O salão de festas estava perfeito, o dia dos meus sonhos.
Mas o silêncio era pesado, anormal, enquanto eu esperava no altar por um noivo que nunca chegou.
Meu celular vibrou, era minha mãe.
"Sofia, sua irmã Luna acabou de pousar! Estamos indo buscá-la. O casamento pode esperar, né? É a Luna, ela voltou da Europa!"
Minha madrinha me mostrou o Instagram: Luna sorrindo no aeroporto, cercada pela minha família. E Gabriel, meu noivo, com o braço possessivo em volta dela.
A legenda dizia: "Reunião de família! Finalmente nossa princesinha voltou pra casa!"
Ninguém se lembrava da noiva abandonada.
Liguei para meu pai. "O que foi, Sofia? A gente remarca. Sua irmã voltou, isso é mais importante. Não seja egoísta."
Egoísta. A palavra ecoou no salão vazio, enquanto os convidados iam embora me olhando com pena.
Eu era a piada do dia. A noiva trocada pela irmã.
Voltei para casa e escrevi no meu caderno: "99. Fui abandonada no altar no dia do meu casamento porque minha irmã voltou de viagem."
Noventa e nove decepções. Eu tinha prometido aguentar até a centésima.
Mas o fundo do poço estava mais perto do que eu imaginava.
Naquela noite, Gabriel invadiu meu quarto, irritado. "Que drama é esse agora, Sofia? Para de ser infantil!"
Ele esbarrou na maquete do meu projeto final, e ela se espatifou no chão. Senti um vazio.
Minha mãe apareceu. "Sofia, venha fazer o jantar para sua irmã. Ela está com saudades da sua comida."
Eu, a cozinheira. Luna, a princesa.
Na mesa de jantar, Luna era o centro das atenções, contando histórias da Europa. Gabriel ria de tudo, ombro a ombro com ela.
Ninguém mencionou o casamento.
Então, Luna tossiu e fez sua cena: "Tem amendoim nisso?"
Minha mãe ficou pálida. "Sofia! O que você fez? Você tentou machucá-la!"
Antes que eu pudesse responder, a mão dela voou e me deu um tapa.
A dor física não foi nada perto da dor no meu peito.
Eles saíram correndo para o hospital com Luna, e Gabriel me lançou um olhar de ódio.
A casa ficou em silêncio. Eu estava sozinha, com a marca vermelha no rosto.
Essa foi a centésima decepção.
O salão de festas estava perfeitamente decorado, exatamente como eu sonhei por meses, mas o silêncio era pesado, anormal.
Os convidados cochichavam entre si, seus olhares se alternando entre mim, parada ao lado do altar vazio, e a porta de entrada, esperando por um noivo que não voltaria.
Eu estava vestida de noiva, o vestido branco que escolhi com tanto carinho agora parecia uma fantasia ridícula.
Meu celular vibrou na pequena bolsa que minha madrinha segurava. Era minha mãe.
Sua voz soou apressada, sem nenhum pingo de culpa.
"Sofia, sua irmã Luna acabou de pousar. O voo dela adiantou! Estamos todos indo para o aeroporto buscá-la. O Gabriel está vindo com a gente."
Ela não perguntou, ela afirmou.
"O casamento pode esperar um pouco, né? É a Luna, ela voltou da Europa!"
A ligação terminou antes que eu pudesse dizer uma única palavra.
Meu coração não acelerou, não senti as lágrimas que todos esperavam, apenas um vazio frio e familiar se instalou no meu peito. Era a decepção, a velha conhecida.
Minha madrinha, a única amiga que ficou ao meu lado, me mostrou seu celular com uma expressão de pena.
Na tela, uma foto recém-postada no Instagram.
Luna, sorrindo radiante no saguão do aeroporto, cercada pela minha família. Meu pai, minha mãe, meu irmão mais velho, Lucas. E ao lado dela, com um braço possessivo em volta de sua cintura, estava Gabriel. Meu noivo.
A legenda da foto dizia: "Reunião de família! Finalmente nossa princesinha voltou pra casa!"
Ninguém parecia se lembrar que estavam deixando uma noiva no altar.
Tentei ligar para o Gabriel. A chamada foi direto para a caixa postal.
Liguei para o meu pai. Ele atendeu, impaciente.
"O que foi, Sofia? Estamos quase chegando em casa com a Luna, ela está exausta da viagem. Não crie problemas."
