Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > LGBT+ > Nada Menos que "Clichê"
Nada Menos que "Clichê"

Nada Menos que "Clichê"

Autor:: RF
Gênero: LGBT+
Rachel Fernandes é uma brasileira que se muda para a cidade de Vancouver no Canadá, para realizar seu sonho de passar o tempo no exterior. Em um curso de Francês ela encontra Noah Levinson, um judeu de olhos azuis e cabelos loiros que seria o cara perfeito se não fosse gay, ambos se conhecem de maneira inusitada virando amigos inseparáveis durante sua estadia por lá, mas quando o visto de Rachel acaba, Noah pede Rachel em casamento, e os dois devem estarem presos um a outro por no mínimo dois anos para que tudo dê certo, mas o que Rachel não esperava, era que seu "clichê" começaria assim que conhecesse de maneira inusitada, uma certa morena de olhos azuis, independente e bem sucedida, que também tinha tudo para ser perfeita, se não fosse por sua ambição, desapego e principalmente, a enorme capacidade de mentir. OBS: Plágio é crime!

Capítulo 1 One

Dizem que os romances clichês, são aquelas velhas histórias batidas que na maioria das vezes ocorrem mais na ficção do que na realidade, a verdade é que eu não acho que a minha seja um clichê, mas eu quis chamar sua atenção com esse título, muitos falam mal do clichê mas os adoram lá no fundo, então eu quis ser irônica, e porque também divulgação é o meu ponto forte e eu trabalho com isso.

Meu nome é Rachel Fernandes e eu nasci no Brasil, minha mãe sempre gostou de nomes estrangeiros e registrou meu "Raquel" de uma forma nova que eu até gostei, um belo dia uma funcionária de uma agência de intercâmbio apareceu em uma empresa onde eu fazia curso, mostrando as várias vantagens de um intercâmbio e em especial, um lugar que se tornou a meta da minha vida, o Canadá.

Desde estão sempre tive vontade de sair do lugar onde morava e visitar o lado Norte do continente americano. Eu sou uma Designer Gráfica com boas habilidades no que faço, comecei essa área bem jovem pois apreciava mexer em computação, tomei um curso bastante demorado e com vários programas que hoje em dia nem lembro mais, mas o que importa é que retornei a estudar alguns e acabei me saindo bem.

Com o passar do tempo, achei a oportunidade que eu precisava, meu pai em específico não gostava da ideia de que eu fosse viajar para outro país, mas era um sonho pelo o qual eu queria arriscar, investi em um curso de francês por seis meses na cidade de Vancouver, pois queria aumentar minhas chances de arrumar emprego, e durante esse curso encontrei um belo amigo chamado Noah, ele tinha tudo para ser o "Cara Perfeito" ele tinha cabelos loiros e olhos azuis, seus traços eram perfeitamente delicados e esculpidos como o anjo, ele também era rico e nunca levava nada a sério, era engraçado a forma como sempre fazia piada de tudo, mas como eu disse, ele "Era para ser o cara" porque o Noah era gay. Não que isso me incomodasse, eu morria de vontade de ter um amigo gay e também sou bissexual, mas isso acabava com o coração de muitas garotas que chegavam perto de mim apenas para ganhar uma vaga em seu coração purpurinado. Noah era bem de vida e bem jovem também, nós tínhamos quase a mesma idade, eu vinte e quatro e ele vinte e cinco, mas Noah era tão criança que nem parecia ser o mais velho, além de não possuir um corpo sarado também, os pais do Noah eram judeus ricos que viviam na cidade de Toronto e conservadores, não apoiavam o seu homossexualismo e por isso ele vivia longe. Nosso encontro foi até cômico, eu raramente conversava com alguém ou tinha muitas amizades, eu sou uma pessoa cativante se quiserem me conhecer bem, mas sou muito tímidas para abordagens, então muitas vezes saio como grosseira ou fechada, Noah sentou-se perto de mim sem me dizer nada, apenas: "Você sabe as horas?" Olhei para ele e ele me deu um sorriso, já iria pegar o telefone para conferir o horário mas quando olhei para a bolsa no meu colo, percebi que ele já estava de relógio.

- O que houve com o seu relógio?

Ele fez um dar de ombros para mim e respondeu.

- Nada, só queria conversar mesmo.

- E porque simplesmente não disse "Oi"?

- Aquele grupinho ali disse que se você saísse comigo me dariam cem dólares.

- Tenho cara de troféu?

Eu também podia ter uma ironia ácida quando eu queria.

- Não, mas eles acham que você é um bicho que vai morder e não sabem que sou gay, então resolvi te conhecer.

Olhei para o grupinho que ele havia apontado e vi alguns olhares curiosos sobre nós.

- Vamos fazer um acordo?

- O quê?

- Vou te dar um abraço e um beijo na bochecha, você vai fingir que eu estou pegando o seu telefone e então ganhará o dinheiro dos seus amigos. Cinquenta é Meu!

- Fechado! - Vi ele com um sorriso

Eu me levantei, lhe dei um abraço e um beijo na bochecha, peguei o meu telefone e ele pegou o dele.

- Vamos, diga seu número. - Disse ele

- Era só para fingir...

- Noah! E se vamos fingir, façamos direito!

- Tudo bem. - Revirei os olhos com aquilo, era desnecessário mas ele era gay, então não me importei e trocamos os números.

- Vou ficar ali atrás te esperando.

Eu esperei ele atrás de uma árvore escondida com as costas contra ela, não podia arriscar que ninguém me visse e aguardei uns cinco minutos até ele voltar.

Enquanto eu estava esperando percebi uma coisa, Noah era um rapaz muito bonito, como aqueles jovens não saberiam que ele iria conseguir um possível encontro comigo?

- Trouxas! - Ele estirou a nota de cem.

- Espera! Como conseguiu fazer seus próprios amigos apostarem um encontro, se você faz o tipo de todo mundo?

- Eu menti! Eu sou de Toronto, não tenho amigos aqui, só queria me aproximar de você. - Ele estirou a nota

- Por que simplesmente não disse "Oi"? - Repeti de modo óbvio.

- Não sou normal. - Ele deu de ombros enquanto falava

- Vai querer ou não? - Ele ofereceu o dinheiro

- Poderia ter destrocado não é?

- Pode ficar com o dinheiro todo, eu não preciso.

Estranhei sua generosidade ou até mesmo o quão inteligente ele era de ter armado um tamanho plano como aquele.

- Você é gay, não é?

- Por que? Está interessada? Posso abrir uma exceção para você. - Ele me olhou com olhos brincalhões e percebi o seu tom de sinismo

- Passo!

- Ah Qual é? Você mesma disse que eu faço o tipo de todo mundo!

- Mas isso não signifique que quero um encontro com você.

- Mas poderia...

- Se veio me cantar, sai fora!

- Você é lésbica?

- Não é da sua conta! - E virei as costas

- Eu só estava brincando, eu sou gay.

Virei e olhei de soslaio para ele.

- Háhá Quero só vê!

- Eu não vou achar ninguém para me beijar aqui, então acredite em mim.

- Foi bom te conhecer Noah! - Continuei andando e ele me seguiu.

- Meus pais são judeus e por isso vim pra cá.

- Ah olha só, não estou vendo você utilizar kipáh. - Disse irônica

- Parei de usar quando meus pais não me quiseram mais em casa.

- Sinto muito. Detesto religião, pra mim elas acabam com o mundo.

- Concordo. Já teve alguma?

- Não, pela a graça de Jesus minha mãe nunca me forçou a nada, apesar da família do meu pai ser puramente católica, exceto ele mesmo.

- Legal, ele é rebelde?

- Não, é protestante.

- Oh que merda.

- Não mais que a sua!

Olhei para ele com um rosto neutro enquanto ele começou a rir como se fosse a melhor piada do mundo.

- Você é demais! Qual é o seu nome?

- Fica com o nome que você salvou no contato.

- Mas eu tive que salvar "Garota do curso", porque você não me falou o seu nome.

- Ótimo pra você então. - Dei um sorriso de lado e voltei a andar

- Por favor!

Revirei os olhos

- Se me encher a paciência vou bloquear! Anota aí. Ráchél com ch.

- Quê? Você é estrangeira?

- Rachel para vocês. Sou brasileira.

- Uau! Nunca tive um amigo gringo, uma vez me disseram que as brasileiras tinham bundas grandes.

- É, porque toda mulher aos dezoito anos põem silicone na bunda e os homens são negros e bem sarados com pênis grande. - Disse irônica

- Mas você não tem a bunda grande! - Ele olhou rapidamente para meus quadris

- Sou uma exceção! - Disse debochada

Ele começou a rir de mim

- Você é hilária! Mas é verdade?

- O quê?

- Sobre os homens...

Eu e o Noah éramos loucos e de início não pensei que fosse dar certo, mas vi que duas pessoas loucas se encaixam mais que duas pessoas normais, Noah começou a falar de si e de sua vida, eu era muito curiosa com a religião judaica, pois um dia já tive vontade ser uma, mesmo que não fosse possível, ele também pediu para eu descrever como funcionava o Brasil, eu cozinhei pra ele uma especialidade minha, Estrogonofe de frango e ele gostou, fiz brigadeiro de colher e também mostrei com o comemos cachorro quente.

- Não acredito, o nosso cachorro quente é uma porcaria. Vocês também fazem o molho?

- Não comemos salsicha grelhada no Brasil. E isso é porque você não provou a Coxinha.

Eu apresentei a ele os gêneros musicais que eu gostava: Sertanejo,

- "Agora eu fiquei doce doce doce doce doce, agora eu fiquei do do do doce doce, agora eu fiquei doce igual a caramelo, tô tirando onda de camaro amarelo.."

Rock Nacional,

- "Sentes não saber o que houve de errado, e o meu erro foi crer que estar do seu lado, bastaria, ai meu Deus era tudo o que eu queria, eu dizia seu nome, não não me abandone jamais, mesmo querendo eu não vou me enganar, eu conheço os seus passos eu vejo os seus erros..."

até mesmo Funk neutro e nós dançamos juntos.

- Selinho na boca lá lá lá lá...intimidade doida lá lá lá.. não posso ficar sem..

Funk com palavras de baixo calão mas que eu sabia que ele não entenderia.

- Essa é em sua homenagem!

- "Caralho de Porra que não desce, fica mó estresse e não quer descer...Botei tudo na boca, chupei que nem uma louca, achei que não vinha e quando veio me afoguei, tomei minha proteína nesse drink eu me acabei...Catarro de Porra que não desce e nao quer descer!"

- Essa musica é legal! Do que fala? - Perguntou ele confuso

- De Pênis!

Ele olhou para mim e a forma como eu dançava

- Você é demais!

Quando meu visto estava próximo de ter um fim, incluindo o meu curso, eu sabia que seria a hora de voltar, nessa época eu e Noah ficamos quase inseparáveis, eu até havia lhe ensinado algumas coisas de Português enquanto estudavamos francês, havia descoberto que Noah vivia como programador e sua família tinha um grande mercado de produtos orgânicos e naturais em Toronto, mas meus documentos tinham prazo de validade, e eu já estava tentando preparar um discurso que não me fizesse chorar, fui até o apartamento dele como sempre pois eu morava em um alojamento do curso, já que saía mais barato no pacote do intercâmbio.

- O quê? Isso é uma brincadeira não É?

- Não Noah, eu tenho que ir embora, meu visto é estudantil.

