você desde o primeiro ano. Quando você mente, começa a mexer no cabelo.

Soltei os fios imediatamente.

As duas caíram na gargalhada.

- Vocês são insuportáveis.

- E você está escondendo alguma coisa. - Júlia afirmou, tomando um gole de café.

Suspirei.

- O nome dele é Felipe.

Bianca arregalou os olhos.

- O famoso Cobra?

Olhei para ela.

- Famoso para quem?

- Meg, pelo amor de Deus! Você não tem internet?

- Tenho, mas costumo usá-la para coisas úteis.

- Como comprar roupas que você não precisa? - Júlia provocou.

- Exatamente. Cada uma com suas prioridades.

Bianca ignorou meu comentário.

- Dizem que ele é o dono do morro.

Meu sorriso desapareceu um pouco.

Eu tinha ouvido o nome Cobra diversas vezes na noite anterior, mas ainda não sabia exatamente o que pensar sobre aquilo.

- Ele é irmão da Sarah. - respondi, tentando encerrar o assunto.

- Isso nós sabemos, criatura! Quero saber se ele é bonito.

Revirei os olhos.

- Não reparei.

As duas começaram a rir tão alto que alguns alunos olharam em nossa direção.

- Mentira! - Bianca exclamou. - Você reparou, sim!

- Posso garantir que existem coisas mais interessantes no mundo do que aquele homem.

- Tipo?

Abri a boca.

Fechei.

Pensei por alguns segundos.

- Tipo... matemática.

Júlia levou a mão à boca, tentando conter a gargalhada.

- Meu Deus, você está apaixonada!

- EU NÃO ESTOU APAIXONADA!

O grito saiu mais alto do que eu pretendia.

O corredor inteiro pareceu silenciar por um instante.

Fechei os olhos.

Perfeito.

Absolutamente perfeito.

Agora, além de estar atrasada, com dor de cabeça e irritada com um homem que mal conhecia, eu ainda tinha acabado de anunciar aos quatro ventos que existia um assunto que me deixava nervosa.

Bianca passou o braço pelos meus ombros.

- Tudo bem, amiga. A primeira fase é a negação.

- Eu vou bater em você.

- A segunda é a agressividade!

Júlia começou a rir novamente.

E eu decidi que não conversaria mais com nenhuma das duas até o fim do ano letivo.

As aulas da manhã se arrastaram como se cada minuto tivesse decidido durar uma eternidade.

Tentei prestar atenção à explicação de literatura, fiz algumas anotações e respondi a duas perguntas da professora. Entretanto, sempre que o celular vibrava dentro da minha bolsa, minha atenção era imediatamente desviada.

Eu não precisava olhar para saber quem era.

E isso era irritante.

Muito irritante.

No intervalo, sentei-me com Bianca e Júlia em uma mesa próxima ao jardim da escola. Comprei um suco e tentei me concentrar em qualquer assunto que não envolvesse o homem responsável por perturbar minha paz.

Não funcionou.

- Você está olhando para o celular há dez minutos - Bianca observou.

- Estou esperando uma mensagem.

As palavras saíram antes que meu cérebro tivesse a oportunidade de me impedir.

As duas ficaram em silêncio.

Lentamente, Bianca virou a cabeça na minha direção.

- De quem?

Suspirei.

- De ninguém.

- Meg.

- Bianca.

- É do Cobra?

- NÃO!

O grito fez Júlia engasgar com o suco.

Peguei um guardanapo e entreguei a ela, tentando ignorar a expressão vitoriosa de Bianca.

- Você é muito irritante.

- E você é péssima mentindo.

Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou.

Olhei para a tela.

Uma mensagem.

Felipe: Sua amiga me disse que você chegou bem à escola.

Franzi a testa.

Como aquele homem sabia que eu tinha chegado à escola?

Digitei imediatamente.

Eu: Você está me vigiando?

Felipe: Não se acha tão importante, patricinha.

Apertei os lábios.

Eu: Então pare de me mandar mensagens.

Felipe: É só não responder.

Fiquei encarando a tela, incrédula.

