Barcelona , 31 de dezembro de 2005
De todos os começos que pensei , esse é o meu preferido: meu primeiro ano novo em Barcelona depois de dois anos na Inglaterra. Dois anos de pessoas frias , clima frio e muito estudo. Até convencer meus pais que era em Barcelona que eu deveria terminar meu secundário (o mesmo que ensino médio no Brasil), meu lar. Então aquele final de ano era a personificação da minha felicidade. A única coisa que me fazia falta era o Edward , meu ficante inglês.
A todos que ainda não tiveram a oportunidade de passar o ano novo em Barcelona, tire um tempo e venha, não sabem o que estão perdendo. As ruas ficam todas enfeitadas, além do calor humano que não encontrei em lugar nenhum. Mas voltando aquela maravilhosa noite...
Lembro de estar em meu quarto jogando entretida que nem percebo minha irmã caçula, Valéria , entrar no quarto. Levo um susto quando ela toca em meu braço ,chamando minha atenção. Ela diz alguma coisa , mas estou de fone e não entendo o que ela fala, então os tiro e a encaro brava. Aposto que ela queria usar o computador para jogar também.
-... você vai né? - pergunta Valéria com aqueles olhos amendoados mais arregalados que o normal. - Eles disseram que eu só posso ir se você for comigo. Eu to esperando há meses por essa festa e vai estar todo mundo lá.
- Que festa? Do que está falando ? - pergunto sem entender sobre o que ela está falando.
- Festa do Júlio! - diz Valéria estalando os dedos no meu rosto. Ela se ajoelha , dramatizando como sempre e pede - Por favor , vai comigo! Vai ser bem divertido!
- Não sei... - respondo com toda sinceridade. A festa de Júlio é do tipo que você só chega em casa com o dia raiando .
-Por favor, por favor , por favor !!! - suplica minha irmã quase ajoelhada aos meus pés - Eu até empresto o meu vestido branco com lantejoulas...
-Você ama aquele vestido - digo encarando os olhos pidões da minha irmã. Para Valéria usar seu vestido como moeda de troca é por que ela realmente quer que eu vá. Respiro fundo e respondo - Tudo bem, eu vou com você. Mas voltamos na hora em que eu falar , tudo bem?
-Claro!- responde Valéria , me abraçando. Ela corre para o nosso armário, pega seu vestido branco e coloca em cima da minha cama. Pega um outro vermelho e vai para o banheiro , saltitante, se trocar.
Parece uma decisão boba, ir ou não a uma festa. Mas hoje eu vejo que aquela decisão desencadeou tudo o que acontecerá daqui para frente. De uma coisa eu tenho certeza: se eu voltasse no tempo faria essa mesma escolha.
Depois de alguns minutos estamos prontas para ir à festa do Júlio , meus pais também estão arrumados , passarão a virada na casa de uns amigos e ficariam de prontidão para quando eu fosse ligar para eles. Entramos no carro e sento na janela. Adoro observar a noite de Barcelona. Não demora muito e meu pai já estaciona em frente a enorme casa dos Castillos , lar de Júlio.
-Boas festas - diz o meu pai beijando a minha irmã e depois a mim .
-Até ano que vem - brinca a minha mãe dando um beijo em minha bochecha.
- Xau pai , xau mãe - despeço-me saindo do carro.
Mal saímos do carro e a minha irmã já agarra meu braço para entrarmos na festa. A alegria da minha irmã é quase suspeita,sendo justificada quando entro na casa: Era como se todos os jovens mais bonitos da cidade tivessem marcado de estar naquela festa. Sorrimos uma para a outra e caminhamos em direção ao dono da festa, Júlio Castillos, herdeiro da rede hoteleira Castillos. E também um dos meus melhores amigos.
- Dália Penedo - diz Júlio saindo da roda de amigos que está e se aproximando. Ele me abraça ,afetuoso, então se vira para minha irmã Valéria, curioso- E quem é esta. beleza?
-Minha irmã, Valéria - apresento minha irmã que não esconde seu interesse no Júlio.
-Ah , sim , Valérinha - diz Júlio demonstrando um leve desinteresse ao reconhecer minha irmã. Ele sorri para mim e continua - Ainda bem que voltou para os nossos olhos mortais , minha cara. Venha conhecer meus novos amigos...
- Sem dúvida , preciso atualizar meus contatos - digo sorrindo para ele.
Olho para a minha irmã que está com os olhos arregalados em direção ao círculo de rapazes para onde Júlio está indo. Então meu coração dispara... Ali no meio deles um rapaz com o sorriso mais belo que já vi chama minha atenção. Seus olhos castanhos fitam os meus , brevemente, invadindo minha mente, como se estivéssemos destinados a ficar junto. Eu caminho em direção a ele , enfeitiçada pelo seu rosto , que para muitas era simples , mas para mim era o que eu sempre sonhei. Ele é a minha alma gêmea.
- Eu vou me casar com ele - digo sorrindo para minha irmã que me encara, confusa.
-Com quem? - pergunta minha irmã olhando para a roda.
-Com aquele - aponto para disfarçadamente para ele.
- Tudo bem , então me casarei com o do lado - diz minha irmã em tom de brincadeira. Ela segura em meu braço e me puxa - Vamos lá conhecer os nossos futuros maridos.
Assim que chegamos na roda , todos os rapazes olham para nós .Incluindo ele que me encara , atentamente, fazendo arrepiar.
- Rapazes, essas são as irmãs Penedo: Dália - apresenta Júlio apontando para mim e depois para minha irmã - E Valéria Penedo.
- Olá - diz minha irmã com o maior sorriso do mundo.
- Esses são: Eduardo - diz Júlio apontando para um rapaz loiro - Pierre - o pretendente da minha irmã- Elson- para um outro rapaz - E Carlos - aponta por último para o meu pretendente.
