Sophie Cassano
Meus dedos passam pelas estantes da biblioteca, eu não creio que finalmente estou aqui. Faz dois meses que estou estudando nessa universidade e até agora parece um sonho. Eu não sei o que fez o meu pai me deixar estudar aqui, mas seja o que for, foi algo realmente forte. Talvez a minha mãe tenha movido alguns pauzinhos, mas isso não importa, o importante é que eu estou aqui e finalmente vou estudar o que eu sempre quis, nutrição. A biblioteca está tão repleta de livros, de todos os tipos, até os que eu não posso ler, mas leio mesmo assim. Quem precisa saber que por trás da capa de Romeu e Julieta, eu estou lendo um livro hot pesadão.
Continuo andando pela biblioteca, divagando em meus pensamentos, concentrada somente no livro que estou prestes a ler, espero que ele seja bom e me deixa totalmente excitada. Se alguém da minha casa, ao menos soubesse o que leio, com toda a certeza do mundo, eu seria deserdada, eles tirariam a minha verba para livros. Continuo viajando pela biblioteca, até que trombo com alguém, meu peito embate com força contra o peito de alguém, alguém não, o muro revestido de aço. Antes que o meu corpo, vá de encontro ao chão, dois braços enormes me encaixam, me colando em seu peito. Duas safiras azuis me encaram, arrancando o meu fôlego.
É ele, o anjo da última vez, o mesmo que não me deixou cair no shopping, ele está me segurando novamente. Seu perfume forte e masculino, preenche todo o ambiente, ele exala testosterona pura, ele é másculo, seu queixo quadrado e sua face angelical. Ele é tão lindo que é impossível não ficar hipnotizada com sua beleza, será possível amar alguém a primeira vista? Se fôr possível, eu estou apaixonada por ele.
Mikhail Makialov [dezoito anos atrás]
- Seu merdinha! Seu desgraçado, você devia estar morto, junto com a sua mãe, você só me dá trabalho - a bruxa maldita berra de raiva, não entendo por quê barrar tanto comigo? Eu sou uma criança, não tenho culpa de nada.
Mamãe morreu faz dois meses e eu não paro de pensar que devia ter ido com ela. Ela não deixaria esses desgraçados fazerem nenhum mal para mim, eu estaria seguro em seus braços.
- Tia eu sinto muito, não consegui pedir muito dinheiro hoje, está muito frio - minha voz de criança não passa de um chiado.
Ela quer que eu saia para pedir esmola num dia frio desses, eu sou uma criança russa, nascida nesse inverno escaldante, mas o que ela está me pedindo é sem igual, eu não vou conseguir pedir dinheiro assim. As pessoas nem sequer saiem para fazer actividades.
- Não interessa! Você é o filho do Pakhan da Bratva, seu pai tem muito dinheiro, a vadia da sua mãe não fez nada de bom na vida, nem mesmo tirar dinheiro daquele desgraçado, você é a porra de um peso para mim - ela continua gritando, provavelmente esteja drogada.
Com certeza, para estar tão exaltada assim, ela se drogou. O bruxo não chegou ainda, se eu correr e me esconder no quarto, talvez eu escape da surra de hoje. Os ferimentos da última vez ainda estão fortes em meu corpo e eu não posso sofrer novamente. Preciso me esconder. Me aproveitando da distração dela, corro até o quarto e me escondo em meu pequeno canto. Um buraco que abri para escapar das surras deles. O lugar é escuro, cheira a urina, mas é muito melhor que ficar vulnerável na sala ou no quarto, eles provavelmente vão se drogar e descarregar em mim. Meu pequeno corpo não suportará mais maltratos.
- Onde você está Mikhail? Venha cá anjinho, você não pode se esconder para sempre - a voz do demônio se faz presente no quarto, deixando o meu corpo trémulo e assustado.
Tremo de medo, meus órgãos não me obedecem, meu coração bate freneticamente e meus rins param de funcionar. A urina desce do meu corpo e molho todo de tanto medo que tenho dele.
- Mikaaaaaa! Venha cá, eu prometo só te queimar duas vezes, não vai durar muito tempo - o demónio da volta pelo quarto, ele parece um felino atrás de sua presa.
