Era uma casa nova. Nossa antiga havia sido roubada. Em meio aquela história toda de fulano foi na casa do irmão do fulano, eu entendi que alguém comprou essa casa o mais rápido possível e que o bom era por ela ser toda mobiliada.
Eu realmente não lembro como tudo começou. Pareço que sempre foi normal essa vida e só com o amadurecimento fui percebendo que minha vida não era normal.
Levei o ventilador para o quarto. Depois de um pequeno trabalho tentando fazer ele funcionar, dei uma olhada para a janela. Em meio aquele matagal todo, havia passagens pelos matos que passam dos meus ombros. Franzi o cenho para aquilo, me debrucei no peitoril e olhei direito. Suspirei e me afastei.
Me disseram que na primeira vez foi como se o mundo estivesse tremendo. O céu tinha sido tomado por várias luzes e estrondos. Explosões só sentiam seu impacto.
Fui para sala onde meus parentes conversavam sobre essa invasão maluca na nossa antiga casa.
Todas essas janelas abertas me davam paranoia. E o que será que o ser que comprou essa casa pensou ao morar em um lugar cercado de mato? Isso não facilitaria para os bandidos?
Me agachei para pegar a vassoura esquecida no chão quando ouço alguém.
- Olha ali, não é um?
Estranhei.
- Olha ali, mano, é um.
Arqueei uma das sobrancelhas. Estaria falando de um marginal? Mas com essa calma toda, ou ela estava tentando ser discreta?
Me levantei e vi. Era um carro vermelho. Em cima do porta luvas haviam pés descalços e se via uma cabeça um pouco para trás, cabelos grandes. Era uma mulher?
Não parecia ser alguém que fazia mal. Mas meu pai já estava com uma arma apontada. E me perguntei o que caralhos era aquilo que parecia uma vareta pintada de preto.
Me pus do lado dele e encarei a direção da mira.
Eles invadiram. O único adulto que eu enxergava era o cara, que descobri que não era mulher, entrando e se destacando pelo ar autoritário e nada trabalhoso. Ele tinha um sorriso de lado, roupas todas couradas e correntes.
O resto parecia estar no ápice da adolescência. Havia um garoto branco e loiro de cabelo Black Power que parecia ser o braço esquerdo do garoto de preto, com braços para trás e sério. Os outros pareciam tudo ter um ar desdenhoso nos mirando aquelas armas. Todas aquelas armas contra a do meu pai. Em algum momento conversando entrei si para os outros se espalharem, descobri que seus nomes eram Gabriel e Eliakim.
No morro onde morávamos não era anormal ver adolescentes mirando armas em qualquer canto que passasse, até crianças tinham as suas, mas estes, vestidos com essas roupas de combate, com essas habilidades de armamento, com certeza estava fora de tudo que já vivenciei nessa vida.
No segundo seguinte, a arma que meu pai segurava havia sido arrastada perto de mim, me levantei e olhei eles. Minha família estava sob a mira daqueles malditos.
Olhei para o lado e vi um garoto vindo em minha direção. Rapidamente, pequei aquela arma e mirei nele.
Ele riu:
- Você não tem coragem de atirar.
Fiquei com raiva nessa hora, por duvidar de mim. Mas eu realmente não iria atirar. E se eu fizesse, talvez seria o gatilho para aqueles malditos puxarem os deles e explodirem os miolos dos meus pais e minha tia.
Então, como se fosse um cassetete ou uma vara de vassoura, bati nele. Droga. Eu era bom naquilo. Muito bom que cheguei a me surpreender e pegar confiança rapidamente.
E eu peguei confiança muito rápido em uma situação dessas. Atingia nele até ele quase bater as costas em um de seus companheiros. Mirei a arma e segurei em posição enquanto me movia para o lado e ameaçava a atirar.
Eles parecem até me ignorar. Mas havia entendido a mensagem.
