Alessio
O sangue quente marcava minhas mãos. Ao meu lado, a maleta com os instrumentos que eu usava; à minha frente, o que restava de um homem. Um traidor - e traidores não deveriam viver. Isso não tornava menos repugnante o que eu era obrigado a fazer.
Mas era o meu dever com a Família.
- Vou perguntar uma última vez: quais outras informações você vendeu? - minha voz saiu fria. Precisava ser.
Mesmo com o suor escorrendo pela minha coluna. Mesmo com a mistura pegajosa de sangue e suor grudando em minha pele.
O porão fedia a morte e desespero. Eu deveria estar acostumado, mas não estava. Talvez nunca estivesse. Talvez eu fosse realmente fraco, como Vittorio insistia em repetir.
Girei a faca entre os dedos. O olho que ainda se mantinha aberto me fitou, enjeitado, vermelho de sangue.
- Eu juro, Alessio... já contei tudo.
Aproximei-me devagar, cada passo calculado.
O homem arfava, cada respiração um arranhar desesperado contra a própria garganta. Eu o observava em silêncio, a lâmina girando entre meus dedos como um pêndulo inevitável.
Parte de mim queria acreditar. Queria largar aquela faca, sair daquele porão e esquecer o que havia feito - e o que ainda faria. Mas a outra parte, a que carregava o nome Moretti, não podia se dar ao luxo de acreditar em juras de um traidor.
Inspirei fundo, o cheiro metálico me queimando por dentro. Inclinei-me sobre ele, tão perto que pude sentir o hálito quebrado de sua agonia.
- Sabe qual é o problema com mentirosos? - murmurei, a voz baixa, quase íntima. - Eles sempre acreditam que a próxima mentira vai salvá-los.
Os olhos dele tremeram, implorando, e nesse instante percebi algo: medo não apaga a coragem de um homem, apenas a torce até o limite. E eu precisava saber se aquele limite já tinha sido alcançado.
A ponta da lâmina encostou em sua pele. Um toque leve, quase delicado. Ele estremeceu, e o silêncio que se seguiu foi mais eloquente do que qualquer grito.
- Então, vou perguntar pela última vez... - minhas palavras desceram como sentença. - Quem mais sabe?
O porão pareceu encolher, como se as paredes respirassem junto de nós, presas na mesma escuridão.
O silêncio se prolongou. O olhar dele se movia rápido demais, nervoso demais. Eu já tinha visto isso antes: o desespero de quem ainda guarda algo.
A lâmina afundou em sua pele com um corte rápido. O grito ecoou pelo porão, seco, abafado pelo espaço estreito. O sangue jorrou quente, respingando em meus braços, mas não desviei o olhar.
- Quem mais sabe? - repeti, cada palavra um golpe.
Ele tentou falar, mas a dor lhe roubava a voz. Apertei a lâmina de novo, firme, implacável. Finalmente, as palavras escaparam entre soluços sufocados: nomes, lugares, detalhes que não tinham aparecido antes.
No fundo, uma parte de mim se encolhia, repugnada. Mas a outra - a parte moldada pela Família, pelo olhar gélido de Vittorio - sabia que não havia retorno.
Quando terminei, o homem não passava de um farrapo de carne e sangue que ainda respirava. E, ainda assim, a maldita sensação de vazio me corroía por dentro. Porque eu sabia que amanhã, haveria outro. E depois, mais um.
A pesada porta atrás de mim se abriu. Juliano surgiu, a expressão inalterada diante do que restava do meu interrogatório.
- Don Vittorio está lhe esperando.
Não havia espaço para contestar. Sequei as mãos em um pano, tentando apagar a sujeira entranhada em mim. Mas era inútil.
O som do piso rangendo sob meus passos ecoa pelo corredor, como se cada batida lembrasse que eu nunca estive realmente seguro. A casa onde vivo pertence ao patriarca da nossa família: Vittorio Moretti, meu pai. Mas o que isso significa de verdade? Nada além de dias de treinamento exaustivos, quase torturantes, em que errar jamais foi uma opção.
Meu dever sempre foi servir à família - sem questionar, sem reclamar, sem sentir. Fui forjado desde cedo para isso: para me tornar uma lâmina afiada, fria, incapaz de hesitar. Apenas obedecer, apenas cumprir, apenas carregar as vontades do chefe da família.
Mesmo que eu me quebrasse no processo. Mesmo que, hoje, eu já não saiba mais quem sou quando não estou com sangue nas mãos.
