Dedicatória:
A minha amiga Manu...
Esse livro é totalmente dedicado a você, te amo e obrigada por tudo!
- Fico feliz por saber. Mas você tem certeza de que não há espaço para um homem em sua vida? - Absoluta. Ele tocou seu lábio inferior com uma carícia suave como uma asa de borboleta. Natasha encolheu-se. O pequeno toque era, de alguma forma, mais
íntimo do que um beijo. Ele deu um riso suave, que ninguém além dos dois poderia ter escutado. - Eu precisaria de uma noite para fazê-la mudar de idéia - ele murmurou, a respiração eriçando o cabelo que circulava a orelha dela. - Apenas... Uma... Noite.
Natasha procurou sem sucesso uma resposta definitiva. Mas era tarde demais. Ele já tinha ido embora.
Capítulo 1
Nova York é o paraíso dos insones, pensou Natasha Lambert. Uma cidade que nunca dorme.
Apertou o nariz contra a janela do quarto de hotel e olhou vinte andares abaixo. O céu de novembro estava negro como se fosse meia-noite, mas já eram cinco da manhã. Mesmo assim os faróis dos carros varriam a rua molhada pela chuva e ainda havia pessoas na calçada.
Quem seriam? Pessoas indo para o trabalho? Voltando de uma noitada? Natasha viu um casal saindo debaixo do toldo do hotel, enquanto um carregador colocava uma montanha de malas no táxi.
Rapidamente voltou para a grande mesa executiva, razão principal para ter reservado a luxuosa suíte. Não que ela parecesse uma alta executiva agora, pensou Natasha, sorrindo ironicamente. Não com seus velhos e queridos chinelos forrados de pêlo e decorados com carinhas de gato.
Seu laptop estava aberto num facho de luz. Natasha sentou-se à sua frente e remexeu os dedos dos pés nos chinelos confortáveis, pensando nas cores que poderia usar nos slides de sua apresentação.
Azul? Muito frio. Vermelho? Muito agressivo.
Exatamente como eu, pensou ela de maneira esquisita. Seu último namorado fizera uma análise completa de sua personalidade antes de terminarem. Ele a havia chamado de insensível. E ficara furioso quando ela concordara alegremente.
- Isso não é um elogio - vociferou ele.
- Talvez não para você. Mas eu me esforcei muito para ficar assim.
Agora o telefone estava tocando. Sem tirar os olhos da tela, Natasha atendeu-o.
- Sim?
- Posso deixar um recado para Natasha Lambert, por favor?
- Sou eu - disse. - Oi, Izzy.
Ela ouviu um gritinho angustiado.
- Ai, não!
O sorriso de Natasha aumentou ainda mais. Izzy Dare era sua melhor amiga.
- Você não quer mais falar comigo, Izzy? O que eu fiz?
- Estava tentando deixar um recado na recepção. Não queria acordá-la!
- Não acordou.
Natasha girou um gráfico de pizza na tela. Talvez azul e vermelho? Afinal de contas, frio e agressivo muitas vezes eram características vantajosas nos negócios. Ela podia ser insensível, mas era bem-sucedida. E não ligava para o que diziam, contanto que gostassem de seu trabalho.
Ela parou de brincar com o gráfico.
- O que posso fazer por você, Izzy?
Contudo, Izzy ainda estava preocupada.
- Tem certeza que não acordei você? Achava que Nova York ficava cinco horas atrás do fuso horário de Londres. Que horas são aí, afinal?
- Cinco e pouco.
- E você está acordada? - Izzy estava horrorizada.
- A Lambert Research nunca dorme - disse Natasha, em tom formal.
- Mas por quê?
- Reunião no café-da-manhã com o Poderoso Chefão. Resolveram isso no último instante, então estou refazendo a apresentação.
- Ele é legal? - perguntou Izzy, temporariamente distraída de seu objetivo.
- Quem?
- O Poderoso Chefão.
- David Frankel? É um workaholic baixinho e gordo que tem uma propensão nojenta para apalpá-la se você deixá-lo chegar muito perto.
- Parece horrível.
- Por isso ele é o Poderoso Chefão - disse Natasha calmamente. - Homens poderosos são horríveis. Faz parte do trabalho deles.
Izzy protestou, mas Natasha ficou indiferente.
- Sem problemas. Trabalho com homens poderosos o tempo todo. Eles dão muito trabalho e não gostaria de namorar um deles. Mas, tirando isso, são legais. Diga logo o que você quer.
- É sobre o fim de semana...
- Ah, sim. Estou esperando ansiosamente por ele. Um programa com as amigas é exatamente do que preciso. Principalmente depois da semana que tive.
Houve uma pausa, que teria sido perceptível se Natasha não estivesse digitando, ajustando o gráfico novamente.
Desta vez, ela o coloriu de verde limão. A tela pulsou com as cores fortes. Natasha tombou a cabeça para o lado. Jovem e excitante? Ou muito superficial?
- Houve uma mudança de planos.
Natasha suspirou.
- Que pena. Vamos ter de adiar por causa da chuva?
- Não, não foi esse tipo de mudança. Foi... Bem... Uma mudança de local.
- Certo - disse Natasha, sem muito interesse. - Para onde?
- Bem... - Izzy parecia estranhamente envergonhada. - Será numa casa particular. Eu peguei emprestada.
- Legal. Dê-me o endereço.
Izzy deu.
- E tem mais uma coisa...
Finalmente a hesitação de Izzy fez efeito. Natasha parou de brincar com o mouse.
- Ande, Izzy. Fale logo. Qual é o problema? O lugar está caindo aos pedaços? Não tem aquecimento central? É tão escondido que terei de alugar um helicóptero para chegar lá?
- Você faria isso, não faria? - Izzy parecia estranha.
- O que for preciso - disse Natasha, animada. - Uma por todas e todas por uma. Você é minha melhor amiga e não a vejo há seis meses. - Ela encolheu os dedos e largou o mouse. - Vou ter de arranjar um piloto?
- Não. De carro, fica a uma hora do aeroporto.
- Então não há problemas.
- Certo. Então volte para seu trabalho, e eu a verei amanhã. Vai pegar o vôo noturno?
- Sim.
- Isso é bom. Teremos o dia inteiro para conversar antes que as outras cheguem.
Natasha franziu a testa. Deu as costas para o laptop. Aquilo parecia sério.
- Você está com algum problema, Izzy?
- Não, é só que... - Izzy parou. Depois continuou, com uma voz alta e artificial. - Serenata Place é difícil de encontrar. - Era como se ela quisesse dizer algo mais e não tivesse coragem. - Vou mandar um mapa por e-mail - disse ela, com animação desesperada.
A testa de Natasha ficou ainda mais franzida. Nunca tinha escutado Izzy falar assim. Bem, pelo menos desde...
Ela afastou as lembranças sombrias de sua mente. Já haviam se passado três anos desde aquela época ruim. Ela e Izzy tinham saído vivas da selva, como todos os outros. Os pesadelos também iriam embora na hora certa.
No entanto, isso não explicava por que Izzy parecia tão tensa c artificial.
- Qual é o problema, Izzy?
- Vou me casar.
- Vai o quê?
- Me casar - disse Izzy, rápida. - Eu sei. É muito de repente. Você não o conhece. Só que ele está indo viajar e... Este fim de semana será nosso noivado.
Natasha ficou ali franzindo a testa para o telefone por um longo instante. Izzy era uma mulher prática, determinada, mas tinha seu lado vulnerável. E Natasha sabia exatamente qual era. Izzy estava no trabalho. Trabalhava com a prima, Pepper, num escritório claro e elegante. Não havia paredes e qualquer um podia escutar a conversa dos outros. Izzy não ia querer falar sobre aquilo com suas colegas de trabalho escutando.
- Olhe, vejo você na sexta-feira e conto tudo. Bom vôo. - Izzy desligou.
Certo, esperaria até encontrá-la cara a cara na sexta-feira. E aí Izzy lhe contaria tudo.
Enquanto isso, não havia sentido em ficar pensando sobre o assunto. O súbito casamento de Izzy poderia esperar algumas horas. Natasha, a profissional, tinha uma apresentação para terminar.
Virou-se novamente para o laptop e, com uma batida forte no teclado, fez o gráfico ficar roxo.
A sala do trono no palácio era uma mistura excêntrica de magnificência e simplicidade. O emir do Saraq estava sentado numa cadeira francesa de brocado que teria se encaixado melhor no palácio de Versailles, e acenou para o recém-chegado na direção de um sofá sueco minimalista. O emir o tinha chamado pessoalmente.
- Você não manda em mim, vovô - disse o recém-chegado, sem qualquer emoção. Era alto, com sobrancelhas decididas e um nariz adunco e altivo. Sua túnica branca não tinha nenhum vinco. Ele não se sentou.
- Você está aqui - lembrou o Emir com um toque de desafio.
- Por enquanto.
Seus olhos se encontraram: os do emir, ferozes; os de seu observador, indecifráveis. Ele tinha bastante prática em mascarar os sentimentos.
- Não vamos discutir, Kazim. Isto é importante.
O tom apaziguador era incomum. Mas o avô era um ator contumaz, pensou Kazim, e tão astuto quanto um falcão caçador. Ele permaneceu alerta.
- Outro casamento arranjado?
- Não. Eu já concordei, você decide quando se casar. - Parecia que cada palavra estava sendo arrancada dele, mas mesmo assim conseguiu dizê-las.
Não foi suficiente. Kazim corrigiu-o, implacável.
- Se eu me casar.
