Eu estava a caminho do meu próprio noivado, pronta para me tornar a esposa de Rodolfo De Melo.
Mas a festa não era para mim. Era para anunciar o noivado dele com Susana, minha rival, que estava grávida do seu herdeiro.
Na frente de todos, ele negou nossa filha, Liz. Sua avó sugeriu que minha filha fosse declarada órfã para não manchar a reputação da família.
Ele me forçou a entregar a Susana o colar que um dia simbolizou seu amor eterno, e no aniversário de Liz, a empurrou e gritou que não era seu pai.
Naquele instante, o amor que eu sentia virou cinzas. A mulher dócil que ele conhecia morreu junto com a inocência da minha filha.
Quando um segurança tentou me impedir, a fúria que eu segurava explodiu. Eu o derrubei com um único golpe, e minhas irmãs guerreiras surgiram das sombras.
Eu não era mais a noiva abandonada. Eu era Beatriz Amaro, herdeira de um império de tecnologia e líder de um clã de guerreiras. E eu estava voltando para casa para reivindicar meu trono.
Capítulo 1
Eu estava a caminho do meu próprio noivado, a caminho de me tornar a esposa de Rodolfo De Melo, quando o telefone tocou. Era um número que eu não discava há cinco anos.
"Mãe" , eu disse, sentindo um gosto amargo na boca. "Eu tenho uma herdeira. Estou pronta para voltar para casa e reivindicar meu lugar como sucessora do Grupo Amaro."
A voz da minha mãe, Alcina Nasser, estava calma, mas eu ouvi o tremor.
"Beatriz, você tem certeza?"
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
"Tenho. Ele escolheu ela e o filho dela. Ele escolheu a empresa deles. Eu não sou nada aqui. Minha filha não é nada aqui."
"Então volte, meu amor. O seu império espera por você."
Eu desliguei o telefone. Liz, minha filha, estava dormindo no banco de trás, o pequeno rosto angelical virado para a janela. Ela não sabia que estava indo para uma farsa. Ela não sabia que seu pai estava se casando com outra mulher. Eu não podia deixá-la ser humilhada. Não de novo. Não mais.
Voltar para casa era a única opção. Minha mãe, Alcina Nasser, a temida CEO do Grupo Amaro, um dos maiores conglomerados de tecnologia do Brasil, sempre soube que eu voltaria. Eu só não sabia que seria assim.
Eu precisava levá-la embora. Liz era a minha prioridade. Eu a ajustei no assento, o cheiro de lavanda do seu shampoo me trouxe de volta à realidade. Não havia tempo para chorar. Havia apenas tempo para agir.
Eu peguei meu celular e tentei reservar um voo. Tudo esgotado. Tentei voos para cidades vizinhas. Nada.
Tentei ligar para as companhias aéreas. Todas as linhas ocupadas.
Era como se o universo estivesse conspirando contra mim. Ou apenas a influência da família De Melo. Eles eram poderosos. Eu havia esquecido o quão poderosos eram.
O sol estava se pondo. A festa de "anúncio de união familiar" começaria em breve. Era o mesmo dia em que Rodolfo me pediu em casamento, há cinco anos. Uma ironia cruel.
Eu ri. Uma risada seca e sem humor. Hoje, a data que marcaria o início da nossa vida juntos, marcaria o fim. O fim de tudo. E eu estava pronta.
Rodolfo entrou na sala, o cheiro de Susana Faria, sua cunhada viúva e minha rival, grudado nele como uma segunda pele. Era um perfume floral, adocicado, que me dava náuseas. Seus cabelos estavam úmidos, e alguns fios escuros caíam sobre a testa.
"Onde você estava, Beatriz?" Ele perguntou, a voz um pouco áspera. Ele tentou parecer relaxado. Falhou miseravelmente.
Eu estava no quarto de Liz, arrumando as coisas dela. Eu estava planejando nossa fuga. Mas eu não disse isso.
"Eu estava com Liz. Ela não estava se sentindo bem. A febre dela subiu um pouco."
Ele franziu a testa, mas a preocupação não atingiu seus olhos. Ele estava distraído. Isso era bom.
Eu senti o cheiro de Susana de novo. Era pior quando ele se aproximava. Minha garganta apertou.
Eu o empurrei.
"Você precisa de um banho, Rodolfo. Você está fedendo."
Seus olhos se arregalaram. Ele cheirou a própria roupa, a expressão de surpresa se transformou em vergonha.
"Oh, Beatriz, me desculpe. Eu não percebi."
Ele se virou para o banheiro, a expressão culpada.
"Eu prometo que isso não vai acontecer de novo. Eu juro. Vou tomar um banho rápido. Em alguns dias, quando o bebê nascer, eu não vou mais vê-la. Eu prometo."