O demónio procura por mim embaixo da cama não me encontra, procura por mim no guarda-roupa e também não me encontra. Seu corpo passa pela pequena fresta do meu esconderijo e eu me encolho ainda mais no buraco. Ele passa por mim, mas fica farejando o ar, ele cheira o ar como se estivesse se deliciando com o cheiro da minha urina.
- Peguei você - o demónio vem até o meu esconderijo e me tira do local abruptamente.
Meu pequeno corpo é jogado contra o chão com toda a força do mundo, meus dedos embatem contra o chão de forma forte ao ponto de morder a minha língua.
- Pensou que fosse escapar? Ah? Você não pode fugir de mim, eu sou seu maior pesado e nunca vou deixar você em paz - o demónio rasga as minhas roupas e me deixa despido para ele.
Ele acende o cigarro, traga um pouco e põe as cinzas em meus olhos, a cinza provoca uma dor excruciante que, é logo substituída, pela dor do cigarro aceso entrando em contacto com a minha pele. Ele queima as minhas costas, sem se importar com o meu grito, ele continua queimando as minhas costas até que a dor, me deixa tão cansado que desmaio.
[...]
Mikhail Makialov [dezoito anos depois]
Os malditos pesadelos sempre não me deixam dormir em paz, eles castigam a minha mente vezes sem fim, para me recordar do que eu sou feito e quem sou eu. Depois de cinco anos treinando, eu finalmente fui escolhido para ser um dos soldados da Bratva, a máfia do meu pai. Eu só vim aqui com um e único objectivo, me vingar deles e voltar para as sombras. Eu só preciso ficar próximo dele, olhar nos olhos dele e tentar encontrar o porquê de, ele ter deixado a minha mãe sozinha num momento tão difícil como aquele. Ele simplesmente apagou nós dois de sua vida, escolheu a esposa e o filho e eu e minha mãe, fomos rejeitados, deixados na sarjeta e comendo o pão que o diabo amassou.
- Vocês ouviram? O Pakhan Aleksander vai se casar com a filha mais velha, da Cosa Nostra, não acredito que vamos nos unir aos ratos italianos, se o Pakhan Nikolai estivesse bem, nada assim estaria acontecendo - os instrutores falam todos desesperados.
Parece que o meu irmão mais velho, vai assumir o lugar do nosso pai, não que isso me importe. Eu não me importo com quem ocupa o lugar dele na chefia da Bratva. A minha vingança é contra Nikolai Petrov, eu não tenho nada contra Aleksander, ele é meu irmão e não vejo o porquê de envolver ele, na minha vingança. Minha mãe sempre falou que Nikolai não sabia sobre mim, mas isso é praticamente impossível, o Pakhan sempre sabe de tudo o que acontece no território dele, como é que ele não soube sobre seu filho bastardo? Ele foi um covarde e não quis assumir suas responsabilidades de pai.
- Mikhail, você foi o melhor de todos os nossos cadetes, você será encaminhado directamente para o Pakhan Aleksander - meu instrutor fala orgulhoso.
Estou tão satisfeito com isso que, se não fosse pela minha fama, estaria sorrindo. Ele nem imagina mas está me colocando no lugar onde eu sempre quis estar, perto da família Petrov, para tentar entender o que eles têm que eu e minha mãe não tivemos para sermos escolhidos por ele.
- Uhm! Anjo sangrento você está nos deixando, espero que se recorde dos velhos amigos - meus colegas se emocionam por mim.
A minha face nem sequer muda de expressão, para mim não altera em nada na minha vida, eu só tenho uma e única missão, encontrar Nikolai Petrov e fazê-lo pagar todas as vezes que gritei até perder os sentidos.
- Caramba, você nem sequer se emociona, cara você é louco - outro colega meu reclama.
Eles querem que eu grite? Pule de emoção? Para quê? Emoções são uma série de coisas desnecessárias na minha vida, não preciso disso para mim, elas não alteram em nada na minha vida, muito pelo contrário, elas só me fazem perder tempo.