Aquele homem precisava de um curso intensivo de como conversar com uma mulher sem ser um completo idiota.

Eu: Você é sempre tão convencido assim ou fez algum curso?

Felipe: Nasci com o dom.

Eu: Meus pêsames.

Felipe: Obrigado, patricinha. Sua preocupação me comoveu.

Mordi o lábio para não rir.

Não que tivesse achado graça. De jeito nenhum. Eu estava apenas reconhecendo o nível absurdo de deboche daquele homem.

Eu: Olha, Felipe, eu não sei o que você quer comigo, mas pode parar de me chamar de patricinha.

Felipe: E você pode parar de me responder.

Eu: Você é insuportável!

Felipe: Já me disseram.

Eu: Imagino que muitas mulheres.

Dessa vez, ele demorou um pouco mais para responder.

E eu odiei perceber que estava esperando.

Felipe: Tá com ciúmes, Meg?

Meu queixo caiu.

- Ah, não! - exclamei, atraindo a atenção das minhas amigas.

Bianca praticamente se jogou sobre a mesa.

- O QUE ELE DISSE?

Virei o celular contra o peito.

- Nada!

- MEG, EU VOU TOMAR ESSE CELULAR DA SUA MÃO!

- Encosta nele para você ver!

Júlia começou a rir, enquanto Bianca estendia o pescoço, tentando enxergar a tela.

Eu não ia mostrar.

Nem morta.

Meu celular vibrou novamente.

Felipe: Ficou quietinha agora.

Eu: Estou ocupada.

Felipe: Fazendo o quê?

Eu: Tentando descobrir como alguém consegue ser tão irritante em tão poucas mensagens.

Felipe: E eu tentando descobrir por que você continua respondendo.

Mordi a parte interna da bochecha.

Droga.

Ele tinha um ponto.

Um ponto irritantemente válido.

Eu: Porque sou educada.

Felipe: Então imagina quando você perder a educação.

Eu: Você não sobreviveria.

Felipe: Agora fiquei curioso.

Revirei os olhos, largando o celular sobre a mesa.

- Eu odeio esse homem.

Bianca abriu um sorriso enorme.

- Você nem conhece esse homem!

- Exatamente! E ele já conseguiu acabar com a minha paz.

- Isso tem nome. - Júlia comentou.

Apontei o dedo para ela.

- Não termina essa frase.

Ela levantou as mãos, rendendo-se.

- Tudo bem, tudo bem.

Peguei o celular novamente, decidida a encerrar aquela conversa de uma vez por todas.

Eu: Tenho aula. Não me mande mais mensagens.

A resposta demorou alguns segundos.

Felipe: Vai estudar, patricinha.

Logo depois, chegou outra.

Felipe: E toma cuidado na saída.

Franzi a testa.

Eu: Por quê?

Dessa vez, ele não respondeu imediatamente.

Fiquei olhando para a tela, esperando que os três pontinhos aparecessem. Quando finalmente apareceram, meu coração acelerou de um jeito ridículo.

Felipe: Porque você parece o tipo de pessoa que atravessa a rua olhando para o celular.

Arregalei os olhos.

Eu: EU NÃO FAÇO ISSO!

Felipe: Claro que não.

Eu: Felipe!

Felipe: Tchau, Meg.

Fiquei encarando a última mensagem.

Ele havia conseguido.

O desgraçado havia conseguido me fazer rir sozinha olhando para o celular.

E eu não sabia se queria jogar aquele aparelho longe ou descobrir o que mais ele seria capaz de fazer para me tirar do sério.

Talvez fosse a curiosidade.

Talvez fosse o desafio.

Ou talvez eu simplesmente estivesse entediada demais com a minha vida perfeitamente organizada para não me interessar por alguém tão diferente de tudo o que conhecia.

Mas uma coisa era certa: Felipe não combinava com o meu mundo.

E eu não combinava com o dele.

Era exatamente por isso que deveria manter distância.

O problema era que, quanto mais eu tentava me convencer disso, mais me lembrava do jeito como ele havia me olhado na noite anterior.

Como se eu fosse um enigma que ele queria desvendar.

