Na véspera do meu casamento, uma foto do meu noivo com uma estagiária me fez fugir para Paris.
Mas quando o avião pousou, cinco anos haviam se passado.
Meus pais estavam mortos, vítimas de um acidente de carro enquanto me procuravam. Meu noivo, Caio, agora estava casado com aquela mesma estagiária. Ela estava grávida e morando na nossa casa.
Ele me tratou como uma louca desconhecida, e quando ela fingiu uma queda da escada, ele me culpou. Ele me trancou em um quarto do pânico escuro - meu maior pavor - para me punir.
Lá, na escuridão sufocante, eu perdi nosso bebê.
Ele achou que eu estava apenas fazendo cena para chamar atenção.
Mas uma passagem de volta me trouxe de volta. Eu acordei no dia do meu casamento. Meus pais estão vivos. Desta vez, eu não vou fugir.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Alice Arruda:
Na véspera do meu casamento, uma única notificação da coluna do Leo Dias explodiu minha vida, meu futuro e meu passado em mil pedaços.
Meu celular vibrou sobre a seda do meu vestido de noiva, estendido na cama como uma promessa. Minha madrinha de casamento, Clara, estava no banheiro, cantarolando uma música pop que tocava no rádio. O ar estava denso com o cheiro de rosas e champanhe. Tudo estava perfeito.
Perfeito demais.
A tela se iluminou com a manchete sensacionalista: O MAGNATA DA TECNOLOGIA CAIO ALMEIDA E SEU ENCONTRO SECRETO COM ESTAGIÁRIA MISTERIOSA. CASAMENTO EM RISCO?
Meu coração parou.
Eu cliquei. A foto era granulada, tirada de longe, mas inconfundível. Lá estava Caio, o meu Caio, seu corpo alto inclinado perto de uma mulher mais jovem do lado de fora de um bar mal iluminado. A mão dele estava no braço dela. O rosto dela estava virado para o dele, sua expressão uma mistura de adoração e algo mais que eu não consegui decifrar.
A matéria dava o nome dela. Karina Ferraz. Uma estagiária na empresa dele.
Uma onda de náusea me atingiu. Parecia que o chão tinha sumido sob os meus pés. Minha respiração veio em arfadas curtas e agudas. Isso não podia ser real. Não o Caio. Não o homem que eu amei por oito anos, o homem que se ajoelhou neste mesmo quarto seis meses atrás.
Clara saiu do banheiro, com o rosto limpo.
"Alice? Você está bem? Você parece que viu um fantasma."
Eu não conseguia falar. Apenas estendi o celular para ela.
Seus olhos percorreram a tela, seu sorriso vacilando.
"Ah, Alice... isso é... isso é lixo sensacionalista. Você sabe como eles são. Eles distorcem tudo."
Mas eu vi a expressão dele. A intensidade focada. Eu conhecia aquele olhar. Ele não estava apenas conversando com uma estagiária.
"Preciso de um pouco de ar," sussurrei, minha voz soando como a de uma estranha.
"Alice, espere. Vamos ligar para ele. Vamos apenas falar com ele," Clara implorou.
Mas eu já estava me movendo, pegando minha bolsa, minhas chaves. As paredes estavam se fechando. O lindo vestido branco na cama parecia zombar de mim. A traição era um cobertor frio e sufocante. Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia pensar.
Eu não dirigi para casa. Eu dirigi para o aeroporto de Guarulhos.
Caminhei até o guichê de passagens mais próximo, minha mente uma estática em branco.
"O próximo voo internacional," eu disse, minha voz rouca. "Qualquer lugar."
A atendente olhou para mim, meu rosto manchado de lágrimas, minhas mãos trêmulas.
"Senhora, o próximo é para Paris. O embarque começa em vinte minutos."
"Eu quero."
Paguei com o cartão de crédito que eu e Caio tínhamos em conjunto, uma ironia amarga que não me escapou. Passei pela segurança em transe, a matéria queimando por trás dos meus olhos. Eu não tinha uma muda de roupa. Eu não tinha um plano. Eu só precisava fugir.
No avião, olhei pela janela enquanto as luzes da cidade se transformavam em uma constelação de dor. A comissária de bordo me ofereceu uma bebida, seu sorriso simpático. Eu apenas balancei a cabeça, incapaz de formar palavras. O zumbido dos motores era uma canção de ninar para o meu coração partido. Fechei os olhos, o esgotamento finalmente me vencendo, e deixei a escuridão me levar.
Quando acordei, foi com o som suave do anúncio de pouso. A luz do sol entrava pela janela, dura e impiedosa. Minha cabeça latejava. Eu me sentia grogue, desorientada, como se tivesse dormido por dias.