- E quando você volta?

- Eu não sei, uma viagem dessa não é barata.

- Então isso é um não?

- Isso é: Você pode me visitar. - Tentei ser otimista.

- Não vai ser a mesma coisa.

- E o que quer que eu faça? Sou uma turista.

- E se você fosse uma imigrante?

- Quê?

- Você poderia ganhar um um visto permanente para ficar aqui.

- Isso não é possível a não ser que eu fique aqui por tempo com um visto de trabalho, ou me case com você.

Ele olhou para mim e sorriu e aí então notei o que ele havia acabado de pensar, ele se ajoelhou perto de mim e pegou em minha mão.

- Rachel Fernan, você aceita se casar comigo?

- É Fernandes! E não! Que ideia maluca é essa?

- Eu sou um nativo Canadense, você casando comigo ganha residência permanente, eu corro atrás dos formulários de licença do casamento, pago as taxas, nós podemos viajar até Toronto e nos casar na presença dos meus pais. Você fala o inglês bem e o francês já está quase perfeito, suas chances serão ótimas.

- Seus pais são judeus! Se eu me casar com você, nunca mais vou poder pedir o divórcio.

- Não é assim. O marido pode dar o "Get" a sua esposa se assim ela consentir, mas você não é judia, não precisamos nos casar sob as leis judaicas, ou com um Ketubá.

- Ah e você acha que isso vai dar mesmo certo?

- Casar com uma mulher, mesmo que não judia é melhor do que eu ser gay pra minha família.

- Isso deveria ser reconfortante?

- Eu já me acostumei, só estou fazendo isso porque meu pai é um empresário, ele tem contatos e pode nos ajudar.

De início pensei várias vezes em recusar aquela ideia absurda, principalmente depois de pesquisar a respeito, e saber que tinha que ficar com o Noah por dois anos ou meus documentos poderiam ser cancelados, mas vi que durante todos esses meses Noah não era uma má pessoa e eu esperava que não fosse, mais uma decisão que eu arrisquei, e então fomos para Toronto. Conheci os pais deles e eles ficaram surpresos ao saber que Noah havia me pedido em casamento, fiquei impressionada ao ver que Noah era igualzinho a sua mãe, Esther, por isso tinha traços tão delicados e perfeitos, ambos loiros e de olhos azuis, Samuel Levinson, seu pai, nos olhava com um rosto sério desde que havíamos chegado, mas saber que o filho dele estava querendo se casar também o surpreendeu, ele tinha cabelos negros e olhos escuros, uma barba espessa preta, e um kipáh na cabeça, ficava me perguntando, qual era a das trancinhas que eles usavam, uma perto de cada orelha. Noah usou o dia que nos conhecemos como base e incrementando uma história de amor que não existia entre nós, mas era divertida de se ouvir, os dois conversavam entre si enquanto eu e Noah nos olhávamos.

- Sabia que é pecado mentir assim?

- Estou fazendo isso para ajudar ao próximo, Hashém irá me perdoar.

- Aonde fica o banheiro?

- Próximo ao escritório tem um.

Enquanto isso no escritório da casa dele, ao caminho do banheiro ouvi Samuel e Esther conversarem entre si, sobre o nosso futuro.

- Precisamos ajudá-lo querido. - Diz Esther

- Ela é uma estrangeira não judia. De que adianta um casamento sem as leis de Hashém?

- Não podemos cobrar de nosso filho, mais do que ele pode nos dar. Ele já está fazendo as pazes com Elohim, cabe a ele abençoar para que ambos voltem para as leis sagradas. E se isso significa que podemos ajudar, por que não ajudar?

- O que irei dizer aos outros rabinos? Que estou ajudando meu filho a fugir das leis de Deus?

- Não, que está o ajudando a se reconciliar com Deus. Já não basta todo o tempo que estivemos longe dele querido, por favor dê essa chance a ele.

Alguns dias depois com a ajuda de seu pai, Noah conseguiu a licença para o casamento mais rápido do que deveria, e nós viajamos para Toronto outra vez para a realização da cerimônia, Samuel conseguiu um juíz de paz, e Esther me encheu de perguntas sobre minha família e meu modo de vida No Brasil. Noah exigiu que eu usasse um vestido cheio de pompas mesmo em um casamento de mentira, e também comprou um smoking sob medida branco para combinar comigo.

- Seremos os noivos mais lindos de Hashém, morena.

- Acho que vou prender os cabelos.

- Seus cabelos são lindos soltos, eles combinam com o castanho de seus olhos, use uma tiara.

Depois da prova de roupas, Samuel nos levou a sua loja de produtos orgânicos, a loja era enorme e o mais impressionante era que o senhor Levinson estava já fazendo uma rede com elas, olhei para umas ervas que tinha por ali, eram produtos naturais e imaginei se não haveria aquelas ervas recreativas como maconha.

- Ei moça!

Olhei para a funcionária organizando uns aparelhos estranhos e perguntei o que era, ela me explicou que eram vaporizadores, viciados em fumos usavam isso para vaporizar as ervas sedativas como chá verde, e dormirem.

- Aqui vende maconha?

Podem achar estranho minha pergunta mas no Canadá a maconha é legalizada, até turistas podem consumí-las, desde que seja no máximo trinta gramas dessa erva na rua, e é proibido traficar, somente estabelecimentos com autorização do governo é permitido vender a erva.

Pedi para ela explicar como funcionava, e coloquei um pouco da maconha no aparelho, achei engraçado o modo como o aparelho funcionava e comecei a inalar a fumaça, depois pus na boca e tentei puxar, comecei a tossir sem parar.

- Legal ein? - Tossi com o rosto avermelhado.

Comecei a brincar com aquele vaporizador, como se estivesse com cigarro e depois expelir o ar pela a boca, sentindo a onda relaxante da erva, então comecei a cantar.

- Olha A maconha...Maconha...Maconhaaaa - A funcionária começou a encarar meu rosto, eu vaporizei a erva na boca.

Até que o pai do Noah entrou na hora que eu estava brincando de fumante com o vaporizador ao lado do filho dele, e me encarou por longos instantes até eu notar que ele estava lá.

- Senhor Levinson, posso ajudá-lo? - Fala a funcionária e então eu me viro imediatamente

- Maconha....Maconha...Olha a...- Expeli a fumaça sem querer em seu rosto.

- Maconha? - Olho pra ele com um sorriso amarelo, vejo Noah também olhando para mim.

- Além de estrangeira, Sua noiva gosta de fumar maconha? - Pergunta Samuel sério a Noah.

- É...que...É que a Rachel tem problemas de asma!

(...)

O casamento foi realizado no cartório da cidade de Toronto

- Eu Vos Declaro Casados! - Disse o juíz

Eu e Noah demos um lindo beijo encenado e sorrimos um para o outro, mas por dentro eu sentia um calafrio interno.

A festa ocorreu na casa da família Levinson, não tínhamos amigos e eu não tinha meus pais ali, já fazia até um certo tempo que não ligava pra eles, mas me faltava coragem para dizer a eles que eu não iria voltar como o planejado porque estaria casada, o que me surpreendeu era que judeus estavam vestidos e bebendo em um casamento não judeu, e o Samuel pediu que o Noah usasse o Kipáh.

- Por que está usando Kipáh?

- Papai disse que é simbólico, em respeito a nossa religião e as pessoas que estão aqui.

- Confesso que não entendo o porquê das trancinhas.

Ele me puxou para a mesa de som.

- Fiz uma surpresa pra você!

- O quê?

- Lembra da nossa Playlist de Funk?

Olhei para ele sem acreditar

- Vai colocar putaria em uma festa cheia de judeus?

- Minha festa, minhas regras.

Balancei a cabeça em negação

- Você é demais. - Disse a ele.

- Eles não irão entender mesmo.

"Se for dar um selinho na minha boca não pense que vai dar namoro, fica me filmando desse jeito posso te hipnotizar..."

Nós dois demos um selinho

"Selinho na boca lá lá lá intimidade doida lá lá lá"

"Selinho na boca lá lá lá não posso ficar sem"

Achei que ele não iria levar a sério até ouvir a segunda música, ninguém entendia mesmo devido ao idioma, e era engraçado ver as moças com vontade de dançar musicas extremamente proibidas que elas não sabiam, enquanto cantávamos e dançavamos um em cima do outro como dois loucos. Noah havia decorado a maioria das letras, mesmo sem ser fluente no português.

- "Mas o teu... catarro de porra que não desce, fica mó estresse e não quer descer...Catarro de Porra que não desce..."

- Que dança engraçada eles tem não acha? - Pergunta Esther observando

Samuel balançou a cabeça em negação

- Estrangeiros...

- "Ai Ai negão tô com o cu pegando fogo" - Canta Noah

- Tá pegando fogo! Tá pegando fogo! - Cantei alto

- O que será que eles estão cantando? Eu adorei o ritmo - Disse Esther

- "Meu Grelinho de diamante...Vai chupa tudo..No pique do lambe lambe meu Grelinho de diamante" - Eu cantava

- "Chupar teu Grelinho, chupar tua buceta, lá em cima lá em cima bem devagarinho..." - Canta o Noah

Quando estávamos empolgados o suficiente, Noah chamou todos para dançar sem amarras como respeito a cultura brasileira, mal sabia os pobres convidados o tipo de música que eles estavam ouvindo e dançando como crianças inocentes.

- "Faz montagem na minha xereca, soca soca minha tcheca, ela já ta molhadinha que eu sei, machuca machuca chuca seu tralha filho da puta agora finge que é DJ"

As moças dançavam, os rapazes dançavam, até a mãe do Noah passou a dançar, apenas os homens mais velhos como o senhor Levinson observava com um rosto sério.

- "Soca...Soca...Soca.."- Puxei a mãe do Noah para dançar e ela começou a me observar

- Todas as mulheres dançam Isso no Brasil?

- As que gostam sim, é muito normal!

"Soca...Soca...Soca...Foda essa porra direito"

- Bem Exótico isso.

Quando a festa acabou, eu e Noah voltamos para Vancouver e nossas vidas, para minha surpresa Samuel deu um apartamento de presente a nós dois, e eu me mudei pra lá quando o curso acabou, renovei o visto de turista por mais seis meses enquanto a papelada da residência permanente não saía, agora eu estava casada e já tínhamos dado entrada nos documentos, liguei para minha mãe para dizer que não iria voltar e foi mais difícil do que eu havia pensado.

- Eu consegui...uma oportunidade aqui mamãe e agora meu visto será prolongado...Sentirei sua falta, beijos.

- Você não contou pra ela que se casou não foi? - Perguntou Noah se jogando na nossa cama.

- Deveria? Estou me achando agora uma aproveitadora.

- Você não É, foi eu que te ofereci a proposta.

- Eu não deveria ter aceitado! Vou te impedir de se apaixonar por alguém ou sei lá.. se envolver com alguém.

- Não, vamos nos divertir juntos como sempre fazemos ok? - Olhei para nossa foto de recém casados na cabeceira da minha cama, era a foto de nossos rostos loucos e felizes em cima da câmera.

- Gostei dessa foto! Estamos bem loucos nela!

- Esse casamento foi uma maravilha e graças a você.

- Eu não fiz nada Noh, você fez.

- Noh? Acho que vou ter que te dar um apelido agora, Ray. - Demos risadas juntos

- Não enche vai.

