Henry
Chamo-me Henry Karahan, e sou de trinta verões, nascido e criado na nobre terra da Turquia. Minha mãe, de coração terno, criou-me quase por completo sozinha, pois meu pai, Aslan Karahan, labutava nas vastidões do mar.
Somente após o falecimento de minha amada mãe, quando eu contava dezesseis primaveras, vim a descobrir que meu pai era um pirata, capitão do infame Cisne Negro.
Ainda que nos tenha concedido uma vida confortável em terra firme, com tutores renomados e educação digna, jamais conheci o calor do amor paterno. Aslan era severo e distante, visitando-nos raramente.
Em sua última vinda, a saúde de minha mãe já estava por um fio. Quando nos foi revelado que padecia da temível peste branca, a desolação apoderou-se de mim. Com seu passamento, vi-me compelido a abandonar a Turquia e unir-me ao mundo sombrio de meu pai, embarcando em seus negócios ilícitos e deixando para trás o que restava de minha inocência.
- Eu me recuso a executar tal ordem, baba! - exclamei, minha voz carregada de cólera.
- Eu não te indaguei se aceitarias tal tarefa, rapaz. Fá-lo-ás e ponto! - respondeu-me ele com autoridade, misturada a escárnio.
- Por que Lady Anne Wall é tão preciosa para vós?
- Porque está prometida em matrimônio ao Príncipe Fillipe, cuja coroação se avizinha. Tenho certeza de que o bom príncipe pagará um resgate generoso por sua preciosa noiva.
- Vós deveis estar insano, meu senhor!
- Não me desafie, rapaz! - rugiu, e continuou: - Este será meu derradeiro feito. - Vosso derradeiro feito? Desde quando ordenar que outros manchem as mãos é um feito? Sempre fui o tolo a cumprir vossas vontades, mas sequestrar uma donzela indefesa é indigno até mesmo para mim!
- Tens a habilidade necessária, e és o único em quem confio para tal missão. Deves preservar a integridade da dama, Anne deve ser tratada com a máxima cortesia. Nem um fio de cabelo deve ser tocado, caso contrário, seria um prejuizo para nós.
- Mas, pai... - Eu tentei argumentar, mas ele levantou a mão, silenciando-me.
- Não há mais nada a ser dito! - declarou com firmeza. - Sei que honrarás o legado de tua mãe, sendo um cavalheiro para com a dama.
Suspirei, cerrando os olhos, mas ele apenas sorriu com ar triunfante e retirou-se, certo de que eu obedeceria.
Naquela noite fria, com os ventos soprando forte sobre o mar revolto, íamos rumo a Marselha, no sul da França.
Desci ao porão do navio, tomei uma garrafa de rum e, sentando-me num canto, comecei a arquitetar como cumprir a missão. Contudo, pensamentos tumultuosos me consumiram, e logo adormeci.
Fui arrancado do torpor ao som de gritos:
- Fogo à bombordo! - soou o alarme.
Levantei-me às pressas e corri para a meia-nau, gritando ordens aos homens para recarregarem os canhões.
- Onde está meu pai? - indaguei, mas logo o vi à proa, manobrando a embarcação com todas as forças. Logo percebi sua tentativa de escapar dos tiros.
Contudo, os inimigos já invadiam o navio.
Espadas cruzavam-se, sangue tingia o convés, e eles eram muitos.
Em meio ao caos, uma ideia audaciosa e desesperada, assaltou-me a mente. Peguei uma corda, e lancei-me ao navio adversário.
Assim que pousei no convés do navio, um homem corpulento de barba ruiva e olhos sombrios, avançou contra mim, com uma cimitarra nas mãos. O aço brilhou à luz das chamas, e o primeiro golpe foi tão forte que parecia capaz de cortar uma tábua ao meio.
Me joguei para o lado, desviando por um triz, e saquei minha adaga da cintura.
- Não passas, rapaz! - ele rosnou, com sua voz rouca misturada com os estrondos das explosões ao redor.
Eu não disse nada. Meus olhos estavam fixos nele. Eu sabia que precisava ser rápido, sem hesitar.
Quando ele veio para cima de mim com outro golpe, tentei cortar sua lateral, mas ele bloqueou meu ataque com a lâmina pesada. As faíscas voaram quando as lâminas se encontraram, e fiquei cara a cara com ele por um instante.
O cheiro de suor, pólvora e sal invadiu meus pulmões, e tudo o que eu queria era vencer.