Ao sair do avião e entrar no Aeroporto Charles de Gaulle, senti uma estranha sensação de deslocamento. O ar cheirava diferente. A moda era... estranha. Mais elegante, mais futurista. Os celulares que as pessoas seguravam eram finas placas de vidro quase transparentes.
Balancei a cabeça, culpando o jet lag. Meu primeiro instinto, uma necessidade crua e primitiva, foi ligar para os meus pais. Eles saberiam o que fazer. Eles sempre sabiam.
Peguei meu celular. Estava sem bateria. Claro.
Encontrei uma estação de carregamento, mas a entrada era de um formato que eu nunca tinha visto. Um homem ao meu lado, notando minha confusão, me ofereceu seu carregador com um sorriso gentil.
"Modelo antigo, hein? Faz anos que não vejo um desses."
Anos? Meu sangue gelou.
Conectei-o e meu celular voltou à vida aos trancos e barrancos. Ignorei as dezenas de mensagens frenéticas de Clara e Caio. Eu só precisava ouvir a voz da minha mãe.
Disquei o número dela. Uma mensagem gravada atendeu, fria e automática.
"O número para o qual você ligou não existe."
O pânico, agudo e ácido, arranhou minha garganta. Tentei o número do meu pai. Mesma mensagem.
"Não, não, não," murmurei, minhas mãos começando a tremer novamente. Tentei o telefone fixo da casa deles. Desconectado.
Cambaleei pelo aeroporto, minha mente a mil. Talvez eles tenham mudado de número. Talvez tenham se mudado. Mil possibilidades frenéticas, nenhuma delas fazendo sentido.
Chamei um táxi, o veículo zumbindo silenciosamente, diferente de qualquer carro em que eu já estive. Dei ao motorista o endereço dos meus pais, um endereço que eu conhecia a vida inteira.
"Isso fica no bairro antigo," ele disse, seus olhos encontrando os meus no retrovisor. "Não tem mais muita coisa por lá."
O trajeto foi um borrão de arranha-céus desconhecidos e propagandas holográficas. Quando chegamos, a casa da minha infância tinha sumido. Em seu lugar, havia um complexo de apartamentos estéril, de vidro e aço.
"Não," sussurrei, saindo do carro. "Isso não pode estar certo."
Mostrei ao porteiro uma foto dos meus pais no meu celular. Ele olhou para a foto, depois para mim, sua expressão se suavizando com pena.
"Os Arruda," ele disse baixinho. "Eu sinto muito. Houve um acidente. Um acidente de carro. Há uns... quatro anos e meio."
O mundo ficou em silêncio. Os sons da cidade se transformaram em um rugido abafado em meus ouvidos. Minhas pernas cederam e eu desabei na calçada.
Quatro anos e meio atrás.
O motorista me ajudou a voltar para o carro, murmurando condolências que eu não conseguia processar. Minha mente era um vórtice de horror e incredulidade.
Então me lembrei da data na banca de jornal pela qual passei. 2029.
Eu tinha partido em 2024.
Eu estive naquele avião por cinco anos.
A dor era uma força física, esmagando o ar dos meus pulmões. Meus pais estavam mortos. Eles morreram me procurando. O pensamento era um caco de vidro afiado se retorcendo em minhas entranhas. Foi minha culpa. Tudo minha culpa.
Eu estava sozinha. No futuro. Meus pais se foram. A vida que eu conhecia se foi.
Só restava uma pessoa.
Minhas mãos tremiam enquanto eu rolava meus contatos. O nome dele ainda estava lá, uma dolorosa lembrança de uma vida que não existia mais. Caio Almeida.
Meu dedo pairou sobre o botão de chamada. O que eu diria? Oi, sei que desapareci no dia do nosso casamento, mas acidentalmente viajei cinco anos para o futuro e meus pais estão mortos. Ele acharia que eu estava louca.
Mas eu não tinha mais ninguém. Sem dinheiro, sem casa, sem família. Apenas um nome em um celular que era uma relíquia de outro tempo.
Na minha bolsa, meus dedos tocaram uma pequena caixa de veludo. O anel de noivado. Eu nem tive a presença de espírito de tirá-lo. Eu o peguei. O diamante captou a luz, frio e brilhante. Parecia uma vida inteira desde que ele o colocou no meu dedo.
Encontrei a chave da casa dele no meu chaveiro. A da casa para a qual deveríamos nos mudar depois do casamento. Uma linda casa nos Jardins que passamos meses reformando. Nosso futuro.
Eu tinha que tentar. Eu tinha que saber.
Pressionei o botão de chamada. Tocou uma vez. Duas. Meu coração martelava contra minhas costelas.