"Sim, eu sei." Minha voz estava fria, mas ele estava muito absorto em sua própria culpa para perceber.
Ele chamou Susana de "ela". Susana. Minha rival. Minha inimiga. Ele costumava chamá-la de "minha querida Susana" quando falava comigo sobre ela. Agora era apenas "ela".
Como se estivesse tentando se distanciar dela, mas o cheiro ainda estava lá. O cheiro dela estava em cada centímetro dele.
Ele saiu do banheiro, envolto apenas em uma toalha. O corpo dele ainda era o mesmo. Forte, atlético, cada músculo no lugar certo. Eu costumava amar esse corpo. Costumava amar a maneira como ele me abraçava.
Seus olhos encontraram os meus. Havia um brilho familiar neles, um brilho de afeto. Mas não foi o suficiente. Nunca foi o suficiente.
Lembrei-me dos dias em que ele me abraçava com essa mesma paixão, seus lábios murmurando juras de amor eterno.
"Você é minha" , ele sussurrava, os olhos fixos nos meus. "Para sempre."
Essas palavras agora soavam como uma melodia distorcida, um eco de uma promessa quebrada.
Ele veio até mim, os braços abertos. Eu me encolhi.
"Beatriz, meu amor." Ele tentou me abraçar.
O cheiro de sabonete e do perfume de Susana se misturavam. Minha pele rastejou.
Eu não era mais dela. Nem por um segundo.
Eu baixei a cabeça.
Ele não era mais o homem que eu amava.
Um toque irritante soou na porta. A voz de uma das empregadas da família De Melo.
"Senhor De Melo, a Senhora Faria está se sentindo mal novamente. Ela pediu para o senhor ir vê-la. Disse que é urgente."
O rosto de Rodolfo mudou. A culpa em seus olhos foi substituída por uma preocupação palpável, urgente. Ele se virou para a porta.
Ele correu para se vestir, a pressa em seus movimentos era evidente.
"Beatriz, eu preciso ir. Susana está grávida. Ela não tem mais ninguém. Eu sou o único que pode ajudá-la."
Ele se virou para mim, os olhos cheios de desculpa.
"Eu prometo que volto. Você é tão compreensiva."
Eu não consegui segurar. Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
"Compreensiva. Sim. É isso que eu sou."
Eu me curvei para pegar o agasalho dele do chão.
"Está frio lá fora. Vista isso." Minha voz estava um sussurro.
Ele pegou o agasalho, os olhos confusos.
"Beatriz, o que...?"
Eu não deixei ele terminar. Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, fechei a porta do quarto atrás dele.
Desta vez, não haveria espera.
Rodolfo não voltou na noite passada. Eu sabia que não voltaria. A cama estava fria ao meu lado, um lembrete cruel do meu lugar na vida dele. Eu passei a mão sobre o lençol vazio, e uma dor aguda perfurou meu peito.
Uma batida apressada na porta me tirou do torpor. Abri, e a empregada estava lá, o olhar de desprezo bem visível em seus olhos.
"A matriarca De Melo exige sua presença e a da criança na sala principal. Imediatamente."
A Avó De Melo. A mulher que me desprezava por minhas "origens comuns" , sem saber que eu era a herdeira secreta do Grupo Amaro. Ela sempre me viu como uma oportunista, uma intrusa. E agora, ela estava prestes a me humilhar novamente, e, pior, a Liz.
Ela desprezava Liz, assim como desprezava a mim. Liz, a filha inocente, o peão involuntário nos jogos de poder dos adultos. Seus olhares e comentários maliciosos tinham contaminado toda a casa. Até as empregadas me olhavam com escárnio.
Eu peguei a mão de Liz, que estava meio sonolenta, e a levei para a sala principal. O lugar estava cheio. Todos os membros importantes da família De Melo estavam lá, com seus rostos sérios e olhares curiosos. E então, eu os vi. Rodolfo e Susana, de pé, lado a lado. Susana estava radiante, com um sorriso vitorioso no rosto. Rodolfo estava segurando a mão de Susana, e seus olhos estavam cheios de ternura enquanto ele olhava para a barriga dela.
A Avó De Melo se levantou, um sorriso satisfeito em seus lábios.
"Amigos e família, temos uma grande notícia! Susana está grávida! Nosso herdeiro está a caminho!"
Um burburinho excitado percorreu a sala. A Avó De Melo continuou.
"E com esta boa nova, é com grande alegria que anuncio que Rodolfo De Melo assumirá o controle da construtora Império De Melo! Ele provou ser digno de nosso legado!"
Meu coração afundou. Era isso então. O preço do poder. A minha humilhação.
"E em breve, marcaremos a data para a união de Rodolfo e Susana, para que nosso herdeiro nasça em uma família unida e forte!"