O velho também não gostou daquilo.
- Se você se casar - concordou com relutância.
Kazim não sentiu remorsos.
- E com quem eu quiser casar.
- E com quem você quiser casar - repetiu o emir, entre os dentes.
O neto assentiu como um general aceitando a rendição. Eles se encararam como dois duelistas.
O emir disse algo explosivo, bem baixinho.
Kazim decidiu não escutar. Às vezes aquele era o único movimento possível no prolongado jogo de xadrez que era o relacionamento dos dois.
- Você quebra todas as tradições e não escuta ninguém, mas realmente consegue fazer as coisas. Os lábios de Kazim se contraíram.
- Obrigado. Acho.
O emir parou de falar baixo e rearrumou a dobra de sua túnica branca sobre os joelhos. Estava nitidamente fazendo um enorme esforço para parecer razoável.
- Pedi para vê-lo porque houve um alerta.
Subitamente, toda a cautela de Kazim se dissolveu em preocupação.
- Está falando de ameaças? Contra você?
O emir permitiu-se um sorriso fino.
- Não. Contra você.
Por um instante, o rosto de Kazim ficou absolutamente sem expressão. Ele não respondeu. A atmosfera na sala do trono ficou carregada de eletricidade.
- Então você sabia - disse o emir suavemente.
Kazim ficou perturbado. Não tivera a intenção de revelar tanto. O velho era muito bom naquilo. Mas aquele não era um bom pensamento. Escondeu o desconforto, profissional que era, e deu de ombros.
- Sempre há malucos por aí. As ameaças vêm com o território.
- E você está se colocando como alvo para eles - disse o avô, com raiva súbita.
Kazim suspirou. Aquilo não era novidade. Seu avô o queria em casa e a salvo em Saraq, sem se envolver em conversações de paz em outros continentes.
- Este seu Conselho de Reconciliação Internacional é uma grande idéia. Muito bem pensada - fez uma pausa para conseguir mais efeito. - Para daqui a 50 anos.
- Não temos 50 anos - disse Kazim, um pouco cansado.
Já haviam discutido aquilo antes, muitas vezes; de maneira mais explosiva no dia em que partira,
um ano atrás. Ele se preparou para discutir novamente. Mas, desta vez, o emir não estava em busca de uma boa discussão.
- Isso não importa.
- Como assim?
- Você está na lista de assassinatos - disse o velho, de repente.
Kazim ficou rígido como uma rocha.
- Seus espiões são muito eficientes - disse, educadamente.
- Você não está levando isso a sério.
Kazim deu de ombros novamente.
- Tomo precauções bem razoáveis.
- Não, não toma.
Kazim piscou.
- Como assim?
- Liberar os seguranças e até mesmo os empregados durante um fim de semana inteiro não é tomar precauções bem razoáveis - acusou o emir. - Não é isso que você vai fazer?
- Invasão de privacidade é um conceito totalmente estranho para você, não? - reclamou Kazim, implacável.
- Cuido dos meus familiares.
- Mantendo-os sob vigilância 24 horas por dia?
- Se é por causa de uma mulher, traga-a para cá, onde você está a salvo. Você pode ficar com o Sultana's Palace e terá toda a privacidade que quiser.
Um músculo saltou na mandíbula de Kazim.
- Não é uma mulher - disse ele, irritado.
Pela primeira vez na conversa o emir sorriu.
- Melhor se fosse. Você trabalha muito.
Ambos sabiam que Kazim não visitava seus aposentos particulares no palácio do emir havia anos. Tinha vindo direto do aeroporto para este encontro e o emir sabia que, provavelmente, o jato particular estava sendo reabastecido enquanto conversavam.
O emir tinha aprendido pelo caminho mais difícil que, se houvesse uma batalha de vontades entre eles, Kazim sairia sem olhar para trás se achasse que estava certo. Mas aquilo era mais do que a batalha normal entre os dois. De repente ele não era mais o emir; era apenas um homem preocupado com a segurança do neto.
- Pelo menos mantenha a equipe de segurança em Serenata Place. - Isso era o mais próximo de um pedido que o velho soberano conseguia fazer.
Kazim ainda estava fervendo por dentro com a idéia de estar sendo espionado. - Minha organização para entreter meus amigos diz respeito apenas a mim.
O avô explodiu.
- Amigos! Que tipo de amigos iam querer colocá-lo em perigo?
- Amigos normais - retrucou Kazim.
- Ora!
No entanto, havia um tom de desespero real na voz do velho homem. Kazim fez uma pausa, depois se sentou no sofá.
- É apenas um fim de semana - disse, numa voz mais suave.
- A duração é irrelevante - disse o emir. - Seria necessário menos de um minuto para um atirador de elite matá-lo.
- Vou mandar Tom fazer uma varredura completa antes dos convidados chegarem, na sextafeira - disse Kazim gentilmente. - E recoloco a equipe completa de segurança quando os empregados voltarem ao trabalho.
O emir fez um ruído de indisfarçável desprezo. Kazim deixou a gentileza de lado.
- Não posso deixar a festa de noivado de meu melhor amigo ser estragada por homens com fones de ouvido e paranóia profissional.
- Uma festa! Você pelo menos checou a lista de convidados?
Kazim subitamente ficou muito parecido com um príncipe do deserto.
- Dominic é meu amigo.
- Tem certeza? - perguntou o avô com raiva.
Kazim cedeu um pouco.
- Vovô, entenda. Dom e eu sempre escalamos juntos. Ele já teve a minha vida em suas mãos e eu, a dele. Claro que não fiquei conferindo quem são os amigos deles.
- Cancele essa festa!
Kazim olhou-o diretamente nos olhos.
- Em meu lugar, o senhor cancelaria?
Ele sabia um monte de histórias sobre a juventude do avô. Histórias de coragem e lealdade, além de pura obstinação. Ele baixou os olhos.
- Tudo o que sou herdei de meus ilustres antepassados - murmurou, com ares de herdeiro submisso.
O emir estreitou os olhos.
- Você pode ser muito inteligente - disse. - Mas um dia vai cair com essa cara presunçosa no chão.
Os olhos escuros de Kazim, tão parecidos com os do emir, acenderam-se com súbito humor.
- Quando isso acontecer, farei com que o senhor saiba imediatamente - assegurou ao avô.
E saiu.
Seu assistente pessoal estava esperando ao lado do veículo 4X4 no pátio da segurança do palácio. Seus passos raivosos faziam a túnica branca ondular.
- E aí?
- O velho tem um espião em minha casa - disse Kazim, entre os dentes. - Quer que eu encha Serenata Place com segurança 24 horas. Dê-me as chaves.
Martin sentiu o coração apertar. A maior parte do tempo, Kazim era um homem aberto à razão, mas esses encontros com o avô faziam com que seu temperamento explodisse. Ele ficaria remoendo aquilo durante dias.
Martin começou a andar ao lado dele, sacudindo a cabeça.
- Está falando do fim de semana com Dominic?
- Sim.
- Bem, ele tem uma certa razão.
Eles alcançaram o carro. Antes de entrar no banco do motorista, Kazim parou.
- Ouça, Martin - disse controladamente. - Passo minha vida pública cercado de guardacostas e seguranças em tempo integral. Pelo menos desta vez, quero dar uma festa como um homem normal.
Martin trabalhava para Kazim há muito tempo. Sabia quando o chefe não ia mudar de idéia.
Todos os que trabalhavam para Kazim sabiam. Os empregados da casa o temiam; os do escritório tentavam lidar com aquilo; seu secretário pessoal chamava de "o lado sheik" de Kazim. Não acontecia com freqüência. Mas, quando acontecia, ficava irremovível.
- A decisão é sua.
Kazim ligou o motor, conferindo o aparelho GPS.
- Se não posso acreditar num homem com quem faço escaladas, não posso acreditar em mais ninguém.
Martin entendia. Mas fazia parte de seu trabalho lembrar Kazim de verdades não muito bemvindas.
- Você não escalou com a namorada dele. Ou a amiga da namorada.
Kazim virou a cabeça, surpreso.
- Você acha que os Filhos de Saraq vão mandar alguma estilista de Londres me assassinar?
Martin explodiu numa gargalhada.
- Dessa forma não parece provável - admitiu.
Kazim pôs o carro em movimento.
Pela primeira vez em dias, seus olhos estavam brilhando. Tomara que ela seja loura! Ficou naquele humor frívolo o tempo todo durante o vôo de volta para Londres, para desespero de Martin e Tom Soltano, o americano que era chefe da segurança de Kazim. Quando já voavam há uma hora, Martin estava quase perdendo a paciência. Até que Kazim disse algo tão ultrajante que ele explodiu.
- Você só pode estar brincando!
Kazim levantou o perfil altivo do arquivo que estava examinando e suas sobrancelhas se ergueram.
- Nunca brinco com meus compromissos.
Aquilo era verdade. Nos últimos e tumultuados anos, Kazim tinha voado para o mundo todo, levando sua marca pessoal de inteligência refinada e calma bem dosada para a resolução de conflitos, do deserto às periferias das cidades. Era uma agenda importante e cheia de responsabilidades. Mas não provocava muitos risos. Martin, que organizava a maioria dos eventos, sabia tudo sobre a agenda. Levantou-se e abriu um grande mapa na mesa, à frente de Kazim. Mostrava seus compromissos, dia a dia, nos próximos seis meses. Martin colocou o dedo sobre a semana da qual Kazim estava falando.
- Apenas olhe. Você não tem tempo.