"Pai, e o casamento?" minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
"Ah, isso," ele disse, como se estivesse falando do tempo. "A gente remarca. Qual o problema? Sua irmã voltou, isso é mais importante. Não seja egoísta."
E desligou.
Egoísta. A palavra ecoou no salão silencioso, onde os convidados começavam a ir embora, alguns com olhares de pena, outros com sorrisos mal disfarçados.
A humilhação era pública, esmagadora.
Eu era a piada do dia. A noiva abandonada pela família e pelo noivo por causa da irmã mais nova.
Com uma calma que assustou até a mim mesma, peguei o microfone do cerimonialista.
"Obrigada a todos por virem," minha voz soou clara e sem tremor. "A festa acabou. Podem aproveitar o buffet."
Fui para casa, ainda usando o vestido de noiva. O táxi me deixou em frente à casa grande e vazia. A casa dos meus pais, onde eu ainda morava.
Entrei no meu quarto, abri a gaveta da minha escrivaninha e peguei um pequeno caderno de capa preta.
Abri na última página.
Com uma caneta, escrevi:
"99. Fui abandonada no altar no dia do meu casamento porque minha irmã voltou de viagem."
Fechei o caderno. Noventa e nove decepções. Eu tinha prometido a mim mesma que aguentaria até a centésima. Mas noventa e nove já era o suficiente.
O amor deles, eu não queria mais.
Sentei no computador, preenchi o formulário de intercâmbio para a faculdade de arquitetura em Portugal, que eu havia adiado por causa do casamento.
Enviei.
Abri o guarda-roupa e comecei a fazer as malas.
O som da porta do meu quarto se abrindo com um estrondo me fez pular.
Meu noivo, Gabriel, entrou sem bater, seu rosto uma mistura de irritação e cansaço. Ele nem olhou para mim, seus olhos correram pelo quarto e pararam nas malas abertas sobre a minha cama.
"O que é isso? Que drama é esse agora, Sofia?"
Ele se aproximou e pegou o caderno preto que eu havia deixado sobre a escrivaninha. Ele o folheou, suas sobrancelhas se franzindo em desdém.
"Que porcaria é essa? 'Lista de decepções'?", ele leu em voz alta, rindo. "Você tem tempo pra isso? Para de ser tão infantil."
Sua mão, descuidada, esbarrou na maquete que eu passei semanas construindo para o meu projeto final da faculdade. Era um centro comunitário, meu projeto dos sonhos.
A estrutura delicada caiu no chão, se partindo em dezenas de pedaços.
Eu olhei para os destroços do meu trabalho, o símbolo de tantas noites em claro, e não senti nada. Apenas um silêncio interior.
Gabriel nem pediu desculpas. Ele chutou um pedaço da maquete para o lado com o pé.
"Para com essa cena. Sua irmã chegou, você deveria estar feliz. Em vez disso, fica aqui deprimida, criando problema."
A porta se abriu de novo. Era minha mãe. Ela também parecia irritada.
"Sofia, pare de se trancar aqui e venha fazer o jantar para sua irmã. Ela disse que estava com saudades da sua comida."
Não era um pedido, era uma ordem.
Eu sempre fui a cozinheira da casa, a faz-tudo. Luna era a princesa que só precisava existir e ser admirada.
"Ela está cansada," minha mãe continuou, sua voz se suavizando ao falar de Luna. "Coitadinha, a viagem foi longa. Faça aquele prato de camarão que ela gosta."
Eu olhei para a minha mãe, depois para Gabriel, e assenti lentamente.
"Tudo bem."
Minha calma pareceu confundi-los. Eles esperavam lágrimas, gritos, uma briga. Não uma aceitação silenciosa.
Gabriel me olhou com desconfiança.
"O que você está tramando, Sofia? É melhor não inventar nada para magoar a Luna."
Minha mãe concordou, com um olhar de aviso.
"Sua irmã é sensível. Depois de tanto tempo fora, ela precisa de paz. Não seja a pessoa a estragar isso."
Eu não respondi. Apenas me levantei, desviei dos destroços da minha maquete no chão e saí do quarto em direção à cozinha.
A calma não era resignação. Era o fim.
Eu já tinha saído daquela casa, daquela família, daquele relacionamento. Meu corpo ainda estava ali, mas minha alma já estava a milhares de quilômetros de distância.
Eles não perceberam. Para eles, eu ainda era a mesma Sofia boba e carente de sempre, a peça de mobília que podiam usar e ignorar como quisessem.
Eles não tinham a menor ideia do que estava por vir.