Como se, por trás das minhas roupas caras, das minhas respostas afiadas e da minha pose de garota que tinha tudo sob controle, ele tivesse enxergado alguma coisa que nem eu mesma sabia explicar.

Balancei a cabeça, afastando aqueles pensamentos.

Não.

Eu não seria mais uma garota encantada por um homem misterioso, tatuado e convencido.

Minha vida não era um romance.

E Felipe não era um príncipe encantado.

Era Cobra.

O dono do morro.

O irmão da minha melhor amiga.

E, a partir daquele momento, o homem que eu faria questão de manter longe de mim.

Pelo menos era esse o plano.

O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo.

Levantei-me, ajeitei a bolsa no ombro e acompanhei minhas amigas até a sala.

Meu celular vibrou uma última vez.

Olhei para a tela contra a minha vontade.

Felipe: Ah, e Meg?

Fiquei parada no meio do corredor.

Eu: O quê?

A resposta chegou quase imediatamente.

Felipe: Você fica bonita quando está brava.

Meu coração deu um salto.

Fiquei olhando para aquelas palavras, sentindo minhas bochechas esquentarem, enquanto um sorriso involuntário ameaçava surgir no meu rosto.

Apaguei a tela imediatamente.

- Filho da mãe - murmurei.

- O que foi agora? - Bianca perguntou.

Guardei o celular na bolsa e ergui o queixo.

- Nada.

- Meg...

- Bianca, eu juro que, se você falar mais uma palavra, vou trocar de melhor amiga.

Ela gargalhou.

- Você não consegue viver sem mim!

- Infelizmente, estou começando a perceber que esse é o meu maior problema.

Entrei na sala e me sentei no meu lugar, tentando prestar atenção à aula.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, minha cabeça estava longe dos livros, das festas da elite e das preocupações que sempre fizeram parte da minha rotina.

Estava em um morro.

Em um baile.

E em um homem que me chamava de patricinha como se tivesse todo o direito do mundo de fazer isso.

Eu ainda não sabia, mas aquela troca de mensagens era apenas o começo.

Porque Felipe tinha acabado de entrar na minha vida.

E, pelo visto, não pretendia sair tão cedo.

{...}

Capítulo 3 02

Margareth "Meg"

O caminho até em casa pareceu muito mais longo do que de costume.

Talvez fosse o cansaço acumulado do fim de semana, talvez fosse a quantidade absurda de coisas que eu tinha para estudar ou, quem sabe, a culpa fosse de um certo homem que não saía da minha cabeça desde o momento em que havia começado a me mandar mensagens.

Felipe Cobra.

Só de lembrar daquele sorriso convencido, eu sentia vontade de revirar os olhos.

O pior era que, por mais que tentasse me convencer de que ele não significava absolutamente nada, minha mente insistia em voltar às nossas conversas. E isso estava começando a me irritar profundamente.

Assim que o carro parou diante da entrada de casa, agradeci a seu Antônio e desci. Atravessei a porta principal, deixando a bolsa sobre o aparador, e estranhei o silêncio que encontrei.

Normalmente, minha mãe estaria na sala, conversando com alguém ao telefone, ou meu pai estaria no escritório, resolvendo algum assunto relacionado aos negócios.

Naquela tarde, porém, a casa parecia vazia.

Peguei o celular e procurei a conversa com Sarah.

Nenhuma mensagem.

Era estranho, considerando que minha melhor amiga costumava me mandar mensagens até quando estava apenas escolhendo o sabor do sorvete que queria tomar.

Provavelmente, tinha perdido a hora depois da festa do fim de semana. Sarah nunca foi exatamente uma pessoa matinal, e eu não duvidava que tivesse passado a manhã inteira dormindo.

Sorri sozinha, imaginando a cara dela ao perceber que havia perdido mais um dia de aula.

Comecei a digitar:

Eu: Amiga, você está viva?

Parei antes de enviar.

Talvez ela estivesse ocupada. Talvez estivesse dormindo. Ou talvez tivesse decidido me ignorar depois das inúmeras mensagens que eu havia mandado no dia anterior.