Fora o garoto moreno que ordenou o loiro de Black Power a atirar no irmão dele, que eu ameacei atirar.
Espera, ele ia atirar no próprio irmão?
Sai dali. Só não entendia o porquê eles hesitavam em mirar uma arma em mim.
E foi nesse momento que comecei a temer mais ainda aquela situação. Duas coisas se passavam pela minha cabeça. Primeiro, eles queriam me dizer que não se importavam com um dos integrantes e que poderiam mirar a arma em mim.
Segundo eles, por algum motivo, não possuem propósito algum de matar, o que contraria absolutamente tudo o que me disseram durante todos esses anos.
Eu tenho sangue de luz. Nunca entendi o que isso quer dizer, porque já me cortei e me feri várias vezes e em nenhum momento meu sangue refletiu no sol, ou iluminava no escuro. Mas meus pais diziam que pessoas queriam me matar porque eu era valioso e ninguém poderia ter uma pessoa tão valiosa.
Havia outro garoto fugindo. Eu não fazia ideia de onde ele saiu. Saiu correndo por entre os garotos vestidos com roupas de combate, ele apenas com um moletom roxo e os cabelos desgrenhados, e parou na minha frente com olhos frenéticos.
A briga, os tinidos, param por um momento. Ambos de nós nos encaramos, o que foi estranho, porque aquela simples troca de olhar nos fez perceber que estávamos no mesmo patamar naquela briga. Ouço um grunhido por perto, e alguns praguejos em seguida após perceberem algo e ficarem sem reação por alguns segundos.
- Ótimo, ninguém reparou o desgraçado. – disse o moreno sério.
- Era para Mathias e Anthony estarem reparado ele. – disse Eliakim, o black power loiro.
Dois outros garotos com roupas de correr ziguezagueiam por entre os soldados. Mas antes mesmo de entender o que está acontecendo, o garoto na minha frente some.
Só então percebo. Nesta casa não há forros, então há a possibilidade de andar por cima das paredes e assim entrar em outros cômodos da casa com facilidade. E lá em cima, está o garoto de moletom roxo. Dei um jeito de fazer o mesmo.
Parecíamos trapezistas andando por cima das paredes, tentando confundir a todos que atravessavam as passagens olhando para cima, curiosamente ninguém apontando a arma para nós. Algum deles, o de cabelo Black Power olhando para trás, um garoto de cabelos trançados e um negro com luzes brancas.
- Sério que vocês bobearam pra ele fugir? – Eliakim pergunta.
- Você queria o que? Ele veio do morro das florestas. – disse o rapaz de olhos puxados e cabelos trançados. Eu não sabia se ele era o tal Mathias ou Anthony mencionados agora pouco e nem tenho tempo de descobrir.
Em um momento olhei para eles e em outro olho para frente e não vejo mais ele, o carinha de moletom roxo, e quando olho para baixo, flagro o exato instante do seu pouso, e não penso em repetir.
Quando faço isso em silencio, me deparo com ele pondo o dedo por cima dos lábios. Nós dois estamos dentro de um dos quartos.
E não faz sentido o imediato silencio. Não sei o que aquele garoto pretende, ou qual o plano dele, pois eu só me vejo sem saída.
Mas então entendo. Pediu atenção quando afastou o dedo dos lábios e mirou para a janela. E por um momento achei que ele quisesse que avancemos para janela, mas depois entendi que o grupo provavelmente estava nos cercando.
"Então qual o seu plano?" Mecho a boca.
Ele apontou para o alto. Eu fiquei confuso. Ele queria que voltássemos para o alto.
Eu não entendi, só fui atrás dele. Ele conseguia pular como um macaco por entre as paredes e ficava fazendo isso por vários lugares até que ouvi um rangido e o teto despedaçando, e então ele distraindo mais tiros e eu escapei pelo buraco e depois ele.
Nossos pés trovejaram pelos telhados e várias explosões soavam em nossos calcanhares nos pressionando a pular.
