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Não Mais a Vítima

Não Mais a Vítima

Autor:: Astra
Gênero: Moderno
Eu estava grávida de oito meses. A vida com Marcos parecia perfeita, mas um som de metal a rasgar mudou tudo. A dor rasgou-me, enquanto o meu marido, Marcos, ignorou o meu sangramento. Os seus olhos fixaram-se em Lúcia, a sua "amiga", sem olhar para mim. Ele a socorreu primeiro, um arranhão versus a minha agonia. No hospital, perdemos o nosso bebé. Marcos e Lúcia, com o pai dela ao lado, acusaram-me, chamaram-me "histérica". Ele culpou-me pela perda, pela tragédia que eu não causei. Senti o vazio, mas também uma nova liberdade. Como era possível tanta frieza? Priorizar um arranhão sobre a vida do próprio filho? A raiva gelou-me a alma ao descobrir que ele dava secretamente fortunas à Lúcia. O verdadeiro golpe? Mensagens antigas revelaram: eu era "temporária" e o bebé uma "complicação" para o seu "amor de alma gémea". A dor virou gelo puro. Eu não seria mais a vítima. Era hora de reescrever a minha história e fazê-los pagar cada traição.

Introdução

Eu estava grávida de oito meses.

A vida com Marcos parecia perfeita, mas um som de metal a rasgar mudou tudo.

A dor rasgou-me, enquanto o meu marido, Marcos, ignorou o meu sangramento.

Os seus olhos fixaram-se em Lúcia, a sua "amiga", sem olhar para mim.

Ele a socorreu primeiro, um arranhão versus a minha agonia.

No hospital, perdemos o nosso bebé.

Marcos e Lúcia, com o pai dela ao lado, acusaram-me, chamaram-me "histérica".

Ele culpou-me pela perda, pela tragédia que eu não causei.

Senti o vazio, mas também uma nova liberdade.

Como era possível tanta frieza?

Priorizar um arranhão sobre a vida do próprio filho?

A raiva gelou-me a alma ao descobrir que ele dava secretamente fortunas à Lúcia.

O verdadeiro golpe? Mensagens antigas revelaram: eu era "temporária" e o bebé uma "complicação" para o seu "amor de alma gémea".

A dor virou gelo puro.

Eu não seria mais a vítima.

Era hora de reescrever a minha história e fazê-los pagar cada traição.

Capítulo 1

O som de metal a rasgar foi a última coisa que ouvi antes do impacto.

A minha cabeça bateu no volante. Dor. Depois, um silêncio pesado, quebrado apenas por um zumbido agudo nos meus ouvidos.

Abri os olhos. O cheiro a queimado e a fumo enchia o carro.

Ao meu lado, o meu marido, Marcos, mexia-se. Ele parecia bem, apenas atordoado.

"Marcos..." a minha voz saiu como um sussurro.

Ele não me ouviu. Os seus olhos já estavam focados no banco de trás.

"Lúcia! Estás bem? Fala comigo!"

A sua voz estava cheia de pânico, um pânico que ele não tinha por mim.

O cinto de segurança cravou-se na minha barriga de grávida de oito meses. Uma dor aguda e terrível começou a espalhar-se.

"Marcos... a minha barriga... ajuda-me."

Ele finalmente olhou para mim, mas o seu olhar era rápido, impaciente.

"Espera, Sofia. A Lúcia está a sangrar."

Olhei para trás. Lúcia, a sua amiga de infância que ele tratava como uma irmã, choramingava. Tinha um arranhão na testa. Um fio de sangue escorria-lhe pela têmpora.

Eu olhei para baixo. As minhas calças estavam a ficar molhadas. Um líquido quente. E vermelho.

"Marcos, estou a sangrar. O bebé..."

Ele já tinha saído do carro. Abriu a porta de trás e tirou Lúcia com um cuidado infinito.

"Calma, eu estou aqui. Vou chamar uma ambulância para ti."