"Alô?"
A voz era dele, mas estava diferente. Mais profunda. Mais fria. Despida de todo o calor que eu lembrava.
"Caio?" engasguei, as lágrimas embaçando minha visão.
Houve uma longa pausa do outro lado.
"Quem é?"
"Sou... sou eu, a Alice."
Silêncio. O silêncio era tão pesado que pensei que a linha tinha caído.
"Alice," ele finalmente disse, sua voz plana, sem emoção. "Depois de cinco anos, você me liga agora." Não era uma pergunta. Era uma acusação.
"Caio, eu... eu posso explicar," solucei, as palavras saindo em uma torrente. "Algo aconteceu. Eu entrei em um avião, e... e eu pousei, e se passaram cinco anos. Meus pais... eles se foram."
"Pare," ele disse, sua voz como um chicote. "Apenas pare. Você acha que pode desaparecer no dia do nosso casamento, me deixar plantado no altar, e voltar cinco anos depois com uma história maluca sobre viagem no tempo?"
"É a verdade!" gritei, o desespero tornando minha voz estridente. "Eu sei que parece loucura, mas é a verdade! Estou no aeroporto. Não tenho para onde ir. Por favor, Caio. Preciso da sua ajuda."
Outro longo silêncio. Eu podia ouvir o som fraco de música ao fundo, algo suave e jazzístico.
"Onde você está?" ele perguntou, seu tom resignado, cansado.
Dei a ele minha localização.
"Fique aí," ele ordenou. "Não se mova."
A linha ficou muda.
Esperei pelo que pareceu uma eternidade, encolhida em um banco, a dor por meus pais uma dor física no meu peito. Quando o carro dele parou - um modelo elegante e impossivelmente futurista - meu coração saltou com uma esperança desesperada e tola.
Ele saiu. Ele estava diferente. Mais velho. Seu cabelo estava mais curto, seu rosto mais magro, marcado por linhas que não existiam antes. Ele usava um terno sob medida que gritava poder e riqueza. Mas eram seus olhos que mais haviam mudado. Eram frios, duros e vazios. Todo o amor, a luz que costumava brilhar ali quando ele olhava para mim, tinha desaparecido.
Corri para ele, querendo cair em seus braços, querendo o conforto do homem que eu amava.
"Caio," solucei, estendendo a mão para ele.
Ele deu um passo para trás, seu rosto uma máscara de pedra.
"Não me toque."
As palavras me atingiram com mais força do que um tapa. Eu congelei, meus braços caindo ao lado do corpo.
"Viagem no tempo, Alice? É realmente o melhor que você conseguiu inventar?" ele zombou, sua voz pingando desprezo. "Cinco anos de silêncio, e você volta com uma história digna de um filme ruim de ficção científica."
"É verdade," sussurrei, meu corpo inteiro tremendo. "Você tem que acreditar em mim."
"Acreditar em você?" Ele soltou uma risada áspera e sem humor. "Por que eu deveria acreditar em você? Você me abandonou no altar. Você me humilhou. Você partiu meu coração e depois desapareceu. Por cinco anos."
"Eu vi a matéria," gaguejei, tentando fazê-lo entender. "A foto com a estagiária..."
"Então você viu uma foto e fugiu?" ele retrucou. "Você não ligou, não perguntou. Você simplesmente fugiu. E agora você espera que eu faça o quê? Te receba de braços abertos?"
"Meus pais..." engasguei com a palavra. "Eles estão mortos, Caio. Eles morreram em um acidente de carro. O porteiro disse... eles estavam me procurando."
A notícia, a peça final e horrível da minha realidade estilhaçada, o atingiu. Por uma fração de segundo, vi algo em seus olhos - choque, talvez até dor. Mas desapareceu tão rápido quanto apareceu, substituído por aquela mesma máscara fria.
"Eu sei," ele disse, sua voz baixa, mas afiada como uma navalha. "Fui eu quem identificou os corpos deles. Fui eu quem organizou o funeral. Fui eu quem te procurei por dois anos, Alice. Dois anos. Gastei milhões. Contratei investigadores particulares. Segui todas as pistas sem saída. E você? Onde você estava?"
"Eu estava em um avião!" gritei, a injustiça de tudo aquilo me rasgando por dentro. "Eu não sei como, mas eu estava!"
Ele apenas me encarou, seu rosto indecifrável. Ele olhou para além de mim, seu olhar se suavizando por uma fração de segundo.
"Caio?" Uma voz suave e feminina chamou atrás de mim.
Eu congelei. Meu sangue virou gelo. Eu conhecia aquela voz. Ou melhor, eu sabia quem tinha que ser.