Ele não me deu tempo para pensar. Com um grito feroz, ele começou a me empurrar para trás com uma série de golpes pesados, forçando-me a recuar. Senti a lâmina passar muito perto de meu ombro, rasgando minha camisa e me deixando com um corte superficial. A dor foi rápida, mas o susto foi maior.
- És rápido, garoto, mas não o suficiente! - gritou ele, girando a espada para me atacar de novo.
Eu sabia que tinha que ser mais rápido. Esperei o momento exato em que ele deixou um flanco desprotegido e então me lancei para ele.
Com um movimento rápido, enfiei minha adaga em seu lado, e ele soltou um grunhido, recuando para longe, mas não caiu. Ao contrário, ele ficou ainda mais furioso.
O marujo avançou de novo, mais forte, mais determinado. Com um movimento brutal, me pegou pelo colarinho e me levantou, jogando-me contra uma pilha de barris. A madeira se despedaçou e eu senti a dor atravessar minhas costas como uma lâmina invisível. Mas, mesmo assim, me levantei, respirei fundo e segurei firme minha adaga.
- Isso é tudo o que tens? - desafiei, tentando ignorar a dor, a raiva e o medo.
Ele gritou e veio em minha direção, agora com a intenção de me esmagar. Mas eu já esperava por isso.
No último segundo, me desviei para o lado, e ele perdeu o equilíbrio.
Com a chance que eu precisava, enfiei a adaga em sua perna, fazendo-o cair de joelhos com um grito de dor. Mas ele não desistiu. Antes que pudesse reagir, girei a adaga e, com um golpe certeiro ao lado de sua cabeça, apaguei suas forças.
Senti o corpo do marujo ceder no convés, fiz o sinal da cruz, em respeito à sua alma e então me afastei, ofegante e ensanguentado.
Limpei o suor e o sangue em minha testa, sentindo a dor em meu corpo, mas sem hesitar, peguei uma lanterna que estava próxima e corri ao paiol de pólvora, determinado a pôr um fim à batalha. O estrondo da explosão logo preencheu o ar, e soube que agora não havia mais volta. Então a escuridão me tomou.
Aslan
- Malditos sejam! Como permitiram que Henry desaparecesse? - rugi, minha voz cortando o ar como uma lâmina afiada. - Seus tolos, puseram a perder todos os meus planos!
Os marujos curvaram-se, silenciados por minha ira. Mas então ouvi um murmúrio atrevido, vindo de Smith, o mais jovem entre eles:
- Miserável... Preocupa-te apenas com teus planos, não com teu filho...
Virei-me, feroz como um lobo acuado.
- O que disseste, marujo? - minha voz era baixa, mas carregada de ameaça.
- Que encontraremos Lorde Henry, Capitão. - murmurou ele de cabeça baixa, não era tolo o suficiente para encarar-me.
Mas eu havia ouvido claramente o que dissera.
- Contramestre! - gritei.
- Não, senhor, por piedade! Farei o que quiser! - implorou Smith.
Com um golpe, acertei-lhe o rosto.
- Falarás apenas quando eu permitir!
O contramestre aproximou-se, esperando suas ordens.
- Trinta chibatadas para que este tolo aprenda a guardar a língua e a respeitar seu capitão.
Enquanto Smith era arrastado para o porão, voltei-me aos demais:
- Levem-nos ao porto, mas fiquem fora do alcance da Guarda Real. Não podemos arriscar mais perdas. Encontraremos Henry e prosseguiremos com o plano. E lembrai-vos: o castigo de Smith é um aviso. Trabalhai com mais afinco, ou sereis os próximos.
Deixei o convés, entrando em meus aposentos. Lá, servi-me de uma dose generosa de whisky. O silêncio lá fora era opressor, mas não tão opressor quanto a visão dos corpos que flutuavam nas águas ao redor do navio.
- Maldição! - gritei, arremessando o copo contra a parede. - Henry, moleque tolo, espero que ainda respires! Caso contrário, irei ao próprio inferno para acabar contigo.
Anne
Eu passava os dias nas grandes salas da livraria do castelo, absorta nos tomos e pergaminhos, na esperança de escapar ao tema que, há meses, me atormentava: meu casamento.
Ouvia os cochichos furtivos entre minha mãe e meu pai, mas sempre fingia ignorá-los, sabendo que o assunto, mais cedo ou mais tarde, seria trazido à tona.