- Papai iria tirar meu nome do testamento.- Vi ele baixar a cabeça em desconsolo

- O quê?

- Eu ouvi uma conversa com ele e alguns homens debatendo sobre a mudança no testamento dele, e aí no dia seguinte ele me levou para a nossa loja, ele tirou o meu nome do testamento mas depois mudou de ideia, foi por isso que ele nos levou lá.

- E o apartamento também... - Completei

Ele levantou a cabeça

- Foi tudo graças a você. Os meus melhores momentos foram com você, então aconteça o que acontecer, vamos ser sempre amigos não É?

E então eu o abracei em resposta.

(...)

Dois meses depois, Noah vendeu seu antigo apartamento e investiu em um pequeno escritório de Design para nós dois, éramos sócios e dividimos os lucros meio a meio, nós espalhamos panfletos por toda a cidade e eu comecei a editar para alguns clientes, também sugeri que criassemos um estúdio pequeno ali mesmo para edição de vídeo, a amizade entre mim e o Noah era ainda mais forte e vivíamos cometendo loucuras juntos, ele trabalhava com programação e mais dois meses depois, meus documentos de residência permanente saíram, me permitindo ficar por lá, uma tremenda burocracia sem fim, exames médicos, formulários de preenchimento, vários documentos e taxas de pagamento. Os clientes deles também contrataram os meus serviços para a divulgação de seus programas e serviços em redes sociais, a demanda foi aumentando e nos vimos obrigados a contratar dois funcionários para nos ajudar, o meu era um jovem com jeito de nerd, cabelos castanhos, olhos da mesma cor e óculos, ele era bem tímido mas encontrei vontade em seu olhar, seu nome era Peter.

- Então? - Ele me perguntou ansioso

- Bem vindo a Raynoh Edition, Pett.

- Ah Obrigada senhorita Rachel.

- Só Rachel por favor. Começamos amanhã?

- Sim Sim.

Noah entrou na sala assim que viu Peter sair, sentou-se na cadeira e esticou os pés.

- Pela a cara dele, vi que você o escolheu.

- É, ele é bem dedicado.

- Você tem queda por nerds?

- Não. Só gostei dele.

- De quê você gosta?

- Do que está falando?

- Desde que nos conhecemos não vejo você com ninguém, nem homem, nem mulher.

- Eu não achava que iria valer muito a pena ficar com alguém aqui em uma viagem de seis meses. As pessoas levam a sério as transas casuais por aqui.

- Mas já faz quatro meses desde que nos casamos e nada também... - Ele brinca com a caneta.

- Não é como se eu pudesse dizer: " Eu quero transar mas sou casada, relaxa que somos amigos e ele é gay" Bem Simples!

Ele riu

- Você é demais.

- Ri porque não é com você.

- O problema é seu se precisa dar a ficha toda enquanto caça. Já pensou em um ménage? Seria interessante.

- Você me disse que não era normal e mesmo assim eu não ouvi, que merda. - Ele atravessou a mesa e sentou-se no meu colo

- É o seguinte deusa, vamos hoje juntos beber, dançar como sempre fazemos e nos divertir. - Ele deu um selinho na minha boca

Eu havia ficado hesitante no início mas quando a noite chegou, segui o Conselho dele e nós dois fomos para a balada aproveitar, dançamos e bebemos um com outro até eu cansar um pouco e ir até o bar pedir mais outro coquetel com vodka, Noah continuou na pista dançando, só Deus sabe como ele tinha tanto pique, eu já sentia minhas pernas lamentarem, então decidi descansar por tempo indeterminado, olhei para uns bancos acolchoados no formato de uma roda e um grupo sentado por ali, havia quatro garotas e elas riam de alguma coisa que a do meio apenas dava um breve sorriso e acenava em concordância, continuava a encará-las sem menos saber o porquê, até a que a do meio olhou para mim, de início desviei o olhar, havia ficado com vergonha de ter sido flagrada, voltei a olhar para Noah que se divertia loucamente, olhei de novo para o grupo e meu olhar foi até a do meio novamente, mas pela a segunda vez, ele flagrou o meu olhar, eu baixei novamente e virei o meu corpo para o bar e para a bebida. Tomei com mais rapidez que o normal, olhei rapidamente para o mesmo ponto e ela estava lá com o olhar preso em mim, fiquei morta de vergonha, era incrível como eu não tinha vergonha para certas loucuras, mas tinha para outras. As amigas dela chamaram atenção dela e ela tirou o foco de mim, não sabia se respirava em alívio ou me sentia menos envergonhada, estava longe e o escuro não me deixava notar com nitidez seus principais traços como por exemplo a cor dos seus cabelos. Noah veio até mim, já tão bêbado quanto uma porca e me puxou com seu corpo magro pra perto dele me fazendo dançar, olhei para a direção dela e ela estava me observando, voltei para meu amigo e ele me deu um selinho na boca.

- Noh eu acho...Eu acho que minhas pernas estão cansadas.

- Ray o que deu em você? Está parecendo uma velha, solta isso. - Ele pegou nos meus quadris

Não vendo outra opção, fiquei no embalo com ele, até o mesmo decidir que queria ir no banheiro, voltei para o banco e então vi a mesma moça no balcão um pouco mais longe, ela usava calça preta e um vestido vermelho de seda com alcinha, pude ver um pouco melhor a cor dos seus cabelos e eram castanhos escuros ou pretos, eu não sabia muito bem distinguir, não sabia bem como explicar, mas o jeito dela me puxava até ela como imã, ela exalava sexualidade e charme, ela me flagrou pela a quarta vez naquela noite e dessa vez eu tentei não fraquejar e manter o olhar sobre ela, o barman a serviu, e ela me deu um sorriso, fechei a mão contra o balcão e decidi: "É agora Ráchél! Vai lá!" Peguei o impulso para me levantar, mas quando o fiz, um homem se aproximou dela, ela se levantou e lhe deu um sorriso e o cumprimentou com um beijo na bochecha, então minha mente me condenou, como eu não havia pensado na possibilidade em que ela poderia ter um namorado? Olhei de volta para o lugar e ela não estava mais lá, pedi vodka pura e virei de vez.

- Hey Sua bandida como vira bebida sem mim? - Noah chegou com sua voz de álcool perto de mim

- Você deveria parar de beber, não vai andar se continuar.

- O quê está acontecendo contigo ein? Deixa eu beber.

- Noah você está muito rebelde!

- Você é que está muito chata! - Ele tomou a outra dose que estava na minha mão e bebeu sozinho.

- Não vai dormir na minha cama hoje.

- Tá legal, desculpe. Vamos embora?

- Vou só no banheiro.

Olhei novamente para o círculo que ela estava sentada no início mas nenhum sinal dela, então me conformei que nunca mais a veria mesmo e segui o caminho do banheiro, mas então um desgraçado bêbado se esbarrou em mim e derramou um champanhe todo na minha roupa.

- Ah vai Se foder... - Xinguei em português

Eu gostava de xingar em português, as pessoas nunca entendiam bem o que eu estava falando e isso causava menos problemas.

- Lo siento mucho - Disse o cara bêbado, mas eu queria que ele sumisse.

- Lo siento mucho, no era mi intención - Falou ele enquanto eu tentava secar a minha blusa com a mão e só piorando tudo.

- Eu não entendo espanhol filho da puta lerdo, sorte sua português e espanhol serem parecidos. - Falei em português com raiva

Senti alguém tocar em minhas costas já iria dar um grito

- Vai se foder você também....- Eu virei e dei de cara com ela, meu coração só faltou pular do corpo de susto.

- Quer uma ajuda?

Olhei para o seu rosto dessa vez mais visível, seus olhos eram azuis e ela tinha uma postura madura e elegante, durante muito tempo eu não tinha ficado tão boba quanto eu estava naquele hora, e as primeiras palavras que eu disse a ela foram "Vai se foder você também", ainda bem que ela não havia entendido.

- Você não quer?

- Querer?

- Ajuda? - Ela sorriu e estirou um guardanapo de pano pra mim.

Olhei para o guardanapo, olhei para ela, olhei para o guardanapo de novo e olhei para ela, repeti esses movimentos por mais duas vezes e nem eu mesmo me entendi, eu estava pior que o Patrick no desenho do Bob Esponja.

- Hey Ray...Acho que estou passando mal...- Noah apareceu andando de modo torto.

- Ah merda...Eu...preciso ir. - olhei para o guardanapo e peguei finalmente, acho que a chegada do Noah me fez pensar um pouco melhor.

- Obrigada.

Passei por ela e fui até o Noah antes que ele vomitasse em alguém.

- Por favor segura aí até lá fora.

Ele saiu comigo e eu estava tão agitada com o fato de que o Noah poderia me dar um banho de vômito que nem olhei pra trás, ele chegou pra fora da boate e jogou tudo pra fora e eu chamei o táxi, só então eu reparei, não havia pego número, nem o nome dela.

- ARGHHHH PUTA QUE PARIU! - Falei em português

O Táxi havia chegado e eu joguei o Noah como uma bagagem pra dentro do carro, ele estava bêbado mesmo, não faria diferença. Olhei para o guardanapo e então comecei a me limpar, mas quando o guardanapo molhou percebi uma mancha azul nele e então estirei o tecido, o Noah estava apagando dentro do carro nem se interessou por nada, eu acendi a lanterna do telefone para ver melhor, pois dentro do táxi estava escuro e vi de caneta azul: Seu número de telefone, e em baixo seu nome, Laurel.

Olhei para o guardanapo inacreditada, estava tão irritada que nem havia associado o rosto de quem jogou bebida em mim, era o mesmo cara que havia beijado ela na bochecha momentos antes, ela havia feito de propósito, salvei o número no meu telefone ainda sem acreditar naquilo, e então foi aí que começou o meu "Clichê".

Capítulo 2 Two

Olhei para o número salvo no meu aparelho, uma parte de mim queria muito lhe mandar ao menos uma mensagem, já outra tinha medo. Dizem que o medo vem de inseguranças passadas guardadas em seu subconsciente e sim, essas pessoas estavam certas.

Apesar de uma mente turbinada de ideias maliciosas e safadezas, eu não tinha a mesma atitude na prática, eu me envolvi com poucas pessoas durante minha vida no Brasil, homens e mulheres, mas me apaixonei por uma delas em específico, que me fez repensar na minha autoconfiança em alguém do tipo dela me querer, eu tinha disposição, mas essa péssima experiência me fez criar minhocas da quais não consigo tirar.

- Eu estou um bagaço, deveria ter te ouvido.. - Noah entrou em minha micro sala.

Ele se despojou na cadeira da frente e colocou as pernas na mesa como sempre.

- Deveria ter ficado na cama.

- Estou com uma ressaca do diabo.

- Quero café!

- Traz pra mim?

- Está de ressaca, tem certeza que cafeína vai ajudar a sua cabeça a melhorar?

- Eu praticamente estou vegetando, preciso de algo para devolver meu pique.

- Você precisa dormir Noah, volta pra casa, está legal?

- Não posso te deixar aqui...Temos que selecionar mais um funcionário...

- O Pett veio trabalhar hoje, ele me ajuda com o que eu precisar.

- Por que você estava estranha ontem?

- Eu? Estranha?

- Sim, você não se divertiu como sempre faz.

- É claro que sim Noh, que negócio é esse?

- Olha, eu podia estar chapado mas não sou bobo, você só curtiu de início, depois ficou pior que essa ressaca na minha cabeça.