Eu olhei para Rodolfo. Ele estava sorrindo, um sorriso tão genuíno que me rasgou por dentro. Ele olhou para Susana, acariciando a barriga dela.
"Eu mal posso esperar para ser pai" , ele disse, a voz cheia de emoção.
Liz, que até então estava em silêncio, levantou a cabeça e perguntou, a voz infantil ecoando na sala. "Papai? Você já é meu pai, não é?"
Todos os olhos se voltaram para nós. A Avó De Melo franziu a testa, o sorriso desaparecendo. Sussurros começaram a circular.
"Uma bastarda," alguém murmurou.
"A mãe dela é uma vergonha," outro disse.
A Avó De Melo, com um olhar de desprezo, falou. "Sugiro que a criança seja declarada órfã. Será melhor para a reputação da família."
Aquela mulher. Ela sempre me odiou. Sempre desprezou Liz. Agora, ela queria apagar a existência da minha filha. Por que ela faria isso? Porque o filho de Susana havia chegado. Liz não era mais necessária.
Rodolfo soltou a mão de Susana. Ele deu um passo em nossa direção, a testa franzida.
"Vovó, isso não é... um pouco demais?" Ele tentou se aproximar, mas Susana o segurou pelo braço. O sorriso cínico em seu rosto era um soco no estômago.
Eu entendi tudo. Não era apenas sobre poder. Era sobre eliminar qualquer vestígio de mim, de Liz. Era sobre a vitória dela.
Eu apertei a mão de Liz. O fogo acendeu dentro de mim.
Caminhei até a Avó De Melo, arrastando Liz comigo.
"Você quer que ela seja uma órfã? Você quer apagar a existência dela?" Minha voz estava fria como gelo, mas tremia. "Tudo bem. Ela não terá mais o sobrenome De Melo. Ela não é sua. Ela não é dele." Eu apontei para Rodolfo.
"Ela será a herdeira mais respeitada da minha família. Ela será o que vocês nunca serão."
Eu me ajoelhei diante de Liz, olhando em seus olhos marejados.
"Minha pequena guerreira. Ele não é mais seu pai. Você não pode mais chamá-lo de papai. Você entende?"
Liz balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo. Rodolfo estava pálido. Ele olhou para mim, os olhos cheios de culpa. Ele não encontrou nada em meus olhos, exceto um vazio frio. Ele sabia que eu estava falando sério.
Liz soluçou, o rosto vermelho. Eu a levantei e a abracei com força. Precisávamos sair dali.
"Espere, Beatriz." A voz de Susana soou atrás de mim. "Você não vai embora assim."
Ela se aproximou, o sorriso sínico.
"Estou sentindo umas dores. E parece que minha Turmalina Paraíba está me faltando. Aquela que Rodolfo tanto procurou para mim." Ela olhou para mim, os olhos cheios de malícia.
"Acho que você tem o colar, não é? O colar que Rodolfo nunca me deu. O que você acha, Beatriz? Você vai me dar?"
Eu me virei lentamente, o coração martelando no peito, uma dor lancinante me rasgando por dentro. Era uma dor que irradiava das palavras dela, do olhar de Rodolfo, da traição que se desenrolava diante de mim.
"Você quer o colar, Susana?" Minha voz saiu num sussurro perigoso.
Minhas mãos tremiam enquanto eu sentia o peso do colar em meu pescoço. Não era apenas uma joia. Era a materialização do nosso amor, daquele dia em Angra dos Reis, há cinco anos. Rodolfo e eu éramos loucos por mergulho, e descobrimos uma joalheria que vendia peças únicas com pedras brasileiras. Eu me apaixonei por aquele colar. A Turmalina Paraíba. Rodolfo prometeu que seria meu.
Ele me deu o colar em uma noite estrelada, na praia, a brisa suave beijando nossos rostos. Ele se ajoelhou, o colar brilhando à luz da lua.
"Beatriz, meu amor, este colar é como o nosso amor. Raro, único, eterno. Eu te amo, e quero passar o resto da minha vida com você."
Eu o beijei, as lágrimas escorrendo. Eu acreditei nele. Acreditei em cada palavra.
Susana sabia disso. Ela sempre quis o meu colar. Ela sempre quis a minha vida.
Ela tinha tentado persuadir Rodolfo a comprá-lo para ela muitas vezes, antes de ele me conhecer, antes de ela o trocar pelo irmão mais rico e poderoso dele. Mas ele sempre recusava. Até agora.
Eu olhei para Rodolfo. Ele desviou o olhar, a culpa estampada em seu rosto. Ele sabia o que Susana estava fazendo. Ele sabia o que aquele colar significava para mim. E ele estava deixando isso acontecer.