Don Vittorio mandou me chamar. Não havia escolha. Nunca há. Recusar ou atrasar significaria desafiar o patriarca - e eu já aprendera que, sob este teto, até a sombra do atraso é uma sentença. Subi do porão, deixando para trás o ar pesado, rançoso, impregnado pelo cheiro metálico do sangue, misturado a dejetos e ao desespero que se arrastava pelas paredes. O lugar parecia respirar junto comigo, como se me lembrasse de quem eu era quando ninguém estava olhando.
Lá embaixo o traidor ainda respirava. O som era frágil, irregular. Uma vida suspensa por um fio. E eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, seria minha responsabilidade cortá-lo.
Para o mundo além das nossas fronteiras, eu não passava de um caso perdido, alguém sem valor. Talvez meu pai também me visse assim. Ainda assim, aqui, dentro destas paredes, sem que o mundo soubesse, eu era quem lidava com a sujeira da Família Moretti.
Minha irmã, Bianca, era o braço direito de Vittorio. Quando nosso pai não estava presente, cabia a ela comandar, administrar os negócios diários e repassar as ordens para os que ocupavam os degraus mais baixos da hierarquia. Bianca carregava o sangue Moretti com orgulho, e meu pai via nela uma continuidade mais fiel do que em mim. Fria, implacável, ambiciosa - a filha que ele moldou para ser sua extensão perfeita. Eu a admirava em silêncio, mas também temia sua lealdade cega. Às vezes me perguntava se ela era minha aliada... ou apenas mais uma sombra do Don, pronta para me vigiar e, se preciso, me destruir. Encontrei Bianca no corredor, diante da porta do escritório do Don. A postura ereta, o queixo levemente erguido, os cabelos escuros e aqueles olhos de tempestade a tornavam a réplica perfeita de nosso pai.
Eu, ao contrário, carregava outras marcas. Olhos castanhos sem brilho especial, cabelos ruivos, diferentes demais para a linhagem Moretti - lembranças vivas de uma mulher que nunca conheci. Minha mãe. Ela morreu no dia em que nasci. E, desde então, trago a sensação de que respiro em dívida.
Talvez seja esse o motivo do ódio que meu pai me lança cada vez que me olha. Para ele, não fui um filho. Fui a faca que lhe roubou a esposa, o peso que lhe destruiu a única fraqueza. Cresci com essa culpa silenciosa, como um fantasma colado à pele. Um fantasma que me lembra, a cada passo, que talvez eu nunca vá conseguir ser mais do que o erro que me trouxe ao mundo.
- Ele está esperando você. - disse Bianca, sem olhar diretamente nos meus olhos.
Passei por ela, mas sua mão fria tocou meu braço, firme demais para ser um gesto fraterno.
- Alessio... - sua voz soou baixa, quase um sussurro. - Cuidado com o que diz lá dentro. Sabe como ele odeia quando você... se esquece do seu lugar.
Sorri, um daqueles sorrisos que escondem dentes afiados.
- Sempre tão preocupada comigo, sorella. - murmurei. - Às vezes acho que não sei se devo agradecer... ou desconfiar.
Bianca finalmente me fitou. Seus olhos eram um espelho do gelo de Vittorio, mas havia algo mais: uma centelha de orgulho, talvez de rivalidade, talvez de poder.
- Não confunda minha preocupação com fraqueza. - retrucou. - Um erro seu é uma oportunidade minha.
Ela soltou meu braço e abriu espaço para que eu entrasse. O cheiro de fumaça de charuto escapava do escritório. E, enquanto atravessava a porta, não pude evitar a sensação de que Bianca, mais do que qualquer outro, poderia ser tanto minha salvação... quanto minha ruína.
Meu pai está sentado à cabeceira da sala de reuniões da mansão, o olhar frio como lâmina. Eu sei que cada palavra dele é uma armadilha, cada gesto uma sentença.
- Alessio. - ele começa, sem levantar a voz, mas cada sílaba pesa como um soco - Sente-se. Precisamos conversar.
Não me aproximo rápido o suficiente, e ele bate com a mão na mesa. O impacto reverbera pelo meu peito.
- Não me faça repetir. Agora. - ele ordena.
