No meu ultrassom de dez semanas, eu deveria estar comemorando o futuro da família Falcone. Eu era Isabella Falcone, esposa do Don mais poderoso do Rio de Janeiro.
Mas quando a enfermeira chamou meu nome, o homem que se levantou ao lado de sua amante grávida era o meu marido.
No silêncio estéril daquela sala de espera, ele a escolheu. Mais tarde, confessou que estava sendo chantageado pela família dela - uma fraqueza que era uma sentença de morte em nosso mundo. Naquela noite, ele trouxe a amante para nossa casa, para o meu quarto, e me trancou na ala dos funcionários como uma prisioneira. Ele não estava aprisionando sua esposa; estava protegendo um bem valioso. Ele precisava do herdeiro legítimo que eu carregava para salvar seu império em ruínas.
Sua traição se tornou absoluta quando sua própria mãe e meus pais adotivos chegaram enquanto ele estava fora. Eles me forçaram a assinar os papéis do divórcio e depois me disseram que me levariam a uma clínica. A mãe dele sacou uma arma e apontou não para a minha cabeça, mas para a minha barriga.
"Vamos acabar com essa complicação", ela disse com uma frieza que cortava a alma.
Enquanto me arrastavam para fora de casa, meu mundo escureceu. Mas, em meio à névoa, vi uma frota de carros pretos bloqueando o portão. Um exército de homens saiu deles, liderados por um rosto que eu só conhecia por uma fotografia. Dias antes, trancada em meu quarto, fiz uma única ligação para o único homem mais poderoso que meu marido: meu pai biológico, o chefe da Ordem de São Paulo. E ele tinha vindo buscar sua filha.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Isabella
A enfermeira chamou meu nome para o ultrassom de dez semanas, e o homem que se levantou ao lado de sua amante grávida era o meu marido.
Meu mundo não apenas parou. Ele se estilhaçou, e o som da fratura ecoou no silêncio estéril da sala de espera.
Vicente Falcone. Meu marido. O Don da Família Falcone, o rei indiscutível da Zona Sul. Um homem cujo nome era uma prece nos lábios dos aliados e uma maldição na língua dos inimigos. E lá estava ele, com a mão pousada de forma possessiva na curva da barriga de outra mulher.
Rosa. Mal era uma mulher, apenas uma garota do morro, filha de um de seus próprios soldados. Seus olhos - grandes, enganosamente inocentes - encontraram os meus do outro lado da sala. Não havia vergonha neles. Apenas um brilho de triunfo selvagem.
O rosto de Vicente ficou rígido, a máscara do Don - aquela que ele usava para o mundo - se encaixou no lugar. Frio. Impenetrável. Mas por trás dela, eu vi um lampejo de pânico puro. Ele não foi apenas pego; foi pego aqui. Em uma clínica particular em seu próprio território, um lugar sob sua proteção, onde eu tinha uma consulta marcada. A presença dele com ela não era apenas um caso; era uma declaração pública. Um ato profundo e imperdoável de desrespeito.
Caminhei na direção deles, meus saltos batendo um ritmo fúnebre no piso polido. Minhas mãos estavam firmes. Meu queixo, erguido. Eu era Isabella Falcone. Eu não iria desmoronar aqui. Não na frente deles.
"Vicente", eu disse, minha voz uma lâmina de puro gelo.
Ele se encolheu.
"Isabella. O que você está fazendo aqui?"
A pergunta era tão absurda que uma risada histérica ameaçou borbulhar em minha garganta.
"Eu tenho uma consulta", respondi, meu olhar firme. "Para o nosso filho."
Deixei as palavras pairarem no ar, um testamento à linhagem legítima que ele estava profanando publicamente.
Rosa se mexeu, pressionando a mão na parte inferior das costas em uma demonstração teatral de desconforto. Uma performance. Sempre uma performance.
"Vicentinho", ela choramingou, "não estou me sentindo bem."
A atenção dele se voltou para ela instantaneamente, sua expressão se derretendo em uma ternura que ele não me mostrava há meses. Esse foi o golpe mais profundo. Não foi a infidelidade. Foi a substituição.