Kazim manteve a calma, como sempre. Esta era uma de suas características mais irritantes.
- Quando chegar a hora, eu arranjo tempo.
- Veja isso. Nova York, Paris, Saraq, Indonésia, Turquia. Você não pode nem ter certeza de que vai conseguir ir ao casamento de Dominic, quanto mais dirigir o cerimonial.
Kazim sorriu. Tinha um belo sorriso. Iluminava seus olhos, transformando o rosto severo em puro charme, que derretia qualquer pessoa num piscar de olhos. Aquele sorriso fazia as mulheres adorarem-no. Martin olhou para ele com suspeita.
- Mas não vou dirigir o cerimonial do casamento de Dominic - disse Kazim em tom brando. - Ele me convidou para ser o padrinho, e só. Chego e fico ali segurando as alianças. Quanto tempo isso vai demorar?
- Você já foi a um casamento inglês?
Kazim al Saraq era brilhante e poderoso, com um perfil arrogante e poços de petróleo suficientes para que as pessoas geralmente não discutissem com ele. Mas os dois eram seus companheiros mais próximos. Jamais se lembravam dos poços de petróleo e ignoravam seu perfil.
- Um casamento inglês? Claro.
- Daqueles grandes? Com tias usando chapéus? Mães debulhando-se em lágrimas? - pressionou o conselheiro de segurança.
- Casamentos não são tão diferentes assim entre as culturas - disse Kazim secamente. - Mães se debulhando em lágrimas são uma constante, da Índia ao Canadá.
- Acho que você está certo sobre as mães - admitiu Tom. - Mas o padrinho inglês é único. E faz muito mais do que ficar segurando um par de anéis, acredite em mim. Eu já fui padrinho.
- Escute homem.
- Certo, continue. Pode me apavorar.
- Bem - disse Tom com satisfação. - Você fica responsável pelo noivo. E eu quero dizer responsável. Você tem de dar a festa da vida dele. Depois de casado, ele deve lembrar dessa época como seus últimos dias de liberdade. Esse tipo de festa.
- E depois, você o cura da ressaca no dia seguinte e o leva à igreja - interveio Martin.
- Dominic estará treinando para a expedição ao Pólo Sul. Não haverá bebedeiras. Então, nada de ressacas. - Houve um lampejo de diversão no olhar de Kazim que eles não viam há décadas. - Vocês terão de fazer melhor do que isso para me convencer.
- Certo - disse Martin. - Que tal isso? Todos os amigos dele serão uma espécie de mestresde-cerimônias. Você não os conhece e metade deles não conhece os outros, mas terá de dizer a eles o que fazer. E terá de manter sob controle os pajens, as daminhas e as madrinhas.
- Você está querendo dizer que vou dirigir o espetáculo - disse Kazim, ainda irritantemente calmo. - Posso muito bem fazer isso. É o que mais faço na minha vida.
Martin levantou os olhos para o céu. Tom disse, gentilmente:
- Diga a Martin e a mim o que fazer, e nós dirigiremos o espetáculo.
- Isso é verdade.
Tom continuou, com honestidade.
- O padrinho é uma espécie de faz-tudo. Terei de fazer um alerta contra isso. Você será um alvo
fácil.
Martin assentiu.
- E terá de arregaçar as mangas, esfregar as mãos e trabalhar. Não poderá delegar isso a ninguém.
Kazim permaneceu impassível. Martin quase sapateou de irritação. Mas Tom, o homem de Princeton, continuou com firmeza.
- Você terá de coordenar os discursos durante a refeição após a cerimônia. Que diabos, você tem que fazer o melhor discurso de todos.
- Faço discursos o tempo todo.
- Não como este - disse Martin com delicadeza. - Você terá de contar piadas.
Por um instante, Tom esqueceu o e-mail ameaçador cm sua pasta de Ações Imediatas.
- Você conhece alguma história sobre Dominic Templeton-Burke que faça um monte de estranhos rirem, Kazim? - perguntou, curioso.
Pela primeira vez, Kazim empalideceu. Os outros dois reagiram com satisfação.
- E que tal as madrinhas? - acrescentou Tom, começando a se divertir. - Você deve acompanhar a madrinha principal pela nave da igreja, atrás dos noivos, e ouvir todas as tias falando que casal adorável vocês fazem?
- É - disse Martin, mais aliviado. - Haverá uma festa depois. E você terá de dançar com a madrinha mais feia. E continuar dançando com ela sempre que estiver sozinha.
- Cuidar para que nenhum dos pajens caia sobre os presentes de casamento - acrescentou Tom. - Apresentar as pessoas. Manter as duas sogras longe das gargantas uma da outra e os sogros longe da garrafa de conhaque. Mandar o casal feliz embora com um sorriso, garantindo que ninguém vandalize o carro deles.
- Vocês estão exagerando.
- Nem um pouco.
- Tom fez isso e sobreviveu. Não pode ser tão ruim assim.
Os outros dois se entreolharam novamente.
- E pior - disseram em uníssono e passaram mais dez divertidos minutos contando a ele os piores desastres de casamento de que cada um podia se lembrar.
- Não pense que você vai poder voar até lá, ficar no altar ao lado de Dom por dez minutos e depois pegar outro avião - avisou Tom. - Não pode ser assim.
- Ligue para ele e diga para conseguir outra pessoa - disse Martin, sério. - É o único jeito. Mas o queixo de Kazim se ergueu.
- Dei minha palavra a Dom.
- É, mas você não estava pensando - começou Tom.
- Minha palavra.
Martin sabia que aquele era o ponto final. Se Kazim fizera uma promessa, nada o desviava daquilo. Jamais.
- Se não puder fazer isso, sou um homem menor do que deveria ser.
Houve um pequeno silêncio. Os outros dois reconheceram a derrota.
- Você é um bom homem, Kazim - disse Tom.
Martin não estava menos emocionado. Mas ainda era um homem prático. - Sorte da madrinha mais feia.
Para alívio pessoal dos conselheiros de Kazim, não havia nenhuma loura à vista quando os convidados de Dom começaram a chegar a Serenata Place, naquela sexta-feira. A noiva revelou-se uma ruiva adorável.
- Síndrome do casarão - disse Dom afetuosamente, enquanto ela subia as escadas para se
trocar.
- Como assim?
- Izzy entrou em parafuso quando a levei à minha casa para conhecer meus pais. Agora qualquer coisa que pareça com o retrato de um ancestral a faz ficar nervosa.
Um decorador especializado nos anos 20 tinha coberto as paredes do saguão de entrada de Serenata Place o com gravuras de caçadas vitorianas. Kazim olhou para a gravura mais próxima, com homens gordos de rostos vermelhos, cavalgando pelas montanhas.
- Eles não são meus ancestrais - disse ele, indignado.
Dom sorriu.
- Vou dizer isso a ela. Devo acalmá-la.
Kazim, recebendo telefonemas freqüentes de um nervoso oficial de segurança, não teve muito tempo para fazer social naquela noite. Mas até para ele era óbvio que a ruiva Izzy ficava cada vez mais perturbada conforme os convidados chegavam. Finalmente ele saiu do gabinete para encontrar Dom, que parecia preocupado.
- A melhor amiga não chegou - disse Dom. - Não podemos anunciar o noivado até que ela chegue.
- O que você quer fazer? - perguntou Kazim.
- Matar a mulher.
- Tirando isso?
Dom franziu a testa.
- Adiar tudo. Anúncio do noivado, champanhe, fogos de artifício. Deixar tudo em suspenso até amanhã e esperar que a maldita mulher chegue até lá.
Kazim piscou. Mas tudo o que disse foi:
- Então todos os seus convidados vão ficar para passar o fim de semana.
- Sim, graças a você - Dom deu um suspiro sentido e deu um leve soco em seu braço. - Definitivamente tenho amigos melhores do que Izzy.
- Você conheceu a amiga perdida, então?
- A Senhorita Eficiente? - Dom sacudiu a cabeça. - Ainda não. - Ela parece intrigante - disse Kazim, educadamente.
Dom riu.
- Não faz o seu tipo.
- Achei que você não a conhecia.
- Não preciso. Sei que é uma chata. Uma daquelas mulheres bem-sucedidas do século XXI.
Kazim sacudiu a cabeça com pena.
- Não sei por que você está dizendo que ela não faz o meu tipo.
- Porque você acha que o lugar de uma mulher é recebendo rosas e poesia - disse o amigo. - Antes de mandá-la para casa, para que você continue salvando o mundo.
Kazim não se ofendeu.
- Muito engraçado - disse calmamente. O telefone locou novamente. - Desculpe.
A mensagem de texto de Tom era inequívoca. Kazim devia ligar para ele imediatamente. Novas informações estavam chegando sobre ameaças às negociações de paz, e a Kazim em particular. Tom precisava de conselhos.
- Desculpe, Dom. Vou cuidar disso e encontro você mais tarde.
Dom assentiu. Os amigos de Kazim estavam acostumados a tais interrupções.
- Vou convencer Izzy a descer e abrir algumas garrafas. Vamos começar essa festa.
- E cuide para que o pessoal dos fogos de artifício volte amanhã - Kazim lembrou.
Natasha tivera um dia ruim. Primeiro, o gráfico roxo não tinha funcionado bem. E nem seu maravilhoso arquivo de apresentação. David Frankel queria sua menção pessoal e indivisível. Não havia jeito de deixá-la sair, de preferência até que concordasse em jantar com ele.