Obedeço, sentando-me com cuidado, como quem pisa em terreno minado. Ele me observa em silêncio, o olhar dele queimando como ácido em cada centímetro da minha pele. Minha simples presença já parece incomodá-lo - e agora, neste estado, mais ainda. O sangue seco sob minhas unhas brilha à luz fraca do escritório. As cicatrizes em minhas mãos, a maioria causada por ele mesmo, parecem causar-lhe repulsa. A roupa, marcada por manchas ainda mais recentes, carrega o rastro de outros fluidos, lembranças tangíveis da pessoa de quem eu estava arrancando informações. Cada cheiro, cada resquício, cada marca, era um lembrete de que eu fazia parte de algo que nunca poderia ser limpo ou esquecido. E, mesmo assim, sento-me diante dele, respirando devagar, com o corpo tenso, tentando ser apenas a lâmina afiada e controlada que meu pai exige. Vittorio não precisa falar; a sala inteira parece vibrar com sua presença. Ele finalmente ergue os olhos, medindo-me com aquele olhar que sempre sabe demais.
- Alessio - começa, a voz baixa, cortante, carregada de autoridade - Há algo que precisa ser resolvido.
Meu coração se aperta, mas mantenho a expressão impassível. Sei que qualquer reação pode ser usada contra mim.
- Você vai se casar com Giovanni Rinaldi. - as palavras escapam de sua boca como apenas um mero acontecimento comum de seu dia, não como a sentença condenatória que era a minha vida.
Mas a frase cai na sala como um golpe. Giovanni Rinaldi. A família rival, inimiga jurada dos Moretti. A família que juramos destruir, a casa que nos odeia tanto quanto nós a odiamos. Meu cérebro trava. Por um instante, penso em recusar, em fugir, em quebrar tudo ao meu redor. Mas o que Vittorio faria? Me deixaria vivo? Ou apenas me transformaria em lembrança? O casamento não é questão de afeto ou escolha. É um pacto de poder, uma aliança forçada, uma prisão dourada. Sinto o sangue esquentar nas veias, e por um instante a máscara de frieza quase escapa. Mas controlo a respiração, respiro devagar, como sempre aprendi.
- Pai... - começo, a voz saindo mais baixa do que gostaria -. Não podemos...
- Não podemos? - Ele se levanta, e a proximidade faz meu coração acelerar. - Alessio, você é meu filho. Não discute comigo. Não aqui. Não nunca.
Sinto o punho dele acertar a mesa tão perto da minha mão que o choque do impacto sobe pelos meus ossos. É um aviso. Um lembrete de quem manda. Cresci aprendendo a engolir cada sensação de dor, cada ameaça velada, cada humilhação disfarçada de lição de vida.
- Isso é pelo bem da família - ele continua, aproximando-se ainda mais -. Pelo poder. Pelo controle. Você é meu filho, Alessio. Aprenda a aceitar o peso do que carrega.
Respiro fundo, sentindo o ferro da raiva e do medo se misturar no meu sangue. Sinto vontade de gritar, de cuspir verdades que queimam minha garganta, mas engulo tudo. Aprendi cedo: se mostrar vulnerável, está morto. Literalmente.
- Pai... - consigo articular, tentando medir cada sílaba -. Isso... -
- Não discuta. - Vittorio interrompe, levantando-se com a imponência de quem domina tudo. - Não há espaço para objeções. Você fará o que for necessário para manter a família intacta. E para manter o nosso poder.
Observo cada detalhe: o charuto na mão, o olhar impiedoso, a presença que parece ocupar cada canto da sala. Para ele, minhas emoções não importam. Para ele, eu não sou Alessio; sou apenas uma peça no tabuleiro, um peão treinado para obedecer.
- Você pensa que eu não sei? As... coisas que você faz escondido? - a voz dele escorre desprezo, venenosa em cada sílaba. Sinto meu sangue gelar.
Ele sabe. Claro que sabe. Eu havia sido tolo ao acreditar que minha vida pessoal podia permanecer oculta. Já estive com homens, já estive com mulheres. Sempre cuidadosamente escondido. Sempre calculando cada passo, cada deslize, cada detalhe. Sempre tentando me proteger - ou, talvez, proteger algo que nem sei mais se existe: a minha própria liberdade.
O ódio e o medo se misturam, queimando minha garganta, mas eu engulo qualquer reação. Não posso ceder. Não aqui. Não nunca. Cada fibra do meu corpo grita por resistência, mas meu rosto mantém a máscara de frieza que ele espera.
E, mesmo assim, uma parte de mim quer gritar: "Você não me controla completamente. Nunca me controlará." Mas a voz permanece presa, e eu respiro devagar, contando cada segundo, medindo cada pensamento. Porque no mundo de Vittorio Moretti, uma fraqueza é suficiente para destruir tudo - até mesmo a própria alma.