Carlos,esse é seu nome. A conversa inicia na roda , mas não participo dela, prefiro encarar o meu pretendente que me corresponde. Seus olhos são expressivos , mais do que qualquer palavra que eu pudesse dizer. Sinto meu rosto em brasa, então sorrio desviando o olhar. Mas não por muito tempo e já me pego olhando para ele novamente. Poderia viver somente para olhar para ele. De repente escuto gritos , o tempo passou tão rápido que as pessoas já estavam na contagem regressiva para o ano novo.
-Feliz ano novo!!! - gritam todos. Minha irmã me abraça e depois sai abraçando todo mundo.
Júlio me dá um leve beijo na bochecha , assim como a maioria dos presentes. Mas eu não saio do lugar, assim como Carlos que aos poucos se aproxima. Ele passa seus braços envolta da minha cintura, seu toque me dá um frio na barriga. Sinto o calor de suas mãos em minha costa. Seu rosto se aproxima do meu, suas bochechas colam nas minhas. Sinto cada parte do seu corpo colado ao meu. Seus lábios quase tocam minha orelha e sua respiração denuncia que suas palavras estão por vir:
-Feliz ano novo - sussurra Carlos. Ele me aperta , bem devagar.Meu corpo encaixa perfeitamente no dele.
Então meu futuro marido, se afasta com seu belo sorriso e caminha em direção as outras pessoas da festa.Ainda abraço mais algumas,enquanto tento seguir Carlos com os olhos. Noto que ele fala ,animado, com alguém em seu telefone.
- Dália, por que ainda está parada aqui? - pergunta Júlio , alheio a minha situação - Você está bem?
-Estou ótima. E vou ficar formidável se me contar mais a respeito do Carlos.
-Que Carlos? - pergunta Júlio me encarando como se não conhecesse o Carlos.
-O rapaz que me apresentou.- recordo , tomando um gole de champanhe que me foi servido.
- Ah... Ele é amigo do Elson - diz Júlio seguindo o meu olhar que ainda está sobre Carlos que sorria a respeito de algo que um rapaz conta a ele - Mas pode tirar seu cavalo da chuva, Dália.
- Por quê? - pergunto , assustada, encarando meu amigo.
- Primeiro que ele é um pobre coitado. Acabou de entrar em uma empresa de pescado local... um proletariado. Sem contar que aquele coração já tem dona. Ele está noivo.
- Eu não me importo com a classe social dele e...Noivo não é casado - respondo prontamente.
-E o seu bofe inglês? - pergunta Júlio , me lembrando de Edward, como se aquilo fosse mudar algo - O lindo , rico e poderoso inglês.
- Você sabe... mais do mesmo.-respondo , enigmática.
- Você não vai desistir dele , não é? - pergunta Júlio se referindo a Carlos.
-Você me conhece tão bem, Júlio - respondo dando um beijo na bochecha de meu amigo. Então sussurro em seu ouvido - Preciso do telefone dele, antes de ir embora o quero em minhas mãos. Ele será meu.
-Está falando do telefone ou do dono dele? - pergunta Júlio no mesmo tom de voz.
-Ambos - respondo saindo de perto de Júlio. Aproximo-me da minha irmã , sem tirar os olhos de Carlos que agora está do outro lado da sala , despreocupado.
- Não me diga que já quer ir embora... - reclama minha irmã.
-Não... só estou vendo como está - explico sorridente.
-Esse seu sorriso não me engana. O que está aprontando? - pergunta minha irmá me encarando.
-Nada... ainda - respondo sorrindo para minha irmã.
- O jantar está servido - diz Júlio em alto e bom som a todos os seus convidados.
Ao sentar na mesa percebi que meu amigo já está mexendo suas peça. Carlos senta do meu lado direito, mas evita qualquer contato comigo. Passamos o jantar inteiro apenas com olhares de relances. Olhares tímidos da parte dele e intensos da minha parte. O jantar está bem alegre , quando ele se levanta e diz:
-Muito obrigado a todos , mas preciso ir, tenho um outro compromisso.
Ele sorri em minha direção , depois para os convidados e sai da mesa . Meu corpo todo treme a ponto de me fazer levantar e ir atrás dele. Não controlo meus passos , assim como não consigo controlar minha mão que segura o ombro de Carlos que se vira , surpreso. Sorrio para ele sem graça , sem ter a menor ideia do que falar.
-Desculpe... mas não acha que está um pouco cedo para ir embora? - pergunto , droga que pergunta é essa?- Quer dizer... acho que você deveria ficar um pouco mais...
-Aprecio sua solidariedade com minha ausência, mas eu preciso me encontrar com a minha noiva - responde Carlos - E eu já estou bem atrasado.
-Tudo bem - digo , um pouco decepcionada.
-Feliz ano novo... - diz ele colocando o casaco , enquanto força sua memória para se lembrar do meu nome.
-Dália - respondo , prontamente. VOu em direção ao seu rosto e lhe dou um beijo na bochecha dizendo- Feliz Ano novo , Carlos.
- A gente se vê por ai - diz Carlos sem graça abrindo a porta.
-Sem dúvidas - respondo com meu melhor sorriso.
Pego o meu celular e ligo para os meus pais me buscarem , não quero mais ficar na festa onde Carlos não estaria. Preciso ficar em casa e pensar de que forma o conquistaria. Volto a mesa e aviso a minha irmã e a todos que também já estamos indo. Valéria nem se importa muito , pois a festa tinha sido um fiasco para ela que estava a procura de um grande amor de ano novo. Já estamos na porta junto com Júlio, quando meu amigo me dá um abraço e depois segura minha mão , dando um beijo de leve. Sinto que ele colocou algo em minha mão , mas ele impede que eu a abra.
-Presente de ano novo. Só abra quando chegar em casa - ordena Júlio, enigmático.
Sorrio e entro no carro com a minha irmã. Meu desejo era abrir minha mão ali mesmo , mas não tinha ideia do que poderia ser e se tratando de Júlio Castillos , tudo é possível. Nem bem entro em casa , corro para o quarto e me jogo na minha cama. Decido abrir minha mão , quando minha irmã entra no quarto como um tornado e deita ao meu lado , curiosa.