Por anos, acalentei o sonho de casar-me por amor, como outrora fizera minha mãe.
Imaginava um marido que se assemelhasse aos galantes cavaleiros das canções e epopeias que lia, pois homens de tal honra e coração eram raros nestas terras. Contudo, ao alcançar meus vinte e um invernos, a dura realidade de meu destino se apresentou diante de mim.
- Anne, minha filha? - clamou minha mãe, anunciando sua entrada em meus aposentos.
- Entrai, mãe. - respondi, ajeitando os panos que me cobriam.
- Bom dia, minha doce donzela. O sol brilha esplendoroso nesta manhã! Cumpre-nos apressar-nos, pois tudo há de estar em perfeição; hoje tomaremos o chá no Palácio. - Enquanto falava, minha mãe encaminhou-se ao armário e escolheu-me um vestido de azul celeste, adornado com pequenas pedras preciosas na cintura, mangas rendadas e um decote discreto. Separou também as joias: uma pulseira delicada em ouro e um colar que lhe fazia par, cujo pingente era um diamante em forma de coração.
- Bom dia, minha mãe. - Ergui-me e fui até a mesa ao lado do leito, onde uma bacia de água fresca me aguardava para a higiene matinal. Enquanto lavava minhas mãos, perguntei: - Posso saber qual a ocasião que nos leva a tomar o chá no Palácio?
- Fico jubilosa por tua pergunta, minha filha! - exclamou ela - Seu pai há de tratar negócios com a Rainha Julie; querem decidir o baile de noivado do Príncipe Fillipe. - Sua voz exalava entusiasmo.
- Baile de noivado? Por que razão meu pai precisa tratar tal assunto com a Rainha? - indaguei, temendo a resposta.
- Ora, minha filha, porque tu serás a noiva! - exclamou ela, batendo palmas em júbilo.
Meu coração apertou-se no peito; jamais planejara casar-me desta forma, muito menos com o Príncipe.
Contudo, não poderia contestar. Estava já em idade de casamento, e os murmúrios da sociedade certamente comprometeriam a honra da família, caso permanecesse solteira por mais tempo.
Resignei-me, então, rogando a Deus que o Príncipe se mostrasse um bom esposo.
- Minha filha, estás bem? Pareces pálida como a neve. - indagou minha mãe, com semblante preocupado.
- Sim, mãe, estou bem. - menti, temendo desapontá-la. - Apenas me inquieta a possibilidade de não agradar ao Príncipe e à Rainha.
- Ora, não temas, minha filha. És de uma graça inigualável, e eles haverão de encantarem-se contigo. - Abraçou-me, e eu deixei-me envolver por seu carinho.
Ela ajudou-me a vestir-me, e depois que saiu, terminei de arranjar meus cabelos em um coque elevado com suaves fios soltos. Desci, então, para o desjejum.
- Bom dia, ó minha pequena guerreira - proferiu meu pai, sentado junto de minha mãe à mesa da sala de jantar.
- Bom dia, meu pai. Rogo vossa bênção. - respondi, fazendo uma breve pausa.
- Que o Altíssimo vos cubra de mercês e graça. - replicou ele.
Logo, acomodei-me à mesa e tomei das frutas que ali estavam dispostas.
- Peço perdão por não poder partilhar deste desjejum convosco, minha filha. Os afazeres deste dia são numerosos. Contudo, esperarei por ti e por vossa mãe na hora do chá. - disse ele, inclinando-se para depositar um beijo suave em nossas frontes, antes de se retirar.
Após breves instantes de um silêncio confortável, minha mãe também anunciou sua partida:
- Anne, hei de deixar-vos a concluir o desjejum a sós, pois careço de ir à feira, e não terei ocasião de o fazer mais tarde.
Ela então retirou-se e, enquanto apreciava as frutas, fiquei a pensar sobre o vínculo que unia meus pais.
Meus pais têm uma história que parece saída de uma das canções que os trovadores cantam na praça.
Minha mãe, Celine Wall era filha de um mercador, conhecida por sua beleza simples e por seu coração generoso. Meu pai, Oliver Wall, já um jovem guarda na época, tinha fama de ser destemido, mas também reservado.
Dizem que ele a viu pela primeira vez em um dia de mercado, quando ela ajudava uma senhora idosa a carregar cestas pesadas. Ele ficou encantado, não apenas por sua aparência, mas pela bondade que emanava dela.