- E o que eu queria que fizesse? Deixasse você se matar de tanto beber, fala sério, até você concorda.

- Por que você demorou tanto pra ir no banheiro? Quem eram aquelas pessoas?

- Um doente derramou bebida em mim só isso, e alguém tentou me ajudar.

- Senhorita Rachel? - Peter entra na minha sala.

- O que eu disse sobre isso Pett?

- Desculpe Rachel, sobre a seleção...tem alguns candidatos aqui.

- Ah eles são com o Noah, diga que ele ficou doente e que vai atender amanhã.

- NÃO! EU ESTOU BEM!

- Faça o que eu estou mandando Peter.

- Sim senhora. - Peter fechou a porta

- Eu podia fazer isso.

- Com essa cara De que um boi pisou em Você? Vai pra casa Noah.

- Me deixa em paz Rachel.

- Argh Droga você é teimoso ein?

Me levantei da cadeira e então o puxei para que ficasse em pé.

- Vamos pra casa, vou cuidar de você.

- E o escritório?

- O Pett resolve!

- Ele acabou de ser contratado.

- É só ele marcar quem quiser falar comigo e editar o que ele souber. Agora vamos.

Sai com o Noah pendurado nos meus braços e então avisei ao Peter.

- Hey Pett, vou cuidar da ressaca do Noh, volto quanto puder. Consegue cuidar de tudo?

- O que devo fazer?

- Diga que eu estou ocupada e fala que só dá para eu atender amanhã, e se não tiver fazendo nada, adianta aqueles vídeos pra mim. Meu número está numa agenda dentro da gaveta.

- Ok!

Arrastei o meu amigo pelos elevadores enquanto chamava um carro, passamos alguns minutos na calçada até ele chegar.

- Acho que precisamos de um carro.

- Estava esperando um pouco mais para comprarmos um. - Diz ele.

Quando o carro parou, nós entramos e então seguimos o caminho de casa, joguei Noah no sofá e fui para cozinha.

- Vou fazer uma coisa que eu amo comer todo dia pela manhã.

- O quê?

- É uma mistura de ovos, com recheio de pão, peito de peru, sheddar e cebola.

- Você come cebola crua?

- Eu adoro cebola, você não tem noção.

- Cebola dá gases e mal hálito.

- Cebola não me dá gases, só se for a sua bunda que está frouxa, e quanto ao hálito, eu não me importo.

- Isso não tem nada a ver mocinha! Você que têm manias esquisitas.

- Então está bom. - Dei de ombros.

- Você anda descalça o tempo inteiro.

- Em minha região natal, é muito normal as pessoas andarem descalças o tempo todo, somos conhecidos por ter o "Pé no chão" literalmente.

Comecei a preparar o que eu apelidei de torrada de ovos.

- É incrível como comida desse tipo pode ser barata, um requeijão sabor sheddar no Brasil custa um rim.

- É uma pena pra vocês.

- Nós não comemos só arroz e feijão, mas se depender do governo, nem isso os pobres comem, já que a comida que nós mesmos produzimos, apenas sobe.

Coloquei o prato na mesa

- Vem.

Ele veio, olhei para o pão e então me lembrei que faltava o molho de Ketchup.

- Aí...Agora assim.

Ele me olhou confuso

- Lambusou tudo com Ketchup, não gostei.

- Come logo isso. - Lhe dei o garfo e a faca.

Ele provou.

- Nossa, ficou bom mesmo.

- Eu adoro comer isso nas manhãs.

- Então eu quero também.

- Vou ganhar o quê fazendo café pra Você? - Perguntei debochada.

- Que tal um passe livre para dirigir no nosso futuro carro? - Disse ele com um sorriso.

- Ainda preciso de carteira de habilitação.

- Podemos providenciar isso.

Quando o Noah terminou de comer, coloquei ele na minha cama porque ele era manhoso demais para querer dormir sozinho, também tive que fazer cafuné na cabeça dele para ele pegar no sono, acabei cochilando com ele e acordei num salto, olhei o meu telefone e vi algumas chamadas do telefone da Raynoh para meu telefone, era o Peter com certeza.

- Alô Pett?

- Um cliente ligou para o Noah hoje mais cedo, ele disse que estava marcado para que os dois se encontrasse....É... Uma hora.

- Ele disse sobre o que era?

- Acho que ele é escritor.

- Então dá pra eu resolver, me passa o número dele.

- Anota aí 604- 332-5758 Júlio Cortéz

- Espera "Rúlio"? Ele é espanhol?

- Deve ser. Agora tenho impressão de ter visto um escritório dessa família por aqui na cidade e era algo de advocacia.

Olhei o relógio e vi que se eu chegasse nesse encontro, o coitado do Peter não iria almoçar.

- Pett e como você fica? O Noah apagou aqui e você está sozinho. Eu sei como é ficar de barriga vazia, porque o seu maldito patrão disse que iria voltar antes do meio dia e não volta, você tem que fingir para os clientes que está tudo normal enquanto quer matar alguém por dentro. - Ouvi pequenos risos de Peter

- Desculpe. A senhora é demais. Eu ficarei bem.

- Fecha isso e vai comer ok?

- Tem certeza?

- Tenho.

No Brasil, o almoço é uma das principais refeições de nosso dia, o famoso arroz e feijão de caldo diário com verdura, e carne se tiver, mas em países como Canadá esse hábito não existe, eles não comem da mesma forma, é Por isso que o meu prato nessas horas é sempre o estrogonofe de frango, que eu fazia no almoço para minha mãe, eu não precisava do feijão quando comia ele, apenas do arroz e de batata palha, mas sentia falta. Coloquei o celular no pescoço e enquanto cozinhava.

- Alô? Senhor Cortéz?

- Sim sou eu, quem É?

- Aqui é a Rachel do escritório Raynoh Edition, sou sócia dele.

Vocês podem estar se perguntando o porquê ninguém me conhece como senhora Levinson? Mas eu não quis mudar o meu nome, já não bastava a burocracia de ser imigrante, não queria acrescentar isso na minha lista, a única coisa que sinalizava isso era minha aliança de casamento. Eu tinha muito orgulho do meu sobrenome Fernandes pois era o sobrenome da minha mãe, e eu odiava minha família por parte de pai, eles nunca me tratavam bem por minha mãe não ser a pessoa que eles esperavam que meu pai fossem casar, então eu nunca fiz questão de ter o nome deles.

- Olá Rachel, tudo bem? Eu tinha um encontro com o seu sócio, senhor Levinson.

- Bom, sobre isso o meu sócio sofreu uma intoxicação alimentar e não vai poder ir, acho que eu poderia resolver?

- Intoxicação alimentar, isso é sério? - Me virei bruscamente ao ouvir a voz de Noah atrás de mim.

- AH CARALHO!

- Senhorita Rachel está tudo bem? - Pergunta Júlio

- Sim, sim Desculpe eu...acabei me queimando. - Olho Noah com irritação

- Eu escrevi um livro, ele disse que cuidaria de quem fosse produzir a capa.

- Sou eu mesma, aonde posso encontrá-lo?

- Mando o endereço por mensagem.

- Agradeço senhor Cortéz, vejo o senhor mais tarde. - Desligo o telefone

- Porra Noah! Por que você fez isso? - Digo irritada

- Uau...Você sai do Brasil, mas o Brasil não sai de você ein? Você adora xingar em português.

- Morei lá por mais de vinte anos, queria o quê? E cá entre nós, os brasileiros são mais criativos para inventar palavras de baixo calão.

- Está fazendo aquele frango com molho de novo? Já estou com fome. - Ele foi até aos frangos petiscar

- Para de beliscar comida! - Dei um tapa em sua mão.

- Você é chata ein?

- A chata que está cuidando de você.

- A chata que disse que eu estava com intoxicação alimentar ao invés de remarcar.

- Queria que eu dissesse a verdade?

- Poderia ter dito que eu precisava sair.

- Gosto de ser dramática. - Digo debochada

- Sabe que não precisa ir no meu lugar não É?

- É por que eu não iria? Ele vai tratar de algo que é do meu setor, aliás porque você não pediu para ele falar comigo? - Noah deu de ombros como tipicamente fazia, quando sabia que fazia loucuras.

- Não queria te incomodar.

- Uhum Sei Magrelo...

Voltei para as panelas e terminei de cozinhar, nós comemos juntos e o bom é que ele gostava da minha comida, eu me despedi dele e o deixei em casa, avisei que ele deveria descansar e me dar menos trabalho, mas eu não tinha certeza se ele me ouviria. Peguei o carro e dirigi até o endereço mandado, era um prédio que possuía andares interessantes, na verdade bem luxuosos, eu diria que o que eu e Noah vivíamos não era ruim, mas não se comprava a todo o luxo dali, fui até o último andar como ele havia indicado por mensagem e ao abrir o elevador vi a única porta do andar e então bati, quando abriram a porta vi um homem alto de cabelos escorridos pretos, olhos azuis e uma barba rala da mesma cor também me atendeu, ele era muito charmoso.

- Boa tarde, Eu estou a procura do Júlio Cortéz.

- Sou eu mesmo, prazer. - Ele estirou a mão em minha direção.

- Prazer sou a Rachel Fernandes.

- Nossa, seu sobrenome parece com o Fernández no espanhol, você também é mexicana?

- Não, eu sou brasileira.

- É que você disse alguma coisa por telefone quando estava se queimando...

- Nós não falamos espanhol, é português.

- Oh que cabeça minha! Entre. - Ele abre a porta.

- Bonito lugar.

Ele me conduz até o sofá

- Não é meu, é da minha irmã.- Ele andou até o segundo cômodo e eu percebi seu andar familiar que lembrava o Noah.

Ele volta com um notebook nas mãos e senta-se ao meu lado

- Se a conhecesse, veria que esse apartamento é a cara dela. Eu não sou fã de tanto luxo. - Ele abriu o notebook.

- Curioso, sua família não tem um escritório de advocacia aqui?

- Minha família, eu não. Cheguei faz pouco tempo da Cidade do México.

- Todos vocês são mexicanos?

- Não, eu e minha irmã nascemos aqui. Mas eu preferi conhecer o México, já a minha irmã ficou trabalhando com nossos pais. Você não sente falta do seu país?

- As vezes. Mas eu sempre tive sonho de conhecer esse local e acabei me apaixonando, só o que mata as vezes é a falta da família.

- Vancouver é um bom lugar pra viver mesmo, mas eu também me sinto bem lá. Não sinto muito a falta dos meus pais para falar a verdade, a minha irmã sempre foi a favorita deles.

- Falando assim até parece culpa da coitada. - Dei um sorriso.

- Não estou na casa dela a toa. - Ele me olhou nos olhos e deu um sorriso.

Quando eu olhava para ele tinha uma breve sensação de olhar para alguém que eu já conhecia.

- Você tem um olhar muito bonito.

- Obrigado. Faz parte do charme Cortéz, minha irmã e eu somos conhecidos por termos um olhar sedutor. - Ele deu um sorriso.

E ele era de fato, não sabia porque mas olhava demais para o olhar dele com a intenção de saber o porquê me instigava, olhá-lo.

- Quem é o mais velho?

- Eu. Por Dois anos.

Ele desviou o olhar para o seu notebook e eu apenas fiquei prestando atenção na decoração que era bem elegante.