-O que ele te deu? - pergunta Valéria.
-Vou descobrir agora - digo erguendo minha mão. Aos poucos vai surgindo um papel branco com um número de telefone. Mas o que me deixa feliz é o nome que vem logo abaixo: Carlos Salazar.
- De quem é esse número? - pergunta minha irmã com os olhos arregalados.
-Do meu futuro marido - respondo com um sorriso malicioso nos lábios.
De uma coisa eu tenho certeza: Agora começa a caçada.
Ter o número do Carlos ao mesmo tempo que é um bônus , também é um ônus. Que desculpa eu usaria para falar com ele? Sem dúvidas Carlos ia perguntar como eu consegui seu número... Depois de muitos dias pensando, o único plano que me pareceu viável só poderia acontecer após o retorno das aulas. Então fiquei mais quinze dias com o telefone nas mãos enquanto eu concretizava a ideia. Carlos parece ser o tipo de homem que ajuda donzelas em perigo e é isso que eu serei para conquistá-lo, mesmo não gostando muito de ser uma mocinha indefesa.
Então em uma bela tarde quente , sento com meu celular nas mãos: está na hora de por meu plano em prática. Disco o número de Carlos e a cada toque meu coração acelera. Passa mil coisas em minha mente , desde escutar sua voz até o fato da chamada ser encaminhada para a caixa de mensagens. Então os toques cessam, e aquele espaço entre o final do toque e a expectativa de ouvir sua voz , me deixa nervosa. Respiro fundo com meus olhos fechados...
-Alô?- atende a voz grossa de Carlos. Abro meus olhos para ter certeza de que ele não está dentro do meu quarto. Ele respira e diz - Alô?
-Oi... - respondo com a minha voz embargada. Odeio quando estou nervosa e minha voz afina. Respiro fundo e digo- Olá , Carlos.
-Olá... - responde Carlos com um tom de dúvida - Com quem eu estou falando?
-Que indelicadeza da minha parte - digo de forma sedutora - Aqui é a Dália Penedo , nos conhecemos na festa do Júlio Castillos.
-Ah... claro - diz Carlos, sem muito entusiasmo. O seu tom me irrita, pois parece que minha lembrança para ele é tão significante quanto a de qualquer outro convidado - Como está, Dália Penedo?
- Muito bem - respondo, fria. Respiro fundo e esqueço a formalidade de perguntar como ele está , partindo logo para o meu plano, mudo meu tom para um mais doce , sem ser irritante - Peguei seu número com o Júlio esses dias, pois tenho um projeto da escola sobre o mercado de pescas de Barcelona e ele me disse que você trabalha na área. Eu gostaria de saber se teria como me ajudar? - as próximas palavras finalizam a minha isca - Já estou desesperada ,pois não tenho ninguém que possa me ajudar.
- Claro que posso te ajudar - responde Carlos mais solicito e confirmando minhas suspeitas: Ele um príncipe que não recusa ajudar uma donzela indefesa - Do que precisa?
-Muitas coisas - digo . Então decido fazer uma jogada arriscada, sei que ele pode recusar , mas eu realmente estou desesperada... para vê-lo - Será que não teria como a gente se encontrar pessoalmente? Acho que seria melhor até mesmo para mostrar como seria o projeto... O que acha? Quando está disponível?
- Acho que é uma ótima ideia - diz Carlos ,empolgado - Que tal amanhã?
-Excelente - digo ,prontamente. Penso em como foi fácil atraí-lo - Que horas?
- Deixa eu só confirmar se a minha noiva está disponível - responde Carlos, quase me fazendo cair da cadeira. Noiva? COmo assim ele vai levar a noiva dele? Não se pode mesmo contar com o ovo antes de ser chocado... - Sabe , os pais dela também trabalham com pescado.Vai ser ótimo ver a nossa área ser valorizada...
- Nossa!- digo quase gritando no telefone. Preciso de uma desculpa para sair dessa enrascada- Acabei de me lembrar que amanhã não vai dar... Tenho que estudar Cálculo ... para a prova...
- Sério, que pena - diz Carlos com a voz decepcionada. -Bom , veja um dia que fica bom para você e me avise, estarei à sua disposição.
-Claro , eu vejo sim - respondo meiga. Pode ter certeza que será um dia em que a sua noiva não estará presente. Respiro aliviada para ele escutar e agradeço - Obrigada, você não tem ideia do quanto estou agradecida por você me ajudar.
- Fico feliz em saber - diz Carlos tímido. Fico escutando sua respiração e acabo perdendo a noção do tempo. -Bom , me ligue para marcar o nosso encontro. Até.
-Até breve, Carlos - digo desligando meu telefone.
Meu coração está prestes a sair pela boca. Jogo-me na cama olhando para o teto, pego meu telefone e o encho com todos os beijos que gostaria de ter dado pessoalmente em Carlos.
***
Lógico que a desculpa do projeto da escola tinha um prazo de validade,mas todas as vezes em que tentava marcar com Carlos ,ele sempre queria colocar bendita noiva dele no meio. E em todas elas eu usei uma desculpa diferente: doença , viagem, escola... aquilo realmente já está me tirando do sério. Então para tirar aquela desculpa da jogada, peço que ele me mande tudo o que ele tinha sobre o mercado de pescado para o meu e-mail.
Ele , como um bom cavalheiro que é , prontamente manda um enorme e-mail com tudo o que era necessário , se meu projeto fosse real , com certeza eu tirava um dez. Pensei em guardar aquele e-mail até eu ler o final:
"Atenciosamente,
Carlos Salazar e Antônia Vegas"
Não consigo acreditar que até no e-mail ela tinha de aparecer. Imediatamente jogo o e-mail na lixeira e a limpo. Aquilo era uma afronta que não pretendo tolerar. Respiro fundo e pego meu telefone mandando uma mensagem para ele:
"Obrigada pelo e-mail. Você me salvou , e ficarei em dívida eterna com você."
Não demorou cinco minutos e meu celular vibra com sua mensagem surgindo na tela:
" Sempre às ordens, senhorita Penedo."