Minha mãe sempre diz que meu pai não era bom com palavras, mas seus atos falavam por ele. Ele começou a aparecer no mercado com mais frequência, comprando coisas que nem precisava, só para ter uma desculpa para vê-la.
Foi assim que começaram a conversar, e logo perceberam que compartilhavam os mesmos valores: honra, trabalho e o desejo de construir algo juntos.
O pedido de casamento foi simples, mas cheio de significado. Meu pai entregou a ela uma rosa do jardim do castelo e prometeu protegê-la com a mesma dedicação com que servia ao reino. Eles se casaram na pequena capela da vila, cercados por amigos e familiares. Ele vestia seu uniforme de guarda, e ela usava um vestido bordado por suas próprias mãos. Dizem que, quando trocaram votos, até os soldados mais rígidos se emocionaram.
- Quem me dera ter a ventura de minha mãe. - murmurei em voz baixa, deixando escapar um suspiro penoso.
Após o desjejum, recolhi-me à biblioteca, meu refúgio predileto.
A Rainha Julie, mãe do Príncipe Fillipe, assumira o trono após a morte do Rei, até que o filho atingisse a idade para reinar.
Pouco sabia sobre o Príncipe, senão que era um homem de poucas palavras e fria disposição, segundo os murmúrios que ouvira.
Quando o relógio marcou três horas, preparei-me para partir ao Palácio com minha mãe. Não nos cabia atrasar, sob pena de demonstrar descortesia.
À porta, um guarda anunciou-nos ao interior.
- Boa tarde, sou Céline Wall, e esta é minha filha, Anne Wall. Viemos para encontrar o Senhor Oliver Wall, bem como Suas Altezas, para a hora do chá. - disse minha mãe.
Conduziram-nos por longos corredores, onde esplendia a magnificência do Palácio. Era-me impossível não imaginar como seria viver ali, desposando um homem quase estranho. Meus devaneios cessaram quando a grande porta da sala se abriu.
- Aqui é a sala das damas, onde o chá será servido. Sede bem-vindas. Logo Suas Altezas e o Senhor Wall juntar-se-ão a vós. - disse o guarda, retirando-se.
Pouco depois, meu pai adentrou com um sorriso.
- Boa tarde, minhas queridas! - saudou ele.
Ao seguir-lhe o olhar, avistei o Príncipe e a Rainha.
Fizemos profunda reverência, e a Rainha retribuiu com um sorriso cortês, enquanto o Príncipe veio até mim, e com uma frieza educada, tomou minha mão e beijou-a o dorso.
Sentamo-nos, e o chá foi servido. Não tardou para que o assunto do casamento fosse trazido à tona.
- Mounsieur Wall, como sabe, a coroação será em dois meses. Gostaríamos que o casamento fosse duas semanas após tal celebração. - disse a Rainha.
- A data parece-me perfeita, Alteza. - assentiu meu pai.
O Príncipe, alheio aos assuntos, foi chamado de volta à conversa por sua mãe.
- Fillipe? Concordas com a data? - ela o encara.
- Certamente, minha mãe. - respondeu ele, com um desdém mal disfarçado.
A conversa prosseguiu, mas tanto eu quanto o Príncipe permanecíamos presos em nossos próprios pensamentos.
Ao retornar ao lar, retirei-me para meus aposentos, onde me entreguei ao peso de meus anseios e temores.
- Assim será, então. Meu noivado se celebrará em uma semana, e meu noivo, ao que parece, desgosta tanto quanto eu desta união. - sussurrei ao vento, fechando os olhos, em busca de algum alívio no sono.
Anne
Em dois dias, realizar-se-ia o tão aguardado baile de noivado que uniria a mim ao Príncipe Fillipe. Desde o momento em que nossas famílias selaram os acordos deste matrimônio, não nos vimos novamente. Embora a ocasião fosse digna de celebração, meu coração encontrava-se dividido entre a expectativa e uma inquietação que teimava em se fazer presente. Afinal, como seria partilhar minha vida com alguém que mal conhecia?
Naquela manhã, encontrava-me na cozinha, como era meu costume, auxiliando Anastasia, nossa fiel criada e companheira de longas conversas, na preparação de um doce de leite para a sobremesa do jantar. O aroma adocicado preenchia o ambiente, trazendo certo conforto à alma.
Cozinhar era, para mim, mais do que uma habilidade; era uma distração preciosa, uma forma de escapar das preocupações, ainda mais do que me entregando às páginas dos livros que tanto adorava.