- Vamos comemorar e comer algumas putas, tudo por minha conta - outro o idiota fala.
Os idiotas me arrastaram até uma boate da Bratva, está cheio de putas com peitos para fora paracem cadelas no cio, se esfregando umas nas outras. Esse ambiente me enoja, nem entendo o que estou fazendo aqui.
- Oi bonitão, o que acha de dar uma volta num lugar mais reservado? - uma voz totalmente nojenta, sussura em meu ouvido.
A desgraçada se atreveu a encostar em mim, sem a minha permissão, ela vai morrer.
- Vamos - falo sem rodeios.
Puxo a desgraçada até um dos quarto nos fundo da boate, ela vai pagar por tocar em mim, sem a minha permissão. Quem ela pensa que é? Ela se atreveu a manchar a minha pele com sua presença repugnante. O sexo para mim, não passa só de uma necessidade fisiológica, é algo sobre dois corpos entrando em contacto, não tem nada de emoções nem vontade. Eu nem sequer consigo gozar em alguém, nem sequer consigo olhar alguém de frente, eu prefiro que elas fiquem de costas para mim, porque assim eu não tenho que finger prazer.
Sophie Cassano
O clima em casa tem andado muito estranho, eu não sei o que está acontecendo, eles nunca me contam mas seja o que for é algo realmente grave para provocar uma discussão entre os meus pais. Alguma coisa relacionada a cosa Nostra e a Bratva o meu pai sempre me fala para ficar longe de russos, como se isso fosse algum dia acontecer, pessoas normais da minha idade não conseguem sequer chegar a um metro de mim, quem dirá um russo, as chances de isso acontecer está entre um em milhões.
- Acordou cedo hoje, o que houve caiu da cama - minha mãe entra no quarto com seu sorriso costumeiro.
Ela é uma mulher muito elegante, calma, doce como um anjo, alegre. Para todas as pessoas que convivem conosco, ela é a pessoa mais feliz do mundo, mais eu sei que tem algo que aflige o coração dela. Ela guarda um segredo, eu não sei qual, mas é algo muito grave ao ponto de pintar seu rosto com uma sombra de tristeza, mesmo que seu sorriso seja o mais lindo e sincero. Eu me recordo do primeiro dia em que ele veio em nossa casa, eu tinha cinco anos, não tinha começado a falar ainda, assim que vi seus olhos cheios de tristeza, iguais aos meus, eu pensei que ela fosse um anjo, falei minha primeira palavra que foi mamãe. Mesmo sabendo que não era ela.
Eu não cheguei a conhecer a minha mãe pessoalmente, ela morreu ao me dar a luz, meu pai nunca me culpou mas as outras crianças sempre jogaram na minha cara.
- Oi mãe, como dormiu? Parece estar animada hoje - cumprimento com um sorriso enorme nos lábios.
Estou de frente ao espelho organizando o meu cabelo, tenho que fechar um acordo com a universidade de Roma, para que eu estude de casa. Infelizmente, ser a princesinha da Camorra tem muitas desvantagens. Uma delas é ser tratada igual a uma prisioneira.
- Eu dormi maravilhosamente bem, estou muito animada e você também vai ficar já já - ela me abraça por trás.
Parece que a notícia é realmente boa para mim, nem parece que a casa está um caus. O sorriso nos lábios da senhora Isabella Cassano é realmente assustador de tão lindo que é, ela aprontou ou vai aprontar alguma que vai deixar o papai com os cabelos em pé.
- Uuuuuuhm! O que será minha mãe, estou ansiosa, fala logo - me viro de frente para ela compartilhando da mesma animação que a dela.
Isabella Cassano, me solta dá algumas voltas no meu quarto sorrindo igual uma hiena do Simba, até que, fala o que tanto esperei.
- Bom! Eu, sua linda e incrível mãe, convenci o rabugento do seu pai, a te deixar viajar para estudar em Roma - minha mãe solta a bomba, pulando igual a um coelho.