Eu estava prestes a ligar para ela quando ouvi vozes vindas do escritório do meu pai.

No começo, não dei importância. Afinal, conversas entre meus pais sobre dinheiro, negócios e investimentos eram comuns. Entretanto, havia algo diferente naquela discussão.

A voz da minha mãe estava trêmula.

Não era irritação.

Era desespero.

- Você apostou tudo, Sérgio? Eu não acredito! O que você fez com a nossa vida? Não me diga que mexeu no fundo de estudos da nossa filha também!

Parei imediatamente.

Minha mão, que segurava o celular, ficou imóvel.

Apostou tudo?

Que história era aquela?

- Não, claro que não, Laura. - meu pai respondeu, com uma tranquilidade que parecia completamente inadequada para a situação.

- Você não podia ter feito isso! O que vamos fazer agora?

Aproximei-me alguns passos, sentindo o coração acelerar.

Eu sabia que não deveria ouvir aquela conversa. Sabia que era errado invadir a privacidade dos meus pais, mas alguma coisa dentro de mim gritava que precisava entender o que estava acontecendo.

Então, permaneci onde estava.

- O fundo de estudos da Meg está intacto, e o apartamento que deixamos no nome dela em Londres também. O futuro dela está garantido.

Meu estômago se contraiu.

O que estava acontecendo?

Por que minha mãe estava falando como se tivéssemos perdido tudo?

- Menos mal. - ela respondeu, soltando um suspiro que parecia carregar o peso do mundo. - Mas o que eu quero saber é sobre o nosso futuro.

Houve alguns segundos de silêncio.

Segundos que pareceram durar uma eternidade.

Então, meu pai voltou a falar.

- Temos alguns imóveis no nome da Meg, nos quais você é a responsável. Todo o resto, inclusive esta casa, os carros, a hípica, os cavalos... Bem, tudo, o banco vai levar.

Meu mundo parou.

Literalmente.

Senti como se alguém tivesse puxado o chão debaixo dos meus pés, deixando-me suspensa em um vazio assustador.

A casa.

Os carros.

A hípica.

Os cavalos.

Tudo.

Minha cabeça começou a girar, e precisei apoiar a mão na parede para não perder o equilíbrio.

Aquilo não podia ser verdade.

Meu pai era um empresário bem-sucedido. Nossa família tinha dinheiro, propriedades, investimentos. Eu nunca precisei me preocupar com o preço das coisas, nunca precisei pensar duas vezes antes de comprar uma roupa ou planejar uma viagem.

Minha maior preocupação financeira até aquele momento havia sido decidir se comprava uma bolsa nova ou se guardava o dinheiro para as férias.

E agora...

Agora, aparentemente, não tínhamos mais nada.

Meu pai havia apostado tudo.

Tudo!

Como alguém podia ser tão irresponsável?

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto antes que eu pudesse contê-la.

Não queria ouvir mais nada.

Não queria saber como aquilo tinha acontecido, nem por que minha mãe parecia tão desesperada.

Eu só queria sair dali.

Precisava respirar.

Precisava pensar.

Precisava entender como a minha vida tinha desmoronado sem que eu sequer percebesse.

Afastei-me do escritório com cuidado, tentando não fazer barulho. Peguei minha bolsa no aparador e caminhei até a porta da frente.

Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei as chaves caírem.

Assim que atravessei o portão, continuei andando sem direção, até me afastar o suficiente da casa para ter certeza de que meus pais não perceberiam minha ausência.

Foi quando as lágrimas vieram de verdade.

Sem pudor.

Sem controle.

Chorei como uma criança, sentindo o peito apertar enquanto tentava processar tudo aquilo.

Estávamos pobres?

A pergunta ecoou na minha cabeça, dolorosa e assustadora.

Eu estava acostumada a ter tudo, mas nunca imaginei que poderia perder tudo também.

E o pior não era a possibilidade de deixar de morar naquela casa ou de perder meus vestidos, meus sapatos e meus luxos.

Era saber que meus pais estavam sofrendo.