Foi no meio desse momento de sossego que ouvi batidas firmes à porta principal. Ergui o olhar, curiosa, e logo vi Liam, nosso mordomo de maneiras impecáveis, caminhar para atender o visitante. Não demorou para que ele retornasse, com passos elegantes, trazendo consigo um envelope cuidadosamente lacrado.
- Senhorita Anne, esta carta foi trazida para vós por um mensageiro do Palácio. - Disse Liam, estendendo-me o envelope com uma reverência sutil.
- Muito obrigada, Liam. - Respondi, tentando conter o leve tremor de minhas mãos. - Com vossa licença, vou até a biblioteca descobrir do que se trata.
Enquanto subia as escadas, meu olhar não deixava o envelope, que era uma obra de elegância em si: o papel de alta qualidade, o lacre adornado com o brasão real ... Tudo nele exalava um ar de solenidade. Meu coração batia acelerado, como se antecipasse algo importante. Já na biblioteca, meu refúgio predileto, acomodei-me em minha poltrona favorita, cercada pelos livros que tanto amava, e, com dedos hesitantes, rompi o lacre.
Ao desdobrar a carta, meus olhos percorreram as palavras cuidadosamente escritas, com uma caligrafia firme e refinada. O conteúdo dizia o seguinte:
"Nobre Senhorita Anne Wall,
Humildemente rogo vossa clemência por meu proceder durante o chá. Não tencionava, de forma alguma, parecer descortês e temo haver causado uma impressão desfavorável a vosso juízo.
Por forma de me redimir, envio esta carta para convidar-vos a um passeio pelos jardins do Palácio na data de hoje, ao soar da quinta hora vespertina. Ser-me-ia uma honra sem igual contar com vossa grata companhia.
Com elevada estima,
Príncipe Fillipe Leblanc."
Enquanto lia, senti meu coração acelerar ainda mais. A menção ao dia do chá trouxe-me a memória daquela primeira impressão estranha que o Príncipe me causara. No entanto, o convite parecia sincero, e algo em suas palavras me fez hesitar. Seria possível que por trás de sua postura formal houvesse alguém que eu ainda não conhecia verdadeiramente?
Ao sair da biblioteca, com a carta ainda fresca em minha mente, dirigi-me ao meu quarto com passos ligeiros. Sabia que deveria me preparar com cuidado, afinal, aquele seria meu primeiro momento a sós com o Príncipe desde que nossas famílias acertaram os detalhes do matrimônio.
Ao entrar no aposento, meu olhar percorreu o guarda-roupa em busca da vestimenta perfeita. Após um momento de reflexão, escolhi um vestido rosa de tom suave, feito de um tecido leve e fluido, adornado com mangas de tule delicadamente trabalhadas e uma saia levemente bufante que balançava graciosamente a cada movimento. Era feminino e elegante, o equilíbrio perfeito para a ocasião.
Passei então aos acessórios, desejando algo que complementasse a simplicidade encantadora do traje. Escolhi um arranjo de pérolas para o cabelo, cujas gemas brilhavam como gotas de orvalho ao amanhecer. Combinei-o com um conjunto de brincos e uma pulseira de pérolas igualmente delicados.
Antes de me vestir, passei um pouco de perfume de flores brancas nos pulsos e no pescoço, um aroma sutil, mas inesquecível. Observando-me no espelho, ajustei um último detalhe na barra do vestido antes de descer para a carruagem.
Minha mãe já me aguardava lá, vestida com sua habitual elegância discreta. Ao me ver, seu rosto iluminou-se com um sorriso de orgulho. Seus olhos brilharam com ternura enquanto suas mãos, descansando no colo, seguravam um leque bordado com pequenas flores douradas.
- Estás mais bela do que as flores na primavera, minha menina. - disse ela com a voz doce e serena que sempre aquecia meu coração. - Imagino quão deslumbrante estarás no dia de seu enlace.
- Obrigada, mamãe. - Respondi, devolvendo-lhe um sorriso, embora nervoso. Meu coração parecia bater mais rápido a cada palavra.
A carruagem partiu suavemente, e o som ritmado das rodas no caminho de cascalho preenchia o silêncio entre nós. Minha mãe, sempre atenta, percebeu minha inquietação e, em um gesto de sensibilidade, optou por não falar mais. Sua presença, silenciosa e acolhedora, foi exatamente o que precisei naquele momento. Enquanto observava a paisagem do lado de fora, tentei organizar meus pensamentos, ainda incerta do que esperar.