"Nós vamos embora", ele murmurou para ela, virando-se para mim como se eu fosse um pensamento tardio. "Conversamos em casa."
"Não", eu disse.
Seus olhos se estreitaram. Um aviso. O Don da Família Falcone não era um homem a quem se dizia não.
Mas naquele momento, eu não era sua esposa. Eu era uma rainha assistindo seu reino queimar. Este homem, que construiu seu império com sangue e medo, tinha sido minha salvação. Dez anos atrás, ele me tirou da ambição sufocante de minha família adotiva, os Caruso. Ele foi o único homem que eu amei. E então eu fiz algo que nunca tinha feito em dez anos de casamento.
Eu o esbofeteei. Com força.
O estalo da minha mão em sua pele foi como um tiro na sala silenciosa. Sussurros chocados se espalharam pelos espectadores. A cabeça de Vicente virou para o lado, uma marca vermelha já florescendo em sua mandíbula esculpida. Ele não parecia com raiva. Parecia atordoado. Como se não pudesse compreender a simples possibilidade da minha rebeldia.
Rosa ofegou, colocando-se entre nós como se para protegê-lo.
"Não se atreva a tocar nele! Ele só está aqui porque é um homem de honra!"
"Honrado?" A palavra era ácido na minha língua.
"Sim!", ela gritou, sua voz se elevando com fúria justiceira. "Ele me deu sua palavra! Ele prometeu assumir nosso filho, que nosso menino seria o próximo herdeiro dos Falcone!"
Era uma declaração de guerra. Em nosso mundo, um herdeiro bastardo não era apenas um escândalo; era um câncer. Uma fissura na fundação que poderia derrubar toda a Família.
Virei-me para Vicente, todo o meu ser gritando para que ele negasse. Para colocar essa garota em seu lugar e reafirmar meu status. O direito de primogenitura do meu filho.
Mas ele apenas ficou lá, de queixo cerrado.
"Isabella, é complicado."
"Complicado?", sussurrei.
"A família dela tem poder sobre mim", ele disse entredentes, sua voz tão baixa que era um rosnado destinado apenas a mim. "O pai dela é crucial para as operações no porto. Não posso arriscar perder a lealdade dele."
E aí estava. Não uma confissão de paixão, mas de política. Meu marido, o temível Don Falcone, estava sendo chantageado por um subordinado. Em nosso mundo, essa fraqueza era um pecado muito maior que sua infidelidade.
Rosa, sentindo sua vitória, girou a faca. Ela passou o braço pelo de Vicente, seu sorriso uma máscara adocicada para a malícia em seus olhos.
"O Vicente estava prestes a me levar para almoçar", ela ronronou, olhando diretamente para mim. "Estou com um desejo louco de comer sushi."
Sushi. Peixe cru. Estritamente proibido para mulheres grávidas. Não foi um erro. Foi uma mensagem, pequena e primorosamente cruel. Um lembrete de quem estava no controle. Um lembrete de que minhas necessidades - e as necessidades do nosso filho legítimo - não eram mais uma consideração.
Ponto de Vista: Isabella
Eu me recusei a comer veneno.
Meu corpo gelou, o choque transformando minha incredulidade em algo duro como diamante: determinação. Olhei para Vicente, para o homem que era meu marido, e vi um estranho. Ele estava permitindo que isso acontecesse. Ele estava sancionando minha humilhação.
"Não", eu disse novamente, minha voz plana e vazia.
Virei nos calcanhares e fui embora. Não corri. Não chorei. Saí da clínica, passei pelos seguranças que baixaram a cabeça para mim por hábito e fui para a rua. O ar denso e úmido da cidade parecia me sufocar.
Chamei um táxi.
Um táxi amarelo cantou pneu e parou na minha frente. Ao abrir a porta, olhei para trás. Vicente estava parado na calçada, Rosa agarrada ao seu braço, seu rosto uma nuvem de fúria. Para um Don, ser abandonado na rua por sua esposa era um desafio público, um ato de desafio aberto que ele não podia se permitir.
