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Nas Garras do Don

Nas Garras do Don

Autor:: Julianaa Andrade
Gênero: Romance
Em um mundo de lealdades fragmentadas e alianças frágeis, Giovanna Carcione, a jovem herdeira da temida Sovranità, anseia por uma vida além dos muros de um colégio interno. Ao retornar a Palermo, ela se vê em meio às intrigas e perigos de um jogo de poder onde sua vida se entrelaça com a do enigmático Matteo Villani, o novo Don da máfia rival La Tempesta. O que começa como um confronto se transforma em uma improvável aliança forjada pelo interesse nos negócios. No entanto, por trás das fachadas de poder e riqueza, segredos sombrios aguardam para serem revelados, desencadeando um jogo de vingança e paixão que ameaça abalar o equilíbrio delicado entre seus mundos. **Aviso de Conteúdo: Este livro contém cenas de conteúdo sexualmente explícito, violência, linguagem forte e temas maduros. Não é adequado para leitores sensíveis ou menores de idade. Por favor, leia com discernimento.**

Capítulo 1 O Início

"Por Giovanna Carcione"

Desde que retornei a Palermo, há alguns dias, minha prima Sofia estava determinada a me mostrar a vida além dos muros do colégio interno, aquela normalidade que a maioria das garotas da minha idade experimenta. Mesmo com a segurança intensificada ao nosso redor, ela conseguiu me levar até uma badalada boate em Cefalù para desfrutarmos de uma noite sem preocupações.

No entanto, a sensação de liberdade que eu estava experimentando até pouco tempo, começa a se dissipar, dando lugar a uma inquietação profunda. Já que durante uma briga próxima de onde estávamos, Sofia desapareceu e eu não consigo encontrá-la em lugar algum.

Reunindo coragem, decido deixar a boate para iniciar minha busca. Percorro algumas ruas movimentadas, perguntando a estranhos se a viram. Alguns balançam a cabeça negativamente, outros mal parecem prestar atenção.

Com o passar do tempo, percebo que estou me distanciando cada vez mais da boate e das áreas movimentadas. Decido me dar por vencida e procurar um táxi para voltar para casa, mas estando longe da intensa movimentação, a noite está estranhamente silenciosa.

- Ótima ideia, Giovanna! - murmuro enquanto tento retornar à boate. - Perdida e sozinha! Se você não morreu há alguns anos, seu pai certamente irá te matar quando você pedir ajuda para voltar!

Enquanto caminho, vejo um carro começar a se mover lentamente ao meu lado. Um arrepio percorre minha espinha, fazendo-me acelerar o passo, ao mesmo tempo, em que a janela do veículo se abre e um homem começa a falar em tom elevado.

- Você parece perdida, signorina. Posso ajudá-la? - sua voz é suave, mas seus olhos azuis, gélidos e penetrantes, me travam de imediato. - Vem, eu te levo até o seu destino.

- Não... não, estou bem. - respondo, sentindo minha voz trêmula. - Obrigada...

- Eu insisto, lindinha. Não faz sentido você continuar andando sozinha por aqui. A noite pode ser perigosa, sabia?

O convite do estranho aumenta ainda mais o meu desconforto. Meus instintos insistem para que eu corra, mas algo me paralisa, uma mistura de vulnerabilidade e incerteza sobre como escapar dessa situação.

Antes que eu consiga reagir, ele freia o carro abruptamente, chamando minha atenção. Meus passos vacilam e o pânico toma conta de mim quando vejo ele sair do veículo e se aproximar de mim. Cada passo dele ressoa como um eco sinistro no silêncio da noite. Sinto-me encurralada, sem para onde ir.

- Não se preocupe, lindinha. Vou te levar para um lugar seguro. - Ele sorri, mas seus olhos azuis continuam tão gélidos quanto gelo. O cheiro de álcool em sua respiração é evidente. - E estou certo de que você vai gostar.

Antes que eu tenha a chance de procurar uma rota de fuga ao meu redor, ele me agarra pela cintura com uma força que me deixa sem fôlego. Luto para me libertar, mas meus esforços são em vão contra sua força implacável.