Enquanto Frankel fazia pergunta após pergunta sem objetivo, ela viu sua chance de pegar o primeiro vôo noturno, e depois o outro, desaparecer. Sorrindo com dificuldade, desculpou-se e ligou para Izzy do banheiro das mulheres. Izzy não atendeu.
Natasha deixou um recado.
- Izzy, vou chegar atrasada. Desculpe, querida. Vejo você assim que puder.
As horas frustrantes que se seguiram formaram um padrão repetitivo. O último vôo atrasou; havia neblina e ele acabou sendo desviado. Natasha calculou as diferenças de fuso horário e telefonou muitas vezes, mas Izzy não atendeu nenhuma.
Finalmente, era uma noite escura de sábado quando a limusine alugada por Natasha alcançou as estradinhas estreitas da região de Sussex. O silêncio do motorista era mais eloqüente do que uma torrente de reclamações. Já tinham passado por um vilarejo de dez casas pelo menos três vezes, quando Natasha avistou um caminho íngreme e estreito à esquerda.
- Aqui.
Aborrecido, o motorista fez o que lhe foi dito. O aquecedor crepitou e desligou.
Natasha estremeceu. Ela não estava viajando com um vestido Prada, mas também não estava com roupas de expedições ao Ártico. Com meias finas e sapatos de saltos altíssimos feitos à mão, seus dedos dos pés estavam vagarosamente se transformando em gelo.
- Espero que não esteja longe. Estamos a quilômetros de lugar nenhum.
À direita, havia cercas e campos escuros; à esquerda, uma alta cerca de louros muito bem podada.
- Parece algum tipo de mansão imponente - disse Natasha. - Espero que não tenhamos errado novamente.
E então surgiu uma placa. "Serenata Place. Estritamente Particular."
- Que amigável - notou Natasha. O lugar era grandioso. Ela estava assustada, embora não dissesse isso em voz alta.
O que importava o tamanho do lugar?, perguntou-se.
Podia lidar com qualquer coisa. Mas quando a limusine passou a cerca viva e foi parada por enormes portões de ferro batido, Natasha sentiu sua confiança balançar pela primeira vez.
Trincou os dentes e não demonstrou o que sentia. Ao contrário, baixou o vidro elétrico e falou rispidamente para a câmera na entrada.
- Srta. Lambert para srta. Dare. Estou sendo aguardada.
Não havia nenhuma voz do outro lado. Nenhuma resposta. Apenas uma longa e sinistra pausa.
Depois, finalmente, os portões se abriram para o lado de dentro. Silenciosamente.
Natasha estremeceu novamente; e não era só por causa da temperatura.
- Ah, que ótimo. Só falta o mordomo Tropeço, da família Adams, sair oscilando das sombras - murmurou, sentindo-se totalmente desconfortável.
Estavam passando por um local realmente grandioso. O caminho de entrada era maior que a pista de decolagem de um jumbo. E então chegaram à casa...
- Há torres suficientes para deixar os estúdios Disney com inveja - disse Natasha, com franqueza. - E toda a floresta da Bela Adormecida para protegê-las! Por que será que Izzy não me disse que tinha pegado emprestada uma mansão gótica?
A limusine parou. Por mais irritado que estivesse, o motorista tinha sido bem treinado. Retirou a pequena bagagem dela e levou-a até os degraus da entrada. Tocou uma campainha impressionante antes de voltar para abrir a porta da limusine. Se ainda estivesse chovendo, ele teria segurado um guardachuva sobre a cabeça dela.
- Obrigada - disse Natasha, saindo do carro como uma princesa.
Tinha a estranha sensação de estar sendo observada. Mas a porta da frente permaneceu fechada e as janelas estavam escuras. Não havia qualquer sinal de vida.
Ela subiu os degraus da entrada. Eles batiam frios como gelo nas solas de seus modernos sapatos de bico fino. Mármore, pensou, resignada. Definitivamente mármore. Uma mansão de verdade.
- Acredito que este realmente seja o lugar correto... - começou ela.
No entanto, o motorista já tinha ido embora. Ela observou a limusine sair por entre as árvores e descobriu que o coração estava apertado.
Natasha controlou-se. Era uma mulher ou um rato?
- O mordomo provavelmente terá de sair do caixão para chegar à porta da frente - disse a si mesma, sarcástica. - Grande idéia, Izzy. Um fim de semana temático!
Apertou a campainha, várias vezes. Com força.
A sensação de estar sendo observada se intensificou. Ela inclinou a cabeça, escutando...
Aquilo seria um ruído...?
Não, disse a si mesma. Não era um ruído real. Não conseguia ouvir nada além do vento nas árvores. Mas algo dentro dela sabia que ele estava ali. Seu sangue pareceu ficar mais pesado; mover-se mais devagar. Seus ossos latejavam.
Cuidado.
Natasha engoliu em seco. A atmosfera gótica estava realmente tomando conta dela! Tocou novamente a campainha muitas vezes, o coração batendo forte.
Depois ouviu o ruído de folhas secas pisadas.
Ela congelou. Imaginação era uma coisa. Seus instintos gritando para ficar em alerta eram algo totalmente diferente. Natasha tinha aprendido a confiar em seus instintos. Eles já haviam salvado sua vida uma vez. Seu olhar varreu o local rapidamente.
- Quem está aí?
Ela vasculhou as sombras, como se cada uma escondesse um assassino.
O homem surgiu da escuridão entre dois grandes arbustos. Não estava se escondendo, mas pisava levemente. Era alto e usava roupa escura.
A primeira impressão de Natasha foi de que era muito profissional. Reconheceu as características: tenso, concentrado, controlado. Sua segunda impressão, que mandou a primeira para longe como uma explosão de total arrogância.
Natasha conhecia a arrogância em todas as suas formas. Trabalhava com ela todos os dias e, uma vez, aquilo quase tinha custado sua vida. Ela detestava arrogância. Por puro reflexo, ficou na defensiva. Sua coluna se travou e seu queixo se ergueu.
O homem olhou para ela. E não disse nada. As luzes refletidas da entrada mostravam maçãs do rosto grandes e olhos penetrantes. Apenas por um instante, ela pensou num gato selvagem, alerta e contido. E perigoso.
Perigoso? Ela lutou consigo mesma. Aquilo era apenas uma sombra do passado, pura e simplesmente. Não ia deixar a paranóia tomar conta dela depois de todos esses anos. Trincou os dentes.
- Boa noite - o tom era agradável. Bem, suficientemente agradável. Significava que ela se reservava o direito de atacá-lo se ele não prestasse atenção. Companheiros de trabalho mais próximos teriam reconhecido o tom.
- Sim? - Ele não era nada caloroso.
Aquilo teria intimidado uma mulher menos valente. Mas não intimidou Natasha. E ela não perdeu mais tempo com civilidades.
- Estou sendo aguardada - disse rispidamente. Aquilo também não o impressionou.
- E você é quem?
- Srta. Lambert, para ver a srta. Dare. - Falou como se estivesse telefonando para um daqueles grandes arranha-céus de Nova York e ele fosse o homem da recepção. - Preciso ficar repetindo? Eu disse isso no interfone.
Natasha sentiu uma pequena satisfação. Mas não o suficiente para compensar o fato de estar de pé, ali fora, no vento frio de novembro com uma roupa de grife que definitivamente tinha sido criada para interiores. Ela se recusou a tremer, entretanto.
- Lambert?
- Natasha Lambert. - Ela estava quase rangendo os dentes. - A srta. Dare me convidou para o fim de semana.
Ele fingiu pensar sobre aquilo, com uma vagareza insultuosa.
- O fim de semana que começou na noite passada?
Se não estivesse tão frio, Natasha teria dito que seus arranjos de viagem só diziam respeito a ela.
Mas estava desesperada para entrar e fugir do vento cortante.
- Eu me atrasei. - Esforçou-se para parecer razoável. Não estava acostumada a se desculpar.
Contudo, ele não parecia estar interessado em desculpas. - Por quê? - A pergunta a atingiu como um raio.
- Meu cliente em Nova York exigiu uma reunião extra.
Ele a olhou, mas era quase como se não a visse. E franziu o cenho.
- Quando foi a reunião?
Uma pequena rajada de ar gelado fez as folhas dançarem. Seu interrogador nem pareceu notar. Mas aquilo passou pela roupa de Natasha como um raio laser.
- Quinta-feira à noite.
- Por que não pegou um vôo noturno?
- Estavam lotados. Depois, meu vôo foi adiado e desviado por causa da neblina... - Natasha tomou novo fôlego. - Olhe, o que é isso? Eu deveria estar passando o fim de semana com meus amigos, e não fazendo um relatório de meus compromissos recentes a... a... - ela olhou para cima, aquele rosto impassível, o corpo impenetrável ao frio, os olhos concentrados no nada, e o insulto perfeito surgiu, vindo diretamente de sua infância - ... ao mordomo Tropeço - terminou com alívio.
- O quê?
Agora ele estava olhando para ela de verdade. Diretamente para ela. Dentro dela, quase.
Natasha o viu observar seu traje preto de corte perfeito, os sapatos nova-iorquinos finos e ultra polidos, os belos cabelos louros e curtos. E o viu decidir que não gostava nem um pouco da embalagem.
Ela começou a se sentir melhor, apesar do frio.
- Como disse - perguntou ele, vagarosamente.
- Você é o mordomo, não é? - perguntou ela. - Quer dizer, alguém tem de apertar o botão para abrir esses portões. É você? Então você já sabe que estou sendo esperada - lembrou ela, triunfante. E acenou com a mão para a maleta. - Poderia carregar minha bagagem, por favor?