Por uma fração de segundo, eu o vi dar um passo à frente, como se fosse me seguir. Mas então Rosa choramingou algo, e ele parou. Ele hesitou.
Aquela hesitação foi a sentença de morte para o meu amor.
Entrei no táxi e dei ao motorista o endereço da nossa mansão, a gaiola dourada que eu, até aquele momento, confundira com um lar. Durante todo o trajeto, fiquei olhando pela janela, uma estranha calma se instalando sobre mim. O sonho havia acabado. O homem que eu amava, o salvador que eu construí em minha mente, era uma mentira. Ele era fraco.
Na minha cabeça, um pensamento único e aterrorizante começou a se formar. Um pensamento sobre a criança dentro de mim. Qual era o sentido de trazê-lo a um mundo onde seu próprio pai não protegeria seu direito de nascença? Onde ele seria o segundo, atrás de um bastardo?
Quando cheguei à mansão, o silêncio era sufocante. Fui direto para o nosso quarto e comecei a fazer uma mala. Apenas o essencial. Meu passaporte, o dinheiro que eu mantinha escondido, algumas mudas de roupa.
Eu estava fechando o zíper da mala quando a porta do quarto se abriu. Vicente estava lá, sem o paletó, a gravata afrouxada. Ele parecia exausto e furioso.
"Você nunca mais vai me abandonar em público", ele disse, sua voz um rosnado baixo.
"Você nunca mais vai ficar ao lado da sua puta em vez da sua esposa", retruquei.
Ele passou a mão pelo cabelo, um raro sinal de agitação.
"Ela me armou uma emboscada, Isabella. Eu ia resolver isso."
"Resolver? Levando-a para almoçar? Deixando-a declarar o bastardo dela como herdeiro do legado do meu filho?"
Seus olhos se fixaram na mala sobre a cama. Sua postura mudou. A raiva foi substituída por uma quietude fria e calculista. O Don estava de volta.
"O que você está fazendo?", ele perguntou.
"Estou indo embora."
"Não, não está."
Ele caminhou até minha mesa de cabeceira, pegou meu celular e o guardou no bolso. Em seguida, foi até a porta.
"Não posso permitir que você faça uma cena", disse ele calmamente. "É ruim para os negócios. É ruim para a família."
"Você foi quem fez a cena!", gritei, o controle finalmente se quebrando.
"Vou colocar você sob vigilância", ele continuou, como se eu não tivesse falado. "Para sua proteção."
"Minha proteção?", ri, um som amargo e feio. "Você está me aprisionando."
Ele encontrou meu olhar, e pela primeira vez, vi o medo real em seus olhos. Não era medo de que eu o deixasse. Era outra coisa.
"Não posso arriscar", disse ele, sua voz baixando para um sussurro.
"Arriscar o quê?"
Seus olhos caíram para a minha barriga. E eu entendi.
Não era sobre eu deixá-lo. Nunca foi sobre mim. Ele estava com medo de que eu interrompesse a gravidez. Com medo de que eu tirasse dele seu herdeiro legítimo - a única coisa que garantia sua posição instável, a única proteção contra uma crise de sucessão.
Ele não estava me protegendo. Estava contendo um bem volátil.
"Você não vai a lugar nenhum", ele repetiu, sua voz desprovida de todo calor. Ele saiu do quarto, e eu ouvi o clique inconfundível da fechadura.
Ponto de Vista: Isabella
No dia seguinte, Rosa se mudou para a mansão.
Não para um quarto de hóspedes. Para o meu quarto. A suíte principal.
Eles me transferiram para um quarto pequeno e austero na ala dos funcionários, um espaço com uma cama estreita e uma única janela com vista para uma parede de tijolos. Foi mais do que degradação; foi uma execução pública da minha identidade. Todos os empregados da casa viram. Viram as roupas dela sendo movidas para o meu closet, seu perfume barato e enjoativo colonizando minha penteadeira. Um golpe de estado, encenado em sedas e aromas.