Ele subia o muro. Eu escalei ele. Mas não adiantou. O garoto moreno, que se pusera sério, ria com desdém de nós saindo caminhando de trás da casa após seus soldados correrem. Não tínhamos saída. Estávamos no chão novamente.
O garoto de moletom, assim chamarei ele, parecia meu companheiro de fuga. Em algum momento, ele elaborou um plano, que fez com que enganássemos eles e fizessem eles seguirem direções opostas. Nos deu um pouco de tempo e estávamos escalando o muro para outro quintal.
Pousamos quando ouvimos o grito.
Corremos e pulamos o outro.
Estavam correndo quase dentro do mato.
- Aonde vamos?
- Eu tenho uma ideia. Vamos circundar tudo isso. Sei de um lugar atrás de casa que podemos ver nossas famílias. Mas temos que no camuflar aqui.
Tentamos. Mas estávamos tão desesperados, que a onda que aparecia pelo mato era muito evidente e quando vi uma onda atrás de nós, achei que fosse tarde demais,
Ouvi eles gritando quando nos viram. Corremos tanto, que nos fez ir em direção contrário do plano. Não havia mais mato e estávamos indo em direção a ribanceira.
Freamos.
Olhei para trás.
Aqueles risos desdenhosos e malditos.
Mas... por que em algum momento algo parecia engraçado?
Era estranho. Em um momento não me encontrei mais fugindo deles.
Parecíamos todos moleques rindo, gargalhando. Eu não gargalhava. Mas sentia.
Estávamos meio afastados. Mas quando olhei, cadê ele?
Eles olharam para trás também.
Havia coisas diferentes.
- Eu sempre gostei dessa parte. Vocês confusos, a gente sem explicar nada porque sabemos que é inútil. Mas vamos lá.
Ele encarou o rapaz de moletom e apenas nega com a cabeça, como se também não soubesse o que vem.
- Eu não sei o que essas pessoas que criaram vocês disseram a vocês, mas vocês não são o que pensam e nós não queremos mata-los.
Vinco ainda mais a cara, passando meus olhos nesse momento por todos os caras com quem lutei, Caju e pirulito, Mathias e Anthony e Gabriel e Eliakim. Todos adolescentes, com armas em suas mãos, como os garotos do morro prontos para atirarem em qualquer um.
- Patrício do morro de São Patricio, e Juscelino do morro dos macacos, vocês possuem o sangue de luz, vocês foram roubados da máfia do sangue de luz desde que nasceram e nós estaremos lhes enviando de volta à verdadeira casa de vocês.
- Patrício, 17 anos. Ex campeão de campeonato estadual de capoeira e parkour. – Gabriel diz lendo as informações em um tablet. Ergue os olhos para mim naquele penteado transversal e impecável. – Não podemos esquecer também que é um filho adotivo dos morros. – ele riu. – Tem como ocupação principal barman do próprio morro, um dos mais proativos e carismáticos. Principalmente com a clientela feminina. – ele assoviou.
Então ele se movimenta ao meu redor, a fim de me tirar alguma reação sabendo todas as minhas informações pessoais.
- Não só trabalha como Barman, como também enfrenta campeonatos de capoeira do submundo, conhecido pelos apostadores como o Trevo. – Gabriel soltou uma risada tão alta que senti meu corpo gelar. Odiava me sentir nervoso pelo desse desgraçado que quis socar a cara dele. Mas sua distância oscilava muito.
No entanto...
- Já terminou o seminário? – Bati palmas. – Parabéns, você deve ser o queridinho da professora que sempre chupa no fim da aula. E nunca vai saber se é mérito ou uma puta. – virei o rosto para encará-lo, bem do meu lado que nem vi. – Tudo isso pra contar minha vida, achei que fosse me revelar a suposta verdade sobre meu passado. VOCÊ É LOUCO, SEU IDIOTA?