Engulo a raiva, o choque, o desespero. Mais uma vez aprendo que o mundo que meu pai governa não tem espaço para fraqueza. E que eu, Alessio Moretti, preciso sobreviver - não importa a que custo.
Quando tento falar, minha voz controlada contrasta com o turbilhão que me atravessa por dentro.
- Senhor, os Rinaldi não aceitarão esse acordo. Porque não Bianca -
A frase morre na garganta. Um golpe cortante atravessa meu rosto antes que eu possa terminar. O impacto é seco, letal, e um estalo surge no meu ouvido enquanto meus joelhos tremem. Sinto o gosto metálico do sangue se espalhando pela boca.
- Você acha que eu entregaria minha filha, minha herdeira, para aquele bando de cães imundos? - ele grita, cada palavra carregada de fúria, como se a simples ideia fosse uma afronta pessoal.
O mundo ao meu redor parece girar. Cada músculo do meu corpo quer reagir, mas a memória de anos de treinamento, de obediência e sobrevivência, me prende.
Claro. Onde eu estava com a cabeça ao sequer imaginar que ele entregaria sua "princesa" aos leões? A dor lateja, mas a raiva ainda ferve sob a pele. Respiro fundo, controlando cada fibra do meu corpo. Aprendo, mais uma vez, que neste mundo, sentir é luxo. Sobreviver é a única regra.
Sento-me novamente, erguendo o queixo, mostrando que não cedi totalmente - não por completo. Cada músculo do meu corpo está alerta, mas minha voz sai calma, quase cortante:
- Claro, Senhor. Ninguém ousaria desafiar o poder da Família Moretti. Nem mesmo os Rinaldi.
Vittorio me observa, o olhar afiado como uma lâmina, pesando cada sílaba, cada movimento meu. Ele caça qualquer sinal de fraqueza, qualquer tremor escondido. E eu lhe ofereço apenas o que ele deseja enxergar: silêncio e controle. Uma presença fria.
- Então você entende, Alessio... - a voz dele desce, grave, carregada de ameaça. - Você será parte desse acordo. Com Giovanni Rinaldi.
O nome explode dentro de mim como um veneno. Giovanni. A família rival, inimiga de sangue. Agora não mais apenas um inimigo, mas uma sentença. Um contrato. Uma prisão disfarçada de aliança. O ar se torna espesso demais, cada respiração me arranha por dentro. Quero gritar, mas engulo a fúria, forçando cada músculo a obedecer. Cada pensamento precisa ser calculado. Não posso ceder. Não diante dele. Vittorio prossegue, implacável:
- O contrato já foi redigido. Nos termos, está apenas que Giovanni Rinaldi deve se casar com um descendente meu. Não foi especificado com qual. E, como você já sabe, Bianca está comprometida com os De Luca.
O silêncio que se segue é ensurdecedor. Sinto as paredes se fecharem ao meu redor, como se todo o salão se tornasse uma cela invisível. O nome de Giovanni lateja em minha mente, pulsando como uma ferida aberta.
Meus punhos ardem com o desejo de se cerrar, mas não me permito. Sei que um único gesto fora de controle pode ser lido como insubordinação. Vittorio não perdoa fraqueza.
- Então... sou eu. - minha voz sai contida, quase um sussurro engolido pela tensão.
Ele não responde de imediato. Apenas me fita, como se quisesse gravar no meu rosto o exato momento em que compreendo o peso da sentença. Por fim, o canto de sua boca se ergue em um sorriso breve, mas cruel.
- Sim, Alessio. É você.
A confirmação cai sobre mim como uma corrente gelada. Dentro do meu peito, a raiva se mistura ao medo, e ambos se transformam em uma chama abafada, contida à força. Não posso permitir que ele veja. Não posso permitir que ele vença.
Mas já sinto o gosto amargo da prisão que se fecha em torno do meu destino.
- Vejo em seus olhos a chama da rebeldia - Vittorio comenta, a voz lenta, estudada, como se acariciasse uma ferida aberta. - Mas não se engane, Alessio. Rebeldia não passa de fraqueza disfarçada. E fraqueza... não tem lugar na nossa família.
Cada palavra dele desce pesada, como pedras amarradas ao meu corpo me puxando para o fundo.
- Você acha que pode escolher? - ele continua, inclinando-se um pouco, reduzindo a distância até que sua presença se torne sufocante, quase física. - Desde o dia em que nasceu, seu destino já estava escrito pelas minhas mãos. Giovanni apenas será... a tinta final desse contrato.