Eu não queria me virar. Eu não conseguia. Eu podia sentir a presença dela atrás de mim, uma sombra caindo sobre os últimos vestígios da minha vida.
"Karina, volte para o carro," disse Caio, sua voz perdendo a dureza, substituída por uma gentileza que retorceu a faca em meu coração.
Mas ela não ouviu. Ela caminhou ao meu redor, sua mão protetoramente em sua barriga inchada. Ela era linda, elegante e grávida.
Ela era a mulher da foto.
"Então essa é a Alice," ela disse, sua voz cheia de uma simpatia enjoativa e falsa. "É um prazer finalmente conhecê-la."
O mundo girou. Meu noivo. Sua esposa grávida. Meus pais mortos. Minha casa, sumida. Minha vida, usurpada. Tudo se foi.
Cambaleei para trás, minhas pernas ameaçando ceder novamente.
"Eu tenho que ir," murmurei, virando-me para correr, para ir a qualquer lugar menos aqui.
"Ir para onde, Alice?" A voz de Caio me parou no lugar. Era fria, lógica e totalmente devastadora em sua verdade. "Você não tem dinheiro. Nenhum documento válido nesta década. Seus pais se foram. Sua casa se foi. Você não tem para onde ir."
Ele estava certo. Eu era um fantasma. Uma relíquia.
Karina deu um passo à frente, colocando uma mão gentil no braço de Caio.
"Caio, querido, não seja tão duro. Ela claramente passou por muita coisa. Por que não a levamos para casa? Ela pode ficar conosco até se reerguer."
Casa. Com eles. O pensamento foi um golpe físico, tirando o ar de mim. A casa que deveria ser nossa casa.
Minha casa.
Meu coração parecia estar sendo espremido em um torno. Lembrei-me de planejar a decoração com Caio, rindo enquanto escolhíamos as cores da tinta, sonhando com os filhos que criaríamos dentro daquelas paredes.
Agora, ela estava vivendo o meu sonho. Com o meu noivo. Na minha casa. E ela estava me convidando para entrar como um cão de rua.
Caio olhou do rosto preocupado de Karina para o meu, devastado. Ele suspirou, um som de puro esgotamento.
"Tudo bem. Entre no carro, Alice."
Fui levada para a garagem subterrânea. O carro era um modelo de luxo que eu não reconheci. Caio abriu a porta do passageiro para mim. Sem pensar, me movi para entrar, um hábito de oito anos sendo dele. Era o meu lugar.
Ele franziu a testa ligeiramente, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. Mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Karina falou atrás de mim.
"Ah, querido, esse é o meu lugar. O bebê fica agitado no banco de trás."
A atenção de Caio mudou imediatamente. Ele gentilmente guiou Karina para o banco do passageiro, sua mão demorando em seu ombro.
"Claro. Você está confortável?"
Eu fiquei ali, paralisada de vergonha. Eu era a intrusa. Eu era quem estava fora do lugar. Deslizei rapidamente para o banco de trás, o couro frio contra a minha pele.
O espaço que antes era meu, cheio das minhas coisas, do meu cheiro, agora era dela. A música que tocava não era minha banda de rock indie favorita; era um jazz suave e genérico. O purificador de ar não era o sândalo que eu amava; era uma baunilha enjoativa.
Tudo era um lembrete de que eu não pertencia mais ali.
O carro zumbiu e saiu da garagem. Dirigimos em silêncio, o peso de cinco anos nos pressionando. O carro seguiu pela rota familiar até a casa. Nossa casa.
Por fora, parecia a mesma. Mas quando entramos, meu coração afundou. A decoração quente e boêmia que havíamos planejado tinha sumido. Fora substituída por uma estética fria e minimalista. Paredes brancas, acessórios cromados, arte abstrata. Era o gosto de Karina. Não o meu.
Uma empregada que eu não reconheci pegou minha pequena bolsa.
"A senhora Almeida está grávida," ela disse, sua voz severa, dirigindo-se a mim como se eu fosse uma ameaça em potencial. "O senhor Almeida instruiu que verifiquemos seus pertences para garantir que você não esteja carregando nada que possa prejudicá-la ou ao bebê."
Minha cabeça se ergueu bruscamente. Grávida. Ouvir isso de novo, de forma tão clínica, enviou uma nova onda de tontura através de mim.
Esta era a minha casa. E eu estava sendo tratada como uma criminosa.
A peça final e esmagadora do pesadelo se encaixou. Eu não era apenas uma convidada. Eu era uma intrusa. Uma intrusa perigosa e instável na vida perfeita que eles construíram sobre as cinzas da minha.