Os olhos deles esbugalharam como se tivessem quebrado, mas os fechou após alguns segundos do choque, afastou um passo e aquela distancia parecia perfeita.
- Se não querem me matar, então me deixem ir.
- Você é idiota ou o que? Acabamos de falar que você foi sequestrado e mentiram pra você. – disse Caju, sem eu saber se aquela contorcida em seus lábios era um riso ou uma armação de rosnado.
- Ou a pancada que te dei. – disse, deixando meus pensamentos escaparem, mas arrancando mais um rosnado dele. Seu amigo, pirulito, segurou em seu ombro, como se o acalmasse.
- Vamos logo. – disse Gabriel. – Você vai saber a verdade. – ele já se virava como se imaginasse que eu fosse segui-lo.
- E se eu não quiser?
Quando ele virou o rosto para saber se eu disse mesmo aquela frase, foi o momento perfeito para meu tronco ir para baixo e minha perna girar em uma meia lua direto em sua cara.
E eu já estava pronto para enfrentar sem medo da morte, apenas com ódio de um adolescente metido querendo controlar a minha vida quando ouço o clique de uma arma e sentir o metal em minha testa, me paralisando ofegante e suado no mesmo instante. O garoto de moletom roxo que estava quase aproveitando para correr com minha distração, congelou. Eu não faço ideia de quem está controlando tudo como se tivesse poderes do tempo, mas com certeza deve ser muito mais forte que Gabriel.
Apenas desvio os olhos para as pernas da pessoa, o que me confunde por um momento, ao me deparar com pernas nuas e douradas, um par de botas negras, e subindo um pouco meus olhos, uma saia escura cor de vinho.
E quando ergo os olhos para cima, olhos afiados como a luz do sol no meu rosto me encaram de cima, debaixo de um chapéu fedora vinho Borgonha e roupas da mesma cor.
Sou escoltado de volta para a minha casa, meus familiares estão amarrados e suas bocas tapadas. Não pode ser, penso, passando na frente deles. Estas pessoas realmente me enganaram por todos esses anos? Em vez de me protegeram, estavam apenas me roubando?
Só não entendo o que eu poderia ter de tão valioso.
O balcão que antes seria colocado potes de café e copos, estava enfileirado de seguranças e ela no final, mexendo um liquido verde com a colher, sem me encarar.
Eu realmente nunca vi uma garota igual esta. E isso está me fazendo questionar seriamente se ela é tão barra pesada com trejeitos finos como de um Deus ou uma patricinha sonsa que se acha com um exército de garotos com algum bagulho doido no sangue.
- Patrício, o nome? – perguntou ela erguendo os olhos para Gabriel a sua frente, como se minha presença fosse invisível.
Essa diaba sonsa.
Seus olhos afiados desviaram para o lado e baixo, antes de erguê-los para abrir num suave sorriso. – Acho que o trevo se limita diante de mim.
Acho que Gabriel acabou de ser superado em quem é mais metido.
- O que querem de mim? Por que eu seria tão valioso? Não entendo.
- Vai descobrir se for com a gente. – ela propôs. – Nunca se perguntou porque eles nunca realmente mostraram do que você é capaz?
Franzo minhas sobrancelhas, querendo olhar para trás e perguntar a eles mesmo isso, mas sustento ela.
- Eles querem o ouro dentro de você só para eles. – disse, se levantando e me encarando diretamente nos olhos dentro daquele rosto triangular. Algo neles disparou um brilho sincero. Talvez só como uma mecha soltou do rabo de cavalo e emoldurou suas sobrancelhas negras em contraste com a pele alva.
- E vocês não?
Ela soltou um riso de asco.
- O que você é temos dezenas. – Ela disse. Mas revirou os olhos, estendendo a mão. Um dos seguranças pôs uma arma na mão dela, e ela esticou o braço diretamente para a cabeça dos meus pais.