"Você realmente quer que eu desista de tudo, Rodolfo?" Minha voz estava baixa, mas nítida. Ele não fez contato visual. Ele não respondeu. Apenas um aceno quase imperceptível. Meus pulmões queimaram.
Aquele aceno foi a permissão que Susana precisava. Seu sorriso se alargou.
"Rodolfo tem que pensar no futuro dele, Beatriz. E no do nosso filho. Você não faria o mesmo?"
Eu ri. Uma risada amarga, que não vinha da alegria, mas da mais profunda tristeza.
Meus dedos tremeram enquanto eu desabotoava o fecho do colar. Senti o frio do metal contra minha pele. Era como se eu estivesse arrancando um pedaço da minha alma.
Eu entreguei o colar a Susana. Ela o pegou com um sorriso vitorioso, seus olhos brilhando com malícia. Ela o colocou no pescoço, o azul vibrante da pedra contrastando com o seu vestido branco.
"Combina com você, Susana" , eu disse, a voz vazia. "Afinal, você sempre gostou de coisas que não são suas."
Ela me olhou com raiva, mas eu não me importei. A humilhação estava completa.
Eu me virei, peguei a mão de Liz e saí da sala. Rodolfo estava lá, parado, assistindo a tudo. Ele não disse uma palavra. Ele não fez um movimento. Ele era um covarde.
Eu o deixei para trás, no meio daquela festa falsa, com suas mentiras e sua ambição.
Quando chegamos ao nosso quarto, Liz chorava descontroladamente. Eu a abracei, tentando sufocar meus próprios soluços.
"Mamãe... a gente vai embora? Para onde a gente vai?"
Eu a aninhei em meus braços.
"Sim, meu amor. Nós vamos. Para um lugar onde somos amadas. Para um lugar onde somos respeitadas."
Ela ergueu o rosto, as lágrimas ainda escorrendo.
"Mas... o papai não vai com a gente?"
Meus olhos se fecharam em agonia. Eu queria ela só para mim. Mas como eu poderia arrancar o pai dela de sua vida? Eu não podia.
"Liz, o papai tem que ficar aqui. Ele tem uma nova família. Mas você terá uma nova família também. Uma família que te ama e te protege."
Ela soluçou, agarrando-se a um coelho de pelúcia que Rodolfo lhe dera no ano passado.
"Eu só queria que o papai estivesse no meu aniversário. Ele prometeu."
Meu coração se apertou. O aniversário de Liz era em uma semana. Eu tinha certeza que Rodolfo esqueceria.
"Ele vai estar, meu amor. Eu prometo." Menti.
Ela olhou para mim, os olhos ainda vermelhos.
"Eu não quero chamar ele de 'tio' . Eu quero chamar ele de papai."
Eu a abracei com mais força.
"Tudo bem, meu amor. Por enquanto. Mas se ele não vier ao seu aniversário, você promete que vai chamá-lo de 'tio' ?"
Ela assentiu, a voz abafada.
Eu sabia que estava fazendo a coisa certa. Mas a dor era insuportável.
Eu mandei uma mensagem para Rodolfo, lembrando-o do aniversário de Liz. Sabia que ele não responderia. E ele não respondeu.
No dia do aniversário de Liz, ela acordou cedo, os olhos brilhando. Ela vestiu seu vestido favorito, o cabelo cuidadosamente penteado.
"Mamãe, você acha que o papai vai gostar do meu vestido? Ele vai trazer um bolo?"
Eu a abracei, sentindo uma pontada de culpa.
"Tenho certeza que sim, meu amor. Tenho certeza que ele virá." Eu lhe dei um beijo na testa, sabendo que estava mentindo.
Minha mensagem para Rodolfo, enviada há dois dias, ainda estava sem resposta.
Horas se passaram. Liz brincou com seus brinquedos, mas seus olhos continuavam fixos na porta. O sorriso em seu rosto foi murchando aos poucos.
"Mamãe... o papai não vem, vem?" A voz dela era um sussurro.
Eu não pude responder. Ela estava certa. Ele não viria.
Liz baixou a cabeça.
"Tudo bem, mamãe. Ele deve estar muito ocupado com a... a tia Susana."
A palavra "tia" saiu com dificuldade, mas ela disse. Meu coração se partiu em mil pedaços. Ela estava aceitando que não era importante. Ela estava aceitando a rejeição.
Uma fúria fria se acendeu em mim. Eu senti a raiva subir pela minha garganta, queimando em meu peito. Eu peguei meu celular e abri o aplicativo de mensagens. Digitei furiosamente: "Como você pôde? Como você pôde fazer isso com a sua própria filha?"
Meus dedos pairaram sobre o botão de enviar.
Então, uma nova mensagem apareceu na tela. Era do número da casa dos De Melo. "Venha para a sala principal. Imediatamente."