Ao chegarmos ao Palácio, os grandes portões dourados abriram-se com imponência, revelando os magníficos jardins que se estendiam além da entrada principal. Um guarda veio ao nosso encontro, saudando-nos com uma reverência antes de conduzir-nos à sala das damas. A mesma sala onde, dias antes, eu havia tomado chá com o Príncipe pela primeira vez. O lugar estava como me lembrava: os sofás eram revestidos de um tecido fino e a luz do sol filtrava-se pelas janelas altas, iluminando o ambiente com uma aura serena.
Pouco depois de o guarda se retirar, a porta abriu-se novamente, revelando o Príncipe Fillipe acompanhado de sua mãe, a Rainha. Ambos caminhavam com a postura ereta e a elegância que parecia inata à realeza. Eu e minha mãe nos levantamos de imediato, fazendo uma reverência respeitosa.
- Altezas. - Dissemos em uníssono, inclinando a cabeça com deferência.
A Rainha, com um sorriso afável, cumprimentou-nos primeiro:
- Boa tarde, Senhora e Senhorita Wall. - seu olhar então voltou-se para minha mãe enquanto ela continuava: - Senhora Wall, ficarei aqui convosco enquanto os jovens passeiam pelos jardins. Não vos preocupeis, os guardas estarão atentos e assegurarão que tudo corra bem.
Minha mãe assentiu com um leve sorriso, demonstrando confiança nas palavras da Rainha. O Príncipe, por sua vez, aproximou-se e, em um gesto cortês, tomou a mão de minha mãe, depositando um beijo respeitoso no dorso.
- Fique tranquila, Senhora Wall, cuidarei bem da Senhorita Anne. - Disse ele com um tom que misturava formalidade e uma leve ternura, algo que me surpreendeu.
Voltando-se para mim, ele ofereceu-me o braço com um sorriso discreto, mas genuíno. Por um breve momento, hesitei, sentindo o calor subir ao meu rosto, mas logo aceitei o gesto, repousando minha mão sobre a dele. Seus movimentos eram firmes e seguros, enquanto ele me guiava para fora da sala. As portas imponentes fecharam-se atrás de nós, abafando os sons do salão e deixando-nos em um silêncio quase confortável.
Ao atravessarmos os corredores do Palácio, decorados com tapeçarias luxuosas e esculturas de mármore, meus olhos não podiam evitar contemplar os detalhes à nossa volta. Quando finalmente saímos ao ar livre, fomos recebidos pelo perfume adocicado das flores e pelo canto suave dos pássaros. Os jardins eram um espetáculo à parte: fileiras de roseiras coloridas, caminhos sinuosos de pedrinhas brancas e fontes ornamentadas que lançavam água em um movimento rítmico e tranquilo. Era como estar em um sonho.
Seguimos em uma caminhada tranquila, o som suave de nossos passos ecoando no caminho de pedras brancas que serpenteava pelo jardim. A leve brisa acariciava as flores ao redor, espalhando um perfume adocicado que parecia tornar o momento ainda mais íntimo. O Príncipe caminhava ao meu lado com uma postura impecável, mas percebi que seus olhos, embora tentassem manter a discrição, pousavam sobre mim de tempos em tempos, como se me estudassem em silêncio.
Sua expressão era calma, mas havia algo nos olhos azuis brilhantes que sugeria curiosidade, talvez até uma tentativa de entender quem eu era além da promessa de um título ou aliança. Por minha vez, não pude evitar notar sua atitude atenta e, claro, sua aparência. O Príncipe Fillipe era, sem dúvida, um homem muito bonito, digno das histórias que se sussurravam pela corte. Sua presença era marcante, e sua postura, tão confiante quanto natural, parecia dominar o ambiente sem esforço. Era fácil compreender por que tantas damas suspiravam por ele.
Seus cabelos loiros, cortados em um estilo elegante, reluziam sob o sol como se fossem fios de ouro puro. Os olhos, de um azul profundo, lembravam o céu limpo de um dia perfeito, capazes de capturar e prender qualquer olhar. O rosto, bem desenhado, com traços que pareciam esculpidos com perfeição, era complementado por um sorriso discreto e seguro, que raramente se desfazia. Ele parecia o retrato de um príncipe ideal, tão perfeito que parecia ter saído de uma pintura.