Mordo meus lábios e então escrevo:
"Me chame de Dália, Carlos. Espero retribuir a altura um dia..."
Sua mensagem chega logo em seguida:
"Dália..."
E assim durante os próximos três meses trocamos mensagens. Mas geralmente eu não resistia e acabava ligando para ele.Assuntos banais, como foi na escola , ou o trabalho dele, quase todo o tipo de assunto eram conversados entre a gente.Quase ,pois o assunto noiva estava fora de cogitação. Sempre que ele a citava , fazia questão de mostrar a minha insatisfação, mas ou ele era muito ingênuo ou se fazia muito bem , pois ele nunca contestou isso.
A nossa "amizade" estava indo muito bem , tirando o fato de nunca mais termos nos encontrado depois do ano novo. Nem mesmo quando eu disse que tinha tirado dez no falso projeto , não consegui comemorar com ele. Aquilo já está me matando quando em uma bela sexta feira , meu celular toca. Ao ver o nome do Carlos ,meu coração dispara, corro da sala de estar, onde estava assistindo televisão com a valéria , para o quarto. Atendo meu telefone ,antes mesmo de recuperar meu fôlego:
-Alô ...
-Dália?-pergunta Carlos - Você está bem?
- Sim... -respondo ofegante- Eu ... eu estava malhando... fazendo umas abdominais...
-Desde quando você malha?- pergunta Carlos, desconfiado. De fato eu sou uma verdadeira sedentária abençoada pelo metabolismo rápido.
-Eu comecei esses dias... não te contei porque não sabia se eu ia conseguir continuar com essa nova rotina... mas você não me ligou para isso , certo? - pergunto, nervosa.
- Não... - diz Carlo , misterioso. Ele dá um riso baixo e continua - Estou ligando para saber se você quer sair hoje?
-Sair... Hoje?- repito , surpresa. Por alguns instante me sinto flutuar em meu quarto, parece um sonho , o sonho que eu tanto desejava. Agora ele está acontecendo.
-Dália , você tem certeza que está tudo bem?-pergunta Carlos , preocupado.
- Eu aceito... eu aceito sair com você - respondo o mais rápido que eu consigo... quase com todo o meu desespero e alívio.
-Ótimo. Te encontro no Mallorca, daqui uma hora, certo? - pergunta Carlos ,empolgado.
-Sem dúvidas- respondo , animada.
-Te espero, até mais- diz Carlos desligando.
Jogo meu celular na cama e corro para o closet, peciso encontrar algo a altura. Desconsidero calças jeans e blusinhas, não quero ser casual demais. Porém , tenho de eliminar metade dos meus vestidos também, não quero parecer que estou facilitando as coisas.
Então o que me resta é um vestido branco florido e um vestido roxo. Pelo o que eu conheço do Carlos, o branco florido é o melhor já que tenho de ser ainda a mocinha indefesa. Tomo banho e faço uma bela trança em meus cabelos castanhos escuros, deixando a minha franja solta. Quando volto ao meu quarto , tomo um susto ,minha mãe está olhando todas as minhas roupas jogadas na cama.
- O que está acontecendo aqui? - pergunta com cara de poucos amigos.
-Nada... eu estava procurando meu vestido que estava praticamente escondido- explico fazendo pouco caso da situação. Sento na minha penteadeira e passando um batom. Noto que minha mãe está me analisando - O que foi?
-Você vai sair? - ela pergunta cruzando os braços.
-Sim, vou. Tenho um trabalho de escola para fazer com a Alicia - minto colocando a minha melhor amiga Alicia no meio. Não se preocupem, ela sempre me acoberta e sabe todas as desculpas que uso. Sem contar que a casa dela é bem perto do Mallorca. O crime perfeito.
-E você vai assim? - pergunta minha mãe , desconfiada - Toda arrumada?
- Sim - respondo colocando meus brincos de pérola. Pronto , estou a princesa perfeita - A senhora sempre disse que precisamos estar prontas para tudo. Vai que os pais dela me convida para jantar, não posso ficar indo e vindo não é mesmo?
-Está certo - responde minha mãe não muito convencida - Quer que eu te levo?
- Sim - digo tentando não demonstrar o quanto aquilo iria atrapalhar meus planos. Mas se eu me recusasse ia levantar muitas suspeitas. Sem contar que sei que aquilo pode ser um blefe da minha mãe. Ela odeia dirigir até o centro, por isso sempre nos deslocamos de metrô. - Se não for atrapalhar a senhora , sabe como o trânsito anda terrível no fim de semana.
-Verdade... pensando bem é melhor você ir de metrô - concorda minha mãe tocando em meu ombro - Só não demore para chegar em casa, eu e seu pai iremos sair e preciso que fique com a Valéria.
-Sem problemas , mamãe. Volto antes da senhora notar.
Mas espero que ela não conte muito com isso, pois se depender de mim , passarei a vida no encontro de hoje.
***
Aquela sexta- feira está bela , nunca tinha visto um céu tão azul e as ruas tão tranquilas. Ao meu redor as pessoas caminham alegres. Pego o metrô e na minha frente senta um casal bem jovem. Ele pareciam tão apaixonados... do jeito que eu gostaria de estar com o Carlos. Desci na estação que fica a duas quadras do restaurante, confiro meu visual no espelho da escada rolante. Meu coração está disparado, sinto falta de ar, estou virando a esquina que dá para o restaurante. Eu o vejo sentado em uma mesa, distraído. Está exatamente quando o vi no ano novo. Sorrio acelerando os passos , quando penso em acenar, arregalo meu olhos. Elson senta à mesa onde está Carlos. Eu quase infarto de raiva, decido ir embora , quando Carlos acena para mim ,sorridente. Como se não bastasse , ele tinha de vir em minha direção... com aquele sorriso descontraído...com aqueles olhos esverdeados...
- Oi, Dália - diz Carlos sem graça - Que bom que você veio.
-Olá - digo ,irritada. Não consigo evitar e já pergunto - O que o Elson está fazendo aqui?