Com um movimento brusco, ele me arremessa com força para dentro do carro. Sinto o impacto contra o banco e minha respiração acelera quando a porta se fecha com um baque.

- Você deveria ter aceitado a minha ajuda, lindinha. Agora vai aprender do pior jeito possível. - ele vocifera ao partir com o carro.

Como se estivesse se divertindo com o meu pavor, o homem gargalha ao me ver tentar abrir a porta inúmeras vezes. O medo e a sensação de impotência confundem meus pensamentos, tornando quase impossível reagir.

Após longos minutos que parecem uma eternidade diante dessa tortura psicológica, em um momento de clareza, recordo-me da minha bolsa jogada aos meus pés. No entanto, antes que eu tenha a chance de abri-la, ele a arranca com força da minha mão e a lança no banco traseiro.

- Não é hora de se maquiar, lindinha. - ele diz, deslizando a mão até meu joelho e lançando-me um rápido olhar antes de voltar sua atenção para o trânsito. Quando seus dedos alcançam minha coxa, seguro com firmeza e me encolho para escapar do seu toque.

- Por favor, me leve de volta. - suplico, quase num sussurro. Ele solta outra risada e balança a cabeça, como se estivesse ouvindo uma piada.

- De maneira nenhuma, a noite está apenas começando para nós dois.

Em um momento de lucidez, ao vê-lo entrar em uma rua escura, ergo as duas pernas e começo a chutá-lo com força. Como resposta, ele estaciona o carro e sinto imediatamente a ardência no meu rosto devido ao forte tapa que ele me desfere. Fecho meus olhos involuntariamente quando ouço um zumbido forte no ouvido e sinto o gosto de sangue na boca.

- Queria ser cavalheiro, sabe... - Ele murmura. Os dedos de uma das mãos entrelaçam em meus cabelos, pressionando minha cabeça com força contra o encosto do banco. Enquanto a outra desliza entre meus joelhos, empurrando o assento para trás com brutalidade. - Te levar para um lugar legal, te tratar com um pouco de cortesia e então te foder a noite toda. Mas já que você quer se fazer de difícil, deixarei isso de lado e fazer isso aqui mesmo.

- Por favor...

- Shii... Silêncio! Você é mais atraente assim, calada.

Por um tempo que parece uma eternidade, tento me libertar dos seus toques, em vão. Seu corpo pesado sobre o meu me imobiliza instantaneamente. Após minutos dessa tortura, sou forçada a simular desistência para ele afrouxar sua pressão sobre mim.

Quando a mão que mantinha meus pulsos acima da cabeça me solta e vai para onde não deveria, deslizo minha mão em direção ao banco traseiro. Num misto de pavor diante de seus toques cada vez mais invasivos e alívio ao encontrar minha bolsa, num movimento rápido, finalmente consigo empunhar minha arma.

Reúno as últimas reservas de força, puxo o gatilho e encosto a arma em sua barriga. Em frações de segundo, entre ele perceber o objeto e reagir, atiro.

Com seu movimento abrupto, a arma que ganhei de meu pai há alguns meses cai no chão, mas sequer me preocupo em procurá-la. Apenas aproveito o momento em que ele leva as mãos à barriga para pular por cima dele, abrir a porta do carro e, finalmente, correr.

As pesadas gotas de chuva que caem encharcam meus cabelos, misturando-se às lágrimas que escorrem pelo meu rosto. Sinto minhas pernas tremerem e a corrida parece cada vez mais desafiadora a cada passo, mas o instinto de sobrevivência me impele a ignorar o cansaço.

O medo de que o que fiz não tenha sido suficiente me força a procurar abrigo sob um dos carros estacionados na rua sombria. Não tenho a menor ideia de onde estou. A única certeza que tenho é que preciso urgentemente me esconder, se ainda quiser ter a chance de sair daqui com vida.

Com a mão sobre a boca, tento desesperadamente abafar os soluços que parecem não ter fim, enquanto as imagens dos minutos anteriores ressurgem em minha mente como uma flecha disparada, sem possibilidade de retorno.

O brilho das luzes do carro que se aproxima lentamente me traz de volta à realidade. Suspiro profundamente, desejando ter mantido um silêncio ainda mais absoluto.