- Meu livro trata de um suspense. Eu sempre fui muito instigado a escrever esse tipo de gênero, dessa vez acabei me arriscando.

- E o que você escrevia?

- Peças de teatro e livros de poesias.

- Um grande salto.

- A Editora aprovou o meu livro e agora querem uma capa, eles até me sugeriram algumas ideias mas não gostei de nenhuma, resolvi procurar um Designer por conta própria e aí me encontrei com o seu sócio através dos panfletos.

- Vocês já se encontraram pessoalmente?

- Estava visitando minha irmã na empresa e aí o vi distribuindo panfletos. Aliás eu sou curioso, porque Raynoh?

Olhei para os olhos de Júlio novamente

- Ray é o meu apelido e Noh é o apelido dele.

- Interessante. - Ele se voltou para o notebook.

Minha mente lá no fundo tentava encaixar as peças do porquê o Noah estava tentando remarcar, não havia me contado sobre esse cliente, e agora eu já tinha minhas suspeitas. Eu o olhava várias vezes, o andar dele era estranho, o modo de sentar, e ele vivia na casa da irmã, não que isso fosse estranho, porque não era, mas porque um homem solteiro não tinha seu próprio canto? Fora que ele era bem mais jovem do que eu havia pensado, e com olhos muito envolventes.

- Confesso que queria uma atriz na frente da capa com alguns efeitos de mesclagem, a história se passa sobre ela e sua vida no orfanato até ela ser adotada, mais o irmão dela some misteriosamente e a namorada dela.

- Namorada?

- Queria quebrar esse clichê de romance policial hétero.

- Quais são as características da sua personagem?

- Cabelos castanhos, olhos da mesma cor. Tipo os seus.

- Por que não se baseou na sua irmã?

- Ela tem cabelos pretos e olhos azuis, achei que ela ficaria bem como a namorada. - Acabei dando risada

- Ela é lésbica?

- Não, É, Gosta dos dois gêneros apesar de sair mais com homens.

- Péssima pessoa para basear seu "Romance Gay" - Brinco com ele, mas ele abaixa a cabeça sério.

- Na verdade eu acho que isso é mais por insegurança em ralação aos nossos pais, do que dela mesmo.

- Ah nossa, eles são religiosos?

- Apenas Soberbas ao meu ver. Eles sabem, mas não dizem nada porque não é "Sério",entende?

- Ela sabe que você baseou ela no livro também?

- Ela não lê o que escrevo, e eu não vou contar. - Ele riu e eu acabei rindo mais da situação dele.

- Coitado! Ela é sua irmã, acho que te deveria dar um pouco de prestígio não acha?

- Eu poderia ficar ofendido, mas ela é uma máquina de trabalho. E para completar, também nossos pais se aproveitam disso para usá-la como trunfo.

- Nossa que chato ser tão...

- Pau mandada?

- Eu ia dizer ocupada. - Falei rindo.

- Queria uma composição de cores sérias, de preferência preto, simboliza escuridão, o que cerca a vida da personagem.

- Suponho que você tenha que encontrar a modelo que vai pousar no livro ou vai fazer substituição?

- No momento faça uma substituição, até eu...- O telefone de Júlio toca e ele se levanta educadamente.

- Com licença.

- Toda.

- Oi Hermana, estou conversando com a Designer do meu livro... - Vejo ele falando enquanto sai.

Peguei meu telefone e então mandei uma mensagem para o Noah: "Você é um descarado, agora eu sabia o que você tanto escondia."

- Rachel eu sinto muito, minha irmã me chamou para almoçar logo agora e ela parece estar bem estressada. Vou te mandar tudo que precisa por Email, qualquer coisa você me liga e me cobra o que precisar, tudo bem?

- Coitada, como ela aguenta? Até uma hora dessas sem comer, eu já estaria subindo pelas as paredes.

- Eu te disse, ela é uma máquina de trabalho, mas pelo o que eu sei, acho que não é só fome o problema dela. - Ele voltou para o notebook, o meu telefone vibrou imediatamente e vi a mensagem de Noah.

"Você descobriu?"

- Claro que sim, Filho da Puta. - Falei baixinho, mas aparentemente o Júlio havia escutado e riu.

- Você sempre xinga na sua língua nativa? - Ele se voltou para mim, confesso que meu rosto ficou envergonhado e eu não sabia aonde me esconder.

- Pode me passar o seu email? - Ele pergunta

- É...rachel.rfernandes@gmail.com tudo minúsculo e o Fernandes é com S sem acento. - Ele me olhou e riu.

- Esperta você ein? Já ia escrever com Z por causa do espanhol.

- Imaginei.

- Prontinho Rachel, agradeço pela a sua vinda até aqui. - Ele pegou na minha mão e todas as dúvidas que eu tinha sobre ele haviam desaparecidos com aquele apertar de mãos.

- Boa Sorte com sua irmã!

- Ah sim, Se eu a conheço bem, ela está ansiosa, não tirava o telefone das mãos hoje de manhã, e ansiedade tira o apetite dela.

Eu também era assim, mas se eu ficasse por muito tempo presa dentro de casa, comia sem parar, a cada hora.

- Imagino.

- Mande melhoras ao Noah!

- Vou mandar.

E uns tapas também

(...)

Quando cheguei no escritório, vi adivinha? Noah sentado na minha cadeira com as pernas estiradas sobre a mesa, era mesmo do feito dele ser teimoso, nem me surpreendi tanto.

- Safado, Cachorro, Vagabundo!

- Olha, você xingou em inglês. - Diz ele dando de ombros

- Você é mesmo descarado ein? Não queria que eu dissesse que estava com intoxicação alimentar, não queria que eu fosse no seu lugar, nem ao menos me avisou que tínhamos esse cliente, agora agradeço a Deus por ter contratado o Pett.

- Falando nele, você iria deixar ele sozinho aqui?

- Senhorita Rachel, que bom que chegou, alguns clientes estão pedindo o desenho deles. - Fala Peter abrindo a brecha da porta

- É Senhora Levinson, Peter, ela é casada.

Olhei para Noah, ele estava de chacota com o meu assistente e o coitado fez um cara que deu até pena.

- Perdão senhora Levinson, não sabia que era casada.

- Ela É, e Comigo!

- Chega Noah! Peter, pode me chamar de Rachel pelo o amor de Deus. Eu sou casada com esse idiota, mas ele é gay e somos amigos.

- Tu..Tudo bem.

Noah se levantou e fez um rosto sério caminhando até o Peter.

- Eu estou de olho em você Peter Jaime Nowark.

- Você? Com esse corpo do esqueleto do He-man? - Dei risada com sua chacota

- Rachel! Não atrapalha!

- Deixa o meu funcionário trabalhar seu palhaço!

- Seu não! NOSSO!

- MEU Porque foi eu que entrevistei e contratei. Peter! - Olhei sério para o pobre que já estava tão confuso que ficou vesgo.

- Me obedeça! - Peter consertou os óculos e abaixou a cabeça.

- Sim senhora Levi..Rachel...- Peter saiu e Noah me encarou

- Como você consegue?

- Consigo o quê? Que me levem a sério?

- Vou reduzir o salário dele. - Ouvi ele grunhir.

- Essa raiva toda só porque o coitado fez a obrigação dele? Você é que é o culpado, não ele. E nem ouse a mexer no salário dele, o coitado precisa pagar as contas.

- Você é muito boazinha, não cansa não?

- Se trabalhasse em um lugar onde comer, se vestir, usar a luz e fazer tudo fosse caro, seu patrão é um escravista, seu salário não desse nem pra pagar as contas básicas, saberia porque sou assim.

- Pessoas como você é que deveriam estar na "igreja", não meus pais!

- Seus pais são assim porque estão em uma "igreja".

- Ou talvez porque eles sejam uns Soberbas. - Pairei no ar ao me lembrar do Júlio e os seus pais e refletir sobre a situação.

- O que foi? - Pergunta Noah

- O Júlio, ele disse que os pais deles são soberbas.

- Eles são religiosos?

- Não. O que me leva a crer que as pessoas usam a religião como desculpa para disfarçar o que são por dentro.

- Me fala como foi. Ele perguntou por mim?

- Nós conversamos sobre o livro dele de suspense, que a propósito eu vou ler porque quero fazer uma capa maravilhosa. Agora sai daqui!

- Eu te fiz uma pergunta! - Rebateu Noah

- Mandou melhoras, agora sai!

- Vou reduzir o salário do Pett ouviu? Aliás porque você chama ele assim? Não podia ser P.J?

- Prefiro Pett mesmo. Agora vai embora!

- Você me ouviu? Se aquele garoto não me obedecer com o ele te obedece...

- Você não é doido de fazer uma coisa dessas, ou quem vai se ferrar é você. Agora Por favor preciso de paz!

- Eu nem queria mesmo. - Ele deu de ombros e fechou a porta.

(...)

Dois Dias Depois eu fiquei focada entre entregar o que deveria aos clientes e ler o livro do Júlio que por acaso era maravilhoso, eu estava cada vez mais empolgada e não conseguia parar de ler. Já estava sendo negligente até mesmo com as ligações da minha mãe, se ela não me ligasse, eu nem iria lembrar.

- Oi Mãe, Desculpa é que eu estou trabalhando.

- Seu pai está perguntando quando vai voltar pra casa.

- Diga a ele que eu consegui visto permanente aqui no país, eu meio que não vou voltar...

- Vai abandonar sua mãe aqui? Você sabe que desde que o seu irmão se enrabichou por uma vagabunda, ele não nos visita mais. E também nem faço questão, ele faz tudo o que ela quer e não me respeita.

Minha mãe Vivian tinha dois filhos, eu e o meu irmão: Reinaldo Junior, eu também o odeio porque ele era um sacana, ele não ensinava respeito a mulher que ele chamava de esposa, e isso só gerava confusão.

- Eu sempre disse que queria morar em um país estrangeiro, agora eu consegui, não acha que deveriam estar felizes?

- Se você estiver segura e feliz, eu estarei em paz minha filha.

Quando minha mãe me falava daquele jeito com aquela voz eu sentia meu coração apertar, ela sempre conseguia o que queria de mim daquele jeito.

- Pelo menos uma visita não acha?

- Sobre isso...mamãe..

- Vai me dizer que não pode fazer isso também?

- Não posso sair do Canadá até todos os meus documentos se consolidarem.

- E quanto tempo demora isso?

- Dois anos.

- Ráchél, isso é sério?

- Sinto muito mamãe, mas vocês podem me visitar, eu pago as passagens.

- Ráchél, você sabe que não dá! Seu pai quase não tem folga, e eu não quero deixá-lo sozinho.

- É só por uns dias...Aproveita que estamos em...Que mês é esse mesmo? - Olhei no calendário

- Outubro, o tempo vai começar a ficar frio, em dezembro, você vai ver neve.

- Eu não sei falar inglês.

- Eu te ensino.

- Eu não tenho mais mente pra isso!

- É só dizer Hello pra quem te cumprimentar, Good Morning, Good Afternoon, ou Good Night. Sabe aquele meu ex-patrão que a filha morava na Austrália? Ele só sabia dizer Hello e se achava o máximo, ainda bem que quando eu xingava aquele escravista filho da mãe, ele não entendia.

- Ele tinha condições para isso eu não tenho. - Comecei a puxar o ar, eu iria me irritar e preferi me despedi.