Ele olhou para a maleta com... Seria aquilo espanto? Ela não pôde resistir a provocar toda aquela desaprovação glacial.
- Não se preocupe, eu viajo com pouco peso.
A boca do homem formou uma linha fina e feroz. Ela viu dois profundos vincos correrem por suas faces.
Ai, pensou Natasha. Talvez tivesse ido um pouco longe demais, chamando-o de Tropeço. Talvez ele fosse sensível ao fato de ser mordomo, por alguma razão.
- Então, onde está a srta. Dare? - perguntou num tom mais amigável. - Por que não posso entrar na casa?
Ele não reagiu ao tom amigável. Mal abrindo os lábios, disse:
- A festa é no jardim.
- Bem, graças a Deus há alguma festa acontecendo em algum lugar.
- Você tem alguma identificação?
- Iden... ? - Todo o desejo de ser amigável foi embora abruptamente. - Você deve estar brincando.
Ele avançou, rápida e repentinamente, como aquele gato selvagem ao qual ela o havia comparado. Subiu os degraus como uma onda rápida. Sem perceber, Natasha recuou. Aquilo a fez salivar de raiva, mas não conseguiu se controlar.
Ela parou apenas ao encostar as costas na grande porta.
- Que diabos você pensa que está fazendo?
Ele ignorou aquilo e estalou os dedos.
- Passaporte. Você deve ter um passaporte, se acaba de chegar de avião.
- Claro. Acabo de chegar de avião - respondeu Natasha, rapidamente.
- Prove.
Tremendo agora de fúria tanto quanto de frio, ela tirou todos os documentos de sua bolsa: passaporte, o canhoto do bilhete de avião, o itinerário impresso da licença de viagens.
- O que você era antes de ser mordomo? - o tom de Natasha era venenoso. - Oficial da alfândega? Inspetor da receita federal?
Ele ignorou aquilo também. Estava examinando o passaporte.
Ela odiava a foto do passaporte. Tinha sido tirada quase 10 anos atrás, quando acabara de voltar da selva. Parecia uma estudante, toda cheia de cachos despenteados e sem maquiagem.
- Não se parece muito com você - comentou ele. Havia um tom de diversão na voz cortante?
A antipatia de Natasha pelo homem intensificou-se ainda mais. Como ousava rir dela? Arrancou o passaporte de volta, com a mão trêmula.
- Satisfeito?
Ele deu de ombros.
- Contanto que a srta. Dare a reconheça.
- O quê?
- Existem passaportes forjados.
- Você assiste muita televisão.
Aquilo foi demais. Natasha puxou o telefone celular da bolsa e o abriu.
- Ah, chega. Vou ligar para Izzy agora...
O pequeno aparelho foi arrancado de sua mão e jogado no caminho de cascalho.
- Meu telefone... - foi um gemido de puro ultraje.
Gemido? Ela estava furiosa consigo mesma. Devia ter rugido como um vulcão. Aquela voz ofegante nem parecia a dela. Fraca, fraca, fraca. Natasha odiava ser fraca. Aquilo não acontecia há muito tempo.
- Como ousa? - Ela estava engasgada.
- Você não precisa de um telefone. Se é que isso é mesmo um telefone.
Natasha sentiu o volume de sua maleta de rodinhas pressionando a parte de trás de seus joelhos. Percebeu que havia recuado novamente. Aquilo era demais. O simples amor-próprio mandava que ela lutasse.
Tentou chutá-lo. Aquilo foi infantil e deselegante, e ela estava sem equilíbrio. Acabou chutando a mala, que caiu para o lado e depois vagarosamente tombou, degrau por degrau, escada abaixo.
- Afaste-se de mim - ordenou, furiosa.
Porém, ele não estava escutando. Nem mesmo olhando para ela. Olhava por cima do ombro dele, para a mala, como se estivesse viva.
Ela tinha caído no facho de luz no pé dos degraus.
- O que está esperando? - perguntou Natasha acidamente. - Uma explosão?
Ele voltou os olhos para ela. Por um instante, foi como se uma persiana se abrisse. Seus olhos eram duros. Sua testa se franziu. Finalmente a persiana se fechou de novo, com força.
- Acho que não.
- Você realmente pensou que ia explodir - disse Natasha vagarosamente. Sua raiva evaporou, transformando-se em algo bem mais complicado. Sem perceber, ela estremeceu.
Ele a libertou daquela inspeção penetrante e deu um passo para trás. Natasha soltou um suspiro trêmulo. Estava preocupada agora. No que será que Izzy estava metida?
Abruptamente, ele se virou e desceu os degraus para pegar a maleta. Natasha esforçou-se para banir a sensação de que ele a pegara como se estivesse lidando com dinamite.
- Venha comigo - disse ele por cima do ombro. E saiu, sem olhar para trás.
Natasha alcançou-o num caminho mal iluminado que dava a volta pela lateral da casa. Tinha recuperado a sensação de ultraje a essa altura.
- Me diga - disse ela com afabilidade dissimulada. - Quando eles o demitiram da academia de polícia, foi por ser muito perspicaz?
Caminhava com passos rápidos, que não podiam ser acompanhados por sapatos de Manhattan, em caminhos irregulares que desciam para a escuridão. Natasha era orgulhosa demais para lembrar isso a ele. Quando achou que estava ficando muito para trás, trincou os dentes e deixou os sapatos nas moitas. E emparelhou com ele.
Depois disso, ela prosseguiu muito bem, dada as circunstâncias. Seus sapatos, mesmo que conseguisse encontrá-los novamente, provavelmente estariam arruinados, pensou ironicamente. Sem contar as meias finas e caras. Mas aquilo era um preço pequeno a pagar para não ter de admitir que precisava de ajuda. E, pelo menos, ele estava carregando a mala.
Era uma grande festa. Devia haver mais de vinte pessoas ali. Eles riam e conversavam à luz bruxuleante da fogueira. As garotas usavam jaquetas quentes; os homens estavam com suéteres grossos. Menos aquele que tinha encontrado na entrada, claro. Ele usava um terno, sem fazer nenhuma concessão ao frio de novembro.
Natasha olhou para as pessoas em volta e suspirou. Gente demais para um fim de semana de garotas! A imagem reconfortante de sentar-se no tapete, à frente do fogo, com Izzy, mais umas duas amigas e muitas garrafas de vinho evaporou. Era como uma visão perdida do paraíso. Mas se era isso o que Izzy queria... Natasha endireitou os ombros e fixou no rosto um sorriso social.
A fogueira era grande e brilhava alegremente à beira de um pequeno lago. O ar cheirava a vinho quente, salsichas na brasa e batatas assadas.
- É uma festa de fogos de artifício!
- Natasha. Natasha. Achei que você ia me dar um bolo.
Izzy surgiu do meio das pessoas em torno da fogueira e abraçou-a com força.
- Desculpe. Tentei mandar um recado. - Natasha devolveu o abraço até ficar sem ar. Engasgando, ela lutou para respirar. - O que você está usando, Izzy?
- Uma jaqueta forrada de pele e encerada - disse ela, com ar profissional. - O que montanhistas usam.
- Por quê? - perguntou a melhor freguesa de Prada, confusa. - Você quase me sufocou com essa coisa. E faz você parecer uma bola de futebol.
- Ela me aquece - disse Izzy de maneira inquestionável. - Não ligo para minha aparência.
Vamos ter fogos de artifício mais tarde. As pessoas não vão ficar olhando para mim.
Natasha gemeu.
- Você é um caso perdido. Ninguém pensaria que você trabalha com moda.
- E ninguém pensaria que você não trabalha - replicou Izzy. Ela olhou por sobre os ombros da amiga e o viu. - Onde você a encontrou, Kazim?
- Na porta - disse o adversário de Natasha, secamente.
- Como um presente de Natal - disse Izzy, brilhando de felicidade.
- Ou uma pizza que você não pediu - murmurou Natasha. Izzy ficou supresa.
- O quê?
Natasha não estava olhando para ela. Olhava para o homem chamado Kazim.
- Acho que estou tão atrasada que você pensou que eu estava fora da lista de convidados.
Os olhos dele se estreitaram à luz do fogo e cintilaram maldosamente.
- Se você tivesse telefonado... - ela falava como um juiz.
Izzy se desculpou.
- É verdade, Tasha. Quando você não apareceu na noite passada, achei que não viria.
- Mas deixei um monte de recados.
- Nessa animação toda, esqueci de olhar meu telefone.
Natasha sacudiu a cabeça.
- Então você não recebeu nenhum dos meus recados? O que você acha que eu estava fazendo? - Achei que algo mais importante tinha aparecido.
Natasha estava sinceramente chocada.
- Não sou tão mal-educada assim, sou?
- Não - disse Izzy, em tom de desculpas. - Só muito ocupada.
Horrivelmente aquilo era verdade. Natasha não podia negar.
- Não importa - disse Izzy alegremente. - Você está aqui agora.
Mesmo à meia-luz da fogueira, estava claro que Kazim Quem-Quer-Que-Fosse não concordava. A consciência culpada de Natasha mudou rapidamente para algo bem mais combativo.
- Bem, agora estou, depois de conseguir passar pelo teste da segurança na porta da frente - concordou ela, fervendo por dentro. - Mas meu telefone ficou por lá.
Izzy pareceu confusa.
- O que aconteceu com seu telefone? Ai, Natasha, não diga que você foi assaltada. Natasha olhou diretamente para Kazim Quem-Quer-Que-Fosse.
- É. Foi um assalto.