Agradeço mentalmente quando o veículo passa direto por mim. Na aparente quietude que se segue, reúno minhas forças para deixar meu esconderijo.

Caminhando com determinação, busco desesperadamente uma rota de fuga. Mas ao ouvir outro carro se aproximando, sinto-me compelida a correr novamente.

Após alguns metros, deparo-me com o pequeno muro lateral de uma igreja. Sem hesitar, decido pular e me esconder. "Talvez o padre possa me ajudar." Murmuro. "E espero que Deus me perdoe por invadir Seu santuário a essa hora da noite, vestida desta maneira, mas não tenho outra escolha."

Com determinação, empurro a pesada porta da igreja e adentro, ofegante. Observo ao redor, percebendo o local vazio, exceto por um homem ajoelhado no primeiro banco, próximo ao altar. Faço o possível para minimizar o barulho, mas a porta de madeira me trai ao encontrar a outra, gerando um som que ecoa pelo ambiente.

Me dou conta de que estou em território inimigo quando o homem me encara, percebendo minha presença. Ele passa a língua no canto da boca e faz o sinal da cruz antes de se levantar.

Seus olhos azuis intensos não desviam um segundo sequer de mim, enquanto ele se aproxima em passos lentos. Engulo em seco, observando a figura imponente do homem à minha frente.

Cabelos castanhos desgrenhados, barba cuidadosamente aparada que destaca seu maxilar cerrado, e uma expressão de exaustão. É inegável o quão atraente ele é. Tão encantador quanto perigoso, especialmente para mim, que carrego o sobrenome da família rival à dele.

Por instinto, quando Matteo Villani, o recém-proclamado Don da La Tempesta, se aproxima a poucos metros de mim, dou dois passos para trás e me viro para fugir novamente. No entanto, quando meus dedos envolvem a maçaneta, o som do gatilho congela meus movimentos.

- Não tão rápido, ragazza. - Ele diz, num tom irônico. Apenas alguns passos são suficientes para sentir sua mão agarrar meu braço, virando-me bruscamente em sua direção. - Não seja mal-educada e olhe para mim!

- Por favor... - sussurro, com a voz trêmula. - Só quero ir embora!

- O que está fazendo aqui? Está muito longe de casa, em território que não lhe pertence...

- Sinto muito! Eu... Não deveria estar aqui.

- Nisso concordo. - o Don responde, apertando ainda mais meu braço quando tento soltar-me. - Cheguei a acreditar que estava cansado, mas agora, diante de sua audácia, vejo que estou longe disso.

- Por favor! Tenho certeza de que não deseja um novo problema entre nós.

- Regras são regras, ragazza. Você acaba de violar uma muito importante entre nós, e seu pai faria o mesmo no meu lugar. Espero que as mulheres da Sovranità sejam tão resistentes quanto os homens, pois a nossa noite está apenas começando.

Capítulo 2 O Encontro no Santuário

"Por Matteo Villani"

Diante dos meus olhos incrédulos, a porta rangendo anunciou a entrada de alguém no sagrado santuário. Giovanna Carcione, a menina de ouro da Sovranità, filha de um dos maiores inimigos da minha família.

Eu sabia que ela havia retornado à casa dos pais recentemente, mas não imaginei que nosso encontro aconteceria tão rapidamente. Não posso deixar de me questionar o motivo de ela estar aqui, mas isso é o que menos importa neste momento. É a minha vez de retribuir o que fizeram à minha família.

Ela permaneceu imóvel, ofegante e apreensiva, me observando como se estivesse encarando o próprio demônio. E não posso culpá-la por essa percepção. Ela deveria ter conhecimento dos limites que não deveria ultrapassar, mas já que seu pai não se deu ao trabalho de ensiná-la, não serei eu quem vai permitir que isso passe impune. Afinal, as regras são as regras.

- Vamos! - profiro, a impaciência ecoando em minha voz, ainda a segurando pelo braço.

Abro as portas da igreja e a conduzo para fora, controlando a vontade de lançá-la escada abaixo. Tenho todo o tempo do mundo para planejar uma punição à altura de sua audácia.

Vejo meu carro estacionado na rua, ocupado por dois dos meus soldados aguardando minhas ordens. Forço Giovanna até o veículo.