Era imaginar minha mãe desesperada, tentando descobrir como recomeçar uma vida que tinha levado anos para construir.

Era perceber que meu pai havia colocado nosso futuro em risco por causa de uma decisão absurda.

Limpei o rosto com as mãos, tentando respirar.

Eu precisava falar com alguém.

Alguém que me conhecesse, que pudesse me ouvir sem me julgar.

Sarah.

Disquei o número da minha melhor amiga e levei o celular ao ouvido.

No primeiro toque, a ligação foi atendida.

- Amiga, por favor, me ajuda, eu... - Minha voz falhou, e as lágrimas voltaram com ainda mais força. - Eu não sei o que fazer. Eu tô saindo de casa, eu...

Não consegui terminar.

O desespero havia tomado conta de mim, e eu mal conseguia organizar os pensamentos para formar uma frase.

- Meg? - ouvi do outro lado.

Franzi a testa.

Aquela não era a voz de Sarah.

Era mais grave.

Mais firme.

E, infelizmente, familiar demais.

Afastei o celular do ouvido e olhei para a tela.

O nome que aparecia ali fez meu sangue gelar.

Felipe Cobra.

Merda!

Eu tinha ligado para o número errado!

- Meg, você está me ouvindo? - ele perguntou, e dessa vez havia algo diferente em sua voz. Nenhuma provocação, nenhum apelido irritante. Apenas preocupação.

Tentei responder, mas um soluço escapou da minha garganta.

- Eu...

- Onde você está?

Olhei ao redor, tentando identificar o lugar em que havia parado.

- Perto de casa.

- Fica aí. Estou indo buscar você.

- Não precisa...

- Meg, olha para mim... - Ele parou por um instante, provavelmente percebendo que eu não estava diante dele. - Escuta o que eu estou dizendo. Fica onde está. Estou indo.

A ligação terminou antes que eu pudesse protestar.

Fiquei olhando para o celular, completamente atordoada.

Eu deveria ligar para Sarah novamente. Deveria voltar para casa e exigir explicações dos meus pais. Deveria fazer alguma coisa, qualquer coisa, em vez de ficar ali, chorando na calçada como se o mundo tivesse acabado.

Mas eu não conseguia.

Minhas pernas pareciam feitas de algodão, e minha cabeça estava tão confusa que mal conseguia pensar.

Poucos minutos depois, ouvi o ronco de uma moto se aproximando.

Ergui o rosto.

E lá estava ele.

Felipe.

Usava uma camiseta preta, calça jeans e botas. O capacete escondia parte de seu rosto, mas eu reconheceria aquela postura em qualquer lugar. Ele parou a moto diante de mim e retirou o capacete, revelando os cabelos levemente bagunçados e o olhar atento.

Seus olhos percorreram meu rosto inchado, minhas mãos trêmulas e as lágrimas que eu não conseguia mais esconder.

O sorriso convencido que eu tanto conhecia havia desaparecido.

- Meg...

Engoli em seco.

- Eu...

Ele desligou a moto e desceu, aproximando-se de mim sem pressa.

- Eu sei que você ligou para a Sarah. - disse, com a voz baixa. - Só sobe na moto. Vou levar você até ela.

Olhei para ele, tentando encontrar alguma resposta, mas tudo o que consegui fazer foi assentir.

Felipe pegou um segundo capacete e o estendeu na minha direção.

- Coloca isso primeiro.

Obedeci, prendendo a fivela com dedos desajeitados. Ele percebeu minha dificuldade e se aproximou para me ajudar, mas parou antes de tocar em mim.

- Posso?

Aquela pergunta simples quase me fez chorar novamente.

Assenti.

Com cuidado, ele ajustou a fivela do capacete sob meu queixo e se afastou.

- Pronto.

Subi na moto com alguma dificuldade, ajeitando a bolsa junto ao corpo. Felipe montou à minha frente e olhou por cima do ombro.

- Segura firme.

Passei os braços ao redor de sua cintura.

No instante em que o fiz, senti seu corpo ficar ligeiramente rígido, como se não esperasse que eu me aproximasse tanto.

Eu também não esperava.