"O senhor Almeida quer me revistar pessoalmente?" perguntei, minha voz carregada de uma amargura que me surpreendeu.
A empregada vacilou, pega de surpresa pelo meu tom.
Karina deslizou para perto, com a mão na barriga.
"Está tudo bem, Maria. Tenho certeza de que a Alice não faria mal a uma mosca." Seus olhos, no entanto, contavam uma história diferente. Eram frios, calculistas e cheios de vitória.
Ela era a dona da casa. E eu não era nada.
Fui levada a um quarto de hóspedes - um espaço pequeno e estéril nos fundos da casa. A porta se fechou e eu finalmente fiquei sozinha. A represa cuidadosamente construída da minha compostura se rompeu. Um soluço rasgou minha garganta, cru e irregular.
Deslizei pela parede, encolhendo-me no chão, a dor e a traição um peso físico me prendendo. Meus pais. Caio. Meu bebê... O pensamento veio sem ser convidado, um segredo que eu guardava perto do peito pelo que parecia uma vida inteira, mas eram apenas alguns dias. O bebê que eu estava tão animada para contar a Caio. Nosso bebê.
Os soluços sacudiram meu corpo até eu ficar vazia, oca. Eu era uma estranha na minha própria vida.
Minha mão vasculhou minha bolsa, que a empregada havia devolvido com um bufo de desdém. Meus dedos se fecharam em torno da passagem de papel.
Eu a tirei, minhas lágrimas borrando a tinta. Era a passagem de volta de Paris. A data impressa nela era exatamente sete dias a partir de hoje.
Uma única e impossível chance.
Um caminho de volta.
Meu coração, que eu pensei ter parado de bater, deu uma batida poderosa e esperançosa. Sete dias. Eu tinha que sobreviver por sete dias. E então eu poderia desfazer tudo isso. Eu poderia salvar meus pais. Eu poderia me salvar.
Apertei a passagem contra o peito como uma oração. Era minha única tábua de salvação neste pesadelo acordado.
Sete dias. Eu conseguiria. Eu tinha que conseguir.
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Ponto de Vista de Alice Arruda:
A esperança era uma coisa perigosa e frenética. Batia no meu peito como um pássaro preso batendo contra a gaiola. Sete dias. Cento e sessenta e oito horas. Uma chance de rebobinar a fita, de apagar as últimas vinte e quatro horas da minha vida que de alguma forma se estenderam por cinco anos de inferno.
Eu não podia apenas ter minha vida de volta. Eu podia ter a vida deles de volta. Mãe. Pai. O pensamento era uma luz ardente na escuridão.
Meu primeiro movimento foi instintivo. Olhei ao redor do quarto de hóspedes estéril - um quarto que eu uma vez imaginei como o quarto do bebê - e encontrei um esconderijo. Deslizei cuidadosamente a preciosa passagem para dentro do forro da minha bolsa, costurando-a com um fio solto do meu suéter. Era frágil, mas era tudo o que eu tinha.
Dormir era um luxo que eu não podia me permitir. Toda vez que eu fechava os olhos, a imagem do rosto frio de Caio e da barriga triunfante e grávida de Karina queimava por trás das minhas pálpebras. Eu os via juntos em nossa casa, dormindo em nossa cama. O pensamento era uma dor física, um ferro quente se retorcendo em minhas entranhas.
Horas depois, uma sede intensa me tirou do quarto. Desci as escadas furtivamente, a casa silenciosa e escura. A planta era a mesma, um membro fantasma da minha vida antiga, mas cada detalhe estava errado. Na cozinha, estendi a mão para pegar um copo no armário onde costumávamos guardá-los, mas minha mão encontrou uma prateleira vazia.
Lembrei-me de como Caio sempre deixava um copo de água na minha mesa de cabeceira, desde que eu lhe disse que muitas vezes acordava com sede. Um pequeno e impensado gesto de amor que agora parecia uma relíquia de uma civilização antiga. O homem que fazia isso tinha desaparecido.
"Não consegue dormir?"
Virei-me bruscamente, meu coração pulando para a garganta. Caio estava na porta, uma silhueta contra a luz fraca do corredor. Ele segurava um copo de leite.
Ele passou por mim até a geladeira sem dizer uma palavra, sua presença sugando o ar da sala. Ele não olhou para mim. Era como se eu fosse um móvel, um obstáculo inconveniente em seu caminho.
O silêncio se estendeu, denso e sufocante. Eu tinha que dizer alguma coisa. Eu não suportava essa indiferença fria.
"Eu... eu estava com sede," eu disse, minha voz mal um sussurro.
Ele assentiu, ainda de costas para mim.
"Karina tem dificuldade para dormir sem leite morno. A gravidez a deixa inquieta."