Os olhos piscaram, mas ele não disse nada. Izzy abraçou-a de novo, aflita.
- Que horrível.
Natasha não tirou os olhos de Kazim.
- Nada de que eu não possa cuidar - disse ela.
Falava sério. E podia ver em seus olhos que ele sabia. As narinas dele se inflaram. Ninguém jamais tinha dito que poderia cuidar de Kazim antes. Ele estava ultrajado. O suficiente para fazer alguma coisa a respeito? Natasha não tinha certeza.
Então viu a rigidez em sua boca. Ah, definitivamente estava ultrajado o suficiente para fazer alguma coisa.
Por um instante, ela sentiu um pequeno arrepio de alarme. Mas se segurou. Ela nunca corria de um desafio.
Bem, mostre suas armas, ela o provocou silenciosamente.
As narinas dele se inflaram.
Uma corrente de alguma coisa, que poderia ser medo, correu pela espinha de Natasha. Medo ou excitação. Subitamente todos os seus sentidos estavam em alerta.
Ninguém mais pareceu notar. Mas ela sabia o que estava acontecendo. E ele também.
Era como um vinho forte. Ou um vento forte.
Ou a sensação de voltar à vida.
Porém, ainda não era hora. Natasha precisava colocar algumas roupas quentes antes que Kazim pensasse que seu tremor se devia a ele. Era arrogante o suficiente.
- Na verdade, Izzy, preciso tirar estas roupas. Poderia me dizer onde fica meu quarto?
Izzy sentiu-se imediatamente culpada.
- Claro. Você deve estar congelando.
- Já estive mais quente - concordou Natasha. - Na verdade, eu ficaria feliz se pudesse pegar um suéter emprestado também. Não sabia que ia precisar de um.
- É, claro, você fez sua mala totalmente bá-si-ca. - Izzy riu e olhou para a maleta de Natasha.
- Há quanto tempo você está vivendo só com essa malinha?
Natasha sorriu. Era uma velha piada entre elas.
- Uma semana.
- Então um suéter não é tudo que você vai precisar pegar emprestado - disse Izzy.
- O hotel tinha serviço de lavanderia - retrucou Natasha - Um suéter basta, realmente.
- Vou procurar algumas roupas boas e quentes para você. E botas de borracha também.
- Fique com seus convidados. Posso mostrar a srta. Lambert o quarto dela. Há muitos suéteres sobressalentes no quarto egípcio.
As sobrancelhas de Izzy ergueram-se, como se algo no tom de Kazim a surpreendesse.
Talvez fosse a desaprovação fria, pensou Natasha com ironia. Provavelmente mordomos não deveriam sentir antipatia instantânea pelos convidados de seus patrões, mesmo se o patrão atual estivesse apenas pegando seus serviços emprestados durante o fim de semana.
- Os fogos de artifício vão começar a qualquer momento - disse Kazim, como se aquilo bastasse.
Natasha preferia o encontro com Izzy e as amigas que tinha prometido a si mesma. Mas sabia de suas obrigações sociais.
- Vá e cuide dos fogos de artifício - pediu ela a Izzy. - Se... Kazim, não é isso? ...vai apenas me mostrar aonde ir... - lançou um sorriso manso na direção dele, com cuidado para não encontrar seus olhos - ...eu consigo me arrumar bem rápido.
- Tudo bem - disse Izzy vagarosamente. - Vinho quente aqui depois, então.
- Oops. Vejo você num instante - disse Natasha e correu atrás dele, o mais rápido que seus pés calçados apenas com meias permitiram.
Ele pegou o caminho que subia para um grande terraço pavimentado. Natasha seguiu-o. A grama molhada grudava fria sob seus pés. Ela se arrependeu do impulso que a fizera jogar os sapatos fora. Explosões temperamentais sempre se voltam contra nós, pensou com tristeza. Mas agora era tarde demais e, pelo menos desta vez, ela estava conseguindo prosseguir sem deslizar e escorregar por toda parte!
Ele ainda estava seguindo em frente sem falar nada. Ela decidiu abrir a sessão de hostilidades. - Então a identificação foi adequada? - perguntou para as costas dele. Ele olhou por cima do ombro.
- Foi.
- Que alívio!
- Deve ser mesmo.
Ela percebeu subitamente que havia um leve sotaque estrangeiro na voz profunda, esquivo como um perfume. Talvez não fosse nem um sotaque. Apenas uma leve imprecisão na pronúncia.
Natasha disse, abruptamente:
- Quando foi que você decidiu não gostar de mim?
Ele continuou andando.
- Se sou o mordomo Tropeço, não faz parte de meu trabalho não gostar de você.
Aquilo foi bastante neutro. Indiferente, até. Então, por que ela subitamente teve certeza de que
ele estava rindo dela? E por que um homem com um quociente de arrogância de cem por cento decidiu se empregar como mordomo?
Antes que pudesse perguntar, ele abriu a porta da casa para deixá-la passar à sua frente. Ela o olhou enquanto passava e surpreendeu-se com a força absoluta de sua presença física. Sim, ele era grande. Maior até do que ela tinha percebido do lado de fora. Mas não era sua altura que fazia todos os seus instintos acenderem o alerta vermelho.
Nem sua aparência. Embora a luz da casa revelasse que ele era um dos homens mais bonitos que Natasha já conhecera. Era algo mais duro, mais feroz. Os olhos escuros podiam ser frios. Mas havia um fogo queimando sob aquela fachada imperturbável, pensou ela.
Não gostaria de brigar com ele.
Natasha estremeceu com o pensamento e imediatamente sentiu raiva. Não importava com quem brigaria. Podia cuidar de si mesma. Mais importante, podia cuidar do inimigo! Podia cuidar de tudo. Sempre pudera. Sempre poderia.
Relaxe, disse ela a seus instintos.
A porta levava a um laranjal à moda antiga, todo em madeira clara e vidro. Era quente e cheio de árvores cítricas. Impressionada, ela parou à porta, todos os sentidos ligados no aroma.
E Kazim tropeçou nela.
Foi como uma agressão, um choque elétrico diretamente nos nervos. Ela pulou, tropeçou... E praguejou. Ele a pegou pelo cotovelo e a colocou de pé.
- Cuidado.
Seus dedos estavam frios da noite gelada, mas não sua forma de pegá-la. Natasha sentiu como se um fogo dentro dele passasse, como uma corrente elétrica, e acendesse algo dentro dela também. Aquilo literalmente tirou sua respiração.
Ele olhou para ela, surpreso.
- Você está bem?
Ela estremeceu novamente e não respondeu.
- Você está nervosa?
Natasha voltou à Terra.
- Experimente perguntar se estou congelada até a morte - disse ela de modo agradável.
Ele não pareceu acreditar muito naquilo. Mas deu de ombros e continuou andando, abrindo caminho entre as árvores de laranja e limão como se formassem uma rota de obstáculos que ele poderia correr com os olhos vendados. Abriu a porta da casa com um floreio.
O que ele sabe que eu não sei? Mas não ia deixá-lo ver que a estava atingindo. Passou pela porta que ele estava segurando e olhou friamente para o saguão forrado de carvalho.
- Impressionante!
As paredes estavam cheias de gravuras vitorianas e retratos gigantescos de cidadãos em vestes de gala. Ela deu um assovio silencioso.
- Quem é o dono deste lugar? Deve ser um fóssil completo.
A coluna dele ficou rígida feito aço.
- O dono certamente valoriza a tradição. - Seu tom dizia que ela era uma coisinha moderna e inútil, incapaz de compreender.
Natasha decidiu que era hora de um pouco de gozação.
- Gente engraçada - observou ela, olhando um grupo familiar. - Até o cão de caça parece estar usando um colete.
- Não é amante das artes, srta. Lambert?
- Não sou fã de esnobes cheios de pompa - rebateu ela.
- O dirigente parece mesmo estar em seus melhores trajes - admitiu pensativamente, para surpresa dela.
Porém, antes que Natasha pudesse se aproveitar de sua pequena vantagem, ele a levou escadas acima e virou num corredor discretamente iluminado.
- A srta. Dare achou que você gostaria do quarto egípcio. Disse que gostaria do lustre. E há um banheiro dos anos 20 de verdade.
- O que há de tão especial num banheiro dos anos 20? - perguntou ela com desdém.
A expressão de Kazim não mudou. Mas Natasha soube que tinha cometido outro erro. De alguma
forma, ela o deixara marcar um ponto.
- Ficarei feliz de lhe mostrar. - Ele foi muito suave. Como alguém fazendo o papel de mordomo no palco.
As sobrancelhas dela se uniram com uma rápida suspeita. Mas antes que o pudesse desafiar, ele tinha aberto uma grande porta de carvalho. Acendeu a luz e recuou para deixá-la entrar primeiro. Ela parou à porta, piscando sem acreditar.
O aposento tinha tudo. Não apenas um lustre, mas uma cama com dossel de veludo, alguns baús realmente antigos e uma pintura que parecia um Monet original.
Ela engoliu em seco. Mas não tinha tempo para reverenciar o quarto. Seus pés estavam doendo muito agora. Na verdade, sua sola esquerda estava queimando. Devia tê-la ferido enquanto tropeçava atrás dele no cascalho e na grama cheia de gravetos. Recusando-se a deixá-lo ver em que estado ela estava, entrou rapidamente no quarto, concentrando-se totalmente em não mancar.
Kazim seguiu-a. Colocou a pequena mala, com muito mais cerimônia do que merecia, num banco ao pé da cama. Deu uns tapinhas na rica colcha de brecado, como se estivesse testando a maciez da maldita cama, pensou Natasha, indignada.