-Eu o convidei também - responde Carlos dando um tchau para o amigo - Eu vim trazer a Antônia no serviço e aí como tenho de ficar esperando ela sair , chamei o Elson . E , lógico , você também, já que nós sempre ficamos de marcar de sair. Vamos?
Passo por ele , irritada. Aquela não era bem a tarde que eu tinha programado passar com ele. Enquanto ficamos conversando , fico pensando se ele é tão puro a ponto de não perceber as minhas reais intenções. O Elson parecia uma gralha falando sem parar, enquanto eu me mantinha monossilábica. Agredeci imensamente quando o belo dia se tornou ventoso , mostrando que uma tempestade viria por aí.
- Tenho de ir - digo me levantando , apressada. Acho que essa foi a maior frase que disse durante a conversa- Prometi aos pais que chegaria em casa cedo.
-Tudo bem - diz Elson. Ele pisca para mim e diz - Um prazer falar com você.
- Uma pena que você já vai... - diz Carlos, fazendo uma careta decepcionada. Quase desisto da ideia de ir embora quando ele fala - Estava planejando te apresentar para minha noiva. Falo tanto de você para ela que acho que está na hora de se conhecerem.
-Tchau - digo , fria me virando em direção a rua.
Aquilo passou todos os meus limites. Eu simplesmente não consigo ficar mais um minuto perto do Carlos. Como ele se atreve a me tratar como se eu fosse... eu fosse... uma amiga dele. As gotas de chuva começam a cair e eu tenho de correr para chegar na estação. Dentro do metrô, minhas lágrimas de raiva começam a cair. Nunca tinha sido tratada com tanta indiferença por alguém , como fui pelo Carlos.
A minha ira não passa até chegar em casa. Passo pelos meus pais e vou direto para o meu quarto. Arranco aquele vestido idiota e me jogo na cama, socando meu travesseiro como se ele fosse a cara do Carlos.Três meses esperando por ele e nada... mas a raiva ainda permanece, até que decido pegar meu telefone e ligar para o Carlos... Cansei de esperar , tá na hora de jogar a real com ele, mesmo que isso destrua tudo o que eu construi. Ele demora , mas atende e antes que ele diga seu famoso alô , disparo:
-Não sei se você percebeu, mas não quero ser sua amiga,nossa relação nunca será de amigos. Eu quero ficar com você! Então quando você despachar sua noivinha, me liga! Pois ja estou farta desse jogo de gato e rato!
-Dália...-começa a dizer Carlos , mas não me importo. Desligo na cara dele.
Deito na minha cama e respiro fundo. Mesmo que essa abordagem direta , o afaste d emim , não me importo. Aliás , não me importo com mais nada.
***
Um mes depois...
Aquelas um mês foi pior que já tive em anos... Meu orgulho não permitia que eu ligasse para o Carlos e ele não parecia se importar em como eu estava. Então me foquei nos meus estudos e no the sims, deixando meu telefone bem distante de mim. Estava tão distraida que nem notei minha irmã chegar perto da escrivaninha , Valéria toca em meu ombro quase me fazendo saltar.
-Ai que susto , Valéria! - digo colocando minha mão no peito , assustada - O que é?
-Seu telefone está tocando - responde Valéria, séria. Ela estende o telefone em minha direção e no visor o nome do Carlos aparecia. Meu coração dispara, sinto minhas pernas tremendo igual vara verde, tenho medo de atender e ele destruir as minhas expectativas. Sei que deixei bem claro que era para me ligar quando ele estivesse solteiro. Minha irmã sacode o meu celular , impaciente - vai atender ou não?
- Vou sim - respondo arrancando o telefone das mãos da minha irmã. Respiro fundo e atendo - Alô?
- Dália... Quer sair comigo?- pergunta Carlos , nervoso.
- E a sua noiva? - pergunto , orgulhosa.
-Não... existe ... mais ...noiva - responde Carlos bem devagar. Repiro aliviada, mas não digo nada - Se quiser me encontrar , estarei te esperando na Praça Espanha.
A ligação fica muda e fico pulando de felicidade. Dessa vez eu escolho uma calça mais justa preta e uma blusa branca. Não queria me arriscar em me arrumar toda e ficar a ver navios. Saio de casa sem me importar de avisar meus pais , sinto que não posso perder muito tempo.
Pego o metrô , nervosa. E se eu chegar lá e for mentira? E se ele levou algum amigo? E se ele só quer me usar como ombro amigo? Balanço minha cabeça , me recusando a pensar naquelas coisas negativas. Eu conquistei o Carlos , sei disso, sinto isso em cada parte do meu corpo.
Desço do trem e corro em direção à praça. Fico nervosa quando não consigo encontrá-lo. Olho para vários homens que passam , então caminho em direção a fonte , cabisbaixa. Talvez ele já tivesse ido embora... pelo menos era o que eu achava até encontrar Carlos sentado na beira da fonte. Sinto-me aliviada ao vê-lo.Caminho mais rápido, sorrindo. Ele me vê , sorri de volta e se levanta se aproximando.
- Oi , Dália... - diz Carlos , nervoso. Ele não me toca, nem se quer me abraça, apenas aponta para fora da praça dizendo -Já almoçou? Eu escolhi um ótimo restaurante brasileiro para gente ir...TN... se você quiser.
-Aceito - digo admirando seu rosto.
- Você prefere ir de metrô ou de táxi?
-Táxi - respondo, sorrindo.
Caminhamos para fora da praça sem trocarmos uma palavra se quer. Enquanto esperávamos o Táxi, Carlos começou a falar demais, mostrando estar bem nervoso. Ficava mais quando me olha, o que é um bom sinal para mim. Mas eu não estava nem aí para o fato dele ter terminado porque sua noiva estava grávida do vizinho, sendo que eles nunca transaram , muito menos que isso aconteceu há duas semanas , que ele não conseguia se concentrar no trabalho... Então por impulso , chego mais perto e digo:
-Por que você não cala a boca e me beija logo?