Cada palavra era um corte pequeno e preciso. Ele não estava pegando leite para si mesmo. Ele estava cuidando de sua esposa grávida. Sua nova vida. Uma vida que não tinha espaço para mim.
As palavras que eu queria dizer - Você me odeia tanto assim? Você não se lembra de nós? - morreram na minha garganta. Qual era o sentido? Ele já tinha me apagado.
Virei-me para sair, para recuar de volta para a minha jaula.
"Alice."
Sua voz me parou. Virei-me, um fiapo de esperança tola tremeluzindo dentro de mim.
Ele não olhou para mim. Seu olhar estava fixo na minha mão, que estava apoiada no balcão.
"A chave da casa," ele disse, sua voz plana. "Preciso dela de volta."
Olhei para baixo. A chave da nossa casa ainda estava no meu chaveiro. Era um design personalizado, um pequeno e intrincado 'A' e 'C' entrelaçados. Ele me deu no dia em que fechamos a compra da casa. 'Uma chave para o nosso futuro,' ele havia dito, seus olhos brilhando de amor.
Minha mão instintivamente se fechou em torno dela.
"Por quê?" perguntei, embora já soubesse a resposta.
"Karina não se sente à vontade com você tendo acesso à casa," ele disse simplesmente, como se estivesse discutindo o tempo. "Ela quer ser a única com uma chave."
Ele ia dar a ela a minha chave. A nossa chave.
A dor foi tão aguda, tão súbita, que me roubou o fôlego. Este homem, este estranho frio, estava sistematicamente desmontando cada peça da vida que construímos, cada símbolo do amor que eu pensei que compartilhávamos, e entregando as peças para ela.
Meus dedos estavam dormentes. Deslizei a chave do chaveiro. O metal estava frio contra a minha palma. Estendi-a para ele.
Ele a pegou sem que seus dedos tocassem os meus, seu olhar ainda desviado.
"Obrigado," ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção.
Virei-me e fugi, sem esperar por uma dispensa. Corri de volta para o quarto de hóspedes e fechei a porta, encostando-me nela como se para conter a maré da minha própria miséria.
Ele a amava.
O pensamento não era mais uma pergunta. Era um fato, tão sólido e imutável quanto a morte dos meus pais. Ele a amava o suficiente para me apagar. Ele a amava o suficiente para dar a ela minha casa, meu futuro, minha chave.
Deslizei para o chão, envolvendo-me com os braços. Minha mão foi para o meu estômago, plano e vazio. Uma nova onda de dor, aguda e distinta, me invadiu.
Nas breves e felizes horas antes da matéria da coluna de fofocas, eu tinha feito um teste de gravidez. Deu positivo. Eu estava esperando um filho de Caio. Eu planejava contar a ele naquela noite, durante um jantar comemorativo. Eu tinha imaginado seu rosto, o choque dando lugar à euforia.
Em vez disso, eu vi uma foto dele com outra mulher. E em minha dor e raiva, eu fugi. Fugi direto para este pesadelo.
Agora, outra mulher estava esperando um filho dele. Um filho que ele claramente queria, um filho que ele amava. E o meu? Nosso bebê era um segredo, um fantasma de um passado que ele se recusava a reconhecer.
Eu não dormi nada.
Na manhã seguinte, olhei no espelho e vi uma estranha. Seus olhos estavam fundos, contornados de vermelho. Seu rosto estava pálido e abatido. Joguei água fria no rosto, forçando-me a me recompor. Apenas mais seis dias.
Desci as escadas furtivamente como uma ladra. Caio e Karina já estavam na mesa do café da manhã. A mesa onde Caio e eu deveríamos tomar nosso primeiro café da manhã como marido e mulher. Ele estava cortando as panquecas dela em pedaços pequenos, do tamanho de uma mordida, assim como costumava fazer para mim.
A cena foi um soco no estômago.
"Alice! Bom dia!" Karina cantou, seu sorriso brilhante e enjoativamente doce. "Venha, junte-se a nós. A Maria fez seu favorito, waffles de mirtilo."
Eu congelei. Como ela sabia disso?
Caio ergueu o olhar, sua expressão indecifrável.
"Karina foi muito cuidadosa ao tentar fazer você se sentir bem-vinda," ele disse, sua voz com um toque de aviso. "Ela vasculhou todas as minhas coisas antigas para saber sobre você."
Ele não tinha contado a ela. Ela havia procurado informações sobre sua rival. O pensamento era arrepiante.
Sentei-me na ponta da mesa, sentindo-me como uma convidada indesejada no meu próprio funeral. Maria, a empregada, colocou um prato de waffles na minha frente com um baque.