A desculpa de Vicente era uma mentira transparente que cimentou sua traição. Ele disse aos funcionários - e mais tarde, com a voz abafada pela madeira trancada da minha nova prisão - que ele e Rosa precisavam ficar no mesmo quarto para que ele pudesse "ajudá-la nas partes difíceis da gravidez".
A bile queimou minha garganta.
Uma semana se passou. Uma semana de confinamento solitário, de refeições deixadas em uma bandeja do lado de fora da minha porta. Uma semana ouvindo a risada de Rosa ecoar da parte principal da casa. Senti-me murchar. A pequena vida dentro de mim parecia menos uma bênção e mais uma corrente, me prendendo a este inferno. O pensamento de acabar com tudo se tornou um sussurro constante e sombrio em minha mente.
Uma noite, Rosa veio à minha porta. Ela não bateu. Usou uma chave.
Ela ficou ali, envolta em um dos meus robes de seda, um sorriso de autossatisfação brincando em seus lábios.
"É um pouco pequeno aqui, não é? Não sei como você aguenta."
Eu não respondi. Apenas a encarei, meu ódio tão palpável que parecia sugar o oxigênio do ar.
Decidi tentar uma tática diferente. Uma aposta desesperada.
"Você pode ficar com ele", eu disse, minha voz rouca. "Eu assino o que você quiser. Eu desapareço. Apenas me deixe ir."
O sorriso dela se alargou, mas não alcançou seus olhos. Era o sorriso de um predador que sabe que sua presa já está capturada.
"Ah, Isabella. Você ainda não entendeu, não é?"
Ela entrou no quarto, passando um dedo perfeitamente cuidado pelo parapeito empoeirado da janela.
"Eu não quero apenas o homem. Eu quero o trono. Eu quero ser a Sra. Falcone. Eu quero o poder, o respeito. Eu quero ser a Rainha da Máfia."
Suas palavras me atingiram com a força de um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Nunca foi sobre amor. Isso era uma aquisição hostil.
"Você nunca será rainha", sussurrei. "Você é apenas a filha de um soldado."
Seus olhos brilharam, e por um momento, a máscara caiu. A crueldade que vi ali era pura e aterrorizante.
"E você é apenas uma órfã polida que os Caruso compraram para vender. Pelo menos meu sangue é leal a esta família."
Ela se virou para sair, depois parou na porta.
"O Vicente se sente culpado por te trancar. Ele quer que você fique com isso."
Ela jogou meu celular na cama.
Uma descarga de adrenalina pura percorreu meu corpo. Era um movimento calculado, eu sabia. Uma maneira de ele aliviar sua consciência. Mas também foi um erro. O erro dele.
Ela saiu, o clique da fechadura ecoando sua partida. Corri para pegar o telefone, minhas mãos tremendo. Ignorei as chamadas perdidas e mensagens de amigos. Rolei pelos meus contatos, meu polegar pairando sobre um nome que eu não ousava contatar há dois anos.
Enzo Rossi.
Só o nome trouxe tudo de volta. Minha família adotiva, os Caruso, sempre foram vagos sobre minhas origens, apenas que eu era uma órfã que eles acolheram. Mas dois anos atrás, um investigador particular me encontrou, trazendo uma carta e uma fotografia de um homem que afirmava ser meu pai biológico. Um homem chamado Enzo Rossi - o indiscutível Chefe dos Chefes da Ordem de São Paulo, um nome sussurrado por todo o país. A carta explicava que ele e sua esposa, Bianca, estavam me procurando há vinte e cinco anos.
Na época, eu estava cega pelo meu amor por Vicente. Eu tinha minha família, minha vida. Recusei educadamente a oferta deles para nos encontrarmos. Eu escolhi Vicente.
Agora, eu agarrava o telefone como uma tábua de salvação. Este telefone era minha única chave. Uma linha direta para o único poder na terra maior que o de Vicente.
Meu dedo tremeu enquanto pairava sobre o nome.
Enzo Rossi.
Pressionei o botão de chamada.