- Obrigada - disse ela rispidamente, dispensando-o.
Ele não pareceu notar. Apenas assentiu, reconhecendo seu agradecimento. Estaria rindo dela novamente?
Kazim abriu uma gaveta, depois outras, em rápida sucessão. Seu nariz cocou com o cheiro de lavanda e naftalina.
- Realmente tradicional - disse ela, quase para si mesma. - A casa de minha avó tinha esse cheiro.
Kazim não gostou daquilo.
- Você vai encontrar suéteres aqui. E camisas. Por favor, sinta-se à vontade.
Natasha voltou para o presente com um pulinho.
- Obrigada - repetiu ela com ênfase e abriu a porta, ficando ao lado dela de maneira clara.
Ele ignorou a dica. Em vez de sair, cruzou o grande quarto e abriu largamente um par de portas duplas que ela não tinha notado antes.
- E aqui está a resposta para sua pergunta. Seu banheiro!
Quase podia ouvir o soar de trombetas, pensou Natasha. Estava claro que ele não ia sair até que ela o tivesse inspecionado.
- Realmente não há necessidade de fazer uma visita guiada. Sei como torneiras funcionam.
- Mas estas torneiras são excepcionais.
Os lábios dele se curvaram? Ela o encarou com suspeita. Ele a encarou de volta, um mordomo sem expressão. Ela desconfiava profundamente dele. Mas não ia deixá-lo levar a melhor.
Um banheiro era algo íntimo demais, claro. Mas não mais íntimo do que aquela batidinha de dono na colcha. Tinha muita certeza que ele sabia daquilo e estava deliberadamente se divertindo.
Natasha fixou no rosto um sorriso tão enganador quanto o dele e mancou até ficar ao lado de Kazim. Mas não muito perto.
- Obrigada. Muito bom. Isso...
Depois ela percebeu o que era o banheiro e parou, congelada. Seu queixo caiu.
- Decadente, você diria? - perguntou, satisfeito.
- Eu nunca... - Ela se controlou. Não ia deixar aquele maldito sujeito fazê-la perder a calma tão facilmente. - Que interessante - disse com a voz fraca. - Egípcio?
- Bem, egípcio de Hollywood - concordou Kazim. - Foi criado por um diretor de arte de cinema. Impressionante, não é?
- Só falta o sheik - disse ela emocionada, esquecendo-se novamente de ser fria.
Por um instante, ele não ficou mais impassível. Seus lábios curvaram-se perceptivelmente. - Isso pode ser arranjado.
- Desculpe. O quê?
Ele estava dando largas passadas em torno do banheiro, indicando sua decoração única com comentários prestativos. Natasha mal escutava o que ele dizia.
Todas as superfícies horizontais do banheiro eram de mármore brilhante: chão, teto, toucador, até o peitoril da janela. As paredes, onde não eram decoradas com espelhos brilhantes, estavam cobertas de hieróglifos e figuras de virgens sagradas egípcias estilizadas, com mais maquiagem nos olhos do que vestimentas. A banheira era circular; na beirada de mármore havia entalhes que ela percebeu, de repente, que eram descansos de cabeça. Dois descansos de cabeça, para ser mais precisa.
Se estivesse com Izzy, elas teriam se sentado na beira daquela banheira absurda e rido até chorarem. Mas aquela não era uma piada que podia compartilhar com esse mordomo. Não com Kazim, com seus olhos indecifráveis e sua risada reservada. E sua mordomia teatralizada.
A verdade é que ele era muito sexy para ser mordomo. Ele a desafiava. Deixava-a constrangida. Fazia-a pensar. E precisava falar sobre aquilo tudo com algumas boas amigas e uma garrafa de vinho.
Natasha sentiu um toque agudo de tristeza. Ah, sim, realmente tinha aguardado ansiosamente aquele fim de semana com as garotas. Teria sido bom retirar a armadura por um tempo. Oscilou imprudentemente e estremeceu, enquanto seu calcanhar machucado reclamava.
Descobriu que ele a estava olhando estranhamente. Será que havia percebido? Não queria que esse homem reconhecesse aquele momento pouco característico de fraqueza.
- Obrigada por me mostrar o quarto. Agora eu gostaria de trocar de roupa.
Entretanto, ele não saiu. Ao contrário, não mostrou sinal nem mesmo de ter notado que tinha sido dispensado.
- Você está machucada?
Ela se assustou.
- O quê?
- Você estava se encolhendo.
- Não estava.
Ele não a contradisse. Só olhou. Subitamente estava cheio de arrogância masculina de novo. Natasha reagiu àquilo. Seus olhos se estreitaram e seu queixo elevou-se perigosamente.
- O que foi?
- Agora que estou pensando no assunto, você também estava mancando no laranjal.
- Tudo bem, talvez eu estivesse. E daí?
- Daí que eu quero saber como você se machucou.
- Bem, essa é uma boa pergunta. Poderia ter algo a ver com o fato de ter sido obrigada a marchar por um caminho acidentado no escuro à velocidade da luz? Certamente não!
- Está dizendo que é minha culpa?
Natasha caiu na gargalhada.
Por um instante ele pareceu furioso. Depois aquilo passou e ele era o mordomo cortês novamente.
- Então devo fazer o que puder para ajudá-la.
- Por que você se incomodaria? - perguntou Natasha, rude como sempre.
- Você é minha convidada.
Ela mostrou os dentes num sorriso desafiador.
- Sou convidada de Izzy Dare.
Os olhos dele piscaram com um ar de aborrecimento, palpável como fumaça.
Isso! Natasha marcou um ponto para a guerreira feminina. Um ponto pequeno, mas merecido.
Contente com a vitória, ela fez um gesto na direção da porta.
- Agora, se você puder sair, descerei em alguns minutos. - O tom superior a agradava. Pela segunda vez ele ignorou que ela o estava dispensando.
- Obriga...
Ela não continuou. Ele a levantou do chão.
- Coloque-me no chão - exigiu Natasha furiosamente, não se sentindo mais superior.
Ele o fez. Mas não da maneira que ela queria. Não mesmo. Kazim a largou num banco e olhou sem expressão para suas meias arruinadas.
- O que você fez?
Natasha não se sentia tão imunda desde que tinha arranhado o joelho no playground e sua mãe a havia repreendido. Ela o olhou com raiva.
- Perdi meus sapatos, não foi?
Ela tentou reaver os pés. Mas não conseguiu. Ele os examinou rigorosamente.
- O que acha que está fazendo? - Natasha estava trêmula.
Kazim girou o tornozelo dela. Ele era gentil, mas firme.
- Nada de ossos quebrados - decidiu.
Natasha estava mexida. Para disfarçar, perguntou com desagrado:
- Você também é médico?
Ele levantou os olhos, com um lampejo surpreendente de brincadeira nos olhos.
- Não, mas já corri riscos físicos o suficiente para saber o básico.
Ela aproveitou a oportunidade para resgatar o pé.
- Nada de ossos quebrados - disse ela laconicamente. - Você mesmo o disse. Agora por favor, você poderia...?
Ele levantou o outro pé.
Não havia nem um vestígio de meias rasgadas entre suas peles desta vez. E aqueles dedos eram tão quentes que ela pôde sentir o sangue pulsando contra sua pele fria.
A boca de Natasha ficou seca. Esqueceu o que ia dizer; quase esqueceu como pensar. Tudo o que conseguia fazer era ficar ali sentada, sem ar, olhando para a cabeça abaixada dele, e pensar como seus cabelos eram crespos e escuros, como seus ombros eram surpreendentemente largos. Como suas mãos eram sensíveis...
Natasha endireitou-se. Estava horrorizada. Aquele era o tipo de coisa que se pensava sobre um amante. Mas nunca sobre um estranho.
Eu devo estar fora de mim.
- Pare com isso - ordenou ela rispidamente.
- Você está sangrando.
- O quê?
Ela se abaixou para espiar o pé. Seus rostos de repente ficaram muito próximos. Ela sentiu o cheiro de uma colônia muito cara. Desde quando mordomos usam Amertage?
Distraído, Kazim disse:
- Ah, aqui está. Você parece ter rasgado a pele. Fique parada um instante.
- O quê? Por quê? Ai!
Ela se encolheu com a dor aguda. Ele levantou um espinho de rosa de aparência selvagem e ofereceu-o a ela.
- Uma fera e tanto - disse ele, satisfeito.
- É - concordou Natasha fracamente.
Ele ainda estava concentrado em sua tarefa.
- Você precisa de um curativo. Vou procurar alguém para... - Ele parou abruptamente.
Natasha estava desesperada para ficar sozinha.
- Não se preocupe. Tenho gaze e esparadrapo na mala. Eu mesma faço o curativo.
- Então eu pego para você.
Natasha encolheu-se por dentro. Ela realmente não queria esse homem mexendo em suas coisas. Viajava muito que quase tudo na mala era profundamente pessoal. O conteúdo revelava muito sobre ela, da simples roupa de baixo de algodão até os lenços de seda colorida; sem contar aqueles ridículos chinelos felpudos.
No entanto, ela não podia dizer isso, podia? Aquilo apenas mostraria o quanto ele a fazia se sentir exposta, até o instigaria a investigar mais. Então ficou observando, enquanto ele voltava para o quarto e abria a pequena mula.
Tentando parecer indiferente, ela disse:
- Há uma pequena bolsa de primeiros socorros em algum lugar.