- Te convencer é difícil. Além de ser muito teimoso e audaz, mas se tem mesmo um pingo de consideração por esses ladrões, acho melhor vir comigo.
Tão tentador, mas olhando para a carinha dela, tão traiçoeiro.
Antes de tomar uma decisão, ela sente um vento ríspido em seus cabelos com meu riso de asco.
- Tem dezenas de mim, mas ainda quer a mim. Só quem pensa assim são traficante. E muito provavelmente o que tem dentro de mim, deve ser uma cocaína poderosa.
Gabriel e os outros são como eu, nem chegaram a ameaçar minha família. Eu podia enfrentar muito bem eles, mas essa garota é cruel como eles, como aqueles assassinos do morro, mas esta, esta é afiada e fina como vinho.
Além do mais, o que falei para ela fez tanto sentido que, em vez de assustá-la, me assustou.
E quando menos esperei, estava adentrando uma das maiores casas que já vi na minha vida.
- Aqui a gente segue um cronograma rigoroso. O treinamento nunca deve ser atrasado ou negligenciado. - Dizia Eliakim, precedendo Patrício pela borda da piscina enquanto vários guarda costas pulavam para a água ao som do apito.
Eliakim e Caju, que ainda se recuperava dos traumas do nosso primeiro encontro, me guiaram até um lugar que, de alguma forma me fez sentir seguro. Havia alguns homens com silenciadores em seus ouvidos e vários números a distância, 20, 15, 10 metros.
O estalo foi como espocar algo dentro do meu ouvido, mas nem mesmo me tremi quanto a isso. Estava muito bem habituado a sons de tiros, e saber que posso aprimorar disparos é um treinamento muito bem-vindo.
Eliakim sempre se virava para me encarar nos olhos quando falava comigo, ao contrário do líder, que até aquele momento não sabia qual era dele. Sempre misterioso, sempre desconfiado, mas algo que apenas eu notava que ele escondia por toda aquela seriedade e escárnio.
- Como você pode bem ver, esse é o estande da família.
- Meu lugar preferido. – Caju diz dando uma arqueada travessa nas sobrancelhas. Ignoro facilmente.
- Para um guarda costas, o mínimo é saber ter uma boa mira. – Eliakim volta a falar, cortando a fala desnecessária do amigo.
Pow
Nem piscamos.
E para completar, uma academia muito bem instalada de equipamentos, Caju para na minha frente, me surpreendendo pela postura ao dar seus esclarecimentos.
- Você também precisa sempre estar a par a sua forma e condicionamento físico. – então não resiste em curvar aqueles lábios malditos. – ou nunca vai escapar da minha vingança.
Desvio para olhar ao redor, como se não desse importância.
- Espero que durma de olhos abertos. – o doido continua mirando em minha direção e então solto um riso pela língua. Eliakim só faz se virar e continuar a andar, dando a deixa para seguirmos ele. Então acelero um pouco os passos para andar do seu lado, esbarrando nos ombros de Caju.
- Eu bem que gostaria de repetir as pauladas.
Caju gargalha como um maluco.
O elevador, era como um vidro de uísque. Me sentia dentro de estrelas cujas cores se limitavam ao dourado. Lembrava muito bares ricos.
Os tiros poderiam não me surpreender, mas não poderia deixar de me deslumbrar por aquele brilho.
- A gente tem uma regra. Não podemos ficar fora por muito tempo, uma vez que entra para a família, é como ter pais novos pra quem deve sempre dar permissão.
Fecho os olhos nesse momento, respirando fundo.
Esse comentário foi totalmente desnecessário, mas eles não se importavam com meu incomodo.
Viro a cara para trás, direto para Eliakim.
- E se eu quiser espairecer de tanto ver a cara do Caju?
As paredes e teto eram um verdadeiro jogo de vidros, alternando entre o dourado, marrom avermelhado e azul turquesa esverdeado, entrando em uma sala onde se encontravam outros sangues de luz.
O reflexo dessas luzem batiam em seus rostos como pinceladas de tinta.