- Mãe tenho que ir. Fica com Deus e fala para o papai que estou bem.

- Quando vou conhecer minha sogrinha? - Noah chegou de forma atrevida por trás da minha cadeira com um sorriso branco e perfeito de ponta a ponta.

- Não me lembro de você estar fluente em português.

- Eu não entendi noventa por cento da conversa, mas sei que quando você está falando português, é sua mãe no telefone. - Ele sentou no meu colo

- Ela vem no natal?

- Ela não vem dia nenhum. Minha mãe morre de medo de altura, só entra num avião dopada, e SE ENTRAR, porque ela não quer sair de casa.

- Oh merda. Já estava querendo usar o meu terno de bom moço para dar uma boa impressão.

- Você só usou Smoking no nosso casamento!

- Sua mãe tem que saber que você está bem cuidada e que eu sou o marido perfeito.

- Você fala tanta merda que vou agradecer a Jesus por ela não falar inglês.

- Nossa! Para quê ofender?

- Desculpa, estou estressada.

- Quer uma massagem minha linda esposa? - Disse brincalhão

- Espero que saiba dar massagem do mesmo jeito que sabe fazer sexo com homens.

- Cala Boca e relaxa! - Ele começou a massagear os meus ombros e o Noah tinha mãos leves e macias, não estava nem um pouco ruim, meu telefone começou a tocar.

- Alô?

- Oi Rachel aqui é o Júlio, tudo bem? - Foi então que olhei para o programa de edição e meu coração gelou, eu me distraí com a trama do livro e não tive nenhuma ideia para a capa.

- Oi Júlio...Tudo bem? - Digo forçando uma voz tranquila.

- JÚLIO? - Gritou Noah

Coloquei o telefone contra o peito.

- Fica Quieto, Caralho!

- Ihhh Baixou a BR de novo?

- Eu gosto de xingar em português está legal? O Brasil pode ser uma país decepcionante, mas eu nasci lá, eu amo minhas raízes, assim como amo aqui também - Voltei para o telefone

- Está ocupada?

- Não! O que deseja de mim?

- Minha irmã tem um grupinho de amigas chatas que vão se encontrar aqui na casa dela essa semana, queria discutir o livro com você, porque não consigo aturar elas conversarem.

- Pensei que Gays gostassem de fofoca - Pensei alto.

- O que disse?

- Nada! É para que dia?

- Hoje a noite, tudo bem?

Coloquei o celular contra o peito e sussurrei: Estou fodida.

- Não tem como ser outra noite? É que... - Noah toma o telefone da minha mão

- Ela vai! Qual é o horário?

Abri a boca com tamanha ousadia do Noah, sussurrei.

- Seu desgraçado, por que você está fazendo isso?

- Isso, sou eu mesmo Júlio, obrigado por perguntar, as sete é isso? - Tomei o telefone das mãos dele.

- Júlio, desculpa, mas eu nem comecei a sua capa ainda, será que dar para adiar? - Noah me deu um tapa no braço.

- Será que dá para acalmar o fogo na sua bunda? - Sussurrei para ele

- Não tem problema Rachel, eu só não quero ter que aturar aquele grupinho dela.

- Tudo bem? Poderei usar seu notebook?

- Pode sim, vai trazer algo no pendrive?

- O programa de edição.

- Pode ficar a vontade.

- Pergunta se eu posso ir! - Sussurrou Noah

- Não Noah, é um trabalho, o que você vai fazer lá?

- Deixar o encontro mais divertido? Aliás onde tem mulher, tem fofoca.

- Por que não fala que quer sair com o Júlio? Simples assim!

- Eu não sou Normal.

- Ou está inseguro?

- Está falando isso para mim ou para você?

- Do que você está falando?

- Eu vi o seu guardanapo com um número de telefone escrito: Laurel.

- Mexeu nas minhas coisas, seu atrevido?

- Atrevido não, seu marido. E você deixou o pano em cima da mesa de cabeceira antes de guardar.

- Rachel você ainda está aí? - Fala Júlio do outro lado

- Oi, estou sim.

- Então. Tudo certo? As sete?

- Pergunta se eu posso ir. - Insistiu Noah

Olhei para ele vitoriosa

- Tudo certo Júlio, até mais. - Desliguei o telefone.

- VADIA! - Noah gritou em um salto

- Vadia não bebê, sua esposa. - Disse sorrindo.

Capítulo 3 Three

Mesmo sem convite direto, Noah com seu jeito de ser, achou-se no direito de ir me seguir no encontro com o Júlio, pela a primeira vez o vi colocando roupas sérias, camisas sociais e calças mais fechadas, ele costumava a usar um estilo rebelde de calças rasgadas e camisas com mangas na altura dos cotovelos ou até menos que isso, nem eu e nem ele, éramos de se arrumar formalmente para nada, podem me chamar de desengonçada mas eu nem maquiagem usava, só me maquiei de verdade no dia do casamento, e a caminho das baladas eram coisas mais práticas no rosto, não queria envelhecer minha pele antes da

hora, de acordo com os dermatologistas. Nós chegamos ao prédio luxuoso e eu apertei o botão do último andar.

- Você não me falou que o Júlio tinha tanto dinheiro assim. - Fala ele.

- Isso é da irmã dele! - As portas do elevador se abrem e eu vou até a campanhia sinalizar minha chegada.

- Por favor Noah, comporte-se!

- Eu sou um anjo, Ray. - Eu Revirei os olhos

- Olá em que posso ajudar? - Uma moça de cabelos loiros e olhos verdes nos atendeu.

- O Júlio está?

- Mandy deixa que eu atendo. - Ouvi a voz de Júlio.

- Oi, tudo bem? - Perguntou ele, acenei timidamente

- Oi!

- Olá Júlio! - Noah resolveu fazer voz diferente, eu olhei para ele intrigada.

- Oi Noah. - Ele deu um sorriso tímido

- Então...Podemos entrar? - Pergunto olhando para os dois.

- Oh Claro, mas que cabeça minha. Entrem, fiquem a vontade.

Enquanto o Noah olhava todo o espaço com curiosidade, eu já tinha observado cada detalhe, a única coisa mudada era só quatro mulheres que riam entre si no mesmo sofá que eu e Júlio estávamos há dois dias, e elas estavam bebendo.

- Aonde vamos...Trabalhar? - Perguntei sem graça

- Meu quarto. Se importa? Garanto que não sou o cara com quem se preocupar.

É claro que não, você é gay

- Tudo bem!

- Vem comigo? Noah, pode ficar com as colegas da minha irmã. - Noah olhou para mim

- Também acho melhor você ficar, Noh. - Ele me deu um sutil beliscão.

- Cadê a sua irmã ein? - Disse disfarçando a dor do beliscão.

- Te apresentaria minha irmã se ela não estivesse atrasada num encontro com as amigas em sua própria casa. Vamos.

Uau! Quem chega atrasada na própria casa? Começo achar que essas amigas delas são mesmo umas chatas. Nós chegamos o caminho do quarto dele e que ficava do lado de outra porta, a qual eu podia deduzir ser a da irmã dele, o Noah ficou na sala com as meninas, porque não faria o mínimo sentido ele ir comigo sendo que não opnaria em nada e eu sei que ele vai querer me matar por isso, mas foi ele que quis vir. Nós entramos no quarto dele que eu pensei que fosse enorme, mas não era tanto, tirei os sapatos pois eu tinha esse hábito desde que nasci e o Júlio olhou para mim.

- Não precisa fazer...

- Costume!

- Tudo bem! - Ele sentou na cama.

- Aqui está o meu Pen Drive. - Tirei do bolso e lhe dei, eu não era fã de usar bolsa, tudo o que eu levava era dentro de uma carteira e ponto.

- Bom, sei que você deveria estar ocupada com a demanda por isso atrasou mas...

- Na verdade não foi só isso!

- E o que foi?

- Ms atrasei, porque parei para ler seu livro. - Ele me olhou surpreso

- Sério?

- Algum problema?

- Problema? Nenhum. Eu sempre quis alguém imparcial para ler os meus delírios. O que está achando?

- Você é Foda, Bicha! (Português)

- O que disse?

- Você é demais!

- Que bom que está gostando isso significa que...

- JÚLIO! - Ele olhou para mim

- É a minha irmã. Já volto.

- Por que eu acho que já ouvi essa voz em algum lugar? - Penso alto.

Vejo Júlio abrir a porta e deixar uma mão intercedendo a brecha.

- Que bom que chegou Laurel, suas amigas já estavam reclamando. - Arregalei meus olhos ao ouvir esse nome.

- Só cheguei trinta minutos atrasada, elas já esperaram por mais!

- Se não consegue chegar no horário, porque você marca?

- Não é como se eu tivesse opção, essa semana é aqui, mas na próxima é na casa de alguma delas.

- É só dizer não, Laurel!

- Não se intromete Júlio! Elas são legais depois que estão bêbadas. Eu estava em uma reunião importante.

- Sério mesmo, ou é a desculpa que você vai dar para elas? - Diz ele no tom desconfiado.

Ouvi uma risadinha sua desdenhosa

- E você quer que eu diga o quê? Que eu me atrasei porque estava transando com o Marcco Pollo na mesa dele? Elas nunca me perdoariam. - Ouço seu tom de deboche.

- O Marcco Gosta de você Laurel, acha bom mesmo estar usando ele assim?

- Oh... Quer ele pra você? Eu te daria se ele não fosse hétero, Hermano. - Diz ela em deboche

- Laurel eu só acho que você deveria parar de dar...

- Tem um homem com você? Está fodendo dentro da minha casa?

- Laurel!

- Não que eu seja contra, por mim você faz se for dentro do seu quarto, mas minhas amigas estão aí, merda!

- Eu não estou com homem nenhum, Laurel.

- Está segurando a porta desde que eu cheguei. Quem está aí com você?

Nessa hora dei uma de egípcia e olhei para a tela do notebook que na hora estava apagada.

- Não interessa! Vai logo para suas amigas.

- Eu tenho vinte e sete anos Hermano, não setenta e dois, eu preciso aproveitar a vida e você deveria fazer o mesmo. - Júlio entra dentro do quarto e fecha a porta.

- Desculpe pelo o que você ouviu. - Ele se senta na cama

- Eu? Não ouvi nada...Estava olhando para o notebook..

- Ele está desligado, Rachel!

Olhei para ele, que me olhava com um olhar cômico e olhei para o notebook, ultimamente ando muito lerda e nem sei como aconteceu.

- Eu olho através do escuro! - Júlio olhou para mim e riu bastante e eu também.

- Você é demais, Rachel.

- Enfim, me desculpe assim mesmo eu nem sei o que...

- Olha, eu já sabia que você era gay ok? - Ele me olhou surpreso novamente.

- É tão óbvio assim?

- Para quem tem um amigo gay como eu sim, vocês andam, sentam e até aperta as mãos de modos semelhantes. E também se você fosse um hétero solteiro com dinheiro, estaria em outro lugar menos na casa da sua irmã.

- Eu poderia ter um namorada.

- Jura? Aqui?

- Você tem razão. Você pelo o visto é casada.

- Sim, mas não é como você está pensando.

- E como eu deveria pensar?

- Que eu sou feliz e tenho um marido excelente. Digamos que é só a primeira parte mesmo, mas marido mesmo não, ele está lá na sala bebendo e possívelmente entrando nas fofocas de tal maneira, que elas nem notam que ele é um homem, porque ele só veio até aqui para sair com você.