Kazim começou a esvaziar a mala, colocando suas roupas em pilhas caprichadas sobre a cama. - Muito eficiente, viajar com seu próprio kit médico.
- Sou eficiente.
Seu estômago revirou ao ver aqueles longos dedos entre suas sedas e cashmeres. E quando encontrou os amassados chinelos de gatinhos, ele fez uma pausa, olhando-os como se não pudesse acreditar em seus olhos. Ele não disse nada. Mas Natasha sentiu o rosto queimar.
Ela olhou em torno ferozmente procurando uma distração. Encontrou-a na decoração egípcia. - Quem decorou isto aqui? Banheiros Egípcios Produções Ltda.? É ultrajante.
Ele colocou os chinelos no chão e riu.
Era um som sexy. Tão sexy que os cabelos de Natasha se arrepiaram suavemente na nuca. Aquilo a surpreendeu. Arrogância e sensualidade não andavam juntas. Não normalmente. Esse homem parecia estar revolucionando todas as suas reações normais.
- É puro art déco - disse ele. - Eu já falei. Foi encomendado a um especialista de Hollywood.
- Tinha de ser. Ou isso ou então nós teríamos um sério caso de roubo de túmulos aqui.
- Ah, aqui está. - Ele voltou ao banheiro com a bolsinha de primeiros socorros.
Ela ainda podia sentir os vestígios do rubor. Era tudo sua culpa também! Que tipo de mulher profissional pensava que chinelos felpudos de gatinhos eram indispensáveis para uma viagem internacional de negócios?
O que ele pensaria dela? E o que importava o que ele pensava? Mas ela não admitira que tivesse aqueles chinelos para ninguém, nem para a mãe, nem mesmo para Izzy. Muito menos que os levava sempre que viajava. E agora esse homem gozador, imprevisível e sexy era a única pessoa no mundo que sabia de seu segredo vergonhoso. Bem, pelo menos desse segredo. Ela estremeceu.
- Obrigada - murmurou. - Meu... - Ele parou abruptamente. - Bem, o dono original era condenável, mas nunca foi ladrão de túmulos.
Natasha seguiu seu olhar. As virgens eram magras como caniços e se contorciam em nós graciosos com suas musculaturas elásticas. Ela as olhou azeda.
- São apenas mulheres jovens usando muita maquiagem nos olhos e não muito mais - afirmou
ela.
Eram bonitas, inteiramente confiantes em seu fingido hedonismo. Definitivamente não eram o tipo de mulher que ficava digitando num computador às cinco da madrugada.
- Já se sentiu vencido alguma vez? - O tom de Kazim ficou bem mais confortador. - Elas não representam mulheres da vida real, sabe?
Natasha pulou e voltou ao momento presente.
- Obrigada por me tranqüilizar - disse ela secamente.
- Desnecessário, tenho certeza.
- Meu Deus, você é afável.
Ela não disse aquilo alto. Um visitante educado não fazia observações pessoais para o mordomo, mesmo que fosse um mordomo emprestado, com uma atitude evasiva e um gosto extravagante para cosméticos.
Ela quase arrancou a bolsa de primeiros-socorros da mão dele e rapidamente encontrou um curativo. Retirou o papel protetor e inspecionou o calcanhar.
Kazim a observava com evidente desaprovação.
- Você certamente vai desinfetar a ferida antes de colocar o curativo, não?
Natasha respirou fundo.
- Olhe, foi apenas um espinho de rosa, certo? Não um dardo venenoso.
- Mesmo assim, seria mais seguro lavá-la. Seus pés estão muito sujos.
Uma vez, quando ela tinha uns 8 anos, sua mãe tinha vindo pegá-la na escola. Era verão e a mãe usava um bonito vestido de voile com cheiro de flores de maçã. Satisfeita com o prazer inesperado, Natasha tinha saído correndo da quadra de esportes e se jogado em seus braços. Claro, ela estava suada e coberta de areia. Não foi surpresa a mãe ter recuado. Mas aquilo ficou, aquele pequeno, involuntário, incontrolável momento de repulsa. E doía.
Natasha muitas vezes imaginava o que a mãe teria dito se tivesse visto a única filha vestindo camisetas e shorts que não eram mais que andrajos, sem tomar banho há dias, caminhando com dificuldade pela selva sob as ordens de um valentão arrogante. Porque sua vida dependia dele. Recuar não a teria protegido. Chinelos felpudos de gatinhos eram apenas parte das coisas que Natasha não contava a seus entes mais próximos e queridos.
E agora aqui estava Kazim, que tinha visto aqueles chinelos e usava a colônia mais cara do mundo. Certo, sua reação não foi exatamente de recuo. Mas ele não gostava de seus pés sujos, aquilo era bastante óbvio.
- Obrigada por me lembrar disso - disse ela secamente.
- Vou tocar a campainha para chamar alguém... - ele fez outra daquelas pausas abruptas.
- Não há necessidade, obrigada - disse ela baixinho. - Há lenços anti-sépticos no kit de primeiros-socorros. Posso cuidar de tudo daqui para frente.
- A ferida está num lugar chato.
- Estou bem. Não preciso de ninguém. Fiz meus próprios curativos a vida inteira. E vou tomar um banho. Vou me esfregar da cabeça aos pés, prometo. Se você simplesmente for... Embora.
Os olhos dos dois encontraram-se como espadas.
Ele não foi embora. Ele não se mexeu. Depois a surpreendeu. Profundamente.
- Quando a vi pela primeira vez - ele estava pensativo - Achei que você parecia um robô.
Naquele ambiente reluzente e voluptuoso, ele colocou um dedo na veia que pulsava na garganta dela.
- Você não parece um robô agora.
Natasha ouviu-se ofegar como um balão explodindo. Kazim sorriu e inclinou-se para ela. Vagarosamente. Os olhos de Natasha estavam cautelosos, mas ela sentia um calor ardendo em fogo lento ali. E havia uma pergunta lá no fundo, uma pergunta que ele exigia que ela respondesse...
Natasha se inclinou cada vez mais para trás até achar que sua coluna ia quebrar. Mas não o empurrou. E não ousou proferir nenhuma palavra de protesto.
Kazim procurou seu rosto. Parecia muito sério; não estava mais provocando, nem mesmo questionando. Nenhum relance agora do homem cujos lábios haviam se curvado por causa de seus pés sujos. Nada daquela arrogância de arrepiar. Ele parecia estar partindo com ela para um território desconhecido e querendo saber se podia confiar nela...
Natasha reteve a respiração, chocada. Estava excitada com a expressão dele e aquilo também a chocou.
Então, enquanto ela o observava, seus olhos piscaram e ele se endireitou. Estava sorrindo novamente, mas seus olhos estavam camuflados. O fogo lento estava apagado, como se nunca tivesse existido. A pergunta, parecia, já tinha encontrado sua resposta. Ele sorriu.
- Surpreendente.
Ele parecia estranhamente satisfeito. E, antes que ela pudesse encontrar sua voz ou pensar em algo inteligente para dizer, ele tinha inclinado a cabeça e saído.
Natasha descobriu que estava prendendo a respiração. Inclinou-se sobre o conjunto de mármore, respirando cada vez com mais força. Finalmente sua respiração voltou ao normal. Estava desnorteada. Que diabos tinha acontecido?
Ela se olhou longamente no espelho veneziano. Seus cabelos bem cortados estavam desarrumados. Mas ela os arrumaria com uma boa escovada. Depois os cabelos louros naturais voltariam à forma elegante. Era por isso que pagava uma fortuna ao cabeleireiro. Eles emolduravam seu rosto, enfatizando as maçãs do rosto sutis, diminuindo a boca grande, o nariz decidido, os olhos cinzentos assimétricos e cansados de viver. Bem, naquele instante aqueles olhos cansados pareciam inseguros.
Sim, sem sombra de dúvida, Kazim, o mordomo, a tinha desorganizado completamente. Mas ela não ia aceitar aquilo. Ninguém desorganizava Natasha Lambert. O que precisava fazer agora mesmo era tirar a roupa de trabalho. Parecer um robô, francamente! Ela se transformaria agora em Natasha, a Convidada da Festa. E então, faria o maior sucesso com cada homem solteiro da fogueira, para variar.
Incluindo Kazim Quem-Quer-Que-Seja, com seu interesse esquisito por passaportes e seu detestável senso de humor. Sem falar na maneira pomposa de realizar suas tarefas de mordomo.
Involuntariamente, Natasha olhou de novo para o banheiro voluptuoso. Tinha sido construído exatamente para atiçar fogos lentos.
- Oops. De onde aquilo tinha saído? Já faz bastante tempo desde que você resolveu seduziu alguém - disse a si mesma, pesarosa. - Hora de aplacar novamente.
Limpou os pés imundos até que estivessem rosados e macios como um bebê. E tentou não se lembrar das mãos dele. Na verdade, esfregou-se durante o banho sem olhar nem mesmo uma vez para aquele espelho feito para a sedução. Desfez a mala com eficiência enérgica.
Depois, encontrou um suéter na gaveta. Era grande demais. As mangas caíam sobre suas mãos e ela poderia puxar a gola pólo para cobrir todo o rosto, se quisesse. Havia algo tranqüilizador no cheiro: lã, sabão em pó e um toque de algo mais que ela não conseguia definir, mas era prazerosamente familiar. Serviria perfeitamente.
Por baixo, ela colocou roupa suficiente para se manter aquecida. Pegou suas luvas forradas de pele e desceu, procurando as botas que Izzy tinha oferecido.
E voltou para a festa.