Engulo seco. Meu coração martela contra as costelas, mas por fora mantenho a máscara inexpressiva. É um jogo de sobrevivência, e sei que, diante de Vittorio, o menor vacilo pode ser o bastante para que ele me esmague.
Ele se recosta na poltrona, o gesto calculadamente calmo, como um rei entediado que dita a sentença de um súdito.
- Vai aprender a controlar até o que sente, Alessio. Porque no instante em que suas emoções se tornarem visíveis... no instante em que alguém perceber que ainda é humano... esse será o dia em que você perderá tudo.
A sala parece se encolher. O ar, rarefeito. Ele não está apenas me entregando a Giovanni. Está moldando meu silêncio, minhas reações, meu corpo inteiro, como se quisesse me transformar em pedra. Um herdeiro obediente. Uma arma sem vontade. Mas por dentro, mesmo esmagado, uma parte de mim ainda resiste, latejando como uma ferida que se recusa a cicatrizar.
- Entendido - murmuro, a voz tão fria quanto meu olhar. - Farei o que for necessário para a família.
Por dentro, uma tempestade se forma. Giovanni Rinaldi não é apenas um nome; é um enigma que agora se tornará meu destino. E eu? Eu não permitirei que esse destino me quebre. Aprendi cedo: sobreviver significa jogar, calcular, usar tudo - até a própria dor - como arma.
Olho meu reflexo na superfície polida da mesa. O mesmo olhar frio que ele gosta de ver, calculista, impenetrável. Por fora, a máscara perfeita. Por dentro, cicatrizes profundas e medos que não posso mostrar.
Mas faço uma promessa silenciosa: não serei ele. Não serei Vittorio Moretti. Não importa o casamento, não importa o jogo, não importa quanto sangue ele espere que eu derrame. Meu coração, minha mente, meu controle... nada disso será dele.
O casamento com Giovanni será apenas um tabuleiro. E eu? Aprendi cedo a jogar para vencer. Sempre.
Alessio
O silêncio da sala de reunião pesa como chumbo. O relógio na parede parece zombar de cada segundo que se arrasta, marcando o tempo que me separa da chegada dele. Vittorio não precisa dizer nada; sua simples presença ao meu lado já é suficiente para lembrar que não existe saída. Que contestar é inútil.
Os cabelos escuros agora trazem marcas do tempo, mas em vez de enfraquecê-lo, cada fio grisalho parece ter se transformado em cicatriz visível de poder. O terno preto, impecavelmente alinhado, molda sua figura rígida, quase pétrea, como se fosse feito de ferro. Ele não precisa erguer a voz nem mover um músculo - a ameaça está no silêncio, no olhar frio que corta como lâmina.
O poder da família Moretti foi forjado em sangue e selado com traição. Não herdamos nada - tomamos. Não pedimos lealdade - arrancamos pelo medo. Para Vittorio, isso bastava. Controle, influência, domínio: tudo à nossa volta pertence a nós.
Tudo, exceto os Rinaldi.
Quando a porta finalmente se abre, o ar muda. Giovanni Rinaldi atravessa o limiar como quem invade território inimigo, mas há algo nele que atrai e amedronta ao mesmo tempo. Postura ereta, queixo erguido, cada passo carregado da arrogância que só os nascidos com sangue Rinaldi sabem exibir. Seus olhos, marcados pelas duas cores da linhagem, fixam-se em mim como lâminas afiadas que cortam e prendem o olhar. Há uma força silenciosa em sua presença, quase magnética, que torna impossível desviar o olhar. Não há disfarce, não há polidez. Apenas ódio cru, mas carregado de um magnetismo que arrasta e intimida.
Por um instante, penso em como seria fácil retribuir o olhar, em como seria libertador lançar de volta todo o veneno que ferve dentro de mim. Mas me lembro do peso da mão de Vittorio sobre meus ombros desde a infância: controle absoluto.
Sustento o olhar de Giovanni. Não abaixo a cabeça. Não ofereço o que ele espera.
Ele é o primeiro a falar.
- Então... é você. - A voz é carregada de desprezo. - O descendente Moretti escolhido para envenenar o meu nome.
Cada palavra dele é cuspida como se fosse sujeira.
- Chamaria de envenenar... ou de unir. - Minha resposta é calma, gelada, como o próprio Vittorio exigiria. - Depende de quem escreve a história.
Os olhos de Giovanni se estreitam, um brilho de fúria passando rápido, mas suficiente para me mostrar que o atingi.