Seus olhos quase saltarem de seu rosto diante da minha pergunta. Ele me puxa par ajunto dele, passa seus braços pela minha cintura e me aperta , enquanto seus lábios tocam os meus , intensamente. Sinto minhas pernas bambearem, perco a noção de onde estou. Definitivamente , é o melhor beijo que já recebi na minha vida. Ele se afasta dos meus lábios , então eu gemo baixo , fazendo Carlos sorrir. Então o táxi chegou e entramos, ele segurou a minha mão , mas não disse nada até chegarmos ao restaurante.
Pegamos uma mesa do lado de fora para admirarmos a beleza local enquanto tomávamos uma capirinha esperando os nossos pratos chegarem. Conversamos sobre coisas banais. Almoçamos e então decidimos caminhar pela região. Durante a caminhada decidimos conversar sobre nós , nossos planos para o futuro... Então Carlos passa o braço pelos meus ombros e diz:
- Eu não quero um relacionamento sério. Nada contra você, mas eu acabei de sair de um relacionamento de três anos e você sabe o que aconteceu. Não quero passar pela mesma coisa, e depois descobrir que era mentira. Então eu acho melhor a gente só ficar e mais nada.
-Você pode não acreditar , mas nós vamos casar- profetizo , séria. Eu sei que irei me casar com ele, mesmo ele dizendo aquelas palavras.
Carlos ri da minha carae me dá um beijo na testa dizendo:
-Dália, minha doce Dália. Deixe que o tempo decida isso... vamos aproveitar o agora , está bem?
Balanço a cabeça e o beijo, ele prontamente corresponde.Ele me agarra e começamos a dar uns amassos ali mesmo. Só amassos e carícias,durant eum bom tempo. Meu telefone toca e sei que são os meus pais loucos atrás de mim. Ele toca o meu rosto e diz:
-Você precisa ir embora.
-Sim, mas a gente vai se ver novamente? -pergunto ,curiosa testando Carlos. Preciso saber o que realmente se passa na mente dele.
- Vamos marcar quando tivermos tempo , okay ? - responde Carlos, como eu imaginava , evasivo.
Volto para casa e minha família já tinha saído, o que me dá tempo para pensar na tarde de hoje. Meu sexto sentido nunca falha , sinto que se eu não insistir , não irei vê-lo nunca mais. Eu tinha vencido uma batalha , agora falta a guerra. Preciso conquistá-lo de vez, para que ele me peça em namoro. Depois ficaríamos noivos e finalmente estaria casada com ele. Então noto que eu realmente estou apaixonada por ele, como nunca estive por ninguém e isso me dá forças para seguir com minha missão: Casar com Carlos Salazar.
***
No dia seguinte enviei uma mensagem para ele perguntando que horas ele ia almoçar e onde. Ele me responde que ia almoçar em casa as 13:30, perfeito para o meu plano. Então eu tive de calcular o tempo de sair da escola e encontrar com ele em seu serviço, eu saio da escola as 13:00 então tenho somente meia hora para encontrá-lo e arriscar tudo o que tinha para conquistá-lo. Nem consigo me concentrar na aula pensando em meu plano ,pois há o risco enorme de mesmo eu fazendo isso ele manter sua posição e não querer nada comigo. Aí não teria mais nada o que eu pudesse a fazer e ser impotente não é bem minha posição favorita.
Mal toca o sino e eu já estou correndo para o portão de saída. Pego o metrô e fico olhando meu relógio , minuto a minuto. Praticamente empurro as pessoas à minha frente para poder passar. Corro as últimas quadras que faltam para chegar ao serviço de Carlos. Quando viro a esquina do seu serviço ele já está saindo, corro em sua direção e seguro em seu ombro. Carlos se vira e me encara assustado.
-O que está fazendo aqui, Dália? - pergunta, surpreso.
-Eu... vim te fazer uma surpresa- digo ofegante. Eu me ajeito e sorrio para ele - Eu tenho uma surpresa para você.
-Além dessa? - pergunta Carlos , curioso.
-Sim- respondo ,mordendo os meus lábios. Seguro em seu braço e caminho ao seu lado - Vamos almoçar, estou faminta. E quero provar sua comida.
-Tudo bem -responde Carlos sorrindo.
Chegamos na casa dele que é bem arrumada para quem mora sozinho.Ele me leva direto para a cozinha e começa a preparar o almoço.
-Então , qual é a surpresa- pergunta Carlos,curioso.
-Só depois do almoço - respondo mordendo meus lábios.
Ele nem come direito a comida, na verdade nem eu , ambos estamos ansiosos para que o almoço termine. Enquanto ele vai se arrumar para o serviço , coloco a louça na máquina e vou para a sala. Olho para o relógio e sei que tenho apenas 20 minutos para fazer ele mudar de ideia sobre o namoro. Assim que ele entra na sala bato com as mãos no sofá , o fazendo sentar ao meu lado. Sento no colo dele e toco seus cabelos, não acredito que estou com ele ali, diante dos meus olhos. Respiro fundo , preciso focar no plano.
- A minha surpresa tem uma condição: se depois do que acontecer hoje você não quiser mais sair comigo, eu te deixo em paz e nunca mais te ligo ou envio mensagens. Porém se você gostar dos meus argumentos terá de considerar a questão do namoro.
Sem esperar uma resposta de Carlos, eu o beijo intesamente. Beijo seu queixo, pescoço e vou descendo até ficar de joelhos na frente dele. Ele se arruma no sofá ,surpreso. Confesso que também estou surpresa com a minha audácia. Abro o zíper da sua calça e ele está me esperando ereto. Sorrio para ele e lambo de cima e pra baixo com apenas a ponta da minha língua. Depois começo a chupar com gosto. A cada sugada , sinto Carlos estremecer. Ele toca os meus cabelos, segurando enquanto segue o ritmo da minha cabeça. Olho para ele mais uma vez, o que o faz gemer. Minha mão o masturba , enquanto a outra acaricia seus testículos. Passo minha língua pela sua glande, como se eu estivesse chupando um sorvete. Lambo sua glande ao mesmo tempo que o masturbo.