- Juro, se não fosse um assunto de urgência, já teria resolvido isso com um tiro na cabeça de vocês! - esbravejo, enquanto um deles salta para abrir a porta. - Onde vocês estavam para não perceber a entrada dela?

- Desculpe, Don Matteo. Pensamos desejar privaci...

- Privacidade? Isso será discutido depois! - rosno. Firmo meu aperto no braço de Giovanna, que solta um gemido abafado. - Entre no carro!

- Não! Por favor... - Ela implora com a voz trêmula. - Só quero ir para casa!

- Não teste a porra da minha paciência! - ameaço, pressionando o cano da arma contra sua nuca. - Entre, ou acabo com você aqui mesmo!

Ela suspira e me encara em silêncio, antes de baixar os olhos. Seu olhar amedrontado não me comove, pois conheço bem esse tipo de fingimento. Reviro os olhos e a empurro para dentro do carro, entrando logo depois.

- Para onde devemos ir, Don Matteo? - o motorista pergunta, olhando pelo retrovisor.

- Para o porão. - respondo, desviando o olhar para a mulher ao meu lado, encolhida no banco, completamente tomada pelo pânico. Sorrio maliciosamente, quase capaz de sentir o aroma do medo que desperta meu lado carrasco.

Mesmo com os fios castanhos desgrenhados, a maquiagem borrada e os olhos verdes, que exibem uma mistura de sombras e desespero, seria insensato não notar sua beleza.

A princesinha da Sovranità é o tipo de mulher que atrai a atenção de qualquer homem. No entanto, além de não ser da minha natureza impor a alguém ir para a cama comigo, hoje não estou disposto a pensar com a cabeça de baixo.

- Vamos nos divertir bastante. - murmuro, deslizando minha mão sobre o joelho dela. Sinto seus músculos se contraírem, então arrasto levemente meus dedos para cima. - Prometo cuidar muito bem de você... Ou talvez não.

- Por fav... - ela começa a dizer, mas sua voz enfraquece e a mão, que há poucos segundos tentava conter a minha, se afrouxa.

- Mas que inferno! - exclamo, ao vê-la desacordada. No entanto, ao dar dois tapas no rosto dela, na tentativa de acordá-la, percebo um pequeno corte em sua boca e uma mancha roxa em seu pescoço. - Que porra você está fazendo aqui e por que está assim? - murmuro, aplicando outro tapa.

Soco o estofamento do assento e bufo de frustração. Eu deveria levá-la e puni-la por invadir meu território, e ela teria sorte se saísse viva daqui. Me xingo mentalmente antes de finalmente desistir.

- Está tudo bem, Don? - um dos meus soldados pergunta, quando mando parar o carro.

- Ela desmaiou. A princesinha não é tão forte quanto imaginei. Chame os outros. Não acredito no que vou dizer, mas vou devolvê-la.

Em poucos minutos, três carros com alguns soldados se juntam a nós e partimos em direção a Palermo. Durante o trajeto, sem ter ideia do que me aguarda, sinto a obrigação de entrar em contato com aqueles que colaboram com ambos os lados, para explicar antecipadamente o que ocorreu.

Paolo, um dos meus associados, se prontifica a intervir, mas, apesar dos riscos, insisto em fazer a entrega pessoalmente. Talvez demonstrar um certo altruísmo com a situação possa, de certa forma, benéfico para os negócios.

Após um banho de sangue entre as máfias alguns anos atrás, foi estabelecido um acordo para manter uma trégua. Nós não interferimos em seus negócios, e eles fazem o mesmo conosco. O mesmo se aplica aos territórios que dominamos. No entanto, parece que a princesinha se esqueceu desse acordo.

Os primeiros raios de sol cruzam as nuvens quando adentramos no território da Sovrànita. Olho para o lado e vejo que Giovanna enfim acordou, e agora está encarando a paisagem lá fora. Ela suspira, provavelmente ao perceber onde estamos, e me encara imediatamente.

- Estamos em Palermo... - Giovanna sussurra, com um brilho de esperança no olhar. - Você se arrependeu?

- Não faço parte do grupo que se arrepende, ragazzina. A sorte apenas sorriu para você hoje.