Meus olhos esbugalham-se de emoção, eu não posso crer que ela conseguiu isso, como é que ela convenceu Matteo Cassano a me deixar estudar em Roma, eu sempre estudei de casa, sempre, nunca fiz coisas sozinha, sempre faço acompanhada por milhões de seguranças e agora, eu vou poder realizar o meu sonho de estudar em Roma e sem a sombra dele para me atrapalhar, eu terei a chance de viver como uma jovem normal de vinte e um anos.
- Mãe! Eu não posso crer, a senhora é a melhor mãe do mundo, aaaaaah! Não posso crer que conseguiu isso - abraço minha mãe com todas as minhas forças, ela é simplesmente a melhor mãe do mundo, a melhor de todas.
Ela conseguiu o impossível, conseguiu convencer o meu pai a me deixar viver como uma pessoa normal. Solto seu corpo e damos voltas no quarto gritando e festejando com isso.
- Vamos comer que temos que organizar suas malas, você precisa de roupas novas, pois, por quatro anos você vai viver como uma jovem normal - minha mãe me puxa até a sala.
Descemos as escadas sorrindo e falando sobre todas as possibilidades para mim, sobre todos os lugares que vou visitar, sobre todas as lojas em que poderei fazer compras. Todos os museus e bibliotecas que vou visitar. Eu vou finalmente passear em Roma sem medo de levar um tiro na cabeça. Nos sentamos na mesa, nos serviços ainda animadas e fofocando até que o meu pai surge para interromper o nosso bate-papo.
- Bom dia, o que as mulheres da minha vida estão fofocando? - meu pai da um beijo na minha testa e dá um beijo nos lábios da minha mãe.
Ele senta em seu lugar, sua postura altiva e destemida, ele não teme absolutamente nada. Ele é o senhor da Camorra, o senhor do mundo, todos estão a sua mercê.
- Estamos comentando sobre sua decisão magnífica em me deixar estudar em Roma, muito obrigada pai, eu nem sei o que dizer, estou tão feliz por isso - falo animada batendo as palmas.
- Espero que dê tudo certo lá, eu repensei e com a ajuda da sua mãe, eu percebi que estava sendo muito duro em te manter presa aqui - meu pai fala com convicção, minha mãe concorda abanando a cabeça.
Eles pensam que me enganam, eles acham que sou tonta, está mais do que claro que essa mudança de comportamento do meu pai, não foi porque ele é um bom pai que só quer me ver feliz estudando longe dele, eles estão escondendo algo de mim. Essa viagem é só uma forma de me manter o mais longe possível de casa. Parece que não é mais seguro ficar em casa, eu tenho que ficar longe para que eles possam resolver os problemas sem se preocupar com a minha segurança. Talvez eu pense que vá encontrar liberdade em Roma, mas é tudo fachada, talvez eu esteja mais presa lá do que aqui. Nascer na Máfia não é fácil, ainda mais sendo mulher, você nasce com seu futuro já planejado e traçado, você nasce só para casar com alguém, sem amor nem nenhum tipo de sentimento. Eu tive muita sorte por ter pais tão bons. Algumas primas foram forçadas a casar com alguns homens mais velhos, só para garantir uma aliança.
- Obrigada papai, você é o melhor pai do mundo - falo com um sorriso lindo e falso.
Eles acham que sou um anjo, não só eles, todos da Camorra. Eu sou conhecida como o anjo imaculado da Camorra. Mas a verdade é que às vezes eu sinto vontade de desmentir todos eles e mostrar minha verdadeira face. Eles acham que sou uma cabeça de vento que não vê o que se passa a sua volta, mas existe uma vantagem grande em ser uma criança calma. Todos menosprezam você e substimam a sua força. Eu sempre fiquei nas sombras, observando e vendo o que ninguém viu ou vê. Meus pais podem pensar que estão conseguindo me enganar por me mandar para longe, mas eu sei que alguma guerra está por vir. Talvez seja com a Rússia ou a Cosa Nostra, ou quem sabe os dois, visto que eles estão unidos agora.
- Bom! Vamos comer, que você ainda tem de arrumar as malas - meu pai encerra o assunto com um sorriso forçado.
Sua fresa só aumenta ainda mais a minha teoria, eles querem que eu viaje ainda hoje, como se estivesse fugindo. Como eu pensei, seremos atacados.