- Não precisa de narradores para a sua família, Alessio. - Ele cospe meu nome como se queimasse. - A cidade inteira conhece os crimes dos Moretti.
Engulo a raiva. Cada músculo do meu corpo implora para reagir, mas sei que uma explosão agora só serviria para me envergonhar diante de Vittorio.
- E ainda assim está aqui. - Dou um passo à frente, reduzindo a distância que ele parecia querer manter. - Pronto para cumprir o contrato. Parece que até o ódio se curva ao destino.
Ele ri. Um som baixo, curto, sem alegria.
- Não confunda dever com escolha. Estou aqui porque somos todos prisioneiros. Você tanto quanto eu.
A frase me atravessa de forma estranha, como se ele tivesse posto em voz alta algo que eu nunca admitiria. Mas não demonstro. Não diante dele.
- Não pensei que o Don da família Rinaldi se curvaria a uma decisão que não lhe agrada. - A minha voz é um fio de lâmina, carregada de desprezo. - Mas aqui está você, sorrindo para o que deveria sentir como afronta. Curioso... ou talvez apenas patético.
O silêncio retorna, denso, sufocante. Sinto o olhar de Vittorio sobre mim, avaliando cada mínimo gesto. Giovanni também percebe, porque o sorriso breve que surge em seus lábios tem gosto de provocação.
Por fim, ele se inclina, tão próximo que consigo sentir o calor do seu desprezo.
- Se acha que um Rinaldi vai se ajoelhar diante de um Moretti, está delirando. O casamento pode ser imposto, Alessio, mas o ódio... o ódio é livre, e cresce como veneno onde nenhum contrato alcança.
O olhar dele desliza sobre mim de cima a baixo, frio, calculista, como se estivesse catalogando cada fraqueza para cravá-la na primeira oportunidade. Eu me calo, erguendo o silêncio como única armadura.
- Vocês torceram o contrato, manipularam cada linha até achar uma brecha que parecesse vitória. Mas não confundam truque barato com poder, nem astúcia com inteligência. Os Rinaldi nasceram no fogo e no sangue, e quem ousa nos subestimar não vive para contar a história.
Ele se afasta um passo, deixando para trás o gosto amargo de cada palavra.
Eu não reajo. Não aqui, não agora. Ainda não. Mas por dentro, a corda que Vittorio colocou em volta do meu pescoço se aperta um pouco mais. Giovanni é mais que um noivo forçado. É o inimigo que agora dormirá sob o mesmo teto que eu. O inimigo que, por ironia cruel, se tornará a sombra mais próxima da minha vida.
Giovanni ainda me encara quando a voz de Vittorio corta o ar. Grave, calma, mas carregada do veneno que sempre me moldou.
- Chega. - Ele não levanta a voz, não precisa. A ordem ecoa como um decreto, impossível de ignorar. - O suficiente de teatro.
Giovanni solta um meio sorriso, insolente, antes de voltar o olhar para Vittorio.
- Teatro? Eu diria que é só o primeiro ato.
O brilho nos olhos de meu pai endurece, e por um instante sinto o perigo latente no ar, como um trovão prestes a cair. Mas Vittorio se controla - e quando ele se controla, é ainda mais aterrorizante.
- Não importa o que vocês sentem. - Ele se levanta, impondo sua presença sobre nós dois como uma sombra que engole o ambiente. - O contrato foi assinado. Giovanni, você será ligado à nossa família pelo sangue da união.
Alessio, você será a peça que manterá esse acordo.
Cada palavra dele me prende ainda mais ao chão. Giovanni cruza os braços, a mandíbula rígida.
- E se eu recusar?
Vittorio se aproxima. O silêncio que antecede sua resposta é pior do que qualquer grito.
- Não vai recusar. Porque você conhece as consequências. - Ele fala devagar, saboreando cada sílaba. - E porque, no fundo, Giovanni, sabe que não há saída. Foi um acordo entre famílias. Feito antes de seu pai morrer. Sua última exigência.
Giovanni sustentando o olhar de Vittorio. A raiva dele é palpável, mas até mesmo o filho dos Rinaldi compreende que há limites que não pode cruzar. Pelo menos por enquanto.
- Que assim seja. - Giovanni fala com seus olhos cravados aos meus. E soa como uma ameaça velada.
Eu permaneço imóvel. O peso do olhar de ambos recai sobre mim, como se fosse o elo frágil entre dois mundos prestes a explodir.