Karina pegou um pedaço de panqueca do garfo de Caio, encostando-se nele afetuosamente.
"Caio, querido, minhas costas estão doendo de novo esta manhã."
"Vou preparar um banho para você depois do café," ele murmurou, sua voz se suavizando em um tom de pura adoração que eu não ouvia há cinco anos. "E vou te fazer uma massagem."
"Você é o melhor," ela suspirou, aninhando-se mais perto dele. "Não sei o que faria sem você."
Olhei para o meu prato, os waffles se transformando em cinzas na minha boca. Era a intimidade casual e sem esforço que mais doía. Os momentos tranquilos, o entendimento tácito. Eram todas as coisas que um dia foram minhas.
Ele estava encenando seu amor por ela bem na minha frente, um espetáculo deliberado e cruel projetado para me mostrar exatamente o que eu havia perdido. E estava funcionando. Meu coração estava se partindo em mil pedacinhos.
Empurrei minha cadeira para trás, o som do arrastar alto no silêncio tenso.
"Com licença."
Eu tinha que sair dali.
"Alice." A voz de Caio era afiada, me parando novamente.
Eu não me virei.
"Providenciei um carro para te levar ao cemitério," ele disse, seu tom plano e profissional. "O motorista estará aqui em uma hora."
Meus ombros caíram com uma estranha mistura de gratidão e desespero. Ele estava me dando isso, uma chance de vê-los. Mas não era um ato de bondade. Era uma transação. Uma maneira de gerenciar o problema que eu me tornei.
Ele estava me dando o endereço dos túmulos dos meus pais.
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Ponto de Vista de Alice Arruda:
Meus olhos piscaram, mas não ousei me virar. Não queria que ele visse a gratidão patética que eu tinha certeza que estava estampada no meu rosto.
"Não me entenda mal," a voz fria de Caio cortou o ar, como se tivesse lido minha mente. "Não estou fazendo isso por você. Estou fazendo por eles. É o mínimo que eles merecem depois de..." Ele parou, mas as palavras não ditas pairaram no ar: depois que a filha deles os abandonou.
"Obrigada," consegui dizer, minha voz um sussurro seco. Fugi da sala antes que as lágrimas pudessem cair.
De volta ao quarto de hóspedes estéril, encarei meu reflexo. As roupas que eu usava há dois dias estavam amassadas e manchadas. Eu não tinha mais nada. Nada apropriado para usar no funeral dos meus próprios pais, cinco anos atrasada. O pensamento me trouxe uma nova onda de vergonha.
Uma batida forte na porta me fez pular. Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu.
Era Karina. Ela entrou deslizando, seguida pela empregada, Maria, que carregava uma seleção de vestidos pretos. O sorriso de Karina estava perfeitamente pintado, mas seus olhos eram frios, avaliadores.
"Pensei que você pudesse precisar de algo para vestir," ela disse, sua voz pingando falsa preocupação. "Pedi para a Maria pegar algumas coisas do meu armário. Temos quase o mesmo manequim, não é?"
Ela gesticulou para Maria pendurar os vestidos na porta do guarda-roupa. Eram lindos, caros e totalmente estranhos.
"O Caio me mima demais," Karina suspirou, passando a mão por um vestido de seda justo. "Ele insiste que eu tenha o melhor de tudo. Ele diz que cuidar de mim é seu maior prazer agora."
Cada palavra era um dardo cuidadosamente apontado. Ela estava me mostrando seu poder, seu lugar na vida dele. Ela era a quem ele mimava agora, a quem ele cuidava. Eu era apenas um fantasma em roupas emprestadas.
"Ele é um homem diferente desde que me conheceu," ela continuou, seus olhos encontrando os meus no espelho. "Mais centrado. Ele diz que eu o salvei da escuridão depois que você foi embora."
Olhei para os vestidos pretos, sua austeridade um espelho do vazio em meu peito. Eu não podia usar as roupas dela. Parecia mais uma camada de rendição, mais um pedaço de mim que eu estaria entregando a ela.
"Obrigada," eu disse, minha voz tensa. "Mas vou usar minhas próprias coisas."
O sorriso dela vacilou por um segundo.
"Como quiser," ela disse, seu tom de repente afiado. Ela se virou e saiu do quarto, com Maria a seguindo.
Escolhi meu próprio jeans escuro e o suéter amassado com que cheguei. Era inadequado, mas era meu.
O motorista que me esperava era um rosto familiar. Francisco. Ele era o motorista de Caio há anos, um homem gentil e quieto que sempre me tratou com carinho.
Seus olhos se arregalaram de choque quando me viu.
"Senhorita Arruda? Alice? É você mesma?"