Enquanto caminhávamos, sentia o peso de sua atenção sobre mim, e isso fez minhas bochechas corarem levemente. Era impossível não me sentir um pouco vulnerável sob aquele olhar analítico e, ao mesmo tempo, tão fascinante. Tentei manter o foco nas flores ao nosso redor, nos caminhos sinuosos e nos sons tranquilos do jardim, mas a presença dele era quase magnética.
Embora estivesse nervosa, um pensamento surgiu em minha mente: talvez, assim como eu, ele também estivesse tentando entender mais sobre a pessoa que compartilharia sua vida. E naquele momento, entre a beleza do jardim e a solenidade do encontro, senti que esse passeio seria mais do que uma simples formalidade.
Fui puxada de meus pensamentos pela voz dele, quebrando o silêncio que até então parecia quase sagrado. Sua voz era grave e serena, com um tom que carregava tanto formalidade quanto uma leve curiosidade.
- O jardim é um dos lugares mais tranquilos do Palácio, não achais? - perguntou ele, virando o rosto para mim com um leve sorriso, que suavizava os traços de seu semblante imponente. - Sempre venho aqui quando desejo um momento de paz.
Surpresa com a súbita quebra do silêncio, demorei um instante para responder. Sua voz tinha algo hipnotizante, como se cada palavra fosse escolhida com cuidado. Forcei-me a sair do estado de contemplação e a encontrar algo apropriado a dizer.
- Concordo, Alteza. - Respondi, tentando manter a voz firme, embora meu coração parecesse bater um pouco mais rápido. - O jardim é ... encantador. Há algo nele que acalma a alma e inspira pensamentos.
Ele assentiu levemente, os olhos azuis percorrendo o caminho adiante. Por um momento, pareceu contemplativo, como se pensasse em algo que queria dizer, mas ainda buscasse as palavras. Finalmente, falou novamente, desta vez com uma leve hesitação, como quem revela algo mais pessoal:
- É curioso... sempre imaginei como seria este momento. - Ele fez uma pausa, olhando de soslaio para mim antes de continuar. - Conhecer-vos, digo. Confesso que temia que fosse mais... formal. Mas parece que não é bem assim.
Suas palavras fizeram com que eu o encarasse por um breve instante. Havia honestidade em sua expressão, uma abertura que não combinava com a figura impecável que ele representava. Surpresa por sua franqueza, esbocei um pequeno sorriso e respondi:
- Também pensei nisso, Alteza. Não sabia o que esperar deste encontro... mas devo admitir que o ambiente faz tudo parecer menos... intimidante.
Ele riu suavemente, um som baixo, mas genuíno, que trouxe um calor inesperado à conversa. Era como se, por um instante, ele tivesse deixado a formalidade de lado, mostrando um pouco mais de quem realmente era.
- Fico aliviado por ouvir isso. - disse ele, relaxando um pouco os ombros. - Espero que este seja apenas o primeiro de muitos momentos mais... naturais entre nós.
Suas palavras ecoaram dentro de mim, trazendo uma mistura de surpresa e alívio. Talvez, afinal, houvesse mais em Fillipe do que o Príncipe perfeito que todos viam. E enquanto continuávamos a caminhar, senti que aquela conversa seria o primeiro passo para descobrirmos quem realmente éramos, além das máscaras impostas pela corte.
- Senhorita Anne. - Ele fez uma pausa, e, instintivamente, levantei meu olhar para encontrar o dele, que parecia buscar algo em minha expressão. Queria que ele soubesse que eu estava prestando atenção, então o encarei diretamente. Ele continuou: - Me desculpe pelo dia do chá. Não quis ser grosseiro, mas honestamente, fui pego de surpresa quando minha mãe anunciou que eu me casaria.
Concordei com um leve movimento de cabeça, reconhecendo suas palavras.
Ele me conduziu até um gazebo próximo, cercado por trepadeiras de flores lilases que exalavam um perfume delicado. Então fez um gesto convidando-me a sentar no banco de madeira esculpida. Assim que me acomodei, ele tomou lugar ao meu lado, ainda mantendo uma expressão séria, mas introspectiva. O Príncipe parecia inquieto, uma gota de suor escorria em sua testa quando ele finalmente quebrou o silêncio, sua voz mais baixa e hesitante do que antes:
- Senhorita Anne, sei que talvez agora não seja o momento mais apropriado para isso... mas preciso ser honesto com a senhorita.
Havia algo em sua expressão que denunciava uma luta interna. Seus olhos, tão normalmente controlados, mostravam um brilho de vulnerabilidade que eu nunca imaginaria ver em alguém como ele.