Vittorio, então, volta-se para mim, e sua voz soa como uma sentença final:
- Lembre-se, Alessio. Você não está apenas aceitando um casamento. Está garantindo o futuro da nossa família. Se falhar... não será apenas o seu destino que estará em jogo.
Outra ameaça paira, clara, sem necessidade de mais explicações.
Quando Giovanni enfim se afasta sem me olhar uma ultima vez, a sala parece respirar de novo, mas eu não. O ar continua preso na minha garganta, como se a própria vida fosse uma corrente mantida pelas mãos de Vittorio.
O primeiro capítulo desse teatro termina no silêncio. Eu e Giovanni, inimigos acorrentados pela vontade de nossos pais, cientes de que o ódio que carregamos um pelo outro será apenas o início dessa guerra íntima.
Alessio
O salão parecia um mausoléu. Mármore frio, cortinas pesadas e o tilintar discreto das taças de cristal não conseguiam disfarçar o peso daquilo que estava prestes a acontecer. Cada gesto, cada olhar, tinha a gravidade de uma sentença.
As duas famílias estavam sentadas frente a frente, como exércitos inimigos em uma trégua frágil de uma guerra que já durava gerações. Vittorio Moretti, meu pai, ocupava o centro da mesa, imponente. Ao lado dele, Bianca mantinha o olhar frio e indiferente, embora seus olhos carregassem segredos que eu sequer ousava imaginar.
Giovanni Rinaldi, o noivo que não escolhi, mantinha-se ereto, o queixo erguido, os olhos faiscando ódio contido.
Quando Vittorio segurou a caneta e riscou o contrato, o som da ponta arranhando o papel ecoou como o disparo de uma arma. O silêncio que se seguiu não era respeito - era medo.
Nossas assinaturas vieram logo depois, meras formalidades de um acordo já decidido. Não havia escolha, nunca houve. Não para mim. A bile subiu ácida pela minha garganta, mas mantive a mão firme enquanto escrevia meu nome no documento, selando o meu destino.
Giovanni retirou sua caneta de dentro do paletó, como se recusasse a tocar em algo que tivesse passado por mãos de um Moretti. Sua assinatura foi rápida, firme, um corte preciso, e em seguida ele entregou o papel ao seu Capo.
Um a um, chefes e conselheiros assinaram. Taças se ergueram em um brinde gélido, mas nenhum sorriso era verdadeiro. Aquela não era uma celebração. Era um funeral disfarçado de acordo - todos ali sabiam que estavam enterrando o futuro junto com a última palavra escrita no contrato.
Eu observei meu pai. O sorriso dele era pequeno demais, o olhar frio demais. Não era o semblante de quem sela uma aliança - era o de um homem que prepara uma execução. Foi ali que compreendi, talvez tarde demais: Vittorio não queria unir famílias. Queria apodrecer os Rinaldi por dentro, sugar cada gota de poder até restar apenas a carcaça.
Então vieram as alianças. Mais uma farsa envenenada, servida como espetáculo. Giovanni tirou a caixa de veludo preto do paletó e a jogou sobre a mesa com força desnecessária, o impacto seco ecoando no salão. Empurrou-a na minha direção como quem marca território. Dentro, o ouro brilhava sob a luz, gravado com o brasão dos Rinaldi. Um gesto calculado. Uma marca de posse. Um aviso: você agora me pertence.
Peguei a aliança e deslizei em seu dedo. Giovanni arrancou a mão como se meu toque fosse fogo. Mas, antes que eu pudesse recuar, ele agarrou a minha. A pele dele queimava, quente, impaciente, contrastando com o frio que corria pelas minhas veias. Seu olhar prendeu-se às minhas mãos - as sardas, as cicatrizes, as marcas que carregavam mais história do que eu gostaria de lembrar.
Quando o anel fechou em torno do meu dedo, não foi ouro o que senti.
Foi ferro.
Não era promessa.
Era algema.
Senti o olhar de Giovanni me atravessar. Ele não precisava dizer nada para me deixar claro o que pensava. Ainda assim, sua voz veio, baixa, dirigida apenas a mim:
- Não se iluda, Moretti. Vocês podem ter arrancado minha assinatura, mas nunca terão a minha rendição.
O veneno em suas palavras queimou mais do que qualquer insulto aberto. Respondi com silêncio, a única arma que me restava.
Quando a cerimônia terminou, Giovanni se levantou, afastando-se de mim. Vittorio me chamou de lado. Estávamos cercados dos nossos. A mão pesada dele pousou sobre meu ombro, e o tom em sua voz baixa e carregava uma calma que me deu calafrios.