"Sou eu, Francisco," eu disse, um sorriso fraco tocando meus lábios.
"Nós todos... nós todos pensamos que você estava..." Ele parou, seu rosto cheio de confusão e pena.
Eu não podia lhe contar a verdade. As palavras soariam como loucura.
"É uma longa história," eu disse, minha voz cansada.
O trajeto foi silencioso por um tempo, então Francisco falou, sua voz baixa.
"Ele mudou depois que a senhorita foi embora. Muito. Demitiu todos os funcionários antigos, qualquer um que te conhecia. Disse que não queria nenhuma lembrança."
Meu coração se apertou. Ele havia sistematicamente apagado todos os vestígios de mim.
"E então, cerca de seis meses depois, ele se casou com ela," Francisco continuou, seus olhos no retrovisor. "A senhora Almeida... Karina. Ele a trata como se fosse de cristal. Melhor do que ele jamais... bem, ele é muito bom para ela."
Ele parou, percebendo que havia falado demais. Mas o estrago estava feito. O último fiapo de dúvida que eu tinha foi extinto. Não foi um rebote. Não foi para mostrar. Ele a amava. Mais do que ele jamais me amou.
A foto da coluna de fofocas brilhou em minha mente. O jeito que ele estava olhando para ela. Não tinha sido um erro de uma noite. Tinha sido o começo. Ele já estava se apaixonando por ela naquela época, enquanto ainda estava noivo de mim. A traição era mais profunda, mais antiga do que eu sequer imaginava.
O cemitério era silencioso e verde. Encontrei seus túmulos lado a lado sob um grande carvalho. Roberto Arruda. Amado Esposo e Pai. Maria Arruda. Amada Esposa e Mãe.
Caí de joelhos, a dor que eu vinha segurando finalmente me dominando. Deitei a cabeça na pedra fria do túmulo da minha mãe e chorei, meu corpo tremendo com soluços silenciosos e irregulares. Não sei quanto tempo fiquei ali, perdida em um mar de culpa e tristeza.
"Me desculpem," sussurrei para eles, minha voz quebrando. "Vou consertar isso. Eu prometo. Eu vou voltar. Vou impedir que isso aconteça."
Quando voltei para a casa, ela estava silenciosa. Eu estava emocional e fisicamente esgotada. Tudo o que eu queria era rastejar para a cama e esperar os sete dias passarem.
Karina me encontrou no corredor. Ela segurava uma caneca fumegante.
"Você parece exausta," ela disse, sua máscara simpática de volta no lugar. "Pedi para a cozinha preparar um chá de camomila para você. Vai te ajudar a descansar."
Ela estendeu para mim. Eu hesitei. Eu não confiava nela.
O sorriso dela se apertou.
"Ah, Alice," ela disse, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Você não precisa fingir comigo. Eu sei que você está grávida."
Minha cabeça se ergueu bruscamente. Como? Como ela poderia saber? Meu sangue gelou.
"Eu vi as vitaminas pré-natais na sua bolsa quando a Maria estava verificando," ela disse, seus olhos brilhando com um triunfo cruel. "Não se preocupe. Seu segredo está seguro comigo."
A caneca em sua mão de repente pareceu sinistra. O cheiro do chá fez meu estômago revirar. Senti uma onda de náusea, tão forte que tive que me apoiar na parede.
Passei por ela correndo para o banheiro mais próximo, esvaziando o conteúdo do meu estômago no vaso sanitário. O vômito foi violento, me deixando fraca e trêmula.
Quando finalmente saí, limpando a boca com as costas da mão, Karina estava encostada no batente da porta, de braços cruzados, o ato simpático completamente desaparecido.
"Você acha mesmo que pode voltar aqui, grávida de outro homem, e reconquistá-lo?" ela zombou, sua voz pingando veneno.
"Não é filho de outro homem," eu disse, minha voz tremendo com uma mistura de fraqueza e fúria.
"Ah, por favor," ela desdenhou. "Você nos toma por idiotas?"
De repente, a porta no final do corredor se abriu. Caio estava lá, seu rosto uma nuvem de tempestade. Ele deve ter ouvido a comoção.
A expressão de Karina mudou em um instante. Seu rosto se contraiu, seus olhos se encheram de lágrimas. Ela se virou para ele, sua voz um sussurro ferido.
"Caio... eu... eu não queria te contar assim. Mas a Alice... ela está grávida."
O olhar de Caio se voltou para mim. Seus olhos, já frios, se transformaram em gelo. Ele caminhou em minha direção, sua mandíbula tensa com uma raiva mal controlada.
"Você está grávida?" ele exigiu, sua voz baixa e perigosa.
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