- Alteza, estou ouvindo. Pode falar o que quiser. - respondi, tentando encorajá-lo, mesmo que meu coração estivesse acelerado.
- Anne... - ele hesitou ao me chamar pelo nome, como se isso fosse um gesto de aproximação que ele ainda não sabia se deveria fazer. - Desde que soube desse casamento, tenho carregado um peso que não pude dividir com ninguém. Aceitei esse acordo por pressão de minha mãe. Como a senhorita sabe, estou prestes a ser coroado rei e, para isso, preciso de uma esposa. Logo será necessário pensar em herdeiros.
Sua expressão tornou-se mais séria enquanto ele parava e se virava para me encarar diretamente. Suas palavras carregavam um peso que eu podia sentir em cada sílaba.
- Eu entendo, Alteza. - respondi, com a voz um pouco hesitante.
- Há algumas coisas que preciso dizer, e talvez o que direi não seja do vosso agrado. Contudo, acredito que devo ser honesto.
- Por favor, fique à vontade para me falar o que quiser, Alteza. - respondi, tentando soar confiante, mesmo que estivesse nervosa. - Gostaria de expressar minha gratidão pelo honrado convite para o passeio desta tarde. Enxerguei nesta ocasião uma oportunidade preciosa para melhor conhecermo-nos, e humildemente peço vossa indulgência por minha ousadia em ser tão direta.
Minhas palavras pareciam surpreendê-lo, mas ele sorriu ligeiramente, como se estivesse aliviado.
- Nenhuma ousadia vejo nisto, Anne. Antes, regozijo-me em que possamos tratar com franqueza um ao outro. Espero, com sinceridade, que tal honestidade se mantenha como alicerce entre nós, mesmo após nossos votos serem selados...
Após um momento de silêncio, ele retomou a fala:
- E por falar em sinceridade - começou ele, com a voz baixa, mas firme, enquanto seus olhos me fitavam com intensidade - a primeira coisa que desejo vos dizer sobre nosso matrimônio é que ele está fundamentado em negócios... bons para mim e para o senhor vosso pai.
Suas palavras me fizeram franzir a testa, tomada por uma mistura de confusão e curiosidade. Inclinei-me ligeiramente, mantendo a compostura, e perguntei com cautela:
- Que tipo de negócios, meu senhor?
Ele suspirou profundamente, como se ponderasse o peso de sua resposta, antes de prosseguir:
- Bom, como já mencionei, precisarei de herdeiros, o que é, naturalmente, esperado de um casamento real. Contudo, há mais. Vosso pai será recompensado com o título de Lorde Comandante da Guarda Real, posição de grande prestígio, garantindo-lhe um assento no Pequeno Conselho para aconselhar o rei em assuntos militares. Tal honra vem acompanhada de riquezas consideráveis, que fortalecerão ainda mais vossa casa.
Suas palavras eram medidas, mas firmes, e cada frase parecia ecoar no pequeno gazebo. Ele pausou por um momento, observando minha reação, antes de completar:
- E, é claro, vós sereis coroada Rainha. Minha mãe, Sua Majestade, decidiu renunciar ao trono, o que vos colocará ao meu lado como soberana deste reino.
Fitei-o em silêncio, absorvendo o peso de suas palavras. A ideia de me tornar rainha era grandiosa, mas ao mesmo tempo carregada de responsabilidades que ainda não compreendia por completo. Não obstante, a natureza transacional de nosso matrimônio, ainda que clara, deixava-me inquieta. Ele falava com serenidade, mas havia uma frieza calculada em seus planos, como se tudo fosse parte de um jogo maior do qual eu acabara de ser informada.
– Mas há algo de maior importância que preciso deixar claro antes que prossigamos... Não deveis esperar que eu vos ame – disse ele, com a voz grave e baixa, como se as palavras fossem lâminas cortando sua alma. – Tratar-vos-ei com todo o respeito que mereceis, mas o amor que uma esposa deveria receber de seu esposo... Esse, temo que não poderei vos dar.
Meu coração então se apertou, uma sensação que mal podia nomear, e então ousei perguntar:
– E por que não, nobre Príncipe?
Ele desviou o olhar, seus olhos brilhando com o que pareciam ser lágrimas prestes a cair. A resposta que veio foi um sussurro carregado de dor.
– Porque meu coração... Meu coração já pertence a outra.