No centro da sala havia uma estátua totalmente negra de uma ave enorme. Erguia uma das asas como se quisesse rasgar a cara de alguém e sua boca estava aberta como se quisesse rugir ferozmente.
- Devemos sempre respeitar o símbolo, o símbolo da garra e da autoridade.
Deixo bem evidente meu suspiro exasperado, arrancando vários olhares em minha direção.
- Igual uma família mesmo, autoritária e exigindo respeito pelo bradar.
- Sua língua está muito afiada pra quem acabou de entrar, novato. – diz Caju.
- Hum. Gosta de cortes profundos. – digo, dessa vez encarando desafiadoramente em seus olhos. – To começando a desconfiar que você gosta mesmo de apanhar. – então dou dois tapinhas em seu rosto. E parece que, de alguma forma, esse foi o gatilho para seus olhos esbugalharem e ele querer me dar um soco, mas desvio passando por debaixo de seu braço e já metendo um tapão na nuca dele, pra ele sentir mais raiva e se sentir mais humilhado.
Eu não esperava que Eliakim fosse bradar Um "Ei" como se fosse pra chamar minha atenção. Eu parei rapidamente comprimindo uma risada.
Então ouço um clique. E isso silencia mais ainda o ambiente.
- Eu sei bem como você se comportava como um animal lá fora, mas isso vai mudar aqui. – diz uma voz, e demoro um pouco para reconhecer aquelas vibrações, confirmando ao me virar, me deparando com Gabriel.
Uma ruga autoritária se firmava em seus olhos, boca se fechando como se acabasse de abri-la num rugido e o braço esticado na minha direção como na grande ave no centro do salão.
Por um momento, mas bem pequeno, penso em tirar aquela arma de sua mão.
E isso atiça em mim depois de passar a paralisia da vibração de sua voz através de meu corpo, como se uma ave gigante tivesse dando esse efeito.
Quando tento investir meu ato, ele, num ato de raiva, chuta meu estômago e minha bunda desliza pelo chão, humilhado.
E lá de baixo, vejo todos os garotos mirando suas armas pra mim, dessa vez para terem certeza de que eu não vou investir mais nenhum movimento.
Todos contornados pelo teto de luzes quadrados de uísque.
E, finalmente, ergo minhas mãos em rendição, comprimindo um riso.
E foi como ver uma grande onda atravessar todos os seus corpos, me fornecendo uma visão de distorção de suas forças por uma onda.
Foi o chefe deles, de cabelos grandes e enrolados, aqueles ombros quadrados tomando espaço por entre os soldados do sangue de luz.
E eu sabia, naquele momento que aquele homem poderia também ser um sangue de luz.
Talvez o primeiro originado pela família.
E aquilo faz retornar em meus pensamentos do que sou feito, e como surgi nesta vida.
- Além de respeitar o símbolo da família, - diz, mirando os olhos em mim, e enfiando as mãos nos bolsos afastando o casco, olhando para Gabriel. – também valorizamos a paz entre os integrantes da família.
- Sem brigas, sem discórdias. Uns protegendo os outros. – completa Gabriel, que encarava o rosto de todos, enquanto estes tentavam não se manter cabisbaixos e eu encarava diretamente nos olhos daquele cara.
Pelo menos entendi naquele momento que Gabriel parecia ser exemplo do grupo.
- Não podemos transformar a luz vermelha em luz do caos. – profere Eliakim.
A vareta de peruca olha de um para o outro, assentindo como se concordasse, então para mim. E sinto seu olhar para mim como se fosse mais convidativo.
- Este ambiente não é uma favela. – grita, com seus olhos em mim, e mesmo sem um sorriso em meu rosto, sinto ele desmanchar. Aquilo me atingiu. Todos escutam em silêncio. – Se irá participar desta família de agora em diante, espero que nunca mais esqueça as regras que seus colegas lhe passaram.