Olho para o Carlos , vendo sua expressão de prazer, então acaricio seus testículos com minha língua. Faço uma suave sucção com a boca , o fazendo gemer de prazer. Depois, subo lentamente e colocando seu pênis todo em minha boca. Conforme sinto a ereção de Carlos e sua a excitação, mais aumento o ritmo. Ele puxa meu cabelo com mais força, urrando de prazer...Então ele se enrijece tudo gemendo alto ,mostrando de fato que estava a muito tempo sem saber o que era aquilo. Ele goza e para sua surpresa engulo sem receio. Vou ao banheiro enquanto ele se recompõe no quarto. Aquele foi o meu todo ou nada e sei que estou nas mãos dele agora.Quando saio , ele está sentado no sofá ainda desnorteado com tudo o que aconteceu. Eu paro em sua frente e digo , meiga:
-Você tem uma semana para pensar no assunto e me dar uma resposta definitiva.
Caminho até a sua porta e vou para minha casa, pensativa. Fecho meus olhos rezando para que ele reconsidere e fique comigo , pois eu não sei mais viver sem ele.
Cheguei em casa e agi como se nada tivesse acontecido. Não contei nem para a minha irmã o que eu tinha feito, mas ela sabe que tem algo errado, pois decido não jantar. A minha sorte é que ela não me pergunta nada a respeito. Estou quase dormindo quando meu celular celular toca: Carlos aparece no visor. Atendo apressada , com o meu coração na boca. Não acredito que ele já tinha a minha resposta:
-Olá , Carlos - digo tentanto mostrar tranquilidade.
-Olá , Dália -responde Carlos , nervoso - Eu estou ligando para avisar que... eu vou aceitar sua proposta.
Duas semanas depois ele veio até a minha casa e me pediu em namoro para o meu pai. Venci a batalha...
Apesar de o Carlos ter aceitado namorar comigo, no fundo, eu sabia que era só para não ficar sozinho já que passou tanto tempo namorando a outra. Apesar dele dizer que adora minha companhia e o faço sempre ficar de bom humor. Almoçávamos juntos diariamente, saía da escola e esperava por ele em sua casa. Porém, como o título do capítulo diz, eu só tinha vencido a batalha.
A ex sogra dele era muito apegada e mesmo sabendo que ele estava namorando, tinha a audácia de ir limpar a casa dele e mudar os lençóis. Pensei que com o tempo fosse parar, mas...
Já tínhamos dois meses de namoro, quando um dia estávamos dando uns amassos no sofá, após o almoço, quando escuto alguém abrir a porta. Carlos praticamente saltou do sofá indo em direção a porta. Escuto a voz de uma mulher falando com o Carlos e me levanto indo em direção a cozinha.
- Carlito, espero que goste dos salgadinhos, fiz especialmente para você - diz a mulher que tinha idade para ser a mãe do meu Carlos. E que história era aquela de chamá-lo Carlitos? - Agora limparei sua casa, está uma bagunça, meu jovem.
- Obrigado pelos salgadinhos, Dona Mercedes, mas hoje não será necessário. - diz Carlos bem baixo, com certeza para que eu não escutasse.
- Não seja tão humilde... A casa está precisando de limpeza - diz Mercedes se afastando.
Aquela conversa fez o meu sangue ferver... Eu que sou a namorada dele há dois meses não tenho a chave da casa dele e a ex sogra tem? Ele ainda agiu como se estivesse sozinho! Eles não sabem mesmo quem é Dália Penedo. Ajeito meus seios em meu sutiã e apareço só de calcinha e sutiã, escorando meu braço na porta, bem sensual, enquanto os dois me encaram perplexos.
- Amor, demorará muito? - pergunto, provocante. Carlos quase tem um treco, enquanto Mercedes me encara, vermelha. Olho para ela dos pés a cabeça e digo - Já que sou a nova namorada dele, quando sair deixe a chave porque da próxima vez posso estar completamente nua.
Mercedes não sabia onde enfiar a cara, se bem que tenho uma ideia de um ótimo lugar, bem como Carlos.
- Desculpas pelo incômodo - pede Mercedes entregando a chave para Carlos e saindo.
Fiquei observando ela sair com um sorriso quando me virei e deparei com a fúria de Carlos que está com as mãos na cintura.
- O que foi? - pergunto me fazendo de inocente.
- Você não precisava ter sido tão vulgar - acusa Carlos.
- Talvez se você tivesse me apresentado como sua namorada, eu não precisava ter feito isso - rebato, irritada. - E já que ainda estamos falando disso: por que ela ainda tem a sua chave se estamos juntos há dois meses? Por que ela tem e eu não tenho?
- Então você fez isso devido a uma chave? - pergunta Carlos, nervoso.
- Não. Fiz isso porque estou cansada de vê-la circulando por aqui, livremente, enquanto eu tenho de esperar por você. Será que você não percebe que ela só te trata bem porque você é um capacho para ela, ou melhor, para elas? - acuso, brava. Aponto-lhe e continuo - Estou cansada de ser sua namorada só entre essas paredes enquanto lá fora não existo.
- Dália... -diz Carlos, indicando que estou chegando ao seu limite.
- É verdade! Está muito cômodo para você namorar comigo aqui, dar uns amassos, mas é só isso. Eu não quero só isso! Quero mais e mereço mais! Eu já lhe disse que vou me casar com você, Carlos! Então acho bom você começar a pensar em ir para o próximo passo se quiser tocar no meu corpo da próxima vez.
- Por favor. Dália, é melhor você ir. Você passou de todos os limites se acha mesmo que sou esse tipo de cara. - retruca Carlos, chateado.
- Não precisa me mandar embora porque eu realmente já estava pensando em ir - respondo indo em direção à sala. Visto meu uniforme da escola e viro para ele dizendo - Se você não é esse homem, prove.
- Como assim? - pergunta Carlos sem entender.