- Lembre-se, Alessio, este casamento é apenas o primeiro passo. O nome Rinaldi logo será apenas uma lembrança - e será você a chave disso.
Olhei para ele, tentando decifrar até onde ia aquela loucura. Mas ele já tinha decidido meu papel muito antes de eu perceber.
- Você vai dormir ao lado dele - continuou, sem espaço para recusa. - Vai conquistar a confiança dele. Cada palavra que Giovanni soltar, cada segredo que escapar, você trará para mim.
Engoli a raiva, o choque, o desespero. Mais uma vez aprendi que, no mundo que meu pai governa, não há espaço para escolha. Só para sobrevivência. Meus olhos me trairam e foram de encontro a ele. Giovanni. Ele me olhava com intensidade, seus olhos faiscando como se pudessem atravessar a muralha de silêncio que eu tentava erguer dentro de mim. Havia algo ali - orgulho, raiva, talvez uma fagulha de curiosidade. Eu não sabia. Mas soube, naquele instante, que meu pai subestimava a força que pulsava naquela família. Subestimava aquele homem.
Senti o peso do contrato recém-assinado queimando em minhas mãos, como grilhões invisíveis. As taças tilintaram ao fundo, brindes falsos celebrando uma união que mais parecia sentença.
Meu pai ainda falava, a voz grave ecoando como uma ordem irreversível, mas já não ouvia nada além da batida acelerada do meu próprio coração. Eu não via Giovanni como um alvo. Não ainda. Eu o via como um precipício: um passo em falso, e eu cairia para sempre.
Quando a reunião terminou, fomos deixados sozinhos por um instante. Ninguém ousava se aproximar de nós, dois herdeiros condenados a se devorar sob o disfarce de um matrimônio.
Uma guerra travada no silêncio da cama, e eu era a arma escolhida por Vittorio.
Meu estômago revirou quando ouvi a voz dele, baixa, cortante:
- Parece que não está feliz, Alessio. Deve ser duro assinar a própria sentença ao lado de um estranho.
Engoli em seco. Cada palavra dele era um veneno calculado. Eu queria responder, cuspir a verdade na cara dele - que sim, era uma sentença, que eu me sentia vendido, usado como moeda de troca. Mas não podia. Não devia. A disciplina que anos de treinamento me impuseram dizia: silêncio é a arma mais afiada.
Levantei o queixo, sustentando o olhar dele. Não para enfrentá-lo de verdade, mas para mostrar que não sou a presa fácil que ele imagina.
Giovanni sorriu baixo.
- Então, Alessio Moretti... espero que saiba dançar bem. Porque nesse jogo, um passo em falso pode custar a vida.
Minha respiração falhou por um instante. Eu sabia dançar, sim - só não sabia se seria com ele ou contra ele. Mas havia algo na forma como ele me observava que me desmontava por dentro. Temia que ele me visse. Além da máscara, além da frieza que eu lutava para manter.
Me inclinei em sua direção, perto o suficiente para sentir seu perfume. Tudo nele gritava domínio e calor. Um tipo que parecia grudar na pele minha pele. Algo dentro de mim alertava que eu precisava me afastar, que mais um passo e eu não saberia como me libertar, mas me mantive firme.
- Então... vamos começar esse "jogo" - ouvi minha própria voz dizer, firme, mas baixa demais. - Quero ver se você consegue acompanhar.
Estávamos próximos demais, quase de uma maneira que poderia ser considerada inadequada para o salão em que estávamos.
- Não se engane - minha voz apenas um murmúrio, ele se inclinou em minha direção, talvez para ouvir melhor, talvez para me intimidar. Não soube dizer - Nem tudo aqui é só aparência.
Me forcei a desviar a atenção dele, ajustei a manga da minha roupa. Mas Giovanna fechou s distância entre nós. E por um instante não soube como reagir.
Por um instante, eu quis acreditar que Giovanni era só meu inimigo. Seria mais fácil. Mas quando nossos olhares se prenderam de novo, percebi a verdade incômoda: havia algo em mim que respondia àquela proximidade. Algo que me atraía para o abismo.
- Cuidado, Alessio - seu tom ela baixo, quase íntimo. - Porque nesse jogo, eu também sei jogar... e às vezes, jogo para chegar mais perto do que o esperado.
Giovanni não queria apenas me destruir. Ele queria me desmontar por dentro, peça por peça, até que eu não soubesse mais onde terminava a disciplina e começava o desejo.
E eu, maldito que fosse, não sabia se teria forças para resistir.