Ao adentrarmos nas terras da família Carcione, somos recebidos por um verdadeiro exército. Entre os homens armados, surge Don Philippo, cercado de soldados, aproximando-se lentamente assim que deixo o carro.

- Espero que tenha um motivo que justifique o risco de vida, Don Matteo. - ele diz, com um sorriso irônico se formando a poucos passos de mim. - Seria uma lástima morrer sem desfrutar de sua nova posição, tudo por seu atrevimento de estar aqui.

- Ah, Don Philippo... Vim apenas retribuir a visita. Trouxe pessoalmente algo de grande valor para o senhor, e é assim que sou recebido? - replico, no mesmo tom irônico. Levanto o dedo, indicando a um dos meus soldados que retire Giovanna do carro.

Don Philippo observa atentamente a movimentação atrás de mim, enquanto permaneço com o olhar focado nele. Ao avistar sua filha, que caminha de cabeça baixa usando meu terno em seus ombros, seu sorriso sarcástico se desfaz rapidamente, dando lugar a um olhar de apreensão e ameaça, simultaneamente.

Faço um gesto para impedir Giovanna de continuar andando, segurando-a pelo braço e a trazendo ao meu lado. Não demora para que eu ouça o clique das armas sendo engatilhadas e veja os canos apontados em minha direção. Meus homens reagem da mesma forma.

- Mas isso é inadmissível... - ele interrompe suas palavras, empunhando sua arma em minha direção. - O que a minha filha está fazendo com você?

- Encontrei esse ratinho indefeso passeando por onde não deveria, Don Philippo. Confesso que fiquei tão surpreso quanto o senhor está agora. Esta mocinha teve sorte, pois tenho certeza de que ela compreende as consequências de invadir território inimigo.

Apesar das armas apontadas, avanço em sua direção, ainda segurando Giovanna pelo braço. Quando finalmente a solto, ainda de cabeça baixa, seus braços delicados envolvem rapidamente a cintura do homem, que a abraça ao ouvir seus soluços contidos.

- O que aconteceu, Giovanna? - ele pergunta, os olhos firmes em mim. - O que este homem fez com você?

- Nada, papai. - ela responde, a voz trêmula. - Ele não me machucou, apenas me trouxe até aqui. Por favor, só quero voltar para casa!

- Aléssio, - o Don comanda, indicando para um dos seus homens -, leve-a até o carro! E você, Don Matteo - ele diz, quando Giovanna se afasta de nós -, pretende que eu acredite nisso?

- Ouviu o que ela disse. Que tipo de louco seria se a machucasse e a trouxesse até aqui pessoalmente? - indago, irônico. - Não tenho interesse em iniciar outro banho de sangue desnecessário, Don Philippo. Mas na próxima vez, a paciência terá limites.

- Você é audacioso, ragazzo! Deveria se comportar, afinal, está bem longe de casa!

- Estou aqui em paz, Don. Mas se continuar com ameaças, terei que responder à altura, e suspeito que nenhum de nós deseja tingir este solo de vermelho. - desafio, mantendo o olhar firme. - Agora que a encomenda foi entregue, posso ir? Ou o senhor gostaria de me servir um café enquanto continuamos nossa conversa?

- Pode ir, Don Matteo. - O homem diz, mantendo a postura severa, mas sinalizando para que seus homens abaixem as armas. Faço o mesmo. - Mas teremos uma conversa com a minha filha. E se souber que a tocou, a morte será um destino ameno para você!

- Converse com ela, Don Philippo. E se ela me acusar, estarei aguardando ansiosamente. - respondo, dando alguns passos para trás, jamais dando as costas a meu inimigo. - Tenham um ótimo dia, senhores!

Capítulo 3 Essa é Sua Obrigação

"Por Giovanna Carcione"

Dois meses se passaram desde aquele dia traumático. Durante semanas, os soldados de todos os clãs que compõem a Sovranità, procuraram pelo meu agressor, baseados nas descrições físicas que forneci. Porém, da mesma forma que aquele homem surgiu, ele desapareceu. Pelo menos fisicamente, pois ele atormenta meus pesadelos desde então.