- Case comigo. - proponho olhando intensamente para ele. Não espero uma resposta imediata ao constatar o olhar chocado de Carlos. Caminho em direção a porta e saio, irritada.
Enquanto caminho em direção à minha casa, fico pensando se é realmente assim que terminará meu namoro com Carlos. Depois de tudo o que eu fiz, uma briga idiota destruiu tudo.
Entro em casa e agradeço por meus pais não estarem na sala, mas não tenho a mesma sorte quando entro em meu quarto e me deparo com Valéria jogando no computador. Deito em minha cama ainda pensando na discussão que tive com Carlos.
- Está tudo bem? - pergunta Valéria deitando ao meu lado. Ela me abraça e deixo algumas lágrimas teimosas caírem - Vocês brigaram não é?
- Carlos é um tolo- exclamo, irritada. Olho para minha irmã e sorrio tentando tranquiliza-la - Não se preocupe, ainda irei me casar com ele.
- E ele sabe disso? - pergunta minha irmã, receosa.
- Agora ele sabe - respondo, enigmática.
***
Já tinham se passado alguns dias e Carlos nem ao menos dava sinal de vida. Eu orgulhosa não fui atrás também. Na verdade, eu já estava pensando em outra forma de conquistá-lo novamente.
Estávamos todos sentados à mesa jantando quando a campainha tocou. Depois de alguns minutos nossa empregada apareceu para avisar quem era:
- Senhor Ramon, desculpa interromper, mas o senhor Carlos Salazar gostaria de falar com o senhor. Disse ser importante.
Meu pai, Ramon Penedo, me encara, curioso, mas tudo o que ele encontra é a surpresa de ouvir o nome de Carlos.
- Licença a todos - diz o meu pai se levantando. Apesar de o meu pai ter seus cinquenta anos, ele ainda é o tipo de homem que colocava medo só pelo andar. Seus cabelos grisalhos tocam a ponta da gola de seu terno preto. Papai mesmo em casa, sempre anda bem arrumado. O que é compreensível já que meu pai é um diplomata. Levanto com ele, que me encara surpreso. Então ordena - Sente-se Dália.
- Ele é o meu namorado e tenho o direito de ir com o senhor, pois também tenho interesse em saber do que se trata.
- Dália. - repreende minha mãe à minha audácia, mas ela sabe que sou tão teimosa quanto o meu pai.
- Deixe-a, Dulce - diz meu pai se virando. Eu quase corro para alcançar meu pai. Ele me olha de relance, dizendo - Espero que isso não seja mais uma de suas artimanhas.
Meu coração dispara conforme ando ao lado de meu pai, assim que Carlos aparece, sinto que meu coração parou bem como minha respiração.
- Boa noite, senhor Penedo - diz Carlos, bem pálido, mostrando estar nervoso.
- Boa noite, Carlos - responde meu pai com cara de poucos amigos - Vamos à minha sala.
Meu pai vai à frente, deixando eu e Carlos o seguindo atrás. Encaro Carlos que evita o meu olhar. Então me aproximo e pergunto quase soprando:
- O que está fazendo aqui?
- Provando - responde Carlos passando na minha frente.
Meu pai se senta em sua poltrona vinho, enquanto fuma seu cachimbo. Sento no sofá ao lado de sua poltrona, deixando Carlos sozinho no sofá a nossa frente. Sua perna está agitada, bem como suas mãos que se torcem. Ele respira fundo e então dispara:
- Senhor Ramon Penedo, venho esta noite pedir a benção e a mão de sua filha, Dália Penedo em casamento. Sei que parece precipitado, mas quero que saiba que as minhas intenções são as melhores e mais respeitosas possíveis.
- Bom, você está certo meu rapaz - responde meu pai para com o cachimbo em seus lábios - Vocês estão namorando há dois meses, duvido que estejam preparados para esse tipo de relacionamento.
- Estou. - respondo, prontamente recebendo o olhar incrédulo de meu pai - Estou pronta para me casar com Carlos. Sei o suficiente para me casar com ele.
- Carlos... você poderia deixar eu e minha filha a sós? - pergunta meu pai, o que não é bem uma pergunta e sim uma ordem.
- Sem dúvida, senhor Penedo - responde Carlos se levantando.
Assim que meu namorado saiu, meu pai se levantou de sua poltrona e parou em minha frente. Colocou suas mãos em sua cintura e ficou me observando demoradamente.
- Antes de eu considerar o pedido daquele jovem apaixonado, preciso saber se isso é sério ou só uma brincadeira de mau gosto. - diz meu pai, pensativo.
- Bom, ele disse que tem a melhor das intenções e acredito nele - respondo, séria. - Não acredito que esteja de brincadeira.
- Sei que ele não está, mas preciso saber da sua parte: isso é realmente sério para você ou é mais uma de suas brincadeiras? Você está levando esse compromisso a sério ou daqui a pouco cansará e mudar de ideia? - pergunta meu pai, impiedoso. Suas palavras me ofendem. Nunca pensei que meu pai pensava isso de mim - Porque aquele rapaz está disposto a se casar com você, agora quero saber se isso também existe aí dentro de você.
- O Carlos é o único homem com quem eu consigo casar - respondo, sincera. Lágrimas rolam pelo meu rosto provando a verdade das minhas palavras. Amo Carlos e nada poderia mudar isso.
- Tudo bem - diz meu pai, sério.
Ele vai até à porta e deixa Carlos entrar na sala. Dessa vez, meu namorado senta ao meu lado, suas mãos geladas seguram as minhas. Meu pai para em nossa frente e diz:
- Eu só pensarei em dar a minha benção se a Dália me prometer que terminará seus estudos e entrará em uma boa faculdade.
- Por mim tudo bem - diz Carlos sorrindo-me que não estou nenhum pouco feliz em saber disso. Fuzilo meu pai com os olhos.
- Mas isso demorará muito - alego, irritada. - O senhor não pode exigir isso de mim.
- Ou você promete, ou não terá casamento... a escolha é somente sua, Dália Penedo. - diz meu pai, imponente.