- Oi? - Disse Júlio confuso

- Quer que eu repita?

- Sim..Quer dizer Não..Espera!

Deixei ele processar, mas não acreditava que não fosse óbvio para ele.

- Confesso que não esperava.

- O quê? Mas óbvio que ele é gay não dá, e pensar que eu duvidei.

- Não estou falando disso. Estou falando..

- Dele querer sair com você? Isso aí eu decidi ajudar, porque prometi a mim mesmo que não deixaria esse casamento impedir ele de ser feliz.

- Posso supor que esse casamento tenha a ver com o seu status no país?

- Exato. Eu não queria, mas ele insistiu, então nos casamos em Toronto.

- Mas por que não aqui?

- O pai dele é um importante empresário em Toronto, com a ajuda dele, Noah pode acelerar certos procedimentos como a licença para o casamento.

- Bom, tendo em vista que vocês são bons amigos, até que o casamento não foi ruim.

- Nós cuidamos um do outro agora, e por causa disso é que quero que pelo menos o chame para sair, se você quiser claro. - Ele olhou para mim assustado.

- Ah Qual É? O Noah é um gay magrelo mas faz o tipo de todo mundo, ele tem charme e traços esculpidos pelo o anjo.

- Não é isso...É...Eu sou um pouco tímido para isso. - Revirei os olhos

- Ali de anjo só tem a cara, ele é contaminado pela a safadeza, basta você dar a faísca que ele faz o resto.

- Acha mesmo que isso daria certo?

- E por que não? Você é um pouco forte, alto, tem olhos bonitos, está ótimo.

- Oh que cabeça minha. Eu nem te ofereci uma bebida. Quer algo?

- Se tiver suco já está bom.

- Vou pegar.

Júlio saiu do quarto e eu me estirei com os pés na cama

- O que não faço por você, Noah? - Penso alto.

Ligo o notebook dessa vez, e abro o Sistema Operacional dele, não tinha senha e eu pude ver o meu Pen Drive ser reconhecido na tela, comecei a procurar a pasta até que ouço a porta ser aberta com rapidez.

- Júlio você viu aonde está... - Eu Largo o notebook em susto e vejo o olhar de Laurel em mim.

Era ela, a "Minha" Laurel era a mesma Laurel do Júlio, o olhar, a voz, pensava em como eu podia ser tão lerda? Os dois se pareciam tanto no olhar, cabelos negros e olhos azuis, isso foi um tremendo vacilo, mas pior que isso, é que ela estava linda, sua maquiagem estava perfeita e seu batom vermelho também, um verdadeiro charme de mulher, mas que eu só encarava pois não sabia como começar.

- Então? Você é a Designer do meu irmão, ou ele trocou de gosto? - Seu olhar estava sério e eu já imaginava, ela havia me dado o seu número e eu não tive coragem de retornar.

- Eu estou trabalhando para ele mesmo.

- Então o que houve com o número que eu te dei? Você me olhou várias vezes naquele dia, pensei que...

- Rachel, eu não achei suco, serve...- Júlio entrou no mesmo momento e olhou para nós duas.

- Vinho? - Ele completou observando o clima.

Laurel olhou para seu irmão.

- Estava procurando essa garrafa mesmo, obrigada Hermano. - Havia um certo tom de desdém em sua fala, ela tomou a garrafa e saiu do quarto.

- Aconteceu algo aqui... - Ele intercalava o dedo entre mim e a porta.

- Ela devia estar te procurando, só isso. - Olho para o notebook.

- Que estranho, Vou pegar outra garrafa.

- Não! Acho melhor não, eu estou bem assim.

- Mas...

- Senta aqui e vamos resolver logo isso.

- Tem certeza de que você...

- Eu não gosto muito de vinho mesmo.

E isso era parcialmente verdade, tinha vinhos que não desciam na minha garganta.

- Laurel não cozinha em hipótese alguma, ela faz todas as refeições fora de casa ou pede alguma coisa para entrega, nos fins de semana ela janta na casa dos pais.

- Tudo bem, eu sei me virar só com água. Agora vamos aqui.

- Então, até onde você leu?

- A namorada dela sumiu.

- Você já leu a introdução a vida dela, não achou nada que possa te dar uma ideia?

- Pensei em correntes, ela sempre estar acorrentada a algo extremo, primeiro a uma vida sem família, depois o sumiço da namorada E... - Nessa hora ouço um Funk altíssimo começar a tocar, estava tão alto que do quarto de Júlio, foi possível ouvir

- Que música é essa? - Perguntou ele

"Hoje eu tô à toa de marola, Aquelas cenas nunca viu, Na onda do black, rindo à toa

Depois que usou o paninho"

- Noah!

- U.U BEBE BEBE BEBE BEBE - Ouvimos um coro uníssono, eu e Júlio nos olhamos.

- Vamos olhar o que elas estão aprontando.

Eu e o Cortéz mais velho, saímos do quarto caminhando para o corredor chegando até a sala, e o pior era a música que ele estava colocando naquele momento em remix.

" Hoje que o barraco balança, Hoje nos vamos transar, Senta por cima e fica menina, Só não explana pras amigas, Se não vão querer me dar, E você sabe que o pai taca a pica."

Quando chegamos na sala vi que todas as chances do Júlio chamar o Noah para sair iriam acabar ali mesmo, a maioria das meninas se esfregavam nele com a bunda para o alto, aparentemente até a coreografia ele havia ensinado, Laurel estava sentada no sofá com os pés estirados sobre a mesinha de centro, bebendo o vinho que Júlio havia trazido, observando e dando risada, ao lado de uma outra amiga dela. Noah tinha uma garrafa de champanhe nas mãos e dançava a berça com as garotas, olhei para Júlio, ele tinha um rosto muito surpreso e eu tinha vontade de colocar a mão no rosto de vergonha.

"Neném, fica de quatro que o pai te taca a vara no modo Bird Box com a venda na sua cara, hoje é esse dia tu nunca vai esquecer vai voltar na tua semana já querendo tbt"

Noah inclinou a bunda em torno das meninas e tampou os dois olhos com as mãos enquanto mexia com a bunda, ninguém entendia a letra, mas só pela a coreografia dele não tinha muito o que se questionar, elas riam, bebiam e se esfregavam como fada encantando o show na escuridão, Laurel morria de rir e era lindo de se ver, mesmo sabendo que ela estava brava comigo.

- Puta merda, Noah (Português)

- HEY RACHEL, VEM CÁ! - Noah me chama e eu viro o rosto fingindo que não era comigo.

Ele não se satisfaz com a minha virada de rosto e então vem até mim com o bafo de champanhe.

- Noah, Não!

- Vem logo, Rachel, você adora isso tanto quanto eu.

- Noah o que eu disse sobre se comportar? - Ele me arrasta contra vontade

- Vem dançar!

Olho para Laurel e ela havia parado de sorrir, agora só observava com uma taça de vinho na boca.

- Noah vamos pra casa, você já bebeu demais.

- Agora é que está delícia! - Ele me dá um sorriso embriagado

- Gente...- Ele começa.

- Minha amiga Rachel não quer dançar, vamos pedir para ela dançar?

Como eu queria ter um buraco para me enfiar.

- DANÇA RACHEL! DANÇA RACHEL! - Ele gritou e bateu palma

- PUTA QUE PARIU NOAH, CHEGA!

As outras me olharam estranha, possivelmente se perguntando o que eu estava falando, Noah olhou para uma delas.

- Ela é brasileira...Adora xingar em português.

Olhei para os lados, Júlio nem estava mais ali e Laurel continuava a beber seu vinho de modo pleno, seria muito sexy se os olhos azuis dela não quisessem matar alguém daquele jeito.

- Noah, Vamos agora!

- O Noah Fica! - A Mandy falou, olhei para ele.

- Noé Samuél Levínson? - Pronunciei o nome dele em português e para minha surpresa ele não respondeu, então eu dei as costas e resolvi ir embora.

Sai surpresa e irritada, já não bastava ter dado mancada com a Laurel, agora tinha o Noah bancando o rebelde, naquele momento eu nem queria saber como ele iria voltar ou se iria voltar, eu é que não iria buscar, peguei o táxi para casa e tomei banho para dormir.

(...)

O Despertador havia me acordado como sempre, fui até o banheiro, escovar os dentes e tomar banho, eu não me preocupava com o Noah, porque tenho certeza que ele estaria jogado no apartamento da Laurel com aquelas outras amigas dela, decidi que se ele quisesse voltar, que voltasse só, fiz meu café da manhã normalmente como eu gostava e já estava pronta para pegar o carro até a Raynoh, quando ouço meu toque do seriado Icarly tocar, julguem-me quem quiser, mas eu amo a música Leave it all to me da Miranda Cosgrove, minha mãe dizia que a música era minha cara e o Noah me caçoou quando ouviu o meu toque pela a primeira vez, então vi o nome do Júlio.

- Oi Júlio.

- Bom dia, Rachel, desculpe o incômodo mas é que o Noah...Ele está jogado aqui no sofá, eu poderia levá-lo mas o carro é da minha irmã.

- Já entendi, vou buscá-lo.

Peguei o táxi e coloquei o endereço deles novamente, eu havia prometido a mim mesmo que deixaria aquele idiota lá, mas não conseguia. Quando cheguei até o apartamento, apertei a campanhia, o Júlio abriu a porta e eu fui entrando logo em direção ao sofá, ele estava lá jogado e sozinho

- O que houve com as outras "amiguinhas"?

- Acho que elas foram para casa, você sabe como é, elas tem motoristas para levá-las quando quiserem.

- E nenhuma se ofereceu para levar o Noah, que ótimo. - Revirei os olhos com tamanha arrogância.

- Bom, ele ficou aqui isso é o que importa.

- Ele tem é muita sorte de que a sua irmã deixou ele ficar aqui, isso sim!

Falando no Diabo, lá estava ela com seus cabelos lisos e de ondas escuras bem arrumadas, maquiagem, e roupas de advogada, ela não usava saia e sim calça pantalona, blusa de botões em seda por dentro da calça e o blazer por cima, um verdadeiro mar de sedução e charme, mas, que nem me olhava nos olhos e o engraçado é que ela me pareceu beber tanto vinho e nem tinha marcas de ressaca.

- Júlio, estou indo! - Ela apareceu e deu um beijo na bochecha do irmão.

- Vamos, Noah, acorda! - Chacoalho o seu corpo

- Laurel se não se importa, pode levar a Rachel até a casa dela? - Fala Júlio.

- Júlio não precisa... - Chacoalho Noah outra vez.

- Vamos lá seu idiota. - Dou um tapa na cara dele de leve.

- Júlio, acho melhor você pegar ele e levar até o meu carro, o Noah tem um buraco no lugar do fígado, ele sozinho, bebeu mais que as minhas amigas.

Eu poderia dizer Não, mas aí eu seria orgulhosa sem motivo e isso não iria me ajudar, deixei o Júlio levar o Noah como princesa no colo e até aproveitei para tirar uma foto rápida da situação.

- Ele é mesmo leve. - Fala Júlio.

- Eu disse, o verdadeiro esqueleto do He-man.

Laurel caminhou na frente e nós descemos todos os andares em silêncio, até chegarmos no estacionamento e ela exibir sua Mercedes Benz classe A que funcionava a controle de voz, o carro por fora tinha cara de simples, mas por dentro era uma espaçonave, equipado com telas sensíveis ao toque e muitos comandos por voz, Júlio deixou o Noah deitado na parte de trás do carro e eu fui na frente, Laurel entrou e fechou a porta.