- Você está tão calada. - Sofia comenta, enquanto balança seus pés para fora da janela do meu quarto. - Lá no convento vocês eram obrigadas a fazer voto de silêncio?

- Não era convento! - exclamo, revirando os olhos ao me sentar do lado dela. - Era um colégio interno. Só estava relembrando aquela noite... Como tudo pôde dar errado?

- É o que eu me pergunto, Gio. Eu já saí tantas vezes escondida e nunca havia dado nada de errado. - ela responde, encarando seus pés. - Talvez se eu não tivesse ficado falando que você precisava ter uma vida normal, ou ficado trancada naquele banheiro...

- Não se culpe, Sofi... Só lamento por perder a arma que o meu pai me deu. Mas torço para que aquele tiro o tenha matado. - disfarço e decido mudar para um assunto aleatório.

Para todos, aquele homem foi apenas um estrangeiro louco que tentou me sequestrar. E eu, utilizando as técnicas que me foram ensinadas há alguns meses, consegui reagir e me defendi antes de descobrir suas verdadeiras intenções. Essa foi a versão que contei quando finalmente consegui me acalmar.

A culpa e a vergonha de tudo o que aconteceu naquela noite me fizeram guardar a verdade só para mim. Sinceramente, não sei se algum dia terei coragem de compartilhar isso com alguém.

- Acho que chegou o momento de você descobrir com quem vai se casar... - minha prima afirma, apontando para os carros que entram na propriedade. - Você não está curiosa para saber quem ele é?

- Não! - exclamo ao me levantar da janela, assim que os carros somem do nosso campo de visão. - Terei que aceitá-lo de qualquer forma. Afinal, é tradição, não é mesmo? A diferença é que eu não fui prometida a ele na infância.

- Isso poderia ter acontecido, se você não tivesse sofrido aquele atentado e ido parar no convento. - ela diz, espontânea. Ao perceber o meu olhar desconfortável, Sofia muda rapidamente de assunto. - Mas por experiência própria, isso não é tão ruim, Gio. Para mim, é interessante imaginar o que acontecerá na lua de mel. Ao menos meu futuro marido não é feio... Ou é? Você o viu há alguns dias.

- Ele não é feio, Sofia. Só é um homem vinte anos mais velho que você!

- Fazer o quê? - ela dá de ombros, levantando-se da janela. - Minhas amigas sempre dizem que experiência é tudo. Descerei e ver como o seu futuro marido é. Já volto para te contar.

Sofia, que parece estar mais empolgada com essa história de casamento que eu, praticamente corre ao passar pela porta. Solto um longo suspiro e me jogo na cama, torcendo para que os últimos dois meses tenham sido apenas um pesadelo. E que, magicamente, acordarei no colégio interno feminino onde passei boa parte da minha adolescência.

Entretanto, não demora para a minha mãe aparecer no meu quarto. Ela abre a porta e põe as mãos na cintura enquanto me encara séria.

- Giovanna, seu noivo está aqui. - ela afirma, num tom insatisfeito. - Por que você ainda não está pronta?

- Mamma, eu tenho dezenove anos! Eu não quero me cas...

- Giovanna - ela me corta, sentando-se ao meu lado na cama, com um olhar de compreensão -, ninguém queria que fosse assim. Mas não se esqueça que ninguém vai contra uma decisão do Don, e isso inclui você.

- Mas não é justo que eu me case com alguém que eu não conheço! Meu pai me contou ontem sobre esse casamento e disse que ocorrerá quanto antes! Todas as mulheres levam anos se preparando para seus futuros maridos, e algumas até se apaixonam pela ideia! Por que comigo tem que ser diferente?

- Filha, eu sinto muito. - A expressão da minha mãe fica séria, os olhos cansados refletindo a tristeza da situação. Ela suspira, como se carregasse o peso de uma tradição antiga. - Mas você sabe que no nosso mundo isso não existe! O amor vem com o tempo. Da mesma forma que foi comigo e com o seu pai, pode acontecer com vocês. Agora se vista, por favor! Não precisamos de mais discussões entre vocês dois.

Ela me dá um abraço forte e acaricia as minhas costas antes de se levantar e sair. "Ninguém vai contra uma decisão do Don." Essas palavras martelam na minha cabeça, enquanto procuro uma roupa qualquer para vestir.