Ele pegou no telemóvel. Eu vi-o a ligar para o número de emergência, a sua voz urgente a descrever o arranhão na testa de Lúcia.

Ele não disse nada sobre a sua mulher grávida que estava a sangrar no banco da frente.

A dor na minha barriga tornou-se uma facada. Era uma cólica, forte e violenta.

Com as mãos a tremer, peguei no meu próprio telemóvel. O ecrã estava estalado, mas funcionava.

Disquei o número de emergência.

"Preciso de uma ambulância. Tive um acidente. Estou grávida... e estou a perder muito sangue."

A minha voz quebrou.

Do lado de fora, ouvi a voz de Lúcia, fraca e manhosa.

"Marcos, obrigada. Se não fosses tu... eu acho que morria."

Marcos acalmava-a com palavras doces, palavras que ele não usava comigo há anos.

Eu desliguei a chamada e deixei o telemóvel cair.

A sirene que se aproximava era para mim. Eu tinha chamado por mim mesma.

Naquele momento, na ambulância, com a dor a rasgar-me por dentro, eu soube. O meu casamento tinha morrido na berma daquela estrada.

Capítulo 2

No hospital, o mundo era branco e cheirava a desinfetante.

A cara do médico era séria. As suas palavras eram diretas, sem rodeios.

"Lamento, Sofia. O trauma do acidente foi demasiado forte. O seu corpo entrou em trabalho de parto prematuro. Perdemos o bebé."

Eu não chorei. As lágrimas não vinham. Apenas um vazio imenso, frio, instalou-se no meu peito.

A minha mãe, Helena, chegou pouco depois. Os seus olhos estavam vermelhos. Ela abraçou-me, e o seu corpo tremia com soluços silenciosos.

Eu continuei a olhar para a parede branca.

Horas mais tarde, Marcos apareceu.

Ele não veio sozinho. Lúcia estava com ele, com um pequeno penso na testa. Ao lado deles, estava o pai dela, Ricardo, o mentor e chefe de Marcos.

A cara de Marcos era uma máscara de irritação.

"Sofia, que raio de drama foi este? Chamar uma segunda ambulância? Fizeste uma cena!"

A minha mãe levantou-se. "Uma cena? A tua mulher perdeu o vosso filho, Marcos! Onde é que tu estavas?"

"Eu estava a ajudar a Lúcia! Ela estava em choque, magoada!"

Lúcia começou a chorar. "A culpa é minha. Eu não devia ter vindo convosco. Sofia, desculpa..."

Ricardo pôs um braço protetor à volta dos ombros da filha.

"Não peças desculpa, querida. Não foi culpa tua. Sofia, tens de entender. Marcos fez o que qualquer pessoa decente faria, ajudou quem precisava mais."

Quem precisava mais? Um arranhão na testa contra uma hemorragia que me roubou o meu filho?

Olhei para Marcos. Pela primeira vez, vi-o com clareza. Não o homem com quem casei, mas um estranho.

"O bebé morreu, Marcos." A minha voz estava morta, sem emoção.

Ele vacilou por um segundo. Apenas um segundo.

Depois, a sua cara endureceu de novo. "Eu sei. É uma tragédia. Mas acidentes acontecem. Tu estavas a conduzir depressa demais."

A culpa. Ele estava a colocar a culpa em mim.

"Saiam." Eu disse, a minha voz baixa mas firme.

"Sofia..." começou Marcos.

"Eu disse para saírem. Todos vocês. Fora do meu quarto."

A minha mãe ficou ao meu lado, uma leoa a proteger a sua cria.

Ricardo olhou para mim com desprezo. "Vamos embora. Ela está histérica. Quando te acalmares e fores razoável, falamos."

Eles saíram. Marcos nem sequer olhou para trás.

Fechei os olhos. O vazio no meu peito tinha agora um nome. Chamava-se liberdade.

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