Dessa vez, nenhum membro meu teima em respondê-lo. Se eu abrisse a boca, meu beiço tremeria. O silencio e a estagnação do meu sangue eram meu único suporte.
Como um alivio para meus membros, ele tira os olhos de mim e passa pelos outros garotos, como se perguntasse visualmente se havia deixado tudo claro.
- Voltem para suas missões. – ele ordena, eu me levanto desorientado, e no segundo seguinte, passos soam em várias direções, mas seu pescoço toma uma única, para mim.
- Enquanto você, - ele diz isso e passa pela minha frente, me fazendo virar o pescoço e destravando meu calcanhar logo em seguido.
A vista de seus ombros quadrados e os cabelos ondulados molhados ocupavam minha visão, parecia nem que ele estava se dirigindo a mim mais.
Um espaço estava posicionado em um guarda roupa marrom avermelhado e a polidez brilhava pela luz projetado acima. Na frente do espelho, tinha um homem de cavanhaque, com os braços erguidos enquanto um senhor fazia suas medidas.
- Em nossa família, todos sempre andam vestidos sob medida.
- E se resistir a um tiro...
- O que? – o interrompo pelo susto daquela frase.
- Após muitos perderem a vida para não levar um, há uma enfermaria disposta 24 horas. - então vira o rosto para mim um momento. - do jeito que você está disposto 24 horas, 7 dias por semana. - engulo em seco. Ele não perdia a oportunidade de jogar na cara o peso de meus atos e falas - Pra isso serve a família.
Então ele segue pelo corredor. Eu posso definir até mesmo o som de nossos passos como polido. Ritmados, agradáveis e sem riscos à poluição sonora.
- E se eu morrer, todos morrem.
A luz não machucava meus olhos. Dentro dos abajures, se limitavam como tinta nas paredes, projetando nelas e delas para o ambiente. Tudo bem trabalhado, bem organizado.
Imaculável.
Como a luz.
Me despeço dele após um breve turismo pela casa infinita como um universos, entro finalmente no quarto que seria meu novo lar.
Entrei naquele quarto sem esbanjar surpresa nenhuma, mas admitindo num leve arquear de sobrancelhas. Era estiloso, paredes metade forrada de madeira e outra num branco leitoso, e luzes nas laterais do teto. O sofá cinza e baixo com quadro acima que pela visão periférica parecia uma arte abstrata, mas depois vi que se tratava de fotos e imagens de projeteis grampeadas em um quadro.
O que me chamou atenção também era o travesseiro amarroado e jogado num canto do sofá e uma mesa cinza um pouco arrastada do centro. Além de uma mesa de escritório logo a frente da porta com papeis espalhados.
Um balcão separava essa sala de uma cozinha bem sofisticada, em que o cinza transitava para o marrom. Um retângulo azul claro estava pendurado bem em cima.
Onde poderia haver imagens de uma obra de arte ou familiares estavam armas. Uma fileira de armas, armas jogadas no ar, como se pessoas pulassem, e perto de uma porta na cozinha, uma arma rosa e uma preta entrecruzando seus canos, me fazendo imaginar um curioso enlace amoroso.
Solto um riso.
- Armas enrustidas. – digo para mim mesmo, me virando ao ouvir um barulho e me deparar com os dois garotos que deixaram o sangue de luz de capuz roxo fugir.
Como as duas armas, ambos estavam com os braços envolto do ombro do outro, sorrindo bem perto, enquanto saiam do barulho pingando com toalhas rosa e outra preta saindo da cintura.
O garoto de olhos puxados com longas tranças encostou sua testa na do outro e empurrando até me ver e seu sorriso sumir. Ele parou com o parceiro parando logo atrás.
Ergui o dedo, num gesto confuso, para ele.
- Deixa eu adivinhar, você é arma rosa e ele a preta.
O rapaz negro arqueou uma das sobrancelhas e eu deixei um riso áspero sair.