Termino de me arrumar da forma como o meu humor me permite e desço. Caminho vagarosamente até o escritório do meu pai, sentindo como se estivesse indo ao próprio funeral.

Ao abrir a porta, deparo-me com o Don, imponente em sua cadeira de couro. À sua direita, Giuseppe, o consigliere com olhos perspicazes, me encara. Do outro lado, Aléssio, meu irmão de semblante sério, parece evitar meu olhar. Ele também é o subchefe da Sovranità.

Quando termino de empurrar a porta, vejo um homem em pé, ao lado de ninguém menos que Don Matteo. Ele me encara com seus intensos olhos azuis, trazendo à tona as sombras daquela noite.

As lembranças dolorosas e o medo que senti ao encontrá-lo naquela igreja, quando acreditei que realmente seria o meu fim, fazem as minhas pernas tremerem, o meu coração bater freneticamente e o ar se torna pesado.

Porém, ao dar dois passos para trás, Matteo se aproxima de mim. Em uma tentativa de parecer simpático, completamente diferente daquela noite, ele sorri e beija a minha mão antes de me induzir a entrar no escritório.

- Pensei que as noivas só chegavam atrasadas para o casamento. - Matteo diz, com sua voz grave carregada de ironia. - Prazer em revê-la, Giovanna. Você parece melhor do que no nosso último encontro.

- Obrigada. - respondo, puxando a minha mão rapidamente. - Papà, eu posso saber o que está acontecendo?

- Sente-se, Giovanna. - meu pai diz, apontando para a cadeira ao lado de Aléssio. Matteo senta ao meu lado. - Você já sabe sobre o casamento, então não preciso explicar essa parte.

- Mas o senhor não disse nada sobre me casar com o nosso inimigo.

- Se tudo der certo entre nós, seremos ex inimigos, ragazza. - Matteo afirma, com um sorriso que não chega aos olhos.

- Giovanna, depois daquela fatídica noite, Don Matteo percebeu que com o passar dos anos, a nossa rivalidade se tornou irrelevante. Inclusive, se naquela noite fôssemos aliados, teria sido fácil encontrar aquele figlio di puttana no território da La Tempesta.

- Mas isso não é o sufic...

- Além disso, - ele me corta -, a La Tempesta domina áreas de extremo interesse para a Sovranità, e vice-versa.

- Exatamente, Giovanna. - Aléssio diz, dando-me um olhar satisfeito. - A união de nossas famílias trará muitos benefícios para ambos os lados.

- Mas, não há outro jei...

- Sem "mas", Giovanna. Essa é a sua obrigação como membro da família. Você vai se casar com Don Matteo e selar a aliança entre nós.

Sinto as lágrimas escorrendo pelo meu rosto enquanto meus dedos tremem em minha coxa, sem acreditar que o meu pai está me entregando ao nosso inimigo. Meus olhos procuram um pouco de apoio ou uma reação contrária a isso, mas todos agem exatamente como a minha mãe disse: ninguém vai contra uma decisão do Don.

Os homens voltam a conversar sobre o casamento, seus benefícios e o que esperam para o futuro. Permaneço de cabeça baixa, em silêncio, como se fosse apenas parte da decoração do escritório iluminado.

Entre outros acordos, o principal me provoca arrepios: o casamento ocorrerá em um mês. Aproximadamente uma hora depois da minha chegada aqui, os homens se despedem. E como era de se esperar, meu pai me pediu para acompanhá-los até a saída.

- Não precisa me olhar assim. - Matteo diz, quando chegamos em frente à porta principal. Ele segura a minha mão e abre um sorriso que me arrepia. O mesmo sorriso que ele ostentava naquela noite, quando estava disposto a me punir. - Prometo ser bem bonzinho com você... Pelo menos até estarmos a sós, aí a minha diversão começa.

- O que o senhor quer dizer com isso, Don Matteo? - indago, sentindo o tremor em minha voz.

- Em breve você saberá. - ele afirma, percorrendo o olhar pelo meu corpo antes de mantê-lo nos meus olhos. - Até breve, querida noiva.

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