- Mercedez.

Pior foi minha cara quando o carro respondeu: " Em que posso ajudá-la?"

- Ar condicionado vinte e dois graus. - Laurel acenou para Júlio que estava do lado de fora do carro e eu também, então partimos pelas as ruas de Vancouver em silêncio, ela dirigia com cautela e seriedade, nunca vi pessoa mais focada, era impressionante. Ela só me perguntava coisas básicas mas eu sentia vontade de lhe dizer algo mais, um pedido de desculpas seria bom.

- Esquerda? - Ela perguntou

- Sim.

Quando o percurso se aproximou e ela foi estacionando o carro, ela destravou o carro com o comando de voz.

- Obrigada e desculpa.

- Pelo o quê?

- Primeiro por não ter te ligado ou te mandando uma mensagem. Segundo, porque o Noah bebeu todas e caiu no seu sofá, e agradeço por você deixá-lo lá.

Foi então que vi o seu olhar sobre mim pela a primeira vez

- Eu me divertir com seu amigo, aliás esse encontro foi o melhor com ele. Geralmente a Mandy me enche com histórias fúteis que bebo só para não ouví-la, a Kelly é ótima mas quando está bêbada, só fala do ex que largou ela, a Michaela é a mais sensata, e a Elena tem uma queda na Michaela mas nunca vai assumir.

- Aposto que a Michaela é a que trabalha com você não é?

- Você é boa. Depois de mim, ela é uma das melhores advogadas.

- É compreensível porque ela é sensata para você. Ela é quase você. - Ela riu

- Agora Engraçado, se ela trabalha com você, ela não sabia que você estava mentindo sobre a reunião?

Vi Laurel dar uma breve gargalhada e dá um sorriso de lado charmoso.

- Você ouviu. Michaela não é como eu, ela tem horário para sair, eu e o Marcco Pollo somos os únicos que ficamos até tarde quando queremos, não é a toa que papai o trata melhor que o Júlio.

- Então ele é bom...

- Tão bom quanto eu. É por isso que qualquer desculpa da empresa cola com qualquer uma, minha carga horária não é regular, e eu como filha do dono sempre tenho que estar em algo que ela não estará.

Ela olhou para o fundo do carro.

- Acho melhor tirarmos o seu amigo de lá.

- É...Também acho..

Faço a volta e pego o corpo mole de Noah no colo.

- Acorda Caralho! (Xingo em Português) - E lhe dou um tapa estalado no rosto, Noah acorda assustado

Olho para Laurel, ela fez um bico de surpresa olhando para nós dois.

- Mas que porra ein Rachel? - Ele acariciou o rosto.

- A Bela Adormecida acordou, que ótimo.

- Obrigada mais uma vez Laurel.

Entrei para dentro da portaria com o Noah mas ouvi o seu chamado

- HEY RACHEL! - Olho para o Levinson

- Já está de pé, já pode ir andando! - Digo voltando o caminho.

- Sim?

- Por que não me ligou?

Por que eu sou insegura?

- Você flertou comigo não ? Ou eu entendi errado?

Eu estava nervosa e olhar para os seus olhos não estava facilitando, ela tinha um olhar de magnetita.

- Eu perdi o seu número. - Menti na cara dura.

- Perdeu?

- O Noah vomitou em mim e eu...usei O guardanapo...pra limpar...O vômito apagou a caneta.

Ela me balançou a cabeça em de negação e riu de mim

- Acho que você não entendeu quando eu disse que era uma das melhores advogadas da empresa. Deveria ter contado a verdade. - Ela foi até o seu carro e abriu a porta.

- Laurel! É sério!

- Eu lido com mentirosos dia após dia, Rachel. Se fosse mesmo verdade o que você disse, eu saberia.

- Por que acha que estou mentindo?

Ela me olhou debochada

- Diga você! Como sabia que meu número estava no guardanapo, se o vômito apagou a caneta? - Vi ele bater a porta do carro com uma força que deu dó até em mim.

(...)

Quando entrei em casa, fiz café da manhã para para Noah e deixei lá para que ele se alimentasse, a cada batida minha em uma panela ou até mesmo o barulho do prato dele contra a mesa, o incomodava devido a sua ressaca, mas eu admitia estar gostando da pirraça.

- Vou para a Raynoh, até mais tarde.

- Por que você está assim?

- Assim como Noah?

- Fria.

- Não sou geladeira.

- Tudo isso, só porque eu bebi umas?

- Não, Noah! Não estou assim porque você "Só bebeu umas". Estou assim, porque, você me fez passar uma puta vergonha na frente de todos, depois de eu ter pedido para você se comportar. Como se não fosse suficiente eu te peço para ir embora e você nega, tem sorte da Laurel ter te deixado no sofá dela ou estaria dormindo na calçada, porque eu não iria te buscar! - Pego as chaves e caminho em direção a saída.

- Ah! E a propósito! Eu pedi para o Júlio te chamar para sair. Mas agora boa sorte, se ele te chamar!

Acabei batendo a porta com a mesma raiva da Laurel mais cedo e fui pegar um carro até o nosso local de trabalho, vi Peter esperando com suas roupas perfeitamente passadas, camisa social branca e calça preta, e um tênis no pé.

- Bom Dia Pett, há quanto tempo você está aqui?

- Desde o horário de abertura. - Olhei no relógio, fazia uma hora de diferença.

- Desculpa O atraso. O Noah bebeu de novo e eu tive que cuidar disso.

- Sem problemas, Senhorita Rachel.

Eu olhava para o Peter e sempre me lembrava de mim mesmo no primeiro emprego, acho que isso era um fator que me fazia gostar mais dele.

- Nunca vai me chamar de Rachel não é mesmo? - Ele olhou para mim e eu sorri de volta para confortá-lo.

Quando entramos lá dentro que não era um lugar enorme, tinha uma pequena sala onde eu ficava, o Noah e o Peter tinha duas mesas ali mesmo, havia um sofá, os banheiros e uma outra sala que era um depósito velho pequeno, mas reformamos para colocar o estúdio de vídeo. Fui até a minha micro sala e olhei o quadro de espuma que eu preguei para colocar notas de lembrete, e uma delas dizia que era dia de pagar a energia e os impostos.

- Peter! - Saí da sala

- Estou aqui.

- Será que dar para me ajudar a procurar a conta de...Que bagunça do diabo.

O Noah era muito bagunceiro e acho que isso era para me irritar, não que eu fosse um exemplo de organização, Mas pelo menos no trabalho eu mantinha tudo em ordem, pois me irritava trabalhar em um local onde eu não sabia nem aonde estaria uma caneta. A única coisa que eu não me preocupava muito era o meu próprio quarto, até porque quem vai ficar arrumando algo que só você vê? Chamem-me de hipócrita ou maluca, mas sou assim mesmo.

- Se você achar as profundezas no inferno nessa mesa, me avisa que eu leio o salmo 91. - Peter conteve o sorriso de quem estava querendo rir, confesso que tinha vezes que eu estava completamente séria e ele simplesmente ria.

- A senhora é demais.

- Mas eu não queria...AH deixa! - Ele começa a procurar e se assusta.

- Achei...

- Aquele que habita na morada do altíssimo, a sombra do onipotente descansará. - Ele começa a rir sem parar.

- O que foi? Ele exorciza mesmo os demônios, eu orava isso para o meu ex patrão e ele até passava mal. - Peter ficou vermelho de tanto rir, mas a história era mesmo real, eu havia feito mesmo isso.

- Diziam que ele fazia pacto com o diabo só porque fazia parte da maçonaria, e eu não duvidava, nunca vi ninguém mais avarento, enrolado e escravista, era só falar em pegar dinheiro e ele passava mal. - Peter chorava de rir

- Um dia eu resolvi ver se conseguia um vale pra pagar o gás de casa, você acredita que ele se trancou na sala, quando me viu? E eu ainda precisava voltar pra casa, e ele não saía da sala como se fosse o martelo do Thor. Aí eu pensei, se o Thor conseguia tirar o martelo a base do lance de ser digno, porque eu não tiraria meu patrão da sala com Jesus?

- Eu disse: Jesus é mais forte do que o Satanás que reina dentro desse homem! - Eu confesso que fiquei preocupada com Peter naquele momento, ele estava passando mal de tanto rir.

- Peter, eu estou falando sério! - Peter tossiu várias vezes antes de começar a tentar se desculpar.

- Desculpe, é...A senhorita é demais!

- Bom, no final eu consegui o vale depois que li o Salmo 91. Desde então, eu decorei cada vírgula.

- Bom eu achei algo... - Peter se controla para não rir novamente.

- Mas acho que ele é antigo...- Peguei o recibo, era a luz do mês passado.

- Eu não acredito! O Noah não pagou a luz?

- Procura um cartão com da conta bancária dele por favor. - Liguei para o Noah

- Alô?

- Por que você não pagou a conta de luz?

- Você não disse que pagaria?

- Estou falando a do mês passado.

- Eu paguei!

- Pagou? Estou vendo o recibo sem comprovante largado nas profundezas da sua bagunça.

- Eu devo ter pago, só não guardei o comprovante.

- Cadê o cartão da empresa?

- Espera deve estar na minha mesa... - Olhei para o Peter ele balançou a cabeça negativamente

- Não tem nada aqui Noah, Você perdeu o cartão da empresa?

- Espera deixa...Eu só... - Ele demora alguns minutos no telefone

- Está comigo Ray, desculpe.

- Você está pedindo para levar mais um tapa na cara, Noah. Que Jesus me dê paciência, vou ligar para o contador e nestante estou voltando aí.

- Para que vai ligar para o contador?

- Vou me certificar que Você pagou a conta de energia.

- Já disse que não precisa.

- Tchau!

Então eu liguei para o nosso contador George.

- Está registrado a saída da conta de energia mês passado? - O Contador demorou alguns minutos olhando e então me deu a resposta.

- Água, impostos, internet, telefone...Energia, Não senhora.

- Obrigado. - Desliguei o celular

- Pett pode arrumar essa mesa para mim? Preciso resolver umas coisas.

- Claro! Essa é a conta de luz nova. E aqui tem outros papéis também.

- Agradeço. - Fui até minha sala atrás de um pasta de documentos, olhei para os contatos e vi o nome de Laurel.

- Peter Jaime.

- Oi?

- Você tem namorada? - Vi ele se avermelhado como um tomate

- Eu...Eu..

- Eu perguntaria a minha mãe, mas eu estou irritada com ela também. Você já vez alguma merda com alguém e não sabe como resolver?

- Ah Bom...Eu...Acho que...Tentar pedir desculpas é um bom passo.

- Já tentei, só deu mais merda.

- Levar flores? - Ele pergunta tímido

- Não posso ser romântica com quem não conheço.

- É...Ah...Eu...Acho...Sinto muito Senhorita Rachel...Eu não tenho essa resposta.

- Não é sua culpa. Agradeço se puder deixar a mesa do Noah como a sua.

- Pode deixar. O que eu digo a quem ligar para a senhorita?

- O que você quiser.

Saí de lá e peguei mais um carro de volta para casa assim como a pasta de contas, quando entrei no apartamento de volta, gritei:

- NOAAAH!

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022