Mas precisava de alguma coisa em que me apoiar.

E, naquele momento, ele era a única coisa que parecia firme o suficiente para impedir que eu desmoronasse de vez.

A moto arrancou.

Apertei os braços ao redor dele, escondendo o rosto contra suas costas enquanto o vento batia em meu corpo. Tentei conter o choro, mas era impossível. Cada vez que lembrava da conversa dos meus pais, sentia uma dor terrível no peito.

Eu não sabia o que aconteceria comigo.

Não sabia onde moraria, como seria minha vida dali em diante ou se algum dia conseguiria olhar para meu pai da mesma maneira.

Só sabia que, naquela tarde, meu mundo havia mudado para sempre.

E eu estava indo para o morro nos braços de um homem que, até poucos dias atrás, eu jurava que jamais faria parte da minha vida.

Felipe não fez perguntas durante o caminho.

Não tentou arrancar explicações de mim, não fez piadas e não me chamou de patricinha.

Apenas conduziu a moto com cuidado, como se entendesse que eu precisava daquele silêncio.

Quando chegamos ao morro, reconheci algumas ruas do baile da noite anterior. As pessoas circulavam normalmente, crianças brincavam perto das casas e alguns moradores cumprimentavam Felipe assim que ele passava.

Ele respondia a todos, com pequenos acenos ou palavras breves.

Havia respeito na maneira como falavam com ele.

E, pela primeira vez, enxerguei algo além do homem convencido que gostava de me provocar por mensagens.

Quando a moto parou diante de uma casa, Felipe desligou o motor e desceu.

Eu permaneci sentada por alguns segundos, sem saber muito bem o que fazer.

Ele se virou para mim e estendeu a mão.

- Vem, Meg.

Segurei sua mão e desci, sentindo as pernas um pouco bambas.

Felipe percebeu.

Sem dizer nada, colocou uma mão em minhas costas, sustentando-me discretamente.

- A Sarah está aqui? - perguntei, com a voz rouca.

Ele hesitou por um instante.

- Ainda não sei. Mas você vai entrar, tomar uma água e respirar um pouco. Depois a gente resolve o resto.

Olhei para ele, confusa.

- Você nem sabe o que aconteceu.

- Não. - respondeu, sustentando meu olhar. - Mas sei reconhecer quando alguém está precisando de ajuda.

Aquelas palavras me atingiram de um jeito inesperado.

Baixei a cabeça, tentando esconder outra lágrima.

Felipe suspirou e, com uma delicadeza que eu jamais imaginaria encontrar nele, tocou de leve meu ombro.

- Ei, patricinha... Você não precisa me contar nada agora, está bem?

Soltei uma risada fraca em meio ao choro.

- Eu pedi para você parar de me chamar assim.

Pela primeira vez desde que chegara, um pequeno sorriso surgiu no rosto dele.

- E eu lembro muito bem.

- Então por que continua?

Ele inclinou a cabeça, observando-me com aqueles olhos escuros que pareciam enxergar muito mais do que eu gostaria.

- Porque você fica brava, e eu gosto de ver você brava.

- Você é um idiota.

- Já me disseram.

Dessa vez, apesar de tudo, eu sorri de verdade.

Foi pequeno. Quase imperceptível.

Mas sorri.

Felipe abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse.

- Vem. Vamos cuidar de você primeiro.

Atravessei a entrada sem saber que aquela casa, aquele morro e aquele homem estavam prestes a se tornar muito mais importantes para mim do que eu poderia imaginar.

Naquele momento, eu só queria encontrar Sarah.

Só queria um abraço, um lugar seguro e alguns minutos para entender o que havia acontecido com a minha família.

Eu ainda não sabia como contar ao mundo que minha vida tinha desmoronado.

Mas, enquanto entrava na casa de Felipe, percebi uma coisa que me assustou quase tanto quanto a notícia que acabara de descobrir.

Eu não estava com medo de estar sozinha.

Porque, de alguma forma que eu ainda não conseguia explicar, sentia que, enquanto estivesse ali, Felipe não permitiria que eu desmoronasse completamente.

{...}

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